16/10/2015

INTEGRIDADE/ CAPÍTULO 2


-Gabriel, como é que seu pai está?- indaga Otávio.
-O IML já foi chamado... Não tive nem tempo pra... - Henrique é silenciado com um abraço de Ariela.
-Pode deixar. Deixa que eu entro e tomo conta da situação. Fica aqui com sua noiva. Eu sinto muito...
-Obrigado, Otávio. Ainda bem que você chegou, porque não sei como é que eu ia resolver tudo.
-Não se preocupe. Eu só peço que fique aqui, pra saber de alguma informação nova.
-Tudo bem, eu espero- Otávio tenta entrar no presídio, e ele explica a situação por telefone ao diretor do presídio, afastado dos repórteres de outros veículos- Eu não consegui fazer nada por ele, Ariela. Quando eu entrei, só encontrei o corpo.
-Eu sei como essa situação é difícil pra você, Rique. Já passei por isso.
-Eu só queria que alguém me dissesse que isso é um pesadelo. Que não aconteceu justamente hoje, que isso nunca aconteceu... Desculpa te deixar esperando na igreja, me perdoa!
-O que é isso, Rique? Você fez o que eu teria feito também. Não precisa se justificar, o seu pai era o mais importante, sim. Mas não vamos falar disso agora. Agora, a gente tem que esperar o Otávio cuidar dessa questão da liberação do corpo...
-Se não fosse você aqui do meu lado... Cada vez eu amo mais você.
-Só sei retribuir esse amor. Porque sei que você nunca vai me machucar. E eu vou ficar com você. Pra sempre- mais uma vê, os dois se abraçam e Henrique se deixa ser amparado pela noiva, numa cena que chama a atenção de alguns jornalistas que ali estavam, à espera de informações sobre a rebelião e o estado de saúde do empresário.


Fred está do lado de fora da sala de Amparo, ouvindo uma discussão entre Lavínia e Felipe. Logicamente, todos os alunos do 3º A, sem aula, estão lá para escutar todos os detalhes.
-Chega!- Amparo grita em meio à balbúrdia instalada- Vamos conversar, e com calma! Felipe, quer me explicar o que houve?
-Felipe? Ele vai contar do jeito dele, é um hipócrita!
-Tá vendo? Nem me deixa falar, Amparo!
-Eu disse Felipe, Lavínia!
-Precisa explicar? Ela deu um tapa na minha cara! Se fosse eu, a senhora já tinha mandado chamar o pessoal da minha casa pra tirar satisfação, me colocado pra fora do colégio, chamado a polícia!
-Modere seu tom, Felipe!
-Agora pergunta a ele por que eu bati nele. Pergunta, Amparo.
-Deixa que eu digo: porque ela me pegou beijando Rayane do lado de fora da sala. Me diga mesmo se isso é motivo!
-Claro que não! O motivo é você me desrespeitar na frente de todo mundo!
-Eu não gosto da sua aula, não queria assistir! Pronto! Vai me obrigar a ver o que eu não quero?
-Você estuda aqui, tem que comparecer, sim.
-Parece que você não entendeu, né, Lavínia? Ninguém manda em mim!
-Logo se vê! Se mandasse, não ia ser tão cínico! Tão cara de pau!
-Já chega, Lavínia!- Amparo novamente impõe o silêncio na sala- Felipe, volta pra sua sala.
-Mas tá sem aula, esqueceu?
-Eu mandei você pra sala, Felipe- o jovem abre a porta e tenta pegar o corredor à esquerda, o que é visto por Amparo- Pra sala, eu falei!- ao bradar, a diretora consegue fazê-lo obedecer, diante dos olhares assustados dos alunos e de Fred. Ela levanta e fecha a porta. O telefone toca- Alô? Sim, é ela mesma. Como é? É que eu estou numa reunião, não estou sabendo de nada disso. Certo... – olha para Lavínia completamente irritada- Eu vou averiguar aqui, o computador está ligado. Obrigada, até logo.
-O que houve?
-Você vai descobrir já, já- Amparo faz o login em uma rede social e encontra diversos comentários em uma publicação na qual foi marcada- Olha aí. Compartilhado diretamente do Instagram- vira o monitor para a professora. Dá play, Lavínia.
A professora atende ao pedido e começa a ver o vídeo de quinze segundos. As imagens divulgadas apenas mostram a briga entre ela e Felipe a partir do momento em que ela o agride com a bofetada.
-Quem colocou isso na internet?
-Um dos alunos. Mas pode ter sido o mundo, não é? Deu pra ver que mais da metade da sala estava com celular na mão, filmando toda essa cachorrada em que você se meteu!
-Eu me meti? Você está de que lado, Amparo? Do meu ou de Felipe?
-Do lado da justiça!
-Ótimo. Então, eu continuo sem entender por que você dispensou ele e faz esse inquérito só comigo!
-Lavínia, você já se cansou de saber que aluno, por pior que seja, sempre tem razão.
-Discordo!
-O que adianta discordar? Você meteu os pés pelas mãos, agrediu um aluno em plena sala de aula!
-Queria que eu fizesse o quê, Amparo? Ficasse calada? Pra ele se sentir na liberdade de me agredir de novo? Sim, porque se ele bate na minha bunda sem que eu peça, já é agressão! Quer você queira, quer não!
-A questão, Lavínia, é que ele é mero aluno, como tantos outros aqui! A gente pode punir Felipe com uma suspensão, uma advertência, até mesmo expulsando ele daqui da escola. O lado mais fraco da corda é você. Você é quem tem de dar o exemplo.
-Mas não calada! Não quieta! Ele não me desrespeitou apenas fisicamente, me expôs ao ridículo também, Amparo! E por muito menos que isso, quantos colegas pediram transferência, ficaram com medo, apresentaram quadro de depressão? Quantos?
-Lavínia, eu entendo perfeitamente o que você passa no momento, com seu marido...
-Ah, Amparo, me poupe! Minha relação com Caíque nada interfere no meu trabalho. Se eu desabafo, é com você, por ser minha amiga! Nunca dei o direito de aluno nenhum se meter na minha vida.
-Só que agora, você se complicou por causa de um. Olha aqui... Sabia que a redação de um jornal acabou de mandar uma mensagem pelo WhatsApp, querendo que eu explique o que houve? Está bem claro o seu descontrole. Infelizmente, eu me vejo obrigada a tomar uma decisão.
-O que quer fazer?
-Vou ter que te afastar da escola por um tempo. Pelo menos até a poeira abaixar.
-E quanto ao Felipe? Vai sofrer punição também?
-Não sei, não sei o que faço com ele.
-Não interessa! Faça! Ele não era assim. Também não era bom aluno, mas agora passa dos limites o tempo todo. E por que você não disse nada a ele quando ele esteve aqui? Ao menos pra dizer que ele seria punido?
-Porque ele não é professor! Porque mesmo sendo um cínico, um cara de pau como você diz, um dos piores alunos da turma, ele sabe que vai passar no fim do ano! Acorda, Lavínia! Felipe não é só mais um dado em meio a tantas estatísticas! Ele é a estatística! Tem que fazer parte da lista dos alunos aprovados! Tem que nos ajudar a melhorar no meio dessa infinidade de escola pública! Tem que aumentar os índices de aprovação! Sabe o intercâmbio, onde só os melhores alunos são selecionados? Felipe não vai ser chamado nunca, nem em sonho! Mas, querendo ou não, ele é aluno de uma escola de referência, e vai ter de se comportar como tal. Aliás, pra mim ele não é aluno; pra mim, não passa de mero produto de gestão. Assim como os outros professores e você: produtos de gestão- fala pausadamente, para depois dar uma pausa e retomar mais calmamente- Assim que eu perceber que as coisas se acalmaram mais, eu prometo que devolvo as tuas turmas. Mas vamos evitar um novo escândalo... Até abafar o de hoje.


O apartamento está num incenso medonho! Pensou que entramos num núcleo zen, como o do clipe da Anitta? Errado: era o apartamento da Lavínia, que em nada combina com o comportamento atual da dona. Zilda, a empregada doméstica, colocou temperos demais para provar às domésticas concorrentes o porquê de não ser demitida até hoje.
Mas a surpresa é o espanto da empregada ao ver a patroa entrar no apartamento.
-A essa hora em casa? O que foi? Greve de novo?
-Mesmo com a situação precária, eu nunca faço greve. Fico pensando em como atrapalha meu calendário todo...
-Por que chegou tão cedo, Dona Lavínia?
-Problemas com alunos.
-Hum, já sei: se estressou e veio pra casa.
-Não, fui posta pra fora! Perdi a cabeça, Zilda. Um rapaz resolveu ser ogro comigo e eu respondi a provocação. Sobrou pra mim. Pra piorar, filmaram a briga que a gente teve.
-Briga? Mas foi da boca pra fora ou cacete mesmo?
-Só não foi pior porque os alunos separaram a gente. Mas era coisa de se atracar mesmo. Amparo achou melhor que eu desse um tempo, pra evitar uma repercussão maior do caso.
-Minha gente... E agora?
-E agora que eu vou ficar sem trabalhar.
-E o bonito do aluno? Ninguém fez nada com ele?
-Não deu tempo. Mas se Amparo tivesse tempo, colocava uma medalha de honra ao mérito no pescoço dele. Não te digo que aluno sempre tem razão?
-Numa escola paga, pode até ser. Mas pública? Se eu fosse a senhora, Dona Lavínia, botava os dois, a diretora e o aluno, na justiça. Tá errado.
-Tá errado, mas é o que vale por enquanto. Enquanto a escola fingir ser esse mar de rosas, ele vai ser mais forte do que eu. Pra você ter uma ideia, só o Xande me defendeu na hora. Lembra que eu falei dele uma vez?
-Falou, sim. O melhor aluno da sala. A senhora até disse que ele tentou o intercâmbio, não foi?
-O resultado da seleção, a gente só vai saber daqui a alguns dias... Zilda, que cheiro é esse?
-O almoço.
-Por que você fez, se eu nem avisei que ia chegar mais cedo?
-Eu que pedi- Caíque chega ao apartamento- Zilda, será que você pode me deixar a sós com Lavínia?
-Sim, senhor. Com licença.
-Você em casa tão cedo? Deve ser feriado... – ironiza- O que foi, que você nunca almoça em casa?
-Meu problema é você, meu amor.
-Como assim? Não entendi.
-Não entendeu? Como é que você explica isso?- exibe o vídeo polêmico pelo celular.
-Ah, você já sabe...
-Daqui a dez minutos, vai virar a manchete principal do jornal do meio-dia.
-Você não veio pra casa somente por isso, veio?
-Lavínia, você tem ideia do que isso significa? Meu nome vai ficar mais exposto do que já está!
-Bom, não é minha culpa de você me aparecer ao lado do prefeito, propondo a extinção do Cais Tomé Israelita, pra construir a filial de uma fábrica de roupas íntimas. Lógico que o povo não ia gostar dessa novidade sem pé nem cabeça.
-Os cracudos, você quer dizer? Porque em todas as visitas que fiz antes de desenhar a estrutura da fábrica, eu só vi drogado ali. E não é tão sem pé nem cabeça quando o seu bolso fica cheio de moedas. Agora, quer que me digam o quê? Que o engenheiro destruidor do meio ambiente é casado com a Ronda Roussey do ensino público brasileiro? Faça-me o favor!
-Você não sabe pelo que eu passei hoje. Um aluno tomou uma liberdade que eu nunca permiti.
-Passe por cima. Ignore os detratores. Não é pior que eu. Já criaram uma página pra mim: "Caíque da Depressão". E os internautas querem que eu me converta ao "Deboísmo", porque com a confusão que você arrumou, somado a minha reputação lá embaixo, só me mandam ficar de boa, de boas... Sei lá.
-Quem sabe isso não é um sinal pra você perceber que o mundo não gira ao seu redor, não é, meu bem?
-Você está fazendo isso errado, minha querida. Muito errado.
-Pois bem, Caíque... Talvez a solução seja cada um ir pro seu lado.
-Ficou louca? Não posso me separar de você, ainda mais agora que...
-Que precisa de uma mulher pra te acompanhar nos eventos sociais, não é? Porque é só pra isso que eu sirvo, segundo a sua concepção de vida.
-Lavínia, você sabe da minha dedicação ao trabalho. Não estou entendendo esse seu recente desconforto com a questão.
-Vem de muito antes. Muito antes de você apontar o dedo na minha cara e me questionar sobre um escândalo. Mesmo porque você não tem uma mancha sequer em seu currículo de engenheiro nato e marido exemplar.
-Aonde você quer chegar com esse festival de ironias?
-Ao ponto: quem é a mulher com a qual você dorme, Caíque?


Permita-se um pequeno salto de horas antes de entender como Caíque se safará da esposa ciumenta. Já é final da tarde, e todos estão indo embora do cemitério, onde foi enterrado o corpo do pai de Henrique. Um dos últimos a sair, Bento abraça o noivo da irmã.
-Precisando de qualquer coisa, liga pra mim, cara.
-Valeu, brother. Obrigado pela força.
-Você vem com a gente, Ariela?
-Não, não. Vou ficar com ele.
-Tudo bem. Eu aviso a Painho- Bento se junta aos poucos que vieram prestar as condolências ao ex-empresário.
-Eu vou te levar ao apartamento.
-Não. Eu prefiro que você descanse.
-Rique, eu não vou te deixar sozinho.
-Mas eu preciso desse tempo pra mim, entende?
-Eu não sei... Tem alguma coisa estranha com você.
-Perdi meu pai, Ariela, o que você queria?
-Não estou falando da morte do Norberto. Aconteceu mais alguma coisa.
-Do que você está falando?
-Você não está só triste. Está distante também.
-É que eu não queria que tivesse acontecido tudo desse jeito, e justamente hoje.
-Rique, eu te conheço. Fala. O que houve?
-Eu acho que a gente não devia pensar em casamento agora.
-É isso? Meu amor, não precisa se preocupar com o que houve. A gente marca outra data e...
-Não. Não foi isso que eu quis dizer.
-E então?
-Ariela, eu acho melhor a gente dar um tempo.

15/10/2015

INTEGRIDADE/ CAPÍTULO 1


Quinta-feira, primeiro de outubro de 2015...

Dez horas da manhã, começando o intervalo de vinte minutos. Lavínia, a professora de Português do Terceiro Ano, se mostrou à disposição do descanso antes dos colegas da escola em que atua. A diretora entra na sala dos docentes.
-Ainda bem que te achei, queria falar com você- percebe o semblante triste de Lavínia- O que houve? Problema com aluno?
-Antes fosse. É o mesmo de sempre.
-Desentendimentos com seu marido?
-Nem isso. Pra ele, já não vale mais a pena brigar.
-Lavínia, eu sei que nós já falamos muito sobre isso, mas eu vou insistir: pra quê empurrar esse casamento com a barriga? Olha pro tempo que vocês estão juntos. É normal que depois de tanto tempo haja uma distância. É natural.
-"Abismo" é o que você quer dizer. Porque Caíque anda tão distante que parece que pegou o Rio Doce/ CDU.
-Então, procure dar um gás a esse casamento.
-Como? O que eu faço?
-Surpreenda o seu marido.
-Bem que eu ando desconfiada.
-Do quê?
-Que ele tenha outra, que esteja saindo com outra mulher. Sabe que eu até pensei em ir atrás dele, pra ter certeza?
-Por acaso você sentiu algum cheiro diferente na roupa? Uma mancha de batom no colarinho?
-Não, mas alguma coisa tem pra ele não querer mais saber de mim.
-Falta de fogo na relação, minha filha. E sabe como você faz pra acender? Com surpresas.
-Não entendi.
-Minha querida, o negócio é o seguinte: você tem que surpreender Caíque. Faça alguma coisa que você nunca fez pra ele.
-Como o quê, Amparo?
-Lembra de Eleonora, a professora de Educação Física que trabalhava aqui até ano passado? Tava com o mesmo problema com o marido, e ela tinha menos tempo de casamento que você. Resolveu como? Aproveitou que o marido não lhe procurava há um tempo e surpreendeu fazendo uma tatuagem. O homem ficou louco e estão juntos até hoje.
-Sim, mas ela desenhou uma seta! Preciso dizer mais alguma coisa?
-Procure algo que vocês dois gostem. Uma letra de música, talvez. Todo casal tem uma música própria, não é possível.
-Quando eu conheci meu marido, eu estava numa danceteria. Esbarrei nele ao som de "Adocica". Quer realmente que eu salve meu casamento tatuando "Adocica"?
-Faça uma tatuagem que desperte curiosidade nele. Olha pra você: toda careta, certinha, parece que foi casar depois de ter saído do convento. Te liberta, mulher!


O último retoque do visual de noivo já é dado por Henrique: põe uma gravata. Vários de seus colegas no jornal- onde ele atua sob o pseudônimo de Gabriel Arenas- estão lhe ajudando e fazendo piadas, como o fato de ele parecer mais nervoso que a noiva.
Do espelho, Henrique avista Otávio Brainer, seu amigo e editor-chefe, entrando no quarto.
-Até que enfim você chegou. O que foi? Teu pneu estourou de novo?
-Ele tava dizendo que sem o patrão, ele não casava- um dos funcionários do jornal faz mais uma piada.
-Tem como vocês nos darem licença? Eu preciso falar uma palavrinha com ele.
-Ih, já vi que é bronca. Podem ir, que eu resolvo com ele.
-Cuidado, que quem atrasa no casamento é a noiva- outro amigo continua no clima agradável, sem perceber o receio de Otávio.
-Fala, Otávio. O que aconteceu?
-Gabriel, eu sei que essa não é a melhor hora pra...
-Pode me chamar de Henrique mesmo, cara. Gabriel é só lá no jornal. Fala logo, que eu não posso me atrasar.
-Eu sei que eu não tenho o direito de dizer isso no dia do teu casamento, mas... Você tem o direito de saber.
-Otávio, tá me assustando. Aconteceu alguma coisa com Ariela?
-Não. É que... Eu estava na redação ainda há pouco quando eu recebi uma ligação da direção do presídio.
-Presídio?
-O que estava seu pai- nesse momento, Henrique sente que o que houve realmente foi grave- Os detentos fizeram uma confusão lá dentro e...
-Meu pai se feriu, foi isso?
-O problema aconteceu justamente por conta dele. Você lembra que ele já andava com uns problemas de saúde, ia muitas vezes pro ambulatório do presídio...
-Otávio, fala!
-Seu pai roubou um frasco de comprimidos do ambulatório. Comprimidos que eram recomendados em caso de problemas com ansiedade. Ingeriu todos, de uma só vez.
-Como meu pai tá agora, Otávio?
-Eu não sei te dizer, mas parece que o estado dele é muito grave. Ainda liguei pra lá, mas não souberam me informar nada.
-Eu vou pra lá!
-Espera, e o casamento?
-Avisa pra Ariela que eu vou até o presídio saber notícia do meu pai. Daqui a pouco, ela deve chegar até a igreja. Vai pra lá e conta tudo que aconteceu.


Um dos principais personagens, o quase ingênuo Frederico Barreto, entra em cena em busca de uma oportunidade. De ganhar dinheiro? Antes fosse. De conseguir um estágio. Remunerado? Vai sonhando. De graça mesmo. Supervisionado? Quem te ilude, ó, leitor (a)?
Enfim, Fred chega à Escola de Referência em Ensino Médio Antonio Nipo e aguarda pela volta de Maria do Amparo à diretoria. Maribel, a coordenadora, avisa:
-Amparo, esse rapaz é da Federal. Quer falar com você sobre um negócio de estágio.
-Ah, sim. Tudo bem- aperta a mão do rapaz- Pode se sentar, fique à vontade.
-Obrigado.
-De que período você é?
-Do sétimo. A gente já tá, inclusive, se adiantando com as coisas da formatura.
-Que bom. E qual é a licenciatura que você faz?
-Em português.
-Ótimo.
-Eu vim saber se algum professor daqui tem disponibilidade pra me aceitar.
-Se você tivesse chegado há uns minutos atrás, eu te apresentava a professora Lavínia. Ela é muito boa. Agora, ela está dando aula só pras turmas de Terceiro Ano.
-E as turmas são boas?
-Não, são as menos piores. O 3º B praticamente não conta, porque como ainda não chegaram os tablets, praticamente não tem alunos. Isso sem contar a própria evasão escolar do ensino médio. Já viu, né?
-E o 3º A?
-É o que tem um rendimento melhorzinho. Lavínia mesmo diz que gosta de trabalhar com eles.
-Amanhã, ela tá aqui na escola? Porque eu passo e falo com ela pessoalmente, pra me apresentar.
-Não seja por isso. A gente vai até a sala dela e se apresenta. Ela não vai se incomodar. É na sala 04. Vem comigo...
-Frederico.
-Pronto. Tenho certeza de que você vai gostar muito da Lavínia. É a melhor professora de português daqui.
A primeira impressão pode ficar. Só digo isso.


Jayme dirige o carro que leva a filha, Ariela, até a igreja que está preparada para celebrar o casamento. Abre a porta do carro.
-Como é que eu tô?
-Linda. Cada vez mais linda, minha filha.
-Finalmente, o dia chegou.
-Ariela- Otávio chega em seu carro- Eu preciso falar com você.
-Mas agora, Otávio?
-Aconteceu alguma coisa?
-O Norberto, o pai de Gabriel...
-Quem?
-Gabriel, Painho. O nome que Rique usa no jornal, o pseudônimo dele. O que foi que houve com Norberto?
-Ele foi internando às pressas. Ingeriu diversos medicamentos de uma só vez no presídio. O que chegou pra mim foi que ele está em estado grave.
-Você veio pra avisar o Rique?
-Não, eu vim pra te avisar. Gabriel já sabe, e é por isso que ele não veio pra igreja.
-Foi pro presídio, então?
-Foi.
-Eu vou pra lá.
-Minha filha, você não pode ir.
-Por que não? O meu noivo precisa de mim.
-Mas você tá vestida de noiva!
-Painho, pra passar em casa, tirar o vestido e ir pro presídio não dá.
-Espera, Ariela, eu vou com você.
-O problema é que eu não sei chegar até lá.
-Eu também estou indo pra lá, Ariela. Vocês podem ir seguindo meu carro.
-Filha, que satisfação eu vou dar aos convidados?
-Diz a verdade: que meu noivo teve um problema e que eu não vou casar agora... Meu Deus, e se o Norberto não aguentar? Rique passando pela agonia que eu passei com a minha mãe... Painho, faz o seguinte: entra na igreja e avisa pro meu irmão e pros outros o que aconteceu. Otávio, tenta ligar pra Rique e pergunta como tá a situação do Norberto.
-Só dá desligado.
-Droga! Pra que ficar com esse telefone no bolso, então?
-Ariela, o seu noivo tá desesperado! Nem deve tá pensando em celular a essa hora!
-É, Ariela, mas ele mesmo pediu pra vir te avisar.
-Sabe de uma coisa? Fala com o padre, Painho. Fala com o padre e avisa aos convidados que não vai ter cerimônia nenhuma.
-Como assim? Como eu vou dizer isso?
-Não sei, mas eu vou pro presídio. Otávio, me leva, por favor.
-Claro, vem comigo.
-Ariela, me espera, por favor!
-Fica tranquilo, e avisa aos convidados- a noiva entra no carro, desesperada. Jayme corre pelas escadas da igreja e chama a atenção dos convidados, que veem Ariela indo embora com Otávio.


Lavínia está empolgadíssima com mais um dia de aula (essa frase foi apenas um teste para saber se você prestou atenção no início, já que ela estava sorumbática com o próprio casamento). Os alunos do 3º A usavam aquele velho recurso dos quinze minutos de tolerância. Como a sala 04 conta com um amplo sistema de ventilação- janelas e portas abertas até que ventiladores ganhem licitação para funcionar- havia muito barulho dos alunos das outras turmas conversando no corredor.
Visivelmente incomodada, Lavínia prosseguia, mesmo tendo que aguentar um papo em alto som entre Felipe e Rayane. Quem são estes? Calma, antes vamos apresentar pra vocês o irmão de Rayane, e que na contramão da moça, é o aluno mais aplicado da sala.
Alexandre também se sente incomodado em ver a garota ao lado de Felipe, principalmente por estar sentado na primeira cadeira, perto da porta (pense num inferno!). Victória, a amiga de Rayane que é tão verdadeira quanto uma moeda de R$ 4,75, vai até a lixeira que está perto da lousa e começa a apontar o lápis com o estilete. Terminado o ato, aproxima-se do aplicado estudante.
-Cadê tua irmã, que não entrou ainda?
-Adivinha?- Xande olha para a porta. Vivi disfarça o descontentamento e volta para a última cadeira da primeira fila.
Como a falta de vocação para Madre Teresa de Calcutá a fez optar pela profissão da docência, Lavínia chegou à porta da sala e se dirigiu aos dois, que haviam trocado a longa e desnecessária conversa por um beijo que empolgou os alunos que assistiam à cena (exceto Xande).
-São dez e trinta e cinco já. Vão entrar ou eu vou ter de mandar os dois pra sala de Amparo?
-Filma isso, que vai ter briga- Bernardo, o irmão de Victória, diz isso para o amigo André, que está ao seu lado.
-Relaxa, professora- pede Felipe, de maneira um tanto quanto marota- A senhora disse que não pode beijar dentro da sala, tô beijando no corredor, ué!
-Pra ver se você estuda, pra ver se você quer alguma coisa com a vida. Mas mesmo proibindo, você quer bater de frente comigo.
-Ô, Lavínia, menos- pede Rayane.
-Isso é jeito de falar com a professora, Rayane? Perdeu o juízo?- Xande intervém a favor da docente.
-Pronto. Chegou o puxa-saco- brada Felipe.
-Vocês vão entrar ou eu vou ter que chamar Amparo pra vir aqui?
-A senhora tá muito estressada, não era assim, não.
-Seu namorado também não me dava tanto trabalho, não é, Rayane?
-Mas me ignorar a senhora não quer, né? Tô começando a achar que a senhora tem algum problema comigo.
-Já você, de um tempo pra cá, passou a ter problema com todo mundo. Estou esperando a resposta: vão entrar ou eu mando os dois pra diretoria?
-Sabe o que eu acho? Na boa? Seu problema deve ser falta de homem em casa.
-Como é que é?
-Um cara pra te dar um trato. Quando a coisa vai mal em casa, professor inventa de descontar no aluno. É ou não é?- a pergunta de Felipe é dirigida ao público discente, cuja maioria concorda.
-O que acontece na minha vida privada é assunto meu. E não me interessa se você e Rayane estão ficando, se estão namorando, se frequentam um motel... Não interessa! O que eu quero é dar a minha aula pra todo mundo, ou pelo menos pra todo mundo que tiver interessado nela! Se vocês não sabem, eu sou paga pra mostrar que vocês têm futuro.
-Muito mal paga.
-Concordo, Felipe. Mas não fico puxando o tapete dos outros por ser frustrada. E se eu for, deixo minha frustração na hora que tranco a porta da minha casa e saio. Sou sua amiga, como sou de todo mundo aqui. Mas não divido meus problemas com quem não tem nada a ver com isso. Só que você está atrapalhando minha aula, então me atinge, sim!
-Vamos, Felipe. Deixa de bate-boca- Rayane tenta convencê-lo a entrar. Xande, vendo que a irmã voltou à razão, acompanha-lhe. Só que todos são surpreendidos quando o problemático estudante dá um tapa numa das nádegas de Lavínia, que voltava à lousa e estava de costas. A atitude leva os alunos ao frisson.
-Mas se quiser alguém pra resolver o problema, pode me chamar.
Enfurecida, Lavínia olha pro rosto do rapaz e não repara a chegada de Fred e Amparo, que notam a tensão existente na sala.
-Já sei como resolver meu problema... – e a professora revida a agressão com uma bofetada no rosto do rapaz, que fica desconcertado- Gostou?
-Filha da mãe!- Felipe parte pra cima da professora, mas esta é afastada por Xande. Rayane tenta segurar o namorado, enquanto Amparo e Fred entram na briga para tentar acalmar os ânimos.
E os alunos, é claro, ficam em polvorosa para ligarem os celulares.


Otávio e Ariela chegam ao presídio, tendo que enfrentar diversos repórteres que estão à espera de informações sobre o estado de saúde de Norberto. A moça, entretanto, consegue passar por eles ao chamar a atenção vestida de noiva. Otávio tenta contê-la, mas não consegue. Os dois se dirigem a um dos guardas.
-Por favor, eu preciso de uma informação...
-É sobre o detento Norberto Soares Nunes? Eu já disse pra todo mundo aqui que a diretoria do presídio não me autorizou a divulgar informações sobre o estado de saúde dele...
-Moço, o meu noivo tá aí dentro, e a gente não sabe notícia nenhuma!
-Calma, Ariela! Eu vou ligar pro diretor do presídio. Eu sou editor-chefe do jornal, alguma coisa ele vai ter que me dizer...
Henrique sai do presídio e dá de cara com a noiva.
-Como é que tá seu pai, Rique?
-Fala alguma coisa. O Norberto tá bem?
-Meu amor... O que foi que aconteceu?