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29/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | CENA 7 E CRÉDITOS FINAIS

https://youtu.be/I053pWscJF4?is=_i9iIEzteasO8Hqn

CENA 7

Personagens: Alex e Emílio

Locação: em frente ao portão que dá acesso às salas do prédio


Os dois personagens vêm correndo e param no ponto indicado pelo roteiro. Emílio ainda continua ofegante.

ALEX: Gostou da ajuda?

EMÍLIO: Muito! Obrigado pela explicação de todos vocês!

ALEX: Por nada.

Emílio assusta-se e bate a palma da mão na testa.

EMÍLIO: Me lasquei!

ALEX: O que foi?

EMÍLIO: Eu me esqueci de gravar... (bota a mão no bolso) Meu celular!

ALEX: Qual é o problema?

EMÍLIO: O Boy do Bote deve ter levado!

ALEX: Calma. Você não precisa do celular.

EMÍLIO: Não?

ALEX: Quando você voltar ao Recife, vai colocar a Lei em prática.

EMÍLIO: Tu “acha” que eu vou me lembrar de tudo?

ALEX: “Bora” saber agora...

A câmera está estática. Alex puxa o paletó de Emílio pela gola, arrastando o advogado do mundo real até que ambos saiam do campo de visão dos espectadores.

Como a piada recorrente da série “Um maluco no pedaço, a fachada da Erem Amaury de Medeiros é exibida, com direito ao portão entreaberto.

(fundo musical: “Lavate la cara” – de 2:38 a 2:47)

Em questão de segundos, Emílio é arremessado por Alex, representando o seu retorno ao mundo real.


CRÉDITOS FINAIS


(Obs.: eles devem estar na tarja superior, com os nomes próprios creditados do lado direito da tela)


Ideia original

Cauã Araújo 


Um filme dirigido, escrito e interpretado por

Ana Kátia Araújo

(Leda)


Carla Angélica

(Estela)


Cauã Araújo

(Alex)


Hanna Gabriela

(Júlia)


Leni de Barros

(Kelly)


Maria da Paz

(Micheli)


e

Thiago Barros

(Emílio)


Edição de áudio

Inshot

Vocal Recorder


Edição de imagens

Inshot

Paint


Fontes de pesquisa


“Libras e surdos: políticas, linguagem e inclusão” – organizado por Cecília Moura e Desirée De Vit Begrow (Editora Contexto)


“Livro ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com surdez” – Márcia Honora e Mary Lopes Esteves Frizanco (Ciranda Cultural)


“Material de apoio para o aprendizado de Libras” – Alexandre dos Santos Figueira (Phorte Editora)


“O ouvinte e a surdez: sobre ensinar e aprender a Libras” – Audrei Gesser (Parábola Editorial)


Imagens

Folha de Pernambuco

(“Dia Nacional dos Surdos: passeata pede mais acessibilidade para a população surda nesta sexta (26)” – foto de Fran Silva)


G1 Pernambuco

(“Dia Nacional do Surdo é comemorado com caminhada no centro de Petrolina” – foto de Nilson Maciel)


Governo de Pernambuco

(“Escolas da Rede Estadual promovem ações de conscientização no Dia Nacional do Surdo”)


Prefeitura do Recife

(“Prefeitura marca Dia Nacional da Libras com atendimento acessível no Expresso Recife” – foto de Glenda Albuquerque)


Professores

Fabio Henrique Mota

Luiz Henrique Cosme


Trilha sonora

“Maceteando” (composta por Manoel Ferreira Pantoja e Terezinha Freitas Pantoja e interpretada por Banda Só Brega)


“Mentirosa” (composta por Antonio Ríos, Juan Ramon Ledesma e Marcos Daniel Bustamante e interpretada por Ráfaga)


“Estela” (composta por Paulo Márcio e Robson Ricardo e interpretada por Paulo Márcio)


“La belle de jour” (composta por Alceu Valença e interpretada por Netinho)


“Kelly” (composta por Juca Medalha e interpretada por Banda Labaredas)


“Jura que me ama” (composta por Zeca Pinheiro e interpretada por Banda Camelô)


“Leda” (composta por Gentil Ramos Pereira e interpretada por Adilson Ramos)


“Mentiras” (composta por Bruno Vinicius e interpretada por Banda Torpedo)


“Vou calar sua boca” (composta por Jorge Silva do Recife e interpretada por Banda Carícias)


“Cheli” (composta por Conde e interpretada por Banda Só Brega)


“Lavate la cara” (composta por Luis Mário Alvarez e interpretada por Mr. Gato)


“A morte do vaqueiro” (composta e interpretada por Luiz Gonzaga)


Agradecimentos

Auriedna Freire

Bruna Pires

Dêbson Silva

Fernando Veloso (Felca)


Esta é uma obra independente de ficção produzida para o nível intermediário do curso de Libras da Escola de Referência em Ensino Médio Amaury de Medeiros. Qualquer semelhança com fatos, nomes ou pessoas reais terá sido mera coincidência.


© 2026 Governo de Pernambuco – Secretaria de Educação e Esportes / Gerência Regional de Educação Recife – Sul / Escola de Referência em Ensino Médio Amaury de Medeiros


https://youtu.be/I053pWscJF4?is=_i9iIEzteasO8Hqn


28/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | CENA 6

 

Personagens: Alex, Emílio, Estela e Micheli

Locações: área externa da cantina e fachada da sala 04

 

Os dois rapazes caminham pela área externa da cantina, e depois que a câmera foca apenas em Emílio, ele diz:

EMÍLIO: Bom saber que a Libras é a segunda língua do Brasil.

Emílio é repreendido com uma bofetada desferida por Alex.

(fundo musical: “Mentiras”)

ALEX: (com expressão de raiva) Mentira! Mentira! Mentira!

EMÍLIO: Já entendi.

ALEX: A Libras não substitui o Português escrito, não. Ela é um meio de comunicação e expressão que a Lei reconhece.

Em frente à sala 04, Estela vê os rapazes e anima-se.

ESTELA: Pode deixar, isso eu te explico.

Repentinamente, Micheli aparece à esquerda da colega e surpreende-lhe ao declarar:

MICHELI: Não, senhora! Quem vai explicar sou eu!

As duas cruzam os braços e olham-se com raiva.

(fundo musical: “Vou calar sua boca” – “não vou deixar esse homem de mão beijada, eu não dou pra você”)

Alex e Emílio olham primeiro para a esquerda, e depois para a direita, com medo da rivalidade.

EMÍLIO: Quem começa?

ALEX: Ela é melhor. Se apresenta aí.

(fundo musical: “Cheli” – “Cheli! Pensei muito em ver você, Cheli, pra dizer: sem você não sei viver, Cheli!”)

MICHELI: (sorridente) M-I-C-H-E-L-I.

O dia da lei é 24 de abril de 2002.

ESTELA: Só que, pra lei funcionar, precisa de um decreto.

MICHELI: Claro! A rapadura é doce, mas não é mole, não! De quando é?

ESTELA: O decreto é de dezembro de 2005. Ele diz que a Libras é obrigatória pros cursos que formam professores...

EMÍLIO: Como Letras?

ALEX: E Pedagogia.

MICHELI: Sem falar em Fonoaudiologia... (olha para o lado direito com desprezo) O nome dela é...

(fundo musical: “Estela” – “Estela, estrela do meu infinito é você”)

ESTELA: (sorridente) E-S-T-E-L-A.

ALEX: Alguma pergunta?

(fundo musical: “Estela” – introdução com efeito feminino e na velocidade 0,8)

ESTELA: Sim. Você prefere...

MICHELI: Cuscuz com charque...

ESTELA: Ou macaxeira com carne de sol?

EMÍLIO: Bom... Eu queria saber sobre os surdos.

Elas balançam a cabeça afirmativamente.

MICHELI: Os surdos têm prioridade nos cursos de formação...

ESTELA: E os institutos federais têm que garantir a inclusão dos surdos.

MICHELI: Eles têm direito à educação...

ESTELA: Ao acompanhamento médico...

MICHELI: Ao atendimento educacional especializado...

ESTELA: E à atenção à saúde.

MICHELI: Para de me interromper!

ESTELA: Tá braba, é?

MICHELI: Cadê a minha peixeira?

(fundo musical: “Cheli” – introdução com efeito metálico e na velocidade 1,2)

Em ritmo acelerado, Micheli e Estela agarram-se pelos cabelos. Sem pensar duas vezes, Alex puxa Emílio pelo braço e foge do local.

27/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | CENA 5

 Personagens: Alex, Emílio, Júlia e Leda

Locação: portão de acesso às salas do AEE e dos professores


Júlia está com a mão encostada na grade, claramente irritada. Os meninos percebem o estado da moça.

EMÍLIO: O que foi?

JÚLIA: Em 1911, o instituto começou a praticar o oralismo em sala de aula.

EMÍLIO: É... O que é isso?

ALEX: (revira os olhos, demonstrando impaciência com a pergunta / um balão traduz o pensamento do personagem)

O bicho é tabacudo demais, na moral!

JÚLIA: Oralismo é quando você usa a linguagem oral, mesmo sem saber. Desculpe, eu tô tão arretada, nem me apresentei.

ALEX: É mesmo! Qual é o teu nome?

(fundo musical: “Jura que me ama” – “Júlia, Júlia, jura! Jura que me ama”)

JÚLIA: (com alegria) J-Ú-L-I-A.

Sentada em frente ao arbusto que está de frente à sala 03, Leda olha para Júlia com incredulidade.

LEDA: “Mulé”...

Emílio e Alex olham para o lado direito, percebendo a presença da personagem.

LEDA: Tu não “sabe”! (olha para a câmera, como se mirasse os rapazes) Vocês conhecem Milão?

EMÍLIO: Muito! Eu já fui pra lá...

LEDA: (levanta-se irritada) Esqueça!

A ação brusca de Leda faz Emílio correr para atrás de Alex.

LEDA: Teve um congresso lá, menino! Os surdos não podiam falar na Língua de Sinais! A gente copia tudo que é ruim, não sabe?

ALEX: Em 1916, o Código Civil Brasileiro dizia que todo surdo era incapaz. Já pensou?

EMÍLIO: (sai de trás de Alex) E a Libras? Quando foi que aceitaram os sinais?

LEDA: Lá no ano de 1970. O surdo não precisava mudar, mas a avaliação sobre ele mudou. Hoje em dia, a Libras é a primeira língua do surdo e o Português escrito é a segunda.

ALEX: Obrigado pela explicação, Dona... Esqueci teu nome.

(fundo musical: “Leda” – “Leda, a natureza deu-te a beleza de um prado em flor”)

LEDA: (sorridente) L-E-D-A.



26/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | CENA 4

Personagens: Alex, Emílio e Kelly

Locação: parede externa da sala 01


Assim que se aproximam de Kelly, Alex apresenta a nova colega para Emílio.

ALEX: Esta é a...

(fundo musical: “Kelly” – “oh, Kelly! Oh, oh, oh, Kelly! Você é pra mim um pedaço de mim”)

KELLY: (sorridente) K-E-L-L-Y.

EMÍLIO: Prazer em te conhecer.

KELLY: O segundo imperador do Brasil criou o instituto e a Lei nº 939.

A tela projeta o nome de Dom Pedro II.

EMÍLIO: E ela diz o quê?

KELLY: A Lei determina a verba do instituto e uma pensão para os dez alunos.

EMÍLIO: Dez alunos?

KELLY: E um professor surdo francês, que usava a língua de sinais e a escrita.

Novamente há uma projeção, com o nome de Edward Huet.

Emílio caminha um pouco, deixando Kelly e Alex sozinhos. Mas o condutor da viagem vai atrás do advogado do mundo real.


25/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | CENA 3

Personagens: Alex, Emílio e Olga

Locação: escadaria da sala da coordenação


Quando os dois rapazes chegam perto da escadaria da sala da gestão, encontram Olga à espera deles.

ALEX: Pergunte o que quiser.

EMÍLIO: Qual é o teu nome?

Alex olha para Emílio com uma expressão tediosa antes de Olga responder.

(fundo musical: “Olga” – “oh, Olga! Olga, meu bem! Oh, Olga, vem pra mim”)

OLGA: (sorridente) O-L-G-A.

ALEX: (ainda com o rosto voltado para Emílio) Só isso?

EMÍLIO: A Libras nasceu no ano de 2002 mesmo?

OLGA: (balança a cabeça para reprovar a pergunta feita) Nada... No ano de 1856 foi criado o Instituto Nacional de Educação de Surdos. Foi neste lugar que os surdos começaram a se ver. Igual ao Parque Treze de Maio, conhece?

EMÍLIO: Não.

Olga revira os olhos, demonstrando tédio pelo desconhecimento de Emílio. Alex o tira da frente da advogada e com ele vai a outra parte da escola.


24/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | CENA 2

Personagens: Alex e Emílio

Locações: calçada do portão lateral / pátio da escola


(fundo musical: “Estela” – vocalização dos primeiros segundos na velocidade 0,5)

Mostra-se uma árvore sob um céu nublado. Depois, vê-se os sapatos de Emílio caminhando por uma calçada úmida. O personagem anda devagar, e o público ouve os seus pensamentos.

EMÍLIO: Como é que eu vou resolver esse caso? O máximo de Libras que eu sei é meu nome e olhe lá, nem batizado eu fui pra ter sinal.

Um pouco cansado, ele coloca a mão esquerda sobre o portão lateral da Erem Amaury de Medeiros. Sem que o advogado se dê conta, um círculo colorido – baseado no arco-íris da bandeira pernambucana – envolve a parte descrita.

EMÍLIO: Agora só falta aquela corna de Ivete me botar pra...

(fundo musical: “La belle de jour” – vocalização)

O pensamento é interrompido pelo grito de Emílio, que é sugado pelo portão. O efeito sonoro de magia é acionado.

(obs.: a câmera deve estar parada no momento em que Emílio desaparece, para não ficar evidente o truque)

A câmera passa a estar dentro da escola. Emílio entra bruscamente, quase caindo, e depara-se com Alex bastante calmo. Automaticamente, ele passa a comunicar-se em Libras.

EMÍLIO: Onde é que eu tô?

ALEX: Na feira de Afogados é que não está!

EMÍLIO: Peraí... Eu tô falando Libras.

ALEX: Bem-vindo.

Os dois caminham pelo pátio enquanto dialogam.

EMÍLIO: Como eu entrei aqui?

ALEX: O importante é como você vai sair.

EMÍLIO: Sabendo tudo sobre a Lei?

ALEX: Exato.

EMÍLIO: Eu posso filmar?

ALEX: Deve.


23/08/2026

INTERPRETAÇÕES PERNAMBUCANAS | ABERTURA, PRÓLOGO E CENA 1

 ABERTURA


(inicialmente com os logos postos sobre um fundo preto)


Governo de Pernambuco – Secretaria de Educação e Esportes


Gerência Regional de Educação Recife / Sul


e Escola de Referência em Ensino Médio Amaury de Medeiros


apresentam


PRÓLOGO


Exibe-se uma seleção de fotos de eventos em Pernambuco promovendo a Língua Brasileira de Sinais. A locução deste momento é feita por Emílio, usando canções pernambucanas como referência. O filtro das imagens é Sepia.

EMÍLIO: Por muito tempo a comunidade surda foi ignorada no Brasil e no mundo. As línguas de sinais eram proibidas, e os que não escutavam eram orientados a desenvolver a fala.

É como se, falando o pernambuquês, o surdo fosse a bola da vez que o mundo deixou passar.

Foram séculos de luta, mas ela não teve fim feito espumas ao vento, não. Só no Brasil, os surdos estão desde o século XIX arengando pra que o direito de usar os sinais seja respeitado.

A maior conquista talvez seja o reconhecimento legal da Língua Brasileira de Sinais em 2002. Um sistema baseado na Língua de Sinais Francesa, mas com uma estrutura linguística que difere do Português.

E por falar em “legal", não fica achando que toda lei existe pra ser seguida, não, cabra safado! Na verdade, existe pra ser interpretada. Acho que eu vi isso numa novela do canal 13.

Se você tá que nem o garçom e já cansou de escutar essa conversa mole, pega a pipoca Veneza e o biscoito Treloso pra acompanhar essa história.


CENA 1

Personagem: Emílio

Locação: calçada da Erem Amaury de Medeiros


(fundo musical: “Maceteando” – com efeito de voz masculino e na velocidade 1,2)

Uma sequência de seis a sete imagens de placas do bairro de Afogados surge em concordância com o arranjo da canção instrumental. Depois, vê-se em diferentes pontos, o tráfego de veículos pela Rua São Miguel – quando o título do filme surge.

Na faixa de segurança em frente ao São Miguel Center espera Emílio para atravessar, fazendo-o quando o semáforo de pedestres acende a cor verde. Ao chegar à calçada do outro lado da rua, o fundo musical diminui até cessar. O advogado ouve o celular tocar e coloca a mão no bolso.

(fundo musical: “Mentirosa” – com efeito de personagem masculino e na velocidade 1,1)

EMÍLIO: Oi.

IVETE: Dormisse comigo, foi?

EMÍLIO: Desculpa, Doutora. Foi a pressa pra pegar o metrô pra Camaragibe.

IVETE: Tem uma missão pra tu. A mãe de uma menina tá processando um colégio particular.

EMÍLIO: Por causa de quê?

IVETE: A menina é surda e pediu um intérprete. A diretora disse que não vai arranjar. Por isso pensei em tu pra pegar esse caso. Tu não fizesse um curso em mil novecentos e bolinha, não foi?

EMÍLIO: Sim, mas isso foi no primeiro mandato de Jarbas! Faz é tempo!

IVETE: A causa já tá ganha, é só estudar a Lei 10.436, de 2002.

EMÍLIO: Dez mil e quanto?

IVETE: Vou mandar o PDF pra tu ler. Amanhã tem reunião no escritório, de nove horas.

EMÍLIO: Eita, Doutora! Bote outro, vá! Já tô quebrando a cabeça com aquele menino que encontrou uma catita na pipoca...

IVETE: Se quiser se manter empregado, vai ser tu mesmo. O pessoal tá deixando de pagar os honorários pra apostar no tigrinho. O escritório tá dependendo de tu. (desliga)

EMÍLIO: Doutora? Tá me escutando? (constata o encerramento da ligação) Miserável das costas ocas!


24/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 5

 

Nilo e Márcio olham para o público e compartilham comportamentos que confirmam o preconceito sofrido por negros.

NILO: Nós somos a maior nação composta por negros fora do continente africano.

MÁRCIO: Mas deixamos de pedir informações à polícia nas ruas...

NILO: Evitamos correr atrás de um ônibus pra não sermos confundidos...

MÁRCIO: Preferimos não entrar em lojas de marcas pra evitar confusão...

NILO: E temos três vezes mais chances de morrermos do que uma pessoa branca.

MÁRCIO: Não estamos errados. Errado está o racismo, que pode ser praticado por você, sem nem ao menos perceber.

É exibido um vídeo com imagens de figuras negras que marcaram a história do país ao som da versão ao vivo da música “Identidade”. Márcio e Nilo continuam no centro do auditório.

LETRA: Elevador é quase um templo, exemplo pra minar teu sono. Sai desse compromisso, não vai no de serviço. Se o social tem dono, não vai. Quem cede a vez não quer vitória: somos herança da memória, temos a cor da noite, filhos de todo açoite, fato real de nossa história.

Os demais integrantes do elenco reingressam no cenário, cantando a canção, juntamente com os protagonistas (caso queiram, formando um círculo).

LETRA: Se preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade, não nos ajuda; só nos faz sofrer, nem resgata nossa identidade. Se preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade, não nos ajuda; só nos faz sofrer, nem resgata nossa identidade.

23/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 4

 

Enquanto o auditório ainda está no escuro, ouve-se Marcos trazendo um dado novo aos espectadores.

NARRADOR: Só nos primeiros meses do ano passado, o Disque Direitos Humanos recebeu mais de 3.400 ligações que denunciavam casos de injúria racial.

As luzes são religadas, já com a presença de Breno, que está ao lado de André.

BRENO: Qual de vocês acionou a polícia?

ANDRÉ: Eu. Vim com meus filhos pra cá e fui vítima de racismo.

JULIANA: Não é bem assim, é só um mal-entendido.

BRENO: Quem foi racista com você?

LUIZA: Ninguém. É que eu pedi pro segurança revistar a mochila dele. Mas ele disse que só ia abrir quando a polícia chegasse... Desnecessário.

BRENO: Muito bem. Você tem a dizer o que sobre isso?

André tira a mochila das costas e abre o objeto na frente de todos.

ANDRÉ: Viram? Não tem nada que eu tenha levado daqui. (vira-se de costas) Quer revistar pra ter certeza?

BRENO: (sinaliza para Diego) Faz a revista nele.

Diego obedece e constata que André não cometeu nenhum furto.

LUIZA: Sinceramente, não precisava disso tudo. Ninguém tá te acusando de nada.

ANDRÉ: Tava, sim. Ela veio atrás de mim, disse que me achou parecido com um que entrou aqui outro dia, só por causa do cabelo.

JULIANA: (vira-se para Luiza) Isso é sério? Olha só, delegado, a nossa farmácia tem uma política pra que pessoas negras sejam 20% do nosso quadro de funcionários. O que houve com esse moço foi um caso isolado.

NILO: Só se for de hoje. E envolvendo um cliente, porque a gente sabe bem quem vocês são.

JULIANA: Que é isso, Nilo? Você sabe que eu não sou racista...

NILO: Será que não?

Nilo retira do bolso o celular e aciona uma gravação feita assim que Márcio passou a trabalhar na rede de farmácias. Breno e os demais veem o vídeo que Juliana gravou e compartilhou no grupo da empresa para apresentar o jovem.

 

JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não entra mais nenhum, viu? Beijos.

 

JULIANA: Pra que você guardou isso? Eu já tinha até apagado do grupo...

BRENO: Juliana... Luiza... Deixa eu apresentar o André. Ele é um dos nossos agentes. A gente vem recebendo algumas provas materiais enviadas pelo Nilo há um tempo.

MÁRCIO: Você tava colaborando esse tempo todo com a polícia?

NILO: Desculpa eu ter me calado. Mas alguém tinha que parar essas duas.

LUIZA: Olha, a gente pode explicar...

BRENO: Com certeza, mas não aqui. Podem me acompanhar, por favor (aponta para a porta). E você também, como testemunha.

Luiza e Juliana saem de cabeça baixa, envergonhadas e andando lentamente. Elas são seguidas por Diego. Por fim, acompanham Breno André, Cecília e Davi. Nilo e Márcio ficam sozinhos no cenário.

22/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 3

 Diante das luzes novamente acesas, André entra na farmácia, acompanhado pelos seus filhos, Cecília e Davi. Ele está com uma mochila preta nas costas, olha para as prateleiras e pergunta ao filho:

ANDRÉ: O que foi que tua mãe pediu pra comprar mesmo?

DAVI: Duas caixas daquele xarope pra tosse, eu esqueci o nome.

CECÍLIA: Polaramine.

ANDRÉ: Beleza. Vocês me esperam lá no caixa, onde tá aquele rapaz (aponta para Márcio). Vou ver se acho o remédio.

André afasta-se dos meninos, que ficam próximos à Márcio, como solicitado. O pai dos garotos passa a vasculhar uma das prateleiras, em busca do medicamento. De longe, Luiza observa o rapaz e sai do balcão lentamente, indo em direção sem que ele repare em sua aproximação. Discretamente, Diego entra no estabelecimento e fica perto das crianças, como se fosse um cliente qualquer.

MÁRCIO: Vocês estão juntos?

CECÍLIA: É, Painho foi ali pegar o remédio.

MÁRCIO: Ah, de boa. 

Quando André finalmente encontra as caixas da medicação, vira-se e dá de cara com Luiza. 

LUIZA: Achou o que tava procurando?

ANDRÉ: Graças a Deus, é capaz até da minha mulher não me deixar entrar em casa sem isso daqui. Dá licença...

LUIZA: Pra que a pressa? Você até que demorou pra achar...

ANDRÉ: É que meus filhos estão me esperando lá no caixa.

LUIZA: E é só isso que você vai levar?

ANDRÉ: Como assim? Eu não tô entendendo.

LUIZA: Tô lembrada de você. Veio aqui na semana passada, quando viu o segurança foi embora. Reconheci logo por causa do cabelo.

ANDRÉ: Deixa eu completar a frase: o cara que você viu na semana passada também era negro. E você tá achando que sou eu?

LUIZA: Achando nada, tenho certeza!

Márcio percebe o que está acontecendo e vai ao encontro de André e Luiza. As crianças seguem o operador de caixa.

DAVI: Pegou o remédio, Pai?

ANDRÉ: (procura disfarçar o constrangimento na frente das crianças) Já, tava levando pro caixa agorinha.

LUIZA: (olha para trás e vê Diego) Mas antes disso... Diego, vem cá.

O segurança chega perto dos quatro.

DIEGO: Que foi?

LUIZA: Abre a bolsa dele, por favor. 

MÁRCIO: É o quê? Não, Luiza, peraí. Eu vi esse pessoal entrando...

LUIZA: Mas não viu quando ele se afastou. Ele pode ter colocado alguma coisa sem que você visse.

ANDRÉ: Sério isso? Eu com a minha filha doente e você me mete essa?

MÁRCIO: Luiza, o menino falou que o pai tava atrás do remédio. Você ouviu.

LUIZA: Os dois devem ter combinado antes de entrar aqui. Se duvidar, nem filhos dele são. Olha a diferença.

Nilo e Juliana chegam juntos e questionam:

JULIANA: O que tá acontecendo aqui?

LUIZA: Nada, eu só pedi pro Diego abrir a mochila desse moço.

NILO: Por quê?

ANDRÉ: Ela acha que eu roubei.

LUIZA: Não foi isso que eu disse.

CECÍLIA: Falou, sim. A gente viu, e ele também (aponta para Márcio).

JULIANA: Foi isso mesmo, Márcio?

MÁRCIO: Foi. Ela acha que ele botou alguma coisa na bolsa quando se afastou da gente.

JULIANA: (após três segundos sem falar) Bom, eu sabia que tinha um motivo forte pra isso. (olha para Diego) Já fez a revista nele?

DIEGO: Vou fazer agora. Abre a bolsa aí, parceiro.

ANDRÉ: Certo... Quando a polícia chegar, eu abro.

LUIZA: Que isso, meu amigo? A gente pode resolver tudo sem confusão...

ANDRÉ: Agora? Não, eu faço questão. Quem vai ligar? Eu ou vocês?

As luzes são desligadas por dez segundos, para que Breno entre no cenário.


21/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 2

 

Com o religamento das lâmpadas, vê-se Luiza trabalhando num dos caixas da farmácia. Nilo leva Márcio para conhecer a colega de trabalho.

NILO: (fala enquanto vai caminhando) Deixa eu te apresentar... (os rapazes sobem o degrau e aproximam-se da operadora) Luiza?

A moça olha Márcio de cima a baixo, permanecendo sentada e expressando estranhamento.

NILO: Esse daqui é o Márcio, ele ficou com a vaga.

MÁRCIO: (estende a mão para cumprimentá-la) Prazer.

LUIZA: (levanta-se, ainda estranhando o rapaz) Seja bem-vindo.

MÁRCIO: Obrigado. (volta o rosto pra Nilo) Onde é que eu fico mesmo?

NILO: Aqui, vem. (leva Márcio até o outro notebook) Qualquer duvida você pode tirar com ela, que vai te orientar.

LUIZA: Nilo, o fabricante ainda não enviou o lote de antialérgico.

NILO: Ainda? Peraí, eu vou ligar; era pra ter chegado desde ontem...

MÁRCIO: (toca o ombro de Nilo) Você disse que a gerente vinha me conhecer?

NILO: Ela já chegou, que eu vi mais cedo...

Juliana entra na farmácia (pela porta principal do auditório).

NILO: Olha ela aí. Dá licença. (desce o degrau e coloca o celular sobre uma das orelhas, inicialmente falando com o fornecedor, pondo-se no meio do auditório)

JULIANA: (sobe os degraus e chega perto do novo funcionário) Você é o Márcio, né?

MÁRCIO: Sou. Você é a gerente?

JULIANA: Pode me chamar de Juliana. O Nilo tinha me falado de você. Muito prazer (aperta a mão do novo funcionário). Ele ficou impressionado com tuas referências.

MÁRCIO: É, eu já tinha experiência em duas farmácias lá no Cordeiro e outra em Boa Viagem. Aqui fica melhor, mais perto de onde eu moro.

JULIANA: Perfeito. Você não sabe o incêndio que tua chegada apagou. O menino foi transferido pra outra unidade, Luiza ficou sozinha aqui... Pense num caos!

MÁRCIO: (ri) Pode ficar tranquila, eu vou dar o meu melhor.

Obs.: Nilo encerra a ligação, mas olha por um instante para Juliana e Márcio juntos, mexe em algum botão do celular e o recoloca sobre a orelha.

JULIANA: Pode te pedir uma coisa?

MÁRCIO: Claro, é só falar. O que é?

JULIANA: Eu preciso jogar no grupo da empresa que a gente preencheu a vaga. Deixa eu filmar você?

Márcio consente com um sorriso e fica ao lado de Juliana enquanto ela aciona a câmera.

 

JULIANA: Bom dia, pessoal. Esse é o Márcio, nosso novo colaborador. Ele vem trabalhar no setor do caixa da nossa unidade aqui em Afogados. Dá um “oi” pro pessoal te conhecer. Aproveita, meu anjo, porque a ordem agora é escurecer a nossa rede; mas depois de você não entra mais nenhum, viu? Beijos.

 

JULIANA: Pronto. Já mandei pro grupo. Adorei te conhecer, viu? (dá dois beijos no rosto do rapaz) Fica à vontade. (sai do cenário)

MÁRCIO: (responde, desajeitado) Obrigado... (olha para os lados, até que vê Nilo no centro do auditório) É... Luiza o teu nome, né?

LUIZA: Isso.

MÁRCIO: Posso tirar uma dúvida com ele (aponta  para Nilo)? É que eu me esqueci de falar quando cheguei.

LUIZA: Uhum.

MÁRCIO: Valeu. (deixa o caixa e dirige-se a Nilo) Você ouviu a conversa?

NILO: Partes dela. O que houve?

MÁRCIO: Cara, eu boiei numa coisa. O que ela quis dizer com “escurecer a loja”?

NILO: Ela disse isso, foi? Vê só, Márcio: é que faz um tempo que 20% das nossas vagas são pra pessoas negras. Vai ver Juliana falou nesse sentido.

MÁRCIO: Sei, não. Tô achando que ela não gostou de mim... O motivo, eu não preciso nem dizer.

NILO: (olha pra baixo) Márcio, quer um conselho? Ignora. Deixa passar. Quem sabe esse emprego é o primeiro passo pra você progredir, crescer aqui na rede?

Juliana retorna ao cenário, indo falar diretamente com Nilo.

JULIANA: Me esqueci de te dizer, Nilo: o elevador emperrou de novo. Dá um jeitinho pra mim, por favor?

NILO: Claro.

JULIANA: Obrigada. (deixa o local novamente)

MÁRCIO: Trabalha com manutenção também, é?

NILO: Márcio, fecha os olhos. É o melhor que você pode fazer por você, vai por mim. Me deixa ir agora...

Pela segunda vez, as luzes são desligadas. Um novo dado é apresentado ao público (enquanto Márcio volta ao caixa, ficando ao lado de Luiza).

NARRADOR: No Brasil, 75% das pessoas acreditam que a principal forma de discriminação nas empresas é o racismo. Quem já sofreu discriminação nesses locais relata que os ataques costumam começar pelos colegas de trabalho, e depois pelos seus gerentes diretos.

20/07/2026

CASO ISOLADO | CENA 1

 

Márcio está sentado diante da mesa, um pouco preocupado sobre como será recebido. Do outro lado, segurando um envelope laranja vem Nilo, e senta-se com tranquilidade.

NILO: Seu nome é Márcio, né?

MÁRCIO: Isso.

NILO: Prazer, eu sou Nilo. A gerente da farmácia pediu que eu recebesse você, mas depois ela vai falar contigo.

MÁRCIO: Quer dizer que eu fui...

NILO: Uhum. (levanta o envelope para que Márcio o veja e olha a folha que está dentro) Também, com um currículo desses? Você é a pessoa certa pra ajudar Luiza aqui. Depois que a outra moça do caixa saiu, o serviço dela acumulou. (fica de pé) Bem-vindo, Márcio.

MÁRCIO: (também coloca-se de pé) Quando é que eu posso começar aqui na farmácia?

NILO: Amanhã mesmo. A gente abre às sete, então você vem um pouco antes.

MÁRCIO: Cara, muito obrigado mesmo, de verdade! (aperta a mão de Nilo)

NILO: Não precisa agradecer. Pode contar comigo.

As luzes são desligadas pela primeira vez. No escuro, aproveita-se a narração para que Luiza posicione-se e sente do lado esquerdo da mesa; e também para que os dois notebooks sejam postos sobre a mesa. Nilo e Márcio vão até a porta juntos (pode ser a principal do auditório, pode ser a que está perto de uma das escadas).

NARRADOR: 5,9% dos brasileiros que estão fora do mercado de trabalho são brancos segundo uma pesquisa encomendada pelo IBGE em 2023. Mas este índice muda para 8,9% se considerarmos apenas a população negra.

 

19/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 26

Personagens: Davi, Emanuel e João

Locação: Erem Amaury de Medeiros


(fundo musical: “Eu serei o amor” – refrão reduzido à velocidade 0,8 e com efeito de personagem feminino)

Em câmera lenta, a última cena mostra as ataduras de João sendo retiradas por Davi, que o faz com cautela (exceto a que está na cabeça do paciente).

LETREIRO: Seis meses depois...

DAVI: Eu tô de férias, agora eu tenho mais tempo pra cuidar de você. A médica disse que nada mudou, mas que você entende tudo. João... Eu tô muito feliz, mas tenho saudade de você.

Davi solta os braços de João e afasta-se do leito. O semblante do rapaz muda e ele passa a chorar diante do homem inconsciente. Ele pergunta usando as próprias mãos, como se o irmão pudesse vê-lo:

DAVI: Será que um dia você acorda?

Davi também está afastado da parede. Discretamente, Emanuel estende o seu braço direito e abraça o intérprete, que se mostra mais tranquilo após o ato.

DAVI: Sim. Esse dia vai chegar. (sorridentes, os dois olham para João) Que Deus te abençoe.

(fundo musical: “Um” – “assim eu sinto, assim que é/ se eu tirar meu Deus de mim, eu não existo/ sem Ele não há eu/ acima da compreensão/ Eu e Ele somos um, e eu insisto/ sem Ele não há eu/ sem Ele não há eu, não/ sem Ele não há”)

A câmera mostra Emanuel e Davi caminhando juntos, focando apenas nos pés de ambos. Depois que eles deixam o quarto, a filmadora chega cada vez mais perto do rosto de João, parando de aproximar-se quando o rapaz, com dificuldade, abre os olhos.


Créditos finais do episódio


(fundo musical: “Deserto” – “na sequidão/ surgiam oásis/ mas a sede da alma/ findava com a oração”)

dirigido e roteirizado por

THIAGO BARROS


colaboração de roteiro

CAUÃ ARAÚJO

CÉLIA BISPO


edição

INSHOT


músicas

“DISTANTE DO QUE SOU”

composição de EDUARDO FARO

interpretação de ROSA DE SARON


“SEM MEDO (AO VIVO)”

composição de SHERI CARR

interpretação de MINISTÉRIO VINEYARD E ANA PAULA VALADÃO


“EU SEREI O AMOR”

composição de EDUARDO CARDOSO, JORGE BONINI E LAURA SALVADOR

interpretação de COMUNIDADE CATÓLICA SHALOM


“DESERTO”

composição de ANDRÉ LEITE, DINARTE, ELOY CASAGRANDE E TIAGO MATTOS

interpretação de IAHWEH E PADRE FÁBIO DE MELO


“SEM O TEU AMOR”

composição de KLEBER LUCAS

interpretação de MELOSWEET


“EU TE LEVANTAREI”

composição e interpretação de FREI GILSON


“A DEUS”

composição de DUCA TAMBASCO, JEAN CARLOS E JUNINHO AFRAM

interpretação de OFICINA G3


“UM”

composição de FERNANDO ROCHAEL

interpretação de CORAL JOVEM UNASP E ADRIENE NACHTIGAL


Esta é uma obra independente de ficção, baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade.

Qualquer semelhança com fatos, nomes ou pessoas reais terá sido mera coincidência.


© 2026 Praticando Libras


Valorize o maior presente que você tem.

Se precisar de ajuda, ligue para 188.

Não se esqueça: você não está sozinho.


18/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 25

Personagens: Emanuel e João

Locação: Forte das Cinco Pontas


(fundo musical: “Eu te levantarei” – introdução reduzida à velocidade 0,8 e com efeito metálico)

Emanuel está sobre um banco de madeira, olhando para cima. João entra em cena coçando a nuca, demonstrando inquietação, e põe-se ao lado do braço do banco, mas ainda de pé.

JOÃO: (olha para o vácuo) Não precisava ter feito o que eu fiz. Mas a minha dor era tão grande que eu só queria que ela acabasse... Agora eu sei que, mesmo sem eles me entenderem, iriam sofrer por minha culpa... (acredita que Emanuel está distraído ao olhar para ele) Você prestou atenção no que eu disse?

EMANUEL: (abaixa a cabeça para olhar para João) Em tudo que você disse (deixa as mãos paradas, para que o amigo perceba quem ele é).

JOÃO: (sai do lado do braço do banco e toca as mãos de Emanuel) Que marcas são essas?

(fundo musical: “A Deus” – “por amor a ti Eu me entreguei/ foi por amor, Meu sangue derramei/ Me humilharam, Me surraram, desprezaram/ Me pregaram numa cruz/ foi o preço pra poder te libertar/ uma nova história escrever/ Eu morri em teu lugar/ por amar tanto você” – em versão lenta e com eco)

EMANUEL: Todas as coisas que te proibiam de viver ao lado de Deus.

JOÃO: Isso quer dizer que você é...

EMANUEL: Caminho, verdade, vida... Igual ao que está no livro de João.

JOÃO: (sorri) Eu achei que tivesse tanta coisa pra te dizer. Tô te vendo agora, e não sei o que dizer.

EMANUEL: Acho que você quer saber uma coisa nesse momento.

JOÃO: Eu morri?

EMANUEL: Não. Mas precisa morrer.

JOÃO: Não entendi.

EMANUEL: Nunca prometi uma vida tranquila na Terra. O que não falta é aflição... Mas eu estou junto a você.

JOÃO: (olha para o lado) O que você viu em mim pra me amar tanto? (vira o rosto para Emanuel e olha para si próprio) Eu sou errado!

EMANUEL: Quando você voltar, muitas coisas estarão diferentes. Você também: terá aprendido a confiar. Nada é no seu tempo. Nem o de morrer.

JOÃO: Mas o meu corpo? Como ele vai ficar depois do que eu fiz?

EMANUEL: (toca duas vezes a testa de João com o dedo indicador) Toma conta dele. É o lugar onde eu moro.

João olha para Emanuel por alguns segundos, sente que os olhos estão ficando marejados e aproveita a oportunidade para abraçá-lo. A tela fica branca por cinco segundos, marcando a transição entre uma sequência e outra.


17/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 24

Personagens: Davi e Íris

Locação: Casa da Cultura


(fundo musical: “Sem o Teu amor” – “no Teu esconderijo, Senhor/ eu abro meu coração e sou o que sou, sem medo/ no Teu esconderijo, Senhor/ eu tenho libertação e conto o meu maior segredo”)

Há uma transição entre a cena ambientada na penitenciária e a nova visita à Casa da Cultura, mostrando pessoas circulando pelo espaço cultural em câmera lenta. As imagens são encerradas quando Davi é visto num dos bancos do pátio, olhando para o céu. Com serenidade, Íris fica junto do intérprete.

ÍRIS: Como você está?

DAVI: Igual...

ÍRIS: Não. Tá diferente. O que é?

DAVI: Minha vida tá mudando.

ÍRIS: Tomara que seja pra melhor.

DAVI: Posso fazer uma pergunta?

ÍRIS: Claro.

DAVI: Como você descobriu a sua vocação?

ÍRIS: Eu me transformei em psicóloga depois que meu pai morreu. 

DAVI: Desculpe, o assunto deve ser difícil pra você...

ÍRIS: Não precisa se desculpar. Eu pesquisei, estudei... Meu sonho é que as pessoas não tivessem uma perda igual à minha.

DAVI: Se eu tivesse dito isso ao João... Seria outra história.

Por alguns segundos, Íris para de sinalizar com Davi; contudo, volta ao ter uma ideia. 

ÍRIS: Mas você pode mudar a história de alguém.

DAVI: De que jeito?

ÍRIS: (tira o celular do bolso e procura uma mensagem específica) Leia.

(obs.: nenhum ator aparece sinalizando, a interação entre Davi e o emissor da mensagem ocorre pela linguagem escrita)

EMISSOR: Hoje eu tive vontade de novo. Corri pro banheiro e peguei a lâmina, quase cortei meus pulsos. Odeio essa certeza de ninguém gostar de mim, de não fazer falta se eu desaparecer. Eu só queria que essa dor acabasse de uma vez...

DAVI: E agora?

ÍRIS: Agora você responde.

DAVI: Mas é você que trabalha com...

ÍRIS: Responde.

(fundo musical: “Eu serei o amor” – “ó Jesus, meu amor/ encontrei, afinal, minha vocação/ ó Jesus, meu amor/ eu serei o amor e, desse modo, serei tudo...”)

Receoso, Davi começa a teclar.

DAVI: O primeiro passo você já deu. Quantos estão como você, sem admitir que precisam de ajuda? O maior presente que você tem é a sua vida. Não desista: você não está sozinho.

Íris observa Davi com satisfação. O intérprete suspira após enviar a mensagem, olhando para a moça, demonstrando entender o quanto pode ajudar quem tem o mesmo problema vivido por João.


16/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 23

Personagens: Susana, Tânia e Valquíria

Locação: Erem Amaury de Medeiros


Na penitenciária, Susana espera pela visita olhando para baixo. Tânia conduz Valquíria até onde a irmã está, e orienta-lhe antes que ela sente diante da criminosa.

TÂNIA: A visita não pode demorar. Eu vou ficar na porta.

VALQUÍRIA: É rápido, eu prometo.

Tânia permite que Valquíria aproxime-se de Susana.

SUSANA: Você chamou um advogado?

VALQUÍRIA: Não. Só queria perguntar pra você... Por quê?

SUSANA: Me perdoa, eu não sabia o que tava fazendo. Eu tô doente, irmã...

VALQUÍRIA: Doente está o João. Por culpa sua.

SUSANA: Ele não pode ser mais importante do que eu. Eu sou a sua família!

VALQUÍRIA: Você se esqueceu disso quando quis matar a Bianca!

SUSANA: Como é que ela está?

Impaciente com a pergunta, Tânia revira os olhos diante do cinismo da presidiária.

VALQUÍRIA: (ri) A gente não acredita mais em você! Então para de fingir que tá preocupada!

SUSANA: Por favor, me tira daqui! Eu prometo que eu vou me curar!

VALQUÍRIA: Gente como você não tem jeito. Por isso eu vou fazer tudo pra você não sair daqui.

Valquíria vai embora e deixa Tânia sozinha com a criminosa. A policial encara Susana de perto.

SUSANA: (com cara de aflição) Conversa com a minha irmã. Ela vai conseguir me tirar daqui.

TÂNIA: Já me acostumei com mulheres parecidas contigo... Psicopatas. Daqui você não sai tão cedo.

Quando Tânia deixa a irmã de Bianca e Valquíria sozinha, a antagonista para de fingir e volta a expressar a frieza com que estava antes da visita da empresária.


15/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 22

Personagens: Davi e Renan

Locação: Erem Amaury de Medeiros


(fundo musical: “Eu serei o amor” – “com meu amor quero Te alegrar/ Tu bem sabes, só a Ti quero agradar/ realiza, ó Jesus, o meu mais ardente desejo/ que é Te amar acima de tudo e de todos”)

A fachada da igreja é vista pela última vez durante a trama. Em seguida, Renan carrega os papéis relacionados ao seminário, para depois sentar-se diante de Davi.

DAVI: O que é isso?

RENAN: Os documentos do seminário. Quase todos assinaram... (entrega ao rapaz uma caneta) Só falta você.

DAVI: (hesita em assinar, para depois afastar o papel de si) Não posso.

RENAN: A justificativa é o seu irmão?

DAVI: Não.

RENAN: Mas a responsável foi presa. Você impediu que ela prejudicasse a irmã.

DAVI: Fiz pra me vingar... E o pior é que eu gostei.

RENAN: (fecha os olhos por alguns segundos) E você quer cuidar de pessoas assim?

DAVI: À vida toda eu sonhei em ser padre. Agora eu não tenho direção. O que eu faço? 

RENAN: Por que você acha que a sua vocação está na igreja?

DAVI: Foi assim que eu aprendi.

RENAN: Os seus alunos não acham isso, por exemplo.

DAVI: O que o senhor quer me dizer?

RENAN: Estar na igreja é importante, mas nós precisamos de uma preocupação maior.

DAVI: Qual?

RENAN: Sermos a igreja.

(fundo musical: “Deserto” – parte instrumental acelerada à velocidade 1,2 e com efeito de personagem feminino)

Renan abraça Davi para tentar acalmá-lo, mas o que se vê é o intérprete olhando para cima, buscando compreender o que o padre acaba de dizer.


14/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 21

Personagens: Davi, Bianca, Susana, Tânia e Valquíria

Locação: casa


(fundo musical: “Sem medo” – parte instrumental reduzida à velocidade 0,4 e com efeito de personagem infantil)

A imagem inicial está fora de foco, em câmera lenta. Tânia sai da casa conduzindo Susana até a viatura, colocando o corpo da antagonista à sua frente. Abraçadas, Bianca e Valquíria seguem a policial, completamente transtornadas com a detenção da irmã.

Como a delegada havia deixado o portão aberto, Susana caminha pela calçada. Tanto a vilã quando a policial param de andar quando Davi se põe diante das duas, com o olhar irônico, aparentando certa ingenuidade.

DAVI: Desculpe. Não sei guardar segredo.

Susana tenta avançar contra o seminarista, mas é contida por Tânia. O olhar de Davi passa a ser de desprezo para com a criminosa. Ele, então, entra na casa e abraça Bianca e Valquíria. A terceira irmã, agora presa, observa os três juntos por alguns segundos antes de ser posta na viatura. 

Enquanto as mulheres choram, a sirene da viatura é ouvida pelos espectadores.


13/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 20

 Personagens: Bianca, Susana, Tânia e Valquíria

Locação: casa


Bianca levanta o rosto e olha para Susana, deixando de se movimentar em seguida. Valquíria, em choque com o que foi dito pela antagonista, solta os braços da mulher ansiosa. Ela aproxima-se da psicopata, que não desconfia de qual será a reação da empresária: uma bofetada em seu rosto, o que leva sua mão ao lado da face que foi atingido. 

VALQUÍRIA: Eu vi você jogando os remédios no lixo, você trocou!

Neste momento, a fachada da casa é mostrada, podendo se ouvir uma sirene de viatura policial. 

BIANCA: Você queria que eu ficasse nervosa pra Valquíria desistir. Queria o meu lugar!

SUSANA: Vocês estavam mentindo pra mim? Por quê?

BIANCA: Se você fez isso comigo, o que não deve ter feito com o João?

VALQUÍRIA: O que vai fazer agora? Matar a gente e depois fugir?

SUSANA: (finge arrependimento com o olhar) Fugir, não. Primeiro: eu mato você... Segundo: atiro nela. (a fala deixa Bianca atordoada) Depois eu chamo a polícia, digo que ela enlouqueceu... E te matou antes de atirar nela mesma. (anda para trás até quase encostar num gaveteiro)

Tânia caminha pela calçada lentamente, olhando para todas as direções até ingressar no terraço da casa.

VALQUÍRIA: O João está à beira da morte por culpa sua!

BIANCA: Calma, Valquíria! Ele vai acabar acordando...

SUSANA: Seria engraçado: ele vivo... E vocês não.

Rapidamente, Susana vira até a última gaveta e retira de lá um revólver, empunhando-o com precisão. O cano da arma está apontado para Valquíria, aparentemente sem reação diante da criminosa.

(fundo musical: “Distante do que sou” – versão instrumental na velocidade 5, com efeito metálico)

Mas a empresária corre e trava uma luta corporal para tirá-lo das mãos da psicopata. As duas agarram-no e acabam disparando contra a lâmpada da sala, deixando o recinto à meia-luz. Bianca fica apavorada e encosta-se à parede, abaixando-se.

A delegada está ainda no terraço da casa, mas à porta da sala de estar. Ela olha a movimentação e, escondida, tira o seu revólver da saia e o empunha para o alto. Por fim, Tânia entra para conter a briga e prender Susana. A câmera não acompanha o ingresso da policial na sala – a filmadora permanece no terraço e afasta-se da entrada da sala, voltando ao ponto preciso pelo qual Tânia entrou. Esse recuo dura dez segundos, e somente cessa quando o espectador ouve outro tiro.

(fundo musical: “Como se fosse a última vez” – “quando o dia chegar eu voltarei pra casa do meu Pai, feliz”)


Créditos finais do episódio


(fundo musical: “Deserto” – “na aflição/ imerso em nuvens negras/ o suor virou sangue/ o manso teve a visão”)

dirigido e roteirizado por

THIAGO BARROS


colaboração de roteiro

CAUÃ ARAÚJO

CÉLIA BISPO


edição

INSHOT


músicas

“DISTANTE DO QUE SOU”

composição de EDUARDO FARO

interpretação de ROSA DE SARON


“CUIDO DOS DETALHES”

composição de LÍLIAN MARINHO

interpretação de ANDRÉ & FELIPE E ISADORA POMPEO


“O AGORA E O FUTURO”

composição de EDIMAR CESAR DE ARAÚJO FILHO

interpretação de ARIANNE


“A DEUS”

composição de DUCA TAMBASCO, JEAN CARLOS E JUNINHO AFRAM

interpretação de OFICINA G3


“ALÉM DAS APARÊNCIAS”

composição de BENO CÉSAR E SOLANGE DE CÉSAR

interpretação de J. NETO


“COMO SE FOSSE A ÚLTIMA VEZ”

composição de ROGÉRIO SILVA E THAMIRIS GARCIA

interpretação de MINISTÉRIO ZOE


“DESERTO”

composição de ANDRÉ LEITE, DINARTE, ELOY CASAGRANDE E TIAGO MATTOS

interpretação de IAHWEH E PADRE FÁBIO DE MELO


Esta é uma obra independente de ficção, baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade.

Qualquer semelhança com fatos, nomes ou pessoas reais terá sido mera coincidência.


© 2026 Praticando Libras


Valorize o maior presente que você tem.

Se precisar de ajuda, ligue para 188.

Não se esqueça: você não está sozinho.


12/03/2026

SINAL DE VIDA | CENA 19

Personagens: Bianca, Susana e Valquíria

Locação: casa


(fundo musical: “Além das aparências” – refrão instrumental acelerada à velocidade 1,5 e com efeito de personagem masculino)

Pessoas transitam numa praça, enquanto a tela marca uma passagem de tempo.

LETREIRO: Algumas semanas depois...

Na sala de estar das três irmãs, Susana lê um livro. Valquíria está no sofá, observando a antagonista. 

VALQUÍRIA: O livro é bom?

SUSANA: Muito. Depois eu te empresto.

Com a porta aberta, as irmãs veem Bianca andando de um lado para o outro no terraço. Susana faz com o olhar um sinal para que Valquíria perceba que a irmã caçula não está bem. A empresária sai do sofá, vai até Bianca e a traz para a sala.

VALQUÍRIA: Bianca, o que foi? (coloca as mãos sobre os ombros de Bianca)

BIANCA: (desvencilha-se com violência) Não me toca!

SUSANA: (coloca o livro sobre a cadeira na qual está sentada) O que você tá sentindo?

BIANCA: (sorri para as irmãs) Felicidade! Muita felicidade! O dia chegou!

VALQUÍRIA: Dia? Dia de quê?

BIANCA: (aproxima-se de Susana e pega o livro, folheando rápida e bruscamente as páginas da obra para depois jogá-lo sobre o sofá) Não gostei.

VALQUÍRIA: Bianca, você tomou seu remédio?

BIANCA: Por quê? (fica séria) Você acha que eu fiquei louca?

Valquíria e Susana se olham, constrangidas com a pergunta.

VALQUÍRIA: Eu vou ligar pro psiquiatra... (pega o celular que está no sofá, mas Bianca o toma da sua mão e guarda o dispositivo no bolso)

BIANCA: Você não vai falar com ninguém!

VALQUÍRIA: Minha irmã...

BIANCA: (começa a pular no mesmo ponto enquanto fala) Eu não quero médico! Não chama! (Valquíria coloca-se atrás da irmã e agarra-lhe pelo tronco) Me solta! Me solta! (continua pulando de forma veloz enquanto o rosto parece se preparar para chorar)

VALQUÍRIA: (faz o sinal repetidas vezes passando a sua mão direita no pescoço de Bianca) Calma! Calma! Calma! Calma...

Valquíria mantém Bianca sob seu domínio usando o braço esquerdo e esta, após alguns segundos, abaixa a cabeça, aparentando tranquilizar-se, pulando com maior espaço de tempo. A empresária, atordoada, olha para Susana. 

SUSANA: Você viu? A Bianca tá fora de si! Ela não pode cuidar da empresa!