02/07/2015

TEMPO PERDIDO/ CAPÍTULO II

Aquele silêncio parecia a morte. Depois que meu irmão pediu aquilo, nós não tivemos reação nenhuma. Mas eu sabia que meu pai deveria falar alguma coisa ao Bento. Talvez ele não tivesse dito porque ele estava doente. Só que me veio à cabeça que, se meu irmão tivesse tocado naquele assunto em qualquer circunstância, a reação dos dois seria a mesma. O que mais estranhei é que sempre achei Celine alheia a tudo o que houve antes de sua chegada à nossa casa. Agora, ela parecia saber tanto quanto meu pai.
Sem conseguirmos dizer nada depois daquele pedido inesperado, saímos. Bento ficou sozinho no quarto, e eu acompanhei Celine e o meu pai até a saída do hospital, onde ele desabou em lágrimas. Só sabia se perguntar por que aquilo acontecia como Bento, e não com ele. Mesmo diante daquela dor, que também me consumia um pouco, a ansiedade de perguntar o que havia acontecido era enorme. Por sorte, Celine, sem perceber o meu nervosismo, chegou bem perto de mim e pediu:
-Fica com Bento. Eu tenho que levar Jayme pra casa.
-Tá certo.
-Eu não demoro. Vem, meu amor. Vem- o meu pai era amparado pelos braços da esposa, sendo levado até o carro.
Enquanto a Celine tentava fazer meu pai descansar em casa, eu tinha que ir ao quarto do Bento. Sentia como se fosse uma inútil: o que eu iria falar pra ele? Nem eu conseguia acreditar no que o médico tinha nos dito. Fiquei receosa em ter que voltar àquele espaço. Completamente desprotegida... Era a segunda vez que eu me sentia dessa forma. Por mais difícil que fosse, eu tinha que me colocar no lugar do meu irmão. E lembrei que, tirando a parte física, a dor era a mesma. Entrei lá, e não o encontrei chorando. Só vi um adolescente de catorze anos fazendo força pra manter os olhos fechados; afinal, havia o medo de abrir e se deparar com pessoas que o olhavam com dúvida, com o mesmo desespero dele. Antes que isso ele fizesse, toquei a sua mão. Mesmo não sabendo de quem se tratava, Bento me segurou e chorou. Eu só o abracei, como se estivesse mais frágil que ele. A solidão foi embora. Sabia que nunca estaria sozinha. E minha missão era não deixá-lo sozinho. Nunca.
Esperei até dar meio-dia. Desci até a cantina do hospital e me lembro de ter pedido alguma coisa, não lembro o quê. Não demorei nada, não queria deixar Bento sozinho. Peguei o elevador e, assim que ele abriu a porta, dei de cara com Celine e o meu pai, prestes a entrar no quarto.
-Como está seu irmão?- ele me perguntou.
-Acho que ele se acalmou mais. O médico passou no quarto, ele já tava dormindo.
-Ele voltou pra dizer alguma coisa, Ariela?
-Nada, Celine. A enfermeira até achou melhor dar um remédio pra ele se acalmar, tava agitado demais.
-Eu vou procurar o doutor.
-Eu vou com você, meu amor.
-Antes disso- interrompi- vocês têm que conversar comigo.
-Sobre o quê, minha filha?
-Sobre esse pedido do Bento, de conhecer a nossa mãe.
-Um absurdo!- ele logo falou.
-Só que eu quero entender por que vocês dois ficaram quietos na hora.
-O que você queria que a gente dissesse, Ariela?
-Que sabem mais do que a gente imagina.
-Sabemos?
-Sem teatro, Celine. Alguma coisa meu pai deve ter te falado.
-O que sabemos da sua mãe é o mesmo que você e seu irmão sabem: que ela foi embora, abandonou o lar...
-Não é só isso.
-Pelo amor de Deus, Ariela, aonde você quer chegar com essa conversa?
-Eu vi vocês dois se olhando quando o Bento pediu pra o senhor procurar minha mãe. Alguma coisa você sabe sobre ela. Sabe onde ela está, por que fugiu da gente. Se não ficou sabendo no dia em que ela foi embora, soube depois. E tenho certeza de que o senhor contou tudo pra Celine.
-Bom, Jayme, eu acho melhor nós dois abrirmos o jogo.
-Celine, por favor. Pare de alimentar os delírios de Ariela.
-Sua filha tem esse direito.
-De que direito tão falando?
-Nenhum, Ariela. Eu não quero que você volte a tocar nesse assunto, e muito menos na frente de seu irmão.
-Quer dizer que aí tem coisa? Pois muito bem: se nenhum dos dois me contar, eu vou fuçar e acabo descobrindo sozinha. O senhor me conhece, sabe que eu sou teimosa!
-Você está proibida de mexer nessa história.
-A minha história, que fique bem claro.
-Filha, esse momento não é adequado pra tratarmos desse assunto. Bento tá doente, e não sabemos ao certo em que condições ele se encontra.
-Se Bento tivesse vendendo saúde, ainda assim o senhor ia esconder. É melhor o senhor me falar, me contar tudo de uma vez.
-Eu não vou admitir que você nos coloque contra a parede. E muito menos ponha seu irmão contra mim.
-Jayme, para de tratar Ariela como se fosse um bebê de colo. Uma hora, ela vai ter que saber. E é melhor que seja pela sua boca.
-Não se intromete nisso, Celine. Esse assunto é entre mim e a minha filha.
-Alto lá! É entre o meu marido, a minha enteada e eu. Porque mesmo que os seus filhos me rejeitem, eu sou parte dessa família, e a respeito. Chega de tratar esses meninos como crianças. Eles têm que crescer, e só vão conseguir fazer isso com a sua permissão. Você tá coberta de razão, Ariela. Ele sabe de alguma coisa sobre sua mãe e eu também. Aliás, sabemos de tudo sobre ela.
-Você vai parar com isso ou eu vou ter que parar por vocês duas?
-Chega, Pai. Me deixa saber da verdade... Fala, Celine.
-Ariela, você sabe que seu pai e eu resolvemos trabalhar juntos e... A nossa vida mudou pra melhor... Pelo menos no sentido econômico da palavra.
-Pula essa parte da história que eu já sei.
-Essa é a história, Ariela- meu pai tomou a palavra novamente- Eu imaginei que vocês me cobrariam uma explicação pelo sumiço da Vilma, e eu tinha que falar alguma coisa. Mas a única coisa que ela me deixou foi aquele bilhete, dizendo que não aguentava a pobreza e... A felicidade de ter uma família pra chamar de sua. Ela detestava isso... Quer dizer, passou a detestar com o passar do tempo.
-Disse isso no bilhete que o senhor leu quando ela fugiu de casa?
-Isso mesmo, filha. Quando Celine e eu começamos a  ter condições de pagar as contas, fazer um pé de meia, descansar um pouco, resolvemos contratar um detetive particular.
-Mas deve ter sido difícil de saber alguma coisa, já que ela sumiu no mundo.
-Não tão difícil assim, querida. Vilma se separou de Jayme, mas não oficialmente. Pela lei, ela ainda é a mulher do seu pai.
-Quer dizer que o detetive descobriu onde ela tá?
-Em Pernambuco, minha filha. Sua mãe se mudou pra lá.
-Sozinha?
-Foi. Mas pra formar uma nova família.
-Nova família? Que família é essa?
-Ela é a mulher de um empresário da noite chamado Norberto Nunes, dono de uma boate. Vez ou outra, ele aparece no jornal. Parece que se envolveu num esquema de prostituição.
-Eles têm filhos?
-Não. Ele tem um filho de outro relacionamento, o rapaz já deve ter uns vinte e dois anos.
-Vocês têm certeza disso?
-Foi o que dizia o dossiê que o detetive nos entregou, Ariela.
-Quando foi que vocês descobriram onde ela tava?
-Há uns dois ou três anos, minha filha.
-Bom, se vocês sabem onde minha mãe se meteu, é muito simples de resolver a situação: o senhor tem que ir até Pernambuco e buscar...
-Buscar quem? A sua mãe? E pra quê eu vou fazer isso?
-O meu irmão quer realizar o último desejo dele.
-Não vai ser o último desejo do seu irmão. Bento não vai morrer! Tire isso da cabeça! Esqueça também que pode existir alguma aproximação entre mim e sua mãe.
-Isso você não pode garantir. E não pode me impedir também de conhecer a minha mãe.
-O que é isso? Um complô contra mim? Será possível que você não entende que sua mãe não foi obrigada a se afastar de vocês? Ela foi embora porque quis ir!
-Mas vai ter que voltar. Porque meu irmão merece consideração. Será que o senhor não pode fazer isso por ele? Por ele, Painho?
-Me rebaixar pra aquela mulher? Pedir pra voltar?
-Meu amor, não tem nada a ver com o casal que vocês foram no passado. É a vida de Bento que está em jogo.
-Só mesmo ela distante que eu pude entender o tipo de mulher com quem me casei. Não é seu irmão que precisa de um coração novo, é ela.
-Ela não é vidente, Pai! Não sabe o que tá acontecendo com ele. Você tem que ir atrás dela e contar tudo sobre Bento, que ele quer conhecer a mãe.
-Nunca vou fazer isso, Ariela.
-Se é assim, eu vou!
-Como? Sozinha?
-Não. Celine vai comigo.
-Eu?
-Se isso te deixa mais tranquilo...
-Filha, isso não tem cabimento nenhum.
-Por que não? Eu tô de férias, posso muito bem ir e voltar com Celine.
-Você não vai pra canto nenhum!
-Então, quem vai é o senhor. Vai querer encarar a minha mãe? A mulher que abandonou o senhor por outro homem, mesmo que seja por causa do meu irmão?
-Eu... Eu não posso.
-Pois pronto. Vou pra casa fazer as malas.
-Ariela, tira essa ideia da cabeça. Você não sabe como sua mãe vai te receber.
-Mais um motivo pra procurar essa mulher. Quero ver o que ela vai dar como desculpa por ter saído de casa, da vida da gente.
-Jayme, querendo ou não, é um direito que Ariela tem.
-Sabe que eu não posso ir com você... Nem poderia, acho que isso é uma loucura.
-O senhor tem que cuidar de Bento, não pode deixar ele sozinho. Deixa Celine ir comigo, a demora é só de fazer a mala e de comprar a passagem.
-Já tô vendo que nada do que eu diga vai tirar sua ideia da cabeça, não é?
-É a filha que o senhor tem. Independente do que ela vai me dizer ou fazer, eu não vou deixar de ajudar meu irmão. Se é a vontade dele, alguém tem que se mexer pra fazer.
-Sou eu, Ariela, seu pai, que tá te pedindo. Não vá procurar essa mulher.
-Eu não tô procurando tua ex-mulher, não tô procurando a minha mãe. Eu só preciso encontrar a mãe de Bento. É isso que o senhor precisa entender... – fiz uma pausa longa e suspirei- Vou fazer as malas.
Não me despedi do meu irmão. Preferi arrumar tudo e embarcar o quanto antes. Foi um dia inteiro de silêncio. Celine estava interessada em me ajudar, prontificou-se a me levar. Jantei com ela e meu pai ficou com Bento no hospital. Mas na segunda-feira ele voltou pra casa e nos levou até o aeroporto. O olhar que ele fazia era de reprovação, como se pudesse me convencer na última hora. Tive que ser irredutível. E hoje, apesar de tudo o que aconteceu, sei que agiria da mesma forma. Beijou minha cabeça, e senti que ele desejava que eu ficasse com Deus, embora previsse que eu me decepcionaria.
Celine e eu embarcamos às onze da manhã. Não demorou muito pra chegarmos ao Aeroporto Internacional do Recife. Ela ainda ligou para avisar que estávamos a caminho do hotel, e perguntou como Bento estava. Mas eu continuava calada, e marcada pelo cansaço daquele dia anterior, que me fez não dormir. Minha obstinação era o que realmente me importava. Claro que dar o que eu considerava a última alegria pro meu irmão era minha motivação, mas pensei que a vida fazia aquilo comigo pra que eu tivesse a chance de ter as respostas que tanto precisava. Eram catorze anos me recusando a crer que Vilma havia nos abandonado e que, caso estivesse conosco naquela época, estaria há dezessete anos infeliz.
Pegar um táxi que nos levasse ao hotel e me fizesse tomar um banho e me jogar numa cama ainda não era suficiente pra que eu me mantivesse animada. A impressão que se tinha era a de que eu estava esperando por algo impactante, forte. Alguma coisa que me fizesse reagir diante da doença de Bento e da indiferença daquela mulher. Nem precisei procurá-la para ser vítima de um novo choque.
Aconteceu no sinal fechado que, aliás, estava demorando demais. Por um momento, quase cochilei no táxi. Até que Celine gritasse ao meu lado, assustada pela pancada que o carro sofreu. Ao seguir com o carro, o motorista atropelou um cara que vinha em alta velocidade sobre uma moto. Não tive outra reação senão descer do táxi e correr para vê-lo.
-Tá tudo bem?- perguntei enquanto o rosto dele estava virado para o chão, e com a moto sobre uma de suas pernas. Quando eu o toquei, se virou pra mim. Por um momento, ele se esqueceu da dor e, ainda que disfarçadamente, sorriu pra mim. E eu esqueci da minha.

01/07/2015

TEMPO PERDIDO/ CAPÍTULO I

Era dezembro de 1997. Nós havíamos vivido aquela efervescência do Natal, onde tudo parecia estar às mil maravilhas. A mesa farta, os presentes, a expectativa que toda criança tem sobre o que vai ganhar... Minha mãe, de tanto que eu enchi o saco, trouxe o que tanto pedia: um CD de uma novela infantil, que tinha um monte de música tocando na rádio direto. Botei aquilo pra ouvir o dia todo, devo ter torturado os vizinhos de tanto que repetia as músicas no volume mais alto. Insistia, quando o disco acabava, pra que ela colocasse aquilo de novo. Foi o vinte e cinco do último mês inteiro. O dia seguinte também, eu não queria parar...
Tinha três anos, era o primeiro ano que eu me habituava à escola. Meu pai que me levava. Fui gostando de ir, mas não tinha nem comparação quando chegaram as férias. Minha mãe reclamava de tanto que eu pedia pra pôr aquele disco- tinha que amamentar o meu irmão, de seis meses. Tinha hora que ela colocava no som pra tocar, mas bem baixo pra não acordar. Mexia no volume e aumentava. Ficava louca, tomada de raiva. Já era a noite de sexta quando eu tentei ligar o som. Já era a quarta vez, eu acho, que queria escutar naquele dia. Puxou a tomada do som, com força. Desta vez, não reclamou, simplesmente me olhou com raiva. Não falamos nada, já tinha entendido o recado.
Não sabia que aquela seria a última vez que a veria. Ou a que, por muito tempo, pensei ter sido a última vez. Ninguém tinha que acordar cedo, era sábado, e eu acabei sendo a primeira, lá pelas nove da manhã... Liguei a televisão da sala, botei no volume dezessete. Ignorei que todos estavam dormindo... Bem, quase todos... Fui a primeira a notar que Vilma tinha sumido- e como não perceber, se esperava que ela fosse gritar assim que ouvisse o som alto? Passou uma meia hora, até que eu entrei no quarto do meu pai. Saiu sem deixar rastro, deixando-o dormir bem tranquilo. Sacudi perguntando pela minha mãe. Inocente, acreditava que ela tinha saído, ido à feira pra comprar alguma coisa. Tentou ao máximo não me preocupar. Só que assim que ele levantou da cama, caiu um bilhete do seu lado. Apanhou, leu e a única coisa que conseguiu me dizer, antes de se trancar no quarto, foi:
-Vai tomar café.
Demorou muito pra chegar à cozinha, com a mesa que minha mãe já tinha deixado pronta. De lá, eu escutava o choro dele. Fiquei dias sem me alimentar direito. Bento, que só se acalmava com ela, chorava mais do que o normal... Cada vez que ele gritava, parecia a confirmação da coragem que a Vilma teve pra nos deixar. Aquele dia foi a primeira vez, em anos, que vi a mesa posta sem ninguém além de mim. A única frase que ecoava na minha cabeca era a do meu pai mandando que eu tomasse café. Nunca mais cheguei perto de uma xícara que fosse.
Por mais que a gente fosse crescendo e insistindo pra saber o que houve naquele sábado, meu pai pouco dava explicações. Talvez a primeira tentativa, quatro anos depois, tenha sido quando ele apresentou a namorada nova, Celine. Sabia que, em alguma hora, ele ia ter que tocar no assunto. Ficou limitado a dizer que eles se separaram, ela disse que ia embora de casa pra fazer uma viagem, sem dizer quando voltava.
O tempo se encarregou de fazer com que Bento e eu, aos poucos, não tocássemos nisso. Ajudou pra isso o fato de Celine tentar ser agradável o tempo todo. Começamos a comemorar aniversários e datas importantes cientes da falta que ela fazia, sem comentar. O meu pai até poderia não ter mais amor, mas guardou uma mágoa imensa. Como é dona de uma rede de restaurantes, Celine sempre fazia questão de deixar a mesa farta na ceia de natal. Comemorávamos pra não deixar nosso pai desapontado, mas sabíamos que não tinha mais o mesmo sentido... Dia das mães, então... Parecia Finados. Celine andava pelos cantos, ate pensei que era por nunca ter tido filhos. Também por isso, mas era porque os filhos do marido não a viam como referência feminina dentro de casa.
Celine já imaginava que 2011 traria um natal igual aos outros, com uma mesa cheia e nossas mentes esvaziadas, sem ânimo, procurando vida sem encontrar. Mesmo assim, não esmoreceu. Preparou tudo com o mesmo apego de sempre. Chamou alguns vizinhos, mandou trazer alguns parentes que moravam no interior... Fez o impossível pra não deixar a ceia com a cara das outras. Independente de sua vontade, se teve uma coisa que o 24 de dezembro de 2011 soube ser foi ser diferente...
Minha madrasta propôs um brinde.
-Ao meu marido, que me deu de presente essa família maravilhosa... A Deus, que não deixou nada faltar nesse ano. A todos que estão aqui, cheios de planos, vendo suas conquistas acontecerem. Que esse natal e, especialmente, o ano que vai começar, nos brindem com muita saúde... Saúde e felicidade. A nós!
-A nós- responde o meu pai, junto a todos os convidados de Celine, admirado como ela se esforçava pra agradar uma família que não queria ser sua.
Não demorou nada pra que aquele natal fosse também impactante: Bento foi ficando pálido e acabou desmaiando durante o tilintar dos copos... Só foi acordar no hospital, quando estávamos esperando a bateria de exames terminar. O médico veio até a gente.
-Com licença... Quem é responsável pelo Bento?
-Eu sou pai dele, Doutor. Bento acordou?
-Acordou agora há pouco, quando já estava sendo examinado pelo cardiologista.
-Mas por que tiveram que chamar um cardiologista?- Celine se mostrou preocupada.
-O doutor Ronaldo foi quem conseguiu esclarecer o que o menino tinha. Bem, é que a gente tinha algumas suspeitas, mas ele me confirmou.
-Pelo amor de Deus, Doutor. Diga o que meu filho teve.
-Bom, Seu Jayme, não foi um simples mal estar que trouxe seu filho até aqui.
-Eu sabia. É anemia, não é? Bem que eu falei pra Bento: "se alimenta direito, menino. Almoça antes de sair pra fazer a prova direito"... E ele teimando que não sentia fome.
-A falta de apetite é apenas um dos sintomas, Seu Jayme. Tem percebido o seu filho pálido ultimamente?
-Claro. Por causa disso que eu lhe falei, a anemia.
-Não se trata de anemia.
-Leucemia?- perguntou, depois de um tempo receoso sobre o que poderia ter tido o meu irmão.
-Não, senhor. O que Bento tem é uma cardiomiopatia hipertrófica.
-Como assim, Doutor? Quer ser mais claro? O que meu enteado tem, afinal de contas?
-Detectamos uma disfunção no ventrículo esquerdo do coração. Isso o tem levado à falta de apetite, e pode evoluir para uma parada respiratória... Na pior das hipóteses, à morte súbita.
-Não pode ser... Doutor, não tem nada que a gente possa fazer?
-Em casos como o do seu filho, Seu Jayme, a única solução viável é um transplante.
-Só que isso pode demorar anos! Bento não vai aguentar! Ninguém sabe quanto tempo vamos ter que esperar por um coração!
-De fato, não existem órgãos pra transplante aqui no hospital... Mas não vamos perder a esperança.
-Quanto tempo ele tem de vida ainda?
-Pai, não fala isso!- interrompi.
-Isso ninguém pode dizer com precisão. Nós já conversamos com Bento, ele estava inquieto para saber a verdade.
-E como ele reagiu?
-Da pior maneira possível, Dona Celine. Agora está mais calmo, só que exige falar com o pai o quanto antes.
-Doutor, eu... - enxugou as lágrimas- Posso entrar no quarto com minha filha e minha mulher?
-Pode, sim. Mas não demorem. O hospital normalmente não permite mais de uma pessoa no quarto.
-Com licença, então.
-Jayme, não se esqueça de falar com o Dr. Ronaldo Andrade. Ele é o cardiologista do seu filho.
-"Cardiologista do meu filho"... Obrigado, Doutor.
Quando entramos, Celine e eu ficamos na porta, observando o meu pai conversar com o Bento. Eu não tinha coragem de encará-lo, nem saberia ao certo o que poderia dizer pra consolar o meu irmão. Qualquer coisa que eu falasse seria o mesmo que nada.
-Como é que você tá, meu filho?
-O médico me falou que... Pai, me diz que isso é mentira- dizia Bento, segurando a mão do nosso pai, chorando muito.
-Você sabe que eu não posso mentir pra vocês, meus filhos. É verdade, sim, Bento- deixou uma lágrima cair- Mas olha... Hoje em dia tem tratamento pra isso. Aliás, sempre teve, meu querido. A gente vai falar com o médico, o cardiologista, e ele vai marcar o seu transplante.
-O pai do Marquinhos morreu assim- disse Bento, se referindo a um colega de escola.
-Tem nada que lembrar de pai de Marquinhos agora- Celine tentou acalmar a situação- A gente vai fazer uma campanha pra divulgar sua situação, Bento. Não pode se deixar abater, pensar que não tem mais jeito. O que é isso? Você sempre foi um menino forte, saudável... Não vai perder pra doença nenhuma.
-Dá pra parar com isso? Os dois? Eu sei que eu preciso de um transplante. O médico já falou isso. E todo mundo sabe que é muito difícil conseguir um coração, tem gente que morre na fila esperando. Eu já sei que eu vou morrer.
-Não repete isso, meu filho.
-Pai, deixa de me enrolar. Eu sei muito bem o que eu tenho.
-Se eu pudesse, eu trocava de lugar com você. Você sabe disso.
-Mas não pode. Ninguém pode. Só que tem uma coisa que o senhor pode fazer por mim, antes que eu morra...
-Bento, para de falar desse jeito!- ele começava a me deixar nervosa.
-É como eu tô, Ariela! Morrendo! Só que eu não sei quando isso vai rolar, mas é certo. Já que esse coração novo nunca vai chegar, eu tenho que pedir uma coisa.
-Não vai ser seu último desejo, filho.
-Mas vai ser a única coisa que eu vou pedir de hoje em diante. É do que eu preciso, e eu sei que só o senhor pode me ajudar.
-Diz o que você quer, Bento. Seu pai pode buscar pra você- Celine confirmava a aflição que todos tínhamos naquele instante.
-Eu quero que o senhor traga a minha mãe aqui.
-O que foi que você me pediu?
-Eu quero conhecer a minha mãe antes de morrer. Nem que o senhor tenha que procurar no fim do mundo, mas o senhor tem que achar.
O meu pai e Celine se olharam de um jeito estranho, que Bento não percebeu. Foi aí que eu entendi que existiu alguma coisa além da ideia do abandono de lar que eu tinha até aquela madrugada do Natal...

29/06/2015

ACERTANDO ("OCEANO", DO DJAVAN)

Assim
Que nota decresceu,
Foi procurada revisão?
Dava pra ver nota bem ruim
Cabe a você fazer lição
E vencer boletim

Enfim,

Se estudar a matéria,
Não irá reprovar!
Nenhum verá crescer
Nota sem estudar
Vai exigir teu professor
Enem: passe hoje, sim!

Para não teres zero, os professores
Aprofundam matéria. E reitores
No vestibular,
Vão dar listão. Vou...
Fazer você ler quiz,

Vestibulando
Aprovação tem se
For acertando
Que tentes passar,
Mas se não estudou...
Só sei
Rever
Se for
Por saber

03/06/2015

PROCURAS AUTOR ("BORBULHAS DE AMOR", DO FAGNER)

Tento na lição
Dividir, usando metrificação
Tento na lição
Ver que dominou poeta

Leio a lição

Aprovação pode conceder pra nós
Foco na lição
Pra dez em Literatura!

Se é fera, nunca deixe

A rima rica, nome raro, de usar
Já não procuras autor pra revisar
Não mais lerá Olavo?
Tente inferir
Não deixe

De revisar, estudar- forma cultua
Por que o teu professor não mais procura
Pra lembrar a norma culta?

Tente inferir... 

Manda na lição

O Parnaso estudar, sem aflição
Soma a lição
À vocabular cultura

Que é sobre

Arte, mitos,
Real, sim!
Rebuscada
Língua vejo
Aprender
Vai, discente,
Tente inferir!

Não deixe
A rima rica, nome raro, de usar
Já não procuras autor pra revisar
Não mais lerá Olavo?
Tente inferir
Não deixe

De revisar, estudar- forma cultua
Por que o teu professor não mais procura
Pra lembrar a norma culta?
Tente inferir...
Vai, discente,
Tente inferir!

26/05/2015

VAI DITAR ("STEREO LOVE", DO EDWARD MAYA E DA VIKA JIGULINA)



Como podes passar em vestibular
Se não podes nem revisar?
Vem a prova e terá que passar
Professor, professor vai ditar:

Taveirós foi autor
Taveirós se tornou
Taveirós foi um trovador
“Ribeirinha” foi, sim
“Ribeirinha”, assim
Foi a obra do estopim
Para elogiar
Ou criticar:
Na cantiga se pode
Será que decorou?
Para elogiar
Ou criticar,
A cantiga se escreve
Quem faz é trovador

Eu posso classificar
Que dois tipos há
Eu posso classificar
Podes diferenciar

A cantiga se dá
“Amor” e “amigo” têm lirismo para tu
Satírica vai sempre criticar
“Escárnio” e “maldizer” podes encontrar tu
Oh, tente achar eu-lírico já
Cantiga de amor tem. Masculino vês tu?
Podes enxergar? Identificar
Se lá na “maldizer”, palavrão vão usar?

04/05/2015

REGÊNCIA ("PROBLEM", DA ARIANA GRANDE E DA IGGY AZALEA)

Responde quiz...
Mostra que tudo aprendeu...

(Nota! A nota! Aprovação!)

Não sabe nada de regência?
Então, aprenda!
Que compreendas tu 
Utilizou adjetivo?
Tens tu regido
Ou nada sabes tu?
Preposição vai ter
Se não for V. T. D.
Terás que ver como conjuga,
Pois a matéria
Não compreendes tu

Preposição
Pode ter
Após verbo
Explicação
Não vai ver
Após zero

Ser classificado!

Eu quero ser classificado!
Eu quero ser classificado!
Eu quero nota! A nota! Aprovação!

Não verificas nunca termo,
Mas eu percebo
Que não entendes tu
O termo pode ser regente:
Tem verbo em mente
Ou não entendes tu?
Preposição eu botei
Por não ser V. T. D.!
Substantivo ou advérbio
Também eu peço,
Mas não entendes tu

Responde quiz...
Por favor...
Da revisão do professor, eu nunca me desfaço
Oração coordenada é muito fácil
Sindética, então, tem a conjunção ligado
As orações. Eu sei que tenho cinco decorado
Aditiva tem "e";
Logo depois, tem "nem"
Vem "mas" para opor,
Adversidade tem
Seja "seja" ou "ou",
Terá que escolher
Tem também o "quer"
Alternativa vai ver!
E para concluir,
"Logo" ou "pois" tu irás ter
Se não te explicou,
Adiantarei "porque"
Se não souber por que pus
A "conjunção",
Peço que estudes tu
Faça logo revisão
Nota! A nota! Aprovação!