24/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 5

 

Nilo e Márcio olham para o público e compartilham comportamentos que confirmam o preconceito sofrido por negros.

NILO: Nós somos a maior nação composta por negros fora do continente africano.

MÁRCIO: Mas deixamos de pedir informações à polícia nas ruas...

NILO: Evitamos correr atrás de um ônibus pra não sermos confundidos...

MÁRCIO: Preferimos não entrar em lojas de marcas pra evitar confusão...

NILO: E temos três vezes mais chances de morrermos do que uma pessoa branca.

MÁRCIO: Não estamos errados. Errado está o racismo, que pode ser praticado por você, sem nem ao menos perceber.

É exibido um vídeo com imagens de figuras negras que marcaram a história do país ao som da versão ao vivo da música “Identidade”. Márcio e Nilo continuam no centro do auditório.

LETRA: Elevador é quase um templo, exemplo pra minar teu sono. Sai desse compromisso, não vai no de serviço. Se o social tem dono, não vai. Quem cede a vez não quer vitória: somos herança da memória, temos a cor da noite, filhos de todo açoite, fato real de nossa história.

Os demais integrantes do elenco reingressam no cenário, cantando a canção, juntamente com os protagonistas (caso queiram, formando um círculo).

LETRA: Se preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade, não nos ajuda; só nos faz sofrer, nem resgata nossa identidade. Se preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade, não nos ajuda; só nos faz sofrer, nem resgata nossa identidade.

23/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 4

 

Enquanto o auditório ainda está no escuro, ouve-se Marcos trazendo um dado novo aos espectadores.

NARRADOR: Só nos primeiros meses do ano passado, o Disque Direitos Humanos recebeu mais de 3.400 ligações que denunciavam casos de injúria racial.

As luzes são religadas, já com a presença de Breno, que está ao lado de André.

BRENO: Qual de vocês acionou a polícia?

ANDRÉ: Eu. Vim com meus filhos pra cá e fui vítima de racismo.

JULIANA: Não é bem assim, é só um mal-entendido.

BRENO: Quem foi racista com você?

LUIZA: Ninguém. É que eu pedi pro segurança revistar a mochila dele. Mas ele disse que só ia abrir quando a polícia chegasse... Desnecessário.

BRENO: Muito bem. Você tem a dizer o que sobre isso?

André tira a mochila das costas e abre o objeto na frente de todos.

ANDRÉ: Viram? Não tem nada que eu tenha levado daqui. (vira-se de costas) Quer revistar pra ter certeza?

BRENO: (sinaliza para Diego) Faz a revista nele.

Diego obedece e constata que André não cometeu nenhum furto.

LUIZA: Sinceramente, não precisava disso tudo. Ninguém tá te acusando de nada.

ANDRÉ: Tava, sim. Ela veio atrás de mim, disse que me achou parecido com um que entrou aqui outro dia, só por causa do cabelo.

JULIANA: (vira-se para Luiza) Isso é sério? Olha só, delegado, a nossa farmácia tem uma política pra que pessoas negras sejam 20% do nosso quadro de funcionários. O que houve com esse moço foi um caso isolado.

NILO: Só se for de hoje. E envolvendo um cliente, porque a gente sabe bem quem vocês são.

JULIANA: Que é isso, Nilo? Você sabe que eu não sou racista...

NILO: Será que não?

Nilo retira do bolso o celular e aciona uma gravação feita assim que Márcio passou a trabalhar na rede de farmácias. Breno e os demais veem o vídeo que Juliana gravou e compartilhou no grupo da empresa para apresentar o jovem.

 

JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não entra mais nenhum, viu? Beijos.

 

JULIANA: Pra que você guardou isso? Eu já tinha até apagado do grupo...

BRENO: Juliana... Luiza... Deixa eu apresentar o André. Ele é um dos nossos agentes. A gente vem recebendo algumas provas materiais enviadas pelo Nilo há um tempo.

MÁRCIO: Você tava colaborando esse tempo todo com a polícia?

NILO: Desculpa eu ter me calado. Mas alguém tinha que parar essas duas.

LUIZA: Olha, a gente pode explicar...

BRENO: Com certeza, mas não aqui. Podem me acompanhar, por favor (aponta para a porta). E você também, como testemunha.

Luiza e Juliana saem de cabeça baixa, envergonhadas e andando lentamente. Elas são seguidas por Diego. Por fim, acompanham Breno André, Cecília e Davi. Nilo e Márcio ficam sozinhos no cenário.

22/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 3

 Diante das luzes novamente acesas, André entra na farmácia, acompanhado pelos seus filhos, Cecília e Davi. Ele está com uma mochila preta nas costas, olha para as prateleiras e pergunta ao filho:

ANDRÉ: O que foi que tua mãe pediu pra comprar mesmo?

DAVI: Duas caixas daquele xarope pra tosse, eu esqueci o nome.

CECÍLIA: Polaramine.

ANDRÉ: Beleza. Vocês me esperam lá no caixa, onde tá aquele rapaz (aponta para Márcio). Vou ver se acho o remédio.

André afasta-se dos meninos, que ficam próximos à Márcio, como solicitado. O pai dos garotos passa a vasculhar uma das prateleiras, em busca do medicamento. De longe, Luiza observa o rapaz e sai do balcão lentamente, indo em direção sem que ele repare em sua aproximação. Discretamente, Diego entra no estabelecimento e fica perto das crianças, como se fosse um cliente qualquer.

MÁRCIO: Vocês estão juntos?

CECÍLIA: É, Painho foi ali pegar o remédio.

MÁRCIO: Ah, de boa. 

Quando André finalmente encontra as caixas da medicação, vira-se e dá de cara com Luiza. 

LUIZA: Achou o que tava procurando?

ANDRÉ: Graças a Deus, é capaz até da minha mulher não me deixar entrar em casa sem isso daqui. Dá licença...

LUIZA: Pra que a pressa? Você até que demorou pra achar...

ANDRÉ: É que meus filhos estão me esperando lá no caixa.

LUIZA: E é só isso que você vai levar?

ANDRÉ: Como assim? Eu não tô entendendo.

LUIZA: Tô lembrada de você. Veio aqui na semana passada, quando viu o segurança foi embora. Reconheci logo por causa do cabelo.

ANDRÉ: Deixa eu completar a frase: o cara que você viu na semana passada também era negro. E você tá achando que sou eu?

LUIZA: Achando nada, tenho certeza!

Márcio percebe o que está acontecendo e vai ao encontro de André e Luiza. As crianças seguem o operador de caixa.

DAVI: Pegou o remédio, Pai?

ANDRÉ: (procura disfarçar o constrangimento na frente das crianças) Já, tava levando pro caixa agorinha.

LUIZA: (olha para trás e vê Diego) Mas antes disso... Diego, vem cá.

O segurança chega perto dos quatro.

DIEGO: Que foi?

LUIZA: Abre a bolsa dele, por favor. 

MÁRCIO: É o quê? Não, Luiza, peraí. Eu vi esse pessoal entrando...

LUIZA: Mas não viu quando ele se afastou. Ele pode ter colocado alguma coisa sem que você visse.

ANDRÉ: Sério isso? Eu com a minha filha doente e você me mete essa?

MÁRCIO: Luiza, o menino falou que o pai tava atrás do remédio. Você ouviu.

LUIZA: Os dois devem ter combinado antes de entrar aqui. Se duvidar, nem filhos dele são. Olha a diferença.

Nilo e Juliana chegam juntos e questionam:

JULIANA: O que tá acontecendo aqui?

LUIZA: Nada, eu só pedi pro Diego abrir a mochila desse moço.

NILO: Por quê?

ANDRÉ: Ela acha que eu roubei.

LUIZA: Não foi isso que eu disse.

CECÍLIA: Falou, sim. A gente viu, e ele também (aponta para Márcio).

JULIANA: Foi isso mesmo, Márcio?

MÁRCIO: Foi. Ela acha que ele botou alguma coisa na bolsa quando se afastou da gente.

JULIANA: (após três segundos sem falar) Bom, eu sabia que tinha um motivo forte pra isso. (olha para Diego) Já fez a revista nele?

DIEGO: Vou fazer agora. Abre a bolsa aí, parceiro.

ANDRÉ: Certo... Quando a polícia chegar, eu abro.

LUIZA: Que isso, meu amigo? A gente pode resolver tudo sem confusão...

ANDRÉ: Agora? Não, eu faço questão. Quem vai ligar? Eu ou vocês?

As luzes são desligadas por dez segundos, para que Breno entre no cenário.


21/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 2

 

Com o religamento das lâmpadas, vê-se Luiza trabalhando num dos caixas da farmácia. Nilo leva Márcio para conhecer a colega de trabalho.

NILO: (fala enquanto vai caminhando) Deixa eu te apresentar... (os rapazes sobem o degrau e aproximam-se da operadora) Luiza?

A moça olha Márcio de cima a baixo, permanecendo sentada e expressando estranhamento.

NILO: Esse daqui é o Márcio, ele ficou com a vaga.

MÁRCIO: (estende a mão para cumprimentá-la) Prazer.

LUIZA: (levanta-se, ainda estranhando o rapaz) Seja bem-vindo.

MÁRCIO: Obrigado. (volta o rosto pra Nilo) Onde é que eu fico mesmo?

NILO: Aqui, vem. (leva Márcio até o outro notebook) Qualquer duvida você pode tirar com ela, que vai te orientar.

LUIZA: Nilo, o fabricante ainda não enviou o lote de antialérgico.

NILO: Ainda? Peraí, eu vou ligar; era pra ter chegado desde ontem...

MÁRCIO: (toca o ombro de Nilo) Você disse que a gerente vinha me conhecer?

NILO: Ela já chegou, que eu vi mais cedo...

Juliana entra na farmácia (pela porta principal do auditório).

NILO: Olha ela aí. Dá licença. (desce o degrau e coloca o celular sobre uma das orelhas, inicialmente falando com o fornecedor, pondo-se no meio do auditório)

JULIANA: (sobe os degraus e chega perto do novo funcionário) Você é o Márcio, né?

MÁRCIO: Sou. Você é a gerente?

JULIANA: Pode me chamar de Juliana. O Nilo tinha me falado de você. Muito prazer (aperta a mão do novo funcionário). Ele ficou impressionado com tuas referências.

MÁRCIO: É, eu já tinha experiência em duas farmácias lá no Cordeiro e outra em Boa Viagem. Aqui fica melhor, mais perto de onde eu moro.

JULIANA: Perfeito. Você não sabe o incêndio que tua chegada apagou. O menino foi transferido pra outra unidade, Luiza ficou sozinha aqui... Pense num caos!

MÁRCIO: (ri) Pode ficar tranquila, eu vou dar o meu melhor.

Obs.: Nilo encerra a ligação, mas olha por um instante para Juliana e Márcio juntos, mexe em algum botão do celular e o recoloca sobre a orelha.

JULIANA: Pode te pedir uma coisa?

MÁRCIO: Claro, é só falar. O que é?

JULIANA: Eu preciso jogar no grupo da empresa que a gente preencheu a vaga. Deixa eu filmar você?

Márcio consente com um sorriso e fica ao lado de Juliana enquanto ela aciona a câmera.

 

JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não entra mais nenhum, viu? Beijos.

 

JULIANA: Pronto. Já mandei pro grupo. Adorei te conhecer, viu? (dá dois beijos no rosto do rapaz) Fica à vontade. (sai do cenário)

MÁRCIO: (responde, desajeitado) Obrigado... (olha para os lados, até que vê Nilo no centro do auditório) É... Luiza o teu nome, né?

LUIZA: Isso.

MÁRCIO: Posso tirar uma dúvida com ele (aponta  para Nilo)? É que eu me esqueci de falar quando cheguei.

LUIZA: Uhum.

MÁRCIO: Valeu. (deixa o caixa e dirige-se a Nilo) Você ouviu a conversa?

NILO: Partes dela. O que houve?

MÁRCIO: Cara, eu boiei numa coisa. O que ela quis dizer com “escurecer a loja”?

NILO: Ela disse isso, foi? Vê só, Márcio: é que faz um tempo que 20% das nossas vagas são pra pessoas negras. Vai ver Juliana falou nesse sentido.

MÁRCIO: Sei, não. Tô achando que ela não gostou de mim... O motivo, eu não preciso nem dizer.

NILO: (olha pra baixo) Márcio, quer um conselho? Ignora. Deixa passar. Quem sabe esse emprego é o primeiro passo pra você progredir, crescer aqui na rede?

Juliana retorna ao cenário, indo falar diretamente com Nilo.

JULIANA: Me esqueci de te dizer, Nilo: o elevador emperrou de novo. Dá um jeitinho pra mim, por favor?

NILO: Claro.

JULIANA: Obrigada. (deixa o local novamente)

MÁRCIO: Trabalha com manutenção também, é?

NILO: Márcio, fecha os olhos. É o melhor que você pode fazer por você, vai por mim. Me deixa ir agora...

Pela segunda vez, as luzes são desligadas. Um novo dado é apresentado ao público (enquanto Márcio volta ao caixa, ficando ao lado de Luiza).

NARRADOR: No Brasil, 75% das pessoas acreditam que a principal forma de discriminação nas empresas é o racismo. Quem já sofreu discriminação nesses locais relata que os ataques costumam começar pelos colegas de trabalho, e depois pelos seus gerentes diretos.

20/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 1

 

Márcio está sentado diante da mesa, um pouco preocupado sobre como será recebido. Do outro lado, segurando um envelope laranja vem Nilo, e senta-se com tranquilidade.

NILO: Seu nome é Márcio, né?

MÁRCIO: Isso.

NILO: Prazer, eu sou Nilo. A gerente da farmácia pediu que eu recebesse você, mas depois ela vai falar contigo.

MÁRCIO: Quer dizer que eu fui...

NILO: Uhum. (levanta o envelope para que Márcio o veja e olha a folha que está dentro) Também, com um currículo desses? Você é a pessoa certa pra ajudar Luiza aqui. Depois que a outra moça do caixa saiu, o serviço dela acumulou. (fica de pé) Bem-vindo, Márcio.

MÁRCIO: (também coloca-se de pé) Quando é que eu posso começar aqui na farmácia?

NILO: Amanhã mesmo. A gente abre às sete, então você vem um pouco antes.

MÁRCIO: Cara, muito obrigado mesmo, de verdade! (aperta a mão de Nilo)

NILO: Não precisa agradecer. Pode contar comigo.

As luzes são desligadas pela primeira vez. No escuro, aproveita-se a narração para que Luiza posicione-se e sente do lado esquerdo da mesa; e também para que os dois notebooks sejam postos sobre a mesa. Nilo e Márcio vão até a porta juntos (pode ser a principal do auditório, pode ser a que está perto de uma das escadas).

NARRADOR: 5,9% dos brasileiros que estão fora do mercado de trabalho são brancos segundo uma pesquisa encomendada pelo IBGE em 2023. Mas este índice muda para 8,9% se considerarmos apenas a população negra.