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11/06/2021

TUDO O QUE VOCÊ QUERIA SABER SOBRE... "INGRESSO CRIMINAL"

 

- Primeira trama a ser apresentada no blog, em formato de web novela, com dez capítulos;

- Após a repercussão de “Werneck cake” (a primeira web novela escrita por Thiago Barros, porém veiculada no blog de Vinicius Assis), o autor decidiu escrever uma nova história, mas com capítulos postados em sua página pessoal. Com isso, articulou a ficção da mesma forma: inspirou-se, para a comédia, em pessoas reais sugeridas por amigos ou neles mesmos;

- Robson Rodrigues foi creditado, no teaser de divulgação, como supervisor de texto, uma vez que o protagonismo de “Ingresso criminal” foi exercido pelo próprio. Débora, a mocinha da obra, foi inspirada numa amiga homônima que o autor e o supervisor tinham em comum. Mell e Bruno têm como base amigos de Robson, e Seu Mané surgiu de um senhor que morava na mesma localidade que o protagonista, Itapissuma (mencionada na novela);

- O diferencial de “Ingresso” para as outras tramas cômicas do blog (que se tornariam a maioria das obras) é o toque policial acerca do mistério sobre a internação de Bruno, o irmão de caráter duvidoso do protagonista;

- Percebe-se, porém, que há resquícios de “Werneck cake” na obra, em decorrência das referências a telenovelas. Frazão, o pai da vilã Mell, foi assim batizado por causa do personagem de Sidney Magal em “Da cor do pecado”, reprisada pela TV Globo à época da produção dos capítulos. Já Robson, confrontado no último capítulo, menciona “Laurinha”, grito dado pela protagonista vivida por Regina Duarte no capítulo 171 de “Rainha da sucata”;

- Para a divulgação da web novela, o teaser foi embalado pela canção “Aquela dos 30”, uma vez que a intérprete é a cantora Sandy Leah, graduada em Letras – o mesmo curso de Robson e Débora;

- De cara, a trama teve uma boa audiência e repercussão. Esperava-se uma média de dez leitores por capítulo, mas “Ingresso” obteve 16,5 de média. Dessa maneira, atribuiu-se o número de dez leituras por capítulo com meta de audiência;

- Robson e Débora reapareceram no capítulo final de “Mentiras escancaradas” (2016), junto com personagens oriundos de outras web novelas humorísticas.

 

AUDIÊNCIA DETALHADA*

Do capítulo 1 ao capítulo 5

35

20

14

19

13

20,2

Do capítulo 6 ao capítulo 10

15

12

11

15

11

12,8

Média final

16,5

 

* Pelo fato de que alguns capítulos foram publicados no mesmo dia, a média não foi dividida considerando os dias da semana, e sim em blocos de cinco capítulos.

11/01/2013

INGRESSO CRIMINAL: CAPÍTULO 10: AQUELE DOS 30 (ANOS DE RECLUSÃO)

-Robson, apanha o celular, pode ser importante- ele segue os conselhos de Frazão e recolhe o aparelho.
-Fala. Fala, Bráulio. Como foi que... isso aconteceu?
-Lembra que eu falei que quando eu o atendi, ele tinha um ferimento? Pois então, ele teve outro no tornozelo.
-Mas será que você não viu na hora?
-Isso não estava quando ele deu entrada. Alguém atirou nele depois, quando ele não estava mais sendo atendido. E isso só pode ter sido quando ele subiu no telhado.
-Como?
-Havia um rastro de sangue perto de onde ele caiu.
-Deve ter sido...
-Não. Não foi aquele de raspão que fez ele dar entrada no hospital. Foi alguém que atirou nele. Isso provavelmente fez ele despencar. Se não foi pelo disparo, foi pelo susto.
-Eu vou desligar agora. Mais tarde, eu... Passo no hospital...
-Fala, Robson. O que houve? O Bruno piorou ou a Mell passou mal?
-O médico disse... Que ele teve uma piora, que eles tão fazendo de tudo... E que...
-Posso saber o motivo das reticências?
-É que eu tô nervoso, só isso! Não posso?
-Você não quer voltar pra lá?
-Não, é melhor tirar a Débora de casa. Leva ela pro hospital. Não tem perigo mesmo. E depois, pode ser que não tenha assassino nenhum em casa.
-E não tem.
-Diga isso pra ela.
Minutos depois, a viatura chega à casa de Robson.
-Olha, não liga a sirene, não. Se não, pode assustar se alguém tiver lá.
-Tudo bem, mas acho que não há assassino nenhum.
Os dois descem do carro.
-Eu tive uma ideia, Robson.
-O quê, Frazão?
-Vamos descer e dar uma olhada juntos ao redor da casa. Se tiver algum veículo que condiga com a descrição da Débora...
-Ótima ideia. Bora.

*****

Mell está olhando Bruno no hospital. Anda de um lado pro outro, nervosa demais.
-Se a Débora viu o assassino, então ele tá solto. Eu não aguento mais esperar, eu vou sair.
-Eu vim dar uma olhada, como ele tá?
-Na mesma, doutor. E tem outra coisa: eu não posso ficar com ele, eu vou precisar sair.
-Mas, Mell...
-Eu sei que ele não tem acompanhante, mas eu preciso me encontrar com meu pai.
-Tudo bem, eu cuido dele.

*****

-Pronto. Não tem Camaro amarelo nenhum.
-Agora só tenho uma saída: entrar em casa.
-Tudo bem. Mas se tem mesmo um carro perseguindo a Débora, ela pode não estar mais aí.
-Mesmo assim, Frazão, a gente arrisca- abre a porta de casa- Débora!- grita- Débora, cadê você? O Frazão tá aqui, aparece.
-Robson, eu entendi no hospital que não foi ela que ligou. Será trote, não?
-Não. Eu tenho certeza que não.
-você tem como provar?
-O doutor ligou pra mim e não foi pra falar sobre Bruno. Ele descobriu que a queda do bandido não foi suicídio, foi assassinato.
-Impossível. Eu acompanhei a perícia. Ninguém tentou matar o bandido.
-Tentou, Frazão. Ele viu mancha de sangue no telhado e um projétil. Alguém tentou matar o cara que tentou matar Bruno. E é o mesmo que tá atrás da Débora.
-De quem você desconfia?
-De quem você desconfia, Frazão?
-Não entendi essa agora.
-Você é policial. Deve ter alguma ideia.
-Eu preciso contar uma coisa.
-O quê?
-O bandido caiu com a arma dele, e eu recolhi outra no telhado.
-Ela tá com você?
-Sim. Eu trouxe comigo- ele a tira do bolso e a estende sobre suas mãos.
-Frazão... Você acabou de perder uma prova!
-Como? Eu tô com a arma do assassino do bandido.
-Não. Você tá sem luva. São as suas impressões que vão ficar nela.
-Verdade. Mas deixa eu segurar melhor...
Frazão segura o gatilho e ameaça Robson.
-Por quê, Frazão?
-Não foi minha intenção ter que estender esse sofrimento pra você, pra sua namorada e pra minha filha. Tudo fugiu de controle. Não é nada que eu não posso arrumar.
-Mesmo que a Mell seja uma mentirosa...
-Cala essa boca se não quiser...
-Cala a boca você. Você sempre vai dar crédito pra ela. E sabe qual é o meu trunfo? Sabe por que você não vai acabar com mais ninguém, pelo menos comigo? Porque ela disse que eu sou o pai do filho dela.
Frazão se aproxima mais de Robson e o faz recuar encostando numa estante.
-Essa é a minha maior motivação.
-Traste!
Como uma ninja, Robson atira o controle remoto contra a arma e soca o delegado, que cai no sofá.
-Débora, Débora!- grita, correndo nas escadas.

*****
A 120 por hora, uma ambulância do Samu leva Mell à casa de Bruno e Robson.
-A gente não vai chegar a tempo. Vai demorar muito. O bandido deve ter fugido. E o senhor, sabe dirigir mesmo?
-Minha linda, eu aprendi quando fui motorista de condução, em 2005- sorri seu Mané, após roubar o veículo do hospital.

*****

Robson entra no quarto e empurra a mesa do computador para impedir a passagem de Frazão, sem sucesso. O vilão atira três vezes na maçaneta e tira o objeto do caminho.
-Tirou sangue de mim? Pra quem não queria DNA, hein? Passei horas procurando o protético e você arranca um dente da minha chapa.
-Para com isso, você tá fora de si!
-Mais do que você imagina! Muito mais! Eu não vou te matar. Não sem contar com detalhes o que aconteceu de verdade.
-Fala, miserável.
-Trabalhava numa outra delegacia e fui transferido pra esse pardieiro na mesma noite em que decidi dar fim à vida do Bruno. Que impressionante. Eu fiz isso em legítima defesa da Mell.
-Do que você tá falando, seu doente?
-A Mell fez um teste de gravidez de farmácia e deu positivo. Eu fiquei arrasado pela vergonha que eu passaria, mas decidi procurar o canalha. E ontem, eu a segui. Vi Melissa aqui, e escutei toda a conversa dela com Bruno.

*****

-O que é Mell, fala?
-Eu tô grávida, Bruno- ele bate palmas.
-Uau! Tá avançando no campo da mentira.
-O filho é seu.
-Não, o filho é seu. Você se separou de mim porque disse que eu não presto pra você. Que o Robson é a melhor pessoa pra sua vida. Ele é o pai.
-Não vim aqui pra discutir. O filho é seu e pronto.
-Eu amo muito você. Não a ponto de criar um bebê.
-Olha só, eu não tô pedindo nada. Eu só estou te avisando. Faça o que quiser.
-Bom, se é assim, deixa eu sugerir uma coisa: fala com o pai desse menino.
-O pai dele...
-Não sou eu, vagabunda! Tá tudo claro. Ele te deu um pé na bunda de novo. Agora eu sou o pai. Sei... Olha, Mell, aborta essa criança. Você tem a mesma inteligência dela, então aproveita e deixa que os médicos clandestinos façam por você.
-Tudo bem, eu vou embora. Mas antes eu quero te dizer uma coisa.
-O que é?
-Que eu não vou te chamar de covarde. Porque pra ser isso, tem que ser antes um homem. Sabe o seu irmão? Ele é um homem. E eu não falo só da moral, não, entendeu? Eu falo do que é me fazer mulher. Sabe qual é o seu problema, querido? Inveja do seu irmão, porque ele me deu uma coisa que você jamais vai dar pra ninguém: desejo. Pronto, falei! Com licença.
Bruno corre pra cozinha, louco de ódio, e abre a gaveta. Tira uma Ginsu 2000 e avança contra a porta.
-Eu te mato, infeliz. Eu acabo com você.
Mell está em frente ao mercadinho e não vê ele com a faca. Frazão os segue ainda. Ele a puxa pelo cabelo e grita.
-Vagabunda!
Ela recebe uma bofetada que a deixa caída no chão. Seu Mané vê e grita, para depois sair correndo.
-É o BBB.
Se esse filho é dele, pior pra você. Se não é, eu não vou deixar você me largar. Você pensa que eu não sei qual é o seu plano? Só porque eu não quero assumir essa criança, o Robson vai escutar da sua boca que o bebê é dele, vai largar a Débora pra ficar contigo. E mesmo que seja dele mesmo... Eu não vou deixar você ficar com ele. Nunca- e mostra a faca para Mell.
-Você não vai ter coragem.
-Nada... - e avança pra cima dela.
-Me solta, Bruno! Para com isso, você tá louco? Socorro!
-Para, para! Larga essa faca- Robson chega e tenta conter o irmão, separando-o de Mell- Some daqui, anda!- ela corre para tentar se salvar.
-O super-herói chegou. Tinha que dar um jeito de mostrar que é melhor do que eu, hein?
-Endoidou agora? Tá fazendo o quê, Bruno? Cosplay de seu Mané?
-Olha só o que a gente fez... Perdeu o juízo... Tudo por causa de uma mulher. Ela te quer. Mesmo você dizendo que prefere sua namorada. Isso me dá ódio. Ódio, sim, porque mesmo deixando ela, ela ainda te quer. Agora eu não sei como eu acabo com essa história: se eu acabo com ela... Ou com você... – avança violentamente contra Robson, que o segura.
-O que é? Vai me matar agora?
-Com muita vontade, sabia? Só assim eu tenho paz. Só assim eu paro de sempre disputar tudo o que eu quero pra mim com você. Se eu te mandar agora pro inferno, vai ser com gosto. Porque a minha maior vontade não é ficar com a Mell. É me livrar de você, mesmo que eu não fique com ela...
O bate-papo foi interrompido porque Robson perdeu a paciência e deu dois socos no irmão, empurrando-o depois para a rua. Quando Bruno cai no chão, é obrigado a escutar um desabafo.
-Eu não sou melhor do que você. Nunca vou ser. O seu problema é que você é um lixo, que faz questão de ser pior que todo mundo. Se bem que até lixo vale mais que você. Se a Mell não sente nada, eu pelo menos sinto pena- e volta pra casa para pegar os ingressos do show do Rock Mafia. Bruno, arrasado, se levanta e decide dar sequência ao seu plano de acabar com a ex-namorada.
-A culpa é dela. Dessa vagabunda. Eu vou acabar com ela. Com filho na barriga ou não.
-Você não fazer nada, seu moleque- finalmente Frazão dá as caras.
-Quem é você?
-Guilherme Frazão. Ou melhor dizendo: o pai da Mell, aquela “vagabunda” que você engravidou.
-Ah, veio defender a filha?
-Olha aqui, Bruno. Você vai assumir essa criança, porque eu não criei filha minha pra ser mãe solteira.
-Problema seu! Não me interessa a criação que você deu àquela vadia. Aliás, muito ruim por sinal.
-Respeita a Melissa, seu verme!
-Não vou respeitar ninguém. Ela não merece nem o seu respeito! Ela te contou que deu em cima de dois irmãos ao mesmo tempo? Contou que tá grávida? Pra você tá irritado desse jeito, é porque não sabia um terço da missa. Encara a verdade, rapaz.
-Quem tem que encarar alguma coisa é você, seu monte de lixo. Eu posso acabar com a sua vida. Te ferrar de vez, entendeu? Agora diz na minha cara que você não vai assumir o bebê. Eu trabalho na polícia, seu imbecil. Só que eu também conheço um monte de gente errada que pode te liquidar. E aí? Vai medir força, comigo? Quer se estrepar? Se você não procurar minha filha ainda hoje e pedir desculpa, eu mato você. Eu jogo seu corpo no matagal da Copélia e ninguém fica sabendo seu paradeiro. Quando descobrirem, eu forjo provas e digo que você tava se metendo com bandido. Acho melhor ficar vivo e assumir a besteira que fez com a Melissa. Não é, não?- Frazão tira o paletó que está usando, o que evidencia sua barriga saliente.
-Se é assim, me mata. Vamos ver que sai perdendo. Eu, sua filha ou seu neto.
-Não brinca comigo, Bruno- Frazão vai embora, para o Camaro, quando Bruno avança contra o delegado e se atraca com ele, tentando matá-lo. Frazão segura a faca e abaixa o braço do rapaz, que é brutalmente ferido.
-Você... Você vai pra cadeia... Você se denunciou...
-Eu segurei a faca com o paletó. Ninguém tem minhas impressões. Pra todos os efeitos, a Mell não pegou na faca, o teu irmão também não... Você tirou a faca de casa. Mesmo que não descubram o culpado, ninguém vai ter suspeito. Todo mundo vai mentir pra se livrar da cadeia. Todo mundo vai negar que te odeia. E aí, seu caso vai ser arquivado. Quem mandou se meter com a minha filha? E comigo?
Bruno desmaia e Frazão segue à procura de seu carro. Com isso, o autor do crime segue à procura de seu carro, quando é visto por seu Mané sem ser percebido.

*****

-Se você fez isso com o meu irmão, então quem era o bandido do hospital?
-Não disse que apesar de ser policial, conheço gente perigosa? Eu fiquei sabendo que aquele homem já era procurado pela polícia há algum tempo. E fiz uma proposta: se ele sufocasse o Bruno na enfermaria, pra que todo mundo pensasse que a morte seria em decorrência do que aconteceu no mercadinho que tava fechado, eu o ajudaria a fugir. Ele topou, e eu o vesti com uma capa preta. Só que o médico entrou na hora, e isso estragou tudo.
-Mas a morte dele foi acidental. Não é possível que tenha sido homicídio.
-Eu estou no seu quarto, te ameaçando com uma arma, e você acredita em acidentes?
-Como é possível? Eu tava atrás de você! Se alguém tivesse atirado, eu teria escutado.
-O médico do Bruno sabe brincar de detetive. Você não. Como foi encontrado um projétil sem que ninguém tivesse atirado, Pedro Bó? O que acontece é que a gente correu atrás do bandido pelas escadas e eu, apesar de ser balofo, já estou acostumado a perseguições. Por isso, passei na sua frente. E na correria eu tracei o plano que me livraria da cadeia: eu tinha que matá-lo pra que ele não abrisse a boca. Porque mesmo que ninguém descobrisse o motivo pelo qual ele queria acabar com Bruno, a Mell continuaria sendo suspeita se seu irmão tivesse sucumbido debaixo de um travesseiro sem que ninguém percebesse. Quanto ao barulho que você não ouviu, eu pus um silenciador na minha arma. Eu passei na sua frente, e como ele estava muito desesperado e perto de cair, eu atirei pra fazê-lo cair. Ele mal chegou a me ver. Depois, eu recuei uns passos na escadaria pra que você pudesse me alcançar e guardei a arma, sem o silenciador.
-E tudo isso foi porque Bruno não queria assumir o seu neto.
-Exatamente.
-Mas a Mell disse que eu era o pai do bebê.
-Só que eu me apresentei pra seu irmão. Se ele sobreviver, ele fala tudo. Quando eu fui procurá-lo, tentei acabar com ele por esse motivo. Quando falei com o bandido, foi só pra calar a boca dele.
-E a Débora?
-Quando você me contou que ela encontrou um modelo de faca na sua casa, imaginei que ela fosse investigar a fundo e descobrir alguma falha que eu pudesse ter cometido. Daí o Camaro amarelo. Sem contar que livre da Débora, você poderia ficar com a minha filha.
-Onde é que ela tá agora, Frazão? Você matou a Débora?
-Não faço a menor ideia. Mas ela não vai me deter. Antes, o Bruno era suspeito de ser o pai do bebê da Melissa. E por tudo o que ele fez, eu tomei essa decisão precipitada. Mas o pai é você. E como você continua fazendo mal pra ela, eu vou ter que te apagar. Sem contar que eu já contei tudo, né? Mais motivo óbvio, impossível!

*****

A ambulância do Samu continua a todo o vapor. Uma moça do Detran que estava de moto passa a perseguir seu Mané, que está em alta velocidade.
-Seu Mané, tem alguém atrás da gente. Uma moto- avisa Mell.
-Fecha o vidro!- tem um momento de lucidez.
-O quê?
-Fecha logo esse vidro, menina. Credo. Nunca vi uma enfermeira tão devagar. Fecha o meu também que tô no volante.
O veículo continua a todo o vapor (vapor?), e antes que o sinal da avenida feche, o Samu segue com tudo. Infelizmente, a motociclista não tem a mesma sorte.
-Não tem problema. Eu já memorizei a placa. Vamos ver que é o motorista.

*****
-Você ainda pode desistir, Frazão.
-Eu não preciso. Eu não posso. Sua vida acaba agora.
-O que você quer? Que eu grite “Laurinha”?
-Hum, boa piada. Depois você psicografa.
Débora está escondida no guarda-roupa, com a gata no colo. De repente, ela mia- ainda que baixo- para desespero da moça. Robson ouve o miado e arregala os olhos de pavor.
-Suas últimas palavras?- diz Frazão.
-Alba... - reconhece Robson.
E não mais que de repente, Débora joga a gata na cara de Frazão, que desesperado, larga a arma no chão. Ele tenta tirar o animal que o arranha violentamente.
-Cuidado!- grita Robson, ao ver o quanto o delegado está próximo da janela. Inevitável. Ele despenca de lá, com a gata e tudo.
Se você esperava um desfecho mais dramático e trágico, está equivocado. Ele cai em cima da ambulância que era conduzida por seu Mané.
Minutos depois, a polícia chega e o prende. Na saída da casa de Robson, Mell aborda o pai sobre seus crimes.
-Vocês estão errados. Eu não sou criminoso, não!
-Claro que é. Eu tenho a prova.
-Qual, Débora?
-Quando eu me escondi dentro do guarda-roupa, eu levei meu celular e gravei tudo o que você narrou, todos os detalhes. Inclusive o detalhe que envolve o carro de Munhoz & Mariano.
-Por quê, pai?
-Eu não... Eu não queria ver você cuidando de um bebê sozinha. O Bruno não queria assumir quando você mentiu pra ele. Como eu acreditei que ele era o pai, tentei acabar com ele.
-Pai... Eu não menti pro Bruno. O filho é dele mesmo.
-Calma aí, queridinha. Eu ouvi você, seu pai e Robson conversando. Eu te escutei dizendo que ele era o...
-Eu menti, Débora. Eu sabia que vocês dois estavam separados. Daí, pensei que se eu mentisse, ele ficaria comigo de vez. Sem contar que a gente não sabe se o Bruno vai acordar.
-Você não podia ter feito isso comigo, minha filha. Não podia...- Frazão é levado para o camburão, sendo observado por seu Mané.
Robson sente seu celular tocar e atende.
-Fala, doutor. Sério? Finalmente, uma notícia boa. Valeu por ter me ligado. Tchau.
-O que foi, Robson?
-O Bruno, por um desses milagres que a gente não entende, tá fora de perigo. Meu irmão tá salvo, Débora.
E os pombinhos dão um abraço, emocionadíssimos, enquanto Mell chora discretamente com a prisão do pai e seu Mané volta à ambulância, fingindo dirigir com a porta aberta.

*****

Uma semana depois, temos um epílogo.
Robson e Débora estão no teatro da UFPE esperando que comece um show.
-Ei pensei que você ia evitar de frequentar show por um tempo. A última experiência foi uma tragédia.
-Nem fale. O Rock Mafia ficou dois dias aqui no Recife. No primeiro, eu tive que ir embora. No segundo, eu tava prestando depoimento sobre o Frazão.
-Ave, nem me lembra disso.
-E pensar que tudo isso aconteceu em vinte e quatro horas.
-Nesse tempo, a gente terminou e voltou.
-Com um detalhe: a gente voltou mais apaixonado ainda.
-Ah, meu tufi-tufi... – beija-o.
E não é que eles encontram Bráulio ao lado da guarda do Detran?
-Olha só quem tá aqui.
-E aí, doutor, tudo em cima?
-Doutor, não, hein? É Bráulio, por favor.
-Tudo bem.
-Olha só, amanhã o Bruno pode voltar pra casa.
-Ah, eu não sei se ele quer voltar, não. Quando ele chegar, vai ter que aguentar a Mell, que se aboletou lá em casa. Sem contar que é um inútil, não faz muita diferença.
-Deixa eu apresentar: essa é a minha esposa, Karen.
-Prazer- cumprimenta Débora.
-É, também ganhei uma folga hoje. O pessoal tá louco no trânsito.
-Meu amor, não vamos misturar trabalho e diversão.
-Não consigo, amor...
-Oi, gente boa- chega Adonias, o motorista da ambulância do hospital.
-Ganhou folga também?
-É, seu Bráulio, tem que sair um pouco pra se distrair.
-Claro, meu filho. Você tá mais do que certo. E é show da Sandy. Quer diversão melhor? E ela é tão linda, talentosa... Sem contar que ela fez Letras, o que aumenta meu respeito. Todo mundo que cursa Letras tem, sei lá, uma aura especial. Sabe aquele rapaz que é escritor, o Thiago Barros? Aquele homem é um espetáculo! Olha, sorte a dele que eu namoro sério, porque senão... Eu pegava!
-Débora!- Robson está pasmo com a franqueza da amada. Eu também, só pra constar.
-Faz silêncio, bobo. Já vai começar.
E todos curtem o show da Sandy. Uma hora depois, acontece o momento que todos aguardam: ela canta “Aquela dos 30”, seu mais recente sucesso. Curiosamente, Karen não tira os olhos de Adonias.
-Quer dizer que você dirige a ambulância do HR?
-É, sou eu mesmo.
-Toma!- bate na mão dele e entrega uma multa, deixando Robson, Débora e Bráulio sem entender nada.
-O que é isso?
-É o que você tem que pagar por excesso de velocidade.
A fala inusitada coincide com os versos finais da canção: “Já é quase meia-noite, quase sexta-feira e me falta tanto ainda”.

Fim

10/01/2013

INGRESSO CRIMINAL: CAPÍTULO 9: FORA-DA-LEI NO GOOGLE MAPS



-Não pode ser verdade. Esse filho é do Bruno, não meu.
-Robson, ela confessou. Ela não tem mais o que perder.
-Então, como é que ela sabe se o filho é meu mesmo? Eu fui o único, por acaso?
-Toda mulher sabe, e eu sei.
Débora chora em silêncio e decide sair do corredor, tomando cuidado para não ser vista.
-Acontece que você não é uma mulher. É um atraso de vida.
-Robson, eu não vou admitir que você aja assim com ela. Eu exijo respeito.
-Eu até te entendo, Frazão. Mas a gente tem que concordar que ela não é a pessoa mais santa do planeta... É o mesmo se eu disser: “Michael Jackson não sabia dançar”.
-Age como se eu estivesse exigindo algo mais grave do que o normal.
-Como o quê?
-Como casar.
-Realmente, esse tipo de coisa eu não faço. Eu tenho que dizer na sua cara que não confio nela.
-Não era isso que vocês pensavam quando se envolveram com a Mell.
-Será que dá pra parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?
-Não!- dizem Frazão e Robson.
-Desculpa, Frazão. Mas eu não vou assumir esse menino de jeito nenhum.
-E a minha reputação, como é que fica?
-Cara, eu não tô culpando você de nada. Só que eu não tenho essa facilidade de acreditar nela como você tem. É o pai dela? Ok, dá pra captar isso. Mas eu não. Ela pode estar mentindo.
-E se não estiver?
-E se estiver? Uma garota que se envolve com dois irmãos, um deles por vingança... Ah, faça o favor, né?
-Robson, eu não vou admitir...
-O senhor não tem que admitir nada. Não quero sua permissão nem a de ninguém pra fazer o que me der vontade. Se existir algum respeito, ele vai continuar, independente de qualquer coisa que aconteça. Porque já me deu provas de que eu devo ter confiança. Mas é só isso. Acabou. Nem a Mell nem ninguém vai me obrigar a fazer o que eu não quero. Eu já tô deixando tudo muito claro pra não ter mais confusão, como essa daqui.
-Certo, já que você quer deixar tudo claro demais, por que então a gente não faz um exame de DNA pra resolver esse problema?
-Porque a minha palavra vale muito mais do que as besteiras que você faz e fala. Eu é que não vou dar um fio de cabelo, nem uma gota de sangue pra provar o que todo mundo desse hospital sabe: que você é uma vagabunda dissimulada.
-Cala essa boca! Cala a boca! É a minha filha, seu verme. É dela que você tá falando. Ela pode ter procurado o Bruno, mas foi você que a seduziu. Melissa pode não ser a criatura mais inocente da qual a gente tem notícia, mas ela não traiu ninguém. Você pode até não me dar crédito, mas eu não vou admitir que você abra a boca pra falar qualquer coisa, por menor que seja.
-Poxa, valeu a defesa, pai...
-Viu? Ela tá te iludindo! Te cegando! Mas quem enxerga melhor sou eu. Sabe o que eu vejo? Que se aquele homem não tivesse tentado matar meu irmão, ela teria se adiantado. É muito na cara que ela não ama o Bruno. Não vou ficar mais aqui perdendo o meu tempo, não- Robson chega perto da portaria, e retorna para dar seu recado, antes de sair definitivamente- Tem mais uma coisa, Mell: já que eu sou o pai do seu filho, me conta por que você ainda tá aqui. A paternidade não foi esclarecida sem exame nenhum? Então, dá o fora desse hospital. E rápido, hein?
-Ele não quer esse filho, pai. Ele ama aquela Débora.
-Robson só está nervoso, Melissa. Daqui a pouco, ele coloca a cabeça no lugar. E se ele não quiser esse filho, a gente vai criar junto- e dá um abraço emocionado na filha.

*****

Débora anda algumas quadras até chegar à sua casa. Prometemos que ela não vai mais voltar ao hospital para dar verdade à estória. Quando chega perto da casa de Bruno e Robson, ela percebe um Camaro amarelo parado no meio da rua. Quando os faróis acendem, ela sai correndo desesperada até a porta do ex-namorado. Como ela tem a chave, tenta destrancar, sem sucesso.
-Socorro!
De repente, o carro vai com toda velocidade pra cima da moça. Ela dá um grito de pavor e consegue entrar na casa. O carro sobe na calçada e fica a milímetros da porta. Ninguém desce do veículo, por enquanto.

*****

Bráulio está examinando um paciente, no mínimo, curioso: seu Mané.
-Olha só, daqui a pouco eu vou te dar alta. Mas a moça não tem seu nome no prontuário. Como é que o senhor se chama?
-Mané. Mané Maionese Margarina Matarazzo Matusquela Matalascayano. Mas o povo me chama de seu Mané. Não sei por quê. Eu sou de todo mundo e todo mundo me quer ver internado.
-Calma. A gente vai dar um jeito de liberar. Sossega.
O celular do médico toca.
-Alô? Karen? Oi, meu amor, o que houve? O quê? Não, tá cortando. Olha, liga... Cinco minutos! Eu vou pro telhado!

*****
Débora continua trancada na casa de Robson e apavorada com o criminoso à solta. Ela fecha as janelas da casa e corre pro quarto dele, onde tem um computador.
-Eu tenho que pedir ajuda, tenho que achar o endereço da delegacia daqui.
Ela pesquisa no Google e acha o nome, mas não reconhece a rua.
-Onde é que é isso, gente? Vou pro Maps. É só eu digitar e... Aaaaaaaaaaaahhhhhhhh!
E vê que numa proximidade da rua pesquisada, aparece o Camaro amarelo capturado pelo satélite.
-Eu não acredito. Só pode ser isso.  Mas o que... Por que tá atrás de mim? Já sei o que vou fazer.
E pega o celular do bolso para falar com a Oi. O plano é fazer com que o número seja confidencial dali em diante. Sabemos que a operadora demora 48 horas para a execução do serviço, mas... Quem se importa. Com o ID não exposto, liga para Robson.
-Alô?- disfarça a voz.
-Quem é?
-O assassino tá na sua casa.
-É o quê, rapaz?
-Quem tentou matar o seu irmão tá atrás da Débora. Ela tá na sua casa, e o carro que quer pegar a menina, em frente à tua casa. Chama a polícia, mas não avisa a ninguém que ele tá aqui. Ele pode acabar com qualquer um- desliga.
-Alô? Alô?

*****

Bráulio vai até o telhado e tenta falar com a esposa.
-Oi, fala. O sinal só pega melhor aqui. A menina ficou doente e você não sabe onde tá o cartão? Faz o seguinte: procura na segunda gaveta do guarda-roupa. Não, hoje eu faço plantão aqui. Tá bom, beijo.
Só que o médico vê um pequeno rastro de sangue e perto dele, uma cápsula.
-Mas o bandido não tinha atirado. Só no quarto- ele pensa em tocar o objeto, mas desiste por causa das impressões digitais.

*****

Na enfermaria, Frazão chega e percebe Robson nervoso.
-Aconteceu alguma coisa?
-A Débora tá lá em casa, trancada com medo do assassino.
-Ainda? Mas não tem bandido nenhum.
-Ela disse que tem alguém que dirige um Camaro amarelo que anda atrás dela. Foi por causa disso que o seu Mané foi atropelado.
-Robson, o assassino morreu.
-Não pra ela!
-Como é que você sabe que ela tá na sua casa? Ela te ligou e não ligou pra polícia?
-Não, foi outra pessoa.
-Tudo bem, a gente vai até a sua casa pra tentar salvar a menina.
-Não é melhor pedir ajuda aos outros da polícia também?
-Pode ser um trote, não sei. Ando desconfiado de que essa tal Débora possa ter muito a esconder.
-Não viaja, Frazão!
-É verdade. Quem pode ter interesse em acabar com ela? E por quê?
-Vamos embora logo.
-Vamos.
Mell chega à enfermaria e vê os dois saindo.
-O que houve?
-A gente vai ter que ir à casa do Robson. Alguém tá botando medo na Débora.
-Eu vou com vocês.
-Não, você fica. Qualquer coisa que você precisar, liga pro meu celular. Mas não sai daqui.

*****

Ainda apavorada, Débora ouve miados no quarto de Robson, que fica no primeiro andar da casa. Embaixo da cama, há uma pequena mascote branca.
-Alba...- sorri ao ver o animal, e cochicha- Você tem que fazer silêncio. Só a polícia pode saber que tem alguém aqui.

*****

Robson e Frazão entram na viatura e seguem para a casa do rapaz. No meio do caminho, o cara se impacienta.
-Dá pra acelerar aí, Frazão?
-Já imaginou se alguém anota a placa da viatura? Eu é que não vou aparecer no “Ronda Geral”.
O celular de Robson toca e é Bráulio.
-Fala, doutor.
-Robson, aconteceu uma coisa grave.
-O que houve com o Bruno?
-É sobre o assassino. Ele não se jogou do telhado.
-Espera. É o quê que você tá me dizendo? Explica direito!
-Alguém atirou no bandido que tentou matar seu irmão no quarto. Sacaram uma arma e atiraram pra fazer ele cair. O cara que vocês viram... Eu acho que a morte dele foi queima de arquivo. Quem tentou matar o Bruno perto da casa de vocês ainda tá vivo.
Robson se assusta e deixa o celular cair.
-O que houve, Robson? Quem era no celular?- pergunta Frazão.
-Robson? Você ainda tá aí?- Bráulio fala diretamente do hospital.