02/02/2019

VALENTE VALENÇA/ ÚLTIMO CAPÍTULO


-Achas mesmo que, depois de tudo o que ocorreu hoje, ainda temos algum assunto a tratar?
Como um vendaval, Cissa não espera nem que Valente tome a iniciativa de fechar a porta, entrando no apartamento do que era seu noivo há poucas horas.
-Talvez tu não tenhas o que dizer, mas certamente tens a escutar.
-Não estou interessado em ouvir-te.
-Mas ouvirás. E atentamente.
-O que queres tu de mim agora, Cissa?
-Contemplar a tua falta de vergonha, teu cinismo, tua atitude diante do inferno que transformaste a minha vida. Destruíste o meu sonho, calhorda!
-Querias mesmo que eu prosseguisse com aquela farsa?
-O que foi o nosso relacionamento, definido por ti como uma farsa, frente ao espetáculo que transformaste a nossa cerimônia matrimonial? Eu vim aqui saber como tu foste capaz de arquitetar um golpe tão sujo como este. Estás tão indignado com o meu comportamento, mas deixaste para agir pelas minhas costas. Poderia ter acabado com o nosso noivado em segredo, mas preferiste transformar-me em motivo de chacota, fazer com que apontassem a mim como a rechaçada da igreja! Agora sou eu que te pergunto: esta foi a atitude digna de alguém conhecido pela alcunha de “varão valoroso”? Pois, para mim, não passou de algo típico de um covarde!
-Muito bem. Falaste o que querias, não?
-Ainda é pouco. Pouco perto dos danos que causaste à minha vida.
-Ah, é verdade. A tua vida... A prioridade é a tua vida nesta história toda... E eu que me dane!
-Se tu soubesses o quanto tive que me segurar diante daquelas pessoas naquele altar... Como também fui obrigada a suportar calada as tuas manias, os teus malditos preceitos, o modo correto que lançavas mão para tudo na vida...
-E foi preciso um escândalo como o de hoje para que tu pudesses dar-te conta da bela porcaria de homem que escolheste, não foi?
-Não ajas como se fosse a vítima de tudo isto, hipócrita.
-Eu fui o algoz! Algoz da minha vida e da tua, pois preferi levar adiante este romance mesmo sabendo quem tu eras. E olhes agora o preço que estamos pagando por conta da minha insistência em ficar contigo!
-O melhor castigo é que tu morras, desgraçado! O que foi? Tens agora peso na consciência?
-Vamos parar de falar como se estivéssemos falando de outras pessoas e passemos a conversar às claras: tu não me amavas.
-Como podes ser tão insensível a ponto de inventar algo desta natureza?
-Sabes muito bem que não é mentira nenhuma! Eu não passei de um brinquedo nas tuas mãos. Quando tu chegaste perto de mim, o teu intuito era fazer com que eu me interessasse por ti. Mas é lógico que percebeste imediatamente que eu não era válvula de escape de mulher alguma, que queria viver uma história de amor plenamente nossa, e não que eu substituísse alguém em tua vida.
-Que idiotice estás a falar agora?- Cissa desconversa.
-Achas mesmo que eu esqueci o Ricardo, depois de teres dito que sofrias por ele? E ao longo da nossa relação, em que ouvia comparações da Beatriz e do teu irmão, em que eles afirmavam que eu em nada parecia com ele?
-Até então, não parecias mesmo. Hoje, eu vejo que os dois são da mesma estirpe. Não passam de dois canalhas...
-Não me confundas contigo!- Valente levanta a voz.
-E tu, não banques o homem agora! Esperava uma atitude de homem lá naquela igreja, não aqui! Mas nem para isto tu serves!
-Michel e Beatriz sempre diziam que eu diferia totalmente do Ricardo. No começo, até achei ótimo que isto acontecesse, porque assim seria mais fácil de chegar ao teu coração. Mas fui reparando mais no teu comportamento, e vendo que estava convivendo com uma completa estranha.
-Ah, faças-me o favor!
-A Irmã Nete não gostava muito de mim no começo, por conta daquela história do motel, e depois por perceber que a minha formação era católica. Eu nunca estive à altura dela, e quando vi a forma como vocês interagiam, vi que não estava à tua.
-Então, por que achas que tive que suportar aquele lugar durante quatro anos da minha vida? Por cinismo? É isto que alegarás, Valente?
-Suportou por mim, nunca por amor a Deus. No fundo, tinhas a impressão de que eu poderia oferecer algo diferente, um caráter que talvez o Ricardo não tivesse.
-Nem ele, e tu tens menos ainda.
-Perguntavas tu da minha vida e eu só te dizia aquilo que sabia da minha história. Já das poucas vezes que falavas dele, enchias a boca com um desprezo doentio, como se fosse mais importante odiá-lo do que amar o teu namorado.
-Hoje entendo o quanto errei em separar os dois, como se fossem joio e trigo. Ambos são da mesma laia!
-Mas a gota d’água foi quando subornaste o porteiro para entrares na minha casa e ficaste nua no meu quarto.
-Como eu fui tola... Pensei que tu não havias me tocado para esperar o casamento. Agora eu entendo o porquê. Não passas de um maricas, um enrustido, um homem que jamais saberá o que é sentir desejo por uma mulher.
Valente passa ao lado de Cissa e abre a porta do seu quarto, onde há um espelho de um metro. Retira-o da parede e coloca-o diante da vendedora.
-Estás vendo esta mulher? Tu, melhor do que ninguém, podes definir quem ela é de verdade. Mas na minha concepção, ela não é nenhuma prostituta para que eu venha a tratá-la como tal. Eu sinto muito se tu não sabes o que é respeito por si mesma, Clarissa.
-Prostituta por quê? Por querer fazer sexo com o homem que eu amava?
-A prostituta age como alguém que não tem responsabilidade na vida de um homem. O grande problema, Clarissa, é que tu tinhas, porque estavas destinada a ser minha mulher, mas não o era ainda. E quando eu vi a forma como alimentavas a polêmica acerca da permanência do Tato no apartamento, percebi que seria uma armadilha. Eu poderia aceitar que nós transássemos e tu cogitarias a possibilidade de usar isto contra mim.
-Chantagem? É isto que pensaste que eu faria?
-Não. É isto que tu farias, sem qualquer sombra de duvidas. Tendo entre nós dois intimidade, não havia motivos para esperarmos o casamento. Mas e se eu esperasse? Se foste capaz de entrar na minha casa sem que eu soubesse, poderias muito bem contar a todos que eu transei contigo caso eu não me casasse. E desta forma colocarias em prática o que tinhas em mente desde o início: tirar-me da casa de Deus, porque aquele lugar não te apetecia.
-E por que achas que eu cultuaria os feitos de alguém que jamais me convenceu de Sua existência? Será que não era óbvio que em tudo havia a intenção de agradar-te? Ou pensas que eu sou capaz de amar alguém que eu não conheço, imbecil?
-Achas que, pelo que eu fiz, não entendo de amores, não é? Pois eu vou dizer-te uma cousa: se não consegues amar a Deus por não vê-Lo, podes odiar alguém também sem conhecer. E foi exatamente o que a minha mãe fez comigo.
-A mim, pouco importam os teus traumas de família. Resolvas com um analista- Cissa resolve deixar o apartamento, mas muda de ideia ao ouvir o grito do saxofonista.
-Vais escutar até o final! E não me interessa se isto servirá de chacota, se tu contarás a todos, pois eu só envergonho-me dos erros que eu cometo, de ninguém mais. A minha mãe teve um caso com um homem casado, e quando ele descobriu que ela estava grávida, fez com que ela optasse entre mim e ele. Ela escolheu um aborto, Cissa, para não ter de perdê-lo. Foi quando a minha tia fez um acordo: pediu que ela esperasse o meu nascimento para que a minha mãe me entregasse à adoção.
-Não sei o que eu tenho a ver com esta história que estás a contar-me.
-Não mesmo? Pois em breve entenderás. Continuando: a minha mãe aceitou seguir adiante com a gestação e quando eu nasci, minha tia ficou encarregada da minha educação.
-E por que nem a tua tia quis ficar contigo?
-Porque ela era uma freira, havia acabado de fazer votos de castidade e estava num convento- explica Valente, finalmente revelando o porquê do protecionismo de Joana para com ele- Pouco tempo depois, este mesmo convento converteu-se num local para menores desabrigados, o Lar do Menino Tobias. No dia em que ela me entregou, havia marcado um encontro com o meu pai, um político lisboeta. Na surdina, ele havia comprado um imóvel e posto em seu nome. Os dois foram conhecer a casa, mas houve um acidente. O carro em que estavam caiu no mar. Ninguém sobreviveu.
-O que pensas que ganharás contando-me esta história?
-Passei parte da minha vida esperando que me amassem, Cissa. E quando eu saí daquele orfanato, pensei ter encontrado o amor em tua figura alegre, sedutora, carismática... Ledo engano. Quando eu não fosse mais suficiente para o teu mundo, seria descartado. Ou não conheceria eu tua natureza inconstante?
-E para que não fosses abandonado, preferiste expulsar-me de tua vida?
-Infelizmente, o que eu sinto por ti ainda não se distanciou de mim. Mas eu posso garantir que a melhor história de amor que eu conheço não merece ser apenas contada, mas também vivida por mim. E eu vou viver o amor de Deus, queiras tu ou não.
-Fiques com ele. Usufruas do teu amor- Cissa alega, com desdém- Talvez nesta ilusão em que resolveste mergulhar, encontres a mulher que tanto procuras. Mas eu não vou viver algo que eu não acredito.
-Partilhamos da mesma opinião, então. Porque eu não acredito em ti. O que disse na igreja sou capaz de repetir em qualquer lugar: no dia em que uma mulher conseguir afastar-me do amor da minha vida, que é Deus, eu deixo de ser Valente Valença.
-Como és patético...
-Tomara que um dia encontres o amor de Deus e entendas o que eu quero viver.
-Isto ainda é preferível a ter que olhar o teu rosto novamente. Eu tenho pena de ti, Valente. Muita pena.
Cissa deixa o apartamento do ex-noivo e volta para a sua casa, onde Michel, apreensivo, está à sua espera. Abatido, o saxofonista segura o espelho que havia colocado temporariamente na sala e o devolve ao quarto, contemplando o CD brasileiro que Hélio havia dado-lhe de presente há alguns dias. Resolve ouvir a faixa-título, “Deus do secreto”, pela primeira vez, sentando-se no chão em meio ao mais desesperado lamento que poderia fazer em toda a sua vida diante da letra do louvor:
-“Minha trajetória é marcada por conquistas, minha arma foi a fé. Minha esperança é regada por lembranças que o tempo não levou, mas parece que um furacão me alcançou. Deus, eu não podia imaginar: perdi meu chão. Olha como chora o meu coração! Dessa vez, não consigo Te tocar, não tenho forças pra clamar. Confesso: já tentei. Dessa vez, eu entrei no quarto e tranquei a porta. Só Tu podes me encontrar, pois Tu és o Deus que me vê no oculto, Tu és o Deus que me vê no secreto. Tu és o Deus que me vê quando o homem não me vê. Eu não estou só, eu não estou só!”.
Trajando ainda naquela noite avançada um vestido que já estava manchado de tanto caminhar pelas ruas de Lisboa, Cissa aparece para tranquilizar o seu irmão.
-Já estava a telefonar para a polícia. Onde tu estavas?
-No apartamento do Valente. Quis esperá-lo voltar.
-O que foste fazer lá, minha irmã?
-Botar um ponto final na minha história. Acho que nunca fomos tão francos. Na igreja, eu conheci o Valente Valença verdadeiro. E ele conheceu a verdadeira Clarissa Marques Barboza. Antes tarde do que nunca.
-Desculpa-me, Cissa, mas... Não havia como funcionar.
-Tudo bem. Eu é quem fui uma tola em insistir com essa porcaria de romance. Tive a minha paga.
-E agora? O que será de ti?
-Sem a máscara? Uma mulher livre, é claro.
-Cissa... Eu estava a pensar sobre nossas vidas. Talvez fosse a hora de respirar novos ares.
-Como assim?
-Sofreste com o Ricardo, com a influência do Tato, com a imprevisibilidade do Valente... Não temos sido felizes.
-Logo tu me dizes isto? Ora, Michel, tu és tão despreocupado com as responsabilidades da vida, vives a viajar, não tens um lugar que possas chamar de “porto seguro”... E não te consideras feliz?
-O que estamos fazendo das nossas vidas a não ser vagar de um lado para o outro, depositando nossa confiança em pessoas que não satisfazem às nossas expectativas? Para que eu devo iludir-me, se me sinto bem melhor quando estou sem rumo, vagando de um canto a outro do planeta, sem dar satisfação a ninguém do que faço ou deixo de fazer?
-Muitas vezes, eu critico teu comportamento, mas eu tenho vontade de fazer o mesmo que tu fazes: sumir. Desaparecer sem deixar rastros. Neste momento, é o que mais eu preciso: esquecer-me da existência deste lugar- tira o vestido, com pesar.
Toca o celular de Michel.
-Alô? E então, gajo? Ah, sei. Pagam bem, é? E para quando será? Tudo bem, eu prometo pensar. Mas eu te ligo dando uma resposta até amanhã. Abraços.
-Quem era?
-O dono da boate.
-E o que ele queria, que não poderia esperar até amanhã?
-Com toda esta confusão envolvendo o teu casamento, acabei esquecendo-me de contar.
-O quê, Michel? Dizes!
-Hoje saiu a minha foto no jornal. Uma votação considerou-me como o melhor DJ de Lisboa.
-Que maravilha, Michel. E o teu chefe só soube agora?
-Não, é que... A empresa responsável pela votação premiou os cinco primeiros colocados com uma viagem de um mês em Ibiza.
-Espanha? Tu viajarás para a Espanha?
-Este é o problema, Cissa. Em outras circunstâncias, eu iria sem o menor problema, e poderia até esticar a minha permanência, mas... Não é de bom tom que eu te deixe sozinha.
-Isto não é um problema. Quando vocês terão que ir?
-Daqui a três dias.
-Haverá algum problema se... Tu levares alguém na bagagem?
-Cissa, queres dizer, então, que...
-Não queres esticar a tua permanência, mudar um pouco de ares como sempre? Pois então, eu topo. Estou convidando-me a ir contigo.
-Será que é uma boa ideia, minha irmã?
-No que te é tocante, eu não tenho dúvidas. Ibiza é o melhor lugar para que tu trabalhes. Já eu resolvo dois problemas numa única cartada: além de não morrer de saudades do meu irmão querido...
-E único...
-Ainda conseguirei livrar-me deste lugar. Melhor ir para longe e não deixar que sobrem rastros das minhas decepções ao longo da vida.
-Querida, é uma viagem de um mês. Não vou ficar lá o resto da minha vida.
-Vai ver que logo mudarás de ideia quando pensares em tua carreira. Avalies bem o quanto Ibiza pode ser um importante passo profissional. O destino não te colocou lá à toa.
-Falando em destino e não em Deus? A velha Clarissa parece ter retornado ao seio dos amigos e da família.
-Nunca saí. Posso comprar a passagem?
-Está bem, Cissa. Daqui a três dias, nós dois embarcamos para Ibiza, e sem previsão de volta.
-Nossa, eu estou a sentir-me tão aliviada que... Falta apenas uma cousa para a minha felicidade ficar completa.
-Vejas lá o que pretendes fazer, minha irmã.
-Podes acreditar em mim: tu vais gostar e muito- lentamente, a jovem tira o vestido de noiva, ficando só de lingerie, e indo para a cozinha, onde busca uma caixa de fósforo. Ela acende três palitos e os joga sobre a roupa confeccionada para o casamento com Valente. Michel fica surpreso com a atitude da vendedora e a vê jogando o modelo pela janela do apartamento.
-Enlouqueceste de vez.
-Doidivanas eu estava antes, quando vivi uma vida que não era minha. Agora, Michel, nós dois temos o mundo em nossas mãos. E vamos desfrutar, meu bem, até não podermos mais.
-Se é assim... Saúde- Michel prepara duas taças de vinho tinto e oferece uma delas à irmã.
-Ao futuro, Michel.
-À nossa felicidade. Nossa e de ninguém mais- os irmãos brindam e, em seguida, trocam um abraço.
Passam-se seis meses, e o retorno dos Irmãos Marques Barboza foi sendo protelado. A vida sem compromisso já era da natureza de Michel e Cissa e eles não queriam quebrá-la tão cedo. Em uma noite, Tato chega cansado ao seu apartamento. Havia arrumado, há pouco tempo, um curso relacionado à área de design, e antes de fechar a porta, Olívia aparece para lhe fazer um convite.
-Ocupado?
-Não. Cansado. Acabei de voltar.
-Como foi o curso?
-Gostando cada vez mais. Deveria ter tomado esse rumo na minha vida há tempos.
-Vim convidar-te para visitarmos a Comportas. O Valente havia convidado-me uma vez.
-Precisa ser hoje? É que estou tão esgotado.
-Pode ser amanhã?
-Pode, sim.
-Se não te sentires confortável, nós podemos ir à minha igreja.
-Todo o escândalo que a minha presença causou, perto do que aconteceu depois que eu deixei a casa do Valente, já não é mais tão incômodo. E... A tua amiga, deu notícias?
-Virou empresária do irmão. Disse que a experiência como vendedora ajudou a convencer os clientes a contratarem-no. Eles foram pra Ibiza, costumam viajar por compromissos de trabalho do Michel, mas acabaram fixando residência lá.
-Sei.
-Não estás perguntando isto por causa do Michel, estás?
-Ele é uma página virada. Já estou interessado em outra pessoa.
-Ah, é?- Olívia fica um pouco constrangida- E quem é o teu alvo?
-Foi bom teres tu perguntar isto, falando em alvo. Percebi que, para conquistá-la, eu tenho que ter como alvo Cristo.
-Mas não cometa o mesmo erro que a Cissa. Ame aos ensinamentos cristãos pelo que Deus é, não pelo que Ele pode fazer, ou quem pode trazer.
-Não é que eu esteja tão confiante. Aliás, eu sempre fui bastante inseguro. Mesmo que eu não consiga conquistar o teu coração, só de ter-te por perto já é uma dádiva.
-O meu?- gagueja- Olhes, Tato, eu... Eu acho que ainda não...
-Entendo que ainda é muito forte o que aconteceu entre tu e o Alonso. Que só com esta história de julgamento, fica muito mais difícil esquecer a influência trágica que aquele homem exerceu sobre a tua vida. Só que eu sempre fui paciente, Olívia, e eu só vou desistir se tu quiseres que eu assim o faça.
-Bem, é melhor eu ir andando. Nos vemos amanhã, Otávio.
-A paz do Senhor, Olívia- a saudação deixa Olívia ainda mais encantada.
-Amém.
Chega a noite seguinte. Tato aproveita que vai visitar a Comportas e chama Kleber, Dora e Hélio para acompanhar o culto, comandado por Fabiano. O pastor os recebe e Nete olha do altar a chegada da Família Goulart, acompanhada por Olívia. A esposa, antes uma mulher falastrona, agora se esquiva da maior parte dos comentários que maquina em sua mente inquieta e julgadora dos atos alheios, embora esteja ansiosa para tecer considerações acerca dos que virão ao culto naquela noite.
Só depois que Valente entra, cumprimentando Fabiano. Senta-se num banco vazio. A igreja está consideravelmente cheia, mas o saxofonista do Recifeeling opta pelo isolamento, sem dar-se conta da presença de Tato, da amiga de sua ex-noiva e da família do amigo.
-Parece que ele não nos viu- comenta Tato.
-Esperes, que vou chamá-lo para juntar-se a nós- Hélio tem a ideia, mas tem seu braço segurado pelo irmão.
-Não. Deixes que eu mesmo vá.
-Tu, Kleber? Tens certeza?- Dora estranha o comportamento do marido.
-Por que não? Já não há mais motivos para rusgas entre ele e a nossa família. Aliás, a verdade é que nunca houve- o agente de viagens deixa o irmão boquiaberto e o filho orgulhoso de sua atitude- Podemos falar?
-Kleber?- Valente levanta-se do banco, vendo a presença de Olívia, Tato, Dora e Hélio- Que surpresa tua presença aqui.
-Junta-te ao teu amigo, Valente.
-Eu não o havia visto. Que bom que vocês vieram até a igreja.
-Tato convidou-me ontem. E eu precisava agradecer a Deus algum dia pelo que Ele fez em minha vida.
-Estás falando do transplante?
-Não. De um modo ou de outro, a minha vida voltou a ser o que era. A minha relação com o meu filho não é mais a mesma que viste quando nos conhecemos. Melhorou. E consideravelmente, depois das verdades que disseste a mim no hospital.
-Prefiro que não lembremos esta época. Foi quando estávamos com as nossas vidas viradas de ponta-cabeça.
-Que seja. O melhor a fazer é começarmos uma trajetória mais amena. Mesmo que não nos tornemos amigos, ao menos construamos uma relação de respeito. Afinal, és o melhor amigo do Tato.
-Não te enganes. O melhor amigo do Tato é Aquele a quem tu vieste agradecer pelo que te foi restituído hoje. Prefiro ser irmão em Cristo.
-Obrigado por fazer por meu filho o que eu, muitas vezes, recusei-me a fazer: dar compreensão. Aceitas o convite para sentar-se conosco?
-Não sem antes dizer-te uma cousa.
-O quê?
-Sejas bem-vindo- estende a mão para Kleber, cumprimentando o agente de viagens. Ambos vão ao mesmo banco, onde o músico cumprimenta Olívia, Hélio, Dora e o amigo, que está sentado ao seu lado. Reparando na proximidade entre Tato e a mestranda, ele indaga:
-Vens cá: ela aceitou namorar-te?
-Ainda não. Mas confesso que até oro para que isto aconteça o mais rápido possível.
-Orando para conquistar alguém? Então, meu amigo, eu devo informar-te de que... Estás no caminho certo.
-Foi bom o meu pai ter chamado-te para ficares aqui. Tens estado isolado boa parte do tempo. Quando muito te vemos animado, é quando estás trabalhando no restaurante.
-Precisei quebrar um mal no dia em que rompi meu compromisso com a Cissa. Mas fico me perguntando se fiz a cousa correta. Até agora, só vejo ônus.
-Mas não contaste que o Fabiano até chamou-te para voltar a ser integrante da banda da Comportas? Por que não quiseste?
-É como se fosse uma compensação por ter dado ouvido à língua ferina da esposa e aos delírios da minha ex. Mas penso: e se acontecer de novo? E se ele der ouvidos a qualquer mentira que inventarem a meu respeito? O que eu sofri, através dos olhares, do silêncio diante de mim, eu não desejo viver novamente.
-Arrependes-te de não ter casado?
-Confesso-te que um pouco. Não me desfiz de qualquer pessoa, mas da mulher que eu sonhava dividir uma vida, entendes? Mas também sei que seria abdicar de quem eu sempre quis ser se eu desse ouvidos a tudo que ela incitava-me a fazer.
-Em algum momento, Deus tratará de acalmar o teu coração, dando fim a qualquer tipo de angústia que tu tenhas- Olívia busca acalmar o saxofonista.
-Obrigado pela força, minha irmã.
-Falando em irmã, onde está a Beatriz?
-Procrastinando, como sempre. Mas eu não desisto até trazê-la pra igreja, Tato.
-Traduzindo: “tentando dar juízo, mas ainda sem sucesso”.
Talvez ela não tenha aparecido no último capítulo para não fazer a função de personagem “orelha” no final... Seja como for, este será o último parágrafo de conteúdo humorístico do enredo!
Fabiano começa o culto no púlpito, enquanto a esposa senta no banco em que Valente estava para conferir em seu caderno o nome dos visitantes daquela noite. Eis que o professor aparece em pé, ao lado da esposa do pastor.
-Anotes o meu nome, irmã.
-Desculpa-me, eu não havia visto o senhor. Qual o teu nome?
-Lírio.
-“Lírio”... – anota o nome do professor no caderno- É a primeira vez que visita a nossa igreja?
-Não, já estive presente diversas vezes.
-Impossível. Eu teria notado tua presença se fosse o caso.
-Acredites, Ednete: quando eu entro na vida de alguém, não passo despercebido. Com licença- senta-se ao lado de Olívia, ao passo que Nete repara que aquele banco nunca esteve tão cheio, voltando para perto do púlpito e entregando o caderno discretamente a Fabiano.
-Professor?- Olívia fica assustada- Não sabia que o senhor conhecia a Comportas!
-Já estive aqui, Olívia.
-Houve ocasiões que também visitei e gostei muito da pregação do Pastor Fabiano.
-E como estás tu?
-Sentindo uma paz. Não sei por qual razão, mas foi algo que parece ter me invadido repentinamente.
-Verdade? Não te desfaças dela.
-Pensei que tinhas muito trabalho agora à noite, na universidade.
-Tenho mesmo. Mas tu me conheces, sabes que administro com muita propriedade o tempo que tenho.
-Mais uma de tuas virtudes. Não bastando a tua paciência, a humildade, a alegria... Olhes, são tantos predicados que não conseguiria enumerar.
-Tenho uma cousa a resolver neste momento, inclusive.
-Posso ajudar-te?
-Não, custa a mim resolver. É com um amigo meu. Aquele ali- aponta para Valente.
-Não sabia que conhecias o Valente.
-Há tempos. Com licença- senta-se entre Tato e o saxofonista- Posso ajudar um certo “varão valoroso”.
-Acho que ninguém pode no momento- responde o músico, sem reconhecer o professor misterioso.
-Esta não foi uma pergunta que fiz, e sim uma afirmação incontestável.
-Já nos conhecemos, senhor?
-Sim.
-Ah, agora estou a lembrar-me. Foste o homem que me socorreu quando aquele bandido feriu-me após roubar o meu celular.
-Agora estás a lembrar de uma das milhares de vezes em que estive presente.
-Como assim?
-Vamos ter uma experiência a sós, Valente.
-Onde estão todos?- assustado, o órfão não vê mais ninguém presente além dele e do professor.
-Eu disse que era a sós. Não te preocupes com os outros. Estão constantemente em teus pedidos de oração. E ainda que possas esquecer-te deles, eu não tenho motivos para esquecer-me- os olhos do jovem ficam marejados- Qual é a maior história de amor que tu tens conhecimento?
-A de Deus, que deu o Seu filho para morrer em favor de nós.
-E não é justamente Este o teu melhor amigo, pois entendes que é o melhor caminho para chegar a Deus?
-Sim. É Ele.
-Sempre soubeste o quanto nosso Pai amou-te. Mas é justamente quando estás abatido que mais preciso lembrar. Abala-te pelo teu abandono quando criança, pelas dificuldades que passaste ao sair no orfanato, pelas mentiras criadas a teu respeito, pelas armas direcionadas ao teu destino e disfarçadas em forma de amor? Repares que, em todas estas vezes, tinhas a certeza de que o teu melhor amigo segurava firmemente as tuas mãos. Compreendas, Valente, que histórias de amor não acabam; opta-se por vivê-las ou não.
-Por mais falho que eu seja, eu tenho orgulho da história de amor que eu vivo.
-E fazes parte da maior de todas. Grandes histórias de amor merecem ser conhecidas. As melhores são vividas por nós mesmos.
-Obrigado. Era o que eu precisava ouvir neste momento.
-Ledo engano. É isto que deves escutar, de modo que não entre por um ouvido e saia pelo outro: eu amo a ti.
-Eu também te amo. Prometes olhar-me?
-Como pelos que te cercam e pelos que desejam o teu bem, que põem o joelho no chão intercedendo por tua vida, como a Joana, tua tia. Sim, eu prometo. Tens o Meu amor. Não mendigues aquilo a que tens todo o direito de usufruir. Peças, humildemente, e eu estarei pronto para entregar-te.
Lírio segura a cabeça do menino e a coloca sobre seu tórax, abraçando-lhe fortemente enquanto ele chora como uma criança, desfazendo-se de todo medo causado pela avalanche de peripécias que foram por ele vividas. Ouve-se a voz de Fabiano.
-Valente? Valente, está tudo bem contigo?- a indagação do pastor, quando somente estão os dois no templo, faz o rapaz abrir os olhos.
-Sim. Está, sim, senhor.
-O culto acabou e passaste o tempo todo com os olhos fechados. As pessoas já deixaram a igreja e continuaste aí. Onde tu estavas, gajo?
-Desfrutando da presença do meu melhor amigo, Fabiano- enxuga o rosto e deixa o banco, saindo da igreja- A paz do Senhor.
Contente, o saxofonista volta para casa sendo contemplado por Lírio do alto de um prédio. O homem desce e segue rumo a um lugar de baixa luminosidade, conhecido por ter moradores de rua e alguns usuários de drogas. Um transeunte, apressado, o vê naquela direção e, dada a hora avançada, sugere:
-Senhor, melhor que não entres naquela rua. É muito esquisito andar naquela direção, ainda mais neste horário.
-Obrigado pelo conselho- após o agradecimento de Lírio, o transeunte segue o caminho de volta ao seu lar, e de longe o melhor amigo de Valente repara que a região pretendida é realmente perigosa. Abre a sua maleta e veste um jaleco, que atrai a atenção dos que O observam de longe- De fato, a hora é avançada...  Mas não tão tarde a ponto de não ouvir uma história de amor.

26/01/2019

VALENTE VALENÇA/ PENÚLTIMO CAPÍTULO


Olívia está em seu quarto sozinha, fazendo a leitura de um capítulo do livro bíblico da primeira epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios, quando ouve a campainha do apartamento sendo acionada. Coloca o livro sagrado sobre um criado-mudo e vai atender à porta. Trata-se do novo vizinho, com certo resquício de timidez.
-A paz.
-Que surpresa ver-te por aqui.
-Desculpa-me o incômodo, mas é que eu vim saber se podes arranjar-me um pouco de açúcar.
-Deixes que eu veja se tenho ainda. A minha irmã é que ficou responsável pelas compras nos últimos tempos, mas Beatriz não consegue ser responsável nem por si própria- recebe o frasco segurado pelo filho de Dora e Kleber.
-Obrigado.
-O que fazes parado aí diante desta porta? Entres, fiques à vontade.
-Com licença, então- Tato entra no apartamento das Irmãs Gusmão Alencar, e Olívia enche o frasco com açúcar.
-Acho que não fomos devidamente apresentados naquele dia em que estiveste aqui pela última vez. Meu nome é Olívia, muito prazer.
-E o meu é Otávio. Mas todos conhecem-me como “Tato”. Inclusive tu.
-Verdade.
-Mas também já havia memorizado teu nome no dia em que fechei o contrato de aluguel.
-Quer dizer que já fizeste tua mudança?
-Não trouxe nada além de mim mesmo. Havia guardado uma certa quantia para comprar alguns alimentos, mas esqueci-me justamente do açúcar.
-Precisas adaptar-se ainda à rotina de um dono de casa.
-Vai ver é isto mesmo.
-Pensei que estivesses no casamento do Valente e da Cissa.
-Que nada. Preferi evitar comentários inoportunos. Como sou eternamente grato ao que Valente fez por mim, eu não quis causar nenhuma espécie de alarde com a minha presença. Acho que, pelo menos por hoje, ele pode dormir mais tranquilo.
-E ele não ficou chateado de teres recusado o convite para compareceres à cerimônia?
-Agora que tu falaste, reparei que ele não me chamou para o casamento. Mas imagino que tenha sido justamente para poupar a noiva e a si mesmo das línguas ferinas. Não será este detalhe que me fará deixar de torcer pela felicidade do meu amigo.
-Bonita esta gratidão que tu sentes pelo Valente.
-Foi meu porto seguro quando ninguém mais queria ser. Imagines: abrigar um total desconhecido na própria casa, interceder em minha família a favor de mim, convidar-me para ir a uma igreja...
-De fato, Valente é um homem ímpar. Não à toa, todos o conhecem como “varão valoroso”.
-Sem contar o primeiro nome, que já é autoexplicativo por demais.
Vocês pensaram que eu não ia prosseguir com a ruptura do casamento hoje?
Ocorre um burburinho depois da resposta dada pelo saxofonista. Fabiano, acreditando que o noivo está afobado diante da circunstância, resolve conceder-lhe outra oportunidade para a resposta esperada por todos.
-Bom, eu vou repetir a pergunta, acho que nosso irmão amado não entendeu muito bem... Valente Valença, aceitas Clarissa Marques Barboza como tua legítima esposa e prometes ser fiel na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe?
-Já te disse que serei fiel em todas estas oportunidades, inclusive à minha noiva. Só que a minha resposta é “não”.
O buquê segurado pela noiva é levemente amassado, diante do nervosismo de Cissa. O público fica cada vez mais atemorizado em face da atitude do músico do Recifeeling.
-Melhor que eu repita a pergunta! Valente, tu aceitas...
-Não!- desta vez, o “varão valoroso” é incisivo em sua terceira resposta negativa.
-Oh!- os presentes ficam em estado de choque. Beatriz, inclusive, encerra a transmissão do casamento via Facebook.
-Não acredito que este calhorda deixará a minha irmã no altar...
-Valente, digas o que está acontecendo! Por que está agindo desta maneira?- Cissa exige uma explicação da parte do noivo.
-Meu filho, tu não vês que as pessoas vieram acompanhar teu enlace com a Cissa? A igreja está toda ornamentada, o juiz está aqui para recolher as vossas assinaturas e tu dizes que não se casará com a tua noiva?
-O senhor quer mesmo que eu diga por que razão eu não posso casar-me com ela?
-E existe uma razão, Valente?
-Sim, e é mais forte do que o senhor imagina.
-Não podes casar-te comigo ou não queres?
-Não posso. Sinto muito, mas eu não posso, Cissa.
-Pois eu exijo saber o motivo de ter sido rechaçada no altar! Que raio de razão é esta que faz com que eu passe a maior vergonha da minha vida?
-Alguém tem que chegar até mim e dizer-me que isto não está acontecendo... – Nete fica desesperada com a dissolução da cerimônia.
-Se este canalha deixar a minha irmã plantada no altar, eu vou matá-lo, Beatriz! Eu juro que vou matá-lo!
-Michel, acalma-te. Não provoques outro escândalo, o do altar já nos é suficiente.
-Valente, tua noiva tens razão. Acho que merecemos uma explicação para a tua recusa diante de todos.
-Está bem, então. A Cissa está certa, eu tenho que justificar-me.
-O que estás fazendo comigo não tem justificativa.
-O senhor dá-me a licença?- Valente segura o microfone usado por Fabiano, que se afasta um pouco do altar- Primeiramente, eu gostaria de saudar a todos com a paz do Senhor, amém?
-Amém... - algumas pessoas respondem, ainda atordoadas com a postura do funcionário de Hélio.
-Todos devem esperar que eu fale a verdadeira razão por não ter aceitado casar-me hoje, e não seria justo que saíssem daqui sem resposta.
-Espero que seja uma justificativa boa, para eu não ter de quebrar a cara deste infeliz- Michel revela-se cada vez mais ameaçador.
-Eu não posso casar-me com a Cissa porque a primeira cousa que ela falou-me foi que iria tirar-me deste lugar.
A revelação deixa todos em silêncio, menos Beatriz, que ao lado de um Michel mais comedido frente à verdade, comenta:
-Acho que o rosto do Valente permanecerá intacto por um bom tempo...
-Do que estás a falar? Eu jamais te disse algo tão grave quanto isto!
-Tu não lembras? Ou será que preferes não lembrar, Cissa? Pois eu memorizei cada palavra que dissemos naquela noite. No dia em que foste confundida com as mulheres do coral e sentaste ao meu lado...
Valente e Cissa, enfim, relembram a noite em que se conheceram, quando ela entrou na Comportas por engano.
-Respirem fundo, olhem para os irmãos que estão do seu lado e digam com fé- Fabiano pediu aos presentes no culto.
Empolgado com certa restrição, o saxofonista virou-se para Cissa, que preferiu olhar pra cima.
-Irmã?- indagou o rapaz, fazendo a jovem olhar para ele, praticamente revirando os olhos.
-Repitam comigo- a partir daí, Fabiano falou pausadamente para que todos pudessem repetir- “Eu creio que tu receberás o milagre da parte de Deus, e quero ver-te aqui para contares a tua bênção”. Amém?
-Amém.
-Agora, abrace esse irmão que está do seu lado e diga em seu ouvido que quer vê-lo de volta à casa do Senhor. A paz do Senhor Jesus.
Valente trocou um abraço com Cissa e disse aquilo que Fabiano ordenou à igreja.
-Quero ver-te de volta à casa do Senhor, minha amada.
-Se eu puser novamente os meus pés neste lugar, será para tirar-te daqui. Porque nem eu nem tu merecemos igreja alguma.
-Meu amor, naquela época eu ainda não era convertida. Lógico que o meu pensamento estava atrelado às coisas mundanas...
-E quando eu comecei a namorar, eu acreditei que teu pensamento mudaria, que tu amarias estar neste lugar assim como eu amo. Mas eu cometi um erro grave, Cissa. Eu quis que tu mudasses, da mesma forma que quiseste, inúmeras vezes, desassociar-me da minha essência.
-Mas que invencionice é esta que estás a dizer-me? Eu sempre te amei, sempre quis ficar contigo, lutei contra tudo para viver este amor e agora tu me condenas a mim por causa de algo que falei há quatro anos? Faças-me o favor! Se pretendes dar um “basta” na nossa relação, que o faças como um homem de verdade!
-E o que entendes tu sobre “homem de verdade”? Aquele que faz o que tu determinas? Achas mesmo que estou recusando casar-me contigo por conta do que me disseste há tanto tempo? Não, Cissa. É porque tuas atitudes fizeram com que todos se afastassem de mim.
-Será que fui eu realmente? Ou foste o fato de colocares um gajo dentro da casa onde vamos morar?
-“Moraríamos” é o que tu queres dizer, não é? Porque “Valente & Clarissa” é algo que tu mesma destruísses. Fingias que estavas preocupada com o que as pessoas poderiam falar acerca da situação, mas tu, sozinha, implantaste a ideia de que eu poderia ter algo a mais com o meu amigo. Quantas vezes tu não deves ter trocado confidências com a Irmã Nete para que ela tivesse o Tato como persona non grata nas nossas vidas? Mesmo sabendo o quanto tu eras caprichosa, eu aceitei prosseguir com o nosso relacionamento porque estou apaixonado por ti. Isto tu não consideras como relevante, não é, Cissa?
-Valente, por favor, sejas razoável- Nete interfere na confusão.
-Por que deveria? Para que continuem a inventar mentiras sobre mim, como a senhora faz?
-Agora foste longe demais, gajo.
-Mais do que a senhora em conluio com a Cissa, nunca!
-Ele está perdendo a razão, não sabe o que fala... – Cissa tenta “justificar” a atitude do músico, o que atiça ainda mais sua raiva.
-E acaso aceitarias casar-se com um lunático, um homem que não sabe o que diz? Como é conveniente que todos pensem assim. Minimizas os teus atos, a sujeira que praticaste!
-Acaso alegarás que fiz outra cousa senão amar-te como se fosses tu o único ser da face da terra?
-Claro. Amas-me tanto a ponto de querer mudar cada aspecto de minha personalidade, como se um dia eu já tivesse feito isto contigo.
-Nunca interferiste em minha personalidade? Eu só entrei nesta igreja por tua causa!
-E permaneceste por minha causa também, nunca pelo que ela pode oferecer. Nunca por Deus, por qualquer tipo de intimidade que possas ter com Ele. Pensas que jamais reparei na forma como olhavas para a Madre Joana por ela ser de uma religião diferente da tua? Ou que querias adiantar este casamento para fazer o que todos os casais pensam em fazer, por não aguentar mais esperar? Tentaste desrespeitar o teu próprio noivo querendo entregar teu corpo em oferecimento, mesmo sabendo que eu jamais aceitaria nenhuma relação antes do nosso enlace. Fizeste complô com ela- o saxofonista aponta o dedo para Nete- Para que falassem mal de mim e eu usasse o casamento como alternativa para calar a boca dos meus detratores. A tua maledicência foi tamanha que, quando o Hélio pensou que eu havia doado o meu rim, foste a primeira a olhar-me tortuosamente. Pensaste em procurar o médico da clínica, para saber se eu havia mesmo passado por uma cirurgia? O Fabiano, que também não acreditou que eu havia sido assaltado, destituiu-me do cargo de saxofonista da Comportas porque eu supostamente ajudei o Kleber em detrimento do que eu sinto por ti. Mas algo ficará claro, para todos vocês: está para nascer a mulher que conseguirá afastar-me do caminho do céu! Confabulem! Confabulem sobre meu comportamento supostamente errático, o vexame que protagonizei, o que for. Mas eu não deixarei de ser Valente Valença, independente da imagem que tenham de mim. Adorem a mentira, a farsa, a canalhice. A mim, só resta o melhor: continuar servindo, mas a Deus, e não de chacotas.
Valente sai do altar e caminha pela igreja, forrada com um tapete vermelho que mantém pétalas de rosas brancas sobre si. Cissa, por pouco tempo, segue estática. Nete aproxima-se da jovem vendedora.
-Venhas, filha. Vamos sair daqui.
-Não me toques!
-Cissa, eu sei o quanto estás nervosa, mas venhas comigo. Bebas um pouco de água, tentes acalmar-se...
-Eu não quero acalmar-me. E tampouco quero a tua presença agora.
-O Valente reconsiderará. Brevemente, ele voltará para a igreja, arrependido e disposto a casar...
-Cala-te! Eu não quero mais ouvir tua voz, Nete. Deixa-me em paz!- Cissa joga o buquê no chão, e é seguida por Beatriz e Michel.
-Esperes, Cissa.
-Quero ficar sozinha, Beatriz. Não venham atrás de mim.
-Mas aonde tu vais, minha irmã?
-Para qualquer lugar. Só me deixem sozinha- Cissa deixa a Comportas, abalada.
-Michel, não podemos deixá-la por aí, sem ninguém.
-Conhecemos bem a Cissa, Beatriz. Ela precisa deste tempo.
-Fabiano, faças tu alguma cousa. Não podemos deixar aqueles dois saírem desta maneira.
-Não podemos, Ednete. Precisamos.
-Eu vou atrás da Cissa.
-Melhor ficares aqui. A Cissa precisa de um tempo para si. Nem a amiga e o irmão ela quis por perto, não serás a tua presença que ela quer por perto.
Os transeuntes ficam sem compreender a dantesca cena da noiva que caminha abalada pelos quarteirões lisboetas. Aquele que era para ser o futuro marido da vendedora tira o terno branco que veste e, munido de uma expressão menos séria que a do período antecedente à cerimônia de casamento, vai ao Recifeeling, onde é recebido por Alessandra, que estranha a presença do músico.
-Valente? Não era para estares no casamento?
-Já estive, Alessandra, mas esta é uma longa história.
-Não pode ser- Hélio fica surpreso com a aparição do rapaz- O que estás tu a fazer aqui?
-Não houve casamento, Hélio.
-Por quê? Aconteceu alguma cousa com a Cissa, tua noiva?
-Ocorreu comigo: eu acordei. Antes tarde do que nunca.
-Valente- vários meninos, trazidos por Joana, chegam ao restaurante de Hélio e abraçam o músico.
-Que falta eu estava a sentir de vocês, meus queridos.
-Tu vieste para nos contar histórias?- pergunta uma das crianças.
-Inúmeras. Qual a que tu queres ouvir primeiro?
-Aquele do lobo que contaste naquele dia, quando foste ao orfanato. Lembras qual é?
-Sei, sim. Ultimamente estou livrando-me de vários lobos em pele de cordeiro... Bom, mas eu pedi para trazer vocês todos aqui porque o Hélio, que é meu amigo e também meu patrão, quis dar-me um presente: uma tarde aqui no restaurante, onde eu posso comer muitas delícias. Então, eu resolvi que queria dividir isto com todos vocês.
As crianças gritam de felicidade, comovendo Alessandra e Hélio. Joana suspeita o motivo pelo qual o protegido está no estabelecimento, ao invés da igreja.
-Estiveste com a Cissa, Valente?
-Claro, Madre. Não seria justo eu desistir sem uma explicação decente. Não sou covarde como ela.
-Tu rompeste com tua noiva?- Hélio fica assustado- Por que isto, Valente, se eram tão apaixonados?
-Ao menos, o meu sentimento por Cissa continua vivo, embora não devesse cultivá-lo.
-Nossa, então foi definitivo o rompimento mesmo?
-Sem a menor perspectiva de volta. Melhor assim, Hélio. Não sou sadomasoquista.
-O que te levou a não se casar com a Cissa?
-Hélio, vamos deixar o Valente um pouco sozinho?- sugere Alessandra- Talvez ele não queira falar do assunto.
-Tudo bem, Alessandra. De qualquer maneira, todos vão ficar sabendo.
-Não tem nada a ver com o meu sobrinho, ou tem?
-Com o Tato exatamente, não. Mas com o burburinho, em parte difundindo pela Cissa.
-Será que vocês não têm volta?
-A Cissa que eu quis para mim é outra mulher, não a que esteve comigo durante todo este tempo. E ela amava um cara que pudesse ser moldado aos critérios que ela estabelece. Não é justo que eu obrigue minha noiva a mudar e vice-versa.
-Valente, não promoveste a dissolução do teu relacionamento com a Cissa por conta... Por conta do que eu disse, não foi?- Joana se refere à revelação da filiação de Valente.
-Gente, esta conversa está mais incompreensível que a letra de “Chão de giz”!- raciocina Hélio.
-Antes que vocês dois perguntem, é uma canção brasileira que o Hélio conheceu um dia desses e adora cantarolar quando está fazendo as contas- explica Alessandra.
-Bom, esta outra história eu prefiro deixar oculta por ora. Não me sinto apto ainda a falar disto.
-Então, vamos nos divertir- Hélio rapidamente muda de assunto- Tu contas as histórias para os teus amigos e eu vou pedir para que tragam os pratos. E os nossos convidados podem ir às mesas escolher no menu o que vão experimentar, certo?
As crianças voltam a comemorar, e Valente senta-se à mesa com Joana. Alessandra volta à recepção e as crianças acomodam-se em seus lugares, mas não sem antes serem todas conduzidas pela madre. As horas vão passando, o saxofonista conta mais de uma fábula e vai, aos poucos, recuperando-se do momento em que fingiu ser um homem forte na frente de todos e comporta-se como o mais humilde dentre os seres humanos, expondo sua ineficiência em perceber segundas intenções e duplo sentido- ou seja, como a maioria das crianças. Hélio estava ansioso naquele dia, tanto por querer saber detalhes acerca do rompimento de seu funcionário e Cissa, quanto por desejar cantarolar “Chão de giz” em público. Alessandra, sempre atenta, impediu o patrão de realizar a façanha, já que ele costuma confundir “fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde” por “fotografias recortadas em jornais de folhas, Robin Hood”. E, finalmente, Fabiano conseguiu tirar todos os adereços postos exclusivamente para a desastrosa cerimônia. Isolada, Nete está sentada num banco próximo ao altar. O seu marido finalmente fecha a porta principal, vitrine dos olhares curiosos durante todo o dia.
-Nunca pensei que este lugar um dia serviria de palco para um vexame como o de hoje, Fabiano.
-Tampouco eu.
-Coitada daquela moça. Saiu daqui devastada, enquanto o Valente saiu como se estivesse triunfando, ainda por cima sobre o sofrimento da Cissa.
-“Coitada da Cissa”? É nisto que tu queres acreditar, depois de tudo que vimos e ouvimos hoje, Ednete? Podamos aquele gajo.
-Como podes defender um rapaz que humilhou publicamente a própria noiva depois de rechaçá-la?
-Por culpa tua.
-Minha?
-Não vou tirar a responsabilidade das costas de Cissa, mas o que fizeste com Valente foi desumano. Achas que eu, como teu marido, não percebo como tratas as pessoas que entram aqui? Olhas a todos de cima a baixo, como se fossem a escória humana. Ninguém te é suficiente, Nete.
-O que dizer de um indivíduo que vai contra a própria noiva para abrigar um promíscuo em seu apartamento, que doa o rim para salvar a vida do pai de um suposto desconhecido?
-Não entendes o quanto é conveniente acreditar nisto? Queres fazer dos teus argumentos a verdade absoluta, ser a dona da razão, mas não és, Ednete. A única cousa que ele queria era adorar ao Senhor, servi-Lo. Tinhas que ter visto como Valente comportou-se quando eu o destituí da banda da Comportas. Aguentou tudo calado, sem dizer uma palavra que pudesse defendê-lo.
-Porque não há defesa. O que te garante que, a esta altura, Valente não esteja com Tato, rindo da situação infame que ele criou?
-Queres mesmo que eu diga-te para o que não há defesa? Para o teu comportamento, a tua língua, sempre pronta a condenar os outros, tê-los como pecadores, como se nós não pecássemos também.
-Não me compares àqueles dois. Ainda tenho dignidade, Fabiano!
-Quem não a tem sou eu, que continuo aguentando teu veneno atingindo a todos, sem piedade. O não-casamento do Valente não revelou a todos somente o que se passava no relacionamento entre ele e a Cissa. Revelou também muito sobre nós dois.
-O que é? Vais separar-se de mim? Pedir-me o divórcio?
-Do que tens medo? De virares a pauta dos protestantes lisboetas por não honrar ao teu marido e à tua igreja? Não, Ednete. Se nem por mim, a quem tu alegas ser o homem da tua vida, mudas de postura, mudes pelo amor de nosso Pai. Quem gosta de mentiras é amante do pai delas.
Fabiano apaga as luzes e espera que a esposa levante do banco para que eles possam, enfim, voltar para casa. E o “varão valoroso” retorna ao apartamento depois de um longo período longe de casa, e também depois de três capítulos em que os leitores estão presos no mesmo dia. Sim, porque o próximo tem mais um pouco de sofrimento do protagonista. E que graça tem ver um enredo arrastando-se caso não houvesse suplício do personagem principal? Pois Valente fecha a porta e joga o paletó branco sobre o sofá, colocando o saxofone num canto da parede. Alguém bate a porta. Há uma suspeita na mente do rapaz que, sem titubear, abre a porta.
-Falaste tudo o que querias. Agora chegou a minha vez... “Meu amor”- Cissa aparece com a maquiagem borrada, tomada pelo ódio nutrido contra o ex-companheiro.