04/07/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 31: ESSA DOR NOS CORAÇÕES (ÚLTIMA SEMANA)

-A senhora é o quê? Maluca?
-Devia ser mesmo, pra fechar os meus olhos diante do que estava acontecendo com o Fábio.
-Fábio? Mas quem é Fábio? Tá falando do quê, sua...
-Cuidado! Muito cuidado com o que vai falar!
-Quem tem que tomar cuidado aqui é você, que partiu pra cima de mim!
-Finalmente está mostrando as garras. Não precisa fingir que não sabe quem é o meu filho. Tudo foi de caso pensado. A matrícula na mesma turma, a mentira depois do acidente, o Fábio empurrado pro vício, os atentados contra a Gabriela e o Eduardo... Precisou de muita frieza pra arquitetar tudo, Elizabete. Lamento muito que tenha sido descoberta.
-Dá o fora da minha casa agora! Você não sabe do que tá falando, sua imbecil!
-Isso eu era antes, quando deixei que você se aproximasse da minha família. Se você tivesse feito tudo por dinheiro, mas não. Dá pra perceber o prazer que você tem de destruir o meu filho pra me atingir. Só que agora acabou, cretina! Nunca mais você vai chegar perto do Fábio.
-O Fábio é meu amigo. E seja lá o que a doida da Gabriela tenha falado pra você, eu não tenho culpa se ele se droga! Eu sou tão vítima quanto ele!
-Cala essa boca! Acha que vai enganar mais alguém, Elizabete? Não vai mesmo! Todo mundo já sabe quem é você, menos a polícia. Sobre isso, eu posso negociar com você, e te dar o que você quer.
-A senhora não tá dizendo nada que tenha sentido! De onde a senhora tirou que eu tenho alguma coisa a ver com...
Alice dá outra bofetada em Bete, que pensa em se defender, mas desiste ao ver a mãe de Fábio abrir a bolsa e jogar o diário de Hilda no chão.
-Fica com isso. Pertence à sua mãe. Mas antes que você pense que eu não li, fique sabendo que eu já tirei cópias autenticadas desse diário e guardei num lugar seguro. Eu sei de toda a sua história.
-Se você sabe, então pra quê foi que veio aqui? Pedir para que eu deixe seu filho em paz? Fique sabendo que nunca, entendeu?
-Você realmente acredita que é a única que pode guardar segredos, garota?
-Ah, Alice, não banca a esperta pra cima de mim, porque é a última coisa que você é. Só mesmo invadindo a minha casa que você ia saber de toda a história da minha mãe.
-Como você é idiota. Coloca todo mundo abaixo de você, enquanto fica num falso pedestal. Se até hoje você teve uma vida miserável, foi por pura conveniência.
-Conveniência? Seu pai foi um desgraçado que acabou com a vida da minha mãe, que me deixou junto com ela na miséria, mesmo sabendo que eu era tão filha dele quanto você, e o que eu vivi até hoje você chama de “conveniência”?
-O diário só revelou aquilo que a Hilda queria que você fizesse, que se vingasse da minha família.
-Que, pra todos os efeitos, é minha também.
-Mas a tua existência já foi letal bem antes de você cruzar o caminho do Fábio.
-E vou ser mais, com toda a certeza. Não me interessa se você pensa que sabe tudo sobre mim, mas eu jurei que ia acabar com você.
-Mesmo? Pois agora eu vou te dar outro motivo.
-Não existe motivo pior do que o desprezo do meu pai, e o amor que ele deu pra você e pro desgraçado do Fábio.
-Já mandei você calar a boca! Não vai obedecer à sua irmã mais velha, Elizabete?
-Nem você, nem ninguém manda em mim!  Vê se te enxerga, ridícula!
-Não, é? Pois existe um detalhe da sua história que nem você sabe. A minha mãe descobriu o caso que o meu pai tinha com a Hilda. Ela o colocou contra a parede quando soube que você havia nascido.
-Quer dizer que... Você sempre soube que eu existia?
-Naquela época, eu era adolescente ainda. A minha mãe exigiu que ele abandonasse vocês se quisesse continuar com o casamento. Adivinha quem ele escolheu?
-E depois disso, ele me jogou no lixo, junto com a minha mãe- Bete fica arrasada com a revelação.
-O meu pai contou que a Hilda e você faziam parte de uma vida paralela que ele tinha. O trato era que ela o aceitaria de volta se vocês fossem riscadas definitivamente da vida dele.
-Sabe qual foi o resultado disso, não sabe?
-Nunca soube, nem me interessava saber.
-Mas eu vou dizer, filha da... – Bete grita com Alice, mas se contém- Quando o Fernando nos abandonou, ela morreu.
-E, ao invés de lutar pra sobreviver por você, preferiu morrer e deixar o ódio pela minha família como herança. Ao contrário de você, que sempre pareceu determinada no propósito de nos destruir, ela foi fraca!
-Você... – a traficante limpa o rosto- Veio aqui só pra despejar essa verdade? Pra aumentar o ódio que eu sinto de vocês?
-O que eu vim fazer aqui foi uma proposta.
-Ah, é? E o quê, vindo de você, pode me interessar?
-Todo o meu dinheiro.

Luciano volta para casa e encontra Vinícius olhando para a janela, bastante pensativo.
-Lembrando da Victória?
-Não.
-Você está diferente demais.
-É. Vai ver foi a dor.
-Dor? Eu não entendi.
-Dor de não ter mais a Victória do meu lado.
-Mas a ausência dela fez você não ser mais o mesmo.
-Como sabe disso?
-Você não tem ido mais à agência.
-Ah, tá. Como se a Lúcia me chamasse pra alguma coisa. A Victória era quem me fazia ter costas quentes lá dentro...
-Não tô falando só disso. As suas saídas também diminuíram muito.
-Que foi, Pai? Preferia que eu tivesse usando uma pedra de crack?
-Até isso parou. O que te fez mudar tanto, meu filho?
-Não tenho vontade. Aliás, eu não tenho mais saco pra nada nessa vida.
-Você não está pensando em desistir de você, está?
-Não. O mundo não me merece nem mesmo como suicida.
-Que ironia do destino... A Victória lutou tanto pra conseguir te recuperar, te transformar num cara melhor... E você virou o homem ideal pra ela só agora.
-Pois é. Eu tenho pensado muito e... Preciso corrigir alguns dos meus erros. Pelo menos os que eu posso recuperar.
-Verdade, filho?
-Juro que sim. Tem muita injustiça que eu preciso resolver.
-Sabe que pode contar comigo sempre, não é?
-Claro que sei. Mas não sei por onde começar.
-Vinícius, intencionalmente ou não, você deixou um rastro de destruição em uma família.
-Tá falando do Fábio?
-Sim. Vai ver chegou a hora de você se redimir disso.
-Tenho pensado nele direto.
-Pois então? Procura esse rapaz e fala isso que você tem engasgado na sua garganta.
-Depois de tudo o que aconteceu, ele vai entender?
-Não posso te garantir um resultado positivo, mas... Acho que vale a pena se você tentar.

-Seu dinheiro?
-Você sabe muito bem que o meu pai... Quer dizer, que o nosso pai dividiu a herança entre mim e o Fábio. Eu vou ter que cuidar da parte do Fábio até ele completar vinte e um anos. Então, o que eu te proponho é o seguinte: eu passo todo o dinheiro que me cabe pro seu nome. Absolutamente tudo.
-Não me tome como uma imbecil. Você e o Caio estão em processo de divórcio. A metade do que você tem iria pro bolso dele.
-O Caio e eu estamos nos entendendo.
-Olha, quer dizer que o casamento dos filmes de Hollywood continua de pé?
-O que eu quero dizer é que o problema que você causou acabou nos unindo.
-Ah, vê se não enche a minha paciência! O Fábio virou um viciado porque quis!
-E você empurrou meu filho pra isso, cretina, com a ajuda do Vinícius!
-Tá bom, isso não vai levar a nada. Continua.
-Bem, eu posso pedir ao Caio que adie o divórcio. Eu falo com o meu advogado e transfiro tudo para o seu nome.
-Tudo isso pra se livrar de uma traficante? Quanto esforço, Alice! Se o Fábio não me procurar, procura outro bandido qualquer!
-O Fábio não vai voltar a se drogar, isso eu garanto.
-Não é à toa que o seu nome é Alice mesmo.
-Claro que eu não daria todo o meu dinheiro se você fosse uma bandidinha qualquer. Acontece que um exame de DNA poderia provar que você é minha irmã. E, com isso, ninguém poderia tirar o dinheiro das suas mãos. O preço é óbvio demais, Elizabete: some da vida do meu filho e você vai pôr as mãos no dinheiro.
-Tão simples? Eu desapareço e fico milionária?
-Com o divórcio do Caio, eu vou ficar numa situação confortável. Nós dois casamos em comunhão parcial de bens. Você não tem nada a perder, Elizabete. Muito pelo contrário.
-É um preço justo. A metade da fortuna que o meu pai deixou. São cinquenta por cento muito bem-vindos. Mas eu tenho uma nova oferta.
-Você não está em condições de fazer ofertas, não passa de uma bandida.
-Tô, sim, queridinha. Quem sabe se diminuirmos a porcentagem da herança que eu quero?
-Diminuir o preço? Como assim?
-Que tal se eu recebesse... Nada?
-Nada? Como assim, garota? Fala de uma vez qual é o teu preço!
-Vem cá, você é burra? É burra ou se faz? Não me interessa nada que venha de você, a não ser tuas lágrimas na hora que o caixão daquele intrometido descer de uma vez pro túmulo!
-Não se atreva a falar assim do meu filho!
-Intrometido, sim! Roubou o amor e o dinheiro do meu pai, junto com a mãezinha querida dele. Não interessa se eu vou acabar morta, num manicômio ou na cadeia! Se eu cair, eu arrasto o Fábio pro abismo que eu for!
-Vai convencer o Fábio a quê? A seguir a mesma carreira da tua mãe? A que quase destruiu o casamento do meu pai? Porque nem pra isso aquela piranha serviu!
-Fala!- Bete revida as bofetadas que Alice havia lhe dado- Fala que minha mãe é piranha pra você ver o que faço! Fala!
-O que é agora?- Alice limpa a boca, ferida pelo tapa que Bete deu- Falar a verdade virou crime inafiançável?
-Se eu fosse você, não duvidaria de que eu sou mesmo capaz de acabar com o seu filho!
-Sei bem! Como deve ter acabado com o Diego, não é? Porque nada me tira da cabeça que, de acidental, a morte daquele rapaz não teve nada!
-Eu não matei o Diego!
-Chega de fugir do assunto e responde à proposta que eu te fiz de uma vez! Vai se afastar do Fábio ou não?
-Ah, você tá esperando a minha resposta? Pois tá aqui a minha resposta!- Bete agride novamente a irmã, que reage segurando a meliante- Eu vou acabar com você pra nunca mais falar da minha mãe!
-Acaba se você é mulher!
-Não vai sobrar nada do Fábio depois que eu tirar aquele cretino de você!
-Piranha!- Alice joga Bete no chão e se coloca sobre a moça, repetidamente esbofeteando a bandida- Isso é pelo Fábio! Pela Gabriela! Pelo Eduardo, miserável!
-Me solta, que você vai se arrepender!
-Isso eu devia ter feito quando eu soube que você existia, vagabunda!
-Você me paga, Alice! O Fábio vai pagar por você!
-Nunca mais pronuncia o nome do meu filho na sua boca imunda!- Alice continua agredindo a jovem.
-Não toca em mim, sua ladra desgraçada!
-Repete na minha cara que vai matar o meu filho! Repete! Nunca mais você vai se aproximar de nenhum de nós, porque eu te mato, vagabunda! Eu te mato! Chega perto de alguém pra você ver o que eu te faço! A cadeia vai ser pouco pra você! Piranha! Cretina! Miserável! Toma, pra ver se você aprende! Chega perto dele! Chega! Chega, Bete! Vai quer saber quem sou eu, sua bandida desgraçada? Hein, sua bandida? Vai? Toca no meu filho e eu arranco a tua última gota de sangue! Pensa que eu vou fazer que nem você e contrata bandido pra fazer serviço, é? O meu pai te deixou na sarjeta viva, e eu te mando de volta pra lá morta! Fala o nome do Fábio, bandida! Fala o nome dele! Fala!- Alice se cansa e levanta, apanhando a bolsa, enquanto Bete fica caída no chão da sala do sobrado- Eu não posso provar que você usou aquele médico pra fazer a chantagem, nem que você drogou o meu filho pra matá-lo, nem que você armou os atentados contra a Gabriela e o Eduardo, e muito menos que o Diego morreu por obra sua. Mas eu posso mandar a polícia pesquisar como você fez pra morar sozinha aqui dentro, e como você alterou a tua certidão de nascimento pra conseguir se matricular, porque eu sei que o colégio nunca ia aceitar uma maior de idade lá dentro. Quer que eu ponha atrás de você, quer? Acho que não. Mas experimenta me desafiar. A Alice de quem você quis se vingar é uma imbecil, só que essa que te enfrentou pelo filho... Dessa você pode tremer de medo!- coloca a bolsa no ombro esquerdo- Antes de ir, deixa eu te contar uma coisa: a Gabriela me contou da briga de vocês e ficou com medo do corte que fez no teu nariz. Mal sabe ela que o estrago no teu rosto agora é maior. Fica com essa cara, é a tua herança- deixa o sobrado.
Fraca após o confronto com sua irmã, Bete levantou-se do chão e fechou a porta. Vagarosamente, foi ao espelho do banheiro e viu seu rosto repleto de hematomas e ferimentos. A tia de Fábio volta a chorar e bate insistentemente no espelho.
-Ai, que ódio! Que ódio! Eu odeio você, Alice! Odeio você e seu filho! Odeio, odeio, odeio, odeio!- a moça para quando o espelho quebra e fere seus braços, prosseguindo com o pranto mais agonizante de sua vida.

Dias depois...

Fábio chegou à clínica, onde fica em um quarto verde, que conta com duas janelas, uma de cada lado. A enfermeira chega e anuncia.
-Chegou uma visita pra você.
-Quem é, moça?
Vinícius entra no quarto.
-Eu vou deixar vocês dois a sós.
-Obrigado- Fábio abraça o modelo- Ainda bem que você chegou.
-Fábio, a gente precisa conversar.
-Por que nesses dias você não foi me ver no hospital? Já sei: você foi e meus pais te botaram pra fora, não foi?
-É, o nosso último encontro não foi muito agradável, não.
-Faz horas que eu tô aqui dentro. Mas parece que fiquei uma vida toda preso.
-Olha, me deixa falar...
-Não, eu tenho uma coisa muito importante pra te pedir. Só você pode fazer.
-O que é que você quer de mim?
-Me ajuda a fugir desse lugar. Eu não posso ficar aqui, Vinícius. Por favor, me tira daqui.

03/07/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 30: MAS ANTES PRECISO ENTENDER VOCÊ (ÚLTIMA SEMANA)

De volta à recepção da clínica, Caio, Alice, Gabriela e Ariane descobrem, através de Joyce, que Fábio teve uma crise de abstinência.
-Mas ele já está bem, Doutora?- Alice fica apreensiva.
-Já controlamos a situação. Agora, eu aconselho que o Fábio fique aqui mais alguns dias. Você e o Caio resolveram a questão do centro de apoio?
-Estávamos a Alice e eu conversando sobre isso há poucos minutos. Comunicamos ao Fábio que vamos levá-lo para esse lugar. Só preciso resolver algumas questões burocráticas e vamos encaminhar o nosso filho assim que ele receber a alta daqui.
-Viu só, Mãe? Tudo por culpa daquela miserável da Bete!- Gabriela se irrita.
-Pensa que o Fábio agora está fora de perigo, filha. Isso é o que importa no momento.
-Bom, eu vou estar na sala dos médicos. Caso precisem de alguma coisa, podem me chamar. Com licença.
-Obrigada, Joyce. Muito obrigada- Alice agradece à médica- Ah, meu Deus! Quando é que esse pesadelo vai acabar?
-Nonato?- Gabriela fica surpresa ao ver o médico acompanhado de Vinícius.
-Eu posso saber o que você veio fazer aqui? Ah, já sei: conferir se o Fábio morreu mesmo por sua culpa, não é, moleque?
-Eu vim em paz, Seu Caio.
-Depois de tudo o que você fez com meu filho, vem aqui disposto a desafiar a gente, seu verme?- Caio parte para agredir Vinícius, mas é contido por Gabriela e Ariane.
-Espera, Caio; não faz nada. A gente não sabe o que esse garoto quer.
-Nem me interessa saber! Só quero que ele suma das nossas vidas, e de preferência da vista do Fábio!
-Vou sair, sim, mas não antes de revelar toda a verdade.
-Que verdade você tem pra nos contar? Que foi o responsável de tudo de ruim que nos aconteceu?
-Não, Dona Alice. Dessa culpa eu não tenho mais como fugir. Mas pedir desculpa não basta. Por isso que eu trouxe o Nonato aqui.
-Espera, eu estou reconhecendo você. Você não é o médico que atendeu meu filho quando ele sofreu o acidente com a Gabriela?
-É ele, sim, Dona Alice. E foi esse idiota que inventou, a mando da Bete, que eu tinha ficado grávida e perdido o bebê, tudo pro Fábio achar que eu tinha traído ele.
-A Bete manipulou todo mundo aqui, eu sei disso. Mas o Vinícius me convenceu a contar por que eu fiz isso.
-O que você fez com a minha filha não tem explicação, e muito menos perdão.
-A gente não quer o perdão de ninguém aqui, só contar a verdade.
-Fala, então. Por que você obedeceu a essa tal de Bete? O que você tem com ela?- Caio pergunta.
-Eu sou usuário- com dificuldade, Nonato confessa.
-Sabe que isso não me surpreende? Andando com esse daí, só sendo isso mesmo.
-Por favor, Seu Caio- pede Vinícius- Deixa ele terminar de falar.
-A Bete sempre me vendeu a droga que eu consumo e, num dia, ela foi até...
-Calma aí, rapaz. “Vendia”? Como que ela vendia?
-A Bete não é dependente química, como todo mundo deve pensar. É traficante. Vende pra mim, vende pro Vinícius...
-E vendia pro Fábio também. Ele me dava dinheiro pra que eu comprasse e vocês nunca descobrissem que ele usava e que era a Bete que vendia- Vinícius completa a informação.
-E a vingança contra o Fábio? Por que ela fez que o Nonato inventasse uma mentira sobre mim?
-Olha, por que ela odeia o Fábio eu não sei. Mas ela me chantageou. No dia que vocês sofreram o acidente, ela descobriu que eu ia atender vocês. Daí, ela entrou no meu consultório, escondeu uma câmera ligada e depois me seduziu. O plano da Bete era que a gente transasse no consultório e isso ficasse registrado. Depois, ela me mostrou a gravação e disse que se eu não mentisse pro Fábio, ia acabar com a minha carreira.
-E é isso que a gente vai fazer, safado! Tá pensando que tudo vai ficar por isso mesmo?
-Pior que vai, Gabriela. O foco não é no Nonato, e sim na Bete. E nela que vocês precisam concentrar.
-O fato é que agora já sabemos que foi a Bete, e não o Vinícius, quem drogou o Fábio a ponto de ele ter uma overdose- raciocina Ariane.
-Mas por quê? Por que essa moça insiste em acabar com o meu filho? O que ele fez pra ela?
-Dona Alice, a senhora não conhece mesmo a Bete?
-Só vi essa garota uma vez: no colégio, quando o seu pai foi buscá-la pra reconhecer o corpo do namorado. Mas por que está me perguntando isso?
-Eu não só descobri como ela manipulou o Nonato como também a razão do ódio que ela sente do Fábio. O que ela quer é se vingar da senhora.
-De mim? Mas o que eu fiz contra essa garota?
-A Bete é sua irmã, Dona Alice.
-Ela é o quê?
-Parece absurdo, mas é a verdade. A Bete é sua irmã.
-Você não sabe do que está falando, rapaz.
-Deve estar “noiado” esse daí. Onde que a Bete é irmã da Dona Alice?- Gabriela julga Vinícius mal.
-Por acaso o nome completo do seu pai era Fernando Brito Prado?
-Como você sabe disso?
-Eu descobri parte do passado da Bete. A mãe dela teve um caso com o seu pai quando ele era casado com a sua mãe.
-Meu pai? Isso não é verdade! Não pode ser verdade!
-O Fernando teve um caso com a Hilda, mãe da Bete, e essa mulher dizia que a Bete era filha do Fernando. Portanto, sua meia-irmã.
-Não! Você só pode estar mentindo pra mim! Meu pai nunca foi um homem infiel...
-Ah, Dona Alice! Desde quando uma pessoa que trai assume que traiu? O Fernando e a Hilda foram amantes e a Bete é fruto dessa relação.
-Como você pode ter tanta certeza disso, Vinícius?
-Por isso, Seu Caio- Vinícius tira da mochila o diário de Hilda, que ele roubou do sobrado- Aqui está tudo que a mãe da Bete escreveu. Ela nunca se conformou do Fernando deixar metade da fortuna pra Dona Alice e a outra metade pro Fábio, jogando ela e a filha na miséria. Por isso que a Bete armou tudo. Pra se vingar da senhora através do Fábio.
-Tudo pode fazer sentido agora, menos uma coisa, Vinícius. Por que você resolveu se voltar contra a Bete? Toda a galera do colégio sabe o quanto vocês se davam, e sendo ela traficante... – Gabriela fica em dúvida.
-Porque a Bete me prejudicou muito, e aos outros também. Alguém tem que fazer alguma coisa pra parar essa mulher!
-Vocês não podem me denunciar por dar ao Fábio um diagnóstico falso sobre a namorada, mesmo porque não existe um laudo assinado por mim que ateste uma gravidez da Gabriela. Também não podem exigir que a gravação que a Bete fez seja mostrada, porque eu já acabei com ela. Mas podem jogar essa desgraçada na cadeia por drogar o Fábio.
-A gente já está cuidando disso. Essa tal de Bete tentou matar a minha filha, mas acertou o Eduardo. Depois que eu internei meu filho, apareceu um homem tentando matá-lo. Mas tudo indica que essa garota mandou que o meu filho fosse morto. Ela sabe que ele a reconheceu na porta da nossa casa- Ariane lista outro motivo que pode enviar Bete à prisão.
-Toma- Vinícius entrega o diário de Hilda à Alice- Lê com calma e depois a senhora vê o que vai fazer.

No dia seguinte, bem cedo, Bete está com a televisão de seu quarto ligada e arruma suas coisas para fugir do sobrado. Repentinamente, repara que o diário de sua mãe não está mais no guarda-roupa.
-Onde foi que eu guardei a porcaria daquele diário?
-A polícia confirmou a morte de dois rapazes acusados de tentativa de assassinato contra o menor Eduardo Acioly Silveira.
-Morte?- Bete corre para aumentar o volume da televisão.
-Por volta das onze e cinquenta da noite da última sexta-feira, Phelipe Salgueiro Araújo rendeu um médico da unidade de saúde em que Eduardo está internado e usou o jaleco e a identificação do profissional para tentar matar o jovem, que já estava hospitalizado após ser alvejado na porta de sua própria residência. Um policial que estava no local tentou desarmar Phelipe, sem sucesso, e coube a Eduardo atirar contra Phelipe, em legítima defesa. Ainda assim, o bandido conseguiu fugir na companhia do seu irmão, Roberto Salgueiro Araújo. A Polícia Civil chegou a perseguir o carro em que ambos estavam, mas o veículo, conduzido por Phelipe, perdeu o controle e, após um capotamento, explodiu, matando a dupla. Sal e Lipe, como eram conhecidos, tinham uma passagem pela polícia por assalto. A investigação trabalha com a hipótese de que Eduardo tenha sido hospitalizado justamente por causa da dupla. As causas para os dois atentados, entretanto, ainda são desconhecidas.
-Bom demais pra ser verdade! Me livrei desses dois idiotas sem precisar fazer nada! E ainda por cima vão levar a culpa no meu lugar!- Bete ri- Não podia ser melhor... Quer dizer, o Eduardo não tá fora de combate ainda... Mas é só uma questão de tempo- a vilã ouve alguém bater a sua porta, esconde a mala no guarda-roupa e abre para ver quem é: trata-se de Alice, com uma bolsa a tiracolo- A senhora aqui?
-Que recepção mais fria, Elizabete. Pensei que você fosse me convidar pra entrar...
-O que a senhora quer aqui?
-Entre outras coisas, isso- Alice não se contém e dá uma bofetada no rosto da traficante.

02/07/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 29: POR QUÊ QUE EU NÃO POSSO SABER? (ÚLTIMA SEMANA)

-Eduardo? Que mané Eduardo? Eu não conheço ninguém com esse nome...
-Não é o que consta na relação de alunos da turma de terceiro ano do seu colégio. Turma essa da qual você faz parte.
-Ah, o Eduardo!- finge que lembra- Mas o que eu tenho a ver com o que aconteceu?
-Isso você vai responder à polícia amanhã. Mas preciso da assinatura de algum dos seus responsáveis. Eles são as pessoas que podem e devem te acompanhar para o depoimento. Onde é que eu os encontro?
-Meus pais morreram há muito tempo, moço.
-E com quem você mora? Porque, segundo a coordenação do seu colégio, você é menor de idade.
-Já atingi a maioridade, sim. O que houve foi um problema nos meus documentos, mas eu deixei a coordenadora avisada sobre isso. Onde é que eu assino?
-Aqui, por favor- o policial indica a linha e a criminosa assina- Tenha um bom dia, e não se esqueça de comparecer amanhã no horário marcado.
-Pra você também- Bete fecha a porta- Que mancada eu dei! Eles vão descobrir que minha identidade tá com a data errada, que eu menti pra entrar no colégio! Aqueles dois idiotas me deixaram na mão, mas o que é deles tá guardado... Não, Bete! Fica calma... Respira... O foco agora é você. Dessa noite eu não posso passar. Amanhã eu não vou estar aqui, pronto. Não tem como me acharem. E assim que a poeira baixar, eu dou um jeito no Fábio de uma vez por todas.
-Tá achando mesmo que vai conseguir, Bete?- Diego aparece para a vilã.
-Você não existe mais! Desaparece! Some da minha frente!- grita.
-O teu final já tá perto de chegar, é só esperar. Esse policial na tua porta, sabe quem é? O começo da tua queda, cretina!
-Sai!- Bete atira copos na direção do que ela pensa ser o falecido namorado- Some, infeliz! Some, cretino! Não, eu não tô louca! Eu não vou ficar louca, como querem que eu fique... Eu venci o Diego, a Victória, o Vinícius... Vou vencer o Fábio e a Gabriela também, mais cedo ou mais tarde. Vou conseguir, sim. Vou conseguir... – Bete esfrega as mãos uma na outra, ansiosa- o celular toca e é Galego, um dos usuários do colégio- Fala, Galego.
-Sério mesmo que você não vem, Bete? O pessoal da boca tá te esperando, faz dias que você não traz nenhuma pedra pra gente.
-Já tava saindo de casa, relaxa. Na hora do intervalo, eu levo vocês pra aquele canto, longe das vistas da coordenadora.
-Tá bom. Tchau.
-Tchau- Bete desliga o celular e coloca em sua mochila as drogas pelas quais os usuários estão esperando. Em seguida, deixa o sobrado. Dez minutos depois, é a vez de Vinícius aparecer no velho imóvel, forçando a fechadura com uma faca e entrando à procura de algo que prejudique a traficante.

Fábio está sozinho em seu quarto quando Gabriela aparece em sua frente trajando apenas um sobretudo preto.
-Você aqui? Veio me ver pra quê?
-Você nem desconfia?
-Fala de uma vez e vai embora.
-Melhor do que isso, Fábio. Eu vim mostrar- e Gabriela livra-se do sobretudo, subindo sobre a cama do rapaz e deitando de bruços, olhando-lhe fixamente.
-O que você quer? Me deixar louco?
-Só se for de desejo. E então? Se eu pedir, você vai me tocar, do jeito que você nunca sonhou na sua vida?
-Não mexe comigo desse jeito, Gabriela. Me deixa em paz. Eu não tive mais sossego desde que descobri o que você fez comigo.
-Apaga essa péssima impressão que você tem de mim. Me faz ser sua.
-Não. Eu não quero mais você, e não vou ter você nunca.
-Pior pra você, Fábio.
A porta do quarto se abre e entra um homem, cujo rosto Fábio não é capaz de ver, que deita sobre o corpo de Gabriela e começa a transar com a moça. O amante, que Fábio julga ser o da sua namorada.
-Vagabunda desgraçada!- Fábio parte para cima do par, desferindo socos que não são sentidos por nenhum deles, que atingem o ápice do prazer diversas vezes naquela cama.
Joyce entra no quarto e encontra Fábio com dificuldades de respirar.
-Não pode ser, Fábio... – a médica corre atrás de um enfermeiro- Traz o nebulizador agora, o paciente está passando mal!- volta para o quarto, deitando Fábio sobre a cama.
-Eu tenho que matar eles! Me deixa matar eles! Tira os dois daqui, tira agora!
-Calma, Fábio! Vai ficar tudo bem! Se acalma, por favor!
-“Tão” transando junto de mim! Sem-vergonha, cachorra!
O enfermeiro entra com o nebulizador e o coloca no rosto de Fábio.
-Separa pra mim uma dose de metadona, eu vou administrar pra ele.
-O que é que ele tem, Doutora?
-Só pode ser uma crise de abstinência! Mas a gente vai cuidar de você, viu?- Joyce garante a Fábio- Eu te prometo que vai passar. Não aconteceu nada, Fábio, está tudo bem.

Nonato está deixando o hospital no qual trabalha e ao chegar ao estacionamento, depara-se com Vinícius.
-Posso falar com você, Nonato?
-A gente se conhece?
-Você é quem não se lembra. Eu te conheço através da Bete. Lembrou agora?
-Ah, você é aquele modelo que vivia lá no sobrado dela...
-Vivia.
-Por que você veio me procurar aqui?
-Você sabe que a Bete fez um vídeo íntimo de vocês, não sabe?
-Não acredito que ela te contou isso!
-Calma, a Bete não é doida a esse ponto. Eu dei o meu jeito e acabei assistindo.
-Olha, você faz de conta que esse vídeo nunca existiu, por favor. A Bete tá me chantageando com esse vídeo. Ameaçou entregar pro diretor do hospital se eu não fizesse o que ela me mandou dizer.
-Sério? E o que ela mandou você falar?
-Que a Gabriela, namorada do Fábio... Peraí... Você não chegou a falar com a Bete?
-A Bete nem sonha que eu tô aqui, Nonato.
-Então, veio pra quê? Pra me chantagear também?
-Presta atenção, Nonato: uma bomba com essa não pode cair nas mãos erradas, concorda?
-O que você quer de mim?
-Depende do que você vai me contar. O que a Bete pretendia te filmando na hora do sexo, ainda mais dentro do hospital?
-Queria que eu contasse uma mentira pro Fábio: a de que a namorada dele tinha sofrido um aborto por causa do acidente. Pelo que eu entendi, a Bete queria que o Fábio se sentisse culpado pelo acidente que eles dois sofreram.
-Tem noção de que você acabou com a vida do Fábio com essa invenção, não tem?
-Eu não queria ter que inventar nada. Mas era isso ou a Bete me denunciava! Todo mundo ia saber o que eu fiz, ia descobrir também que eu conheço traficante, que eu me drogo... Foi o risco que eu tive que correr.
-Recuperei a gravação.
-Como é?
-Eu recuperei a gravação que a Bete fez de vocês no teu consultório e tô disposto a te entregar. Só que você vai ter que fazer o que eu disser.
-O quê? Me pede que eu faço. Qualquer coisa pra me livrar da Bete!
-Você vai contar tudo pra família do Fábio.
-E se eles me denunciarem?
-Até lá, eu já tenho te entregado a câmera da Bete. Você destrói a gravação e fica tudo OK. Só que eles têm que saber o que a Bete fez pra prejudicar o Fábio. Agora que ele tá internado, por culpa dela, ninguém vai medir esforço pra jogar aquela filha da mãe na cadeia.
-Por que você se empenha em acabar com ela?

-Porque a Bete acabou com a vida da minha namorada e acabou com a minha também. E eu não vou deixar que ela ferre com o Fábio também. Só a gente pode deixar todo mundo alerta contra a Bete. E então? Você aceita quebrar o teu silêncio em troca da confissão?

01/07/2017

VIDA LOUCA/ CAPÍTULO 28: NO FINAL DE MAIS UMA ESTRADA PERDIDA (ÚLTIMOS CAPÍTULOS)

Eduardo fica debatendo-se sobre a cama, tentando respirar, mas Lipe faz o possível para impedi-lo. Do banheiro do quarto, sai um policial, que rende inesperadamente o irmão de Sal.
-Parado aí!- o policial aponta uma arma para Lipe, que reage largando o travesseiro e tentando tirar o revólver da mão do homem que estava cuidando de Eduardo. Os dois travam uma batalha e Eduardo, com falta de ar, grita:
-Alguém me ajuda aqui! Socorro! Alguém me ajuda, por favor!
-Larga essa arma, imbecil! Solta!- o policial deixa o revólver cair sobre a cama de Eduardo, mas ainda segura Lipe, que o empurra contra uma estante. O bandido, então, volta-se para o irmão de Gabriela, que reage segurando revólver e disparando contra o ventre de Lipe, que fica incrédulo com a atitude de legítima defesa.
-O que foi que eu fiz, meu Deus?
-Você me paga, filho da mãe!- com dificuldade, Lipe caminha em direção ao paciente, que atira novamente, desta vez contra a parede, assustando-lhe.
-Sai daqui, senão eu atiro de novo pra matar! Dá o fora daqui! Foi a Bete que te mandou, não foi?
O policial, um pouco exausto do confronto, levanta-se do chão e vê Lipe fugindo do hospital. Chama reforço dos colegas da corporação.
-Atenção, tem um suspeito vestido de médico fugindo pela entrada principal do hospital. Tentativa de homicídio contra Eduardo Acioly Siqueira. Não deixem esse cara fugir- desliga o celular- Você está bem?
-Não acredito que eu fiz isso? Eu atirei no cara! E se ele morrer por minha culpa?
-Ainda bem que a sua irmã contou tudo pra polícia e nos deixou de sobreaviso. Fica tranquilo, que nós vamos pegar esse rapaz.
Lipe corre até o carro em que Sal o espera.
-Sai da direção, que eu vou arrancar!
-O que foi?
-Deu tudo errado- liga a ignição- A casa caiu, Sal!
-Então, vamos sair daqui! “Bora”! “Bora”!
À toda velocidade pela madrugada, o carro em que Sal e Lipe estão percorre as ruas do centro da cidade. Duas viaturas seguem o automóvel.
-Eu não tô aguentando, Sal! Tá doendo pra caramba!
-Você tem que aguentar! Os caras estão no encalço da gente!
-O miserável pegou a arma do tira e me acertou!
-Acelera logo, Lipe! Não perde tempo, não, meu irmão!
Uma das viaturas consegue aproximar-se do carro dos irmãos dependentes. O oficial do banco do carona avisa pelo rádio.
-A avenida é de mão única, manda a equipe fechar a avenida agora!
-Aguenta firme, Lipe!
-Não tá dando, Sal!
-Para o carro agora! Encosta esse carro!- o oficial avisa, mas Sal aciona o acelerador, vendo já que seu irmão está enfraquecendo.
Em dois minutos, sete viaturas conseguem fechar a avenida. Alguns deles saem de seus carros e apontam suas armas para a rendição dos irmãos.
-Continua dirigindo, Lipe!
-Sal, eu não posso mais! Não consigo mais... Sal, eu...
-Lipe? Lipe, o que foi?
Lipe desmaia sobre o volante.
-O carro deles está vindo! Fiquem em posição- alerta um dos policiais que pretendem efetuar a prisão. Sal tenta conduzir o carro, afastando a cabeça de Lipe do volante, mas não consegue dirigir e perde o controle do automóvel.
-Não, Lipe! Você não pode me deixar sozinho nessa! Acorda!
-Ele vai bater! Se afastem!- vários policiais correm.
-Não!- Sal grita, em desespero, para colidir com uma das viaturas e ter o carro lançado para o alto, capotando diversas vezes em seguida.
-Chamem os paramédicos, agora!
Sal tenta sair do carro, que virou um monte de ferro retorcido, mas vê alguém inesperado naquele momento.
-Victória?
Começa a vazar gasolina do veículo, posto de ponta-cabeça em decorrência do acidente.
-A última coisa que eu vi foram os seus olhos. Chegou a sua vez de ver os meus.
Dez policiais, enquanto esperam os paramédicos chegarem, aproximam-se do veículo para conferir se há algum sobrevivente do desastre, mas são impedidos quando o carro explode, matando instantaneamente os assaltantes contratados por Bete.

Alice está na cantina do hospital e Caio está ao celular, resolvendo alguns detalhes da nova internação de Fábio.
-Obrigado, eu volto a ligar. Até logo.
-O que você resolveu?
-Disseram que só precisam saber quando o Fábio terá alta daqui. Depois, ele vai direto para o centro de apoio.
-Como assim? Ele não vai ficar alguns dias em casa, de repouso?
-Melhor não, Alice. Talvez ele tenha esperanças de que nós desistamos de interná-lo. O ideal é que ele vá para o centro o quanto antes.
-Só que antes eu quero conhecer esse lugar.
-Claro. Eu posso te levar lá.
-Não, não precisa, Caio. É só você me dar o endereço. Você é tão ocupado, não precisa perder seu tempo comigo.
-Tempo esse que envolve o Fábio. Desde que aconteceu toda essa tragédia, eu venho pesquisando pra colocar o Fábio no melhor lugar possível.
-Você tem sido o melhor pai pra ele. Mesmo nessas circunstâncias.
-Você também tem sido uma mãe maravilhosa. Aliás, sempre foi.
-Acho que não fui o suficiente pra evitar do meu filho ter vindo parar nesse lugar.
-Para de se culpar. O Fábio vai se recuperar, é isso que realmente importa.
-Caio- Ariane chega com a filha na cantina.
-Gabriela, você apareceu! Tudo bem?- Caio pergunta para a moça.
-Mais ou menos. A gente precisa conversar com vocês.
-Ué, o Eduardo não veio? Cadê ele?- Alice pergunta para Ariane e Gabriela.
-O Eduardo tá internado. Tomou um tiro.
-O quê? Mas como é que foi isso?
-Ele está bem, Ariane?- Caio fica preocupado.
-Tá fora de perigo, sim; não precisa vocês se preocuparem.
-Precisam, sim. Caio, Alice, nós queremos conversar sobre o Fábio.
-Sobre o Fábio? O que foi desta vez?
-Eu descobri quem deu a droga que fez ele ter a overdose naquele dia.
-Foi o Vinícius, não foi?
-Não, Dona Alice. Foi a Bete.
-Bete? Quem é Bete?
-A senhora conhece. Bete é aquela menina que conversou com a senhora no dia que a senhora foi pro colégio. Aquela que tava chorando porque o namorado morreu.
-O que é que essa menina quer com meu filho, Gabriela?
-Não sei, Seu Caio. Mas ela é mais perigosa do que a gente pensa. E eu vim com a minha mãe pra pedir ajuda pra vocês afastarem a Bete de todo mundo.
-Filha, é melhor a gente contar tudo que sabe desde o começo. Podemos sentar?
-Claro, por favor. Conta tudo, Gabriela- Alice puxa uma cadeira para a namorada do filho e Caio repete o mesmo gesto para Ariane.

Vinícius está em sua casa, perto da hora de acordar e, quando desperta, assusta-se com a presença de Luciano sentado numa poltrona de seu quarto.
-Parece uma assombração, que é isso?
-Larguei do plantão agora há pouco. Estava esperando você acordar.
-Pra quê, Pai?
-Pra contar um caso muito interessante que eu vi na delegacia.
-Ah, para! Para de encher o meu saco, olha que horas são pra você me contar drama de delegacia!
-A morte da Victória não foi acidental, não é, Vinícius?
-Victória? Por que você tá dizendo isso? O que a Victória tem a ver com o caso?
-Agora ficou interessado?
-Desembucha logo.
-Primeiro, o Diogo morre em circunstâncias parecidas com um acidente. Depois, a tua namorada morre por reagir a um assalto. Em seguida, o Fábio sofre uma overdose... Agora temos um mistério novo.
-Mistério novo? Tá falando do quê?
-O Eduardo, irmão da namorada do Fábio, levou um tiro e foi parar no hospital.
-O Eduardo? Mas ele tá bem?
-Na medida do possível. Ele sobreviveu, mas um cara invadiu o quarto e tentou matá-lo no hospital. O suspeito não conseguiu, fugiu do local com um comparsa e os dois acabaram morrendo numa perseguição.
-E o que isso tem a ver com a Victória?
-Todos esses acontecimentos aconteceram com alunos da sua sala. Não é estranho pra você?
-Tá achando o quê? Que todo mundo é drogado, como o senhor diz que eu sou?
-Não. O Diego e o Fábio eu sei que são, mas os outros... São os outros que me intrigam.
-Aonde você quer chegar?
-O que é que você sabe sobre isso, Vinícius?
-Por que eu deveria saber? O Fábio teve uma overdose e o outro se drogou antes de morrer. Simples assim.
-Alguma coisa me diz que você sabe, sim.
-A Victória morreu por fatalidade, por uma estupidez.
-E tudo isso aconteceu quase que ao mesmo tempo? Eu não acredito em coincidências, Vinícius. Fala o que você sabe, ou do que você desconfia, pelo menos.
-Se o Eduardo também toma uns ácidos, eu não faço a menor ideia, mas quem sabe, né? Acontece nas melhores famílias- ironiza, para fugir do questionamento.
-Vinícius, me responde só uma coisa.
-Já que eu não tenho como escapar do interrogatório, já que você transformou meu quarto na sala de acareação, diz...
-Se você amava a Victória, como eu bem sei que amava, vai deixar a morte dela sem punição?
-O que você quer com esse circo todo?
-Te deixar de sobreaviso: melhor que você me conte o que realmente sabe, e o que existe por trás desses fatos. Eu não quero descobrir, por conta própria, que você me esconde alguma coisa grave. Fala, Vinícius.
-Eu não sei. Eu não sei de nada, Pai.
-Está bem, então. Vou te dar esse voto de confiança, não me custa nada. Mas, por favor, embora isso não signifique nada pra você, não me decepciona- Luciano abandona o quarto e deixa Vinícius pensativo.

Bete está aflita à espera de notícias de Sal e Lipe, que apareceriam em sua casa para combinar a fuga.
-Cadê esses moleques? Por que eles não chegaram até agora?
Batem à porta do sobrado. A bandida corre para atendê-los, mas fica espantada ao ver um policial em sua frente.
-Você é Elizabete Corrêa Feitosa?
-Sou eu, sim. O que é que o senhor quer?
-Eu trouxe pra você uma intimação. Tem como algum responsável por você assinar isso? Seu pai? Sua mãe?
-Peraí, vai com calma, tá? Que palhaçada é essa de intimação?
-Elizabete, você tem que comparecer amanhã, às nove horas, na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, sem falta.
-Mas por quê?

-Pela tentativa de assassinato cometida contra Eduardo Acioly Silveira. Conhece esse rapaz?