04/07/2013

FURO DECISÃO- O FILME/ SEQUÊNCIA DE CENAS 4

CENA 16
Damião Mantoanelli Jensen Ribeiro Castro Oliveira, um importante nome da internet banda larga brasileira, está convalescente em seu quarto, quase adormecendo, quando chega o seu advogado.
-O senhor mandou me chamar, doutor Mantoanelli?
-Mandei, sim. Veja só essa mansão, Breno. Tudo o que foi construído por mim desde que a internet discada saiu de moda.
-O senhor batalhou muito pra chegar aqui, não precisa se envergonhar de nada.
-Mas uma culpa eu carrego. Eu expulsei minha filha de casa só porque ela queria realizar o sonho de ser garota do “Fantástico”. Perdi o contato com ela e... Com o meu neto.
-Já tentou se aproximar dela, alguma vez que fosse?
-Ela passou dessa pra uma melhor. O pai do meu neto sumiu no mundo, não queria criar a criança. Casou de novo, teve filhos e foi pro beleléu também. O Leonardo é um garoto sozinho, assim como eu sou agora. Eu não quis me aproximar, mas quero deixar tudo o que eu tenho pra ele agora.
-Doutor Damião...
-Sem objeções, Breno. Quando eu for ao Morada da Paz e não voltar mais, o Leonardo será dono da minha fortuna e da minha empresa. A “Manjericão Conexões”!

CENA 17
Thiago entra no ônibus e encontra Gabriella, com um colar ortopédico, gemendo de dor.
-Mas o que foi que houve?
-Acidente de trabalho.
-Você trabalha, Gabriella?
-Coisas do “Furo Decisão”. Mas vamos deixar pra lá. E então? Ansioso pra gravação do videoclipe de Manjericão?
-Ansioso eu tô pra pagar as parcelas da formatura e terminar essa faculdade de uma vez. Não é nada contra Manjericão, não, sabe? Mas é que o “Furo Decisão” não tem toda essa competência pra lançar um videoclipe viral.
-Pois é melhor que faça por caridade, pois se ele tá desempregado, não vai pagar tão cedo. Só uma perguntinha, a mesma que eu fiz pra Matheus, inclusive: vocês disseram a ele que o “Furo” é um fracasso do YouTube?
-Bom, a gente não perde a esperança de aumentar a audiência. Como ele é um cara bacana, a gente até se ilude em pensar isso- observa a diretora- Já pensou em tomar um Dorflex? Porque a briga foi feia.
-Não se preocupe, eu vou me vingar. Sei até como. Vai ser uma coisa bem pesada, tipo a Emily Thorne.
-Então faça depois das vinte e três horas, porque estarei dormindo e não gosto do jeito que você tá falando.
-Bah, globais...

CENA 18
No dia seguinte: greve de ônibus. Matheus, que acha que pegar metrô é coisa de pobre, é obrigado a fazer o “programa de índio”. Adivinha quem ele encontra lá dentro? A velha de vinte e nove filhos, rebolando loucamente, com Manjericão a tocar violão e cantarolar:
-De onde vem esse sorriso tão bonito, esse olhar matreiro, aflito, procurando me encontrar? De onde vem essa paixão tão violenta, essa busca tão intensa e essa dúvida no olhar? De onde vem esta vontade de ir embora, explodindo a qualquer hora sem limite, sem pensar? De onde vem essa incerteza absurda, essa história tão confusa e esse medo de me amar?
-Sou seu menino, faz de mim o que quiser! Sou seu destino, seu desejo de mulher! Sou seu menino, tenho é que te dar amor. Sou seu destino, ternura à sua dor... – os passageiros estão a completá-lo, até serem interrompidos pelo garoto.
-Para com isso! Você tá doido?
-Doido, sim! Mas de amor! Amor pela Zaira, Matheus!
-Que bafo é esse? O que você bebeu, hein?
-Guaraná Antarctica estragada!
-Só podia ser! Eu vou te levar pra casa, a gente vai ter que descer na estação Santa Luzia.
-Não! Deixa o Tomate aqui- implora a velha- Quem sabe ele não fica rico e sustenta o meu filho de número 30?
Matheus entra numa batalha surreal com a senhora, tentando afastá-la de Manjericão, enquanto os usuários continuam cantando a versão de Zezo para a música de Zezé Di Camargo & Luciano, um verdadeiro clássico pra gente bêbada que põe o carro na porta dos outros em domingos.

CENA 19
Gabriella está em seu apartamento com Thiago e Matheus.
-Você acha que tá mesmo em condições de fazer uma reunião?- pergunta Thiago.
-Não se preocupa, não, Thiago- olha para Matheus- Apesar da insistência de algumas pessoas, eu vou ficar bem.
-Bom, pra quê a gente tá aqui mesmo?- Matheus procura desconversar.
-Eu decidi, após “pensar demais”, em ajudar o “Furo Decisão” a produzir o videoclipe do Manjericão. E pensei que uma das coisas mais importantes numa gravação é o...
-Figurino!- entra Danila, com duas malas cor-de-rosa.
-Roupa?- os meninos ficam atônitos.
-Claro, meus amores. Em alguns videoclipes, a roupa faz toda diferença- enrosca-se em Matheus- Mas em outras ocasiões, o mais importante é esquecer a roupa.
-Quem é essa, minha gente?
-Não lembra, Matheus? É Danila, que estuda à tarde. Ela será a nossa figurinista.
-Modéstia à parte, os meus modelitos são ótimos para quem quiser ser um viral- abre a mala- Olha bem pra essa camisa.
-Mas ela é toda feita de plástico. Matheus fica transparente- Thiago verifica, enquanto Gabriella sacia sua sede de vingança.
-Para mim, isso é ótimo. Uma visão que... Até tive calafrios imaginando.
-Olha, Danila, é que o Thiago e o Matheus não são os atores do clipe- Gabriella tenta disfarçar.
-Até agora não eram. Porque se eles pretendem cobrir os bastidores, o roteiro tem que incluir os dois. Por falar nisso, onde é o quarto mais próximo? Eu preciso tirar as medidas de cada um. Será que dá pra começar com você, Zeus?
-Pode, mas... Meu nome é Matheus.
-Deveria ser Zeus. É uma coisa grega, pa-ra-nor-mal! Escandalosa!
-Acho que não é só ele, viu?- constata o universitário.
-Vem sem medo, meu querido, vem... – Danila o leva.
-Gabriella, a gente tem que ligar pra Manjericão. Ele tem que fazer essa prova de roupas também.
-Falando nisso, como é que ele tá, hein? Soube que ele tava deprimido no metrô em...
-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh! Help me!- grita Matheus, dentro do quarto, tentando escapar da sedutora figurinista.

CENA 20
Na porta do apartamento de Gabriella, estão Vic, Julliane e Bia. As três ficam nervosas quando a dona as encontra.
-Se preparem. Porque uma de vocês será o par romântico do Manjericão.

03/07/2013

FURO DECISÃO- O FILME/ SEQUÊNCIA DE CENAS 3

CENA 11
-Olha, galera, eu queria muito, de coração, agradecer a vocês pela campanha do programa do “Buraco”.
-Não, o nome tá errado. O nome do programa é “Furo Decisão”- corrige Matheus.
-Se bem que contar com o programa da gente é estar no buraco!- conclui Thiago.
-Pois é. Tem uma proposta que eu queria fazer a vocês. Bom, eu recebi um conselho de... Bom, esquece. Em vez de voltar pro magistério, eu quero investir na música. Não precisam me olhar com essa cara de “Ah, ele está no vermelho”. Até porque estou mesmo. Só que eu queria alguém que tivesse experiência.
-Desculpa, Coentro, mas...- confunde-se Matheus.
-Manjericão.
-O que o senhor entende de experiência? Melhor: a gente é experiente em quê?
-De longe, dá pra se ver. Esse cabra tem cara de quem entende tudo de edição pelo Movie Maker. E você tem tudo pra ser conhecido como “Marcelo Adnet de Jardim São Paulo”, tamanha a capacidade de improviso.
-Deu o caramba! Ele descreve a gente tão bem e foi demitido? Como assim?- Thiago fica besta. Aliás, besta ele é.
-E a gente olha pra cara de vocês e vê que com esse talento todo, vocês devem ter milhares de acessos no YouTube!
-É...
-Bem...
-Por favor, turma.
-Não vai rolar, Manjericão. Música não é a nossa praia. A gente acha que “Ah, lelek, lek, lek” é afasia. Não dá. E a gente nunca dirigiu um videoclipe. Sem contar que eu não posso gravar nada, ando ocupado com a faculdade. Sinto mesmo. No mais, estou indo embora- pega a mochila e fica de pé.
-Mas eu pago.
Thiago se senta, animado!
-Quanto?

CENA 12
 Matheus e Manjericão estão dentro de um Circular Barro/ Tancredo Neves repleto de pessoas. A intenção do co-protagonista é levar os apresentadores para o seu apartamento, conversando sobre a gravação do videoclipe que precisa ser viral.
-Você tem certeza que quer o “Furo Decisão” cobrindo tudo e te ajudando na produção? Não era mais fácil a gente continuar com a campanha pra te trazer de volta?
-Não, Matheus. Se eu voltar, vou ter que ser o certinho porque o diretor quer. E eu não mudo mais por causa de ninguém. Esse sacrifício eu não faço mais.
-Quando foi que fez um sacrifício na vida?
-Assim que eu fui trabalhar na escola. Via meu salário só como um jeito de sustentar a minha ex. Mas eu não quero falar dela.
-Já entendi tudo. Se bombar na internet, vai esfregar o sucesso na cara da tua ex, é isso?
-Não, eu só quero esquecer. Deletar tudo o que eu vivi. Se pra mim foi bom, pra ela era uma mentira. Vem cá, cadê o Thiago?
Thiago aparece na janela. Sim, do lado de fora do ônibus, todo molhado, coitado. Não à toa, toca “Águas de março”. E como o filme é bem popular, como “Balacobaco”, é a versão da Gaby Amarantos.
-Mas... O que é isso?
-Fui pendurado na placa, Matheus. Você acha que eu tenho condições de entrar aí? De jeito nenhum. Esse ônibus parece ser pior do que o Barro/ Macaxeira. Pra isso, meu querido, tem que ralar muito.
-Pudera, todo mundo resolveu sair de casa com essa Copa das Confederações- argumenta Manjericão.
-Justamente.

CENA 13
Zaira está andando pelas ruas do centro da cidade, quando esbarra em Mabi, completamente desesperada.
-Não olha por onde anda, não?
A nova personagem, se acabando de chorar, nem se toca de que a vilã será a pedra no seu sapato.
-Tenho talento, e vou lutar pra provar isso. Mas o teste do sofá eu não faço. Nunca! A imprensa que me aguarde, porque eu vou brilhar, nem que seja numa produção de baixo orçamento.

CENA 14
Falando em “produção de baixo orçamento” (e sem noção, por que não dizer?), Matheus, Manjericão e Thiago pegam o elevador. Durante trinta segundos, toca um instrumental um tanto quanto clássico.
-Animado esse elevador, né?- Thiago estranha.
-Muito. Chega a ser sinistro- concorda Manjericão.
-Já mandaram benzer? Porque eu nem vou comentar... – sugere Matheus- Parece aquelas musiquinhas de loja de roupa, não é?
-Sei lá. Eu só uso Rota do Mar pra dar aula.
-A minha é seminova. Nem olho pra marca.

CENA 15
Os meninos entram no apartamento de Manjericão e logo reparam que o lar do futuro artista viral é decorado pelo egocentrismo de Zaira.
-Essa é a tua ex?- pergunta Thiago.
-É.
-Desculpa perguntar.
-Sem problemas, meu chapa.
-E você decorou pra ela o apartamento?- Matheus desconfia.
-Não, ela que escolhia tudo.
-Olha, se o teu clipe é sobre fossa, o melhor cenário pra gravar é aqui. E eu falo porque entendo tudo de fossa.
-Fossa de esgoto. Trabalha na Compesa.
-Ô, galera. Manda a real pra mim: qual é a ideia de vocês?
-A minha é que você diga onde fica o banheiro pra que eu esprema a camisa do banho de chuva que eu levei.
-Segunda porta à direita.
-Valeu- Thiago procura o banheiro.
-Tive uma ideia. Vou ligar a cobrar pra Gabriella.
-Quem é essa?
-Ela dirige alguns episódios do “Furo Decisão”. E é viciada em série americana, deve dar uma luz pra gente. Só um minutinho que eu vou procurar na agenda do celular.
Enquanto Matheus se afasta, Manjericão olha para o telefone e pressionado pelo coração ingênuo, decide ligar para Zaira.
-Alô, Gabriella?
-Tem vergonha de ligar 9090, não, cabra safado?
-Rolou a chance do “Furo” sair do buraco!
-Muito esclarecedor...
-Escuta: o professor Manjericão tá pior que figurante em novela do SBT. O cara quer que a gente produza um videoclipe. Resolveu ser cantor.
-Sim, mas onde eu entro nessa?
-Você é a superintendente dessa birosca! Tem que ajudar a gente!
-Matheus, me desculpa, mas eu tô em ano de vestibular. Não posso dar consultoria na hora da prova, quanto mais pra artista que tá começando.
-Como não? Você fez a audiência da terceira temporada subir!
-Já pode sair da nave, viu? Só porque o “Furo Decisão” alcançou onze visualizações no YouTube, não quer dizer que o Manjericão vai ser um sucesso. Aliás, você contou pra ele que o programa é flopado?
-Olha aqui, se você não ajudar a gente, eu acabo com a tua coleção de downloads de episódios de “Friends”!
-Ui, como ele tá dramático! Como ele tá perigoso! Como ele põe medo na gente, parece vilão de “Cuidado com o anjo”. Ah, eu tenho que ver “House” e não vou ficar perdendo o meu tempo contigo, tá? Vai fazer o quê, pivete de JSP? Acabar comigo pelo telefone?
-Nunca ouviu falar em “Saramandaia”? Realismo fantástico? Mangás?- começa a estrangular o celular. Sem explicação aparente, Gabriella fica sufocada do outro lado da tela. Voltemos ao Manjericão, que é atendido por Zaira, ainda na rua.
-O que foi, Leonardo?
-Você ainda pode pensar melhor, meu amor.
-Não preciso disso. Entenda de uma vez por todas: não existe gente interessante se o dinheiro for inexistente. Dessa situação você não sai mais.
-Zaira, eu já arrumei um jeito de reverter a minha crise financeira. Eu arranjei alguns amigos que vão me...
-Amigos? Tá vendo como você pensa pequeno? Só pobre tem amigos, meu amor! E de pobreza, já basta a minha. Não quero ter que compartilhar com todo mundo que vivo numa lisura desgraçada. E já tenho meu plano de virada: vou plantar uma nota dizendo que estou saindo com um jogador do Íbis. Antes um astro de verdade do que o professor decadente do decadente ensino público pernambucano!
-Pois guarde bem as minhas palavras!- quando Thiago sai do banheiro, flagra Matheus apertando violentamente o telefone, jogando-o no chão e depois se atirando em cima do aparelho. O universitário tenta acalmar o amigo, enquanto Manjericão jura vingança subliminarmente- Vou recomeçar, vou tentar viver, vou tirar você da minha vida, e pra não chorar antes de partir, vou tentar sorrir na despedida!
-Nesse caso, saiba que você foi a maior das minhas amarguras e que como uma deusa, eu vou me manter! Falido!- desliga o telefone.
-Manjericão, ajuda aqui!- Thiago grita para que o rapaz tire Matheus do telefone, mas ele fica desolado com a atitude de Zaira. Ah, e Gabriella está toda arrebentada.

02/07/2013

FURO DECISÃO- O FILME/ SEQUÊNCIA DE CENAS 2

CENA 6
Manjericão sai da sala dos professores com a pasta e alguns livros. Fora da escola, pega o metrô e em seguida, o Circular Barro/ Tancredo Neves. Com uma cara sorumbática, o jovem galã do filme faz aquela cara de cachorro morto que o roteirista não consegue fazer para comover as gatinhas. Mas vamos pular essa cena por não ter nada a acrescentar. Só pra aumentar o número de espectadoras e encher linguiça.

CENA 7
Já no prédio onde mora, o cara continua pra baixo. Pega o elevador, que toca uma canção instrumental bem agradável de se ouvir. Por um momento, aquela canção que mais parecia música que toca em provadores de Renner e C&A fez Manjericão se esquecer dos problemas profissionais. Quando a voz ia se manifestar, a porta se abriu. E ele foi ao encontro de Zaira.
-Oi, amor.
-Comprei comida japonesa pra quando você chegasse. Aliás, você apareceu mais cedo do que o normal. O que houve?
-Zaira, a gente tem que conversar.
Ela dá um selinho no jovem.
-Estranhei que você não disse “Eu te amo” pelo celular. É o seu passatempo preferido. Sobre o que quer falar? Já vi que a coisa é séria.
-Houve um... Um probleminha lá na escola... Naquela hora, não dava pra eu te falar o que tinha rolado.
-Ainda bem que passou, não é, meu amor?
-Passou, sim. Mas eu preciso te falar uma coisa.
-Diz depois, Manjericão. Antes, eu tenho que te mostrar um macacão que eu comprei na Cattan com o seu salário. Não é lindo?
-Gostei, mas vai ser o último que você vai comprar, porque meu salário não existe mais. Fui demitido, Zaira.
-Não pode ser. Diz que é mentira.
-Infelizmente, não.
-Mas como é que foi isso? Espera... Você vai me contando enquanto eu vou aqui no quarto e já volto- vai ao dormitório do casal, fechando a porta em seguida.
-Olha, Zaira, eu pensei muito e acho que a melhor coisa que o diretor podia ter feito era me demitir. Eu não me encaixava mesmo naquela escola, tinha sempre que trabalhar de um jeito diferente daquele que eu... – para pra ver Zaira com uma mala pronta, assim que sai do quarto- Mas o quê que é isso, mulher?
-Oito vezes. Leonardo, você já foi demitido de oito escolas.
-Por favor, não me chama pelo nome de verdade. Isso me assusta. “Manjericão”, por favor.
-É isso! Esse é o problema. Você não vai abrir mão do seu jeito, e as escolas não vão dar o braço a torcer só porque você quer, meu querido. Sabe o que você precisa fazer? Se encontrar. Ou, pelo menos, encontrar uma forma de conciliar aquilo que sabe fazer com o que precisa. E pelo andar da carruagem, vejo que não tem muita disposição da sua parte pra tal.
-Zaira, você vai me deixar, é isso?
-Claro que vou!
-E a nossa história? Nossa vida juntos?
-Leonardo, por favor, não torne isso mais doloroso... Pra você mesmo. Sobreviva, querido. Isso, se puder fazê-lo. Como eu sei que não pode, vou tentar garantir o meu futuro.
-Traduzindo: era uma questão de conveniência. Você dormia comigo e amava o meu salário.
-Merreca! O que você ganhava era uma merreca! Mas também, trabalhando em escola pública de pequeno porte e não parando em emprego nenhum, qual é a surpresa?- destranca a porta.
-Vai embora, então. Eu sei que um dia, você vai sentir falta de mim. Não sei como, mas você ainda vai me pedir pra voltar. Aí, Zaira, quem vai te chutar sou eu.
-Típica vingancinha de “Revenge”. Me poupe... Leonardo Manjericão!- bate a porta, pegando em seguida o elevador com a música sinistra.
-Que ótimo!- chuta o sofá- O que mais falta acontecer?
Toca o refrão de “Sorte”, cantada por Adriana Calcanhotto e Papas da Língua.
-O sonoplasta dessa birosca tá de sacanagem comigo, só pode... Mas eu vou aguentar tudo. Não é difícil, é só... Abrir um sorriso- fica estático mostrando os dentes pra câmera.

QUINZE MINUTOS DEPOIS, AINDA AO SOM DE “SORTE”...
Manjericão está com quatro caixas de sorvetes Zeca’s (nosso patrocinador), deprimido ao extremo. Cheio de lágrimas, mas determinado, o ex-professor sacode a poeira (do sofá) e...
-Eu não vou ficar aqui sofrendo, não. Vou procurar um emprego, e eu só volto pra casa quando- tira a mão do bolso- esta carteira for assinada- vê a mão vazia- Cadê a (censurado) dessa carteira???? Calma, galera, o filme é infantil. Tem que ter “pi”...

CENA 8
O decidido demitido da Escola Correta Decisão está no Circular Barro/ Tancredo Neves. Ainda pensando na maré de azar que inundou sua vida com a dispensa de Zaira, canta uma música que retrata sua “dor de corno”. E se propõe a cantar uma música do Fat Family à capela. Isso chama a atenção daquela velha de vinte e nove filhos.
-Tire esses olhos de mim, se você não sabe se está afim. Fica nessa indecisão, magoando o coração de quem ama e não perde a ilusão. Você nunca percebeu que o amor é mais que um simples prazer; é ter vontade de dar e se entregar bem muito mais, e de tudo ser capaz. Se você demorar, eu não vou te procurar. Eu não vou, não! Não vou! Eu não vou, não! Se você demorar, eu não vou te procurar. Eu não vou não! Não vou! Não vou! Não vou... Eu me sinto tão carente e sozinho, procurando um alguém para amar. Se você quiser voltar, não precisa nem ligar. Vem depressa, estou no mesmo lugar...
-Você canta bem, hein, rapaz? Já pensou em vender disco por cinco reais no ônibus?
-Não, eu não canto. Sou professor de português.
-Misericórdia, que estrago! Mas pensa bem: tu ia ganhar muito dinheiro se soltasse a voz.
-A senhora acha mesmo?
-Oxente, eu tô é certa. Só tem que parar de cantar essas músicas de “dor de corno”.
-Não é música de “dor de corno”.
-Vá por mim. Eu entendo da coisa. Já sofri desse mal vinte e nove vezes. Se você não tomar cuidado, vai cantar “Oceano” quando brigar com a namorada. Falando nisso, como é a letra?
-Amar é um deserto e seus temores... - berra, pensando em Zaira.
-Eu tô te falando que o negócio é grave, meu amigo!

CENA 9
Manjericão sai da diretoria com a sua carteira de trabalho. Cabisbaixo, ele é observado por Vic, Julianne e Jeferson.
-Tadinho do Manjericão- lamenta Vic.
-Agora ele não vai dar mais aula pra gente. Isso se o colégio mudar o horário dele- comenta Julianne.
-Caramba, eu tive uma ideia!- Jeferson dá um susto.
-Pra trazer Manjericão de volta?- as meninas questionam.
-Não, pra ter o que fazer agora. Vou ler “O Senhor dos Anéis”- retira-se.
-Bom, se ninguém vai fazer nada, eu faço.
-Vai fazer o quê, Vic? Conversar com o diretor?
-Melhor, fazer pressão popular. E eu sei quem sabe fazer a melhor campanha pra trazer o Manjericão de volta pra escola- corre até Matheus, que está sentado num banco junto com Thiago, e cochicha algo em seu ouvido. Julianne fica preocupada com a ideia da amiga.

CENA 10
O co-protagonista dessa desgraça de filme está comprando uma coxinha na cantina e vendo seus ex- alunos brincarem, sem que saibam o que está realmente acontecendo. De repente, vê uma aglomeração de estudantes e Vic o puxa.
-O que é?
-Vem ver, Manjericão.
Quando o rapaz se aproxima, os alunos estão acompanhando a gravação do “Furo Decisão”. Thiago e Matheus estão sentados no mesmo banco, olhando para a câmera segurada por Lucas.
-Agora vamos estrear um novo quadro no “Furo Decisão”: “De volta para minha terra”.
-Isso já existe, Thiago. É de um programa velho pra caramba, a gente tá ganhando dele no Ibope, inclusive. Hoje temos a estreia do quadro “De volta pra minha escola”.
-Pois é. Compartilhe no Facebook, no Twitter e no falecido Orkut este vídeo, pra que ele chegue ao diretor da Escola Municipal Correta Decisão e recontrate o tal de Manjericão.
-“Falecido Orkut? Só tu usa isso ainda, né?
-Melhor do que escrever uma coisa bonita no Face, receber uma notificação e quando abrir, ler “Matheus Felipe enviou uma solicitação para CastleVille”. Joga CaféMania em silêncio, ninguém precisa saber.
-Agora sabe, idiota. Pra quem tem Twitter, levante a tag #TeamManjericão e pronto.
-Os nossos telespectadores, que não têm nada melhor pra fazer, fazem um coro na porta de emissora. E adivinha o que eles estão gritando?
-Manjericão! Manjericão! Manjericão!
Enquanto isso é repetido quarenta e quatro vezes, como o “Cão Arrependido”, o cérebro de Manjericão recorda a velha do transporte público (ela transita, hein?):
-Você canta bem, hein, rapaz? Já pensou em vender disco por cinco reais no ônibus?
-Não, eu não canto. Sou professor de português.
-Misericórdia, que estrago! Mas pensa bem: tu ia ganhar muito dinheiro se soltasse a voz.
E ele tem uma visão, tipo a Raven Baxter: ele está rodeado de crianças cantando uma canção que leva todos ao delírio. Isso vai acontecer na penúltima sequência, mas gravamos a cena para evitar transtornos de locação com a chuva e a Copa das Confederações.
-Claro... Só assim eu vou sair do vermelho... E o “Furo Decisão” vai me ajudar. Eu vou me tornar... Um cantor viral!

01/07/2013

FURO DECISÃO- O FILME/ SEQUÊNCIA DE CENAS 1

CENA 1


Na rampa do metrô, Thiago está pensativo, olhando para o céu e para as árvores que o rodeiam.
-Mais um dia pra lutar e vencer no mundo das Letras. Por que foi que eu escolhi isso mesmo, hein?
Um metrô para Camaragibe se aproxima.
-Misericórdia- começa a correr desenfreadamente- Dá licença, dá licença, dá licença!- pede passagem para os transeuntes, ao som dos primeiros acordes de "Sempre assim", do Jota Quest. Coloca o Vem na catraca e corre antes que a porta do veículo se feche.
Dividindo a tela, está Matheus, recém-saído de um Jardim São Paulo (Afogados) e descendo na calcada do colégio da concorrência. O adolescente encontra algumas amigas e vai junto com elas até a sua sala de aula, quando de repente...
-Vaca!- aparece o amigo Jeferson, batendo nele com um livro da série "O Senhor dos Anéis".
-Vadia!- retruca o co-apresentador de web show.
Thiago desce do metrô na estação vazia do Barro... Eu havia dito "vazia"!
Pronto! Apareceu um monte de figurantes na plataforma, sufocando o universitário ate não poderem mais. Do outro lado, agora dividindo a tela em três partes, chega Manjericão. Não, você não leu errado. A alcunha do personagem é Manjericão mesmo, mas depois o filme explica tudo. O professor entra num metrô cheio de pedintes e vendedores de "Sem Parar" e chocolates da Arcor, até se deparar com uma velhinha mística que levantou a blusa e deixou seu enrugado umbigo à mostra. Detalhe: envolto numa barriga mais saliente que os adolescentes que veem "MTV Sem Vergonha".
-Bom dia para todos. Me desculpem incomodar a paz espiritual de vocês com a minha voz, mas eu amamentei meus vinte e nove filhos...
-Vinte e nove? Mas é uma mãe ou é uma música do Legião Urbana? Deu a mulesta dos cachorros!
- ...Como eu ia dizendo... Eu me descuidei da minha forma física de mendiga e estou pedindo uma colaboração. Aceito ticket refeição, cartão do American Express, depósito na poupança da Caixa... Qualquer ajuda pra fazer minha lipoaspiração e comprar leite Camponesa para os meus dezessete rebentos menores de idade. Qualquer ajuda que vocês puderem dar, será muito bem-vinda.
-E eu que pensava que não havia nada pior do que pegar o Circular Barro/ Tancredo Neves. É a gota serena!
Thiago esta pronto para ir à universidade e embarca num ônibus com outras cento e trinta e oito pessoas (num transporte coletivo que só abarca setenta e oito, quarenta e duas dessas em pé). Uma jovem estudante, vestida de verde e branco, abraça o rapaz pelas costas.
-Você está me bulinando?
-Meu filho, tudo aqui é na base do assédio! Olha o espaço que a gente tem aqui dentro!
-Nunca me senti tão pegável quanto hoje...


CENA 2


Numa das salas de aula, Manjericão dá sua simples explicação sobre figuras de linguagem.
-E então, galera? Vamos fazer aquela revisão pra prova. Qual é o nome daquela figura de linguagem que dá permissão pra gente criar palavras novas?
-Neologismo!- gritam os alunos do sexto ano do ensino fundamental.
-Boa, turma! É só se lembrar do "neo", que é o radical para tudo que é novo. Agora eu quero ver quem é que vai se lembrar do exemplo de neologismo que eu dei na aula passada...
-Eu! Eu! Eu! Eu sei, professor!- os alunos, desesperados, levantam suas mãos.
-Vamos fazer assim, então: todo mundo fica de pé e canta comigo o refrão do neologismo. Um, dois, três e...
-Tchê, tchererê, tchê, tchê, tchererê, tchê, tchê, tchererê, tchê, tchê, tchererê, tchê, tchê, tchê, tchê, tchê, tchê! Gusttavo Lima e você!
-Sobre o exemplo que eu dei de estrangeirismo?
-Arigatô! Sayonara! Arigatô! Sayonara!
-Exatamente. Na prova de quarta-feira, vai cair também aquela figura de linguagem que tem a ver com o exagero. Qual é?
-Hipérbole!
-Manda pra mim um exemplo de hipérbole...
-Vou caçar mais um milhão de vagalumes por aí pra te ver sorrir, eu posso colorir o céu de outra cor...
-Nesse exemplo, eu sabia que você iam se amarrar. Quanto à metáfora...
-Agora pare! Pegue no bumbum! Agora desce! Pegue no “compasso”!
-Ninguém pega em nada, por favor! Vai cair também as funções da linguagem, principalmente a apelativa, que sempre quer convencer as pessoas. Um dos modelos dessa função é o Grupo Molejo. A gente vai revisar porque todo mundo vai passar nessa prova, ou eu não me chamo Leonardo Mantoanelli Jensen Ribeiro Castro Oliveira. Ou melhor: vocês não me chamam de Leonardo...
-Manjericão!
-Atenção, atenção, todo mundo no Samba Rock do Molejão pra aprender a função apelativa.
E no meio dos tchubidabidus da vida, eles entoam a famosa canção e aprendem ao se divertirem.
-Ei, vamos nessa, vem no miudinho. Vem no sapatinho. Não tenha pressa.
-Não tenha pressa- grita Manjericão, assustando os alunos das outras salas, inclusive Matheus, que caminha na hora do intervalo lendo um mangá, enquanto suas amigas leem outras publicações: Vic lê uma revista que fala sobre a série “Sobrenatural” e Julianne lê “Chapeuzinho vermelho”. O básico da educação infantil.
-Sou doida pra ter uma aula com esse tal de Manjericão... – sonha Vic.
-Olha, eu sei que ele é divertido, mas eu sou mais eu- Matheus se gaba.
-Muito até. Essas brigas com Jeferson são o poder. Vocês já acordam fazendo uma lista do que vão se xingar- lembra-se Julianne.
-Erros de rota, fazer o quê?
-Vem cá, que barulho é esse?- chega o diretor da escola, um Skinner de cabelo tingido.
-É na turma do Manjericão- responde Jeferson, que chega ao pátio.
-De quem?
-Manjericão, pô! O professor Leonardo, anta!
-Como é a estória, rapaz?
-Anta: adorável e notável técnico de administração. “Sigla grafêmica” é o assunto preferido dos alunos de Manjericão.
-Realmente, dá margem pra muita coisa... – observa Matheus.
-Manjericão que me aguarde... Quero dizer... Eu vou ter uma conversinha com o Leonardo... – promete o diretor.


CENA 3


Thiago chega ao prédio onde terá uma aula de disciplina eletiva. Mas quando chega ao mini-auditório, encontra a seguinte placa: “Por motivos de força pluvial, as aulas no Centro de Artes e Comunicação foram canceladas. A Defesa Civil recomenda que os alunos da Universidade não saiam de casa, a fim de evitar transtornos com as ruas da Várzea que certamente serão alagadas. Atenciosamente, a Reitoria.”.
-Eu só posso estar vendendo Cogumelo do Sol no metrô pra merecer um castigo desses. Bom, pelo menos vejo à tarde a naftalina do SBT!


CENA 4


Manjericão entra na sala do diretor.
-O senhor queria falar comigo?
-Sente-se, Manjericão... Digo, Leonardo.
-Ah, fica tranquilo. Já virou meu codinome. Estou praticamente indo ao cartório acrescentar “Manjericão” na minha certidão de nascimento.
-Temos que conversar sobre um assunto muito sério... Leonardo.
-Já vi que não é coisa boa.
-Como sabe?
-Uma pessoa que me chama duas vezes de “Leonardo” em menos de trinta segundos quer me dar uma bronca, só pode.
-Quando você foi contratado, sabia quais eram as diretrizes e os princípios que a Escola Municipal Correta Decisão seguia. E apesar disso, vejo que você não se esforça o mínimo para fazer o que te é exigido.
-Meu compromisso não é só com a escola. É com a educação. E o senhor vai me desculpar, mas acho que o segundo é mais importante. Eu quero formar pessoas que estejam interessadas em aprender, onde quer que elas se encontrem, aqui ou em outro lugar.
-Tente me entender. O seu estilo é um pouco... Descolado para uma escola tradicional. Leonardo, você acredita mesmo que se encaixa na proposta da escola?
-Eu não preciso me encaixar em proposta nenhuma. Eu sou a proposta. Todo professor é a proposta da escola pra melhorar o futuro de quem quiser ter seu futuro melhorado. Sinceramente, eu pensei que o senhor tivesse sacado isso desde que me contratou.
-Vamos por fatos, e não por intenções: como o Samba Rock do Molejão pode mudar o futuro dos alunos do sexto ano?
-Senhor diretor, é apenas uma forma de trazer os estudantes para aquilo que eu quero: que eles achem alguma conexão com o que eu tento ensinar. E o que eu ensino tem, sim, a ver com o que a escola quer: um cara que dê tudo bem mastigadinho.
-Já vi que não vamos conseguir chegar a um acordo.
-Adoro acordos, desde que eles não procurem mudar o que eu sou.
-Percebe que o seu “eu” será um desempregado?
-Percebo, e assumo o risco.
-Tem algum “plano B” em mente, não tem?
-No momento... – suspira- Nenhum.
O celular toca. É Zaira, a namorada do professor.
-Meu amor, tô chegando em casa já. Gastei o teu salário do mês passado. Bom, eu precisava comprar umas coisinhas pessoais pra colocar no apartamento.
-Tudo bem, Zaira.
-Que tom de voz é esse? O que aconteceu, Manjericão?
-Quando eu chegar, a gente conversa. Um beijo.
-Beijo- desliga, desconfiada.
-Eu vou pegar alguns livros na sala dos professores- levanta-se da cadeira, deixando sua carteira de trabalho cair.
-Sinto muito. De verdade.


CENA 5


Toca o sinal. Matheus, Vic, Julianne e Jeferson estão entrando na sala, quando Thiago chega, cutucando o primeiro.
-E então? Quais são as novidades desse fim de mundo?
-Thiago- Matheus e as meninas abraçam o universitário, enquanto Jeferson lhe dá uma leve tapa e Lucas, outro garoto da turma, arranca-lhe o boné.
-Muitas novidades. Pra começar, o colégio foi pintado de novo e está a cara do Cotel. Mas tudo isso será explicado na mais inédita edição de um grande sucesso jornalístico: o “Furo Decisão”.
-Viram só? O pequeno marginal, mais uma vez, tirou passaporte para viajar na maionese.
-Quem sabe a gente consegue entrevistar alguém importante?
-Uma pessoa importante no “Furo Decisão” é a mesma coisa que juízo na sua cabeça: nunca existiu a possibilidade.
-Isso é!

30/06/2013

TODA DICA SE REVISA ("OUSADIA E ALEGRIA", DO THIAGUINHO)

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