20/04/2014

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 3: EM CONFRONTO



Diversos presos começam a gritar, chamado por qualquer carcereiro que possa ajudá-los. Um homem está passando mal na cela que fica em frente à que está trancando Murilo e Irandir.
-O que é que esse homem tem?
-Problema de coração. Vez ou outra, ele tem esses ataques.
-Alguém tem que fazer alguma coisa. Esse homem vai acabar morrendo! Carcereiro!- começa a gritar- Alguém traz ajuda aqui!
-Não adianta, Murilo. Esse velho já passou mal não sei quantas vezes. Nunca ninguém faz nada.
-Como não faz? Tem que chamar um médico! E se esse homem morre?
-Sem médico. Faz mais de três meses que nenhum atende aqui. Acorda pra vida, rapaz. A gente “tá” num presídio! O Estado tem que proteger a gente, mas parece que a gente “tá” é solto por aí. Sem médico, droga rolando, o pessoal falando ao celular negociando droga, dinheiro e a vida dos outros. Não é o primeiro.
-Já foi, já foi... – fala um dos presos, sinalizando que o detento acaba de falecer. Os outros presos da cela se afastam.
-Ninguém... – Murilo lamenta, olhando para a cela- Ninguém foi até a direção pedir um médico?
-Pra quê?
-Alguém tem que interceder. E se isso acontece com outro?
-Já aconteceu, Murilo. Eu acabei de dizer. Com essas perdas a gente se acostuma. Só não aconteceu mais porque no mês passado, muita gente conseguiu fugir na rebelião.
-Só espero que, apesar disso, ele tenha encontrado a paz.
-Nesse inferno?
-A gente não sabe o que se passava no coração dele. Não posso julgar, você também não.
-Vai dizer que dentro de você, não culpa seu filho por toda essa desgraça?
-Culpo, mas não deixo de amar.
-Nunca mais você teve notícia do... Como é que vocês chamavam ele?
-Gigante. Apelido caiu como uma luva. Na igreja, a gente diz que gigante é uma adversidade, mas que ela é menor do que o nosso Deus. Talvez o meu filho seja a minha adversidade... –chora- Meu próprio filho, minha adversidade.


O caminhão com as revistas chega à loja de conveniência de um posto de gasolina, alvo de Paulo, Rebeca e Alexandre. O terceiro entra no local, um pouco tenso, mas se dirige à balconista.
-Onde é que fica batata frita?
-No último corredor à direita, lá no fim.
-Valeu- pega uma cesta e vai ao local indicado. Assim que os entregadores da editora chegam, cumprimentam a moça. Alexandre começa a colher diversos itens e os coloca na cesta. Não observa, portanto, que os dois rapazes conversam com a balconista.
Do lado de fora, Rebeca e Paulo colocam seus capuzes e arrancam as placas do caminhão. Paulo faz um sinal de que está pronto a entrar com a cúmplice, e o terceiro jovem vê pela vitrine da loja. Alexandre se abaixa, quando...
-Todo mundo abaixado! Todo mundo pro chão, agora! Anda, anda logo! Fica no chão- assustados, obedecem a Paulo. Alexandre tira a camisa azul, desviado da única câmera de segurança que há no local. Rebeca pula até o caixa, também munida de um revólver.
-Abre a caixa registradora logo. Ninguém vai machucar você!- a jovem ameaça.
-Por favor, não faz nada comigo! Eu tenho filho pequeno...
-Vou fazer se você não tirar o dinheiro todo! Vai! Rápido!
Alexandre tira outra camisa que está vestindo, de cor preta e, sem ser percebido pelo circuito interno, joga-lhe sobre a lente. Após isso, pega a camisa azul e a cesta, correndo para o lado de fora. Os dois entregadores estão sob a mira de Paulo, e não veem o rapaz saindo. A moça, assustada, coloca tudo num saco preto entregue por Rebeca.
Alexandre volta a vestir a camisa azul que estampava dentro do posto. Logo tira de seu bolso duas luvas e uma chave, abrindo com esta a porta do caminhão.
-Pronto?- Paulo pergunta à Rebeca.
-Tudo limpo.
-Agora você se abaixa! Se abaixa, pô! Eu”tô” mandando!- começa a gritar com a balconista- Olha só, essa é pros três, hein? Vocês vão contar até cinquenta e com a cabeça abaixada. Quem levantar antes disso leva um teco, “tão” entendendo? Começa a contar, vai!- aproxima a arma da moça que, chorando, continua a lhe obedecer. Os outros fazem a mesma coisa até que Paulo e Rebeca saiam da loja e encontrem Alexandre, que passa a dirigir o veículo.


Ao final de um culto vespertino na Igreja Lar Celestial, Célio Rebello canta um louvor enquanto recolhe os dízimos de alguns fieis. Todos os irmãos saem cantando o hino. O pastor é o mais entusiasmado, sempre dando um jeito de olhar para a cesta, repleta de dinheiro. Sobe até o púlpito, sem perceber que Natália, que o observava desde o final do culto na porta da igreja, o segue com um olhar de seriedade.
-A paz do Senhor, irmã.
-Amém- responde sem saber se é assim que se responde tal cumprimento.
-Desculpe, irmã, mas eu não me lembro da senhora aqui. É recém-convertida?
-Nem convertida sou- isso faz Célio ficar mais sério- Na verdade, eu entrei porque precisava de uma informação.
-Devia ter chegado mais cedo. Tenho certeza de que ia achar o nosso culto uma maravilha- Natália olha para o pastor, ainda segurando a cesta.
-Pro senhor deve ter sido mais, sem sombra de dúvida. Acompanhei o final do culto e esperei para falar com o senhor. Como é pastor daqui, vai saber me informar com precisão.
-Vejo que é urgente... Diga, o que quer saber?
-Onde está o pastor Murilo Nobre?
-O irmão Murilo não compareceu hoje à igreja. É muito estranho, ele nunca falta.
-Tem ideia de onde posso encontrá-lo?
-Ele mora nessa mesma rua. No final mesmo, a última casa do lado direito, de primeiro andar. Será que eu não posso ajudar? Também sou pastor daqui.
-Meu assunto é pessoal.
-Bom, se é assim... Só seguir o que eu falei.
-Obrigada- recoloca a bolsa em seu ombro e segue até a casa de Murilo.


Na residência de Murilo, Verônica está insone, com a mesma roupa da noite passada, na qual esperou Gigante chegar.
-Meu amor, vem almoçar. Você não comeu nada o dia todo.
-Não sinto fome, e eu não sei como você pode sentir com o seu filho desaparecido.
-Tudo o que eu fiz estava ao meu alcance, Verônica. Eu não posso jogar a toalha porque acho que o nosso filho tem jeito. Mas foi uma escolha dele.
-Que escolha é essa? Um filho escolhe abandonar os pais e sumir no mundo sem dar notícias? De onde está, se está bem, com quem está, o que anda fazendo?
-Sabemos o que ele fazia e faz.
-Por favor, não!
-O que a gente ganha fingindo que as coisas estão normais, Verônica? Ele começou... Começou roubando coisas dentro de casa, pegando nossos objetos pessoais pra comprar coisas que ele dizia ter direito, já que nunca tirei um centavo da igreja... Depois, entrou na casa dos vizinhos. Eles chamaram a polícia, mas só a gente sabia do que ele era capaz. Foi um milagre ninguém saber de nada
-Meu filho não é nenhum bandido, Murilo!
-Mas o meu é. Você sempre foi uma mãe carinhosa, protetora ao extremo, mas passou a se cegar. Fechou os olhos pra tudo que o Gigante vinha fazendo, mesmo com todos os exemplos que a gente sempre deu.
-O Gigante vai voltar! Eu tenho certeza disso, como eu tenho de morrer!
-Eu creio nisso. Você não sabe o quanto eu oro pra que ele se volte pro caminho de luz que ele seguia, Verônica. Mas eu abomino a mentira, e eu não vou mentir pra nós dois. Nosso filho é bandido, sim.
A campainha toca e Murilo vai atender.
-Eu estou procurando... – olha para o pastor- O senhor é Murilo Nobre?
-Sou. A senhora “tá” me procurando?
-Não. Procuro o seu filho. Tenho que falar com ele uma coisa urgente.
-Urgente? A senhora sabe onde ele está?
-Como “onde está”? Essa é a casa dele, não é?
-Eu sou o pai dele.
-E eu sou a mãe- Verônica se aproxima, curiosa.
-Ah, a mãe dele...
-O que é que a senhora quer dizer pro meu filho?- Murilo fica apreensivo, pensando que Natália pode saber de algo sobre o paradeiro de Gigante.


Célio vai até a urna que, há pouco tempo atrás, foi verificada por Murilo quando recebeu a oferta de Ivone para obras na Igreja Lar Celestial.
-Onde é que Murilo colocou a chave da urna? Não “tô” achando... Olha para o chão, nas proximidades da porta do recinto, onde o molho está caído. Apanha-o e se surpreende ao ver apenas a quantia entregue pela frequentadora.
-Não é possível... Sumiu... O dinheiro sumiu! Mas quem foi que roubou o dinheiro que... – começa a vasculhar em algumas gavetas, até que um único nome lhe vem à cabeça.
-Murilo... Ele sabe de alguma coisa. Ele deve saber do paradeiro desse dinheiro. Tem que saber!- coloca o montante que recebeu no culto vespertino na urna, para depois fechá-la e sair correndo.


Alexandre dirige o caminhão em alta velocidade. Rebeca se assusta.
-A gente não tá indo rápido demais? Não vai dar tempo nem dos dois entregadores prestarem queixa.
-Não, ele “tá” certo. A gente não pode bobear.
-Por favor, Paulo! Nós dois tiramos as placas do caminhão, não tem como eles acharem a gente. Pra completar, essa avenida não tem uma blitz sequer.
-Tô dentro do limite, Rebeca.
-Olha pra frente, Alexandre!- Paulo o repreende por se distrair.
-A gente vai pra onde agora, Paulo?
-Pra casa, não. Se alguém reconheceu a gente, vai ser o primeiro lugar onde vão procurar. Alexandre vai deixar o caminhão num lugar qualquer e a gente vai se hospedar numa pensão. Como a gente é novo no apartamento, ninguém vai dar pela nossa falta em dois dias. Só até a poeira abaixar.
-Paulo, “tão” seguindo a gente- o condutor olha o retrovisor.
-Quem?
-A polícia! Já “tá” bem atrás. Agora foi pro seu lado!
-Droga!- tira a arma do bolso.
-Paulo, não!- Rebeca implora.
-Não “tô” disposto a perder a minha liberdade, nem qualquer centavo desse dinheiro- coloca a arma para fora do caminhão, atirando contra a viatura duas vezes.
-Atira no pneu deles- Alexandre grita ao volante.
-Eu vou é matar quem “tiver” lá dentro. Só eles sabem da gente!
-Pra onde eles vão?- Rebeca vê a viatura se afastando e aumentando a velocidade cada vez mais.
-Desvia pra esquerda, Alexandre- o rapaz fica nervoso e acaba passando da curva que lhe é recomendada. Não vai dar pra recuar!
-Para o caminhão, ele vai bater!- Rebeca grita, ao perceber que a viatura se atravessa em plena avenida, o que impede a passagem dos outros veículos.
-O que é que a gente faz agora?
-Passa por cima!- sugere Paulo.
-Você ficou maluco?
-Ou isso ou a gente vai pra cadeia, Alexandre! É isso que você quer?
Dois policiais descem da viatura apontando armas e um delegado grita para os bandidos.
-Vocês não têm mais saída! Saiam do veículo imediatamente! Estão presos!
-Avança com o caminhão! Passa por cima!
-Eu não posso fazer isso!
-Melhor se entregar, Paulo!
-Avança com esse caminhão agora, Alexandre! Vai!
O garoto pisa no acelerador enquanto chora. Os policiais se aproximam.
-Vão matar a gente!- grita um deles.
-Atira! Atira pra ele parar!- o delegado ordena.
O segundo, sem recear, atira uma única vez em Alexandre, que cai desmaiado ao lado de Rebeca. O veículo avança e atropela os dois oficiais, batendo na viatura policial, jogando o delegado para o lado oposto da via.
Mas Paulo e Rebeca não saem ilesos quando Alexandre, ao não conduzir o veículo, bate numa árvore próxima aos destroços da viatura. A moça fica com um ferimento nos lábios e se apavora com Alexandre ao lado, baleado pela polícia. Ela coloca a mão no pulso dele.
-O Alexandre...
-Dançou, Rebeca. Já era.

13/04/2014

ESTUDO TANTO ("BEIJINHO NO OMBRO", DA VALESCA POPOZUDA E DO VANGUART)

Percebo que a estatística aponta:
Professor vem e avalia, nota dá discórdia
Para o discente: é Bakhtin, Bechara e bomba
E pegar Barro, mas se tinha falta dada em prova
Credito a meus professores um descuido:
Sig@ travado, sempre assim! Que absurdo!
Pra que grau cole, sei que deverás fazer-
Já contando a capa e referência- TCC
Cursando à tarde, aula em CE e NIATE
Keep calm e deixa de ir ao CAC
Com professor, a paciência explodiu!
Cheia de matéria, vai pra... (sala, graduada!)

Estudo tanto pra do CAC passar longe
Estudo tanto pra não filar avaliação
Estudo tanto para um 10 que se esconde
Estudo tanto pra findar graduação

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 2: EM CONTATO

No refeitório da penitenciária, um funcionário vem com um carro trazendo os pratos dos detentos. Murilo está na mesma mesa que Irandir, sentado de frente para o mesmo. Ambos não deixam de notar que o homem canta baixo uma música voltada ao público evangélico.
-Eu corro para Ti, não sei viver sem Ti. Sem ter o teu amor, não posso respirar...
-Já tem uns dias que esse cara fica cantando isso- observa Irandir.
-Sabe da vitória que recebeu. E não foi coisa pouca.
-Como sabe que foi uma vitória?
-Não prestou atenção na letra? Ele estava afastado de Deus, decidiu se voltar e uma bênção se cumpriu.
-Por favor... Nem você acredita mais nisso...
-Quem disse?
-Olha pra você: desanimado, triste, pensando que foi abandonado... E foi mesmo. Ontem foi dia de visita e ninguém veio te ver.
-Todo humano é falho. Você acredita que é possível confiar em alguém que falha?
-Se você é inocente, não falhou em nada. As pessoas que “tão” lá fora não confiam em você. Realmente pensa que não te abandonaram?
-Quem eu preciso não me abandonou. Eu não podia ter outra reação, dizer que estou feliz de estar aqui, mas... Posso suportar isso.
-Me diz aí como.
-Nenhum tipo de provação é maior que a nossa capacidade de suportar.
-OK, daqui a pouco você vai dizer que o teto vai se abrir e você vai sair daqui.
-Creio que saio. Mas não blasfeme. Nunca ouviu falar que tudo é possível aos olhos do que crê?
-Por isso: não creio. Vamos mudar de assunto. Ontem você falou de uma mulher que descobriu que o óvulo dela foi parar na sua. E aí?
-Com uma revelação dessas, ela não ficou de braços cruzados. Nem poderia.
-Ela não era de São Paulo? Como é que vocês foram parar lá?
-Verônica, que é minha esposa, já estava comigo antes de eu me tornar pastor. O nosso sonho era ter um filho, mas nada dava certo. A gente juntou umas economias e foi pra São Paulo porque o pai dessa mulher era especialista em fertilização. Sabe referência nacional no assunto?
-“Tô” sabendo... E você não achou que tinha nada errado?
-Nenhum dos dois tinha problema pra ter filho. Foi o que a gente descobriu indo no consultório do médico. Então, recorremos a uma tal de fertilização in vitro. Ele disse que era o melhor pra gente.
-Jogando o óvulo fora?
-A gente não tinha ideia de que ele fosse fazer isso pra gerar um neto.
-Quer dizer que o garoto é seu filho com a filha do médico, que você nunca viu na vida?
-Mulher que até o sumiço do meu filho eu nunca tinha visto.
-Imagino que essa mulher deve ter surtado, hein?
-Não só surtou como decidiu investigar.
-O que ela descobriu?



Na clínica que era presidida pelo pai de Natália, uma secretária se assusta ao dar de cara com aquela mulher, completamente desnorteada e naquele lugar à noite.
-Dona Natália? O que a senhora...
-Onde é que vocês guardam os arquivos de pacientes antigos?
-Nessa sala ao lado. Mas como o seu pai...
-Quer saber como ele está? Morreu! Não resistiu e morreu. Era só isso que você queria saber?
-Espera aí, eu não posso deixar a senhora entrar!
-É melhor você me dar essa chave porque eu não quero ter de demitir você. Anda logo, vai pegar a chave pra abrir isso.
-Mas o que a senhora está procurando?- tira a chave de uma gaveta.
-Procurando, não. Tendo a minha vida de volta. Resgatando aquilo que meu pai me tirou. Abre logo essa porta!- a jovem obedece, e deixa Natália vasculhar a papelada.
- A senhora precisa de mais alguma coisa?
-Não. Pode ir pra casa. Eu vou passar a noite aqui examinando o que eu estou procurando.
-Com licença, então... – sai.
-Letra T, letra U, letra V... Verônica, Verônica... Onde é que está o prontuário dessa mulher?
Cada vez mais impaciente, Natália retira a gaveta com os prontuários e com ela se abaixa. Nela, encontra diversas fichas de mulheres homônimas. Nota que há uma pasta vermelha no meio delas. Decide puxá-la, quando vem junto a da mulher que cuidou de seu filho. Juntas por um clipe, Natália lê em voz alta o que está no adesivo daquela reunião de documentos.
-“Dossiê Nobre”? Por que isso?
E o compara à ficha de Verônica.
-Verônica Nobre? Data de nascimento: 14 de novembro de 1966. Cidade: Olinda. Cônjuge: Murilo Nobre. Procedimento médico: Fertilização in vitro... Ela não sabia que o meu pai havia implantado o meu óvulo nela. Mas vai saber. E vai saber porque eu vou contar.


Paulo, Rebeca e Alexandre chegam com suas mochilas em um apartamento vazio, com apenas colchonetes e colchões colocados sobre o chão.
-É aqui que a gente vai ficar?- pergunta o inseguro Alexandre.
-Um hotel de luxo não “tá” nas opções da gente, pelo menos por enquanto- esclarece Paulo.
-Fala, Paulo. Qual o próximo passo que a gente vai seguir?- Rebeca fica curiosa.
-Tem uma loja de conveniência num posto de gasolina que fica perto do Complexo Têxtil.
-Mas a polícia não fica passando por lá direto?- observa Alexandre.
-Andei me informando, Alexandre. Fica frio. A partir das dez da manhã, começa a distribuição de revistas. A tal editora fica perto do posto. E nesse horário, a polícia nem à paisana fica.
-Quando a gente vai? Amanhã mesmo?
-Não, Rebeca. Vai dar muito na cara. A gente acabou de sair de casa hoje, vai dar muito na vista. Se alguém da família da gente inventar de botar a polícia atrás de nós, como é que vai ser? Vamos dar uns dois dias, já é tempo de pensar melhor em como fazer o assalto.
-Você tem razão. Bom, vocês trouxeram algum dinheiro pra comida nesses dois dias?
-Eu trouxe- Alexandre tira uma quantia de duzentos reais- Acho que vai dar pra gente se virar com isso.
-Pensei que você tinha trazido mais que isso... – Paulo se mostra um pouco decepcionado.
-E trouxe. Mas é melhor guardar. Vai que depois a gente precisa.
-Tem razão. Melhor guardar mesmo.
-Já “tô” pensando nesses vizinhos estranhando eu morando com dois homens ao mesmo tempo...
-Se isso te preocupa, a gente diz que eu sou teu irmão- “propõe” Paulo.
-Muito incestuoso da sua parte, meu amor!- Rebeca dá um beijo em seu cúmplice- Vamos dizer que o Alexandre é meu irmão, OK? Essa estória eles vão acabar comprando. Me dá esses trezentos que eu vou ao supermercado comprar alguma coisa.
-Já é- Alexandre entrega a quantia.
-Venho daqui a pouco- abre a porta do apartamento.


Verônica, a esposa de Murilo, bate à porta do quarto de seu filho, naquela mesma noite.
-Filho, o que está acontecendo? Você não desceu pra jantar. O que foi que houve? Sai desse quarto, meu filho. Eu estou ficando preocupada.
-Cadê ele?- Murilo sobe às escadas, ofegante.
-Murilo, o que foi que houve?
-Ele não quer abrir a porta?- tira um molho de chaves do bolso- Vai ver que ele nem em casa está.
-O que está acontecendo?
-Você vai saber já, já. E pro bem dele, eu espero... Eu estou orando que ele esteja nesse quarto, sem fome, dormindo... Como eu quero que ele esteja!- entra no quarto- Viu só? Tudo arrumado, do jeito que você deve ter deixado mais cedo.
-Pra onde ele foi a uma hora dessas? O que você está procurando?- diz, ao ver o marido abrir as portas do guarda-roupa.
-Tem roupa dele faltando, isso é nítido... O Gigante fugiu.
-O quê? Não, isso não pode ser verdade. Pra onde ele foi?
-Isso, eu não sei. Mas eu vou botar a polícia atrás dele. Isso, sim, eu vou fazer.
-Polícia? Que estória é essa? Talvez ele tenha saído com algum amigo...
-Como ele vem fazendo ultimamente, Verônica? Será que você não vê as queixas que ele tem da gente? Do nosso modo de vida? Da nossa situação financeira? Do dinheiro que é investido na Lar Celestial?
-Do que você está falando, Murilo?
-Nosso filho não se conforma de ver a igreja prosperando, enquanto a gente tem uma vida simples, pacata, muitas vezes sem ter tanto dinheiro como ele quer.
-Por favor, aonde você chegar com isso?
-Verônica, a Lar Celestial acabou de ser roubada. O dinheiro das ofertas dos irmãos sumiu.
-Ligou pro irmão Célio? Ele é que cuida disso...
-Célio está com virose. E depois, eu vi ele conferir o dinheiro. Tudo normal, não pegou uma moeda. E hoje, eu vi que o dinheiro nem na urna estava.
-Murilo, você não está achando que o Gigante...
-E você também não está? Será que só eu tenho essa impressão? Porque se você também tiver, é porque já percebeu como ele está diferente comigo, com você, com todo mundo.
-Meu filho não roubou dinheiro nenhum. Pode ter sido outra pessoa... Aliás,não pode ter sido: foi outra pessoa!
-Para, Verônica! O dinheiro sumiu, o Gigante sumiu também! Será que isso é um engano mesmo? Pois eu vou te dizer: não é! Aceite os fatos: esse garoto não passa de um ladrão! Um ladrão!
-Cala essa boca!- esbofeteia o marido- Eu não admito que você fale assim do meu filho, entendeu? Ele não fez nada! Nada! Você é que está errado! O único que cometeu algum erro aqui foi você, acusando ele sem provas.
-Sou pai. Sou o pai dele, Verônica. Você acha que eu não vou sentir meu filho se distanciando de mim? Pra mim, isso pode até ser uma provação, mas eu sei que vou vencer. E espero que o Gigante vença comigo. Mas se eu tiver que chamar a polícia pra isso, eu vou acionar!
Com os olhos marejados, Verônica avisa.
-Eu vou esperar o meu filho lá embaixo. Quando ele voltar, a gente vai conversar, e você vai ter que me pedir desculpas por tudo que acabou de falar.
-De coração, eu quero ter de pedir desculpa. Mas só se o Gigante aparecer.
Verônica sai do quarto abalada e Murilo senta na cama, emocionado como que acaba de dizer.
-Eu vou superar isso. Meu filho também vai superar, junto de mim e da mãe. Creio nisso. É só no que eu creio agora.


Natália lê o “Dossiê Nobre” e encontra uma passagem que lhe desperta curiosidade.
-“O filho de Verônica e Murilo Nobre é conhecido como ‘Gigante’ e não participa com frequência dos cultos ministrados por seu pai. Há pouco tempo, terminou o ensino médio, mas ainda não exerce nenhuma profissão”... Gigante... Então esse é o apelido dele... Eu não vou aguentar guardar essa angústia dentro de mim, calada... Eu vou atrás desse rapaz. Vou atrás do meu filho- pega o telefone da secretária e disca um número- Boa noite. Eu gostaria de comprar uma passagem com urgência para primeira classe. Meu destino? Pernambuco.

06/04/2014

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 1: EM CÁRCERE

Quase sete horas da manhã. Boa parte dos presos estava acordada. Uma das exceções era Irandir, que estava cumprindo pena por roubo há algum tempo. Ao se levantar, não tira os olhos do companheiro de cela, que parecia não ter dormido na noite anterior. Do lado deste, uma bíblia.
Vem um carcereiro trazer o café da manhã de ambos. O outro detento continua estático, mesmo a bandeja tendo sido colocada ao seu lado na cama. Irandir não deixa de observá-lo, mesmo quando o carcereiro vai embora e tranca a cela. Bebe um gole na já antiga caneca e solta:
-O café daqui sempre dá um jeito de piorar, nunca vi... – morde um pão- Antes de vir pra cá, passei uns dias na delegacia. Era melhor que isso!- o companheiro de cela continua calado- Vem cá: tu não “fala”, não? Tem que ser em sinal, é?- Murilo responde com um olhar cansado, demonstrando que não gostaria de responder, até que Irandir se aproxima, vendo o livro sagrado- Não sei como tem gente que acredita nisso. Só os “crente burro” mesmo. Sem contar os “pastor”, que “quer” fazer eles “acreditar”. Bando de ladrão.
-É... Pelo jeito as notícias chegam num instante por aqui...
-Notícia? De quem? “Passasse” na televisão?
-Devo ter passado no repórter. Não se fala de outra coisa. Do pastor que roubou cinco mil reais de oferta da Igreja Lar Celestial.
-Então “foi” tu mesmo?
-Não é o que todo mundo diz?
-“Tô” perguntando se foi você que...
-Ah, isso não vai mudar nada. O verdadeiro culpado não vai pagar por isso.
-E por que não?
-Porque eu não quero que pague!
-Que é isso? Olha o tempo que tu “vai” passar aqui dentro, por causa da mancada de outra pessoa... Se você é inocente, se bem que todo mundo aqui diz que é, por que não dá o fora daqui?
-Se você tiver filho, vai entender a resposta.
-Foi ele...
-Prefiro pensar que não. Sempre boto a culpa no inimigo, naquilo que eu não vejo, mas que eu sei que pode influenciar os outros pra me prejudicar. Não quero lembrar que todo mundo tem livre-arbítrio pra fazer o que bem entende. Aí meu desespero de pai ia ser maior.
-E você vai deixar seu filho livre e pagar pelo que ele fez?
-Sei nem se ele “tá” vivo, irmão... Não quero meu filho livre. Quero que ele volte pra casa...

UM MÊS ANTES, EM SÃO PAULO...

Natália está no hospital, visitando o quarto em que seu pai está internado. Está de máscara, acompanhada de uma enfermeira, que avisa:
-Já tentamos de tudo pra que ele esboçasse alguma reação, mas até agora nada.
-Me deixa sozinha com ele, por favor.
-Talvez com a sua presença, ele possa... Não sei... Talvez um milagre faça ele sair dessa situação. Mas eu não pude deixar de notar que desde o dia em que ele deu entrada no hospital, ele pressentiu que era o fim. E por isso fez tanta questão de vê-la.
-Chegou a dizer pra alguém do que se tratava?
-Não quis. Disse que só a senhora aqui seria capaz de acalmá-lo. Bom, isso ele disse antes de ficar inconsciente. Com licença.
-Toda- aproxima-se do leito e segura a mão do paciente- Pai... Eu sei que essa situação aconteceu assim, de repente, mas eu desejo que você melhore. Do fundo do meu coração.
Natália é surpreendida quando o pai, ainda inconsciente, aperta a sua mão. O senhor abre os olhos.
-Filha... Deu tempo de... De contar a verdade pra você. Toda a verdade.
-Não fala nada, pai. Eu vou chamar o médico- levanta-se.
-Espera. Não adianta chamar. Ninguém vai conseguir fazer nada por mim agora. O tempo de ir embora chegou.
-O senhor não pode ir. Não pode me deixar sozinha, pai. Eu só tenho o senhor. Meu marido morreu, e eu pude ficar mais perto do senhor quando ele se foi. É a família que me resta.
-Natália... Você precisa saber o quanto eu errei com você.
-Do que está falando, pai?
-Quando você se casou, há vinte anos... Você não tinha vontade de ser mãe, nem mesmo com a insistência do seu marido. Foi aí que você decidiu congelar seus óvulos. Depois de um tempo... Decidiram ter um filho... Mas o seu marido descobriu que não poderia ter filhos...
-Pra quê tocar nesse assunto agora? Eu não gosto de falar sobre isso...
-Eu sei, mas eu preciso contar... Contar que fiquei frustrado por não ter o neto que tanto queria.
-Como eu poderia ter um filho se o meu marido era estéril? Mesmo que eu optasse por uma inseminação artificial, não seria o mesmo, entende? Foi uma iniciativa dele, e eu não quis contrariá-lo.
-Mas um neto... Um neto era o meu sonho maior. Seria a minha felicidade. Eu tentei... Convencer você a ter um filho mesmo assim...
-E eu fiquei do lado dele... Por que o senhor insiste com isso? Sabe o quanto falar é doloroso pra mim...
-Uma moça veio me procurar na clínica com o marido, um pastor. Ela estava desesperada porque tentou ter um bebê e não conseguia. Lembro até do nome deles: Murilo e Verônica.
-Aonde o senhor quer chegar com isso?
-Ela jamais desconfiou. Nem você. Eu implantei o seu óvulo nela.
-O meu... Não, isso não pode ser verdade...
-Essa moça ficou grávida depois que implantou o óvulo... O seu óvulo...
-Você não tinha o direito de fazer isso!
-Você nunca permitiria, Natália...
-Onde é que está essa mulher? Eu quero saber quem ela é.
-Existe um filho. Um filho seu que foi criado... Por eles.


Murilo chega a um dos cômodos da Igreja Lar Celestial com uma fiel chamada Ivone.
-Eu ia entregar pro irmão Célio, mas ele não veio hoje. Ele está doente, pastor.
-Foi uma daquelas viroses, sabe, irmã? Mas agora todo mundo “tá” pegando. Acho que nesse sábado ele já vai comandar o culto. Pode deixar comigo.
-Não vai se irritar? O senhor sabe que ele gosta que entreguem o dinheiro a ele. E eu só vim pra dar a oferta e comprar os seis bancos da igreja.
-A senhora também veio pra se alimentar da palavra. Ou vai dizer que o culto de hoje não foi uma bênção?
-Foi, pastor. Foi, sim. “Tá” aqui os cinquenta reais. Quando é que o senhor acha que vão colocar na igreja os bancos novos?
-Célio e eu vamos resolver isso ainda nessa semana. Pode ficar tranquila.
-Está certo. A paz do Senhor, irmão.
-Amém. Até o culto de amanhã.
-Até.
Existe uma chave ao lado de uma urna numa prateleira do quarto. Murilo a abre e descobre que não há dinheiro dentro desta, deixando-lhe desesperado.
-O que significa isso? Quem foi que pegou o... – lembra-se de algo- Não foi você, meu filho... Não pode ter sido você... - ao pensar que talvez algum frequentador da igreja esteja lhe ouvindo falar, fecha a porta e disca um número de celular- Atende, meu filho. Atende!- começa a falar em voz baixa.


Num lugar escuro, o celular do filho de Murilo começa a tocar. Ele o tira do bolso e vê o nome do pai.
-Desculpa, pai, mas a vida que eu quero pra mim não é a sua. Nunca foi... – joga o celular quando o aparelho cai numa galeria.
Alexandre, com ar de determinação, aparece com uma mochila nas costas e vai até o carro onde está o casal Paulo e Rebeca.
-Você teve coragem mesmo!- exclama a moça.
-E a sua família, Alexandre?

-Minha família agora são vocês. Meus únicos parceiros. No crime... E na vida.