22/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 3

 Diante das luzes novamente acesas, André entra na farmácia, acompanhado pelos seus filhos, Cecília e Davi. Ele está com uma mochila preta nas costas, olha para as prateleiras e pergunta ao filho:

ANDRÉ: O que foi que tua mãe pediu pra comprar mesmo?

DAVI: Duas caixas daquele xarope pra tosse, eu esqueci o nome.

CECÍLIA: Polaramine.

ANDRÉ: Beleza. Vocês me esperam lá no caixa, onde tá aquele rapaz (aponta para Márcio). Vou ver se acho o remédio.

André afasta-se dos meninos, que ficam próximos à Márcio, como solicitado. O pai dos garotos passa a vasculhar uma das prateleiras, em busca do medicamento. De longe, Luiza observa o rapaz e sai do balcão lentamente, indo em direção sem que ele repare em sua aproximação. Discretamente, Diego entra no estabelecimento e fica perto das crianças, como se fosse um cliente qualquer.

MÁRCIO: Vocês estão juntos?

CECÍLIA: É, Painho foi ali pegar o remédio.

MÁRCIO: Ah, de boa. 

Quando André finalmente encontra as caixas da medicação, vira-se e dá de cara com Luiza. 

LUIZA: Achou o que tava procurando?

ANDRÉ: Graças a Deus, é capaz até da minha mulher não me deixar entrar em casa sem isso daqui. Dá licença...

LUIZA: Pra que a pressa? Você até que demorou pra achar...

ANDRÉ: É que meus filhos estão me esperando lá no caixa.

LUIZA: E é só isso que você vai levar?

ANDRÉ: Como assim? Eu não tô entendendo.

LUIZA: Tô lembrada de você. Veio aqui na semana passada, quando viu o segurança foi embora. Reconheci logo por causa do cabelo.

ANDRÉ: Deixa eu completar a frase: o cara que você viu na semana passada também era negro. E você tá achando que sou eu?

LUIZA: Achando nada, tenho certeza!

Márcio percebe o que está acontecendo e vai ao encontro de André e Luiza. As crianças seguem o operador de caixa.

DAVI: Pegou o remédio, Pai?

ANDRÉ: (procura disfarçar o constrangimento na frente das crianças) Já, tava levando pro caixa agorinha.

LUIZA: (olha para trás e vê Diego) Mas antes disso... Diego, vem cá.

O segurança chega perto dos quatro.

DIEGO: Que foi?

LUIZA: Abre a bolsa dele, por favor. 

MÁRCIO: É o quê? Não, Luiza, peraí. Eu vi esse pessoal entrando...

LUIZA: Mas não viu quando ele se afastou. Ele pode ter colocado alguma coisa sem que você visse.

ANDRÉ: Sério isso? Eu com a minha filha doente e você me mete essa?

MÁRCIO: Luiza, o menino falou que o pai tava atrás do remédio. Você ouviu.

LUIZA: Os dois devem ter combinado antes de entrar aqui. Se duvidar, nem filhos dele são. Olha a diferença.

Nilo e Juliana chegam juntos e questionam:

JULIANA: O que tá acontecendo aqui?

LUIZA: Nada, eu só pedi pro Diego abrir a mochila desse moço.

NILO: Por quê?

ANDRÉ: Ela acha que eu roubei.

LUIZA: Não foi isso que eu disse.

CECÍLIA: Falou, sim. A gente viu, e ele também (aponta para Márcio).

JULIANA: Foi isso mesmo, Márcio?

MÁRCIO: Foi. Ela acha que ele botou alguma coisa na bolsa quando se afastou da gente.

JULIANA: (após três segundos sem falar) Bom, eu sabia que tinha um motivo forte pra isso. (olha para Diego) Já fez a revista nele?

DIEGO: Vou fazer agora. Abre a bolsa aí, parceiro.

ANDRÉ: Certo... Quando a polícia chegar, eu abro.

LUIZA: Que isso, meu amigo? A gente pode resolver tudo sem confusão...

ANDRÉ: Agora? Não, eu faço questão. Quem vai ligar? Eu ou vocês?

As luzes são desligadas por dez segundos, para que Breno entre no cenário.


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