Diante das luzes novamente acesas, André entra na farmácia, acompanhado pelos seus filhos, Cecília e Davi. Ele está com uma mochila preta nas costas, olha para as prateleiras e pergunta ao filho:
ANDRÉ: O que foi que tua mãe pediu pra comprar mesmo?
DAVI: Duas caixas daquele xarope pra tosse, eu esqueci o nome.
CECÍLIA: Polaramine.
ANDRÉ: Beleza. Vocês me esperam lá no caixa, onde tá aquele rapaz (aponta para Márcio). Vou ver se acho o remédio.
André afasta-se dos meninos, que ficam próximos à Márcio, como solicitado. O pai dos garotos passa a vasculhar uma das prateleiras, em busca do medicamento. De longe, Luiza observa o rapaz e sai do balcão lentamente, indo em direção sem que ele repare em sua aproximação. Discretamente, Diego entra no estabelecimento e fica perto das crianças, como se fosse um cliente qualquer.
MÁRCIO: Vocês estão juntos?
CECÍLIA: É, Painho foi ali pegar o remédio.
MÁRCIO: Ah, de boa.
Quando André finalmente encontra as caixas da medicação, vira-se e dá de cara com Luiza.
LUIZA: Achou o que tava procurando?
ANDRÉ: Graças a Deus, é capaz até da minha mulher não me deixar entrar em casa sem isso daqui. Dá licença...
LUIZA: Pra que a pressa? Você até que demorou pra achar...
ANDRÉ: É que meus filhos estão me esperando lá no caixa.
LUIZA: E é só isso que você vai levar?
ANDRÉ: Como assim? Eu não tô entendendo.
LUIZA: Tô lembrada de você. Veio aqui na semana passada, quando viu o segurança foi embora. Reconheci logo por causa do cabelo.
ANDRÉ: Deixa eu completar a frase: o cara que você viu na semana passada também era negro. E você tá achando que sou eu?
LUIZA: Achando nada, tenho certeza!
Márcio percebe o que está acontecendo e vai ao encontro de André e Luiza. As crianças seguem o operador de caixa.
DAVI: Pegou o remédio, Pai?
ANDRÉ: (procura disfarçar o constrangimento na frente das crianças) Já, tava levando pro caixa agorinha.
LUIZA: (olha para trás e vê Diego) Mas antes disso... Diego, vem cá.
O segurança chega perto dos quatro.
DIEGO: Que foi?
LUIZA: Abre a bolsa dele, por favor.
MÁRCIO: É o quê? Não, Luiza, peraí. Eu vi esse pessoal entrando...
LUIZA: Mas não viu quando ele se afastou. Ele pode ter colocado alguma coisa sem que você visse.
ANDRÉ: Sério isso? Eu com a minha filha doente e você me mete essa?
MÁRCIO: Luiza, o menino falou que o pai tava atrás do remédio. Você ouviu.
LUIZA: Os dois devem ter combinado antes de entrar aqui. Se duvidar, nem filhos dele são. Olha a diferença.
Nilo e Juliana chegam juntos e questionam:
JULIANA: O que tá acontecendo aqui?
LUIZA: Nada, eu só pedi pro Diego abrir a mochila desse moço.
NILO: Por quê?
ANDRÉ: Ela acha que eu roubei.
LUIZA: Não foi isso que eu disse.
CECÍLIA: Falou, sim. A gente viu, e ele também (aponta para Márcio).
JULIANA: Foi isso mesmo, Márcio?
MÁRCIO: Foi. Ela acha que ele botou alguma coisa na bolsa quando se afastou da gente.
JULIANA: (após três segundos sem falar) Bom, eu sabia que tinha um motivo forte pra isso. (olha para Diego) Já fez a revista nele?
DIEGO: Vou fazer agora. Abre a bolsa aí, parceiro.
ANDRÉ: Certo... Quando a polícia chegar, eu abro.
LUIZA: Que isso, meu amigo? A gente pode resolver tudo sem confusão...
ANDRÉ: Agora? Não, eu faço questão. Quem vai ligar? Eu ou vocês?
As luzes são desligadas por dez segundos, para que Breno entre no cenário.