21/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 2

 

Com o religamento das lâmpadas, vê-se Luiza trabalhando num dos caixas da farmácia. Nilo leva Márcio para conhecer a colega de trabalho.

NILO: (fala enquanto vai caminhando) Deixa eu te apresentar... (os rapazes sobem o degrau e aproximam-se da operadora) Luiza?

A moça olha Márcio de cima a baixo, permanecendo sentada e expressando estranhamento.

NILO: Esse daqui é o Márcio, ele ficou com a vaga.

MÁRCIO: (estende a mão para cumprimentá-la) Prazer.

LUIZA: (levanta-se, ainda estranhando o rapaz) Seja bem-vindo.

MÁRCIO: Obrigado. (volta o rosto pra Nilo) Onde é que eu fico mesmo?

NILO: Aqui, vem. (leva Márcio até o outro notebook) Qualquer duvida você pode tirar com ela, que vai te orientar.

LUIZA: Nilo, o fabricante ainda não enviou o lote de antialérgico.

NILO: Ainda? Peraí, eu vou ligar; era pra ter chegado desde ontem...

MÁRCIO: (toca o ombro de Nilo) Você disse que a gerente vinha me conhecer?

NILO: Ela já chegou, que eu vi mais cedo...

Juliana entra na farmácia (pela porta principal do auditório).

NILO: Olha ela aí. Dá licença. (desce o degrau e coloca o celular sobre uma das orelhas, inicialmente falando com o fornecedor, pondo-se no meio do auditório)

JULIANA: (sobe os degraus e chega perto do novo funcionário) Você é o Márcio, né?

MÁRCIO: Sou. Você é a gerente?

JULIANA: Pode me chamar de Juliana. O Nilo tinha me falado de você. Muito prazer (aperta a mão do novo funcionário). Ele ficou impressionado com tuas referências.

MÁRCIO: É, eu já tinha experiência em duas farmácias lá no Cordeiro e outra em Boa Viagem. Aqui fica melhor, mais perto de onde eu moro.

JULIANA: Perfeito. Você não sabe o incêndio que tua chegada apagou. O menino foi transferido pra outra unidade, Luiza ficou sozinha aqui... Pense num caos!

MÁRCIO: (ri) Pode ficar tranquila, eu vou dar o meu melhor.

Obs.: Nilo encerra a ligação, mas olha por um instante para Juliana e Márcio juntos, mexe em algum botão do celular e o recoloca sobre a orelha.

JULIANA: Pode te pedir uma coisa?

MÁRCIO: Claro, é só falar. O que é?

JULIANA: Eu preciso jogar no grupo da empresa que a gente preencheu a vaga. Deixa eu filmar você?

Márcio consente com um sorriso e fica ao lado de Juliana enquanto ela aciona a câmera.

 

JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não entra mais nenhum, viu? Beijos.

 

JULIANA: Pronto. Já mandei pro grupo. Adorei te conhecer, viu? (dá dois beijos no rosto do rapaz) Fica à vontade. (sai do cenário)

MÁRCIO: (responde, desajeitado) Obrigado... (olha para os lados, até que vê Nilo no centro do auditório) É... Luiza o teu nome, né?

LUIZA: Isso.

MÁRCIO: Posso tirar uma dúvida com ele (aponta  para Nilo)? É que eu me esqueci de falar quando cheguei.

LUIZA: Uhum.

MÁRCIO: Valeu. (deixa o caixa e dirige-se a Nilo) Você ouviu a conversa?

NILO: Partes dela. O que houve?

MÁRCIO: Cara, eu boiei numa coisa. O que ela quis dizer com “escurecer a loja”?

NILO: Ela disse isso, foi? Vê só, Márcio: é que faz um tempo que 20% das nossas vagas são pra pessoas negras. Vai ver Juliana falou nesse sentido.

MÁRCIO: Sei, não. Tô achando que ela não gostou de mim... O motivo, eu não preciso nem dizer.

NILO: (olha pra baixo) Márcio, quer um conselho? Ignora. Deixa passar. Quem sabe esse emprego é o primeiro passo pra você progredir, crescer aqui na rede?

Juliana retorna ao cenário, indo falar diretamente com Nilo.

JULIANA: Me esqueci de te dizer, Nilo: o elevador emperrou de novo. Dá um jeitinho pra mim, por favor?

NILO: Claro.

JULIANA: Obrigada. (deixa o local novamente)

MÁRCIO: Trabalha com manutenção também, é?

NILO: Márcio, fecha os olhos. É o melhor que você pode fazer por você, vai por mim. Me deixa ir agora...

Pela segunda vez, as luzes são desligadas. Um novo dado é apresentado ao público (enquanto Márcio volta ao caixa, ficando ao lado de Luiza).

NARRADOR: No Brasil, 75% das pessoas acreditam que a principal forma de discriminação nas empresas é o racismo. Quem já sofreu discriminação nesses locais relata que os ataques costumam começar pelos colegas de trabalho, e depois pelos seus gerentes diretos.

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