23/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 4

 

Enquanto o auditório ainda está no escuro, ouve-se Marcos trazendo um dado novo aos espectadores.

NARRADOR: Só nos primeiros meses do ano passado, o Disque Direitos Humanos recebeu mais de 3.400 ligações que denunciavam casos de injúria racial.

As luzes são religadas, já com a presença de Breno, que está ao lado de André.

BRENO: Qual de vocês acionou a polícia?

ANDRÉ: Eu. Vim com meus filhos pra cá e fui vítima de racismo.

JULIANA: Não é bem assim, é só um mal-entendido.

BRENO: Quem foi racista com você?

LUIZA: Ninguém. É que eu pedi pro segurança revistar a mochila dele. Mas ele disse que só ia abrir quando a polícia chegasse... Desnecessário.

BRENO: Muito bem. Você tem a dizer o que sobre isso?

André tira a mochila das costas e abre o objeto na frente de todos.

ANDRÉ: Viram? Não tem nada que eu tenha levado daqui. (vira-se de costas) Quer revistar pra ter certeza?

BRENO: (sinaliza para Diego) Faz a revista nele.

Diego obedece e constata que André não cometeu nenhum furto.

LUIZA: Sinceramente, não precisava disso tudo. Ninguém tá te acusando de nada.

ANDRÉ: Tava, sim. Ela veio atrás de mim, disse que me achou parecido com um que entrou aqui outro dia, só por causa do cabelo.

JULIANA: (vira-se para Luiza) Isso é sério? Olha só, delegado, a nossa farmácia tem uma política pra que pessoas negras sejam 20% do nosso quadro de funcionários. O que houve com esse moço foi um caso isolado.

NILO: Só se for de hoje. E envolvendo um cliente, porque a gente sabe bem quem vocês são.

JULIANA: Que é isso, Nilo? Você sabe que eu não sou racista...

NILO: Será que não?

Nilo retira do bolso o celular e aciona uma gravação feita assim que Márcio passou a trabalhar na rede de farmácias. Breno e os demais veem o vídeo que Juliana gravou e compartilhou no grupo da empresa para apresentar o jovem.

 

JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não entra mais nenhum, viu? Beijos.

 

JULIANA: Pra que você guardou isso? Eu já tinha até apagado do grupo...

BRENO: Juliana... Luiza... Deixa eu apresentar o André. Ele é um dos nossos agentes. A gente vem recebendo algumas provas materiais enviadas pelo Nilo há um tempo.

MÁRCIO: Você tava colaborando esse tempo todo com a polícia?

NILO: Desculpa eu ter me calado. Mas alguém tinha que parar essas duas.

LUIZA: Olha, a gente pode explicar...

BRENO: Com certeza, mas não aqui. Podem me acompanhar, por favor (aponta para a porta). E você também, como testemunha.

Luiza e Juliana saem de cabeça baixa, envergonhadas e andando lentamente. Elas são seguidas por Diego. Por fim, acompanham Breno André, Cecília e Davi. Nilo e Márcio ficam sozinhos no cenário.

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