15/06/2014

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 10: EM REVELAÇÃO

-Alexandre... Alexandre?
-Você sabe que eu te amo. Que só você me importa, Rebeca. Mas você não podia ter feito isso comigo.
-O dinheiro era meu. Eu tive a ideia do assalto.
-E eu pensei que o Paulo tinha tirado você de mim... Mas você foi pior do que ele. Tentou acabar comigo.
-Mas você também... – começa a respirar ofegante- Tentou me matar. E conseguiu.
-Por sua culpa, Rebeca- Alexandre olha para o ferimento mortal que causou na amante e na sua mão ensanguentada, que segura o revólver que estava dentro da mochila- Acabou pra você.
-Desgraçado!- cai ao chão, onde agoniza- Eu não vou ficar com o dinheiro, mas vocês também não. Assassino desgraçado...
-Rebeca, não... Não faz isso comigo, não me deixa aqui!- Alexandre cai ao chão, pois o ferimento causado por Paulo volta a sangrar e ele não mais controla sua dor.
A ventania espalha as notas que foram roubadas e muitas pessoas, percebendo que nada podem fazer Rebeca e Alexandre, correm para pegá-las. Dois seguranças se aproximam do casal.
-Chama a ambulância, eles estão morrendo- avisa um deles, enquanto o outro disca ao celular.
-Manda uma equipe de paramédicos pro terminal rodoviário de passageiros. Um rapaz e uma moça estão feridos.
-Você é um infeliz. Vai ser pra sempre, Alexandre... – Rebeca não resiste.
Um dos seguranças recolhe duas notas de cem reais e percebe que elas estão marcadas com as iniciais “LC”. Alexandre chora a morte de Rebeca e fica cada vez mais pálido, devido à perda de sangue.


Na delegacia, o policial que é filho de Ivone avisa a Murilo e a Célio:
-O delegado teve uma emergência pra resolver, mas está chegando daqui a alguns minutos. Tem alguém pra quem vocês queiram ligar?
-Quer ligar pra alguém, Célio?- questiona Murilo.
-Não.
-Nem pro seu filho?
-Tenho fé que vou sair cedo daqui, não preciso avisar. Só temo por você.
-O mais poderoso está comigo, lembra?- volta-se para o policial- Posso ligar pra minha esposa? Pro celular dela, pra avisar que eu estou aqui?
-Só tem direito a uma ligação, pastor- entrega-lhe o telefone.
-Vou ser rápido- disca para o celular da esposa que está na clínica ao lado de Natália.
-Não vai atender? É o seu marido.
-Está interessada em falar com ele?
-Deixa de ser ridícula, pode ser importante.
-Atende você. Com certeza, vocês têm muito assunto pra colocar em dia.
-Me dá esse celular, que inferno!- atende- Oi, Murilo. É a Natália.
-Cadê a Verônica?
-Aqui do meu lado, mas ela não quer falar. O que houve?
-Vim para na delegacia- após a declaração, Natália se levanta da cadeira.
-Delegacia? Mas por quê?- Verônica olha de maneira apreensiva.
-Tive que dizer pra um policial que fui responsável pelo roubo da igreja.
-Você não fez isso.
-Tive que fazer- olha para o policial e para Ivone- A verdade tinha que ser declarada.
-Olha, eu sei que você fez isso pra que não perseguissem o “Gigante”, mas é o cúmulo.
-Se você diz que é mãe do meu filho, já passou da hora de entender que todo sacrifício por um filho vale.
-Acontece que você não tem como provar a sua inocência, Murilo. E depois, falso testemunho também é um crime. Negue essa acusação e saia dessa delegacia agora.
-Estou esperando o delegado chegar, Natália. Bom, avise à Verônica. Sei que, apesar de eu não ter culpa nenhuma pela estória do exame, ela quer se manter distante de mim, mas avise a ela, por favor.
-Murilo, calma. Eu vou ligar pro meu advogado, e essa situação vai ser revertida. Fica tranquilo, que eu vou tentar tirar você daí.
-Não se preocupe com isso. Só me mantenha informado quando sair o resultado do DNA. Obrigado, Natália- desliga o telefone.
-Murilo... Alô? Alô!
-O que aconteceu?
-Murilo foi pra delegacia. Disse que ele foi o responsável pelo sumiço da oferta na igreja, pra não ter que denunciar o “Gigante”- pega a bolsa- Eu vou ao escritório do meu advogado, e de lá vou pra delegacia- olha para Verônica, impassível ao acontecimento- Você vai ficar aí?
-Eu disse que ficaria.
-Verônica, a situação é urgente, seu marido pode ser preso porque não tem como comprovar sua inocência.
-Orar é o jeito. E eu prometi que não sairia daqui até o resultado do exame sair. Daqui não arredo o pé.
-Fica com as tuas orações, enquanto eu vou tentar fazer alguma coisa. Tenho certeza de que o seu marido prefere uma esposa que se desespere e ore ao lado dele, mas nem disso você é capaz. Não tenho pena de você, Verônica. Tenho pena do homem maravilhoso com quem você se casou, porque você não o merece.
-E quem o merece? Você, Natália?
-Eu mereço alguém disponível, e Murilo já é comprometido. Mas não deixa de ser, pra mim, o par ideal. Com licença- vai embora da clínica, deixando Verônica ainda mais furiosa.


Na estrada onde estavam Paulo e Rebeca, um jovem dirige uma caminhonete quando ouve um forte barulho. O pneu de seu veículo acaba de estourar. Ele reduz a velocidade e vai checar o que aconteceu. Já está quase anoitecendo.
-Droga, eu vou chegar atrasado... Pior que eu não tenho nenhum reserva aqui- ao olhar para o lado, vê Paulo desmaiado perto do final do barranco- O que é aquilo? É um homem ali?
Uma ambulância vai passando pela estrada, e o rapaz faz sinal para que o motorista fale.
-O que foi, moço?
-Parece que alguém caiu lá embaixo, tem um cara desmaiado lá.
-Espera, deixa eu ver- diz o paramédico que está no banco do passageiro, abre a porta e, em seguida, saindo da ambulância.
-Será que ele “tá” morto?
-Não, rapaz. Ainda pode se mexer, daqui dá pra ver. Mas tem algumas escoriações. Quando tempo ele está lá?
-Não sei, moço. Parei a caminhonete agora porque o pneu furou. Aí, vi esse cara no meio das pedras.
-Vamos ter de pedir ajuda ao corpo de bombeiros pra descer até lá, só espero que não seja tarde- afirma o motorista.


-Quer dizer que o senhor afirma que roubou a própria igreja?- pergunta o delegado.
-É... Fui eu mesmo, doutor.
-E por que roubou a quantia?
-Porque eu... Via aqueles crentes entregando tudo na minha mão e via que nada daquilo ficava pra mim. Foi então que eu resolvi ficar com tudo.
-Ladrão!- grita Ivone.
-Senhora, contenha-se, ou vou pedir para que seu filho a tire daqui.
-Desculpe, delegado, mas eu fico revoltada com um tipinho desse...
-Mãe, por favor. Não é o momento.
-Pelo que falou a dona Ivone em depoimento, assim que eu cheguei, o montante estava avaliado em cinco mil reais. Para cobrir o roubo, uma amiga da sua família, que atende pelo nome de Natália Veronese, deu à Igreja Lar Celestial, um cheque com valor superior ao que estavam reclamando, com dois mil a mais, certo?
-Foi essa a informação que Natália me passou.
-A quem ela entregou esse cheque?
-Lembro que ela disse que deixou na igreja.
-E nesse dinheiro, obviamente, o senhor não tocou por conta do fato de que esta tal de Natália pagou todas as ofertas.
-Não, senhor. Não toquei em nenhum centavo dela.
-Pastor Murilo, acaba de receber uma informação dos policiais que estavam em sua igreja quando o senhor foi trazido para cá. Vasculharam absolutamente tudo. Não encontraram a quantia, que o senhor alega ter roubado, muito menos o cheque dado por esta mulher. Da sua igreja, portanto, sumiram doze mil reais, Isso me permite inferir que você também roubou a tal Natália.
-Não, isso eu não fiz.
-Tudo bem, vamos considerar que o senhor roubou somente os cinco mil reais, que a sua autoacusação procede. Já que está disposto a assumir a verdade... Onde está o dinheiro?
-Isso eu não posso dizer.
-Não pode porque não quer ou não tem a menor ideia de onde ele possa ter ido parar, porque não foi realmente você o autor desse delito?
-Já disse que fui eu!
-Fala de uma vez, Murilo. Qual é o problema? Você está encobrindo alguém, é isso?
-Eu sou o culpado!
-Baixa o tom, que você não está na sua igreja. Já cansei desse lenga-lenga, vamos direto ao assunto! Onde estão os cinco mil reais das ofertas?
-Eu não posso dizer.
-Teve ajuda de alguém?
-Fiz tudo sozinho. Ninguém tem culpa do que aconteceu. Só eu e mais ninguém.
-Já interroguei o Célio, que trabalha com o senhor. Me pareceu muito tranquilo, logo se vê que ele é um homem acima de qualquer suspeita. A não ser que ele seja muito cínico ou um verdadeiro psicopata pra fingir tão bem. Sendo assim, pastor, eu vou ter de lhe dar voz de prisão.
-Esperava por isso, delegado. Tenho que pagar pelo que eu fiz.
-O senhor será levado para uma cela. Quero que saiba que já tem advogado.
-Advogado?
-A tal da Rebeca mandou um advogado pra cuidar do caso, Giancarlo Carvalho. Ela também será chamada para depor no seu caso, e ele tentará pedir um habeas corpus. Mas com a sua ênfase em admitir esse crime, será muito complicado a justiça acatar o pedido.
-Por que está falando desse jeito? O que está esperando? Que eu conte uma nova versão do que aconteceu? Não vou mudar uma vírgula.
-O senhor vai me dar licença, pastor, mas eu recebi um chamado há pouco tempo, de um rapaz que vou encontrado desacordado há pouco na estrada, e eu tenho que averiguar. Os dois oficiais vão levá-lo à cela. Espero que pense muito bem em tudo o que disse até agora.
-O que mais tenho feito é isso, delegado. Vá em paz.
-Amém.


No hospital, um médico conversa com a enfermeira.
-Como eles estão?
-O rapaz que foi visto num barranco sofreu uma lesão na cabeça, e por isso ainda está inconsciente. As escoriações não são graves, é só uma questão de tempo para que ele volte a si. A polícia, naturalmente, vai querer tomar o depoimento pra saber como ele caiu. E o outro paciente? Alguma evolução?
-Ainda não, doutor. Pelo que eu vi, o estado do paciente continua estável- a enfermeira abre a cortina que separa os leitos de Paulo e Alexandre- Uma tragédia, realmente.
-Pelo ferimento, a moça que ele matou não foi a responsável. Nem chegou a atirar.
-A polícia disse que aquele dinheiro foi roubado. A câmera escondida do posto mostrou que ela estava na loja na hora do roubo. O segurança do terminal viu a marcação que o dono da loja fez nas notas caso fosse roubado. Ela tinha culpa, sem dúvida.
-Resta saber se ele ajudou ou não. Bom, vamos ver o pessoal da ala 2.
-Sim, doutor. E quanto aquele moço, que estava com um quadro grave de... - ambos saem do quarto. Paulo abre os olhos.
-Ele “tá” aqui...


Na clínica, Verônica está ainda mais impaciente com os rumos tomados em sua vida, ainda mais depois da saída de Natália. A recepcionista chama:
-Verônica Nobre?
-O que é que tem?
-O resultado do exame.
-Mas já? Eu pensei que ficasse pronto em dois dias!
-Conseguimos agilizar o processo. Dava pra ver que a senhora e aquela moça que saiu estavam muito nervosas. Aqui está.
-Obrigada, moça- abre o exame- Meu filho... – derrama suas lágrimas sobre o papel- Natália tinha razão. O “Gigante” é filho dela!


Alexandre, desacordado, chama por Rebeca no leito do hospital. Abre os olhos, e enxerga Paulo.
-Você?- assusta-se ao ver o delinquente com um travesseiro nas mãos, ainda marcadas pelos ferimentos causados pela queda.
-Aposto que ela deve ter dito pra você que tinha conseguido dar um fim em mim. Rebeca sempre foi de contar vantagem.
-Disse...
-Isso, antes de você matá-la.
-Você também queria matar a Rebeca.
-Até nisso você conseguiu me superar, Alexandre. Só que tem uma coisa: eu é que vou dar um ponto final nisso. Começando por você.
-Eu matei a mulher que eu queria... Perdi o dinheiro... O que mais você quer?
-Acabar com você. E depois comigo. Não lutei tanto pra parar na cadeia.
-Vai acabar com você mesmo do jeito que destruiu o Murilo?
-Deixa o meu pai fora disso!
-E eu falo de quem? Da sua mãe, dona Verônica, que tanto fala bem de você, mesmo tendo fugido de casa?
-Nunca mais você vai abrir sua boca pra falar da minha mãe.
-Que mãe?- debocha do inimigo ao rir, ainda com dificuldade- Verônica não é sua mãe.
-O que você disse?
-O que você ouviu... “Gigante”. O Murilo é seu pai, mas a Verônica não tem nada a ver contigo. Sua mãe é uma mulher cheia da nota, que “tá” te procurando.
-Que é que você “tá” dizendo, seu idiota?
-Fugiu... Porque não aguentava pobreza... E agora não pode voltar pra conhecer a mamãe rica, porque se voltar, a polícia cai em cima. Tudo pra nada, Paulinho... Você “tá” ferrado!

08/06/2014

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 9: EM DELITO



-Calma... – Rebeca tenta argumentar com o ex-namorado.
-Cala a boca! Não quero ouvir sua voz, desgraçada! Depois de tudo que eu fiz pra te acompanhar, ter largado minha família, comprado aquele carro pra gente fugir junto... E você dorme com esse nojento? Eu desconfiava disso faz tempo. Desde que ele ficou ferido, eu via seu cuidado com ele.
-Não é verdade. Não tinha acontecido nada entre a gente.
-Mas aconteceu. E você não podia ter deixado rolar nada.
-Por quê não, Paulo? Ela descobriu o que eu já sabia há muito tempo: que gosta de mim.
-Claro... Agora vocês vão me pedir o quê? A bênção pro romance?
-E você, Paulo? Vai matar a gente? Você vai se complicar mais ainda com a polícia.
-Mais do que você, Alexandre, que matou três policiais? Acho que não. Não tem ninguém no prédio. Poucas pessoas viram a gente desde que a gente veio pra cá. Acabar com vocês é muito fácil, só vocês não viram isso ainda.
-Paulo, por favor! Pensa em tudo que a gente viveu junto, no quanto a gente batalhou pra conseguir essa grana. Você não pode botar tudo a perder. Foi só uma aventura, eu juro!
-Não tira o corpo fora, não, Rebeca. Você gostou, tanto quanto eu ou até mais.
-Bela conversa entre o casal. Pena que vai ser a última. Além do mais, já não me agradava tanto a ideia de ter que dividir o dinheiro com mais duas pessoas. Por isso, é até melhor mesmo que eu acabe com vocês. Só não sei com qual dos dois eu começo.
-Que tal começar por você?- Alexandre tira um revólver de baixo do travesseiro e aponta para o cúmplice.
-Olha só pra isso! Quer dizer que você já tinha tudo esquematizado, não é? “Tá” me saindo melhor do que a encomenda!
-Não foi você que me mandou matar aquele pessoal da polícia, Paulo? Não foi você que queria me ver com sangue frio? Pois então... Chegou a sua hora de me conhecer de verdade. De conhecer aquilo que você criou, “meu amigo”.
-Virou homem, de uma hora pra outra. Melhor assim. A gente briga de igual pra igual. Só queria entender se essa raiva toda é por causa do dinheiro ou por causa dessa vadia.
-Claro que eu não vou sair dessa estória de mãos abanando. Mas principalmente é por causa dela. Na Rebeca, você não toca! Nunca mais! “Tá” pensando o quê? Que eu tenho medo de uma arma?
-De arma, não. Do disparo, sim!- atira no peito de Alexandre, que cai da cama.
-Não!- Rebeca grita ao vê-lo caído.
-Quero só ver pra quem você vai pedir ajuda- pega o celular do rapaz, que está na mesa de cabeceira, e o joga pela janela- Você pode até viver, Alexandre, mas não vai ser por muito tempo, não.
-Chega, Paulo! Olha a loucura que você “tá” fazendo! Para com isso!
-Agora é a sua vez, meu amor. Pega o lençol e se enrola.
-O que você vai fazer?
-Te levar pra um passeio. Sei que você vai adorar... Ah, já ia me esquecendo... – chuta o rosto do ex-cúmplice- Vamos!- segura Rebeca e a arrasta pelos cabelos.
-Não, Paulo! Me solta! Você vai se arrepender! Você não pode fazer isso comigo!
-Se eu escutar sua voz de novo, eu acabo com você aqui mesmo, vagabunda! Anda logo!


Murilo está realizando o culto do meio-dia na Igreja Lar Celestial ao lado de Célio. O encerramento se aproxima.
-Meditem, irmãos, na palavra que nos foi reservada nessa tarde. E que essa tarde seja de muitos milagres e de objetivos alcançados. Que o amor de nosso Pai celestial, assim como a sua infinita misericórdia, nos acompanhe agora e para todo o sempre...
-Amém- a igreja responde em coro.
-Sigam em paz, meus irmãos- a maioria dos fieis saem do recinto. Célio se aproxima.
-O que houve que a irmã Verônica não tem vindo pros nossos cultos?
-Problemas com o “Gigante”.
-Você não me contou nada. Mas diga: o que foi que aconteceu com eles?
-Os irmãos ainda estão saindo, Célio. Eu preferia falar sobre o assunto lá dentro, se você não se importar.
-Mas é tão grave assim?
-Só a misericórdia nessa causa, Célio. Mas não é nada que eu não possa vencer depois. E Verônica não está em casa. Foi a uma clínica.
-Doente?
-Não. Tentando resolver os problemas do nosso filho, mais uma vez.
-Com licença, irmãos- a irmã Ivone chega para falar com os pastores.
-A paz, irmã- cumprimentam ambos.
-Eu vim com cinquenta reais pra ajudar nos bancos da igreja. Tem como vocês fazerem o recibo?
-É que... – Célio começa a gaguejar.
-Claro, irmã. Claro que nós podemos fazer- responde Murilo.
-Mas, Murilo...
-Vou colocar na urna agora mesmo.
-O que foi, pastor Célio? Parece que está pálido. ”Tá” sentindo alguma coisa?
-Eu? Não, irmã, é que eu queria dar uma palavrinha com o Murilo antes de ele atender a senhora.
-Comigo?
-É! Com você! Nos dê licença, irmã.
-À vontade, irmão. Eu aguardo aqui.
-Obrigado- Célio leva Murilo até a sala onde costuma receber e guardar o dinheiro das ofertas e lhe repreende- Não deixe essa mulher entrar aqui de jeito nenhum.
-Qual é o problema, Célio?
-Irmã Ivone é a que mais contribui para as obras da igreja, mas tem uma língua que ninguém consegue frear.
-Ainda não entendi o motivo de seu nervosismo.
-Murilo, a irmã Ivone não pode entrar aqui e ver que a urna está vazia.
-Como está vazia?
-Pelo roubo, eu falei pra você. Tem que impedi-la de entrar aqui.
-Pra não ver a urna vazia? Mas ela não está vazia, a Natália pagou o produto do roubo.
-O quê?
-Natália me disse que deu um cheque a você. Ela sabia da estória do roubo há muito tempo e decidiu ajudar a igreja, pra que ninguém ficasse sabendo de nada.
-Eu não acredito que ela te contou!
-Célio, por que todo esse mistério? Por que eu não deveria saber que a Natália ressarciu o dinheiro da urna?
-Como é que é?- Ivone os surpreende tocando no assunto- O dinheiro das ofertas foi roubado? Que estória é essa?
-Irmã Ivone... - Célio tenta apaziguar a situação.
-Venho contribuindo não sei quantos meses pra ver se compram os bancos e quando o dinheiro é roubado da igreja, vocês dois não querem me contar? Eu vi a irmã, a tal de Natália dando um cheque de sete mil pro senhor. Só não sabia que era pra cobrir o roubo. Quem foi que roubou? Me digam agora! Quem roubou o dinheiro?
-Ela não pode saber que foi o “Gigante”. Vai denunciar o meu filho- pensa Murilo.
-Eu estou esperando uma explicação! Quem foi que tirou o dinheiro da igreja?
-Fui eu, irmã. Eu que roubei todo o dinheiro. O que estava na urna, e também ia tirar o cheque de Natália.
Célio e Ivone ficam surpresos com a mentira contada por Murilo.
-O senhor vai se arrepender de ter brincado com a minha fé, de ter tirado daquilo que eu não tinha pra roubar. Isso não vai ficar assim... Pastor- retira-se da igreja.


Paulo leva Rebeca para uma estrada deserta, perto de um penhasco. Freia o carro de maneira brusca.
-Sai do carro- diz o meliante, após sair do veículo e ficar do lado da porta onde Rebeca está.
-Não vou sair... Não vou sair... - Rebeca, com muito medo, fala em baixo tom. Paulo atira contra a janela traseira do carro.
-Sai desse carro agora!
Rebeca o obedece.
-Você não vai me matar. Se fosse, teria atirado em mim quando a gente “tava” em casa.
-Não se lembra disso aqui, Rebeca? A gente passou por essa estrada quando foi ao apartamento com o traste do Alexandre, na primeira noite.
-Por que você me trouxe aqui?
-Olha pro lado. É alto, não é?
-Por que você “tá” fazendo isso comigo, Paulo?- volta a chorar.
-Sabe por que eu mandei você vir até aqui, sem usar nada? Porque essa era a última imagem que eu queria ter de você. Do seu corpo. Só era disso que eu gostava, mais do que o dinheiro. Você me fez deixar tudo pra trás, me fez convencer aquele imbecil de que ele tinha que deixar tudo pra trás também, e dormiu com os dois. Usou o seu corpo pra atrair a gente. Mas eu vou acabar com ele.
-Eu te tirei da vida que você não queria mais ter!
-E me traiu. Agora, chega de conversa- puxa o lençol no qual Rebeca está enrolado- O jogo acabou, Rebeca.
-Só se for pra você, maldito- Rebeca trava uma luta corporal, enquanto tenta segurar o revólver de Paulo.
-Me larga, desgraçada!
-Você não vai ficar com o dinheiro, Paulo! Não vai!
-E você não vai ficar com ele, sua cobra!
-Vamos ver se eu não vou!- Rebeca empurra Paulo para o barranco, e ele rola até a superfície, desacordado. A arma fica caída na estrada- Eu disse que você não ficaria com o dinheiro. Agora, eu só preciso me livrar do Alexandre. Você teve o que procurou. Adeus, Paulo.
Rebeca apanha a arma e passa a dirigir o carro. Ela retorna ao apartamento. Paulo, bastante ferido, começa a chamar pelo seu nome.


Murilo segue de cabeça abaixada, sentado à mesa da sala onde houve a discussão com Ivone e Célio. O segundo pastor se aproxima.
-Por que você fez isso? Por que disse isso pra dona Ivone?
-Célio, eu preciso confessar uma coisa.
-Não, não. Você não pode ser um ladrão. Não pode ter tirado da sua igreja, da igreja que você ajudou a construir, Murilo.
-Não fui eu. Mas eu tenho pra mim que foi o meu filho.
-O “Gigante”? Mas por quê?
-Porque desde o dia em que o dinheiro sumiu, o “Gigante” não está em casa. Ele fugiu com o dinheiro, eu tenho certeza disso.
-Não, Murilo. É seu filho. Sabe que era um dinheiro importante pra obra.
-Mesmo assim, ele roubou. Nunca contei pra ninguém, só pra Verônica. “Gigante” entrava escondido na casa de alguns vizinhos pra roubar.
-Drogas?
-Não. Pior. Não era um vício... Ele gostava de roubar. Via todo o dinheiro que nós dois conseguíamos, que arrecadávamos pra igreja e queria ter aquele dinheiro só pra ele. Ele não aceitava que as pessoas tivessem mais do que eu e a mãe dele, que a gente não pudesse comprar tudo o que ele queria, bancar uma vida de luxo. Um dia, eu vi que ele veio pra cá só pra me observar guardando o dinheiro das ofertas na urna. No outro dia, o dinheiro sumiu e ele também. “Tá” na cara, Célio. Meu filho desapareceu com o dinheiro da igreja. Ainda bem que Natália decidiu ajudar pra que ninguém suspeitasse de nada.
-Você não sabe no que se meteu, Murilo.
-Não posso deixar que a polícia procure meu filho, Célio. Eu não vou aguentar se ele for preso. Eu já fico com o coração na boca imaginando nos crimes que ele “tá” cometendo sem eu saber.
-Só que esse roubo, você não podia ter assumido.
-Por que não? Eu faço de tudo pra proteger o “Gigante”.
-Às vezes eu acho que você protege demais o seu filho.
-E você? Não protege o seu?
-Aqui, meu filho- Ivone chega com o filho dela, que é policial.
-Por que a senhora trouxe ele pra cá?- pergunta Célio.
-Minha mãe me procurou na delegacia e veio fazer uma queixa formal. Os senhores vão ter que me acompanhar até lá.
-Mas por quê?
-Como “por quê”, pastor Célio? Este homem diz que passa a mão no dinheiro de toda a igreja e eu não posso fazer nada? Eu quero ver a cor do dinheiro que eu ofertei agora. Conta, seu Murilo. Conta onde foi que você colocou o dinheiro.
-Eu... Não vou falar mais nada.
-Vai falar, sim. Porque eu estou com um mandado de busca e apreensão para a Igreja Lar Celestial e para a sua casa, e os dois vão ter de me acompanhar até a delegacia para prestar esclarecimentos sobre o sumiço do dinheiro das ofertas. Não adianta se recusar ou tentar obstruir a justiça, pastor Murilo. Vai ter que vir com a polícia.
-Se é assim, eu vou. Contar a verdade.
-Murilo, por favor, pense bem no que vai dizer.
-Não influencie ele, pastor Célio. É a verdade que ele vai ter que contar.
-Vamos logo de uma vez. Já não basta o constrangimento de todo mundo me ver numa viatura da polícia?
-Então, vamos- decreta o policial.
Murilo, Célio e Ivone são acompanhados até a viatura, onde uma pequena multidão se aproxima, incrédula com o escândalo dos pastores.


Rebeca volta para o apartamento e encontra a porta aberta, como Paulo deixou. Corre para o quarto onde dormia com o ex-amante e encontra a gaveta onde deixou o dinheiro vazia.
-Cadê a grana?  Cadê o dinheiro que “tava” aqui? Alexandre, seu desgraçado! Onde é que você “tá”?
A moça encontra manchas de sangue do rapaz onde ele estava caído, e outra gaveta, onde ele guardava os remédios, revirada. Um pacote com faixas e gazes estava aberto.
-Ele deve ter fugido pra onde a gente tinha combinado ontem. Calma, Rebeca. Calma! Você não pode levantar suspeitas. Tenho que me vestir. O ônibus deve de estar embarcando da rodoviária a qualquer momento.


Na rodoviária, um motorista avisa.
-Pessoal que vai pra Maceió: o ônibus sai em cinco minutos.
Alexandre está na fila, com o tórax enfaixado, ainda sangrando um pouco do disparo provocado por Paulo.
-Tem que dar tempo. Se o Paulo volta pra casa, é capaz de ele me caçar- põe a mão.
Rebeca o surpreende apontando um revólver para as suas costas, de maneira que as pessoas no local não percebam.
-Rebeca? Você “tá” viva?
-Dei um jeito de me livrar do Paulo- começam a andar em direção à saída da rodoviária.
-Então, compra a passagem, ainda dá tempo de a gente sair daqui.
-Não mais, Alexandre. Mudança de planos. No fim das contas, todo mundo teve a mesma ideia: de não dividir o dinheiro.
-Quer dizer que...
-Eu só dormi com você pra que o Paulo te matasse, e depois, eu me livrava dele. Semeei a discórdia, como sempre. Agora, eu vou ficar com esse dinheiro. A ideia do assalto foi minha, e eu não vou perder nenhum só centavo pra você. Acabei com a raça do Paulo. Só falta você.
-Rebeca, não me mata. Você sabe que eu te amo.
-Seu amor não me interessa, não interessou nunca. Me entrega o dinheiro e você sai vivo dessa estória toda, ou eu vou ter de tomar.
-Se é assim, Rebeca... Eu sinto muito, mas você vai ter que dar um fim em mim.
-Não seja por isso- Rebeca muda de lado e encosta a arma no ventre de Alexandre. Ouve-se um disparo. A bolsa de Alexandre cai aberta, no chão. Uma ventania começa a tomar conta do lugar. Diversas pessoas começam a correr por conta do barulho. Alexandre e Rebeca se olham com lágrimas nos olhos vermelhos.