Com o religamento das lâmpadas,
vê-se Luiza trabalhando num dos caixas da farmácia. Nilo leva Márcio para
conhecer a colega de trabalho.
NILO: (fala enquanto vai caminhando) Deixa
eu te apresentar... (os rapazes sobem o degrau e aproximam-se da operadora)
Luiza?
A moça olha Márcio de cima a baixo,
permanecendo sentada e expressando estranhamento.
NILO: Esse daqui é o Márcio, ele
ficou com a vaga.
MÁRCIO: (estende a mão para cumprimentá-la)
Prazer.
LUIZA: (levanta-se, ainda estranhando o
rapaz) Seja bem-vindo.
MÁRCIO: Obrigado. (volta o rosto pra Nilo) Onde é
que eu fico mesmo?
NILO: Aqui, vem. (leva Márcio até o outro notebook)
Qualquer duvida você pode tirar com ela, que vai te orientar.
LUIZA: Nilo, o fabricante ainda não
enviou o lote de antialérgico.
NILO: Ainda? Peraí, eu vou ligar;
era pra ter chegado desde ontem...
MÁRCIO: (toca o ombro de Nilo) Você
disse que a gerente vinha me conhecer?
NILO: Ela já chegou, que eu vi mais
cedo...
Juliana entra na farmácia (pela
porta principal do auditório).
NILO: Olha ela aí. Dá licença. (desce o degrau e coloca o celular
sobre uma das orelhas, inicialmente falando com o fornecedor, pondo-se no meio
do auditório)
JULIANA: (sobe os degraus e chega perto do
novo funcionário) Você é o Márcio, né?
MÁRCIO: Sou. Você é a gerente?
JULIANA: Pode me chamar de Juliana.
O Nilo tinha me falado de você. Muito prazer (aperta a mão do novo funcionário). Ele ficou
impressionado com tuas referências.
MÁRCIO: É, eu já tinha experiência
em duas farmácias lá no Cordeiro e outra em Boa Viagem. Aqui fica melhor, mais
perto de onde eu moro.
JULIANA: Perfeito. Você não sabe o
incêndio que tua chegada apagou. O menino foi transferido pra outra unidade,
Luiza ficou sozinha aqui... Pense num caos!
MÁRCIO: (ri) Pode ficar tranquila, eu
vou dar o meu melhor.
Obs.: Nilo encerra a ligação, mas
olha por um instante para Juliana e Márcio juntos, mexe em algum botão do
celular e o recoloca sobre a orelha.
JULIANA: Pode te pedir uma coisa?
MÁRCIO: Claro, é só falar. O que é?
JULIANA: Eu preciso jogar no grupo
da empresa que a gente preencheu a vaga. Deixa eu filmar você?
Márcio consente com um sorriso e
fica ao lado de Juliana enquanto ela aciona a câmera.
JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o
Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa
unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu
anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não
entra mais nenhum, viu? Beijos.
JULIANA: Pronto. Já mandei pro
grupo. Adorei te conhecer, viu?
(dá dois beijos no rosto do rapaz) Fica à vontade. (sai do cenário)
MÁRCIO: (responde, desajeitado) Obrigado...
(olha para os lados, até que vê Nilo no centro do auditório) É... Luiza
o teu nome, né?
LUIZA: Isso.
MÁRCIO: Posso tirar uma dúvida com
ele (aponta para Nilo)? É que eu me esqueci de falar
quando cheguei.
LUIZA: Uhum.
MÁRCIO: Valeu. (deixa o caixa e dirige-se a Nilo)
Você ouviu a conversa?
NILO: Partes dela. O que houve?
MÁRCIO: Cara, eu boiei numa coisa.
O que ela quis dizer com “escurecer a loja”?
NILO: Ela disse isso, foi? Vê só, Márcio:
é que faz um tempo que 20% das nossas vagas são pra pessoas negras. Vai ver
Juliana falou nesse sentido.
MÁRCIO: Sei, não. Tô achando que
ela não gostou de mim... O motivo, eu não preciso nem dizer.
NILO: (olha pra baixo) Márcio, quer um
conselho? Ignora. Deixa passar. Quem sabe esse emprego é o primeiro passo pra
você progredir, crescer aqui na rede?
Juliana retorna ao cenário, indo
falar diretamente com Nilo.
JULIANA: Me esqueci de te dizer,
Nilo: o elevador emperrou de novo. Dá um jeitinho pra mim, por favor?
NILO: Claro.
JULIANA: Obrigada. (deixa o local novamente)
MÁRCIO: Trabalha com manutenção
também, é?
NILO: Márcio, fecha os olhos. É o
melhor que você pode fazer por você, vai por mim. Me deixa ir agora...
Pela segunda vez, as luzes são
desligadas. Um novo dado é apresentado ao público (enquanto Márcio volta ao
caixa, ficando ao lado de Luiza).
NARRADOR: No Brasil, 75% das
pessoas acreditam que a principal forma de discriminação nas empresas é o
racismo. Quem já sofreu discriminação nesses locais relata que os ataques
costumam começar pelos colegas de trabalho, e depois pelos seus gerentes
diretos.
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