Enquanto o auditório ainda está no
escuro, ouve-se Marcos trazendo um dado novo aos espectadores.
NARRADOR: Só nos primeiros meses do
ano passado, o Disque Direitos Humanos recebeu mais de 3.400 ligações que
denunciavam casos de injúria racial.
As luzes são religadas, já com a
presença de Breno, que está ao lado de André.
BRENO: Qual de vocês acionou a
polícia?
ANDRÉ: Eu. Vim com meus filhos pra
cá e fui vítima de racismo.
JULIANA: Não é bem assim, é só um
mal-entendido.
BRENO: Quem foi racista com você?
LUIZA: Ninguém. É que eu pedi pro
segurança revistar a mochila dele. Mas ele disse que só ia abrir quando a
polícia chegasse... Desnecessário.
BRENO: Muito bem. Você tem a dizer
o que sobre isso?
André tira a mochila das costas e
abre o objeto na frente de todos.
ANDRÉ: Viram? Não tem nada que eu
tenha levado daqui. (vira-se
de costas) Quer revistar pra ter certeza?
BRENO: (sinaliza para Diego) Faz a
revista nele.
Diego obedece e constata que André
não cometeu nenhum furto.
LUIZA: Sinceramente, não precisava
disso tudo. Ninguém tá te acusando de nada.
ANDRÉ: Tava, sim. Ela veio atrás de
mim, disse que me achou parecido com um que entrou aqui outro dia, só por causa
do cabelo.
JULIANA: (vira-se para Luiza) Isso é
sério? Olha só, delegado, a nossa farmácia tem uma política pra que pessoas
negras sejam 20% do nosso quadro de funcionários. O que houve com esse moço foi
um caso isolado.
NILO: Só se for de hoje. E
envolvendo um cliente, porque a gente sabe bem quem vocês são.
JULIANA: Que é isso, Nilo? Você
sabe que eu não sou racista...
NILO: Será que não?
Nilo retira do bolso o celular e
aciona uma gravação feita assim que Márcio passou a trabalhar na rede de
farmácias. Breno e os demais veem o vídeo que Juliana gravou e compartilhou no
grupo da empresa para apresentar o jovem.
JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o
Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa
unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu
anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não
entra mais nenhum, viu? Beijos.
JULIANA: Pra que você guardou isso?
Eu já tinha até apagado do grupo...
BRENO: Juliana... Luiza... Deixa eu
apresentar o André. Ele é um dos nossos agentes. A gente vem recebendo algumas
provas materiais enviadas pelo Nilo há um tempo.
MÁRCIO: Você tava colaborando esse
tempo todo com a polícia?
NILO: Desculpa eu ter me calado.
Mas alguém tinha que parar essas duas.
LUIZA: Olha, a gente pode explicar...
BRENO: Com certeza, mas não aqui.
Podem me acompanhar, por favor
(aponta para a porta). E você também, como testemunha.
Luiza e Juliana saem de cabeça
baixa, envergonhadas e andando lentamente. Elas são seguidas por Diego. Por
fim, acompanham Breno André, Cecília e Davi. Nilo e Márcio ficam sozinhos no
cenário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário