09/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 7: BETO

-Não era pra você me ver desse jeito...
-O que foi isso, Tia Fátima?- a pergunta de Luiza faz com que Fátima apanhe a toalha e corra para o quarto- Espera, Tia! Tia!
-Me deixa, eu quero ficar sozinha- Fátima senta na cama.
-Desculpa... Perdão, eu não devia ter falado desse jeito.
Após uma longa pausa, e ainda sendo observada pela sobrinha, Fátima responde.
-Tudo bem. Qualquer um teria a mesma reação que você.
-É que... A gente nunca soube de nada... Nem imaginava que a senhora tivesse passado... Por esse problema...
-Câncer. Câncer de mama- Fátima levanta e abre o guarda-roupa, tentando escolher algo para vestir- Não tinha motivos pra saber, não é, Luiza? Quase ninguém notou até hoje.
-Quando foi que a senhora... Desculpa, eu tô perguntando demais.
-Talvez seja bom. Foram poucas as vezes que eu consegui me abrir. A batalha que eu vivi foi muito recente, Luiza, mas a ferida continua aberta. E ela é bem mais nítida do que as cicatrizes dos meus seios.
-Eu... Eu vou procurar a Talita...
-Luiza, não precisa fugir. Eu sei que você está me questionando porque quer me ajudar.
-Isso tudo é tão estranho...
-Pois é. Sempre acontece "com os outros, nunca com a gente, ou com a família da gente". Mas foi isso, minha filha- Fátima veste a roupa, enquanto Luiza senta na cama.
-Tem certeza?
-Sim, eu tenho. Eu preciso falar. Há uns seis anos atrás, eu não morava aqui no apartamento do seu pai. Morava com o meu marido lá em Casa Caiada.
-A senhora era casada? E cadê teu marido?
-Viu? A separação da tua mãe e do César acabaram me separando um pouco de você e da sua irmã. Mas foi um casamento rápido. E também uma página que eu quero esquecer.
-Por quê?
-Ele era alcoólatra. Eu meio que passava por cima disso, acreditando que ele ia melhorar, mas a verdade é que ele não queria nenhum tipo de ajuda.
-Quando a senhora descobriu que... Que tava doente?
-Foi com um ano de casada. Teve uma noite que ele estava num bar, eu fui trazer ele de volta, ele fez um escândalo e então me empurrou. Caí de bruços no chão do bar, na frente de todo mundo. Passei mais de dias com dor num dos seios. Achava que era por causa da queda que eu levei, mas... Um dia eu fui ao banheiro, quando ele não estava em casa, e fiquei de frente pro espelho. Senti que tinha um nódulo. Assim que eu consultei o César, ele me deu o diagnóstico: era maligno.
-O que foi que teu marido disse? A senhora contou pra ele, não contou?
-Foi o mesmo que falar pra uma parede, Luiza. Não teve nenhum momento que ele ficou comigo. Nem pra uma consulta, nem pra cirurgia...
-Quem te operou foi meu pai?
-Foi um amigo que ele me indicou, um oncologista. O César pode ser exigente, teimoso, duro muitas vezes... Só que ele foi meu porto seguro. Tanto é que eu moro aqui. Sou a pessoa em quem ele mais confia...
-Tudo bem, tudo bem. O que eu quero saber é do teu marido. Onde é que ele tá agora?
-Quando eu fui fazer o tratamento, eu passei vários dias na clínica onde o César trabalha. E o meu irmão sabia que eu tinha ficado muito sentida com o descaso do meu marido.
-Por que você não fala o nome dele?
-Pra quê? Eu não quero nem lembrar que ele existiu.
-Nem parece a senhora falando desse jeito.
-César sabia que se eu ficasse do lado dele, ia sofrer mais. Então, ele arranjou uma boa quantia e pagou ao meu ex pra que ele não voltasse pra minha vida.
-Vai dizer que ele aceitou?
-Aceitou. Mas não sumiu da minha vida, como eu esperava.
-Como assim? A senhora voltou a ver esse cara?
-Logo que eu saí da clínica, César me hospedou aqui. Teve uma noite que seu pai fez plantão, e eu fiquei sozinha no apartamento. Eu ainda estava me recuperando. Nessa noite, ele entrou completamente embriagado aqui dentro e... – Fátima chora silenciosamente.
-Fala, Tia.
-Ele rasgou a roupa que eu estava vestindo e me viu mutilada. Assustado, se afastou de mim. Me senti invadida, Luiza, sem confiança dentro da minha casa. E ao mesmo tempo, conheci a rejeição... Seu pai costuma dizer que eu sou doce demais, carinhosa demais, passiva demais... Só que eu tento esconder o que eu sou de verdade.
-O quê?
-Calejada. Forte. Ou pelo menos, tento ser todo dia.
Vendo a tia completamente abatida após ter seu segredo revelado, Luiza abraça Fátima, completamente chocada pela coragem que nunca pensou que teria.

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Num bar, dois professores estão com Júlia e Beto, comemorando a aprovação do projeto de extensão que os colegas desenvolveram juntos.
-Um brinde ao sucesso de "Diário de luta", nova série do jornal do Canal Universitário- um dos docentes ergue uma caneca.
-Saúde!- brada Beto, um pouco alterado. Ainda assim, isto não é percebido pelos demais componentes da mesa.
-E vocês já tem alguma ideia de quando "Diário" vai finalmente pra televisão?- Júlia fica curiosa.
-O mais rápido possível- esclarece outro professor.
-Nossa, nem acredito que o projeto foi aprovado. A gente tava tão nervoso nesses últimos dias, mas valeu a pena- admite Júlia.
-Realmente, a sua ideia foi fascinante, Júlia- o comentário do professor deixa Beto irritado- E a forma como você apresentou, a desenvoltura diante dos professores convidados... Foi exatamente por isso que nós tivemos uma ideia pra divulgação da série.
-Como assim "divulgação"?-  interroga Beto- Eu pensei que a âncora fosse anunciar a estreia da série no jornal do meio-dia, como costuma fazer sempre que começa uma série de reportagens.
-Pois é, Alberto, mas notamos que a violência, seja ela psicológica, física ou sexual, é bastante mostrada como um relato jornalístico, mas nunca como um relato pessoal. Mais do que simplesmente entregar a informação para o telespectador, é preciso fazer com que ele entre na vida das vítimas, e não que elas entrem na sua casa através da TV.
-Que ideia que vocês tiveram, então?
-Aproveitando que Júlia desenvolveu uma postura irrepreensível na apresentação, e que não vai demorar muito pra que ela estreie, nós chegamos a um consenso de fazer uma espécie de teste.
-Teste? Comigo?
-Que tal se veiculássemos chamadas na programação da emissora com você convidando as pessoas a acompanharem a série? Pensa bem: o mercado anda investindo em muitos nomes jovens. Além desse requisito, você é mulher e também é de ascendência negra. Isso vai te aproximar um pouco da maior parte do público que sofre discriminação e relata isso nas entrevistas, seja por conta da raça ou simplesmente do gênero.
-Nossa, eu ia amar!
-Você aceita, então?
-Não precisam nem me perguntar duas vezes.
-Beto, não nos leve a mal, mas é que realmente é nítida que a Júlia possui um carisma maior pra lidar com o público.
-Imagina, Professor. Não precisa se justificar, eu entendo. E realmente, ninguém melhor do que ela pra passar a mensagem da série. Quem melhor do que a pessoa que idealizou o projeto, né?

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Nuno ainda espera uma resposta de Hugo.
-Que isso, cara? Você tá falando?
-Eu?- Hugo volta a gesticular.
-Hugo, eu entrei aqui e você tava falando. O que foi que houve? Você tava gritando "sai daqui". Com quem você tava falando, cara?
-Não sei... Não me lembro. Mas eu sei que eu estava dormindo.
-É a primeira vez que eu escuto tua voz. Será que você recuperou a fala de vez?
Hugo se afasta um pouco e tenta mudar de assunto.
-Nuno, é melhor a gente voltar pra edição do clipe de ontem...
-Por que você não procura um médico, Hugo? Talvez ele te ajude a falar de novo.
-Eu não quero.
-Como que não quer? O que é que tá rolando contigo, irmão?
-Nuno, para de insistir. Eu não quero falar, nem aprender a falar.
-Você tá muito estranho... Eu nunca te vi assim...
-Como foi que você entrou aqui no apartamento?
-A porta tava aberta. Deve ter se esquecido de trancar ontem à noite, quando eu voltei pra casa.
-Deve ter sido isso mesmo...
-Hugo, me diz o que é que tá acontecendo.
-Será que dá pra não tocar nesse assunto, por favor?
-Tudo bem. Você é quem sabe. Mas eu tinha ficado feliz quando te ouvi pela primeira vez.
-Vamos trabalhar? Acho que foi pra isso que você veio aqui.
-OK. Me mostra como foi que ficou a primeira edição que você fez.
Enquanto Hugo procura em seu computador as alterações de seu novo, Nuno desconfia da surdez de seu amigo cada vez mais.

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Apreensiva, Talita continua na frente do prédio onde mora com sua família. Luiza desce pelo elevador e vai falar com a irmã.
-O que é que você tem?
-Esperando notícias da apresentação do projeto. Beto disse que ia me ligar avisando do resultado.
-Hum... Será que ele não te mandou uma mensagem?
-Já olhei, Luiza, e nada até agora.
-Olha, não é a Júlia ali, não?- avista Luiza, assim que a estudante de Jornalismo desce de um táxi e paga a corrida.
-Júlia? Por que você não veio de carro?
-Fomos a um barzinho pra comemorar. O projeto foi aprovado, Talita! Logo mais a série "Diário de luta" vai ser veiculada no jornal!
-Parabéns, amiga!- Talita fica empolgada e abraça a vizinha.
-Parabéns, Júlia. Você e o Beto mereceram, se esforçaram muito.
-Obrigada, meninas.
-Falando nisso, Julinha, o que foi que houve com o meu namorado?
-Beto? Minha filha, eu nem te conto. Ele ficou tão empolgado com a aprovação que foi o primeiro a comemorar enchendo a cara. Até deixei meu carro por lá, pois não tinha a menor condição de dirigir. Já ele continuou bebendo- Júlia ri.
-Eu não liguei antes porque achei que vocês dois ainda estavam apresentando. Vou ligar agora- Talita avisa, procurando o número do namorado no registro de chamadas e colocando o celular no ouvido- Que droga, deu fora de área.
-Às vezes é o sinal, Talita. Tenta de novo- sugere a irmã da moça, que prontamente liga mais uma vez.
-Não adianta. Continua sem atender. Onde será que ele se enfiou?

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Beto anda por uma ponte movimentada, segurando-se num galho de árvore, chorando muito.
-Sempre me subestimando, não é? Carisma, postura irrepreensível... Como se todo o mérito fosse só seu... Mas não vai ficar assim, não, Júlia. De jeito nenhum. Não vai demorar muito pra você me conhecer de verdade. Já, já você vai saber quem sou eu.

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Um novo dia começa. O assistente social do asilo se aproxima de Hermínia, que folheia um álbum de fotos pertencente à sua família.
-Dona Hermínia?
-Não quero falar sobre minha filha, moço.
-Não é isso, é que chegou uma visita pra senhora.
-São minhas netas?
-Não. É só o pai delas- César chega perto da cadeira onde a idosa está sentada.
-Pode me deixar a sós com ele?
-Claro, Dona Hermínia. Se precisar de alguma coisa, me chame.
-Obrigada- Hermínia espera o rapaz se afastar um pouco para se levantar da cadeira de balanço- Há quanto tempo não nos vemos, César. Desde que a sua infinita bondade me colocou nesse lugar. Isso tem o quê? Uns meses, talvez?
-Hermínia, o asilo é meio longe da sua antiga casa, e é bem mais distante da minha. Portanto, é melhor esclarecer que eu não me desloquei até esse fim de mundo pra falar sobre você, mesmo porque você é uma pauta consideravelmente irrelevante.
-Fala de uma vez o que você veio fazer aqui, e some da minha frente.
-Saber da verdade. Como foi que você envenenou a Luiza contra mim?
A ex-sogra de César cruza os braços.

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Um dos professores do curso de Jornalismo, antes de encerrar a aula, faz a chamada. Assim que confirma sua presença, Júlia sai da sala. Está voltando pra casa, e passando por um caminho florido que dá acesso ao jardim do prédio da faculdade. Alguém, coberto por uma manta cinza, puxa a moça violentamente pelo braço.
-Que é isso?
O agressor coloca Júlia dentro do banheiro masculino que está em reforma, empurrando-a contra um dos espelhos. Enquanto Júlia tenta se erguer, ele tranca a porta e revela seu rosto por debaixo do manto.
-Enfim, sozinhos, Júlia.
-Beto? O que foi que te deu?
-Raiva. Ódio de você. Do jeito que se comportou ontem, aceitando todo o tipo de elogio, como se os créditos do projeto fossem só seus.
-Ah, por favor! Não acredito que você me trouxe até aqui por causa dessa baboseira!
-Nada do que eu fale ou faça te importa, não é? Pra você eu não contribuí com nada dessa porcaria de projeto!
-Por acaso eles falaram alguma mentira? A ideia do projeto foi minha, quem batalhou pra aprovação dele fui eu...
-Mas eu te incentivei! Quando você veio com essa ideia, fui eu quem disse que você precisava investir nisso, que se você transformasse isso num projeto de...
-Com ou sem você, eu ia vencer, Beto. Tem gente que nasce predestinada a isso, meu querido, quer você queira, quer não. Aliás, sabe por que você ficou o tempo todo me ajudando? Porque você, no fundo, queria um pouco dos louros desse trabalho. Sinto muito que os professores conseguiram enxergar o que você não vê: que eu sou mais inteligente do que você.
-É o que você pensa. Se fosse tão inteligente assim, tinha sacado tudo o que eu fiz pra ficar do teu lado. Fiz o papel de amigo e confidente por muito tempo, quando eu queria mais do que isso.
-Beto, você não tá dizendo coisa com coisa.
-Será que você não vê que eu sempre te quis como homem, e não como amigo?
-Você?
-Claro que não percebeu. Se coloca num pedestal, acima do bem e do mal. Pouco se importa com quem te rodeia. A não ser que tenha tanto dinheiro quanto você e o Nuno.
-Agora você quer que eu acredite numa patacoada dessas? Deixa de ser ridículo. Vai me dizer o quê? Que o namoro com Talita é fake?
-Pra mim, ela não passa de uma pirralha iludida. Eu quis namorar a Talita porque sabia que você queria forçar uma amizade com ela, só porque ela é filha do renomado César Telles. O que te interessa é o status, não é? Pois foi por isso que eu me aproximei dela. Pra ver se te causava aflição, ciúmes, qualquer coisa que me desse esperança. Mas, ainda assim, você continuou me humilhando com esse nariz empinado, esse ar de superioridade, sendo esnobe com o cara que mais te quis.
-Abre essa porta, Beto.
-Nem por um minuto, você imaginou que eu te desejava todo dia, e que sempre inventava um pretexto pra te ter?
-Já mandei você abrir a porta.
-Quem sabe assim você comece a me enxergar de outra forma? Ser bonzinho, compreensivo e educado não me adiantou de nada. Só servi pra você como capacho.
-Tá errado, Beto. Nem pra isso você serve.
-Impressionante que nem isso diminui o desejo que eu sinto...
-Não se aproxima de mim. Se você não abrir essa porta, eu vou gritar e vai ser pior pra você.
-Vai, sim. É isso mesmo que eu quero, que você grite- Beto rasga a blusa de Júlia- Você vai pedir pra eu nunca mais parar.
-Olha só o que você fez comigo, seu idiota!
Beto agarra o rosto da jovem e o coloca diante do espelho, machucando-o.
-Como é que você não entende isso? Olha pra você. Vê como você é linda. Olha pro teu corpo, pra tua pele, pra tua boca...
-Me solta!
-Tudo que você faz é um jogo pra me provocar, não é?
-Beto, me solta!
O rapaz beija a nuca da moça, que faz uma expressão de nojo ao senti-lo tocar em sua pele.
-Você gosta de se sentir desejada, não é? Pois hoje eu vou te fazer ser desejada- Beto abre o zíper da calça que está usando com uma das mãos, e Júlia tenta correr.
-Socorro! Alguém me ajuda! Socorro!- Beto a agarra novamente, pressionando contra a parede e tenta arrancar o sutiã da moça, que vai caindo ao chão.
-Você não vai sair daqui! Não até eu te dar o que você merece e o que eu quero!
-Não! Não, me solta! Me solta! Socorro! Alguém me ajuda!
Beto abaixa parte de sua roupa íntima e arrebenta o sutiã de Júlia, que está trajando uma saia. Após levantar uma das pernas da jovem, beija a boca da estudante, que procura se defender mordendo seus lábios, mas ele se irrita e segura seu pescoço com bastante força, a ponto de fazê-la perder a consciência aos poucos, ao mesmo tempo que consume a agressão sexual.

DEPOIMENTO

"Comecei bem cedo a trabalhar na indústria da moda, mas fechava os olhos pra muitas coisas que aconteciam, como diz o ditado, por debaixo dos panos. Como aparentava ter menos idade, isso atraia consumidores em potencial de um esquema até então comum por lá: a prostituição de luxo. À medida que eu via muitas das minhas colegas aceitando os convites de empresários, me retraía. Depois, via que as oportunidades de crescimento na agência não paravam pra elas. Um dia, o esquema foi descoberto. Saiu em tudo que era manchete e capa de revista, jornal, internet... Quando a imprensa chegou, me viu saindo da agência e logo os repórteres vieram tirar fotos. Me colocaram não como modelo, mas como uma acompanhante. A história acabou tomando conta do lugar onde eu morava, e eu tinha vergonha de ser quem eu era, de ter atribuída a mim uma culpa que não era minha, até pensando em sair dali. E os mesmos que um dia me desejaram agora sentiam repulsa, sendo que eram capazes de dar dinheiro caso eu realmente me vendesse. De repente, tudo que eu fazia era uma tentativa frustrada de me justificar pros outros. Uma vez, fizeram um cerco contra mim, e eu até pensei que fossem me bater. Foi então que eu percebi que eu não podia viver preocupada, ansiosa com a imagem que fizessem de mim. A minha obrigação de ser sincera era comigo, e com mais ninguém. E depois, mesmo que eu realmente tivesse aceitado alguma proposta, é o meu corpo. É a minha vida. Meu nome é Paula, e ter o domínio da minha própria trajetória é a minha luta diária."

08/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 6: HUGO

Desacreditada no que acabou de ouvir, Talita entra no escritório do pai, seguida de Luiza.
-Você tá falando sério, Beto? Quer namorar comigo?
-Não pensei que você estivesse ouvindo, Talita.
-Por acaso vocês duas estavam nos espionando?- César se mostra irritado.
-Isso é o de menos, Pai. Quero saber se eu posso confiar nisso que ele disse.
Beto olha para César, com aflição.
-Fala alguma coisa, rapaz. A Talita é a maior interessada na sua proposta.
-Tudo bem, é verdade. Desde que você chegou aqui, e eu te conheci naquele dia que você e a sua irmã foram pra praça, não consigo te tirar da cabeça. Mas como eu sei do respeito que você tem ao seu pai, foi com ele que eu vim conversar primeiro.
-Pelo visto, não é só ela que me respeita.
-E então, Dr. César? O senhor me deixa namorar a sua filha?
-Hum, se você visse a sua cara, Alberto... Tudo bem, rapaz. A minha filha pode namorar você.
-Ai, não acredito!- Talita grita, correndo para abraçar o rapaz, mas é interrompida pelo pai.
-Ainda não terminei de falar sobre o assunto, Talita!
-Desculpa, Pai...
Luiza assiste à cena, incrédula.
-O romance entre vocês está permitido, mas isso não significa que podem extravasar como bem entenderem.
-Como assim? O que o senhor quer dizer com isso?
-Que embora eu lhe conheça há tempos, e você seja de ótima família, eu não vou tolerar libertinagem aqui dentro. Vai ser à moda antiga. A tia dela vai supervisionar esse relacionamento. Nada de ficar até mais tarde aqui, nem de levar a minha filha pra qualquer lugar sem me comunicar antes.
-Por mim, tudo bem.
-Vocês vão me desculpar, mas eu vou ter que voltar pra clínica.
-Muito obrigado, Dr. César- Beto cumprimenta César, de maneira estabanada.
-Não precisa agradecer. Se andar na linha, já está de bom tamanho. Comportem-se- diz às filhas, deixando o escritório.
-Não acredito que você conseguiu dobrar meu pai.
-Sabe por quê? Porque eu não queria, e nem quero mais esconder o quanto eu gosto de você.
Talita troca um beijo com o novo namorado, e Luiza segue seu pai até o elevador.
-Peraí, foi isso mesmo que eu vi? Vai deixar sua filha namorar um cara que o senhor mal conhece?
-Alberto não é um total desconhecido pra mim. Por acaso ele já fez algo contra a sua irmã?
-Não.
-Nesse caso, eu não preciso ficar com o pé atrás.
-Depois daquele escarcéu de sábado passado, eu entendi que o "regime militar" ia dobrar!
-Sim, mas não só com Talita. Com você também. Aliás, principalmente com você. Ao menos eu sei que sua irmã pensa muito bem antes de agir. Diferente de você, que faz de tudo pra ameaçar meu papel de pai.
-Como o senhor é ridículo. Tá disputando o quê comigo?
-O poder da verdade, do que é certo ou não.
-Sua visão é bem diferente da minha, já deixo logo bem claro.
-Mais claro, impossível! Acontece que, equivocado ou não, eu faço a minha vontade valer. Se você se sente subjugada quanto a isso, paciência.
As portas do elevador se abrem, e César deixa a filha mais velha no corredor.

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Passados mais alguns dias, em frente à fachada do prédio, Talita e Beto namoram, quando Júlia desce de seu apartamento.
-Atrapalhando os pombinhos?
-Imagina, Ju.
-E aí, Júlia? Pegou o notebook pra apresentação?
-Tá aqui, Beto. A gente já pode ir.

-Caramba, eu esqueci, amor. É hoje que vocês vão defender o projeto de extensão pra banca, né?
-Hoje mesmo, minha linda. Olha pra mim, tô bonito?
-Esse aspecto é que menos vai contar, Beto; pode ficar sossegado.
-Olha quem fala... Hoje você tá vestida como se tivesse acabado de sair de uma liquidação na Times Square- diz Beto, encantado com o visual da amiga.
-Isso aqui é o básico, querido. Só não deu tempo de incrementar mais o look porque realmente hoje o dia tá corrido.
-Vão logo, que vocês não podem se atrasar. Boa sorte, amor- Talita cumprimenta o jovem com um beijo.
-Valeu, meu anjo.
-Me liga quando terminar a apresentação.
-Pode deixar- Beto abre a porta do carro.
-Boa sorte, Ju- Talita cumprimenta a amiga com um abraço.
-Obrigada, Talita. Vou precisar mesmo, porque o dia promete, viu?- Júlia entra no carro de Beto.

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Cansado de tanto trabalhar na edição de um vídeo, Hugo ainda está adormecido diante de seu computador, sem nem ao menos ter salvo o seu projeto. Sem perceber, deixou a porta aberta assim que Nuno saiu, na noite anterior, quando o ajudou a filmar um novo videoclipe transcrito para a Libras.
Em seu inconsciente, vê um casal de adultos beijando a testa de uma criança, que está sentada dentro de um berço. Uma babá entra no quarto quando os dois estão prestes a se retirar do ambiente.
-Provavelmente nós vamos demorar umas duas horas. Tira a fralda dele, dá um banho e coloca pra dormir- ordena a mulher, aparentemente a mãe da criança.
-Cuida bem dele, hein?
-Pode deixar. A gente vai brincar um pouquinho antes de eu pôr ele pra dormir- garante a babá.
-Mas não muito- diz a mãe.
-Vão sossegados. Eu vou cuidar muito bem desse lindo.
Assim que os pais da criança saem, a babá o tira do berço e o leva para o seu quarto, onde há um pacote de fraldas fechado. Coloca o garoto sobre a sua cama e tira a fralda suja. Com um pano, limpa as nádegas do bebê.
Nuno entra no apartamento e encontra o amigo dormindo na cadeira, mas como ela está de costas para a porta do apartamento, não entende imediatamente que ele não está acordado.
-Por que foi que você deixou a porta aberta, cara?
-Sai daqui... – fala Hugo em voz baixa. Nuno escuta o amigo e se aproxima da cadeira- Sai!- grita, despertando em seguida.
-Hugo?
Apavorado, Hugo se dá conta de que foi um sonho e não sabe o que explicar para Nuno, que jamais o tinha ouvido pronunciar uma palavra sequer.

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Fátima está tomando banho, quando Luiza está procurando a irmã pelo apartamento. A adolescente escuta o chuveiro ligado e se aproxima da porta, que está fechada.
-Talita, você tá aí?
-Não, minha filha, é Fátima.
-Tia, você viu onde Talita foi?
-Deve estar lá embaixo, falando com o Beto.
-Me deixou sozinha estudando pra namorar... Brincadeira, viu? – pensa Luiza, em voz baixa- Obrigada, Tia.
Luiza vai até o quarto e procura pelos livros de Matemática e de Química no guarda-roupa. Com o afastamento da moça, Fátima sai enrolada numa toalha branca, após secar o banheiro molhado com um rodo. Assim que passa, fecha a porta, mas esta prende parte da toalha e escapa do corpo da dona de casa logo que ela vai ao seu quarto trocar de roupa, indo na mesma direção do quarto de suas sobrinhas. Luiza sai com os livros na mão e se assusta ao ver Fátima desnuda pela primeira vez.
-Luiza... – constrangida, Fátima não sabe o que dizer à moça.
-O que é isso, Tia?

DEPOIMENTO

"Não reconheço mais o meu marido. E por dar inúmeras chances a ele de recomeçar, eu também não me reconheço. Era dessas que insiste apesar dos conselhos dos amigos e da família. Na esperança de que um dia ele seria como antes, dava murro em ponta de faca. O problema foi quando eu comecei a pensar que os ciúmes do meu marido não eram infundados, e aconteciam porque eu dava margem. Como é que não ia ser assim? Uma mulher linda, de parar o trânsito, ouvindo elogio de todas as partes. Massageia tanto o ego, não é? Pois é... Isso me fazia com que eu me sentisse valorizada, mas ele odiava. Até chegou a reclamar comigo, mas na maioria das vezes guardava pra si. Percebendo a irritação dele, até parei de agradecer... Só que não foi o suficiente. Depois de umas semanas, fomos viajar para a casa de praia, e ele me deixou sozinha lá, dizendo que resolveria alguns assuntos pra voltar no dia seguinte. Fui deitar tranquila quando, no meio da madrugada, não conseguia pegar no sono. Vi um vulto, mesmo com a luz apagada, e ele veio pra cima de mim, com uma faca na mão. Apesar de eu ter pedido pra não me matar, disse que ia acabar com aquilo, que ninguém ia conseguia me desejar nunca mais. E cortou o meu rosto. Na hora até dei um empurrão, sai correndo e consegui me trancar na dispensa. Deixei um rastro de sangue pela casa. Assim que o caseiro me resgatou, no dia seguinte, chamei a polícia. Quando ele foi preso, eu disse que ia fazer de tudo pra que ele nunca mais fosse solto. O que consegui extrair dele foi um sorriso de satisfação, por me ver machucada, e ainda disse: ʻpelo menos, agora eu sei que ninguém vai te querer desse jeitoʼ. Meu nome é Rosângela e reconstruir minha vida é a minha luta diária."

05/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 5: TALITA


Beto está no banheiro do apartamento, ouvindo o diálogo entre César, Luiza e Nuno.
-Foi pra isso que você veio? Pra se comportar como se fosse uma vagabunda?
-Você não vai falar assim comigo!
-Quem você pensa que é pra me chamar de "você"? E que moral você tem pra usar esse tom de voz comigo?
-Sou sua filha, não sua mulher. Por isso, não é de qualquer jeito que o senhor vai falar comigo.
-Apenas estou te tratando de acordo com a maneira como se comporta.
Nuno se levanta da cama, ainda enrolado ao lençol.
-Desculpa, Seu César, eu não queria que o senhor...
-Adiantaria alguma coisa se eu tivesse sido comunicado de que vocês dois protagonizariam essa pouca-vergonha debaixo do meu nariz? Pode fazer o que bem entender da sua vida, garoto. Mas das minhas filhas, cuido eu. E eu não admito, de maneira nenhuma, que uma filha minha assuma um papel que cabe a uma prostituta!
-Escuta só: em que mundo você vive, hein? Eu sou livre, dona da minha vontade e do meu corpo, posso fazer com eles o que eu quiser.
-Corpo esse que só se mantém em pé porque eu me mato numa clínica pra sustentar você, a sua irmã e a sua tia.
-Tava demorando pra jogar isso na minha cara, né?
-Luiza, é melhor não provocar o seu pai.
-Tá com medo dele, Nuno? O que você acha que vai acontecer? Ele achar que eu fiquei grávida e te obrigar a casar comigo, como se a gente fosse da idade média e eu fosse uma moça sem honra?
-Com certeza, isso você perdeu. Assim como o respeito que eu tinha por você.
-Você não respeita ninguém!- grita, alterada.
-Calma, Luiza- Nuno segura a moça.
-Se não for pedir muito, você pode abaixar o volume da sua voz? Porque até agora, eu tenho falado educadamente contigo...
-Eu não quero que você seja educado, e sim que seja sincero, pelo menos uma vez na sua vida!
-E quando eu fui falso com você? Hein?
-Com o mundo à sua volta. A começar pela minha mãe.
-O que você quer é que eu seja condescendente com suas vontades. Quem sabe, um amiguinho que passe a mão na sua cabeça todas as vezes que você comete uma besteira? Acontece, Luiza, que esse papel eu não pretendo desempenhar. Eu não sou seu amigo, e sim seu pai.
-Nem isso consegue ser.
-Acho melhor você sair daqui tranquilamente, do meu lado e com a sua irmã. Eu não quero um escândalo maior.
-Olha, Seu César, eu sei que não era pra ser desse jeito que as coisas tinham que acontecer, mas a verdade é que eu gosto...
-Pouco me importa o que você acha, rapaz. Pra mim, o que interessa é que de hoje em diante, você não vai chegar perto da minha filha.
-Isso não.
-O que foi que você disse?
-Na boa, o senhor acha mesmo que eu não gosto da sua filha? Que eu não tô afim de ficar com ela, de pedir a Luiza em namoro?
-Seu interesse é suficiente pra uma tarde na qual você consegue arrastar minha filha pra cama. Aliás, você não precisa fazer muito esforço pra isso. Mesmo porque o tesão de homem pode diminuir consideravelmente quando se tem a oportunidade de transar com uma mulher que faz questão de ser vulnerável.
-Cala a boca! O senhor, se não se tocou, tá dentro da minha casa, e eu não vou deixar que ofenda a Luiza...
Sem titubear, César afasta Luiza de Nuno e a puxa pelo braço.
-Se não se importa, eu tenho uma conversa pra ter com a minha filha, não tenho tempo pra fúria de adolescente romântico.
-Larga o braço dela agora!
-Caso contrário, vai fazer o quê?
-Seu César, eu tô falando numa boa! Deixa a Luiza em paz!
Nuno é agredido com um soco dado pelo médico.
-O que foi que você fez?- Luiza fica assustada com a agressividade do pai.
-Isso, Luiza, é o que vai te acontecer se você se atrever a me desobedecer de novo.
-Tá pensando que vai me meter medo, é, Seu César?- Nuno pergunta, limpando o ferimento labial com uma das mãos.
-Medo talvez não, mas cautela não vai te faltar. Só assim você vai entender que não vai ter próxima vez com a minha filha. Vamos, Luiza.
-Me larga, Pai.
-Vamos embora!- segura o braço da filha com mais força, levando-a para a sala. Hugo, Júlia e Talita estão apreensivos com a discussão- Vamos embora, Talita.
Nuno sai do quarto, ainda ensanguentado.
-O que foi que o senhor fez com meu irmão?- Júlia corre para amparar o rapaz.
-Dei a lição que a tua família se esqueceu de ensinar. Só espero não ter de repetir. Vamos logo!- César abre a porta, colocando Luiza pra fora do apartamento.
-Desculpa, Júlia.
-Tudo bem, Talita. Tudo bem. Vai com o teu pai, ele tá muito nervoso.
-Experimenta colocar o teu irmão na porta da minha casa de novo, Júlia. Aí você vai me ver nervoso mesmo- sinaliza pra que Talita saia do apartamento, e bate a porta.
Beto sai do banheiro e vê Júlia e Hugo nervosos, além de Nuno machucado.
-Que foi que houve?
-Ô, Hugo... – Júlia acena para que o rapaz leia os seus lábios- Leva o Nuno pro meu quarto e faz um curativo nele, tem uma caixinha de primeiros socorros lá no guarda-roupa.
Hugo conduz Nuno ao quarto e Beto se aproxima de Júlia.
-O que é que rolou aqui, Júlia?
-Por pouco você não se queimou com o pai da Talita. Se ele visse o clima entre você e ela, tinha sobrado pra você.
-Que clima, Júlia? Você tá viajando...
-Presta atenção, Beto. Eu já reparei que você anda flertando com a Talita, soltando umas indiretas, um papo... E eu até faço questão que vocês namorem... Mas você vai ter que dobrar o Dr. César, o pai dela.
-Tá, mas você tá falando isso por quê?
-Porque ele agrediu o meu irmão! Entrou que nem um louco quando Hugo abriu a porta e pegou os dois no quarto.
-Caramba...
-Se você gosta da Talita, toma cuidado com esse homem.
-Relaxa, Júlia. O pai da Talita não tem queixa nenhuma pra fazer de mim. Pra todos os efeitos, ele não me viu na festa, não sabe que eu tava aqui.
-Você vai usar isso a seu favor?
-Se for pra ficar com a Talita, por que não?

////

Agora, no apartamento da família Telles, os ânimos estão exaltados. Fátima e Talita estão apreensivas com a irritação de César.
-Vê se não fica dando corda pra toda conversa mole que aparecer na porta daqui de casa. Se precisar resolver alguma coisa com relação às meninas, quem tem de dar a permissão sou eu, não você.
-César, você não estava em casa quando as meninas receberam o convite da festa. O próprio Nuno me pediu a permissão, em nome da Júlia...
-São maiores de idade, Fátima. Não têm controle ou supervisão alguma, fazem o que bem entendem. Você consegue perceber que eles poderiam ter oferecido álcool pras minhas filhas?
-Mas isso eles não fizeram.
-Como é que você sabe? Por acaso você viu o que eu vi? Um homem sem roupa, deitado numa cama bagunçada, depois de ter arrastado a Luiza pra lá?
-Parece que o senhor não faz questão de ver a verdade, só a parte que te interessa. O Nuno não me arrastou pra lugar nenhum. Eu dormi com ele porque quis.
-Pra me desafiar. Só pode ser por isso. Porque você adora me espezinhar, questionar a minha autoridade como pai!
-Nem tudo gira em torno do senhor. Eu não tô apaixonada pelo Nuno, eu não quero o Nuno pra mim, se é o que o senhor pensa. Acontece que eu me senti atraída e quis transar com ele. Qual é o problema? Por acaso você acha que só homem sente esse tipo de coisa, que mulher não sente nada?
-Acontece que, para o seu desprazer, Luiza, você não é uma mulher, e sim uma adolescente. Portanto, não é porque você simplesmente tem vontade que qualquer um precisa massagear o seu ego. Eu não estou falando de um capricho qualquer, e sim de sexo.
-Quer apostar quanto que você ia bater palma pra mim se eu fosse um menino?
-Mas não é. E é isso que me deixa com mais vergonha.
-Vergonha de quê, Dr. César? O que aconteceu na casa do Nuno não foi contra a minha vontade, não. Eu quis, eu desejei, eu senti prazer e pronto! Se eu quiser repetir, pode ser com ele, com outro, com quem for! Só que vai ser na hora que o meu corpo quiser.
-Definitivamente, você perdeu a compostura. Ouve bem o que você está falando. Você simplesmente está defendendo o direito de se tornar uma figurinha fácil, Luiza.
-Se engana, Pai. O que eu quero é ser feliz do meu jeito, sem interferência de ninguém.
-Como? Sendo embaixatriz da vulgaridade?
-Deixa de ser machista, Pai.
-Não, eu não posso, Luiza. Eu não posso deixar de ser machista porque existe uma coisa chamada "imposição de limite" que a gente aprende a colocar quando tem um filho, seja a gente homem ou mulher. Além do mais, eu não pretendo ser simpatizante da promiscuidade só porque você quer.
-Quer dizer que eu sou vagabunda porque defendo o direito de cada um de ser feliz, inclusive o meu?
-Luiza, eu não quero mais discutir com você.
-Mas eu quero. Quero bastante. Tô doida pra ouvir o que você pensa de mim, porque até agora, eu só fui xingada.
-Elogiada é que não vai ser, diante desse comportamento descabido. Vamos colocar de vez as cartas na mesa: enquanto você tiver debaixo do meu teto, segue a minha cartilha, exatamente como a sua irmã.
-Eu me mando. Eu fujo, eu vou pra qualquer lugar, só pra não ter de viver com o senhor.
-Ah, e vai viver com quem? Com a caquética da Hermínia? Vai viver de quê, Luiza? Do corpo?
-Qualquer coisa é melhor do que morar com o responsável pela morte da minha mãe.
-Claro... Agora você vai apelar pra chantagem sentimental. Aposto que aquela velha deve ter enchido sua cabeça contra mim, porque é típico dela.
-Não fala da minha avó.
-Falo como eu quiser, no tom que eu quiser! Você está na minha casa pra me ouvir e me obedecer!
-Vai fazer o quê? Me bater, como fez com o Nuno agora há pouco?
-César, por favor, não precisa fazer esse escândalo todo! A Luiza já se arrependeu do que fez, não é, minha filha?
-Nem um pouco!
-Para de me provocar, menina. Eu não quero, e não vou perder a cabeça com você.
-Pelo menos me batendo, ia mostrar que sente alguma coisa. Mas não. Por mim, você não sente nada. Você me adotou só porque minha mãe me queria, e quando viu que nem mesmo com o nascimento da Talita ia ser capaz de segurar o casamento, pulou fora. Não foi você que viu ela morrendo deprimida, esperando pelo dia que você pedisse pra voltar.
-Aquela velha conseguiu fazer minha caveira pra você... Só que, querendo ou não, eu sou o responsável por você e pela Talita. Aqui, quem dá as ordens sou eu. E você vai se comportar tanto dentro da minha casa como fora dela!
-Eu não tenho medo de você, se é isso que quer saber.
-Pouco me importa. O que você me deve é respeito, porque eu sou seu pai.
-Devia ter escolhido outra criança! Porque no meio de tanto menino, você tinha que ter me escolhido? Era pra você ter adotado um menino, que quando crescesse tivesse uma falha de caráter tão grande quanto a sua... – Luiza é interrompida por uma bofetada do pai, que assusta Talita e Fátima.
-Em tempo algum, vou admitir que a Talita e você me faltem com o respeito.
-E vai resolver isso de que...
-Cala a boca, que eu não acabei de falar.
-Eu que não vou ouvir mais nada... – Luiza tenta ir ao quarto, mas Cesar a segura com força.
-Pai, por favor, não bate nela de novo- Talita pede.
-Independente de você ser menina ou não, eu sou responsável por você e em algum momento amei você. Além disso, eu não tolero que questione se fui bom marido ou se sou bom pai. Enquanto você estiver sob a minha guarda, vai fazer o que eu quero. E se possível, sentir!
-Isso nunca.
-Um pai presente não era o que você queria? Pois agora eu vou ficar te vigiando bem de perto. Agora vai pro seu quarto. Vai com ela também, Talita.
-Esse tapa que você me deu eu não vou perdoar nunca.
-A sua desculpa não é do que eu preciso. Faço mais questão da sua obediência. Vão pro quarto, as duas.
-Boa noite- diz Talita.
-Boa noite- responde Fátima, transtornada. Sozinha com o irmão na sala, admite- No fundo, eu já desconfiava da mágoa que ela tinha de você... Só não imaginava que fosse tão grande.
-A recíproca é verdadeira.

////

O sábado seguinte mostra que os nervos continuam em estado de animosidade. Fátima almoça com César e as filhas. Decidida, inicia um diálogo com a sobrinha rebelde.
-Quer mais arroz, Luiza?
-Não, Tia, tá bom já. Obrigada.
-Você está comendo tão pouco.
-Vai acabar ficando doente desse jeito, Lu- alerta Talita.
-Nesse caso, é melhor comer, né? Pra evitar de dar mais despesas pros cofres da família- ironiza.
-A sua sorte é que eu acordei de ótimo humor. Portanto, eu não pretendo responder a qualquer provocação sua.
-E de que jeito você vai fazer isso, Pai? Dando na minha cara?
A campainha toca. César limpa a boca com um guardanapo e o joga sobre a mesa.
-Deixa que eu atendo a porta- levanta-se.
-Será que dá pra gente almoçar em paz, pelo menos hoje?
-Vê se me erra, Talita!
-Eu posso falar com o senhor, Dr. César?
-Beto? Tá fazendo o quê aqui?- Talita fica apavorada, com a possibilidade de mais uma briga.
-Ué, você conhece o Alberto?- César estranha a reação da filha.
-Peraí, vocês se conhecem?
-Ele é filho do Alberto Tavares Siqueira, que trabalha comigo no hospital há anos. Há quanto tempo nós não nos vemos, rapaz? A última vez que te vi você ainda era uma criança!
-Pois é, faz tempo mesmo. Eu queria conversar com o senhor a sós. Claro, se eu não estiver atrapalhando nada.
-Vamos ao meu escritório.
-Claro. Com licença- Beto fala de maneira tímida.
-Quer dizer que esse é o Beto de quem a Talita tanto fala?
-Ele mesmo, Tia. Mas o que ele quer tanto falar com meu pai sozinho?
-Só tem um jeito de saber, Talita- Luiza se levanta e puxa a irmã pelo braço- Vem comigo.
-Acorda, Luiza. Ele não vai deixar a gente entrar.
-Mas não pode proibir a gente de ouvir a conversa.
-Fiquem aqui as duas!- ordena Fátima- Vamos evitar de criar uma nova confusão com o César.
-Imagina, Tia. Meu pai só vai reclamar disso se nos vir, e eu garanto que não vai ser o caso. Vem, Talita- Luiza leva a irmã à porta do escritório.
Pensando estarem sozinhos, Beto e César começam a conversa, a portas fechadas.
-Seu pai pediu pra você vir até aqui pra me dar algum recado, Alberto?
-Não. O motivo que me trouxe até aqui não tem nada a ver com o meu pai. É sobre a sua filha, Talita.
-Pensei que havia me enganado, mas não; realmente vocês se conhecem. Posso saber de onde?
-Eu faço faculdade de jornalismo com a Júlia Romantini, que mora aqui no prédio com o irmão.
-Claro. Aquele irmão da Júlia... Sua colega de sala te contou o que o tal de Nuno aprontou com a minha filha mais velha, Luiza?
-Dr. César, não é do Nuno que eu vim falar, e sim de Talita.
-Sei. Mas você não me esclareceu de onde a conhece.
-Desde que suas filhas se mudaram pra esse prédio, começaram uma amizade com a Júlia. Como eu estou sempre visitando o apartamento, acabei me aproximando da Talita também.
-Fico muito feliz. Acredito que amizades como a sua possam render frutos saudáveis. Jamais ouvi queixa alguma com relação ao seu comportamento. Apenas estranhei que minha filha caçula nunca comentou qualquer coisa a seu respeito.
-Porque ele não nota as filhas- Luiza pensa em voz alta, atrás da porta.
-Fala baixo- Talita recrimina a irmã.
-Talvez ela esteja tímida de falar. Se mudou há pouco tempo pra cá, tudo é muito novo pra ela...
-Quem sabe, não é? Acho que está na hora de você pôr as cartas na mesa. O que de tão sério você tem pra falar sobre a Talita?
-Olha, eu pensei muito de falar com ela, mas achei melhor procurar o senhor.
-Uhum. Pra quê?
-Eu quero pedir a sua filha em namoro.

DEPOIMENTO

"Eu estava em casa quando comecei a passar mal. Pensei que era uma coisa sem importância, mas foi se repetindo. Insistiram pra que eu fizesse um exame e eu fiz, crendo que não ia dar em nada. Quando eu recebi o resultado, eu me senti morta. Tiraram meu chão. Procurei um médico, e ele me disse que o melhor tratamento que eu podia fazer era a quimioterapia. E meu câncer estava em estágio avançado. Resolvi contar ao meu marido, mas antes de dizer claramente o que eu tinha, perguntei se ele seria mesmo capaz de ficar do meu lado em qualquer circunstância. Ele me disse que sim, e isso me deu coragem pra contar. Comecei o tratamento há, mais ou menos, dois anos, e meu esposo me acompanhava. Pelo menos no início... Eu me vi em carne viva... E logo eu, que chamava a atenção, que era sempre elogiada pela beleza física, naquela situação? Muitas vezes, ele me dizia que foi justamente esse aspecto que o fez se interessar se interessar por mim. Como eu podia oferecer essa nova mulher, sem brilho de vida, debilitada e continuar um casamento que foi pautado por isso? Passei alguns meses internada, e quando estava pronta pra voltar pra casa, liguei pra saber se ele podia me buscar. Ainda me sentia muito fraca. Ninguém atendia, nem no telefone fixo, nem em casa. A minha irmã veio me buscar, e me levou pra casa. Assim que eu entrei, a primeira coisa que fiz foi pedir a minha irmã que me levasse até o quarto, onde eu abri o closet e não encontrei uma peça de roupa sequer que pertencesse a ele. Diante do meu desespero, ela chegou a me sugerir que eu passasse um tempo na casa dela, numa tentativa de me recuperar desse novo choque. Foi então que eu declarei: ʻnão se preocupe, eu vou conseguir ser forte. Vou ser forte aquiʼ. Isso não quer dizer, infelizmente, que eu não sinta a falta dele. Só de pensar que não o tenho mais, penso que vou enfraquecer de novo... Meu nome é Norma e tentar acreditar que o abandono não vai me vencer é a minha luta diária.
"

04/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 4: NUNO

-Tudo bem. Por mim, eu acho que tá tudo bem. Mas só vou se a Talita for, e se minha tia deixar.
-Claro que deixo, Luiza. Nuno mora aqui perto, ele e a irmã são de confiança.
-Pra mim não precisa nem perguntar. Já topei.
-Que massa!- Nuno sorri com o convite aceito- Então... Vou avisar à Júlia que vocês vão no sábado. Duas da tarde.
-Obrigada por avisar. Agradece à Júlia pela gente.
-Pode deixar- Nuno diz à Luiza, para em seguida acenar para Fátima- Valeu, Dona Fátima.
-De nada, meu filho.
-Tchau, Talita- fecha a porta.
-Tchau, Nuno.
-Só eu reparei?
-Reparou no quê, Tia?
-Ah, vá, Luiza! Nuno é todo educado, certinho... O menino quase gaguejou só pra chamar vocês pro apartamento. O que será que deu nele?
-Vai saber!- dispara Luiza.
-Liga, não, Tia. Ela tá se fazendo de difícil.
-Olha só, no lugar de ficar aí dizendo besteira, você bem que podia me ajudar com o trabalho de amanhã- Luiza volta a sentar diante do computador.
-Tá bom, Luiza, eu vou pegar o livro lá no quarto pra gente terminar e imprimir o trabalho. Já volto.
A sós na sala, Fátima e Luiza começam a se falar novamente quando a tia olha para a adolescente de maneira que demonstra ter percebido o interesse de Nuno. Fátima solta um sorriso.
-O que foi, Tia?
-Fala a verdade. Por que você aceitou ir pra festa da Júlia?
-Não era pra ter topado, né?
-Não, não é isso. Mas é que não dá pra deixar de comentar que Nuno não tirava os olhos de você.
-Impressão sua.
-Ele gostou de você, Luiza.
-E daí? Eu não quero ficar com ninguém.
-Sabe o que eu acho? Que você devia tirar a prova.
-Pirou, Tia Fátima?
-Normalmente, eu não costumo me enganar com o caráter das pessoas. Talvez o Nuno te faça bem. Dá pra ver só pelo carinho que ele tem falando contigo.
-Tô muito bem sem ninguém, tá?
-Você já é uma adolescente, Luiza. O mais natural é que uma hora você acabe se interessando por alguém da sua idade.
-Pra quê? Se for pra sofrer que nem a minha mãe, eu prefiro ficar sozinha.
-Do que está falando?
-A senhora acha mesmo que eu caio nessa conversa de pai amoroso que o Dr. César fala pra todo mundo?
-Não chama seu pai pelo nome.
-Na cabeça dele, ser pai é sustentar e pronto. Amor que é bom, ele não dá. Também nunca aprendeu, porque se fosse assim, ele ia estar com minha mãe até a morte dela.
-Casamentos acabam, Luiza. Já passou do tempo de você aceitar que a união entre o César e a Soraia não existe mais.
-O fim do casamento não importa. O motivo é que eu não aceito. Eu gosto de ser leal com todo mundo, Tia, e não me vejo do lado de alguém que não sabe ser desse jeito.
-E por causa disso, vai rejeitar todos que chegam perto de você? Porque não tem certeza da lealdade que você tem e os outros podem não ter?
-Ficar sem ninguém é uma decepção a menos, não acha?
Talita chega com o livro e Luiza retoma o trabalho escolar. Fátima sai da sala, preocupada com o ressentimento da sobrinha por César.

////

Chega finalmente o sábado. Bem cedo, um assistente social caminha pelo asilo e encontra Hermínia sozinha. O clima está frio, e a idosa está parada no meio do jardim.
-Já em pé a essa hora, Dona Hermínia?
-Passei a noite insone.
-O que foi que houve? Mal-estar?
-Não. São as minhas lembranças. Tem dias que elas estão mais latentes do que nunca... É como se eu tivesse acabado de vivê-las, ou mesmo como se estivesse lá.
-Quer conversar sobre isso?
-Deixa, moço. Eu posso sobreviver a isso, mesmo que me doa.
-A senhora tem que dividir seu problema com alguém.
-Se ao menos tivesse solução... Só que minha filha já está morta. Ninguém pode interceder por ela.
-Por favor, sinta-se à vontade.
-Soraia dividiu por anos a fio a sua agonia comigo.
-A que se refere exatamente?
-Ao casamento fracassado com César. Durante anos, ela alimentou o sonho de ser mãe, e pensou que estava dividindo esse anseio com o marido.
-E não estava?
-Até certo ponto, sim. Só que interesses em comum não garantem lealdade de ambas as partes.
-Por que diz isso? Ela não conseguiu engravidar do marido? E aquelas moças que vieram aqui outro dia? Não são suas netas?
-A mais nova, Talita, é deles mesmo. A mais velha, Luiza, é adotada. E é por causa dessa adoção que... – Hermínia começa a chorar.
-Se não quiser falar agora, eu posso deixar a senhora sozinha.
-Talvez você tenha razão. Eu ainda não me sinto pronta pra dizer qualquer coisa sobre o que aconteceu com a minha filha. Mas eu prometo que vou me abrir.
-Quando se sentir melhor, Dona Hermínia.
-Nunca vou me recuperar. Ninguém que perde uma filha é capaz disso, rapaz.
-Tudo bem. Não tem pressa. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar- o assistente se retira.

////

Beto e Júlia conversam na sala, enquanto Nuno e Hugo preparam uma pizza na cozinha. Com o som alto, ouve-se a campainha tocando. Beto ouve o barulho.
-Deixa que eu atendo- levanta-se do sofá, bastante solícito. Abre a porta e recebe as irmãs Luiza e Talita- E aí? Tudo bem?
-Beto!- exclama Talita, dando um abraço no novo amigo. Luiza entra com o presente e o entrega à Júlia.
-Parabéns, Júlia- abraça-lhe- Muitos anos de vida.
-Obrigada por virem. Não sabem como eu tô feliz de receber vocês aqui em casa.
-Acho que a gente chegou cedo demais, né? Só tem nós seis aqui.
-Que nada, boba! Eu é que quis fazer uma coisa mais intimista.
-Pensei que você fosse mais popular, que ia chamar mais gente...
-Ah, mas fiz isso no ano passado, e deu o maior rolo com o síndico do prédio. Pelo menos na segunda à noite, eu vou reunir toda a turma da faculdade num restaurante que fica perto de lá.
-Tudo bem, Luiza?- Nuno se aproxima.
-Tudo, e você?
-Melhor agora- a declaração constrange Luiza.
-Tenho a impressão de que vim à festa sozinha- observa Luiza, diante da empolgação de Talita num diálogo com Beto.
-Eu ouvi isso, hein?
-É pra ouvir mesmo. Vem falar com a Júlia aqui, sua doida!
-Parabéns, Julinha!- Talita, após a repreensão da irmã, trata de abraçar Júlia- Muitas felicidades, saúde, sucesso, amores... -enfatiza o último ponto com seu tom de voz sugestivo.
-Ih, menina. Mais fácil eu focar mesmo no sucesso, porque em amores...
-Que é isso? Vai ver tem alguém de olho em você e ainda nem se deu conta!- diz Talita, olhando para Hugo, demonstrando que sabe do interesse que ele tem pela anfitriã. O jovem retribui o olhar.
-Pena que eu não esteja muito disposta a isso, meu bem.
-Gente, eu não sou dono da casa, mas... Sentem. Fiquem à vontade- Beto pede às irmãs, para depois pegar uma bebida na geladeira.
-Ah, Nuno, você podia mostrar o teu quarto pra Luiza.
-Meu quarto?
-É. Infelizmente você quis ficar com o quarto que tem a vista mais privilegiada. Apresenta pra Luiza. Eu tô sentindo que ela vai adorar.
-Mas por que pra mim e não pra nós duas?
-Porque Julinha sabe que eu pretendo ficar aqui na sala. Pode ir, Lu. Eu vou ficar aqui.
-Vamo, Luiza?- pede Nuno.
-Tudo bem. Onde é?
-Por aqui...
-Milagre sua irmã ter topado. Por um momento eu achei que ela não fosse passar da porta do apartamento- observa Júlia.
-Qual é o problema? Ele só vai mostrar a vista do apartamento, né?
-Pois é. Nuno não vai fazer nada além. Nada além do que ela não queira junto com ele.
-Acha mesmo que minha irmã tá afim de Nuno?
-Até pode ser que não, Talita. Mas que ela fica lisonjeada com o jeito que meu irmão olha pra ela, não dá pra negar.
-Duvido muito, Julinha. Mesmo que Luiza goste do Nuno, ela é fechada demais pra deixar os outros sacarem.
-Aprende uma coisa, Talita: certas coisas a gente deixa no ar, e não tem ninguém que consiga camuflar o que a gente sente- conclui Beto.
-Que lindo isso que você disse...
-De que site você tirou isso, Beto? Porque da sua cabeça é que não veio- brinca Júlia.
-Tem hora que é difícil de lidar com sentimento escondido, Júlia. Se a gente não falar, como é que vai viver o que sente?
Hugo lê os lábios de Beto e nota falsidade em suas palavras.

////

Enquanto todos estão comemorando o aniversário de Júlia na sala, Luiza está no quarto de Nuno, olhando o sol se pondo através da janela, que ocupa praticamente toda a parede.
-Bonito, né?
-É. É lindo mesmo.
Nuno se aproxima da jovem, que está de costas para ele.
-Nem acredito que você tá aqui.
-Acho melhor a gente voltar pra sala...
-Espera. Não precisa fugir, eu não mordo.
-O que você quer?
-Olhar pro seu rosto, dizer que você não sai da minha cabeça desde que chegou...
-Já percebi. Saquei o jeito que você fala, como parece nervoso, até sua um pouco. Só tem uma coisa que eu não entendo em você.
-O quê?
-O que foi que você viu em mim.
-Pra ser sincero, eu não sei. Mas indiferente eu não consigo ficar.
-Nuno, é melhor a gente voltar pra sala, né?
-Fica aqui. Fica comigo.
Nuno se aproxima do rosto da jovem e troca um beijo lento com ela. Luiza une a sua mão direita à mão esquerda do irmão de Júlia.

////

Já à noite, Fátima se senta em frente à televisão da sala de estar pra acompanhar o noticiário. César destranca a porta.
-Boa noite, Fátima.
-Já aprontei seu jantar, César.
-Pense num dia complicado. Soube do acidente que teve na BR?
-Tava passando agorinha no jornal.
-Fui eu quem atendeu os feridos. Felizmente, ninguém sofreu nada mais grave.
-Ainda bem.
-E as meninas?
-Estão na casa da Júlia.
-Fazendo o quê lá? Já se entrosaram tão rápido?
-Nuno veio aqui avisar que hoje é aniversário de Júlia. Vai ter uma festa no apartamento.
-Isso foi a que horas?
-Eram duas horas da tarde.
-E você deixou as duas irem pro apartamento sozinhas?
-O que eu ia fazer lá? É festa de jovem, César.
-Por isso mesmo, Fátima! Será que você não entende? As minhas filhas estão expostas a qualquer coisa, com gente que mal conhecem! E se alguma delas experimentar um cigarro? Um baseado? Beber? Você não raciocina, mulher?- ele joga a maleta sobre o sofá.
-Das suas filhas eu não sei, mas das minhas sobrinhas eu conheço perfeitamente a índole. Nunca que Talita e Luiza... – a dona de casa vê o irmão destrancando a porta do apartamento- Onde é que você vai?
-Que pergunta imbecil, Fátima... – César abre a porta.
-Pelo amor de Deus, não faz essas meninas passarem vergonha, César!
-Eu é que espero não passar vergonha com elas. Tomara que não estejam fazendo nada de errado mas, de todo jeito, eu vou trazer as duas pra casa!
-Mas, César... vê o irmão, irredutível, fechar a porta.

////

Sobre o sofá, Júlia e Talita conversam animadamente. Beto e Hugo repartem a pizza retirada do forno, e o rapaz surdo-mudo serve os pedaços, enquanto Beto põe as bebidas fora do freezer.
-Eles tão demorando muito lá dentro, não?- Talita demonstra um pouco de apreensão por Luiza.
-O negócio não tá bom... Tá ótimo!- as duas riem- O prédio inteiro já sabe que meu irmão tá gamado na Luiza. Só hoje que ela foi se tocar.
-É que a Lu é meio fechada mesmo...
-Pra tudo tem a primeira vez, né? Mas agora me conta: como é que estão as coisas com o Dr. César?
-Tá tudo bem. Ele sempre pergunta como a gente tá, fiscaliza Tia Fátima... O problema é que o tempo dele é sempre corrido.
-Olha o que eu trouxe!- Beto sai da cozinha segurando dois pratos com fatias de pizza.
-Ah, esqueci de dizer: Beto tem habilidades na cozinha.
-Valeu, Júlia, mas eu confesso que precisei de uma ajudinha do Hugo pra preparar a massa. Aliás, praticamente todo o trabalho foi dele!
Talita parte um pedaço e o mastiga em seguida.
-Nossa, tá muito boa mesmo. Quem te ensinou, Beto?
-Morar sozinho tem suas vantagens, Talita. Depois de um tempo, a gente se vira.
-Mas tá muito boa mesmo. Vocês tão de parabéns.
-Quem sabe um dia desses eu não pinto lá na sua casa e faço uma pra vocês?
Hugo começa a observar a cena, desconfiado.
-Ia ser ótimo!
-Não vai comer a pizza, Beto?
-Vou já, já, Júlia. Mas antes eu preciso ir ao banheiro. Já venho.
Toca insistentemente a campainha. As meninas ouvem o som e se viram para a porta. Hugo sai da cozinha e vai atendê-la.
-Como é que ele sabia que tinha alguém?-Talita fica curiosa.
-Vai entender esse daí...
Hugo abre a porta.

////

Nuno e Luiza estão sobre a cama, cobertos por lençóis.
-E aí?- ele pergunta, ansioso.
-“E aí” o quê?
-Gostou da sua primeira vez?
-O que você acha?
-Eu acho que sim.
-Se você diz... - levanta-se rapidamente da cama e começa a vestir a roupa.
-Aonde você vai?
-Voltar pra festa. A gente já demorou demais, e eu não quero que fiquem comentando- recolhe a roupa do chão.
-Qual o problema? Parece até que não...
-Você quer virar pra lá, por favor?
-Por quê?
-Porque eu não quero que você me veja assim.
-Você tá de brincadeira comigo, né?
-Tá bom. Faz o que quiser.

Luiza começa a vestir a roupa. Nuno se enrola ao lençol e também levanta da cama, desconfiado.
-Eu fiz alguma coisa? Porque há uns minutos, você tava...
-Olha, esquece, tá? Passou. Não tem mais importância.
-Peraí, pode não ter pra você. Mas pra mim teve. Porque eu gosto de você.
-Pra quantas você deve ter falado essa mesma frase, hein?
-Luiza, eu não sinto nada por ninguém, a não ser você. E pra mim foi muito bacana o que rolou aqui...
-Ah, que bom que você gostou, mas isso não vai mais acontecer, tá? Eu não quero ter a ilusão de que isso vai sempre se repetir, ou então que eu vou estar disponível sempre, a hora que você quiser.
-Sinceramente, eu não te entendo.
-Eu gostei de você. Só isso. Não tem mistério nenhum.
-Como não tem? Você acabou de transar comigo, e não consegue nem falar o meu nome!
-Que loucura! Nasci pra ver um homem falando isso...
-Você não quer se aproximar de mim por quê? Pensa que eu sou igual a todo mundo? Ou pelo menos sou parte do mundo que você rejeita?
-Cara, eu vou te dizer uma coisa: eu amei estar aqui. Amei. Mas se eu quisesse repetir a dose, repetia.
-Sabe qual é teu problema? É que você tem medo de gostar de alguém, de se machucar. Daí, pensa que todo mundo não é digno de você.
-Não fala besteira...
-É, sim. Eu sei que você gostou de mim, e que não tinha entrado nesse quarto se não tivesse afim também. Só que você pensa que eu vou te usar, como provavelmente eu uso todas as outras.
-Não sei se você percebeu, mas... Eu não me comovo tão fácil!
Luiza abre a porta do quarto e encontra César com a mão na maçaneta. O médico olha com fúria para a filha e para Nuno, afastado da moça e enrolado no lençol.

DEPOIMENTO

"Sabe quando todo mundo diz que o que você sente não é amor, e sim doença? É mais ou menos isso que aconteceu quando eu conheci meu primeiro namorado. As meninas da minha idade já tinham tido relacionamentos, às vezes mais de um, e eu não queria saber de ninguém. Isso mudou quando eu conheci aquele rapaz. Ninguém mais me importava, o meu mundo girava só em torno dele. Passamos um tempo juntos, e um dia ele me convidou pra ir até a casa de praia dele, com a família dele. Me receberam bem, gostaram de mim... Na mesma noite, nós ficamos a sós. Ele disse que esperou muito, só que...Eu não quis. Não me sentia preparada. Ele me perguntou se eu não confiava nele, mas eu disse que precisava do meu tempo. A gente voltou e não falou mais do assunto. Muitos meses depois, eu terminei o namoro. Quando ele me perguntou o porquê, eu disse que era porque não entendia essa frieza. Quer dizer, até entendia, mas não queria aceitar. Jogou na minha cara que eu não mergulhei de cabeça na relação, que não tinha me entregado por inteiro. Tive que perguntar se ʻse entregar por inteiro era satisfazer os desejos dele e ignorar os meusʼ. Ele foi embora da minha vida sem me dar essa resposta. Meu nome é Priscila, e ter de pensar somente no que é melhor pra mim é a minha luta diária."

03/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 3: LUIZA

Os jovens que estão na praça aparentam certo entrosamento. Júlia fica ao lado das duas irmãs, que estão à sua direita, enquanto Nuno está junto de Luiza. No banco que está diante destes que foram mencionados, permanecem sentados Beto e Hugo.
-Quer dizer que vocês vieram morar aqui de vez com o Dr. César?- Júlia começa a disfarçar que está bem informada- Ele sempre falou bem de vocês.
-Pois é- responde Talita, um pouco tímida- E vocês moram aqui no prédio também?
-Eu não- Beto esclarece- Mas vez ou outra eu dou uma passadinha aqui. Júlia e eu fazemos o mesmo curso na faculdade: Jornalismo.
-Que massa. Também tô pensando em fazer pra essa área. Mas é só no ano que vem ainda.
-E os outros dois?- questiona Luiza, voltando-se para a direção de onde Nuno e Hugo estão.
-Sou irmão da Júlia. A gente divide o apartamento juntos. E ele é Hugo. Mora aqui no prédio também.
-Prazer- Hugo cumprimenta através da Língua Brasileira de Sinais.
-O que é que ele disse?-Talita desconhece o significado do gesto.
-Hugo é surdo desde criança. Quis dizer “prazer”.
-Ah, minha filha, só com Nuno do lado, porque ninguém entende nada do que esse daí diz- Júlia esclarece a proximidade entre os amigos.
-Júlia, ele sabe leitura labial. Cuidado com o que fala... –Nuno lembra a irmã.
-Mas não é?
-É que tanto eu quanto o Hugo somos videomakers. Ele ainda tem um canal em que ele traduz músicas gospel pra Libras; daí, eu dirijo e edito.
-Bacana- afirma Luiza, com certa timidez diante de Nuno.
-Sabe no que eu tava reparando? Que desde que vocês chegaram não colocaram o pé pra fora do prédio, só hoje- Júlia resolve tocar no assunto.
-Mas é que a gente ainda “tá” de luto- diz Talita.
-Se quiser companhia pra conhecer a cidade... – Beto fala olhando para Talita, até perceber que Luiza percebe uma intenção oculta e tenta reformular o convite- Quer dizer, se vocês tiverem afim...
-Aproveita que é aniversário da Júlia no sábado e chama elas, Nuno- Hugo gesticula.
-O que é que ele tá dizendo, Nuno?- Júlia pergunta, sem muita paciência com o amigo do irmão.
-Só tá me dando uma ideia. Ótima ideia- comemora Nuno, visando uma oportunidade de se aproximar de Luiza. Esta repara na troca de olhares existentes entre Beto e Talita. Fátima os vigia da varanda de seu apartamento.

////

Passados alguns dias, Fátima arruma o seu próprio quarto, e conta com a ajuda de Luiza para a tarefa doméstica. A tia limpa um abajur enquanto a sobrinha guarda na gaveta papeis que estão sobre a cama.
-Não precisa me ajudar, não, meu amor. Você chegou cansada da escola, junto com sua irmã.
-Imagina. A senhora tá sempre fazendo tudo sozinha, não conta com a ajuda de ninguém. Bem que podia pedir pro meu pai pagar uma empregada, não é?
-De jeito nenhum. Adoro cuidar da casa, dos afazeres domésticos. Não consigo me ver fazendo outra coisa.
-Já tentou fazer outra coisa?
-Quando eu tinha sua idade, até pensava em ser médica, acredita? Mas eu não consegui passar, mesmo tentando duas vezes. Depois disso, eu desencanei, como vocês costumam dizer. E também, alguém precisa organizar a vida do César.
-Tá bom, então- fala pesarosamente- Olha, Tia, onde é que eu guardo essas contas de água e de luz?
-Pode botar na terceira gaveta mesmo. Depois eu organizo melhor.
Luiza abre a gaveta indicada e encontra uma caixa marrom. Curiosa, retira o objeto e o abre, enquanto a tia está de costas, prestes a pegar uma vassoura encostada à parede.
-Tia, o que é isso?- procura saber o motivo da tia ter um objeto do tipo em seu quarto.
Fátima se assusta ao ver a sobrinha com um revólver na mão.
-Larga isso!- toma a arma de Luiza- Deixa eu colocar aqui na caixa...
-É seu?
-É, é meu- fecha a caixa e guarda na gaveta.
-Por que você guarda um troço desses?
-Pro caso de um ladrão invadir a casa. César e eu temos porte de arma.
-Verdade- Luiza continua desconfiada.
Talita entra no quarto.
-Lu, você viu onde eu deixei meu celular?
-No lugar onde você deixa sempre que a gente vai pra aula: a bolsa.
-Ah, é! Eu cheguei “em” casa e não me toquei de tirar ele de lá. Brigada, Lu- beija a irmã na testa.
-Ei, menina!- Fátima chama a sobrinha- Não vai almoçar, não? Chegou e não comeu nada.
-Daqui a pouco. Eu vou dar uma olhadinha no Whats e coloco o almoço já, já- Talita sai apressadamente.
-O que deu nessa menina?
-Trocou o telefone com Beto, aquele rapaz que estuda com Júlia.
-Quanta empolgação, hein? Mas isso é bom. Desde que ela chegou, eu ainda não tinha visto Talita sorrindo. Tomara que esse rapaz faça bem a ela.
-Também tô nessa torcida, Tia.

////

Luiza está fazendo uma pesquisa no computador enquanto Talita está ouvindo música através do seu celular, sentada no sofá da sala.
-Talita, vem me ajudar, por favor. O trabalho é pra amanhã.
-Tá vendo você? Eu disse que a gente podia ter terminado na sexta-feira mesmo. Já adiantei a minha parte faz é tempo.
-Sim, mas a sua parte foi a mais fácil de fazer. Você bem que podia me dar uma forcinha, esse negócio dos prefeitos que governaram a capital na década de 60 é insuportável.
-Poxa, Lu, já é domingo de noite, né?
-Já sei por que você não quer vir pra cá. Tá esperando Beto ligar ou mandar uma mensagem, não tá, não?
-Ele falou que por enquanto vai resolver o problema do projeto dele com Julinha, depois vai marcar de passar aqui.
-“Julinha”, é? A vizinha virou sua BFF agora?
-Para de implicar com a menina, Lu. Achei ela bem simpática. Ela e o irmão.
-Credo, você vai com a cara de todo mundo.
-Aliás, o Nuno... Nuno é o nome dele, né? Bem que eu reparei o jeito que ele te olhou naquele dia...
- Pronto!- Luiza se mostra decepcionada com o comentário da irmã.
-Nem venha, viu, Dona Luiza? Nem venha que você também reparou.
-Prestes a ser reprovada em História e você falando de “omi”? Querida, melhore!

Toca a campainha.
-Pode deixar que eu atendo- Talita corre pra abrir a porta- Oi, Nuno.
-Tudo bom, Talita? Tua irmã tá aí?
-Lu, vem cá!- pede Talita, virando-se para a irmã.
-O que foi?- sai da frente do computador, dirige-se até a porta e olha para Nuno- Oi.
-Oi.- responde timidamente.
-Você queria falar com ela, Nuno?
Fátima sai da cozinha e presencia a conversa.
-Sim... Quer dizer... Olha, a Júlia vai fazer uma reuniãozinha lá em casa no sábado, pra comemorar o aniversário dela. Vocês duas tão convidadas.
-Sério? Que massa, Nuno. Depois eu passo lá pra agradecer pessoalmente. A gente vai, sim.
-Sei, não, Talita. Tenho que estudar pras provas, é a semana inteira... – Luiza foge do convite
-Um dia só não vai te trazer problema na escola, Luiza.
-E depois, a gente tem que pedir permissão à...
-Não tem problema, minha filha- intercede Fátima, simpatizando com Nuno- É aqui mesmo no prédio. Não vejo motivo pra não ir.
-Aceita, Lu, a gente sai tão pouco de casa desde que veio pra cá...
-E então. Luiza?- Nuno demonstra curiosidade- Você vai com a sua irmã ou não?

DEPOIMENTO

"Se tem uma coisa que eu sempre fui, à minha vida inteira, foi desleixada. Me arrumar, até que eu me arrumava, mas com outro objetivo, sabe? Me sentir bem sozinha, comigo mesma. Quando eu era adolescente, minhas amigas sempre davam um jeito de usar a roupa da moda, imitar o cabelo que a artista da novela tinha, ou a cantora que emplacava qualquer música na rádio. Meu plano era simples, e ao mesmo tempo ambicioso: só queria ser eu mesma. Mas para todos, eu tinha que ter um público interessado em mim, pra tudo o que eu fizesse. Uma vez, eu fui ao shopping com uma amiga e estava usando uma blusa de botão atacada até o pescoço. Quando eu cheguei, toda composta, até que ela disfarçou, sabe? Mas depois de percorrer umas lojas, ela desatacou dois botões e disse: ʻos homens estão passando e te achando bonitaʼ. Uma coisa que eu sempre gostei de fazer foi ajudar no serviço da casa. Até minha mãe um dia disse que se eu não me entrosasse e não cuidasse de mim, nenhum homem ia me reparar. E eu podia ser a mulher mais bonita de todas. Daí, eu pergunto: por que eu tenho que me mostrar pros outros que eu sou bonita, e não pra mim? Eu sou menos mulher por isso? Meu nome é Roberta e viver à sombra do que os outros vão achar da minha aparência é a minha luta diária."

02/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 2: JÚLIA


-O que foi, meu anjo? Vem aqui, me dá um abraço.
-Claro... –Luiza abraça César, constrangida- O senhor demorou pra chegar, né?
-É como eu disse agora há pouco: o trânsito está cada vez mais caótico. Vocês já jantaram?
-Você demorou tanto, e eu estou cansada que já estava pensando em servir mesmo sem você aqui- enquanto Fátima fala, Luiza olha fixamente para o médico.
-Pois pode servir. Não comi quase nada no hospital, preferi vir direto pra casa.
-Por que o senhor não ajuda ela a servir a mesa?- a sugestão de Luiza faz Talita perceber a provocação, repudiando-a com o olhar.
-Ele teve um dia cheio hoje, minha filha.
-A senhora também!
-Deixa que eu ajudo a senhora, Tia- Talita acalma os ânimos- Vocês ficam aqui e a gente vai pra sala de jantar, tá certo?
César e Luiza sentam em sofás diferentes.
-E... A que horas vocês chegaram aqui?
-Não sei, eu não olhei pro relógio. Mas pelo sol, devia ser mais de uma hora da tarde.
-Pensei que vocês duas chegariam mais cedo.
-A ideia era essa, mas a gente teve que passar em dois lugares antes: na praia, pra jogar as cinzas de Mainha no mar; e no asilo onde Vó Hermínia tá internada.
-Hermínia, é? E como ela está?
-Conformada. Pra ela, isso ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde. Já andava distante, ela via a filha cada vez pior... Mainha também não queria mais saber de fazer visita no asilo... Como a gente não tinha condição de ir até lá pra avisar, pedi pro médico ligar.
-Acredite, Luiza: apesar de todo esse tempo que eu estive separado da Soraia, eu sinto muito pelo que aconteceu.
-Acredito, sim. O senhor tem mesmo muito o que sentir.
César sente que a filha lhe disparou uma indireta, mas se contém.
-A mesa tá pronta, podem vir jantar- Talita avisa ao pai e à irmã.
Luiza se levanta do sofá e segue Talita, deixando César bastante desconfortável com a situação.

////

Júlia está tomando um café no apartamento que divide com o irmão enquanto digita parte de seu projeto de extensão através do notebook. Nuno sai do quarto ao acordar.
-Já tá em pé, menina?
-Claro. Aproveitando o domingo pra adiantar ao máximo a parte escrita antes da apresentação.
-O Beto não tinha discutido com você detalhes da parte oral do trabalho?
-Tinha pedido dicas sobre ele, né, meu bem? Beto parece que não entende a manha do negócio. Uma insegurança que eu nunca vi.
-Nem todo mundo nasce com a sua versatilidade, Julinha. Se bem que eu desconfio dessa insegurança do Beto...
-Lá vem você insinuando que ele tem uma queda por mim. Imagina... Se bem que eu não tenho nem tempo pra isso.
-Mas eu pensei que hoje você ia, sei lá, descansar, dormir até mais tarde, pegar uma praia...
-Sigo uma lógica, Nuno: quanto mais tempo trabalhando, mais tempo vou descansar no futuro.
-Tá bom.
-Passei o café agora há pouco, aproveita- volta a digitar sem olhar para o irmão.
-Fala uma coisa, Júlia: você viu quem era a menina que tava ontem no "apê" do Dr. César?
-Sei. E veio acompanhada.
-Por quem? Tem namorado?
-Pela irmã, Nuno! Elas são filhas do César. Parece que a mãe delas morreu e o pai vai ter que cuidar. Na prática: a Fátima, né?
-Tá bem informada, hein?
-Dou ponto sem nó, não. A amizade com essas meninas vai me fazer bem. Imagina! Filhas do César Barbosa Telles? Um verdadeiro bônus pro meu círculo social!
-Você não se emenda mesmo. Vou botar o café que eu ganho mais- Nuno vai até a cozinha ao deixar a irmã rindo.

////

Sozinha, Hermínia caminha pelo asilo olhando para o céu. Anda com cuidado, lentamente. Também aos poucos, o seu olhar se entristece. Ela se encosta a uma parede e recorda a trajetória que o casamento de sua filha com César seguiu.

A ação é transferida para o mês de janeiro de 1998. Soraia, então com trinta anos de idade, está sozinha em sua casa, com as janelas fechadas pelas cortinas e as luzes apagadas. César sai do quarto, já arrumado para o trabalho no hospital.
-Pensei que tinha saído pra comprar o pão e fazer o café, não te vi na cama- beija a então esposa rapidamente...
-Passei a noite em claro, César. Pensando naquela menina que eu vi no orfanato.
-Soraia, pensa: uma criança de outra filiação, completamente desconhecida, pra gente cuidar? O médico disse que nós não temos problema nenhum em gerar um filho.
-Tá, eu sei, mas até quando eu vou ter que esperar? Nós já estamos juntos há onze anos, César. E nada do que a gente vem tentando deu certo até agora. Pensa, meu amor. Pensa como vai ser maravilhoso alguém dentro de casa, correndo por todos os cantos daqui, recebendo o nosso carinho...
-Às vezes você fala de um jeito, como se...
-Termina...
-Como se isso fosse um capricho que você precisasse realizar.
-Acho que a questão vai muito além de um capricho, César. É um sonho, e que não foi idealizado só por mim.
-Desculpe. Mas eu repito que agora filhos não são uma questão pra mim, e sim pra você.
-Mesmo assim, eu quero tentar mais uma vez.
-Quando você toca nesse assunto, eu fico me perguntando: será que nós somos mesmo felizes?
-Somos. Isso não nos impede de sonharmos mais, e unidos. Mas se você se sente incomodado com a situação, eu prometo não tocar mais no assunto.
-OK. Você venceu. E se amanhã eu procurar a assistente social pra saber o que a gente pode fazer pra trazer essa criança pra cá?
-Você não existe, meu amor. Não existe- Soraia o abraça calorosamente, após sorri emocionada.

-Hipócrita... –declara Hermínia, sobre o ex-genro.

////

Agora na praça que se localiza em frente ao prédio onde mora com Júlia, Nuno está com uma câmera na mão, gravando a tradução que o amigo e vizinho, Hugo, faz de uma música para a linguagem de sinais.
-Vai que é sua, Hugo- Nuno sinaliza para o jovem.
-"Quando chegar o amanhã, você vai lembrar que vim pra te dizer o quanto eu amo você. Quando chegar o amanhã e anoitecer, pare pra lembrar e jamais deixe de esquecer, porque eu sei que as coisas vão mudar. Basta apenas acreditar e continuar andando junto"...
Beto, que está junto à Júlia e um pouco afastado dos rapazes, questiona a colega de turma.
-Já vi esse carinha umas vezes com Nuno. Quem é ele?
-Hugo, nosso vizinho surdo-mudo.
-E por que Nuno tá gravando ele?
-Ele tem um canal num site de vídeos. Traduz músicas do segmento gospel pra Libras e parece que isso gera uma receita na home page.
-Pelo visto, você não vai muito com a cara dele...
-Normalmente, crentelhos são chatos, né? Nuno tem mania de abraçar o mundo, de ser simpáticos com todos à volta.
-Se veste de uma maneira bem simples, né?
-Claro, não tem berço! O avô do Hugo que era rico, e antes de morrer, deixou um apartamento como herança. Mas ele se vira só como vlogger mesmo. E como meu irmão tem vocação pra enxergar pobre de longe, né?- a observação preconceituosa de Júlia faz Beto rir. Logo, Júlia se vira para Talita e Luiza, que dão uma volta na praça em frente ao prédio- Olha só quem vêm aí.
-Quem são essas?
-Você vai conhecer agora. Meninas!- ambas escutam e olham com desconfiança para Júlia.
Nuno perde a concentração da filmagem ao ouvir a voz da irmã e se deparar com Luiza. Talita chama a atenção de Beto, e este percebe a amizade que Júlia quer construir com as filhas de César. Hugo, por sua vez, pressente que a possível aproximação entre Beto e as garotas não dará certo.

DEPOIMENTO

"Saí do abrigo com onze anos e fui levada pra uma cidade do interior. O homem que me adotou... Desculpa, eu sei que vocês estranham que eu não fale a palavra "pai", mas é que ele foi tudo, menos pai. Pra família, ele era um herói: trouxe a criança que eles tanto queriam. Pra mim também: ganhei uma família. No início, eu pensava isso... Comecei a achar que ser abandonada, preterida, rejeitada era mais cômodo do que viver lá. Quem ia desconfiar de alguém que me quis durante muitos anos, que não conseguiu levar pra casa um bebê de colo, mas levou uma pré-adolescente carente, educada, carinhosa? Pra todos e pra mim mesma, eu era uma criança. Pra ele não. Enxergava longe. Via uma moça linda que eu não ia demorar muito pra me tornar. E eu cheguei a ser o que ele previu, mas sem um resquício de inocência sequer. Era como se em cada chão que eu pisasse eu tivesse condenada a ter alguma coisa arrancada de mim. Foi aí que eu vi o quanto os outros se importavam comigo. Contei a verdade. Todos disseram que eu levantei falso contra um homem decente. Cortei relações, saí sem dar satisfação. Ninguém ia sentir falta de uma menina mentirosa. Só ele, que veio atrás de mim, e eu me escondia sempre. Mas aí eu pergunto pra vocês: se a gente se esconde quando tem culpa, por que eu ia me esconder? Meu nome é Alessandra e viver com uma culpa que não é minha é a minha luta diária."

01/08/2016

DIÁRIO DE LUTA/ CAPÍTULO 1: CÉSAR

Na beira da praia, Luiza e Talita estão com um olhar triste, contemplando o ato da segunda em segurar uma urna e abri-la lentamente. Talita derrama as cinzas da mãe na beira da praia aos poucos, e deixa suas lágrimas caírem. Luiza também quer chorar, mas parece resistente. Fecha os olhos.
-Me diz que isso é mentira, que ela vai voltar.
-Se eu tivesse chance, eu ia fazer de tudo pra ela voltar. Mas eu não consigo. Ninguém pode.
-Não foi tão de repente assim, mas... A gente via ela sofrendo, reclamando de dor, das vezes que ela ia pro hospital. Foi um descanso pra ela. Mesmo assim, é como se tivessem tirado ela da gente. O que é que a gente vai dizer pra Voinha?
-Tive coragem de dizer nada, não, Talita. Depois que a gente recebeu a notícia, pedi pro médico ligar pro asilo e avisar.
-Meu Deus, eu não quero nem imaginar como foi isso pra ela...
-A sorte é que Tia Fátima resolveu tudo. A liberação no IML, o velório, a cremação...
-E agora? Ela vem pra cá, pra ficar com a gente?
-Tia Fátima tem uma vida longe da gente, Talita.
-E Painho, Luiza?
-Aí é que tá: ele é responsável pela gente. Vai ter que cuidar de nós duas.
-Ele vem pra cá? Vai morar lá em casa?
-Não passou nem pra ver Mainha internada, não deu satisfação no velório, nem ligou pra dizer nada. Mas ele é o responsável. Tia Fátima disse que a gente vai ter que se mudar pro apartamento dele.
-Não sei. Não sei se vou me acostumar com essa vida nova, essa mudança. Eu ainda nem acredito que eu tô aqui, me despedindo...
-Se tivesse outro jeito... Mas tem uma coisa que não mudou: eu vou cuidar de você. Pra sempre- une a sua mão esquerda à direita de Talita.
As duas se olham de mãos dadas e demonstram compreensão uma pela outra, enquanto se despedem de Soraia definitivamente.
 

////
 

Hermínia está num banco de cimento, olhando para o céu. As irmãs chegam juntas ao asilo após terem passado pela praia, parando atrás da idosa.
-Voinha?- Talita chama, e Hermínia se vira para as adolescentes e esboça um pequeno sorriso, enquanto as jovens choram bastante.
-Vocês não imaginam o quanto eu queria ver vocês duas- sem se levantar, a idosa recebe um abraço emocionado das irmãs.
-Desculpa a gente não ter vindo pra cá ontem, mas...
-Deixe disso, Talita. O médico que atendeu sua mãe me ligou avisando. Pior que eu já estava esperando por isso. Passei o dia todo ontem com um pressentimento ruim. Soraia foi definhando. Poucas vezes vinha me ver, e quando vinha... Era aquele cansaço, a cara de derrota, de quem perdia uma batalha todos os dias.
-É... Ela não demonstrava, mas nunca superou o fim do casamento com Painho.
-No fundo, eu sabia que isso ia acontecer. Sua mãe não via mais razão pra continuar vivendo... Assim como eu também não vejo agora.
-Não fala isso!- Luiza repreende a frase de Hermínia- A gente precisa da senhora.
-Pra quê, Luiza? O que eu posso fazer? Daqui a pouco vocês duas vão crescer, fazer uma faculdade, namorar, casar... Vou impedir o curso natural da vida?
-Luiza tem razão. Depois de Mainha, a gente não vai suportar perder a senhora.
-Lutar pra quê, Talita? Minha filha se afastou de mim. Não foi a doença ou a morte que me separou de Soraia. A barreira era ela mesma, comigo e com vocês duas. Só fico mais tranquila porque sei que não vão deixar os estudos, que vão batalhar pra ser gente na vida.
-A senhora já sabe que a gente vai pra casa de Painho?- a neta mais carinhosa sonda a avó sobre a notícia.
-Imaginava, minha filha. César vai oferecer uma vida boa pra vocês, dar tudo que vocês precisam.
-Nem tudo... – alfineta a rebelde Luiza.
-Quando o pai de vocês era casado com Soraia, eu conheci a irmã dele, Fátima. Confio nela. Vai fazer um bem danado pra vocês passarem esse tempo com ela.
-Quando eu me emancipar, ganhar meu dinheiro, eu saio daquela casa e levo a senhora pra morar comigo- Luiza chega a prometer.
-Sou feliz até onde eu posso ser, meu amor. Mas eu vou pedir uma coisa.
-Pode falar- Talita demonstra cuidado com Hermínia.
-Procurem não bater de frente com o pai de vocês. Ele errou muito, mas o mal eu tenho certeza de que ele não deseja pras filhas.
-Não entendi. Ele errou muito em quê, Vó?
-Talita, é melhor a gente ficar na porta do asilo- Luiza procura desviar a atenção da irmã- Tia Fátima já tá com a chave de casa e tá fazendo nossas malas. Daqui a pouco, ela vem pegar nós duas num táxi.
-Peraí, eu quero saber o que ela tem pra dizer.
-O que eu posso falar é que é pra vocês não se preocuparem comigo. César vai saber manter melhor as filhas do que o próprio casamento.
Talita olha para a irmã com feição de dúvida, enquanto esta demonstra compreender as misteriosas palavras da interna.
 

////
 
À tarde, a tia das garotas, Fátima, carrega duas mochilas, enquanto as adolescentes trazem suas malas para o apartamento onde ela mora com César, seu irmão e pai das garotas.
-Pronto- Fátima dá um suspiro- Graças a Deus, a gente chegou.
-Nossa. Aqui parece que não mudou nada- Talita fica surpresa com o estado impecável que Fátima deixa a organização da casa.
-Eu mesmo nem sei a diferença. Fazia era tempo que eu não vinha aqui.
-Não vai demorar muito pra vocês duas se acostumarem a isso daqui.
-Tá enganada, Tia. A coisa vai ser bem diferente- Luiza demonstra seu pessimismo.
-Cadê Painho? Pensava que ele ia estar aqui pra receber a gente.
-Fui cuidar de colocar o almoço dele. César tinha uma série de consultas agendadas no hospital hoje.

-Tá, mas num sábado?
-Vida de médico é uma loucura sem tamanho, Talita. Sempre o César está à disposição do hospital.
-Vai ver ele não sabia como encarar a gente, depois de tanto tempo.
-Não é bem assim, Luiza...
-Tia, sem estresse, tá? Eu já entendi tudo...

-Entendeu errado. César queria estar com vocês, mas não deu. Só que de noite ele vai vir pra cá, sem falta.
-Deixa ela, Tia. Ela tá magoada. Ela nunca engoliu Painho ser um homem ocupado, sem ter muito tempo pra ver a gente.
-Já você aceita tudo numa boa sempre, né? Parece que adora uma migalha!
-Meninas, por favor. Não é hora de discutir. Ainda mais agora, que nós todos temos que nos unir. Eu posso não ser mãe de vocês, nem ter experiência com filho de ninguém, mas amor nessa casa eu sei que não vai faltar. Pelo menos não da minha parte. Bom, eu vou mostrar o quarto de vocês duas.
-Mostra a ela, Tia. Eu vou ficar aqui um pouquinho.
-Você é quem sabe, Luiza. Vamos, Talita, é por aqui...
Fátima e Talita vão ao quarto e a irmã de Luiza leva também a sua mala, enquanto a solitária jovem anda vagarosamente até a janela, na esperança de ver o carro do clínico geral chegando mais cedo.

////

Os amigos Nuno e Beto estão de volta ao prédio onde o primeiro mora, conversando animadamente na fachada.
-Será que tua irmã não chegou ainda, Nuno?
-Se não chegou, daqui a pouco aparece num táxi, cheia de compra do shopping. Isso é gostar de ostentar, né, não?
-Nunca fui disso. Mas Júlia adora. Parece que quer esfregar na cara de todo mundo que tem dinheiro, que é a melhor aluna da faculdade de Jornalismo... Uma autopromoção absurda!
-E eu bem não sei? Convivo com ela todos os dias lá na universidade. Mas a nossa competição é bem saudável. Pelo menos até onde sua irmã deixa ser assim.
-Vocês não competem, na verdade. Convivem juntos, até desenvolvem um projeto de extensão... Já decidisse como é que vocês pretendem fazer isso?
-A ideia que eu sugeri é que nós selecionássemos mulheres que foram vítimas de algum tipo de violência, doméstica ou sexual. Sabe o que foi que sua irmã disse?
-O quê?
-"Você anda entrando demais no Facebook. Já tá afetado por esse mimimi de feminismo".

-Isso é bem a cara de Júlia mesmo, Beto. Mas uma coisa que eu tava em dúvida era o seguinte: a Federal deu um prazo pra que... - Nuno olha para cima e vê Luiza na janela do apartamento, vendo a movimentação pedestre...
-Pra defesa do projeto de extensão? Olha, a pró-reitoria disse que é muito provável que isso aconteça antes do encerramento... – Beto percebe que Nuno não está prestando atenção- Nuno, tá me ouvindo? Ei, irmão! -estala os dedos.
-Desculpa, Beto, é que... – Nuno volta a olhar para a janela do apartamento, e Beto repete o trejeito.
-Hum, tá sentindo esse cheiro? Cheiro de crush no ar- Beto brinca com a situação.
-Essa menina eu nunca vi. Ela tá na casa de quem?
-Deve ser no apartamento daquele médico que mora perto de vocês, o Dr. César- Beto repara que Nuno ainda está olhando pra cima, mesmo quando Luiza entra em sua nova casa- Alô, alô? Planeta Terra chamando!
-Foi mal, cara. Bom... Bora ver se Júlia já chegou?
-Vamos- os rapazes entram no prédio.

////

Anoitece, e Luiza está na janela do apartamento, com o olhar totalmente perdido e uma feição extremamente abatida. Talita está no sofá, acessando a internet pelo celular. Fátima sai da cozinha.
-Ah, minha gente. Vocês vão me desculpar, mas dirigir aquela distância todinha, arrumar o quarto pras duas e ainda fazer o jantar pra esperar o bonito do pai de vocês duas? Vou é comer.
-Também vou, Tia. Tu não "quer" comer, não, Luiza?- Talita vê a irmã ainda em distração- Luiza?
-Oi? Me chamasse?
-Tia Fátima vai colocar o jantar. Não vai comer nada? Desde lá de casa que tu não "comeu".
-Tô sem fome. Se me apertar de madrugada, eu como qualquer coisa da geladeira.
Entendendo que Luiza não quer dialogar de nenhuma maneira, Fátima faz um sinal para Talita deixar a irmã sozinha.
-Deixa, Talita. Eu deixo um prato pronto pra Luiza depois. Minha filha, você me ajudar a forrar a mesa?
-Tá, tudo bem.
Quando Fátima e Talita vão até a cozinha, ouve um barulho: é a porta da casa sendo destrancada. César chega com um jaleco no braço esquerdo e a pasta do outro lado, junto ao molho de chaves.
-Tá cada vez pior, viu? Não tem mais condições de sair de casa sem enfrentar um engarrafamento no Ipsep- diz o médico, dirigindo-se à irmã, Fátima.
-César.

-O que é?
-Suas filhas. Você não vai dar um abraço nelas?
-Claro- a resposta é dada de maneira fria, depois puxando Talita para abraçá-la- Como é que você tá, minha filha?
-Tentando me acostumar. Mas eu vou melhorar. Ainda mais que a gente vai ficar mais perto do senhor. Por que o senhor não foi pro velório?
-Plantão, meu amor. Vida de médico faz seu pai abrir mão de muita coisa- Fátima dá essa justificativa, sabendo que César não tem outra melhor para apresentar.
-Deixa ele falar, Tia- Luiza sai de perto da janela e se dirige ao médico- O hospital que o senhor trabalha não lhe dá folga ou é o senhor que gosta muito de trabalhar?
-Ambas as coisas, minha filha. Pedir pra que alguém compreenda meus horários é uma tarefa impossível. E você, Luiza? Como é que você tá?
-Melhor eu não dar essa resposta.
-Tudo bem. Eu imagino o quanto isso deve ser difícil pra vocês duas, mas... Você não vai me dar um abraço, minha filha?- após a pergunta, a garota fica parada, olhando para o pai com bastante ressentimento.
-Responde, Luiza. Ele tá te pedindo um abraço... – Talita espera que a irmã reaja.
-Abraça o seu pai, meu amor.

DEPOIMENTO

"Eu tinha nove anos. Me lembro que era uma festa lá em casa, pra comemorar o aniversário de alguém, não me lembro de quem. Parece que era o meu. Disse pro meu pai que ia usar a roupa que a minha tia me comprou: um vestido rosa, de uma boneca que vivia passando na televisão. Estava me aprontando, e quando coloquei tudo, me olhei no espelho. Vi que uma brecha da porta do quarto tava aberta: era um primo meu, mais velho, que até convivia com a gente. Nunca reparei que ele me olhava diferente, até porque a gente tava sempre rodeado de parentes. Pois é... Foi nesse dia que ele percebeu que ninguém ia entrar ali porque eu trocava de roupa... (longa pausa) Não sabia o que ele tinha feito, nem porque tinha feito. Só achei estranho. Comigo, ele nunca mais fez isso. Dias depois, a família não falava de outra coisa. Pensei que ele tinha falado disso pra alguém, ou que alguém viu na hora e se calou... Passou na televisão ele sendo acusado de ter feito a mesma coisa com outra criança, de cinco anos. Fugiu pra não ser preso, ou então pra que a família da menina não fosse atrás dele. Já se passou tanto tempo, mas eu sempre acho que a qualquer momento, ele pode aparecer na minha porta, enxergar aquela criança que eu fui um dia e repetir aquele horror. Meu nome é Carolina e conviver com essa lembrança é a minha luta diária."