19/11/2016

REVISÃO ("SHAKE IT OFF", DE TAYLOR SWIFT)



(composição de Thiago Barros/ ideia de Antonio Nipo)

Árcade verei
De novo aprenderei
Sabe que não sei?
Sabe que não sei?

Pós-Barroco, ele vem
Antítese não tem
Iluminismo eu lerei
Juro que lerei

Tem bucolismo
Foge do urbanismo
E o feminino surgirá
Pro autor idealizar

Arcadismo eu verei, verei, verei
Neoclássico serei, serei, serei
Por professor eu farei, farei, farei
Revisão, revisão!

Pseudônimo terei, terei, terei
E um dez obterei, obterei
Setecentismo eu memorizarei
Revisão, revisão!

Há épicos que li
Poemas que eu vi
Começam a diferir
Tentam diferir

Basílio é figurão: tem por criação
"O Uraguai", que até então (que até então)
Marca inovação
Marca inovação

Revisão, revisão
Há, há, há revisão, há revisão
Há, há, há revisão, há revisão
Há, há, há revisão, há revisão

(Hey, hey, hey!
Como sou ruim de fazer rima, vou ter que improvisar essa parte sobre a literatura
Árcade)

"Marília de Dirceu" à frente
Também "Caramuru" enfrente
Gonzaga e Rita Durão podem cair no Enem
Para passar, caro discente, deve ler! Tem que ler!

13/11/2016

ANO NÃO REPETI ("CHANDELIER", DE SIA)

(composição de Thiago Barros/ ideia de Alanis Lima)

Professor ensinou
Na matéria: Modernismo vem
Com inovação, inovação

Anos 30 virão
Com inquietação,
Com a Segunda Geração, Geração

Lê "Quinze"! Lê "Quinze", sim!
Lê "Quinze"! Lê "Quinze", sim!
Lê "Quinze"! Lê "Quinze", sim!
De Rachel! Já pode passar!

Há prova que ano não repeti,
Ano não repeti:
Há nota que prova que os livros já li,
Que os livros já li
Modernismo volta-se pro social
Em fase regional
Há prova que ano não repeti,
Ano não repeti!

Agora Drummond surgirá
E da Guerra escreverá
"Sentimento do mundo" lerá
Pois cairá no vestibular
Graciliano conhecerá
Retirante retratará
"Vidas secas" eu sei que lerá
Pois cairá no vestibular, vestibular

José Lins do Rego
E Jorge Amado nem falei
Eu nem citei, eu nem citei

Vestibular
Jorge Amado no vestibular
Graciliano em vestibular, vestibular
Vestibular
Lins do Rego em vestibular
Carlos Drummond em vestibular
E a Rachel em vestibular, vestibular,
Vestibular



10/11/2016

ATENTANDO À LINGUAGEM ("HOJE SOMOS SÓ METADE", DE MARÍLIA MENDONÇA)

(composição de Thiago Barros/ ideia de Alanis Lima)

Sete só? Escreva mais!
Só não ultrapasse trinta- para o corretor já é demais!
Veja bem tempo do verbo. Tem bem conjugado?
Desenvolvimento você não tem condensado?

"Atualmente" professor
Condena no início. Ponto já tirou
Engana-se, se verbo pensa que vai pôr
Pois não é exigido
Em título.
Lê professor...
Condena no início. Ponto já tirou
Engana-se, se verbo pensa que vai pôr
Pois não é exigido...

Dissertando pro Sisu
Atentando à linguagem
Diploma sei que terás tu
Atentando à linguagem

03/11/2016

ELIPSE ("QUÍMICA", DO BIEL)

(composição de Thiago Barros/ ideia de Gabrielle Rocha)

(Só)
Decorando, hein?
(Só)
Lendo artigo, hein?
(Só)
Professor quem...
Dá ponto
Eu preciso agora estudar!

Elipse cai na prova final;

No Enem, no Enem
Há estilo, há figura gramatical
Para quem, para quem
Subtende o termo que é oracional

E que eu bem entendi
Pois serei aprovado no fundamental!
Uau!

Figura é de omissão

De termo na frase, sim
Percebo na construção
Que posso não repetir

O zeugma também é
Forma bem particular
Espero que você veja
Para não mais mencionar
Então...

Mec, do zero me privo
Má nota não tiro,
Eu vou aprovar!
Mec, do zero me privo,
Mas só advirto:
Consigo me classificar

31/10/2016

ONZE MIL/ CAPÍTULO 15

Bernardo se esquiva da resposta... Vê aquele menino mirrado, negro, que se apresenta pelo apelido e entende de quem se trata.
-O que você tá fazendo aqui?
-Não sei. Pra falar a verdade, eu não sei nem onde estamos. A única coisa que eu me lembro é que... Fui falar com meu filho, e veio um carro sem que eu me desse conta... – olha para o alto- Acho que vai chover. Ficou tudo tão escuro, de repente.
-Tá com medo?
-De quê?
-Desse escuro.
Bernardo sente a escuridão se acentuar sobre ele.
-Sim.
-Por que não pede a Papai do céu?
-Pedir o quê?
-Pra levar esse escuro embora.
-Ele não vai me escutar.
-Me ensinaram que toda vez Ele escuta, meu pai e meu avô.
-Uma vez eu pedi. Queria que Ele salvasse minha filha. Ela estava à beira da morte, e eu tinha prometido que se Ele a curasse, eu nunca mais ia me meter na vida dela.
-O senhor acreditou?
-Claro que acreditei. Eu só tinha essa esperança de que Ele fosse mesmo fazer alguma coisa, mas Ele não fez nada.
-Não. O senhor acreditou no que o senhor disse que ia fazer?- a pergunta de Kim emudece Bernardo- Vê só: se pedir sem acreditar, não funciona.
-Eu não acredito em milagre. Já passei por tanta coisa difícil na minha vida que pra mim é impossível.
-Existe, sim.
-Como é que você sabe?
-A minha mãe eu não tenho. Mas eu tenho minha família: meu avô e meu pai. E tem uma coisa que eu peço toda vez.
-O que é?
-Que Papai do céu cuide do meu pai. Ele diz que queria cuidar de mim com minha mãe, mas ela tá no céu.
-Senhor, salve o meu irmão de toda malignidade, da sombra da morte. Desperta esse coração, para que possamos engrandecer o Teu nome- ouve-se a voz de Miguel.
-Tá ouvindo?
-Essa voz é do meu irmão. Mas de onde vem?
-Senhor, cuida do meu pai. Tu sabes o que ele tem feito com toda a nossa família, mas não permita que ele se vá sem conhecer o Teu amor, pra que aprenda a amar também...
-Yanna- constata Bernardo.
-Meu Deus, se quiser me castigar, venha, mas não leve meu pai. Não deixe ele ir embora com ódio de mim, com ressentimento de todos nós. Abre os olhos dele.
-Raffael...
-Senhor, cuida do meu avô, o pai da minha mãe. Faz ele feliz.
-Até o filho da Carolina... - com vergonha, finge não saber de quem se trata.
-É, eu sempre peço por ele. Meu pai me contou que ele deve chorar muito porque a minha mãe foi morar no céu.
-Mas... Por que eu estou ouvindo tudo isso? De onde que vem?
-Acho que eles querem ver o senhor voltar pra casa.


Subitamente, Bernardo acorda na sala de triagem de uma policlínica, ouvindo os choros de Miguel, Yanna e Raffael. O enfermeiro que o acompanha se assusta ao ver seus olhos abrindo. Logo, corre para chamar os parentes do empresário, sem ao menos saber o que falar. Miguel estranha a reação do rapaz.
-O que foi?
-Ele acabou de abrir os olhos.
-O meu pai?- Yanna corre para ver se Bernardo realmente está vivo e fica maravilhada. Sem se importar com os seus ferimentos, abraça o pai- Graças a Deus! Graças a Deus que você tá vivo, Pai!
-O que é que está acontecendo?
-Pai... Você tá vivo- Raffael se emociona, também abraçando o pai na hora, ainda que ele não tenha noção do que esteja acontecido.
-Como Tu és maravilhoso, Senhor! Obrigado, meu Deus! Obrigado por trazê-lo de volta à vida!- Miguel se ajoelha para agradecer.

...

Lucas olha para o filho desacordado e fala:
-Me leva no lugar dele, meu Deus. Mas não faz isso comigo, não tira ele de mim.
-Lucas, o que foi?- Osmar acorda assustado- O Kim piorou?
O monitor cardíaco registra a volta dos batimentos do menino.
-Kim?- Lucas chega perto do leito- Kim, meu filho, você tá me escutando?
A criança abre os olhos.
-Tava sentindo sua falta, Pai.
-Oh, meu Deus... – Lucas derrama suas lágrimas sem medo.
-Mas não faz nem duas horas que ele foi pra casa, Kim. Seu pai não demorou tanto assim, não...
-Demorou, sim. Achei que ele não ia mais voltar.
-Você também demorou pra acordar, meu filho. Pra mim, pareceu a eternidade.
-Se eu te falar um negócio, não vai ficar de mal de mim?
-Não. O que é?
-Tá muito engraçado você careca, igualzinho a mim.
Lucas ainda se arrisca a soltar o riso, vendo a felicidade do filho em vê-lo vivo. Não se contém e o abraça, mesmo estando o garoto deitado.
-Aconteceu o quê com você, Lucas?
-Só a confirmação, Pai.
-Confirmação de quê?
-De que os milagres acontecem.

ALGUMAS SEMANAS DEPOIS...

Bernardo desce com uma mala do seu quarto, e Miguel abre a porta, olhando o irmão com uma feição inconformada.
-Tem certeza de que é isso que você quer, Bernardo?
-Alguma opção que você possa me sugerir?
-O que você está fazendo é radical demais. É como se estivesse condenando seus filhos.
-Meus filhos são adultos, Miguel. E isso já ocorreu há bastante tempo, eu é que não quis ver.
-Deixar tudo pra trás, o trabalho, a família, recomeçar em outro lugar... Tudo isso é arriscado, Bernardo.
-Não será nenhuma surpresa pra eles. Já conversei e admiti que preciso dar um tempo pra mim e pros dois.
-Sinceramente, eu não entendo. Você é tão obstinado pelos seus objetivos, e de repente resolve deixar tudo pra trás.
-Miguel, há anos que eu insisto em ser de uma forma que acaba me machucando. Raffael e Yanna não vão sofrer pela minha ausência. Só assim eles vão saber que podem realizar seus sonhos. Do que adianta impor a minha vontade? Carolina não iria voltar só porque eu orei pra ver a sua cura.
-Pois é. Te faltou acreditar naquilo que pediu a Deus.
-Engraçado... Você já é a segunda pessoa que me diz isso.
-Quem te falou antes?
-Esquece, não importa.
-Bernardo, não está fugindo com medo deque a Yanna te denuncie pelo roubo dos onze mil CDs, não é?
-A questão foi esclarecida pela Sílvia, não é? Yanna sabe que fui eu quem arquitetou o assalto. Mas a intenção dela era de lançar o disco de qualquer forma. Essa obstinação certamente ela herdou de mim.
-E quanto ao Kim? Você vai continuar ignorando seu neto?
-Tudo continua do jeito que está, Miguel. A única alteração vai ser a minha retirada. Esse menino passou cinco anos sem ter nenhum tipo de contato comigo, não criamos nenhuma espécie de vínculo. Por que fazer isso agora?
-Ele está com linfoma, você sabe disso.
-Claro que sei. Por isso eu quero que Raffael e Yanna prestem assistência, caso ele precise de alguma coisa.
-Não existem substitutos quando se trata de afeto.
-Meus filhos não estão me substituindo. Estão assumindo um papel que queriam assumir e não tiveram oportunidade, porque eu os impedi. Nunca vou dizer que jamais vou chegar perto daquela criança, mas hoje eu não me sinto preparado pra nada disso.
-Nem mesmo pra pedir perdão a Lucas, pelo seu preconceito?
-O único culpado pelo desespero da Carolina, que culminou na sua morte, sou eu. Uma vez, eu disse que era o único que tinha o direito de sofrer pela morte da minha filha. Agora eu cheguei à conclusão de que estava certo. Porque quem contribuiu pra esse desfecho trágico fui eu.
-A Carolina morreu te amando, Bernardo. Tanto que confiou a você e ao Lucas a responsabilidade de cuidar do Kim.
-Mas eu não fui capaz. Olha só o que eu fiz com os meus filhos, Miguel. Eles não me respeitam, me temem. Vou condenar essa criança à minha tirania também? Bom, o que eu quero falar com você antes de viajar é o seguinte- entrega-lhe as chaves da mansão- Toma conta da minha casa, e dos meus filhos.
-Por quanto tempo você pretende ficar?
-Até me despir dessa escuridão que me assombra. Isso pode levar uma vida toda.
-Você vai sair assim, sem nem dizer ao menos pra onde vai?
-Pra quê essa afetividade toda, Miguel? Despedidas, abraços e lágrimas em excesso? Sejamos práticos. Tudo isso é uma prévia longa da minha agonia em ficar longe deles, mas é necessário. Fique tranquilo, porque eu vou dar notícias.
-E como você encara essa aproximação dos meninos com a Sílvia?
-Sílvia soube construir um novo lugar. Aquela mulher frívola que largou os três filhos desapareceu e foi substituída por uma mulher que não sabe fazer outra do que conquistar os filhos dia após dia. Você não vê, Miguel? Até o Raffael, que é o mais teimoso dos três, perdoou a mãe desde que ela voltou pro Brasil, embora nunca tenha me dito e até tenha destratado a mesma em público.
-Sua ex-mulher conseguiu o seu perdão?
-Quem sabe? Mas eu não me sinto em condição de me relacionar com ninguém, nem com meus filhos, nem com meu neto, nem com o ex-namorado da minha filha, minha ex-mulher... O que esperar de um homem que não se entende?
-Realmente, não quer que eu vá com você?
-Faça o que você sempre fez enquanto eu estive aqui: ore. Às vezes, funciona.
Miguel dá um abraço emocionado.
-Que o abraço que nenhum homem pode dar na sua alma, Deus venha a dar. Ainda que no tempo Dele.
-Que assim seja. Enfim, me deseje uma boa viagem.
-Sempre. Me liga quando chegar ao seu destino.
-Caso eu saiba qual é... – puxa a mala e se retira da mansão.

...

Um táxi traz Bernardo até o aeroporto. Com a mala, ele passa pelo saguão do local, mas vai até a varanda, cuja janela dá pra observar a pista de decolagem. Começa a chover forte. Só há um pai, segurando o filho nos braços, no local além do empresário. Os dois homens recuam.
-É muito grande esse avião, Pai- Bernardo reconhece a voz da criança.
-Viu só? Sempre disse que ia te trazer e acabei trazendo- Lucas comenta, virando-se em seguida para encarar o olhar surpreso de Bernardo- O senhor?
-Pensei que vocês estavam no hospital. Me falaram que seu filho estava doente.
-Pois é. Linfoma.
-E como ele está agora?
-Passou pela primeira sessão da quimioterapia. Foi aí que o Joaquim aprendeu o que era milagre. A médica examinou depois que terminou a primeira parte do tratamento e disse que ele acabou. Aumentou a expectativa de vida. Claro, ele vai ficar a vida toda se cuidando, mas... O pesadelo passou. A gente acabou de sair da Oncomed, mas não foi pra casa. Joaquim insistiu em conhecer o aeroporto.
-É Kim!
-Tá bom, Senhor Kim, não se fala mais nisso- Lucas ironiza o comentário do filho.
-Fico feliz. De coração. Você fez o que eu disse.
-Me afastar da sua família?
-Não. Provar pra todo mundo que você ama a minha filha. Essa é a maior prova de amor que ela poderia receber.
-Faria mais se ela estivesse viva. Me coloquei contra todas as previsões de que um filho, tido aos dezesseis anos, criado por um cara negro e pobre, ia me trazer sofrimento- Bernardo entende isso como uma indireta.
-E você venceu. É digno de admiração. Bom, eu tenho que ir, não posso perder o meu voo- vira-se ao puxar a mala.
-A benção, Vô- a frase de Kim deixa Lucas e Bernardo sem reação imediata.
-Deus te abençoe, Joaquim... Kim- segue para a fila.
-Filho... Como você sabia que esse homem também era o seu avô?
-Toda noite, eu peço a Papai do Céu pra cuidar dele também. E um dia, ele apareceu no sonho. Tava com muito medo porque tava sozinho. Mas ele nunca vai ficar sozinho.
-Como é que você sabe?
-Todo dia, tem uma pessoa que ora por ele: eu.
-É por isso que eu amo tanto você, sabia?
-Também te amo, Pai.
O abraço mais longo dos últimos dias é trocado por Kim e Lucas.

...

Uma livraria é o palco do lançamento de "Minha Liberdade Pra Te Adorar", o primeiro disco de Yanna, que assina sem o sobrenome Mutarelli. Nela, marcam presença Raffael, Sílvia, Miguel e Cadu, que é o primeiro a cumprimentar a amiga pelo CD.
-A gente conseguiu, minha amiga!
-Graças a Deus. Obrigada por tudo, Cadu. Obrigada por nunca ter me deixado desistir.
-Nunca me faça dar um puxão de orelha, hein?- o produtor abraça a amiga, aos risos.
Miguel e Sílvia conversam sobre a carreira da moça.
-Até que enfim ela deu o pontapé que precisava pra carreira. A voz da Yanna ainda vai chegar a muitos ouvidos.
-Me sinto tão privilegiada de ver essa alegria no rosto da minha filha, Miguel. Acho que ela nunca foi tão feliz.
-Sílvia, ela está aprendendo a ser feliz, essa que é a verdade. Inclusive, saiu uma resenha ontem no jornal. Ganhou uma avaliação de cinco estrelas.
-Nossa! Quer dizer que, se depender da crítica...
-A crítica aprovou, mas o principal aval veio antes, de cima!- Miguel aponta para o alto.
-Miguel, me diz uma coisa: o Bernardo deu notícias?
-Deu, sim, Mãe- Raffael se intromete na conversa- Está em um hotel em Lisboa.
-E ele está bem?
-Caminhando. Sem previsão de volta. Falei com ele hoje, e ele mandou um beijo pra Yanna, pelo lançamento do disco...
Alice chega à livraria e atrai a atenção de Raffael.
-Tudo bem, meu sobrinho?
-Tio, me dá licença.
-Claro, pode passar.
-Aquela moça é a que causou o desentendimento entre o Raffael e o Bernardo.
-Não, Sílvia. O desentendimento entre o meu sobrinho e o meu irmão foi culpa do meu irmão. E ele já entendeu isso.
-Não imaginava que você viesse.
-Pensei que a tua irmã tinha avisado que me mandou o convite. Até relutei em aceitar, mas ela disse que eu precisava vir até aqui.
-Até adivinho o que ela disse: as canções vão dar um abraço na sua alma.
-Pois é. Usou essas palavras, quando foi me chamar no hospital.
-Olha, eu... Eu queria te pedir desculpas por tudo que eu disse, pela forma como eu te tratei.
-A sua reação foi o último resquício do que a Alice Dubeux podia fazer de ruim pros outros e pra si mesma. A revelação dessa verdade, que me consumia, foi o que eu precisava pra enterrar de vez esse passado.
-Cara, eu não sei se eu tô sendo ridículo com o que eu vou dizer, mas...
-Espera, Fael. Acho que já sei o que é. Tentar de novo, não é isso?
-A Alice conseguiu me enganar enquanto esteve comigo. O olhar da Amanda não. Tanto é que continua vivo, pulsante, como se nós dois tivéssemos nos conhecido agora. Eu é que não enxerguei que o teu passado morreu.
-Fael... Pra eu voltar pra você, eu vou ter que me desfazer da Alice. Mas eu te peço uma coisa.
-Diz.
-Não se desfaz de nada que te compõe. Igual a você, eu não vou encontrar em canto nenhum.
-Quer dizer que...
-Prazer, Amanda. Por enquanto, o que você sabe de mim é que eu sinto uma necessidade enorme de ficar com você o resto da minha vida.
-O prazer é todo meu. Meu nome é Raffael e a minha profissão é te fazer feliz a cada segundo- dá as mãos à moça e a leva para perto do palco, onde já estão Sílvia e Miguel.
No palco, estão Yanna e Cadu. Uma repórter pergunta:
-O que o público pode esperar do seu primeiro disco, Yanna?
-Unção, esperança, fé... Tudo que, no processo de produção, era impossível que eu tivesse, mas tive. E quanto mais aumentavam as dificuldades, mais eu corria o risco de fazer Deus ser coadjuvante nessa trajetória. Minha preocupação era a de torná-Lo protagonista absoluto.
-Você pode dar uma palinha de alguma faixa?
-Claro. Eu e o Cadu, meu produtor, compusemos uma versão do nosso texto preferido: o capítulo 91 do livro de Salmos. Tem como você tocar essa canção pra mim, Cadu?- dá a mão direita ao amigo.
-Sempre- pega o violão e senta para tocar, enquanto Yanna se apresenta aos convidados da coletiva.


-Temos o prazer de chamar o orador da turma de Direito 2016.1 da Universidade Estadual de Pernambuco: Lucas da Costa Silveira.
Todos os presentes aplaudem durante a cerimônia que ocorre simultaneamente ao lançamento do disco, principalmente Osmar, que vê o filho subir ao palco acompanhado de alguém muito especial.
-Obrigado por me deixar viver pra ver isso, meu Senhor.
-Boa noite a todos. Confesso que quando fui escolhido pra essa tarefa, não imaginaria que tanto tempo se passaria e nem que tanta coisa acontecesse nesse intervalo. Quando estava preparando o meu discurso, sabia que teria que falar das dificuldades que aparecem no nosso caminho, dos inimigos que se levantam a todo momento. Durante um tempo, eu vivi uma experiência horrível, e não tinha condição de ir à universidade todo dia. Mas hoje eu tô aqui, pronto pra mostrar aos meus professores, meus colegas de turma e a todos os que estão aqui que, se for pra vencer, não vença sozinho. E meus companheiros de turma têm consciência disso. Portanto, o meu discurso não vai ser só meu. O texto que eu... Ou melhor, que Kim e eu vamos dizer essa noite, já é um tanto conhecido- começa a recitá-lo- Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
-Eu vou dizer do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio e a minha fortaleza.
-Pois Ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa.
-Vai cobrir você com as Suas penas, e debaixo das Suas asas, vai ficar seguro.
-Não temerás terror noturno, nem seta que voa de dia.
-Nem da peste que se espalha no escuro... – Kim recorda os dias difíceis que passou na Oncomed, e volta a sorrir quando Lucas o segura firmemente- Nem da mortandade que assola ao meio-dia.



-Mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido- Bernardo continua a leitura com o livro sagrado na mão, numa solitária mesa de restaurante.