20/10/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 20


-Não, não tem. Senta-te, Tato.
Cissa procura nem olhar para o rosto do filho de Dora e Kleber. Ele, por sua vez, concentra-se no culto que o amigo insistiu que ele deveria acompanhar. A tensão poderia aumentar quando Nete foi vista por Valente olhando fixamente para o visitante inesperado. Mas logo o músico se distrai quando a noiva pergunta, em seu ouvido:
-O que ele está fazendo neste lugar?
-Buscando A mesma pessoa que nós dois.
-A igreja não é lugar para ele.
-A igreja não é lugar de pecado. Mas se os pecadores não entrarem, ela fica vazia.
-Não acredito que isto está acontecendo...
Percebendo um clima hostil entre o casal de noivos, Fabiano entra com uma solução providencial: pede que os fieis deem as mãos e orem uns pelos outros. A estratégia consegue acalmar o coração da vendedora, mas não consegue interceder por ninguém, muito menos por seu escolhido. Nete, então calada, acredita que a qualquer momento o amigo de Valente faria algo que comprometesse a imagem do músico, como se a ideia que ela vinha formando sobre o saxofonista não fosse o suficiente. Comportou-se e manteve-se calado a maior parte do tempo. Abriu a boca apenas ao fim do culto, quando notou que a esposa do pastor ainda estava à porta e apertou a sua mão.
-Sejas bem-vindo e voltes quando quiser.
-Podes deixar, que talvez eu volte. Gostei muito daqui- Tato diz, seguindo Valente, que se despede da noiva com um beijo. Ela vai para o seu automóvel e segue para a casa na qual mora com o irmão, enquanto os rapazes seguem até o apartamento.
-A décima primeira praga do Egito quer voltar? Misericórdia!- quase pensando em voz alta, a mulher demonstra aflição.
-E aí? Gostaste do culto?
-Para ser sincero, gostei, sim. Só achei diferente. Não é algo com que eu esteja acostumado.
-Sabes que serás bem-vindo lá.
-Clarissa não gostou muito da minha presença.
-Tato, o que importa é o que tu foste fazer lá. Se fosse para causar discórdia, nem permissão para entrar tu terias.
-Valente, não estás sofrendo nenhum tipo de represália por minha causa, estás?
-Por que perguntas isto?
-Por causa do que o meu pai falou, naquele dia em que ele brigou conosco. Fiquei com medo de ele procurar o meu tio e...
-Com todo o respeito ao teu pai, mas o Hélio não vai livrar-se da ética que possui por conta do irmão.
-Tudo é válido para que escondam quem eu sou de verdade.
-Bem, se tu não fazes esforço para esconder, não será o Hélio ou o Kleber que farão o contrário em teu lugar.
-Como sempre, tu dizes a coisa certa para que eu me acalme.
-Deixes que eu seja sincero contigo novamente, Otávio.
-Fales.
-O que pretendes fazer agora? Tomarás os lamentos do que a vida poderia ter sido se não houvesse esta discrepância com Kleber como o teu norte?
-Quanto mais eu penso que tenho na mente um plano para seguir em frente, mais eu vejo-me perdido.
-Abandones a amargura que sentes.
-Como eu realizo esta proeza, bom amigo?
-Faças algo que te encha de prazer. E coloque os seus planos nas mãos de Deus.
-Por que eu agiria assim?
-Porque só dá errado aquilo que insistimos em ter sem necessitarmos. Continuarás querendo sofrer a troco de quê?
-Eu não quero sofrer mais, nunca disse que queria...
-Então, corras atrás dos teus sonhos, mas vive-os com quem realmente tem amor por ti.
-Sei que já te disse uma vez, mas repetirei: queira ter a fé que tu tens, Valente.
-Não queiras ser como eu, meu amigo. Queiras ser melhor do que ontem.
As palavras de Valente acalentam um pouco o coração angustiado de Tato. Nada como um bom amigo nas horas difíceis para mostrar que estará por perto, torcendo por nós. Olívia passava pela mesma sensação, estando em um lugar onde não conhecia ninguém, e que estava por indicação de alguém a quem tinha bastante estima. Logo, uma companhia agradável como Nicolas era bastante bem-vinda nessas horas. Como a intenção declarada era não falar sobre assuntos acadêmicos, ambos conversaram na lanchonete da universidade sobre o que disseram ter em comum: o interesse por Deus.
-Conta-me. De que denominação tu fazes parte?
-Eu? É... Da Igreja União Sacra.
-Nunca ouvi falar desta.
-É que é uma igreja pequena lá da minha cidade, entende?
-Como assim? Tu não és daqui?
-Não, eu ocupo um dos dormitórios que a universidade disponibiliza, já que sou do interior do estado. Por isso mesmo tenho ido tão pouco.
-Que pena. Sempre é bom estar perto do nosso Pai de amor.
-Mas eu estou. Eu sempre procuro ler a Bíblia, sempre oro, jejuo... E ainda mais agora, com toda essa loucura do doutorado...
-Não podemos falar de universidade, esqueceste?
-Tem razão, desculpe. Mas é que eu fico meio bobo na sua presença.
-Bom, a questão da frequência de culto eu posso resolver para você.
-Como, Olívia?
-Fiquei sabendo que há encontros bíblicos aqui na universidade, uma vez por semana. Quem sabe não possamos ir juntos?
-O amor que você sente por Deus é tão... As minhas palavras chegam a escapar.
-Gosto da tua companhia justamente por este aspecto, Nicolas: saber que tu és tão parecido comigo no que é tocante à fé.
O texto dito por Olívia deixa Nicolas em êxtase, sensação esta que não pode ser vivida no momento por Kleber, que desde o dia em que saiu do consultório médico, não conseguia ter um só minuto de paz, embora seguisse firme no propósito de não deixar que ninguém soubesse do seu problema de saúde. No dia seguinte, acorda-se às cinco e quarenta de uma manhã ensolarada e, após alguns minutos sentados na cama, decide tomar um banho. Seria para Dora mais um dia de trabalho, não fosse o fato de que o seu marido procuraria outra opinião médica acerca de seu caso antes de ir à agência de viagens que comandava.
Só que, para a dona de casa, seria um dia como qualquer outro. Claro que ainda estava às turras com seu esposo por causa da expulsão de Tato, mas cria expectativas de que o marido arrepender-se-ia de sua vigorosa opinião. Ainda cochilando, Dora coloca a mão esquerda sobre a cama. Ao dar-se conta da ausência de Kleber, levanta-se para escovar os dentes. Ele está no banho, mas deixa a porta aberta.
-Bom dia, amor- Dora cumprimenta o cônjuge, mas o barulho da água não permite que ele a ouça- Acordou tão cedo hoje, o que há?
Novamente, o irmão de Hélio sente fortes dores e leva a mão direita ao ventre, encostando a esquerda ao vidro do banheiro. A agonia do patriarca é intensificada.
-Eu não vou aguentar... Alguém me ajuda... – diz em voz baixa.
-Estás a ouvir-me, meu amor?- Dora é tristemente surpreendida com o forte baque sofrido por Kleber. Corre para ajudar o marido- Kleber? Kleber, o que é que tu tens?- pergunta ao vê-lo desfalecido- O que tu tens, Kleber? Kleber! Fales comigo, amor! Alguém me ajude! Socorro! Socorro!
Dora olha para o empalidecido rosto de seu esposo e corre até o telefone celular, onde procura o número da clínica do Dr. Lopes.
-Alô?
-Doutor, aqui é Isadora Queiroz Goulart- Dora corre para o banheiro enquanto dialoga com o médico da família.
-O que aconteceu com o... O que houve, senhora?
-Por favor, envies uma ambulância para a minha casa. O meu querido teve um mau súbito no banheiro e não está reagindo.
-Está bem, eu encaminharei o quanto antes. Mas o que Kleber teve?
-Não sei, Doutor. Ele desmaiou e ainda não voltou a si.
-Fiques tranquila, que eu já estou mandando a ambulância para onde vocês estão.
-Obrigada- abaixa novamente, segurando a cabeça do marido- Vais ficar bem, querido. O socorro já está a caminho.
As surpresas não estão restritas à família Lacerda Goulart. Os Marques Barboza são outro clã que serão tomados por um acontecimento inesperado dentro de instantes. No apartamento de Michel e Cissa, os irmãos conversam sobre os últimos acontecimentos envolvendo a relação entre a vendedora de roupas e o músico conhecido por “varão valoroso”.
-Como estão as coisas com o Valente?
-Juro para ti que estou tentando conduzir a situação com a mais absoluta parcimônia. Mas não tem dado certo.
-Acreditas que o teu noivo tem se colocado contra ti para defender o Tato?
-Nem menciones o nome daquele indivíduo aqui dentro, por favor. Já é o bastante tu o conheceres melhor do que todos nós!
-Devo-te um pedido de desculpas. Acabei o colocando na vida de vocês. Mas ele também não tinha o direito de expor a mim, como fez no dia do noivado.
-Se eu não amasse tanto o Valente, juro que riscaria este dia para sempre da minha memória. Agora os teus lamentos não adiantam, Michel. Deverias ter pensado quando da época em que conheceste aquele tipo.
-E eu lá imaginei que meu nome seria jogado aos quatro ventos por causa do que tive com o Tato?
-Durante quatro anos! E o pior é que isto não é nada perto do rastro de destruição que o desgraçado deixou em pouco tempo. Sabes que, lá na igreja, não se fala em outra cousa a não ser a boa ação do meu noivo. Fala-se mal!
-Mas o Valente também... Custava ter deixado aquele gajo ao relento? Ou ao menos poderia ter encaminhado para a casa do tio, mas não!
-Chega a ser bastante estranho ouvir-te falar desta forma.
-Não vejo razões para estranhares.
-Michel, tu vais ter que desculpar tua irmã, mas é algo completamente absurdo. Passaste anos vivendo um caso com aquele rapaz, e hoje te referes a ele como se jamais houvesse existido nada.
-Cissa, o que tivemos foi mantido em segredo por opção nossa, e era muito mais cômodo ao Tato porque o Kleber jamais aceitaria um filho que gostasse de ambos os gêneros. Só que, para mim, era ainda mais confortável. Imagines sair na rua e ser apontado por ter dormido com um homem. Claro que é difícil que tu entendas; afinal, só mesmo ir para a cama sem manter um compromisso para vocês é pecado, promiscuidade, sei lá eu o nome que vocês dão a isto...
-Óbvio que não vou recriminar a ti, Michel. Não sou a protestante mais santa do mundo, nem faço questão. Se eu deixei de ser do mundo, foi por um motivo muito forte. E esta razão parece escapar dos meus dedos a cada segundo...
-Não tens certeza do amor que aquele gajo sente por ti?
-Até sinto... Mas é como se eu não fosse o suficiente para o Valente, como se me recriminasse com o olhar. Tive vontade de pular no pescoço daquele atrevido quando ele pisou na igreja, e só não o fiz porque o meu homem estava ali.
-“Meu homem”... Já não é a primeira vez que te ouço falando desta forma sobre o teu noivo. Até causa medo a maneira que... É como se o Valente não fosse um homem que tivesse a mera possibilidade de amar-te.
-O Valente não pode mesmo amar a mim, Michel. Tem que me amar!- ouve-se a campainha -Estás esperando alguém?
-Não. Deves ser a encomenda que estava esperando pelo correio.
-Enquanto tu recebes, eu vou à cozinha preparar aquela macarronada...
-Nossa, há quanto tempo não fazes isto...
-Hoje é “a tarde”, meu irmão. Aguarde!- Cissa fica animada e vai à prateleira, procurar a embalagem do espaguete, enquanto a porta do apartamento é destrancada. Michel toma um susto ao ver um abatido jovem.
-Tu aqui?
-Faz muito tempo que não nos vemos, Michel...
-Nossa... Eu não esperava por... Entres, por favor.
-A tua irmã está aí?
-Michel, onde foi que guardaste o... – Cissa reage com indignação à visita- O que estás fazendo aqui?
-Precisamos falar, Clarissa. Muito seriamente.
O tempo que Ricardo levou para chegar à casa de Cissa e Michel é o mesmo que foi utilizado pela ambulância para levar Kleber às pressas para a clínica do Dr. Lopes, onde é submetido a uma bateria de exames, ainda desacordado. Dora liga para Hélio a fim de avisar sobre o ocorrido, mas este deixa o celular no silencioso sobre a mesa de sua sala particular, enquanto acerta alguns detalhes da apresentação de Valente com Alessandra.
Lopes sai do quarto em que Kleber está internado, sob efeito de fortes sedativos. Dirige-se à esposa do paciente.
-O que está havendo com o meu marido, Doutor?
-Dora, venhas comigo, por favor...
-O que tiveres de dizer, dirás aqui. Não me ocultes nada.
-O Kleber veio procurar-me há algum tempo. Disse que estava com desconforto para urinar e sentia dores.
-E por que ele não me disse nada?
-Provavelmente para não te preocupar.
-Qual foi o diagnóstico?
-Insuficiência renal aguda.
-Não acredito... O Kleber...
-Disse-me ele que procuraria outra opinião, por não ter crido nos exames que eu fiz. Mas a situação do teu marido é realmente grave. Entrei em contato com o banco de doadores da cidade e...
-Esperas... Doadores? O Kleber vai fazer um transplante?
-Ele precisa. Se não fizer a cirurgia, ele pode morrer. E o pior é que não há órgãos disponíveis nos bancos. Temos que correr contra o tempo para encontrar uma pessoa compatível com o Kleber.
-Mas... Quem poderia doar?
-Qualquer pessoa, já que a extração de um rim não compromete a saúde de um doador. Só que, na falta de pacientes que tenham rins reservados para a doação, teremos que apelar para alguém da tua família.

13/10/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 19


-A óbito? Que espécie de brincadeira é esta que estás fazendo comigo?
-Não lidaria com um assunto tão sério desta maneira, Kleber.
-Mas deve haver alguma forma de resolver o problema, sem que eu apele para uma cirurgia! A própria hemodiálise, como eu te falei. Basta que tu digas quando eu posso iniciar o tratamento e...
-Se ao menos a tua doença renal fosse crônica, poderíamos fazer este tipo de tratamento, mas não é o caso. Trata-se de um quadro agudo. O exame de sangue que tu fizeste hoje demonstra um alto grau de potássio. Qual é a tua frequência no que diz respeito à quantidade de vezes que vais ao banheiro para urinar?
-Nas últimas semanas, eu tenho estado com muita vontade, mas são poucas as vezes que consigo expelir urina.
-Tomas água com frequência?
-Sim, sim. E agora tenho tomado mais, justamente para... Não podes estar dizendo a verdade.
-Infelizmente estou, Kleber. E o pior é que, se tu não tratares a tempo, pode desencadear um inchaço na região da próstata...
-Chega, eu não quero ouvir mais nada...
-Mas, Kleber...
-Por favor! Fui suficientemente claro! Vamos encerrar este assunto...
-Tens que começar o tratamento o quanto antes, fazer contato com o registro de doadores da capital...
-Por enquanto, não. Eu não quero preocupar minha mulher.
-Manter-se calado não vai trazer outro resultado que não seja o agravamento da sua situação.
-Não quero que saibam de nada!- grita, agora em pé- Eu tenho que ir.
-Kleber, não sejas teimoso.
-E tu não sejas irritante! Ninguém pode saber o que os exames revelaram, entendeste bem? Ninguém vai saber. Boa noite.
Longe da clínica, Kleber continua rejeitando o diagnóstico de insuficiência renal aguda. Em breve, procuraria outro médico, pois queria que outro profissional dissesse-lhe algo diferente. Ao menos, Lopes seguiria com sua ética e não revelaria nada para a parentela do agente de viagens. Isto explica a calma de Tato durante o ato de abrir a porta para Cissa, quando esta visita Valente na mesma noite. Calmo por não saber sobre Kleber, e nem imaginar que fosse a noiva desesperada tocando a campainha.
-Onde está o meu Valente?
-Varão valoroso, tu tens visita- brinca Tato, avisando ao amigo que está na cozinha, fechando a porta e indo para o quarto.
-Amor, que surpresa!
-Não esperava ver a mim hoje?- beija-lhe de uma forma urgente.
-Não, é que tu falaste do ensaio na igreja. Jurei que tinhas ido diretamente para casa.
-Tive uma ideia e vim até aqui para saber o que tu achas.
-Digas, então.
-Por que nós dois não adiantamos o nosso casamento?
-O que te deu, Cissa?
-Nada. Apenas acho que não temos que esperar tanto.
-Mas eu não disse quando vamos nos casar, então não podes dizer que vai demorar tanto.
-Valente, eu conheço-te. Esperas que a nossa vida dê um giro de trezentos e sessenta graus.
-Não, isto eu quero que Deus faça, não nós.
-Sabes quanto tempo pode demorar a acontecer? Uma casa própria para nós dois e o meu próprio negócio?
-É por esta razão que temos que esperar. Teremos que dividir um apartamento enquanto eu financio a casa nova e tu lidas com o teu comércio, Cissa. O melhor que temos a fazer é aguardar...
-“Aguardar”, “esperar”... Pareces que não tens outras palavras em teu glossário particular a não serem estas.
-O que eu tenho percebido é o quanto temos tido desentendimentos ultimamente. Isto significa alguma cousa, Cissa?
-Prefiro que tu me digas.
-O que foi? Não se esquives do meu questionamento, é uma simples pergunta.
-De fato, nós temos discutido bastante. Mas não digas que não sabes a real razão.
-Sei, sim. Mas não concordo com ela.
-Hoje, a Irmã Nete estava comentando da briga que o Otávio teve com o pai. Por que não me disseste nada?
-Porque é um assunto particular que envolve somente os dois.
-A ti também. Pois ele te acusou de ser o que tu não és!
-E acreditas que eu queira preocupar-me com a opinião do Kleber?
-Não, com ele não. Mas com o que as pessoas podem pensar a respeito deste caso. Valente, a permanência do Otávio virou algo fora de controle.
-A dor de cabeça causada pelo Tato está na tua cabeça e da Nete. Cissa, pelo amor de Deus, tu sabes que ela implica com qualquer ser humano nas horas vagas. E nas úteis, faz a mesma cousa.
-Tu já o ajudaste, o Hélio esteve aqui para interceder por ele, o pai descobriu o teu endereço... O que mais precisa ocorrer para tu jogares este gajo para fora do teu apartamento?
-Vontade de ser excessivamente desumano, Cissa. Não quero fazer com ele o que supostamente fizeram comigo.
-Não tens culpa do abandono dos teus pais.
-Para eles, talvez eu devesse ter.
-A situação é completamente diferente.
-Concordo. Mas o Tato não vai ficar aqui para sempre.
-E se nos casarmos, é que não ficará mesmo na minha casa.
-Nossa casa.
-O que é isto? Estás confrontando a mim?
-Confrontaria se tu fosses a minha dona. Apenas estou conversando contigo, insistindo para que tu se dês bem com o Tato.
-Nunca. Depois do que ele fez, admiro-me muito de ver-te pedindo isto.
-Cissa, eu nunca fui um homem de impor condições. Talvez por conta disso eu não goste de impor na vida alheia aquilo que eu aceito como verdade. Eu simplesmente a vivo e pronto.
-Mais uma frase enigmática? O que queres dizer?
-Que o amor que tu sentes por mim nasceu por aquilo que eu sou, e não pelo que queres tornar-me. Sabes por que razão estamos juntos até hoje?
-Diga-me, Valente.
-Porque não tentaste afastar-me do amor do Criador. A mulher que leva o homem para mais perto de Deus é a ideal.
-E não sou eu este tipo de mulher, Valente? Acaso duvidas da minha fé?
-De jeito nenhum. Só não ponhas à prova aquilo que eu sou. Eu tenho pecados, falhas... Defeitos como todos. O pedestal não é lugar para mim e jamais será. Se tu suportas os meus defeitos, posso te garantir que sabes amar. Caso ames as minhas poucas virtudes, é mero encantamento. Agora, se não gostas nem de uma coisa nem de outra, eu não sei o que tu sentes por mim.
-Isto tudo é um “sim” ou um “não”?
-Vou pensar. Coloquei pipoca no micro-ondas, queres comer comigo?
-Claro, meu amor. Claro que aceito.
Se no apartamento do saxofonista existe uma determinada tensão devido à oposição de Cissa à presença de Tato, no Recifeeling a situação estava prestes a se repetir. Kleber, um pouco pálido, chega à recepção do restaurante e encontra Alessandra.
-Onde está o meu irmão?
-Em sua sala, Dr. Kleber... – Alessandra vê o agente de viagens passar como um foguete, disposto ao que pretendia. Kleber abre a porta, assustando Hélio.
-Preciso falar contigo agora mesmo- senta-se na frente do irmão.
-Aconteceu algo com o Tato?
-Não, mas vai acontecer.
-Kleber, o que tu tens? Estou a te achar tão...
-Vamos focar no que realmente interessa, Hélio. Eu quero que... Ou melhor: eu exijo que tu demitas o saxofonista que deu abrigo ao meu filho.
-Como é?
-Não vou repetir, entendeste muito bem.
-O que não compreendo é a tua desfaçatez de pensar que eu vou fazer isto. Ainda mais agora, que Valente está prestes a casar-se.
-Não me importam os planos que ele tenha traçado. Apenas exijo que o ponhas para fora do restaurante.
-E quem és tu para tomar decisões acerca do Recifeeling? Com que autoridade queres alterar o meu quadro de funcionários?
-Sou irmão do dono, esqueceste?
-Quem anda com problemas de memória és tu, porque eu ainda sou o dono do restaurante. E não vou jogar o Valente na rua por um capricho teu.
-O que tu chamas de capricho nada mais é do que uma tentativa de salvar o Otávio da perdição.
-Que argumento tu usarás agora, Kleber? Dirás que a bissexualidade do teu filho é fruto da convivência com o Valente, como se não tivesse tido um romance com outro homem às escondidas?
-Porque não viste o que eu presenciei: a forma como os dois abraçaram-se.
-Desconfias do Tato por conta de tudo o que descobriste com relação a ele. Mas daí a supor que exista um interesse escuso na amizade que ele cultiva com Valente é demais.
-Pensas que conheces tão bem o músico... Achas o quê do fato do tal Valente dar guarida justamente ao Otávio? Coincidência? Será que ele realmente moraria com um desconhecido, que trabalha para o seu tio, e não mencionaria nenhum membro de nossa família?
-Tato está magoado com todos nós, depois da forma como tu o trataste. Ele não confia em nós porque acredita que vamos recriminá-lo.
-Após ter feito o maldito caso com o Michel vir à tona, o que querias tu que eu fizesse? Abraçar o meu filho e incentivá-lo a prosseguir com a prática da pouca vergonha?
-Não! O que deverias ter feito é chamado para conversar! Diálogo também é capaz de resolver os problemas, caso não tenhas ciência disso...
-Ah, poupes-me! Falas com tranquilidade sobre isto porque não sabes o que é ser pai.
-Talvez tenhas razão. Mas, supondo que tu estejas mesmo certo, a minha escassez de know-how na paternidade pode fazer com que eu afirme que... O Valente não será demitido. Conhecendo-te como eu bem conheço, sei o que pretendes: fazer como ele passe por dificuldades financeiras e que Tato desista da vida simplista que leva para voltar à tua casa.
-Não vais me ajudar mesmo, não é? Está bem, então. Só peço que aguarde, com paciência, a punhalada que aquele maldito músico te dará. Tenhas um péssimo dia- sai apressadamente, após seu irmão constatar seu real intento.
-Kleber! Kleber, voltes já aqui! Kleber!- apela, inutilmente- Tomara que ele se arrependa de pensar tão mal sobre o próprio filho.
O que Hélio não desconfiava era de que não seria tão rápida assim a revisão dos valores que Kleber faz do filho e de seu amigo saxofonista. Era necessário conhecer mais a fundo o caráter de ambos, tarefa esta a qual Olívia se propunha longe dali, nos corredores da universidade, quando encontra casualmente Nicolas mais uma vez.
-A paz do Senhor.
-Amém.
-Como é que você está?
-Bem, e tu? Como tens passado?
-Melhor agora, que te vi- a frase arranca um tímido sorriso da estudante- Claro que continuo naquela correria para aprontar a defesa da tese.
-Já está próxima a tua defesa?
-Mês que vem, acredita?
-Nossa! Mas estás adiantado, pelo menos?
-Faltam só as considerações finais... Só que rola aquele estresse sempre, como se fosse final de período na faculdade. Nós ficamos a mil, e temos que levar com naturalidade.
-Queria muito dedicar-me à minha tarefa com toda esta calma que tu demonstras.
-“Calma”, Olívia?- ri- Eu estou uma pilha de nervos, são contadas as noites que eu durmo, tamanha a ansiedade pra que a defesa chegue logo.
-Gostaria muito de estar lá.
-E vai. Já está mais do que convidada. Só falta marcar o dia, mas eu posso te avisar, mandar uma mensagem pro teu celular.
-Faço questão de comparecer ao dia da tua vitória.
-O mesmo eu posso dizer de você... Do seu mestrado, é claro.
-É...
-Sinto falta de desafogar um pouco, entende? Sair pra dar um passeio, respirar... Aposto que, com você, acontece o mesmo.
-Pois é. Depois que o resultado da seleção do mestrado e eu, graças a Deus, fui aprovada, só vivo aqui dentro.
-Graças a Deus mesmo... A gente podia marcar algum lugar pra se divertir juntos, o que você acha?
-Eu? Uma ótima ideia. Mas que lugar, Nicolas?
-Sabe o Sófocles, aquele restaurante que fica aqui dentro do campus?
-O que dizem que tem preços salgados?
-Esse aí. Eu te convido pra gente fazer um lanche depois da tua aula, você quer? Aí, a gente aproveita pra bater um papo sobre a faculdade, a pós-graduação... Qual é o teu assunto preferido?
-Deus. E tenho para mim que é o teu favorito também, a julgar pelo que conversamos.
-Claro, claro que é. Que dia está bom pra você?
-Pode ser amanhã mesmo, se não tiveres nenhum compromisso...
-OK, então. Amanhã, então, a gente se vê. Fica na paz.
-Que Ele te acompanhe.
-Amém, Olívia.
Assim que os jovens se afastam um do outro, um estudante, visivelmente furioso, cola quatro cartazes com o retrato de uma graduanda da instituição...
-“Suzane Lins de Oliveira, vinte e um anos, desaparecida desde o dia primeiro de junho de dois mil e vinte, foi vista pela última vez nos arredores do prédio do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. Até quando o reitor da universidade continuará omisso a este e outras ocorrências de desaparecimento, mantendo a polícia e a imprensa longe das investigações do paradeiro das estudantes que vêm sumindo desde o início do ano passado?”.
Mistérios a parte, voltamos à Lisboa para que os frequentadores da Igreja Comportas do Céu sejam pegos de surpresa. Em cada banco do local, cabem cerca de cinco pessoas, e no que estão posicionados Cissa e Valente, só há quatro fieis. Fabiano está comandando a liturgia referente à ocasião e sua amada (porém inquieta) esposa está à porta do templo. Como o culto teve início vinte minutos antes do momento descrito, ela pensa:
-Acho que já posso fechar a porta, não virá mais ninguém hoje. A igreja está praticamente lotada.
-Boa noite- alguém chega ofegante por ter corrido para acompanhar o rito religioso a tempo.
-Tu?
-Eu posso entrar?
-Claro... Fiques à vontade.
A vontade real de Nete era impedir a entrada do visitante, que procura um lugar para sentar-se, mas o único lugar disponível é o que está ao lado de Valente. Justamente o homem que o convidou.
-Tem alguém aqui, varão valoroso?
Cissa e Fabiano procuram concentrar-se no tema abordado naquela noite, mas por segundos ficam surpresos com o fato de Tato ter aceitado vir ao templo religioso.

06/10/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 18


-Está tudo bem, Kleber? Kleber?- a dona de casa fica aflita com o grito.
-Não te preocupes.
-O que houve contigo?
-Já te falei que não foi nada. Voltes a dormir.
Para não se indispor com o marido, coisa que mais tem feito nos últimos dias, Dora obedece a Kleber. O agente de viagens, por sua vez, recupera-se levemente da indisposição, permanecendo com as mãos sobre o ventre. A cena já havia sido vivenciada por ele há tempos, e o esclarecimento sobre o que tinha foi protelado por conta do trabalho... Era a hora de procurar um médico.
Pode ainda ser cedo em Lisboa, mas Olívia já está se arrumando para ir à faculdade naquela tarde, que se aproxima. Antes, liga o notebook e inicia uma conversa com Beatriz, ainda sonolenta por ter frequentado uma rave na noite anterior.
-E então, Olívia? Como é que está tudo por aí?
-Às mil maravilhas. Nunca pensei que fosse gostar tanto de um lugar como eu estou adorando tudo isto aqui.
-Teu sorriso está diferente... Algum motivo em especial, além do mestrado?
-É, tu me conheces bem.
-O que fazer, já que sou tua irmã? Mas contes. O que há de novo?
-Beatriz, eu conheci um gajo que...
-Mas vejas só! Logo tu, interessada em alguém?
-Se ainda fosse um homem comum, mas não...
-Muito bonito?
-Bonito ainda é pouco para defini-lo.
-Já sei: também é crente como tu. Só isto explica tanto entusiasmo.
-Eu disse o quanto tu me conhecias bem.
-Onde vocês conheceram-se?
-Na universidade. Ele é doutorando e está escrevendo uma tese sobre geriatria. E em poucos minutos de conversa, já mostrou-se como alguém muito especial.
-Invistas neste homem.
-Beatriz!
-Teu interesse nele é nítido, querida. Não tens o que esperar. E se o desejo for recíproco...
-Sabes bem que eu não vou fazer o que me sugeres.
-Claro, esqueci-me que agora tens outro chato por perto. Mas permanecendo no assunto: ele demonstrou estar interessado em ti?
-Sim. E é isto o que me deixa mais nervosa.
-Vou dar-te um conselho que tenho certeza de que podes segui-lo sem que me recrimines.
-Do que se trata?
-Uma vez que o rapaz promete retribuir o que tu sentes, vejas no que pode dar. Não fujas. Afinal, não é isto que todas nós procuramos: homens com interesses em comum?
-Estás certa. Verei se o encontro hoje na universidade.
-Qual o seu nome?
-Nicolas.
-Sendo assim, toques num tema que tenhas percebido que ele gosta tanto quanto tu. Desta forma, não faltará assunto, tampouco oportunidades para conversar.
Beatriz não foi tão agressiva ou invasiva quanto costuma ser, e Olívia aplicaria o conselho dado por sua irmã. Claro que, por trás da boa ação, havia o interesse de ver a irmã desprendendo-se do preceito de pureza que a religião tanto prezava, mas tudo fora dito num tom que não a afastasse.
Mas Nete estava realmente preocupada com um certo assunto, e isso ficou latente durante o intervalo de um ensaio das componentes de um coral da Igreja Comportas do Céu, cuja ocasião traz Cissa como integrante. Após o último hino, a esposa de Fabiano chamou a vendedora em particular.
-Precisava falar tanto contigo, filha...
-A senhora parece estar tão aflita! O que houve, irmã?
-É... É sobre o teu noivo.
-Aconteceu alguma cousa com o Valente?
-Sim, com certeza. Mas o que houve de tão grave é o fato do qual todos nós temos conhecimento: a presença do gajo que... Que o teu irmão conhece.
-Olha, Irmã Nete, se a senhora vai me dizer que acredita que eu concordo com a presença do Otávio na casa do meu noivo, saibas que eu sou abertamente contra.
-Não, querida, eu sei que tu não queres o rapaz lá. Mas ocorreu-me uma curiosidade, e eu queria que tu pudesses esclarecer-me.
-Se eu souber do que se trata...
-O Valente disse quando pretende casar-se contigo?
-Não, ele não estabeleceu um prazo. Provavelmente quer juntar dinheiro para comprar uma casa própria e... Eu também havia dito que queria abrir minha própria confecção de roupas. O noivado, para mim, foi uma surpresa, pois pensei que ele esperaria mais.
-Aproveites esse pretexto e o use a seu favor.
-Como?
-Faças o Valente adiantar o casamento!
-Com que propósito, irmã?
-Querida, penses comigo: casada com o Valente, tu terás que viver no apartamento do teu marido. Logo, o rapaz vai ter que sair de lá.
-A presença do Otávio não incomoda ao Valente, por incrível que isto possa parecer.
-Mas incomoda a mim, à igreja, aos vizinhos e, certamente, a ti também. Sabes o que eu cheguei a presenciar na rua? Uma discussão entre o rapaz que o Valente abrigou e o próprio pai, para quem se atreveu a falar de maneira nem um pouco respeitosa. Sinceramente, eu fiquei assustada com a sua agressividade. E também...
-Por favor, não me escondas nada.
-Ah, é que... O pai do gajo o flagrou dando um abraço no Valente.
-Este tipo de gesto não é para ser entendido de maneira errada, irmã...
-Não, longe de mim, imagines... O que me assustou foi que o pai do rapaz disse, claramente, que os dois tinham algo a mais do que amizade.
-Que absurdo! Como é que ele pôde pensar uma coisa tão absurda?
-O que me intriga, Cissa, é ele falar isto em público. Por isso que eu fiquei tão aflita. Já imaginaste se ele espalhar essa calúnia acerca do Valente?
-Meu medo também é este, irmã. O problema é que o meu noivo, como bem todos devem saber, ama olhar para o próximo.
-Só que, às vezes, o próximo não merece tanta atenção sendo-lhe dispensada.
-Concordo plenamente. Ainda assim, não consegui convencer Valente a desfazer-se da presença desse novo amigo.
-O adiantamento do casamento é mais um motivo para insistir. Se ele quiser saber o porquê, não digas, pois pode acabar irritando-se caso seja confrontado.
-Que argumento poderia justificar a antecipação da nossa cerimônia?
-Bem, vocês estão juntos há quatro anos. É natural que queiram que a união civil e religiosa ocorra o mais rápido possível. Além do quê, quanto tempo pode demorar para que tu abras o próprio negócio e ele junte a quantia necessária para a compra de uma casa? Saxofonistas não ganham tanto quanto almejam, ainda mais tocando num estabelecimento para fornicadores! O único que ficou rico foi o tal do Kenny G.
-Eu pensei que não conhecias músicos do gênero instrumental.
-Querida, eu não sou rica, meu marido não o é e os meus vizinhos também não. As chances de um carro de som aparecer na minha rua são mil em mil e uma oportunidades!
-Não fiques preocupada, irmã. Eu vou insistir com o Valente, mais uma vez, sobre o assunto.
-O importante é que não te dês por vencida e neutralize a influência malévola do indivíduo que instalado está em tua futura residência.
Pronto! Nete só faltou dizer que o rapaz escreveu o roteiro de “Malévola”. O comportamento do Tato, daqui a pouco, poderá ser creditado como o responsável pela notícia desagradável que Kleber receberá naquela noite, após ter passado por uma bateria de exames que permitir-lhe-ia descobrir a razão de tantas dores, das quais vinha sendo acometido um pouco antes da discussão com o filho.
O médico da Família Goulart foi avisado de que a consulta deveria ser mantida em sigilo. A ética será respeitada pelo profissional da saúde- o difícil é dissimular a verdade para Dora, a mulher com quem está casado há vinte e seis anos.
-Desculpa-me por fazer-te esperar o dia inteiro, perder um dia de trabalho.
-Não há problema, Doutor, desde que eu saia daqui sabendo qual é a razão das minhas dores.
-Kleber, eu devo ser sincero contigo, mas é difícil constatar a verdade.
-Lopes, nós dois nos conhecemos há tanto tempo, que não há o menor sentido em tanto mistério. O que os exames disseram?
-As notícias não são nada boas.
-Fales!
-O teu problema é grave, Kleber. Trata-se de uma insuficiência renal.
-Tanto suspense só para este diagnóstico, Lopes?
-Não estás entendendo...
-O que vai me recomendar? Sessões de hemodiálise? Eu faço, só precisas dizer-me quais são os dias que eu devo comparecer à clínica e eu checo as vagas da minha agenda...
-É caso cirúrgico, Kleber.
-Cirúrgico?- Kleber sua novamente, como aconteceu quando estava em casa, empalidecendo rapidamente.
-Se tu não fizeres um transplante o quanto antes... Poderás vir a óbito…