28/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 26: EU NÃO SEI, NÃO... EU NÃO SEI!

Já amanheceu o dia. Danilo continua sangrando, devido a pancada sofrida na madrugada. A mancha escorre em seu rosto, e é nesse momento em que ele levanta o rosto. Toma um susto ao ver Karen com uma arma em punho, no quarto do hotel, com travesseiros e lençóis arrumados em pleno chão, com a porta da varanda aberta.
-Bom dia, meu amor. Que noitada emocionante você deve ter tido, hein? Só acordou agora...
-O que foi que você fez, infeliz?
-Nada. Só dei o meu jeito pra impedir que você passasse o resto dos seus dias na cadeia.
-Você ficou doida de vez? Me desamarra agora! A polícia tá atrás de você pelo que você fez com a Lívia e o Toni!
-Atrás de mim em que parte do planeta, Danilo? No meu apartamento? Seu bobo. Não tá vendo que eu arrumei outro ninho de amor pra gente?
-Você não ia me deixar assim, algemado, com as pernas amarradas numa cadeira, se quisesse meu bem. O que você quer?
-Ah, Danilo... Tantas vezes você me fez essa pergunta... E ainda não sabe a resposta? Tudo o que eu mais quis foi ser amada por você... Mas você nunca se deu a oportunidade de me conhecer.
-Conhecer quem, Karen? Uma mulher totalmente perturbada? Uma desequilibrada? Um monstro?
-Tudo o que veio antes de você me minar, antes de você me destruir pouco a pouco. Eu adorei tentar me livrar do crentelho chato, da lambisgóia da minha melhor amiga, mentir pra doméstica suburbana... Mas eu falhei em tudo. Tanto que agora a polícia tá no meu rastro. Vai ver que... Se eu te matar, isso pode servir de compensação.
-Você podia ter mandado alguém fazer isso na delegacia, não é?- debocha.
-Podia, sim, mas não ia ter o mesmo sabor de acabar com você com as minhas próprias mãos. Você me tornou um lixo de mulher, o pior ser humano que existe na face da terra...
-Cala essa boca, Karen. Tudo o que você fez foi porque quis. A única coisa que eu te pedi, e que você não soube fazer, porque é uma incompetente, foi dar um fim no Toni!
-Esse só foi mais um dos meus sacrifícios.
-Caprichos! E se você não conseguiu com ele, comigo muito menos.
-Quer apostar?
-Karen, não brinca comigo.
-Se você quiser sair vivo daqui, Danilo, vai ter que fazer o que eu mandar. Eu fujo, vou pra um lugar em que você não esteja e faço você escapar daqui num piscar de olhos. Só que você vai ter que provar que me ama.
-Até quando você vai continuar com essa palhaçada? Mete uma coisa na sua cabeça: o que a gente teve foi química, atração sexual, relação de conveniência!  Parece que eu vou ter que ser mais claro: Não te suporto!- grita pausadamente.
-Pode ser. Mas só tem duas saídas, Danilo: ou você faz exatamente o que eu quero hoje ou vai ter que escolher entre a cadeia e o inferno! Você não tem muito tempo pra pensar.
-Tudo bem. Eu faço o que você quiser. Agora, me tira daqui.
-Ainda não, meu amor. O espetáculo vai começar dentro de alguns minutos.

/////

Patrícia recebe a notícia de que Danilo não está mais na delegacia.
-Como assim, sumiu? Como foi que ele fugiu?
-Nós não sabemos, Dona Patrícia. A polícia foi ao apartamento de Karen Martins de Souza, mas...
-Bando de incompetentes! É isso que vocês são! Se o meu filho tiver correndo perigo, eu vou denunciar vocês por negligência! Já não bastasse essa prisão absurda do Danilo, agora nem o paradeiro dele vocês... – Patrícia se cala ao ler uma mensagem enviada por Karen.
-Chame a polícia e a imprensa. Danilo está comigo no Hotel Lux Night. Vou libertá-lo assim que chegarem.
-Dona Patrícia, ainda está na linha?
-Estou, Delegado. Acabo de descobrir que meu filho está com a Karen.
-Calma, pode ser uma armadilha.
-Não, eu sinto que não. Karen mandou uma mensagem pra mim, dizendo pra avisar a vocês e à imprensa. Disse que vai soltá-lo assim que chegarmos ao local indicado.
-Diga onde é. Eu vou acionar os reforços.

/////

Rafael está em seu consultório, quando Fabiano entra.
-Doutor, tem uma pessoa querendo falar com o senhor.
-De quem se trata?
-Se identificou como Silvio, mas não disse qual era o assunto.
-Tudo bem. Deixe entrar.
-Com licença- assim que Fabiano se retira, o advogado entra.
-Dr. Silvio, que surpresa!
-Como se sente, Rafael?
-Afogado no trabalho. Pra ver se eu consigo esquecer o que tem me acontecido nas últimas horas. Acredito que já saiba da prisão de Danilo.
-Danilo? Mas por quê?
-É uma longa estória, Doutor. Mas eu prefiro não tocar nesse assunto. Enfim, o que lhe trouxe aqui?
-Rafael, quando eu perguntei como se sentia, eu estava me referindo ao seu estado de saúde.
-Me sinto bem, Dr. Silvio. O que aconteceu?
-Bem que eu desconfiava... Rafael, eu vim tratar de um assunto delicado com você.
-Sou todo ouvidos. Algum problema?
-Ontem, a sua esposa veio me procurar pra que eu mudasse o seu testamento.
-Como é que é?
-Sim, ela chegou a solicitar que eu fizesse do seu filho o maior beneficiado.
-Eu não acredito que Patrícia teve estômago pra fazer isso comigo! Como é que ela pôde tramar isso nas minhas costas?
-Eu sei que é um assunto delicado e muito pessoal, Rafael, mas sua esposa disse que fazia isso por conta do seu quadro de saúde. Ela disse que você era vítima de uma doença terminal, segundo um check-up que você havia feito.
-Foi então que ela pensou em garantir o futuro do Danilo... Porque sabe que são farinha do mesmo saco, que escondem as verdades de mim, que tramam tudo pelas minhas costas...
-Como seu advogado, eu me senti na obrigação de avisar. Mas não quero causar nenhum tipo de desavença entre você e sua esposa.
-Um a mais, um a menos... Nos habituamos a nos ferir, Silvio.

/////

Patrícia chega junto com a polícia, gritando o nome do filho na rua.
-Karen Martins de Souza, sabemos que Danilo de Carvalho Tosak está sob seu poder. Renda-se agora mesmo, antes que meus homens invadam o quarto em que estão.
A moça leva Danilo até a varanda do prédio.
-Danilo! Meu filho!- Patrícia se desespera ao ver a noiva do rapaz armada.
-Fica frio, Delegado! Eu vou me render, mas antes a gente vai barbarizar contando umas coisinhas...
-Tá falando do quê, Karen?
-Tô falando que você vai assumir que abusou da Lívia e tentou matá-la.
-Claro que não vou fazer isso! Aí sim é que eu não saio da cadeia!
-Melhor você abrir a boca e falar tudo que eu disser. Quer que eu acabe com você aqui mesmo, na frente das câmeras de TV? Olha que a audiência vai disparar também, viu? Conta a verdade.
-Mãe... Aquela acusação de que eu tinha estuprado a Lívia... É verdade! E eu quis acabar com ela no hospital.
-Finalmente admitiu!
-Não, Delegado! Não! O senhor não está vendo que ele tem medo daquela psicótica? Ela está apontando uma arma pra ele! Ela está obrigando meu filho a mentir!
-Mãe, acredita em mim! O que eu falei é verdade!
-E eu dei ouvidos a ele- Karen continua descontrolada- Tanto que eu tentei matar o Toni atropelado, porque ele sabia de quase tudo!
-Tudo o quê?
-Eu soube que a Lívia tava grávida do Danilo e dei pra ela um remédio chamado LMD. Menti dizendo que não ia ter efeito colateral nenhum, mas tinha. E eu dei pra ela beber, pra que ela perdesse o bebê e morresse. O carro que eu dirigi quando fui à vila onde o Toni mora, foi o Danilo que me arranjou. Tudo por causa do amor que tenho por esse homem!
-Karen, acaba logo com isso... – Danilo suplica.
-Deixa o meu filho em paz, sua louca!
-O show só tá começando, Patrícia! Tanta questão fez de que eu fosse sua nora, e agora dá esse escândalo em praça pública? Que vexame!
-Karen, se renda agora mesmo. Ou eu vou dar ordem pros meus homens entrarem!
-Faz isso, Delegado. Quem arrombar essa porta primeiro vai encontrar dois cadáveres: o meu e o dele! Eu vou soltar o Danilo, sim! Na hora que eu quiser!- põe o rapaz para dentro do quarto, deixando Patrícia ainda mais desesperada.
-Já fiz o seu número, Karen! Agora me tira daqui!
-Comecei a me divertir, é verdade. Mas está na hora de nós dois rirmos de tudo isso como se não houvesse amanhã- abaixa a arma- Tira a roupa.
-O quê?
-Danilo, o hotel tá cercado de policiais, não temos toda a manhã pra isso! Tira a roupa! O que é? Você acha que eu deixei meu amplo apartamento, uma cobertura com vista pro mar, pra se enfiar em qualquer espelunca? Não, meu amor! Te trazer pra cá tem um propósito romântico: ficarmos a sós. E finalmente, ouvir você dizendo que me ama- Karen liga o microssystem e põe um CD, repetindo uma música- Lembra dessa? Sempre eu dizia, quando a gente brigava, que essa música resumia bem a gente. Tá esperando o quê pra tirar a roupa e me amar pela última vez?
Danilo se despe, ao mesmo tempo que Karen. Ela se aproxima de um dos travesseiros que estão no chão e solta o revólver, colocando-o por debaixo do objeto. Em tom baixo, ela acompanha a canção:
-“Ele quer me destruir. Eu não sou ninguém até a hora de acordar, até mais além. Como vês, o amor vai carregar as coisas na hora que ele chegar, vai levar tudo que conseguir chutando as paredes que eu construí”...
A voz cessa quando Danilo cede aos desejos íntimos de sua perigosa noiva, que esquece completamente da situação de perigo em que ela mesma os colocou. Havia vontade de se sentir amada, mesmo quando não podia ser. Isso a faz se esquecer da arma, que Danilo tira debaixo do travesseiro. Ele deixa de estar sobre a moça e aponta a arma para a jovem.
-Se eu fosse você, não ia tentar virar o jogo, Karen. Eu movo todas as peças, e sou obrigado a descartar uma delas: você.

27/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 25: O AMOR PODE SER BOM, SIM?



-Não me chama de pai! Você não merece que eu te considerar como filho depois do que fez a todos. Deixou a Karen mentir descaradamente pra Heloísa, arquitetou a morte do Toni pra que ele não dissesse o que o irmão soube, e tentou calar a Lívia hoje! Pensa que eu não sei de tudo, Danilo?
-Você vai ter que me acompanhar até a delegacia, pra prestar depoimentos sobre as tentativas de homicídio contra Marcos Antônio Almeida dos Anjos e Lívia dos Santos Figueira, além da acusação de abuso sexual contra essa mesma reclamante- esclarece Salviano.
-Eu não vou pra canto nenhum, o senhor tá ficando louco?
-Melhor pensar antes de desrespeitar uma autoridade, Danilo.
-E o que lhe faz pensar que eu tenho alguma coisa a ver com isso?
-Passamos a tarde toda na delegacia, seu inconsequente- brada Rafael- Além do Toni e da Lívia, que acabou de acordar e me contou tudo sem imaginar que você fosse o meu filho. Até um pastor está sabendo da canalhice que você fez! E trouxe até uma testemunha pra provar que você entregou um carro que quase fez a Karen assassinar o Toni!
-Como é que é? Quem foi que falou mal de mim? Quem foi? Diz o nome, diz na minha cara!
-Não adianta bancar o bravo, não, moleque. Não é aqui que você vai se defender, nem se pronunciar.
-Eu não vou pra lugar nenhum, já disse.
-Já disse que vai. Ninguém está prendendo você. Deixe de sua afoiteza, porque o juiz já emitiu uma intimação e você vai ter que me acompanhar, quer queira, quer não!- Salviano mostra o documento, mas este é rasgado pelo jovem, furioso.
-Danilo, você perdeu o juízo, meu filho?- Patrícia fica chocada com a atitude.
-Tem razão. Não devia ter rasgado. Devia ter deixado inteiro, pra fazer esse cara engolir! Quero ver qual é o juiz que vai me tirar daqui. Quero ver, inclusive, qual vai ser a porcaria de autoridade que vai obrigar a ir até a polícia. O senhor? Duvido muito que tenha cacife pra me enfrentar! Tem ideia de quem sou eu, por acaso?
-Toda. Podem entrar- dois policiais algemam Danilo.
-O que é isso? Me solta!
-Danilo de Carvalho Tosak, você está preso por desacato à autoridade. Podem levá-lo.
-Não podem fazer isso! Eu exijo que soltem meu filho agora!- Patrícia é contida pelo marido- Rafael, faça alguma coisa!
-Já fiz, Patrícia. Contar e saber de toda a verdade. Você sabia que o seu filho foi responsável pelo abuso sexual de uma das minhas pacientes? E que hoje de manhã tentou assassiná-la?
-Mentira! Meu filho nunca faria isso!
-Faria, não! Fez! Danilo não passa de um criminoso, de um marginal, e que é acobertado pela Karen!
-Vamos embora daqui, logo- ordena Salviano. Danilo tenta se soltar, sem êxito. Patrícia acompanha o filho, que deixou o celular cair na cama. Rafael olha e vê que Karen ainda está na linha. O médico aproveita a oportunidade para dar seu recado.
-Daqui a pouco, sua demente, é você quem vai parar na cadeia. Vai pagar por tudo que fez à Lívia, a Toni e ao meu filho!
-Se tem algum culpado do que tá acontecendo, é o seu filho, Doutor. Mas ele não vai me vencer. Nem ele, nem ninguém!- Karen atira o celular pela janela- O que eu vou fazer? O Danilo não pode ser preso, não pode acabar assim! A nossa história não vai acabar assim... Eu tenho que fazer alguma coisa pra tirar o Danilo da cadeia... Mas o quê?

/////

“Jesus Cristo é o Senhor
Da morte nos libertou
Morreu crucificado
Perdoou os meus pecados

Na dança de Nazaré,
Só não dança quem não quer”

Assim que termina o culto jovem da igreja, Toni sai de perto do seu equipamento de mixagem sob aplausos dos fiéis. Homero vai cumprimentar o DJ.
-Que hino abençoado. Quem é que canta?
-Deo Pactum. Encontrei as músicas deles na internet, sabia? Foi num dia que eu tava pelo SoundCloud. Depois eu passo pro senhor.
-Sabe, Toni, eu ainda estou com o coração partido depois do que eu vi hoje na delegacia, com aquele pai chorando cada vez que eu contava a história do carro. Quando o Seu Claudinei chegou pra confirmar minha versão, então...
-É, eu também fiquei com pena do doutor. Pro bem ou pro mal, é filho dele, né?
-Tomara que esse rapaz se arrependa de todo o mal que fez a vocês. Mas agora ele vai ter que pagar. Afinal, ousou tocar num rapaz que é protegido pelo unção divina...
-A Karen também, Pastor. Eu não sei quase nada desse Danilo, mas eu posso jurar que a noiva dele é pior.
-Não vamos julgar dessa forma, irmão. Todos têm direito à salvação.
-Pois é. Mas eu não acredito que ela esteja arrependida de tudo que fez. E digo mais: se derem brecha, ela ainda vai tentar fazer mais estrago.

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Alguns minutos após a chegada de Danilo à delegacia, um policial está na porta do local. Karen chega num táxi, vestida de preto e usando uma peruca ruiva. Ela paga a corrida e se aproxima do rapaz.
-Boa noite. Eu queria duas informações.
-Pois não, senhorita?
-O Danilo de Carvalho Tosak... Ele veio pra cá, não foi?
-Foi, chegou já tem uns vinte minutos. Ele foi chamado pra prestar depoimento, mas brigou com o delegado e foi detido.
-Tem mais uma coisa que eu queria saber- tira um cheque da bolsa- Eu tenho um pouco de dificuldade de enxergar à noite. Pode dizer qual é o valor que tá escrito aqui?
-Cem mil reais.
-Que bom que você enxergou. Se quiser, pode ver também a cor desse dinheiro.
-O que eu tenho que fazer?
-Fique tranquilo. Isso não vai lhe prejudicar. Eu só preciso que você tire uma pessoa daqui, e depois, o cheque pode ser seu.

/////

Patrícia está com Salviano pelo telefone.
-Está bem, obrigada. O delegado me disse que a questão do desacato pode ser resolvida mediante pagamento de fiança.
-Tire do seu dinheiro. Aproveite e chame um advogado.
-Não é possível que você não vai se mover, Rafael!
-Parece que você ainda não entendeu a gravidade do problema, Patrícia! Nosso filho é um criminoso, precisa ser punido.
-Até quando você vai usar esse ar de superioridade pra se referir ao Danilo?
-O que você chama de “ar de superioridade”, eu afirmo que é “ética”, “vergonha na cara”... Enfim, tudo que eu transmiti pro meu filho, e que você, sempre passando a mão na cabeça dele, fez questão de destruir.
-Se você faz questão de se culpar pelo fracasso que é ser pai, coisa que você não sabe ser, ótimo! Mas eu, Rafael, vou mover céu e terra pra tirar Danilo da prisão- Patrícia vai até o quarto, deixando o médico pensativo.
-Fracasso de pai... É... Talvez eu seja mesmo um.

/////

São duas horas da manhã. O policial que esteve com Karen bate na cela em que Danilo está.
-Boas novas, meu chapa.
-O que é? Pagaram minha fiança?
-Muito pelo contrário- abre a cela e algema o rapaz novamente- Você vai ser transferido. Me acompanha.
-Ah, que ótimo. Sair de uma espelunca pra se enfiar em outro esgoto a céu aberto...
Ambos saem da delegacia, praticamente sem ocorrências, e entram numa viatura. O oficial toma a direção do veículo e leva Danilo para um hotel, de dois andares.
-Que lugar é esse?
-Teu último destino, playboy- aponta a arma para ele.
-O que é que você vai fazer?
-Eu nada- o policial dá uma coronhada na cabeça do jovem, que desfalece- A Karen é que vai.

26/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 24: ENTENDER AS COISAS DO CORAÇÃO

-Lívia, tem certeza do que está me dizendo?
-Era ele, Doutor... Tô com medo... Medo de ele voltar...
-Por que ele ia querer tirar sua vida? O que é que ele esconde, Lívia?
-O meu filho... Ele... Vem de um abuso, Doutor... O Danilo... Quis acabar comigo... Pra eu não dizer a ninguém... Que ele é o culpado.
-Lívia... O Danilo que você está acusando... É o namorado da Karen?
-Como é que... Que o senhor sabe?- a pergunta faz Rafael levar a mão direita aos lábios, completamente perplexo. Fabiano entra no quarto.
-Já falei com o delegado, Doutor. Em meia hora, vem um policial pra fazer a segurança... O senhor tá bem?
-Fabiano, traz um copo d’água pra mim, que eu estou passando mal.
-O que o senhor tem, Doutor?
-Asco. Ânsia de vômito. Por favor, vai pegar uma água pra mim.
-Só um minuto- Fabiano sai correndo do quarto.
-O senhor... Conhece Danilo? Já viu ele no hospital?
-Mais vezes do que você imagina, Lívia.

/////

Alguns minutos depois, Heloísa já está ciente de tudo o que Lívia contou pra Juliano durante a experiência de quase-morte.
-Quanto mais eu penso, menos eu consigo me perdoar. Por tudo que eu pensei da minha filha, por tudo que eu disse...
-A senhora vai me desculpar, Dona Heloísa, mas não dá pra acreditar nessa papagaiada de Lívia contando segredos do passado enquanto estava em coma.
-Delegado, eu conheço Toni e o irmão, desde criança; eu sei que ele não ia mentir.
-Agora vai querer me convencer de que um evangélico acredita que o espírito de sua filha, que nem morreu, anda se comunicando por aí?
-Estranho pode até ser. Mas não é impossível- Toni e Ricardo vêm do fim do corredor.
-Terminou de fazer o retrato? Deixa eu dar uma olhada- ao ouvir Salviano, Ricardo mostra o desenho, que espanta a mãe da jovem.
-Esse rapaz... eu sei quem ele é.
-Sabe?- Toni se surpreende com a declaração.
-Ele é namorado de Karen. O nome dele é Danilo.
-Tem certeza, Dona Heloísa.
-Tenho, eu vi ele aqui no hospital. Ele estava junto com ela.
-Mas por que ele queria matar Lívia? Karen mandou ele fazer isso?
-Não, Toni- Rafael sai do quarto- Danilo queria matar a Lívia porque ele abusou sexualmente dela.
-Como é que o senhor sabe disso?
-Lívia acabou de me contar.
-Minha filha, Doutor. Como é que está minha filha?
-Agora ela está bem. Estava muito agitada depois que ele veio aqui.
-Já que não podemos tomar o depoimento de Lívia, o senhor vai ter que nos acompanhar até a delegacia, Doutor- Rafael chora.
-O que aconteceu?- questiona Ricardo.
-Esse rapaz... É meu filho, Delegado.

/////

Patrícia está com um longo vestido azul-marinho, impaciente pela chegada de Karen à mansão. Rafael chega atordoado.
-Cadê o Danilo?
-Rafael, o que aconteceu?
-Cadê o Danilo, Patrícia?
-Lá em cima, esperando a Karen pro jantar de noivado. Você não vai se arrumar?
-Não vai ter jantar nenhum!- sobe às escadas.
-Rafael, o que está havendo? Volta aqui, Rafael!

/////

No seu quarto, Danilo telefona pra Karen.
-O que houve que você não me telefonou o dia todo?
-O sinal tá péssimo... E tive que ajudar minha mãe, a organizar o jantar.
-Se livrou da Lívia?
-Não, e a culpa é sua! Sua por ter deixado aquele imbecil vivo!
-O Toni te viu?
-Viu... Quer dizer, nem sei se era ele... Mas só sei que ele me viu lá dentro e partiu pra cima de mim.
-Quer dizer que aquela desgraçada ainda tá viva?
Rafael entra no quarto, assustando Danilo.
-Pai?- Danilo não desliga o telefone.
-Como é que você teve coragem, Danilo? Coragem de fazer aquilo com a Lívia?
-Do que o senhor tá falando?
-Para de mentir, seu canalha! Deixa de ser dissimulado, que eu já sei de toda a verdade. Eu sei que você quis eliminar aquela moça, pra ela não contar que você abusou dela!
-Pai... Mentiram pro senhor. Como é que o senhor acha que eu sou capaz de...
-Fique quieto! Não é pra mim que você tem que dar explicação alguma- Salviano entra no quarto, a contragosto de Patrícia, que tenta impedi-lo.
-O que é isso? Você tá jogando seu filho na cadeia, é isso? Você vai me deixar ir pra cadeia, Pai?

25/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 23: É TÃO DIFÍCIL PRA MIM

-Você deve ter se confundido. Mas esse rapaz é Danilo, filho do Dr. Rafael! Eu tenho certeza!
-Eu vi ele com o travesseiro abafando a Lívia, eu vi!
-Não pode ter sido ele! Ele deve ter vindo aqui pra ver o pai, só foi isso.
-Eu peguei ele no flagra, ninguém me disse, não!
-Moço, você tá enganado...
-O que é que tá acontecendo aqui? Que gritaria é essa?
-Nada, Doutor- o enfermeiro tenta contornar a situação.
-Tentaram matar a Lívia.
-O quê?
-É o que eu tô lhe dizendo, um rapaz tava sufocando ela com o travesseiro- ao dizer isso, Toni vê Rafael correndo para socorrer a moça, que tosse bastante e se sente enfraquecida, com a respiração cada vez mais ofegante. O médico também vê o travesseiro jogado no chão, em decorrência da briga.
-Traz o nebulizador pra ela, rápido!- avisa ao enfermeiro, que busca o equipamento- Vocês viram alguma coisa?
-Eu vi esse rapaz entrando, Doutor- afirma um dos pacientes- Quando ele abriu a cortina, tinha um rapaz lá dentro, segurando um travesseiro.
-A gente viu eles dois brigando- ratifica outro que está na enfermaria. O nebulizador chega.
-Calma. Calma, nós vamos cuidar de você, fica tranquila.
-Ela piorou, Doutor?
-Vou ter que transferir a Lívia pra outro local, aqui ela não pode ficar.
-Eu vou pedir à direção do hospital pra colocar a moça em outra área- o enfermeiro propõe.
-Ótimo, faça isso.
-E eu, Doutor? O que eu faço?
-O óbvio, Toni: vai ter que falar com a polícia. Assim que eu trocar a Lívia de quarto, eu vou falar com o delegado.
-Tem como pedir pra ele vir aqui? Eu não queria sair de perto dela. Principalmente se o pior...
-Não vai acontecer o pior! Não vai! Eu vou salvar essa moça, e o homem que entrou aqui vai ter que pagar pelo que fez.

/////

Homero desce do elevador e vai falar com o porteiro.
-Bom dia, Seu Claudinei.
-Ô, Pastor, bom dia. Como é que tá a sua igreja?
-Minha, não. Do Senhor. Graças a Ele, ganhando cada vez mais almas. O senhor tem um tempinho?
-Claro, pode falar.
-Na verdade, eu queria tirar uma dúvida. Mas eu vou pedir que não comente isso com ninguém.
-Quanto a isso, pode ficar tranquilo. O que o senhor quer perguntar?
-Aquela moça que mora na cobertura, a Karen... Ela trocou de carro?
-Não, senhor. Continua andando normal no carro preto dela, o Palio.
-Tem certeza?
-Tenho, sim, senhor... Quer dizer...
-O que foi?
-Essa semana, o noivo dela apareceu aqui com um carro diferente, cinza. Eles se falam por uns segundos, depois ela assumiu a direção e ele foi-se embora, a pé.
-Quando foi isso?
-Nessa semana, acho que foi terça-feira de manhã, se não me engano.
-O senhor lembra como era o carro?
-Era parecido com um Corsa, Pastor.
-O carro era do noivo dela?
-Devia ser do Seu Danilo, sim. Se bem que eu nunca vi ele dirigindo. Sempre que ele vem visitar a Dona Karen, é andando a pé mesmo. Mas por que o senhor tá me perguntando tudo isso?
-Eu ainda não posso falar, Seu Claudinei. Mas eu vou lhe pedir mais uma vez: por favor, não comente isso com ninguém.
-Pode confiar, Pastor. De mim, ninguém vai saber nada. Olha, chegaram umas correspondências pro senhor.
-Deixa guardado, que mais tarde eu pego. Obrigado, Seu Claudinei.

/////

Heloísa chega desesperada ao hospital e vai falar com Toni,que está em um corredor.
-Cadê minha filha? Eu quero saber onde é que tá minha filha!
-Calma, Dona Heloísa...
-Como “calma”, Toni? Como “calma”? Você liga pra mim, diz que um homem tentou sufocar Lívia em cima de uma cama de hospital e me pede pra não ficar nervosa? Eu quero saber da minha filha agora! Onde é que ela tá?
-O Dr. Rafael tá examinando a Lívia, junto com o enfermeiro. Ele achou melhor botar ela numa outra ala, mais afastada, pra não ter risco disso acontecer de novo...
-Como é que a minha filha tá, Toni? Para de me esconder e me conta a verdade!
-Eu não sei, Dona Heloísa! Faz meia hora que eu tô esperando também. Até agora, ninguém me deu nenhuma notícia.
-Dona Heloísa? Marcos Antônio?
-Ah, graças a Deus o senhor chegou, Delegado.
-O que foi que aconteceu por aqui?
-O que aconteceu é que a minha filha quase foi assassinada dentro desse hospital! Mas como é possível que a segurança deixe entrar qualquer pessoa aqui dentro?
-É, o Dr. Rafael nos ligou avisando. E Lívia, como se encontra?
-Não sei, o doutor tá lá, examinando ela faz tempo. A gente não tem notícias.
-Pelo que soube também, você também teve um confronto corporal com o suspeito, é isso?
-Suspeito, não! Culpado! Eu sei o que eu vi, e eu tenho certeza de que se eu não tivesse chegado na hora, ele tinha matado a Lívia!
-Toni, eu sei que o momento é delicado, mas precisamos da sua colaboração. Deixa eu te apresentar, esse é o Ricardo, que trabalha comigo na delegacia.
-Prazer... Mas por que o senhor trouxe ele aqui?
-Bem, diante do que aconteceu essa semana, com o seu quase atropelamento, e a denúncia anônima contra a Karen, eu...
-Espera um minuto... Atropelamento? Que estória é essa, Toni? Tentaram te matar também?
-Foi, Dona Heloísa. Mas não foi a mesma pessoa que tentou acabar com a Lívia.
-E como é que você sabe?
-Foi a Karen.
-Karen?
-Lembrando que isso é só uma suspeita, Marcos Antônio.
-Mas por que Karen ia querer fazer alguma coisa contigo?
-Lívia andou conversando com Juliano, e disse que aquela estória de que Lívia tinha bebido e dormido com um cara sem conhecer era mentira. Que Karen sabe o nome do pai do bebê e que...
-Peraí, isso é impossível. Primeiro porque Lívia nunca se deu com Juliano, eu até ficava constrangida com o preconceito dela. E segundo... Quando foi que ela conversou com seu irmão?
-Quando ela... Quando ela já tava internada.
-Só um momento. Pelo que me falaram, Lívia estava em coma- Ricardo tenta compreender a situação.
-O meu irmão afirma ter ouvido a voz de Lívia enquanto ela tava internada. Ela disse a ele que Karen não é quem parece ser, que tá tentando manchar a reputação da sua filha dizendo que nem ela fazia ideia de quem é o pai da criança.
-Deixa eu ver se eu entendi: você chamou a polícia só porque seu irmão “ouviu uma voz, que seria de Lívia, afirmando que a melhor amiga mentiu para a mãe”? Sabe quanto tempo nos fez perder com essa palhaçada, rapaz?
-Palhaçada ou não, eu quase morri nessa semana por causa de um atropelador que fugiu sem prestar socorro! Hoje, eu peguei um cara sufocando a Lívia com um travesseiro! O senhor acha mesmo que eu não vou dar crédito ao meu irmão só porque ele não tem as evidências que a polícia tanto quer, Delegado? Duas tentativas de assassinato em tão pouco tempo e o senhor chama isso de “palhaçada”?
-Está bem, rapaz. Eu vou lhe dar mais um voto de confiança. Por isso que eu trouxe o Ricardo aqui.
-Como é que ele pode nos ajudar?
-Você vai descrever o sujeito que você viu atacando a Lívia. Ricardo fará um retrato falado.

/////

Rafael comenta com o enfermeiro sobre o estado de saúde de Lívia.
-Ainda bem que conseguimos estabilizar o quadro.
-Não é melhor eu conferir se o delegado chegou, Doutor?
-Isso, Fabiano. Diz a ele pra colocar alguém de sua confiança na porta do quarto.
-Tudo bem. Com licença.
-Ah, e liga pra minha esposa. Diz que eu não vou passar em casa pra almoçar. -Sim, senhor. Com licença.
O médico está colocando uma nova medicação no soro de Lívia, e é surpreendido pelo despertar da jovem.
-Pode ficar tranquila. Você está a salvo agora. A polícia já está cuidando do caso.
-Doutor... Tem que... Tem que prender aquele desgraçado...
-Eu sei, minha querida. Eu sei, mas você não precisa se preocupar. O importante é você recuperar sua saúde. Ainda mais por causa do filho que está esperando.
-Mas e... Se o Danilo voltar?
-Danilo?
-O pai do meu filho, Doutor... Foi ele... Que queria... Quem quis... Me matar.