04/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 4: LONGE


-De onde a senhora tirou isso?
-Não sei, minha filha. Mas eu sinto que você quer me contar uma coisa. É sobre a festa de ontem, não é?
-Não teve nada, Mainha... Só mais uma briga.
-Karen?
-É. Ontem ela me arretou.
-Mas vocês discutiram por quê?
-Não, a gente não discutiu. Ela brigou com Danilo na festa.
-Pra variar...
-Mas ontem foi pior. Ela pegou Danilo com a menina da festa, fez uma confusão lá e... Me deixou pra trás.
-Como foi que você voltou pra casa?
-A pé. Não tinha dinheiro pra táxi nenhum. Por isso que cheguei mais tarde.
-Mas essa menina, hein? É isso que você chama de amiga? Nem pra te pedir desculpa?
-Ligou pra mim mais cedo, mas adivinha qual era o assunto?
-Danilo.
-Quase desliguei o telefone na cara dela.
-Tem certeza de que tá tudo bem mesmo, minha filha? Que o problema é só esse mesmo?
-Tenho. Pode ficar tranquila.
O pesar da mentira aumenta quando Heloísa beija a cabeça da filha. A doméstica recolhe a vassoura e a pá, indo para a cozinha.

/////

Dessa forma, Lívia passou três meses. Nunca se atreveu a se abrir para a mãe, nem para qualquer outra pessoa, sobre o que Danilo fez. Sabia muito bem que o trauma não seria esquecido, mas conseguiu pensar que, ao se afastar da amiga Karen, afastar-se-ia também de seu agressor.
Tudo isso, até virem as desconfianças de que o crime de Danilo teve consequências. As fortes imagens da fatídica noite voltaram com maior agressividade quando Lívia entrou no banheiro de sua casa e decidiu acabar com as suspeitas que possuía usando um teste de gravidez. Conferiu, atônita, o resultado. Com medo de que Heloísa pudesse encontrá-lo e lhe cobrasse explicações, corre até a cesta de lixo que estava em seu quarto e jogou o teste fora.
Em seguida, pegou a bolsa e os livros da faculdade, saindo de casa, bastante aflita.

/////

Iolanda já está arrumando a mesa para o almoço com a família. O telefone toca na sala, e ela deixa a panela esquentando no fogão.
-A paz do Senhor, irmã.
-Paz, Pastor. Tudo bem?
-Graças a Deus. Eu queria falar com Toni, ele tá em casa?
-Só um minuto... Toni!- o rapaz acaba de sair do banho- Pastor Homero no telefone.
-A paz, Pastor.
-Amém, meu filho. Tá tudo bem por aí?
-O pessoal da igreja não para de perguntar do senhor. E o congresso, como é que tá?
-Uma bênção, mas já acabou. Hoje mesmo eu saio de Teresina e volto pra aí, pode avisar ao pessoal. E trago novidades pra você.
-O que foi?
-Eu mostrei ao pessoal da congregação o vídeo do “Teen Gospel” que você organizou. Não é que eles tão procurando alguém pra fazer isso igual na festa do grupo jovem, já no final da semana que vem? Indiquei teu nome.
-Meu nome?
-É, acho que menos de uma semana sem tocar na igreja dá pra você, né? Será que você pode vir?
-Mas, pastor, é que a gente tá desprevenido de grana. Agora é que Painho conseguiu um serviço, junto com Juliano.
-Quanto a isso, não se preocupe. Eu resolvo pra você. O que não dá é você deixar de espalhar a palavra por aí.
-Se o senhor tá dizendo, então eu vou.
-Pronto. Amanhã você passa na minha casa e eu te explico como chegar lá na congregação.
-A que horas, mais ou menos?
-Como eu vou organizar as visitas às senhoras de manhã cedo... Tem como ser de uma hora da tarde?
-Posso, sim. Amanhã, eu passo no seu prédio.
-Agora, tem que sair cedo, porque daí pra Piedade é um pedaço, viu?

/////

A campainha do apartamento de Karen toca insistentemente.
-Que estranho. O porteiro não me interfonou... – ao abrir a porta, encontra Lívia- Até que enfim apareceu a margarida! Já tava mandando uma equipe de busca pro muquifo onde você mora! Não me responde mais pelo WhatsApp, pelo Face... O que tá acontecendo, hein? Tá me ignorando por quê? Se for por causa daquela palhaçada de eu ter te deixado plantada na festa...
-Você vai continuar com seu interrogatório aqui na porta ou vai me convidar pra entrar, sem que eu corra o risco de você partir pra cima de mim com um detector de metal?
-Nossa! Cadê a menina politicamente correta? É você mesma?
-Se você fosse só a minha melhor amiga, eu até podia falar com você daqui. Só que como o assunto tem a ver com você, eu acho melhor me deixar entrar. Depois, você fala. O que quiser. Mas, pelo amor de Deus, me deixa entrar, Karen!
Percebendo a aflição da moça, Karen fecha a porta, sentando-se no braço do sofá.
-Agora você me deixou assustada. O que foi, Lívia?
-Eu não sei nem como eu conto uma coisa dessas...
-Se você conseguiu chegar até aqui, com o coração quase saindo pela boca... Fala, Lívia.
-Eu... Eu tô grávida, Karen- diz à amiga, que ri.
-Vê só... Hoje é dia quatro. O primeiro de abril já passou, amiga. Conta outra... – nota que Lívia está falando seriamente- Não, você não ia brincar com isso... Como é que foi isso? A Dona Helô já sabe?
-Só você.
-Nem o pai do bebê tá sabendo? Aliás, quem é? Eu devo conhecer, não é possível... Vem cá, por que você veio contar logo pra mim que tá grávida?
-O Danilo... Abusou de mim na festa.

03/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 3: UMA ILHA?

Chegou a sexta-feira. Toni está no computador, de maneira silenciosa, procurando as músicas que farão parte da próxima festa da igreja da qual ele faz parte. Juliano, que dorme no mesmo quarto, acorda e observa o irmão, que se vira para o caçula ao notá-lo.
-Era contigo mesmo que eu queria falar. Mas eu cheguei e você tava dormindo.
-Cansado. Cansado demais, ontem a gente ficou no serviço até umas dez horas.
-Queria te entregar uma coisa- pega um envelope que está junto da impressora e entrega ao irmão- O pastor adiantou uma parte do dinheiro da Teen Gospel.
-Tá me dando isso por quê?
-Pra você comprar apostila e voltar a estudar, pagar um cursinho... Não sei, você vai saber o que fazer com a grana.
-Fica com o dinheiro, Toni. Eu não quero.
-Eu não tô te dando porque você quer receber. Te dei pra você usar mesmo.
-A gente já bateu um papo sobre isso. Não quero. Não posso.
-Juliano... Eu vou falar com Mainha. Ela vem falar com você, e vai botar o dinheiro na sua mão. Se ela inventar de falar com painho, ele vai fazer a mesma coisa. Você tem que estudar, subir na vida. Tô dizendo isso também porque é isso que você quer.
-Não adianta. Eu subo, e as pessoas continuam sem ver meus olhos. Sem querer olhar pra minha cara.
-Os outros... Não interessam. Você pode, e eu confio em você.
-Toni... Guarda esse dinheiro. Eu não quero, e é do seu trabalho.
-Depois, eu consigo mais. Deus me manda mais. Pô, Juliano... Parasse os estudos, não voltasse mais pra escola, tem dia que tu fica mais tempo dentro da construção que Painho...
-Eu não levanto a cabeça e não vejo o jeito que os outros olham pra mim. Mas alguma coisa... Me diz que ninguém gosta de mim. Que todo mundo me acha esquisito.
-Ei! Eu sou sua família. A sua família te ama! Não é pra se importar com os outros, nem com a gente. Faz por você, cara. Eu sei que você pode.
-Toni, eu vou... Eu vou... Vou tomar café, Painho tá me esperando- Juliano, ainda com a roupa de dormir, deixa Toni sozinho no quarto.

/////

Rafael e Patrícia, pais de Danilo, tomam café da manhã juntos. O médico, após alguns minutos, nota a ausência do único filho.
-E ele? Não vai descer?
-Danilo foi a uma festa com a Karen. Mas parece que discutiram e...
-Ele exagerou na bebida.
-Não sei. Não vi quando ele chegou- Patrícia disfarça- Passei no quarto, e ele estava dormindo. Jogado na cama.
-Bom, pelo menos sabemos que dessa vez ele não foi parado por uma blitz da Lei Seca.
-Eu não entendi esse seu comentário, Rafael.
-Não quis entender.
-Olha, meu amor, tá muito cedo pra gente falar sobre a educação de um filho maior de idade, vacinado e que sabe muito bem o que fazer da própria vida.
-Então, você adotou um garoto de nove anos e não me contou nada. Porque “saber o que fazer” não é característica do Danilo. Ele vive enrolando Karen, trai ela com várias mulheres...
-Isso não é verdade...
-É, sim, patrícia. Eu vejo, eu não sou cego, eu não tampo o sol com a peneira, nem passo a mão na cabeça dele, como você faz. Vai ver que é por isso que ele age assim. Você dá carta branca pra ele agir do jeito que quiser, sem se importar com as consequências.
-Olha, o que você quer que ele faça? Que passe a vida toda procurando maneiras de te agradar?
-Não. Só não precisa ser tão promíscuo, tão inconsequente, sempre achando que está acima do bem e do mal.
-Ao contrário, Rafael. Acima do bem e do mal está você, com esses valores ultrapassados, de que um homem pode passar toda uma vida gostando de uma única mulher.
-E pode! Ou você acha que eu tenho outra?
-Viu só? Você se coloca como um pilar de boa conduta! Adora fazer isso!
-Patrícia, eu estou muito longe de ser um homem perfeito. Mas ter caráter é obrigação. De todo mundo. E enquanto Danilo achar que é mais importante que os outros porque tem quem o banque, ele não vai ser homem- levanta-se da mesa, usando o guardanapo- Se precisar de mim, pode me ligar lá na policlínica. Chego à noite.
-Já posso recolher a mesa, senhora?- pergunta Aurélia, a empregada da casa.
-Pode quando eu sair daqui, Aurélia. Agora, me deixa sozinha.
-Desculpe, senhora. Com licença.

/////

Ao sair da faculdade, Lívia recebe um telefonema. Fica com receio de atender, mas cede ao chamado.
-Fala, Karen.
-Nossa, eu já ia chamar a polícia.
-Polícia... Pra quê?
-Quatro chamadas e você não me atendeu? O que foi que houve?
-Tava no silencioso.
-Tá tudo bem.
-Tá. Quer dizer... Tá tudo péssimo!
-Problema com a matrícula?
-É, tive que vir pra faculdade, pra resolver.
-Mas é só isso mesmo?
-Muita cara de pau a sua me ligar, depois de ter me deixado sozinha ontem!
-É porque você não viu o que aconteceu depois. Danilo veio atrás de mim, me falou umas coisas que...
-Karen, desculpa, mas eu não quero saber. Já falei muito disso com você, e não quer me ouvir. Não vai demorar uma semana, e você vai atrás dele de novo.
-Eu?
-Ah, Karen, eu tô cansada, esgotada, não tô me sentindo bem... Depois a gente se fala, tá? Eu vou desligar, que eu tô na parada e o ônibus já vem.
-Mas me conta: você não ficou na festa até o final?
-Karen, depois! Depois, tá? Tchau!- desliga o celular, bastante nervosa.

/////

Já são duas horas da tarde. Heloísa está varrendo a casa, quando Lívia chega.
-Ué, não foi trabalhar hoje.
-A patroa me deu folga, minha filha. E você? O que houve?
-Vim da faculdade, não tava conseguindo fazer a matrícula pelo computador.
-A gente não se falou da manhã, eu saí cedo pra trabalhar. Mas a demora mesmo foi do trânsito...
-O que foi?
-Passei no seu quarto pra te dar um beijo antes de sair. Encontrei a porta trancada.
-Foi. Tranquei assim que voltei pra casa.
-Quando você fecha a porta, é porque alguma coisa ruim aconteceu.
-Não foi nada, não, Mainha.
-Lívia, eu voltei pra casa de dez horas. Tu ficou esse tempo todo resolvendo o problema da matrícula.
-Não, eu fui dar uma volta. Fiquei conversando com o pessoal da faculdade.
-Só isso?
-Como assim “só isso”?

-Minha filha, você chegou da festa sem fazer barulho, ficou isolada no quarto, passou muito tempo sem dar notícia... Quer me dizer alguma coisa?

02/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 2: NÃO SEI AONDE IR

-Tá ficando doida? O sinal tá fechado! Não tá vendo, não?- grita Toni, chamando atenção dos transeuntes.
-E você não viu meu carro, não? Hein? Sai da frente, que eu quero passar!
-Vê se da próxima vez, não compra a carteira de motorista, viu?
-Ah, vai à...
-Karen, por favor! Vamos sair daqui logo?
-Tá bem. Não vou dar trela pra esse daí, não!- acelera o carro.
Iolanda liga para o celular do filho mais velho.
-Toni, meu filho, você já tá perto de chegar?
-Daqui a uns quinze minutos.
-O que foi que houve? Tua voz tá tão... Aconteceu alguma coisa?
-Um livramento, mãe. Quando eu chegar em casa, a gente conversa. Beijo.
No carro, Lívia continua ainda irritada.
-Você quer fazer o favor de abaixar essa velocidade antes de bater no poste que tiver mais perto?
-Lívia, a gente tá atrasada, eu não sei se você percebeu...
-Eu só sei que eu vou saltar desse carro, pegar um táxi e chegar à festa sozinha. Quase matasse aquele cara!
-Você tá defendendo ele? Um cara que você nunca viu na vida?
-Vi, sim. É meu vizinho.
-Conhece ele?
-Sabe aquele menino esquisito, que tava chegando quando a gente saiu?
-Sim, o que é que tem ele?
-É irmão desse cara, de agora. Que você jogou o carro em cima.
-Também não é pra tanto.
-Karen, eu te avisei que era pra você prestar atenção na direção, e deixar o Danilo pra depois.
-Sabe que eu acho curioso?
-O que tem de tão curioso nele ser irmão daquele menino?
-Você, que é metida a certinha, ou melhor dizendo, politicamente correta, e ainda por cima estudante de jornalismo, chamar o próprio vizinho autista de “esquisito”.
-São evidências, né, Karen? Querendo ou não, ele é esquisito. Deus me livre de ter um filho assim.
-Do jeito que você é exigente, o mais difícil vai ser você arrumar um pai pro seu filho.
-Tudo bem... Agora, será que dá pra botar, só um pouquinho, o pé no freio?

/////

Com uma leve dor de cabeça, Heloísa segue um pouco sonolenta, mas vai até a cozinha e enche um copo com água. Em seguida, volta para a sala, abre a porta da estante, onde encontra um anti-inflamatório. Bebe-o, deixando o copo sobre uma mesa e vai para o apertado quarto onde costuma dormir.
Desocupa a cama e, antes de forrá-la, sente que algo está para acontecer.
-Que minha filha chegue em casa. Tudo na paz, como sempre- fala sozinha, com medo de seus próprios receios.

/////

Assim que Karen estaciona o carro, ela e Lívia entram na casa de Isabela. Entregam a senha aos seguranças, e cumprimentam algumas pessoas. Um garçom oferece bebida às moças.
-Com licença. Aceitam?
-Não, obrigada- responde Lívia.
-Me dá aqui- Karen pega um copo e dá para a amiga segurar, enquanto toma outro- Obrigada.
-Karen, eu disse que não ia beber.
-Não é pra você. É pra quando acabar o meu copo.
-Você quer parar com isso? Parece que tá descontrolada.
-Viu só? Nós entramos, falamos com um monte de gente, perguntamos da Isabela, e nada! Nada de saberem onde ela se enfiou. Pelo tanto que a gente se atrasou, era pro Danilo estar aqui também, não é?
-Ah, não... Você não tá achando que...
-Eu? Não! Por enquanto, não!- bebe o copo e o põe na bandeja de outro garçom, que passa próximo a ela- Se eu não tô vendo nada, não tenho como acusar ninguém. Mas isso não impede de continuar procurando Danilo, procurando Isabela... Quem sabe eu não encontro os dois juntos?
-Pelo amor de Deus, já basta o susto de você quase ter atropelado aquele menino quando tava falando com Danilo pelo celular...
-Tava tentando, minha querida! Tentando! Naquela hora, pelo menos, o celular dele tava ligado- toma das mãos de Lívia o copo- Agora, ele não me atende. Certeza que esse “sumiço coletivo” não pode ser por acaso!
-Para de beber desse jeito! Pra que você fez Isabela me dar um convite? Pra eu ser testemunha do seu escândalo?
-E você, para de me dar bronca! Se eu tiver fazendo vergonha, você se afasta, dança com alguém, descola uma carona pra voltar pra casa, que seja!
-Obrigado, Karen. A noite mal começou e você já conseguiu torná-la insuportável!
-Vai ficar pior se tiver acontecendo o que eu tô pensando. E você vem comigo-puxa-lhe pelo braço.
-Você tá me levando pra onde, doida?
-Pro quarto, seria muito óbvio. No jardim, seria mancada demais. O banheiro daqui deve estar lotado. Onde você acha que eles estão?
-Karen, para! Já tá passando dos limites essa sua cena ridícula! Para de bancar a idiota por causa de Danilo! Se você não confia nele, vamos embora daqui!
-Nem morta! Não até encontrar aquele cafajeste! Se você tivesse visto o jeito que ele olhou pra Isabela, aquela...
-Chega disso, Karen! Vamos embora daqui, tá todo mundo te olhando.
-O que me importa? A despensa...
-Despensa?
-Claro, ninguém vai atrapalhar eles lá. Os garçons vão servir as bebidas, ela bem deu ordens de ninguém comentar nada...
-Não, você não tá pensando em...
-Quer apostar que não, Lívia?- corre até a despensa, quase sendo impedida pela amiga, até que encontra Danilo e Isabela num canto, aos beijos, distantes dos garçons que arrumam mais bandejas.
-Danilo!- Isabela abre os olhos e se assusta com as moças olhando.
-Karen? Eu posso explicar... – tenta se justificar, bastante embriagado.
-Canalha! Eu sabia que você tava se esfregando nessa daí, nessa vagabunda!
-Peraí, vê lá como você fala comigo, mosca morta! Você tá na minha casa, não é naquele seu apartamentinho, não! Agora, se você não é mulher suficiente pra segurar seu namorado... – Isabela é surpreendida quando Karen joga a bebida em seu rosto, molhando também o vestido que ela usa- Você endoidou de vez? Estragou a minha roupa, sua retardada!
-Sorte a sua de eu não estragar sua cara, vagabunda! Agora vai curtir sua festa, vai! Lá fora tá cheio de homem esperando a atração principal: mulher fácil, sem vergonha!
-Escuta, Karen... Vamos conversar, sem escândalo...
-Sem escândalo, Danilo. Mas conversa com você... Nenhuma! Vamos, Lívia.
-Não, meu amor! Não me deixa aqui, fala comigo!
-Cala essa boca, desgraçado!- Karen empurra Danilo contra um balcão.
-Karen, me espera! Karen!
Lívia fica na despensa, olhando pra Isabela.
-O que é? Nunca me viu, não?
-Desmoralizada desse jeito, não.
-Você se acha por ser amiga de uma menina rica, cheia de condições, pensando que vai subir na vida se apoiando na amiga milionária, não é?
-Eu não faço amizade por interesse. Mesmo porque não me interessaria ficar próxima de gente sem caráter feito você.
-Como se você achasse que a Karen tem algum.
-O que você quer dizer? Tá insinuando o quê?
-Não vai demorar nada pra Karen também achar que você tá de olho no namorado dela!
-Só que eu não corro o risco de ser pega aos beijos com ele. Quanto a isso, você pode ficar sossegada.
-Acho melhor você ir atrás da sua amiguinha, aquela louca.
-Tem razão. Aproveita a festa, Isabela. Se conseguir!
-Some daqui! Você e aquela idiota vão me pagar! Some daqui!
-Com gosto, Isabela. Dá licença.

/////

Karen já está na rua, indo em direção ao seu carro. Cambaleante, Danilo segue a namorada, na tentativa de se explicar. Ele a alcança, segurando-a pelos braços.
-Você vai me escutar!
-Não bastasse sua cara de pau de vir atrás de mim, eu ainda tenho que aguentar esse bafo imundo de bebida?
-Escuta! Você não me deu escolha!
-Não seja por isso, Danilo! Você volta pra lá e se esfrega com a primeira vagabunda que encontrar! Aliás, você tava de olho nela há muito tempo, que eu vi!
-Para com isso! É com você que eu tô, a gente namora, sempre se deu bem! E você conhece meu jeito, sabe que eu não consigo me controlar! Eu sou homem, Karen!
-Você é um sem-vergonha! Nunca mais chega perto de mim!
-Como você se dá importância, não é?
-Não fala desse jeito comigo!
-Sempre se acha a mais bonita... Como se eu nunca fosse olhar pra ninguém, achar outra menina... Ninguém é insubstituível. Você, principalmente!
-É bom você se lembrar de cada palavra que tá me dizendo... Porque eu vou fazer você se arrepender de tudo isso!
-Por que é que a gente tem que ser fiel, hein? Eu gosto de você... Só não preciso ser fiel o tempo todo. Volta pra festa comigo, pede desculpa pelo escândalo...
-Me solta, Danilo!
-Deixa de ser trouxa e aceita que eu durmo com quem eu quiser, à hora que eu quiser... E que você não é mulher pra me mudar!
-Cala a boca! Você é muito diferente do seu pai mesmo... Ele, sim, tem dignidade, vergonha! O Dr. Rafael, sim, é um homem! Não um moleque feito você! E eu só quero ver o que ele vai dizer quando eu contar o que você fez comigo hoje! Ele te põe pra fora de casa, isso se não fizer você reatar comigo!
-Se eu quiser! Ele não manda em mim!
-Vamos ver se não! Mas eu te digo uma coisa, Danilo: eu vou acabar com você! E sobre eu ter acabado com a festa daquela imbecil, é só o começo! Bem que me disseram que você não vale nada... Sai da minha frente!- a jovem conduz o veículo, esquecendo-se de Lívia, que corre para voltar a sua casa com ela.
-Karen! Volta aqui! Pra onde é que você vai? Karen!
-Feliz? Você conseguiu, Lívia!
-Do que você tá falando?
-Tanto fez a cabeça dela que ela terminou comigo.
-O que ela viu lá dentro foi suficiente!
-Não. Você ficou em cima, dizendo pra ela não continuar comigo! Pensa que eu não sei?
-Você não sabe o que tá dizendo! Mal se aguenta em pé!
-Sei, sim! E sei também por que fez isso. Gosta de mim! Pensa que eu não reparei você me olhando, sempre que ela não tava por perto?
-Nem que você fosse o último homem do mundo! Aliás, eu sinto muito, mas pela Karen, por gostar de um babaca feito você!
-Aproveita a chance, Lívia!- aproxima-se da estudante- Só tem a gente aqui. A rua tá deserta, a festa tá rolando do outro lado... Ninguém vai saber do que houve com a gente.
-Pra começar, sai de perto de mim.
-Por quê? Você não gosta?
-Danilo, você tá me apertando, sai de perto de mim agora!
-Não vou parar! Você acabou com o meu namoro porque sempre me quis! Mas hoje você vai saber o que é ter um homem de verdade!
-Me larga! Você tá ficando... – o rapaz a joga contra a porta do seu próprio carro- O que é isso?  Me solta!
-O que é? Vai negar que quer agora?
-O que você tá fazendo, seu estúpido? Me solta! Socorro!
-Ninguém vai te ouvir, sua idiota!
-Socorro! Alguém me ajuda!- Lívia é surpreendida quando Danilo a agride, deixando-lhe quase inconsciente, e a levando para dentro de seu carro. O rapaz não fecha a porta, e coloca sua mão sobre a boca desta, ao passo que levanta parte de seu vestido. A estudante tenta se defender o quanto pode, mas é impedida pela força do namorado da amiga, que a deixou para trás.
São onze e quinze da noite, e a rua contém a maior quantidade de carros estacionados pelos convidados da festa. O som aumenta novamente quando Isabela, disposta a continuar a comemoração, põe uma nova roupa. Os gritos de pavor dados por Lívia são abafados pela música, que vem da rua de trás, onde fica a mansão da moça.

Em frente ao automóvel de Danilo, um edifício chamado Moreira Coutinho, dedicado ao ramo empresarial. Em sua entrada, uma discreta câmera...

01/04/2015

LEVE-ME DAQUI/ CAPÍTULO 1: BREVE

Era o sexto vestido que Karen provava. A cada tentativa, a amiga Lívia ficava confiante, mas sempre se esquecia do quanto sua melhor amiga era vaidosa (e exigente). Abriu rapidamente a cortina do provador e chegou a fazer uma pose.
-E aí?
-Gente, tá muito lindo! Mas você tem corpo de modelo, qualquer coisa fica bem, né, Karen?
-Sério mesmo?
-Sério. Disse isso, inclusive, pra todos os cinco vestidos anteriores. Como eu escolhi o primeiro que vi, acho que já vou sair da loja pronta, pra não correr o risco de perder a festa.
-Não precisa exagerar, né, Lívia? Tenho que arrasar hoje. Quero que Danilo me veja e se morda de ciúmes.
-Não era mais fácil você fazer as pazes com ele?
-Tão fácil assim não tem graça. Eu quero que ele experimente, pelo menos por um tempo, a sensação de que pode me perder. Assim, ele não olha pra nenhuma outra.
-Karen, você tem certeza de que não entendeu errado? Danilo é doido por você, só existe você na vida dele. Não encana.
-Ele é homem, querida. Você já viu homem ser de uma mulher só? Se você me apontar um, é porque ele sabe disfarçar muito bem. Quando a gente foi à balada, ele não tirava os olhos de Isabela. Vamos ver se ele vai se empolgar tanto com ela hoje.
-Não sei se você tá lembrada, mas hoje a festa é na casa dela. Vai fazer um escândalo por causa de Danilo?
-Imagina, não vou fazer nada. Mas isso não impede que eu provoque meu namorado em doses homeopáticas.
-Sabe, eu nunca pensei que você fosse ficar assim por causa de um homem...
-Nem eu, sabia? Mas eu faço qualquer coisa pra não deixar Danilo ficar com outra. Ele é só meu.
-Tudo bem, não tá mais aqui quem falou. Diz que vai levar esse, por favor!
-É... É bonito... Vou levar, mas não sem antes ir atrás dos brincos que vão combinar com ele.
-Ah, não, para de palhaçada! Leva esse vestido, e eu te empresto algum brinco meu, Karen!
-Imagina se eu vou usar aquela bijuteria tua. Não, senhora! Pode me esperar que eu vou comprar um. E fica quieta, que eu vou te levar pra casa de Isabela. Sossega, menina! A gente não vai se atrasar.

/////

Arrumando-se, já em casa, Lívia termina de dar os últimos retoques em seu visual. A mãe, Heloísa, entra em seu quarto.
-Outra noitada?
-Não precisa ficar nervosa, eu não vou demorar.
-O que vai ser dessa vez?
-Aniversário de Isabela.
-Sei, não... Karen pode até se acostumar com essa vida de farra, mas você...
-Qual o problema? A faculdade tá em recesso, e eu não vou ficar a noite toda fora.
-Você sabe que eu fico preocupada do mesmo jeito, minha filha. Sem contar que do jeito que a coisa vai, Karen não anda nada bem.
-Como assim, Mãe?
-Esse ciúme que ela sente do namorado... Vai acabar sobrando pra você.
-Imagina, o que tem uma coisa a ver com a outra?
-Se ela encasqueta com a ideia de que você tá dando em cima do namorado dela, de repente?
-Mãe, não viaja. Nunca que eu ia olhar pro namorado de uma amiga minha.
-Karen anda desconfiada de tudo e de todas.
-Só que a gente é amiga desde o começo da faculdade, antes de ela conhecer Danilo. E eu só falo com ele por causa dela. Também acho que ela exagera nesse ciúme todo. Inclusive, ela falou que vai causar na festa de hoje, só pra provocar ele.
-Toma cuidado, Lívia. Se você achar que ela pode, sei lá, passar dos limites com essa ideia de querer pegar Danilo com outra...
-Mãe, fica tranquila. Eu nunca olhei pra Danilo com outra intenção.
-Não estou tô que você olha. Quero que você não se torne responsável pelo que ela pode pensar.
-Já te disse pra ficar tranquila.
-O amor pode cegar uma mulher, minha filha.
-Mãe, chega desse assunto, tá? Karen sabe muito bem quem eu sou pra dar em cima do namorado dela.
Ouve-se a buzina do carro de Karen, que está à porta da casa de Heloísa.
-Ela chegou.
-Bom, então deixa eu ir logo, que a gente já deve tá muito atrasada.
-Você vem com ela?
-Venho, sim. Pode dormir, viu? A bênção.
-Que Deus acompanhe você- Heloísa leva a filha ao portão da casa, e acena para Karen.
Em frente à residência de Lívia, está o lar da família Figueira. Iolanda, a dona da casa, está à espera do marido e dos filhos. Um deles, Juliano (o mais novo), vem acompanhado do pai. Este, por sua vez, fala de longe ao ver Lívia dentro do carro:
-Boa noite.
Lívia vê pelo retrovisor o rosto do adolescente, e decide ignorá-lo, como também ao pai deste. Karen também não diz nada, reparando ainda na roupa suja que os dois vestem. Heloísa retribui ao “boa noite” dito por Cícero e entra em casa assim que o carro sai daquela rua.

/////

As amigas tem um rápido diálogo no carro.
-Por que você demorou tanto?
-O lado ruim de você ter uma coleção interminável de sapatos é que você pode demorar horas pra achar um par que caia bem com seu vestido novo.
-Já tava achando que você não vinha mais, que o Danilo tinha desistido da festa.
-Falando nele, pega meu celular dentro da bolsa, por favor.
-Você vai dirigir e falar no celular?
-Lívia, a gente não tá na Avenida Caxangá, não, por favor! Só pra sair desse fim de mundo, a gente demora cinco minutos. E eu tô indo devagar, pega o celular pra mim.
Assim que Lívia lhe entrega o aparelho, Karen faz uma ligação para Danilo.
-Onde é que você tá?
-Fui buscar Lívia na casa dela.
-É o quê? A ligação tá cortando.
-Danilo, tá me escutando?
-Karen, quer olhar pra frente, por favor?
-Peraí, Lívia, tô tentando escutar Danilo aqui.
Acende o sinal amarelo, e Karen só consegue escutar ruídos pelo telefone. Lívia olha para a amiga e não presta atenção no semáforo.
-Karen, onde é que você tá? Tá conseguindo me ouvir?
Quando o sinal fecha, Toni vem pela calçada. Ele aproveita a oportunidade e corre para atravessar a rua. Karen ultrapassa a faixa. É exatamente neste momento que Lívia grita:
-Para o carro!

Toni toma um susto ao perceber o veículo encostado à sua perna, assim que Karen freia o carro.

22/03/2015

TRAVAR O SIG@ ("CARA DE RICA", DA ERIKKA RODRIGUES)

Quando vou à faculdade,
Há gente reclamando
Mesmo média sendo 7,
Ninguém tá acessando
Sendo procurada
A professora, vejo
Que a data-limite
Já expirou... Que medo!

É ruim pra estudante

Ir após a prova
Faz travar o Sig@
Ao tentar ver a nota
Final já tá em cima:
Semestre Federal
Começa a induzir!
Troca senha, afinal!
 

Faz travar o Sig@!
(Faz) Travar o Sig@
Semestre terminando,

Nada sei da disciplina
Faz travar o Sig@!
Faz travar o Sig@!

Nem mesmo prova me garante que eu consiga!

Login realizado,
Vai verificando
Se tá com média 6,
Seguirá argumentando
Que nota é pequenina
Pra UFPE
Pior que travar o Sig@,
Tu sabes que não é!

13/02/2015

NAS FINAIS ("DÓI DEMAIS", DO SÓ PRA CONTRARIAR)

Vá relendo, sim,
Vá relendo, enfim,
Dica que deu professor ao ensinar
Chame-o pra ser seu arguidor
Recomendo pra ter ponto, mas
Não estuda; logo, te deixou
Nas finais
Vá relendo, sim,
Vá relendo, enfim,
Dica que deu professor ao ensinar
Mas você nem quer ter professor
Eu aposto que seu Sig@ traz
Nota baixa; por isso, ficou
Nas finais

Como refazer

Exercício? Vê
Que vai reprovar a nós dois,
Pois sem estudar,
Vou matricular
Nesse mesmo ano depois
Sigo sem saber
O que cai, porque...
Anotava? Nunca pra mim!
Seja como for,
Sei que o professor
Nunca quis dar nota ruim

Vem, que eu não aguento mais o TCC sozinho
Bem sei que nunca filo, quero aprovação
Vem nesse momento e traz de volta o gabarito,
Meu bem, porque eu preciso da pontuação