12/06/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 9: À ESPERA DO SOL

Ariane está em sua casa quando chega uma visita inesperada naquela manhã, ainda cedo.
-Caio?
-Eu posso entrar?
-Claro, entra- titubeia, antes de permitir- O que está fazendo aqui?
-Vim saber notícias da Gabriela.
-Que curioso. Você veio e Fábio não?
-O que quer dizer com isso, Ariane?
-Não é mera insinuação, Caio. Se trata da verdade. Fábio não é mais o mesmo com a minha filha.
-Você há de concordar que os dias têm sido difíceis. Pra todos nós.
-Concordo, mas essa mágoa da minha filha é injustificável. O Fábio deixou o hospital horas depois do acidente. Já se passaram três dias e ele não ligou pro celular da Gabriela, não foi ao hospital, não veio aqui, não procurou saber...
-Porque ele estava abalado. Eu mesmo insisti que o médico deixasse meu filho ver a Gabriela, mas ele não quis.
-O motivo é óbvio e você não quer entender. Seu filho não quer cruzar comigo.
-Não pensa besteira, Ariane. Parece até que você não conhece o Fábio.
-Ele está transferindo pra mim a responsabilidade pelo fim do seu casamento, deixou bem claro da última vez que esteve aqui.
-Bem, eu espero que você não veja tudo o que aconteceu como um empecilho pra que Gabriela e Fábio fiquem juntos. Eu não iria me perdoar se tivesse destruído a felicidade dele por causa da minha insatisfação com a vida. Já basta ter sido culpado pelo que nos aconteceu no passado.
-Por favor... Não ficou claro pra você que eu não quero mais bater nessa tecla?
-O que é que o senhor tem pra contar, Seu Caio?- Eduardo vem do seu quarto- Fala.
-Eduardo, o que pensa que está fazendo? Eu estou tendo uma conversa particular com o Caio.
-Desculpa, Mãe, mas não é mais tão pessoal assim. Desde que Seu Caio veio aqui pela última vez, a gente não teve um minuto de paz. Nem Fábio, nem Gabriela.
-Pelo que eu estou vendo, você está certo de que eu tenho a culpa do que aconteceu.
-Tô certo, sim.
-Eduardo, por favor!- Ariane tenta acabar com a discussão.
-Pelo seu filho e pela minha irmã, todo mundo merece uma explicação.
-O que, exatamente, você quer saber? Se eu ainda sou apaixonado pela sua mãe?
-Não. Mas esse romance interrompido veio à tona e tá trazendo consequências graves no namoro de Fábio e Gabriela.
-Aonde você quer chegar, meu filho?
-Que motivo a senhora teve pra largar o Seu Caio?
-Essa história só diz respeito a mim e ao Caio.
-A todo mundo. Aos seus filhos e à família dele. A gente tem o direito de saber.
-Mas não vão. Eu não reapareci na vida da Ariane pra reabrir ferida nenhuma. Tudo o que eu queria era saber se nós dois poderíamos retomar a nossa relação.
-E o senhor fala assim, nessa calma, como se não fosse casado?
-Eu não sou mais casado, Eduardo.
-Porque deixou alguma coisa pendente com a minha mãe, e que eu quero saber o que é.
-Se você pensa que Caio e eu somos amantes, ou que eu fui infiel ao seu pai, não é nada disso, meu filho...
-Então, fala! Fala por que você não ficou com ele lá atrás, quando vocês se conheceram!
-Porque eu cometi um erro. O pior erro da minha vida. E por causa dele, eu tive que sacrificar o meu relacionamento com a sua mãe. É tudo que eu posso dizer e é só isso que eu vou falar. Com licença- Caio deixa a residência.
-Satisfeito? Satisfeito em nos expor dessa maneira, Eduardo? Já te falei que não quero mais falar do que houve quando eu era namorada do Caio. Aliás, você não deveria ter saído pra escola?
-É, mas eu... Eu passei no quarto da minha irmã, pra dar um beijo e ver como ela tava.
-A sua irmã já acordou?- enxuga as lágrimas.
-A Gabriela sumiu, Mãe.
-O quê?

-Será que dá pra explicar por que você quebrou o nosso retrato, Fábio?
-Escorregou da minha mão, só isso. Além do mais, você me assustou. Você não avisou que vinha aqui.
-Agora eu preciso fazer isso na casa do meu namorado?
-Não é isso, é que... Pô, eu podia, sei lá, estar trocando de roupa...
-É que eu encontrei a sua mãe e ela me deu permissão pra subir. Se quiser, eu volto outra hora.
-Claro que não. Fica.
-Senti tanto a sua falta no hospital. Você saiu no mesmo dia, mas não foi lá me ver.
-O médico disse que era pra fazer o máximo de repouso. Por isso fiquei aqui. Como é que você tá agora?
-Viva. Mas a minha ansiedade acabou. Claro que eu não tô cem por cento, mas eu tava morrendo de saudade de você, meu amor- beija a boca do namorado, um pouco frio.
-Você não tem nada pra me contar, Gabriela?
-Tem alguma coisa que você queira saber?
-Não, não é isso, é que...
-Fala, amor.
-Nada, esquece. Também tava com muita saudade sua.
-Tava mesmo? Então por que você não foi me ver? Nem mandou saber pelo Edu se eu tava bem...
-Porque... Por vergonha.
-Vergonha de mim, Fábio? Que história é essa?
-O acidente você sofreu porque tinha ido atrás de mim. Não tive coragem de encarar sua mãe, nem seu irmão. A culpa do que aconteceu foi minha.
-Não repete isso nem de brincadeira. Não quero saber de você se culpando por nada. Podia ser com qualquer um, o motorista que bateu na gente ultrapassou o sinal vermelho- abraça o rapaz- Não fica assim, não aconteceu nada demais.
Durante o abraço, ecoa a pergunta na mente de Fábio:
-Como ela consegue mentir pra mim desse jeito? Eu não sei até quando vou aguentar, mas eu vou jogar a verdade na cara da Gabriela. Disso eu tenho certeza.

Mais um dia de trabalho na Casual Models, e a manhã já começa com boas notícias recebidas por Lúcia. Em sua sala, avisa à secretária pelo telefone.
-Assim que Victória chegar, pede pra ela vir até a minha sala.
-Ela já chegou à Casual, Lúcia.
-Então, localiza e manda ela entrar.
Passados alguns minutos, a promissora modelo vai ao encontro de sua chefe, ansiosa pelo que ela tem a dizer.
-Aconteceu alguma coisa, Lúcia?
-Aconteceu, sim. Eu fiz uma coisa sem o seu consentimento e queria me explicar.
-Como assim? Explica isso direito.
-Olha, Vicky, eu fiz uma seleção das suas melhores fotos e enviei pra alguns contatos que eu tenho no exterior. E uma empresa se interessou pelo material.
-Que empresa é essa? Alguma grife?
-Uma nova rede social, que já conta com adeptos no país de origem, a Alemanha. Os executivos da empresa querem ter você como o rosto único da rede, desde a divulgação nos países em que o site será implantado até a página de login. Eles te querem, Victória. Disseram que você tem o rosto perfeito.
-Você tá falando sério?
-Acha que eu ia brincar com uma coisa dessas, menina? É a tua chance de ouro!
-E quando essa empresa vai vir ao Brasil pra eu participar das campanhas de divulgação?
-Aí é que está o ponto que precisamos discutir. A empresa não vem.
-Não?
-A Netnetz quer você trabalhando lá na Alemanha. Por dois anos. Se você aceitar a proposta e assinar contrato, vai ter que deixar o Brasil.
-Ir embora daqui?
-Pensa na proposta, Victória. É uma oportunidade sem igual. Você consegue se imaginar longe do Brasil?

11/06/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 8: HOJE EU VOU SAIR DE CENA

-A Gabriela? O senhor tá mentindo pra mim, não tá?
-Olha, eu sinto muito... Pensei que ela havia contado pra você sobre a gestação. Mas pelo visto você foi pego de surpresa...
-Tem certeza de que ela tava mesmo esperando um bebê?
-Sim. Ainda não cheguei a conversar com ela sobre isso porque está desacordada, mas vou falar- Nonato olha para Bete mais uma vez- Eu vou avisar ao seu pai pra que ele venha ser o seu acompanhante.
-Pede pra ele esperar um pouco...
-Desculpe, eu não entendi.
-Não quero ver nem falar com ninguém, pelo menos não agora.
-Imagino que tenha sido um choque pra você. Mas por favor, procure não se culpar. O que aconteceu com vocês foi uma fatalidade.
-Me deixa sozinho, Doutor. Por favor, eu preciso.
-Como quiser, Fábio. Depois eu autorizo seu pai a entrar. Com licença.
Fábio começa a pensar que a sua namorada lhe foi infiel, pois jamais teve nenhum tipo de contato íntimo com a irmã de seu amigo Eduardo. Bete não chegou a pensar nessa hipótese- desejava apenas que ele se sentisse culpado pelo “aborto sofrido” por Gabriela, mas teve o mesmo efeito devastador. Deixa o hospital triunfante.

Passadas algumas horas, Fábio está monossilábico. Caio e Alice até tentam fazê-lo falar, mas não obtêm êxito. Os pais do adolescente trazem Nonato até a enfermaria para que ele examine o garoto.
-Como ele está agora, Doutor?
-Melhor, Seu Caio. Acredito que eu já possa autorizar a alta médica.
-Ah, graças a Deus!- suspira Alice.
-Só recomendo que venha daqui a uma semana tirar os pontos da cabeça.
-Então, eu já posso ir pra casa?
-Pode, sim, Fábio.
-Ótimo. Não quero ficar nem mais um minuto aqui dentro- tenta levantar-se sozinho, sendo amparado por Alice em seguida.
-Doutor, será que o senhor poderia...
-Por favor, Seu Caio. Me chame de Nonato, não é preciso tanta cerimônia assim.
-Tem algum problema se você autorizasse meu filho a visitar a namorada na enfermaria em que ela está?
-Por mim, não há problema algum.
-Mas pra mim tem- surpreende Fábio a todos- Não ouviram o que eu falei? Passei a noite acordado, à base de remédio na veia... Tudo o que eu quero agora é ir pra casa, será que dá pra ser?
-Tudo bem, filho- Alice estranha a agressividade do filho- Vai ser como você quiser.
-Se quiserem, eu posso chamar um táxi.
-Não precisa, Doutor Nonato. Viemos no carro do meu... Do Caio. Mas obrigada mesmo assim.
-Tenham um bom dia.
-Obrigado por tudo, Doutor- Fábio se pronuncia.
-De nada, Fábio... Se cuida- Nonato fica envergonhado pela mentira que contou ao adolescente.

Já na escola, no dia seguinte, Eduardo comenta com alguns colegas sobre o acidente que vitimou Fábio e Gabriela. Em um corredor distante da sala de aula da turma, Bete e Vinícius estão negociando mais uma vez.
-Você soube do que houve com Fábio?- o modelo tenta disfarçar, para que não o vejam entregando dinheiro à jovem.
-Não é, menino? Que coisa triste... E você ficou sabendo como é que eles estão?
-Fábio já teve alta e já foi pra casa, pelo menos foi isso que eu ouvi Eduardo contando antes da aula começar.
-Mas e a irmã dele?
-Parece que ainda não recebeu alta, nem ela nem o taxista. Mas tá fora de perigo.
-Aproveitando essa chance, eu quero falar uma coisa contigo.
-O que foi?- começa a falar baixo- Te dei o dinheiro certinho, ou não dei?
-É outro assunto, Vinícius.
-Fala, Bete.
-O Fábio fumou um desses que eu te vendo, né?
-Como é que você sabe?
-Fumou ou não? Só quero saber isso.
-Certeza eu não tenho, mas eu deixei um cigarro lá, na pia do banheiro. Se ele usou ou não, aí já é outra história.
-Quer explicar pra mim por que você tinha que fazer isso justo com ele?
-O cara tava pilhado com essa treta dos pais se separando, Bete. Achei justo dar um pra ver se ele se acalmava. O que é? Fábio ficou cheio de não-me-toques pra você?
-Quero que você faça uma coisa pra mim.
-Se eu puder ajudar, diz aí.
-Como realmente a situação dele é complicada, eu quero que você se aproxime mais dele, que seja um ombro amigo dele.
-Ombro amigo do Fábio? A gente mal se cruza, não vai ser da noite pro dia que ele vai querer conversa comigo. Se bobear, depois que eu dei aquele cigarro, não vai mesmo. Mas sei aonde você quer chegar.
-Sabe?
-Você quer que o Fábio peça outro cigarro, e me procure pra saber onde eu consigo. Daí ele chega até você. E do jeito que a família do cara é boa de vida, você vai acabar se fazendo.
-Entende rápido as coisas. Gosto assim.
-Bete, vou te mandar a real.
-Por favor, Vinícius.
-Não mexe com ele, não. O cara pode estar perdido, mas não é disso.
-Cara, entende uma coisa: se você não disser pra ele o que eu faço, Fábio vai acabar me procurando. Só precisa inventar uma desculpa e vai vir atrás do que eu tenho pra oferecer.
-Parece até que você não conhece ele. Vive só pros estudos, e quando muito pra namorada. Acredita mesmo que ele vai te procurar pra comprar droga?
-Que palavra pesada essa, “droga”. Eu, hein? Só faço negócio se for pra vender “prazer”, “fuga”, “felicidade”. Não é crime vender felicidade. Se fosse, você, que tem um pai policial, tinha sido o primeiro a me entregar pra justiça.
-Como é que você sabe da profissão do meu pai?
-Vinícius, o que é que você acha que eu não sei de quem compra a mim? Fica a dica pra nunca tentar passar a perna em mim. Eu sou ótima amiga, mas como adversária, sou imbatível- adverte, deixando o modelo ensimesmado.

Alice ajeita dois travesseiros para Fábio colocar sua cabeça, já em sua casa.
-Cadê o meu pai?
-Teve uma reunião no trabalho, saiu bem cedo de casa. Disse que ligaria pra saber como você estava.
-Tão cedo assim?- pergunta o adolescente, ao constatar que ainda são sete da manhã através do celular, que pega do criado-mudo.
-Pois é. Eu também estranhei- a campainha da mansão toca- Eu vou buscar o seu café da manhã.
-Mãe, relaxa. Eu posso ir até cozinha, sem problema.
-Nada de esforço, Fábio. Você precisa relaxar. Daqui a pouco, eu volto- Alice deixa o quarto. O rapaz devolve o aparelho telefônico ao criado-mudo, pondo-o junto de um porta-retratos com a imagem de Gabriela ao seu lado. Olha para a foto fixamente, chegando a tocá-la, mas depois joga o objeto no chão.
-Ficou bem claro mesmo que você não quer me ver.
-Gabriela?- Fábio se assusta com a presença do affair, ainda ferida por conta do acidente.
-Agora você resolveu se desfazer da foto que a gente mais gosta de tirar? Por que você atirou o retrato no chão?

10/06/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 7: MAS ERA SILÊNCIO QUE SE OUVIA

-Que paciente é esse? Eu não tenho paciente nenhum com esse nome.
-É o menino que sofreu um acidente e você atendeu agora há pouco. Ouvi pelo celular quando te chamaram. O Fábio estava com a namorada, Gabriela.
-Por que você quer que eu faça isso? Qual o seu interesse nesse cara?
-Quem está com você nas mãos sou eu, Nonato; não o contrário. Tô te cobrando um preço bastante razoável pelo meu silêncio, não acha?
-O que você quer que eu diga?
-Assim que a família deles chegar, você conta do estado de saúde deles. Aliás, como é que eles estão?
-O tal de Fábio só perdeu os sentidos. Ainda não voltou a si.
-Nem ele nem você, né? E a Gabriela?
-O caso dela é mais complicado. Os paramédicos disseram que o impacto da batida atingiu a moça em cheio. Teve uma hemorragia, que conseguimos conter, e uma fratura no braço.
-Vai se salvar?
-Sim, mas vai ter que ficar aqui na enfermaria, pelo menos uns três dias. O Fábio vai ser liberado logo que acordar. Já o taxista...
-Dele eu não preciso saber. Dispenso.
-Fala logo de uma vez. O que você quer que eu faça?
-Você vai dizer pro Fábio exatamente o que eu mandar. E pra garantir que você não vai me passar a perna, eu vou ficar bem perto pra garantir que ele não desconfie de nada. Ele vai ter que receber um diagnóstico falso.
-Isso eu não vou fazer. O que você quer? Que eu prescreva uma receita mentirosa?
-Não é sobre o estado de saúde dele que você vai ter que mentir, e sim o de Gabriela.

-Duvidei muito que você tivesse coragem de procurar por mim, ainda mais depois de tudo o que fez contra mim.
-Contra você? Vinícius, eu praticamente ajoelhei pra agência te deixar fazer a campanha comigo e você pensa que eu quero te ferrar?
-Disso eu tenho certeza.
-Sinto muito, mas eu não tenho culpa da tua irresponsabilidade. Muito mais cômodo pra você colocar a culpa das suas desgraças em mim. Até o telefone de casa você não quer atender.
-Talvez porque eu não seja obrigado. Já acabou? Pois então pode sair da minha casa- o modelo tenta fechar a porta, mas Victória acaba entrando- Sai daqui agora!
-Quer que eu saia?- a moça vai ao centro da sala- Vem me tirar.
-Para de me provocar, Victória! Sai daqui antes que eu faça alguma besteira!
-Pior do que você vem fazendo? Por favor... Você falta à escola dizendo que tem trabalho pra fazer na agência, e ninguém te vê lá. Quando isso acontece, chega completamente alterado. Até quando você vai fingir que não é dependente químico, Vinícius?
-Eu não sou drogado! Não sou!- grita- A hora que eu quiser parar, eu paro. Você não tem nada a ver com a minha vida!
-Nada a ver, né? Eu sou só a sua namorada, mas se for pra te tratar, eu sou o incômodo, né? Tem noção de quantos que trabalham lá morreram com promessas fáceis de enriquecer, de ter o controle da situação e acabaram piores do que você?
-Acontece, Victória, que eu não acabei!
-Ainda não. Você tá jogando nossa relação no lixo, a convivência com seu pai tá indo pelos ares... Tem toda razão, meu amor; você realmente não acabou! Mas o nosso namoro tá bem perto do fim, sim!
-O que foi? Deu pra me ameaçar agora? Desiste, que eu não caio na tua pilha, não...
-Vinícius, eu tô tentando trazer você de volta à razão...
-Você me conheceu assim, não sei o que te deixa tão incomodada.
-A tua falta de controle! Quando a gente começou a namorar, você fumava, bebia, experimentava coisas que eu nem sabia que existia, e já vinha com esse discurso de que tinha controle. Achava que vivia por cima da carne seca, com contratos a todo momento, fotos, desfiles... A rotina de adolescente que crescia aos poucos e alcançava uma fama merecida. Depois que não te viram mais como um rosto promissor, você continuou trabalhando, mas desmotivado, apontando culpados a todo momento por ter caído em desgraça... Até eu, Vinícius! Até eu sou pra você o motivo da sua dor de cabeça!
-Mas convenhamos que sua ascensão no mundo da moda foi bem rápida, não foi, Vicky?
-Bem em paralelo com o seu plano de autodestruição.
-Afinal de contas, você vai ou não dizer pra que foi que veio aqui?
-Vim saber duas coisas: o que você pretende fazer da sua vida e o que vai fazer com a nossa.
-Se viver contigo é deixar de lado o que me faz feliz, eu sinto muito, mas... – a afirmação deixa um longo silêncio entre o casal.
-Logo se vê que eu não sou mais o suficiente.
-Para de cena, Victória, que você nunca foi disso.
-Me fala só uma coisa: como é que você se vê no futuro?
-Sem ninguém pra encher o meu saco. Satisfeita com a resposta?
-O meu futuro eu não consigo ver, mas infelizmente o seu tá mais do que claro. Aliás, eu não consigo nem mais te enxergar. O que eu vejo é Luciano, teu pai, segurando o teu caixão, e lamentando que o único filho morreu por conta de uma overdose.
-Quanto drama! Tem muita modelo que investiu na carreira de atriz e deu certo. Quem sabe essa não é a sua chance?
-Parece que não ouviu nada do que eu conversei até agora, né?
-Tá enganada, eu entendi muito bem. Vê se entende uma coisa: eu não preciso me levantar porque nunca caí, não tô no chão. E também já não aguento mais você e o meu pai torrando minha paciência por conta do “vício” que vocês inventaram pra mim. O que é? Tenho que colocar tudo na balança agora, com uma faca no meu pescoço?
-Tem!- Victória grita- Tem sim! Pra ver se você não passa uma noite na delegacia por ser confundido com um traficante, ou se não amanhece no IML! Acha que vai morrer só porque Luciano e eu queremos ver você longe do vício? Se depender de mim, vai colocar na balança, sim! Vai ter que escolher, sim!
-Entre a minha pedra de crack e esse namoro de bosta que a gente tem?- irritada com a provocação, Victória dá uma bofetada no rosto de Vinícius, que continua a provocá-la- Ficou bem clara a minha resposta ou eu vou ter que repetir?
-Se dependesse de mim, eu ia ter muita raiva pelo que você tá fazendo todo mundo passar, mas nem isso. Só consigo sentir pena de você, muita pena.
Victória vê a fumaça atrás da televisão e segura o cigarro que Vinícius portava antes da sua chegada, jogando-o sobre o tapete da sala e pisando-o, antes de ir embora. O ex-casal fica inconsolável com a separação.

Ariane está na recepção do hospital, aguardando notícias dos adolescentes. Eduardo chega com Alice e Caio.
-Mãe, falaram alguma coisa da Gabriela?
-Ainda não, Eduardo.
-Cadê meu filho?- Alice mostra-se desesperada- Eu quero saber onde está o meu filho.
-O médico ainda não apareceu pra nos dar notícia nenhuma.
-Diz pra essa mulher não abrir a boca pra falar comigo...
-Para de fazer cena aqui, Alice- Caio repreende a ex-esposa.
-Mas ela pode, não é? Ela pode bancar a superior!
-Olha só, como você está nervosa eu não vou nem relevar o que você está me dizendo.
-Nem a mim interessa saber nada do que você diga.
-Vamos parar?- Eduardo intervém mediante as provocações- Fábio e Gabriela estão lá dentro, e vocês não vão discutir aqui no hospital!
-Vocês são os parentes de Gabriela Acioly Siqueira?- Nonato chega à recepção.
-É minha filha, Doutor! Como ela está?
-Gabriela teve uma hemorragia e uma fratura no braço, mas está fora de perigo.
-Graças a Deus. A gente pode entrar pra ver a minha irmã?
-Ainda não, rapaz. Só é permitida a entrada de uma pessoa na enfermaria, e se for a paciente menor de idade. Além disso, ela ainda está desmaiada por conta do acidente.
-E o nosso filho?- Caio pergunta a Nonato- A gente quer saber se era o nosso filho que estava com a Gabriela!
-O Fábio não sofreu lesões severas- Nonato menciona o nome do rapaz e Eduardo estranha, pois nem mesmo Alice e Caio haviam falado o nome do filho quando chegaram ao hospital. Apenas está desacordado por conta de uma pancada na cabeça, e por enquanto está em observação. Mas dentro de algumas horas vocês poderão levá-los para casa.
-Ainda bem- Alice fica mais tranquila- Eu posso entrar? Depois o pai dele entra também.
-Primeiro, eu preciso que vocês deixem comigo os documentos de identidade pra que o paciente possa reconhecê-los, já que ele chegou aqui sem nada que pudéssemos identificá-lo. Dentro de alguns minutos, eu libero a entrada de vocês.
-Obrigada, Doutor. Muito obrigada- Alice se emociona, enquanto Caio procura o registro geral no bolso e entrega-o a Nonato.
-Aqui está, Doutor.
Nonato vira-se para Ariane.
-Como a senhora é mãe da Gabriela Acioly, pode entrar comigo, por favor.
-Mãe, volta na portaria pra me dar notícia.
-Pode deixar, Eduardo- Ariane é acompanhada por Nonato até a enfermaria feminina. Ele a deixa para cuidar de Gabriela e em seguida passa a ser acompanhado de perto por Bete, que o vê tentando acordar Fábio vagarosamente.
-Fábio? Fábio, você pode me ouvir?- o rapaz abre os olhos.
-O que houve?
-Fábio é o seu nome?
-É. Onde é que eu tô?
-No hospital.
-Por quê?
-Você não se lembra? Na noite passada você sofreu um acidente- Bete fica à porta da enfermaria masculina, como se estivesse tentando pressionar o médico- Num táxi com Gabriela.
-Gabriela? Cadê Gabriela?
-Fica calmo, Fábio.
-Onde é que ela tá? Me fala, Doutor!
-Aqui, aqui. Em breve você vai poder ver sua namorada, mas antes eu tenho que fazer algumas perguntas.
-Me leva até ela, Doutor! Por favor!
-Esse homem aqui- mostra o RG de Caio- Ele se identificou na portaria como sendo seu pai. Procede?
-Sim, ele é meu pai... – Fábio chora.
-Você ficou muito nervoso. Eu vou trazer um sedativo...
-A culpa foi minha. Ela veio atrás de mim, preocupada que eu fosse fazer uma besteira. Por isso que a gente sofreu o acidente. Por favor, não esconde nada de mim, Doutor! Como é que tá Gabriela?
-Agora ela está fora de perigo, mas...
-Mas o quê? Fala!
-Sua namorada teve que passar por uma cirurgia de emergência. O acidente foi muito grave e nós... Tivemos que remover o feto.
-Feto? Do que é que o senhor tá falando?
-Eu nem sei se é a melhor hora pra dizer isso, mas vocês iam conversar sobre o assunto em algum momento...
-Que assunto, Doutor? Fala de uma vez, para de fazer rodeio!
-Por causa do acidente... – Nonato avista Bete observando o médico e o paciente- A Gabriela sofreu um aborto.
-O quê?
-Sua namorada estava grávida antes do acidente.

09/06/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 6: VOCÊ ME OBRIGA A GRITAR

O telefone da casa de Ariane toca insistentemente, e Eduardo corre para atendê-lo. A mãe, que está no quarto, vem ate a sala para saber de quem se trata.
-Alô?
-Boa noite. Eu queria saber se é alguém da residência de Gabriela.
-Aqui é o irmão dela. Quem é?
-Sou um paramédico. A equipe do Samu está levando a sua irmã para o hospital.
-O que foi que aconteceu com ela?
-Houve uma colisão na Avenida Sul entre um táxi e outro veículo. A sua irmã, o motorista e outro ocupante estavam no carro.
-O Fábio... – conclui Eduardo.
-Filho, o que houve com a Gabriela?
-Peraí, Mãe, fica calma! Pra que hospital você estão levando eles?
-Hospital? Meu Deus do céu, o que é que está acontecendo?
-Sei, eu sei onde fica. Já estamos indo pra lá. Obrigado- desliga o telefone.
-Eduardo, fala pra mim o que foi que houve com a sua irmã.
-Teve uma batida, Mãe. Parece que ela tava com o Fábio.
-Como é que ela está? Me fala!
-Eu não sei, eu só sei que o Samu tá levando os dois pro hospital agora...
-Que hospital? Fala!
-Pro HR, Mãe.
-Você vai me fazer um favor: vai até a casa do Fábio e avisa o que aconteceu.
-Tá maluca? Não vou te deixar sozinha nessa situação!
-Gabriela contou uma vez que Fábio costuma andar sem celular e identidade. Se eles estiverem inconscientes, os médicos não vão avisar à família dele. Por favor, meu filho! Vai avisar aos pais dele que os dois foram pro HR, e depois me encontra lá.
-Tá bom, mas não fica mais nervosa. Melhor você pegar um táxi, não tem condição de sair desse jeito.
-Pega o dinheiro da passagem do ônibus no meu quarto.
-Não tem ônibus agora à noite, Mãe, tá tendo paralisação...
-Então, toma um táxi pra chegar até lá. Vem comigo, e eu peço pra te deixarem na casa do Caio e Alice. Vai lá em cima e pega o dinheiro, mas vai rápido, que a gente não pode perder tempo.
-Tudo bem, eu já vou.

Diego está procurando alimentos na geladeira do sobrado de Bete, enquanto está vê televisão na sala. O celular toca e ela vê que se trata de Nonato, outro usuário de drogas.
-Fala, Nonato.
-Tô precisando que você venha aqui e traga pra mim três cigarros.
-A essa hora? Tem certeza de que não vai dar problema pra mim?
-Já deixei teu nome na recepção, disse que você é minha paciente antiga. Você entra na minha sala e espera eu voltar pra lá, que eu te pago.
-Vê se não me dá calote, hein?
-Pode vir pra cá, mesmo a essa hora?
-É lógico que eu posso...
-Doutor- uma enfermeira se aproxima do médico- Levamos pra sala de medicação três pacientes que sofreram um acidente na Avenida Sul.
-Espera aí um minuto, tá?- Nonato abaixa o celular- Têm identificação?
-Um taxista, de nome Zenóbio Lacerda, e um casal de adolescentes. A moça se chama Gabriela Acioly Silveira, e o rapaz é um adolescente de aproximadamente dezoito anos.
-Fábio... – Bete constata ao ouvir a conversa entre Nonato e a enfermeira.
-Quem é, Bete?
-Fica quieto, Diego; não atrapalha!
-Tudo bem, eu já vou atender os três- volta para a ligação- Bete, já sabe onde me encontrar. Só toma cuidado pra não te verem sozinha na minha sala.
-Pode deixar, que eu me viro.
-Falou- encerra a ligação- Vamos, então- avisa à enfermeira.
-Que cara é essa, Bete? Quem era?
-Negócios, meu amor. Negócios- veste uma blusa de botão jogada no sofá.
-Onde é que você vai?
-Nós vamos. Você, pra sua casa; eu, resolver um assunto.
-Tá me tirando, é? Que tanto mistério é esse? Fala logo quem tava no celular contigo.
-A você eu não devo satisfação. Vai pra tua casa que é o melhor que você faz. Se eu precisar, te chamo. Agora vaza daqui.
Contrariado, Diego deixa o velho sobrado, acendendo um cigarro fornecido pela namorada. Bete vai ao seu quarto e pega os produtos pedidos pelo médico. Dentro do guarda-roupa, busca uma câmera digital. Verifica se ela está totalmente carregada e depois a desliga. Coloca o objeto numa bolsa e esconde as drogas no sutiã, saindo em seguida, atenta sobre a hipótese de ser observada.

Eduardo vai à casa de Alice e Caio, desembarcando do táxi em que também está Ariane, e corre até a porta da residência, tocando a campainha até que o pai de Fábio abra a porta.
-Eduardo? O que está fazendo aqui a essa hora?
-Cadê a Dona Alice? Eu preciso falar com ela. Aliás, com vocês dois.
-Eu estou aqui, Eduardo- Alice chega à porta da própria casa- Onde é que está o Fábio? Ele tinha dito que jantaria com a sua irmã.
-Fala, Eduardo. Cadê o Fábio?
-Gabriela e Fábio sofreram um acidente.
-O quê?- Caio não acredita na informação.
-Ligaram lá pra casa e avisaram que eles vinham num táxi pela Avenida Sul, mas sofreram um acidente. Um carro bateu.
-Tem certeza de que é o Fábio?
-O paramédico só conseguiu identificar Gabriela, e disse que estava junto com ela um rapaz de quase dezoito anos. Só pode ser o Fábio.
-Mas o que eles estavam fazendo na Avenida Sul?- Caio indaga o jovem- A casa de vocês nem perto fica desse lugar!
-Olha, Fábio teve que sair de lá. Gabriela foi procurar ele e na volta devem ter sofrido o acidente, já que ele saiu antes dela.
-Depois a gente fala sobre isso. O melhor a fazer é ir agora pro hospital. Onde ele está?- Caio se mostra preocupado.
-No HR.
-Então, vamos pra lá o quanto antes. Vem, Alice.
-Vamos; vamos, sim.
Caio tira o automóvel da garagem e, junto com a esposa e Eduardo, vai para o hospital.

Bete chega ao hospital, alegando que precisa falar com Nonato, e recebe autorização para entrar em seu consultório, uma vez que ele já havia deixado os recepcionistas de sobreaviso. Cada vez mais a hora avança, e mais a traficante fica tensa com o seu plano. Entrando na sala, tem o cuidado de fechar a porta. A jovem observa bem e vê uma pilha de livros mal alinhados sobre a mesa de Nonato e, do outro lado, uma maca desforrada. Abaixo dela, uma escada de dois degraus.
A namorada de Diego tira a câmera do bolso e coloca sobre o degrau mais alto da escada, empurrando-a para debaixo da maca, para em seguida puxar o lençol branco, a fim de deixá-lo pendurado sobre o colchão preto. Alegando naturalidade, toma para si a cadeira dos pacientes e fica em frente à mesa, aguardando a chegada do médico, que aparece em cinco minutos, tenso com a situação enfrentada pelo taxista, por Gabriela e por Fábio.
-Ainda bem que você já chegou. Estava pensando em te ligar de novo...
-Te falei que ia aparecer, não disse?
-Cadê a encomenda?
-Aqui- Bete desabotoa a blusa e mostra os cigarros dentro de seu sutiã.
-O que é isso, Bete?
-Tem dinheiro pra me pagar?
-Claro que eu tenho, não ia te chamar pra ficar de brincadeira.
-Ótimo. Só que... – Bete se aproxima do médico- Eu vim aqui pra que você me pagasse de forma diferente.
-O que é que você tá fazendo, garota? Você namora o Diego...
-Disso eu sei. Mas hoje eu não acho que só ele seja o suficiente pra mim- a traficante tira o sutiã, enrola os entorpecentes na vestimenta e os joga sobre chão- Quer o que eu te pedi? Então, vai ter que me dar o que eu quero.
-Para de brincar com fogo, menina... Podem pegar a gente aqui...
-Se você não gostasse do perigo, não tinha pedido pra eu vir até aqui, Nonato. É um preço razoável o que eu tô te cobrando.
-Por que isso agora?
-Eu sei o que você tá pensando, que eu sempre fui louca pelo Diego e, de repente, me ofereço pra você. Sabe o que é? Tem hora que a gente não se segura. Mesmo que eu nunca tenha falado, eu sempre quis ficar com você... Mas toda vez que você vinha me procurar, era só pra comprar cigarro, “pedra”, seringa... E então, Nonato? Vai negar fogo?
O médico tranca a porta do consultório e logo agarra a traficante, tentando levá-la para a maca, mas ela o arrasta para a mesa, derrubando todos os objetos que estão sobre o cômodo. Nonato joga o jaleco no chão e abre o zíper na calça, abaixando-a e ficando sobre Bete. A meliante puxa algumas vezes, durante o ato sexual, a cabeça do profissional médico para que ele não perceba a câmera que os registra naquele momento.

Com Luciano na delegacia, Vinicius está sozinho em casa, com as luzes apagadas e na sala, fazendo uso de substâncias ilícitas fornecidas por Bete. Alguém toca a campainha. Receoso de que seja o pai e que tenha novamente outra discussão com ele, o colega de classe de Fábio apaga o cigarro que consome e o esconde atrás do aparelho televisivo.
-Aposto que o senhor esqueceu a chave, né, Pai?- pergunta, antes de destrancar a porta e dar de cara com Victória.
-Você não esperava mesmo que eu viesse, não é, Vinícius?

Encerrada a transa no consultório, Nonato deixa a mesa de trabalho e, ainda desnudo, abaixa-se para pegar o sutiã de Bete, chegando a sentar-se no chão para fumar um dos cigarros que a moça trouxe. Plena, a jovem veste sua roupa, sorridente e em silêncio, olha para o médico, também satisfeito.
-Nunca imaginei que isso fosse acontecer um dia.
-Pois é, Nonato- abaixa-se até a escada, interrompendo a gravação e causando estranhamento no médico- Mas tinha que acontecer.
-O que é isso, Bete?- pergunta, já um pouco inebriado pelo efeito da droga.
-Achei que fosse bom a gente tem uma lembrança desse momento tão especial. Isso aqui, Nonato, é a prova do quanto a noite foi interessante pra nós dois. Muito mais pra mim do que pra você. Dá uma olhada- Bete mostra o conteúdo da filmagem para o médico.
-Vai fazer o quê com isso? Apaga essa gravação agora, Bete!
-E me livrar do meu trunfo contra você? Nem pensar, Nonato. Tá com medo de que Diego veja, né? Mas não se preocupe, que ele não vai chegar nem perto dessa câmera. Já o diretor do hospital vai ficar muito interessado em saber que um funcionário faz sexo com uma moça desconhecida bem no local de trabalho.
-Por que você fez isso comigo?
-Porque isso vai garantir que você faça o que eu quero, Nonato. Pra esse vídeo não parar na mão do diretor do hospital, você vai ter que mentir.
-Quê? Que história é essa? Me dá essa câmera agora, senão eu juro que eu vou... – Nonato tenta tomar a câmera de Bete, mas acaba com a visão turva, caindo no chão do consultório.
-Você nem se aguenta em pé e vai querer me ameaçar? Se toca, imbecil!
-O que é que você quer pra ninguém ver essa gravação? Dinheiro? Se for isso, eu te dou...
-Dinheiro eu consigo com qualquer viciado idiota feito você. Não é nada demais. Você só vai ter que contar uma mentira pra um dos seus pacientes.
-Que paciente, Bete?

-Fábio Prado Vasconcelos. Só precisa mentir pra ele e eu destruo essa gravação.