19/05/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 3


-Pai, esse é o Michel. Eu o conheci...
-Em Lisboa. Como vai o senhor, Doutor Kleber?
-Muito prazer, Michel.
-Aposto que essa bela senhora, com todo o respeito, é tua mãe. Acertei?
-Isadora Goulart, muito prazer.
-O prazer é todo meu, Dona Isadora.
-Fiques à vontade, pode chamar-me de Dora. Se és amigo de meu filho, não são necessárias tantas formalidades.
-Uma pena que nós já pedimos a conta, senão te convidaríamos para se juntar a nós nesse jantar, que foi magnífico.
-Que lástima, não é mesmo?- Tato busca interromper a conversa, mas é contido por uma declaração dada por Dora.
-Mas se quiserem conversar, o Tato pode subir ao quarto depois.
-Ai, que bom. Queria mesmo trocar umas palavrinhas com teu filho.
-Tu não nos disseste que um amigo teu vinha às Bahamas, Tato...
-Michel é bem imprevisível, Pai. Por isso eu nem cogitei a possibilidade de ele aparecer por aqui.
-Confesso que sou meio andarilho, Doutor Kleber. Trata-se da minha natureza.
-Bom, a noite foi longa para nós todos. Minha esposa e eu vamos nos recolher. Boa noite, Otávio.
-A bênção, Pai- Tato estende a mão.
-Deus te abençoe, filho- após o gesto, Dora se aproxima do jovem.
-Durmas com os anjos, querido- beija a testa do filho- Boa noite, Michel.
-Boa noite.
Esperando que Kleber e Dora possam tomar o elevador, Tato volta-se contra Michel.
-Queres me explicar o que foi isto? Como sabia o nome do meu pai? Aliás, como tu sabias que eu me chamava Otávio?
-E acabei de saber também que teu apelido é Tato, segundo palavras de tua mãe. Procurei saber informações sobre tu na recepção do hotel. E acredite que não foi nada fácil dialogar em inglês pois, como vistes, praticamente engatinho.
-A troco de quê?
-Gostaria de me desculpar pela forma que me portei quando cheguei, as coisas que eu lhe disse... Certamente, não foi boa a primeira impressão que tu tiveste de mim.
-Não se trata de primeira impressão. É a transparência.
-Na maior parte das vezes, somos elogiados por isso.
-E ganhsa desafetos exatamente por isso. Olha, eu não sou de julgar a vida de ninguém, e nem tenho este direito.
-Mas eu não queria que tu ficasses com raiva de mim por conta do que eu penso. É como eu disse ao teu pai: é a minha natureza, eu não sei como mudar isto. Tudo indica que tu foste educado de uma maneira diferente, mas não funciona com todo mundo.
-Desculpa-me, eu me sinto feliz assim. E acredito piamente que quem desejar ficar do meu lado pense exatamente desta forma. Sinceramente, não consigo entender tanto empenho em mudar a minha opinião sobre ti.
-Não costumo colecionar inimigos por onde eu passo.
-Eu não sou teu inimigo.
-Claro que o meu modo de ser não é unanimidade, mas eu nasci exatamente pra isto: ser livre de qualquer amarra, de qualquer rótulo que queiram impor a mim. Se eu sei que sou capaz de sentir amor, posso muito bem dividir com quem realmente merece- cumprimenta o filho de Dora e Kleber- Será que agora podemos nos apresentar, formalmente, sem ouvir rumores sobre um ou outro?
-Meu nome é Otávio e... Continuo sem entender o que queres saber sobre mim.
-Como bons amigos que seremos, apenas aquilo que tu me quiseres confidenciar.
A tática funciona, e naquela mesma mesa Michel e Tato conversam tanto que parecem se conhecer há bastante tempo. Valente, por sua vez, não se sente tão à vontade para dialogar num refeitório composto por casais que utilizaram o Lisboa Noite na noite anterior. Seja pela expressão tímida, por aparentar ter menos de dezoito anos ou pelo simples fato de estar sozinho, consegue os olhares para si.
-Posso?- Paula pede um lugar na mesa ocupada pelo saxofonista.
-Claro, fique à vontade.
-Como foi a noite?
-Não consegui fechar os olhos. Tenho medo de sair daqui e descobrir que ainda é noite.
-Entendo- declara, depois de uma rápida risada- Deve ser bem difícil pra ti.
-O que sabes?
-Ao que parece, tu não tens muito conhecimento de mundo, não apresentas malícia... Estás aqui por mera obra do acaso.
-Não consegui me instalar em nenhuma pousada por conta do que arrecadei ontem. Isto vai mudar. A fé que eu tenho não consegue me demover da ideia.
-Pelo menos tu tiveste um lugar para dormir... Quer dizer, um teto sobre a própria cabeça. Estás aqui, tomando um café da manhã. Não podes reclamar. Já diz o conhecido ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”.
-Pior que terei de discordar de ti. Deus escreve certo por linhas tão certas quanto. Nós é que não sabemos interpretar o texto.
-Que bonito. Quem escreveu isto?
-Não sei, fluiu de mim. Mas deveriam grafitar isso por Lisboa inteira.
Depois da refeição, Valente volta ao quarto, pega as suas coisas e sai novamente à praça, onde interpreta novas canções para o público. Longe dali, Fabiano volta ao centro lisboeta acompanhado de Ednete, a sua esposa, comprando alguns ingredientes num supermercado para fazer uma sopa e, à noite, distribuir entre os moradores de rua.
O casal retorna à noite para a praça, com duas panelas e duas mesas armadas, para colocar alguns pratos descartáveis e entregar aos desabrigados. O saxofonista também está na praça, mas longe dali, ainda que possa ver a movimentação. E logo Valente, que estava cansado e sem tocar nenhuma canção há um tempo, percebe a aflição no rosto de Ednete, em meio à quantidade de pessoas sem-teto que não para de crescer.
-O que houve, Nete?
-Será que não vês, Fabiano? Não tem como alimentar este povo todo. As pessoas não param de chegar.
-Não tinhas feito as contas para saber o quanto iríamos gastar?
-Sim, mas eu não imaginava que esse povo todo apareceria aqui.
Uma ideia permeou a cabeça de Valente: dirige-se ao centro da praça e voltar a interpretar as canções que conhecia, colocando novamente o boné de volta ao chão. A iniciativa traz os transeuntes para perto do saxofonista, e muitos depositam dinheiro dentro do acessório. Fabiano estava tão nervoso que não se deu conta de que era o mesmo rapaz a quem havia cumprimentado no dia anterior, e Nete pensou se tratar de mais um ambulante à procura de dinheiro.
Passadas cinco músicas e recebendo calorosos aplausos dos que passavam pela praça lisboeta, carregou o saxofone, a mala e o boné, indo em direção ao casal evangélico, tirando vinte euros para si. Nete o olhou com extrema desconfiança, acreditando se tratar de outra pessoa faminta.
-Sinto muito, a sopa acabou.
-Tu, gajo?- admira-se Fabiano.
-Tomes, senhora- entrega a maior parte do dinheiro arrecadado.
-Nós não estamos vendendo nada, garoto. E não há mais comida.
-Eu sei. Compres alguma coisa pra esse pessoal que está aqui.
-Desculpa-me, o que disseste?
-Já é tarde, daqui a pouco fecham as portas de tudo por aqui. Não vai dar tempo de fazer outra sopa, mas... Dá pra matar um pouco a fome do pessoal.
-Mas... Esta é a tua féria.
-Não tem problema, amanhã eu trabalho de novo e consigo mais.
-Se é assim, obrigada, então. Fabiano, eu vou ver o que dá para ser comprado no mercado, não demoro.
-Tudo bem- Fabiano nem chega a ver a esposa se afastando, de tão atônito com a atitude- Tu arrecadaste isto tudo e não quiseste ficar com nada?
-Tirei um poucochinho. Um dia sem comer não é nada perto do que eles vivem diariamente. Com certeza, vocês saberão usar este dinheiro melhor que eu. Terei que ir.
-Esperes. Eu estou de carro. Se quiseres, eu posso levar-te até a tua casa, logo depois que minha esposa voltar.
-Acredites, não é lugar para o senhor. Fiques na paz de Deus.
-Que ela te acompanhe, e que não te falte fé.
-Só por essas palavras eu já sei que ganhei o meu dia.
Irremediavelmente, Valente se vê de volta ao Lisboa Noite, mais feliz do que no dia anterior por ter conseguido extrair sorrisos dos outros, a despeito de si mesmo.
E a despeito da felicidade alheia, Tato permanece com um sorriso de orelha a orelha, desde que teve uma conversa mais amena com Michel, logo depois que os seus pais saíram do restaurante do hotel. Passados alguns dias, Dora vem observando o humor de seu filho único, ainda mais alegre do que antes da viagem.  Eis que, num momento em que Kleber sai cedo do quarto para dar um passeio sozinho, sua esposa toma café da manhã enquanto o jovem levanta-se da cama.
-A bênção, Mãe.
-Deus te abençoe, filho. Queres tomar café?
-Claro- senta-se à mesa, enquanto Dora prepara uma xícara de café.
-Como foi que passaste a noite?
-Dormi como um anjo. Há tempos que eu não dormia tão bem. Não é de se estranhar, haja vista o lugar onde estamos. E o meu pai?
-Saiu cedo para espairecer. A viagem realmente fez bem a ele. Isto seria impensável na cidade tumultuada em que moramos. Mas, ao que me parece, mudar de ares momentaneamente não é um benefício exclusivo para o Kleber.
-Poderia perfeitamente passar o resto da vida aqui, desfrutando da beleza deste lugar.
-Uma coisa que eu reparei: não vi mais o Michel.
-Michel?
-Aquele teu amigo, que nos foi apresentado em nossa primeira noite nas Bahamas.
-Ah, Michel é meio andarilho. Se duvidar, nem aqui ele está mais. É o tipo de pessoa que não para em lugar nenhum.
-Nem tu.
-O que quis dizer com isto?
-Não vivo no campo da suposição, das palavras que eu gostaria de falar e não posso dizê-las. Eu não quis dizer, Tato; eu disse.
-Ainda não entendi.
-Tu tens saído sucessivas vezes desde que nos hospedamos, muitas delas sem nós.
-Qual é o problema? É natural querer um pouco de privacidade, o Papai não está fora do hotel agora?
-Otávio, não te dês ao trabalho de fingir que não compreendeu aquilo que eu disse. Consigo ver o quanto tu estás mudado, mais feliz, com um sorriso permanente no rosto.
-Por acaso isto não é bom?
-Dize-me tu. Porque estás a comportar-te como se estivesses apaixonado por alguém.
-Mera impressão tua, Mamãe- Tato toma um gole do seu café, procurando levar o diálogo da forma mais natural e menos reveladora possível. Dora o observa de maneira perturbadora, ao menos para ele- O que queres tu que eu te fale?
-Se a sua súbita mudança de humor é decorrente dessas saídas frequentes que tu tens feito, Otávio.
-Por favor, queres ser mais clara?
-Perfeitamente, meu filho. O tal de Michel não é teu amigo como vocês dois alegam ser, não é?

12/05/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 2


Comovido com o talento do rapaz, Fabiano não espera sequer que Valente termine de interpretar a canção e trata de colocar três moedas em um boné que o saxofonista colocou ao seu lado. Muitos dos que estão naquela praça lisboeta também desconhecem a beleza dos versos de “Nos amou”, que o jovem interpreta naquela ocasião. O fato é que ninguém foi capaz de perceber a aflição que atinge o músico, que tenta imaginar para onde vai, se o público gostará a ponto de lhe ajudar... Um turbilhão de dúvidas que se amontoam a cada segundo, ainda que ele não deixe transparecer qualquer tipo de preocupação.
Valente fica o tempo todo de olhos fechados, por medo de encarar o público, e também não pode contemplar aquele pastor que se aproxima. Ao fim daqueles sete minutos, assustou-se com todas aquelas pessoas ao seu redor, batendo palmas. Fabiano chega ainda mais perto, apertando sua mão um tanto trêmula.
-A paz do Senhor, meu filho.
-Amém, irmão. Que Deus te abençoe.
Fabiano se despede e vai até o seu carro, quando uma transeunte que havia parado para acompanhar a apresentação clama para Valente:
-Interpretes mais uma, por favor.
-Claro- responde o saxofonista, com leve timidez- O que queres tu que eu toque?
-Pode ser qualquer canção.
-Ainda bem- pensa Valente, por não conhecer muitos gêneros musicais, executando outra canção de cunho cristão: “És p’ra mim”.
A garota em questão é Olívia, a irmã mais velha de Beatriz, que por sua vez é a amiga que acompanha uma inconsolável Clarissa, inconformada pelo término de seu namoro. Ao menos, Olívia sabe como manter seus pés firmes no chão e numa fé em Deus que Valente também conhece muito bem. E seu boné foi ficando cheio, ao passo que o repertório de canções católicas do qual se lembra é transmitido ao público por meio do doce som do saxofone.
Depois de ouvir a segunda canção, Olívia faz questão de ajudar o desamparado e volta para casa, após um dia de muito estudo na faculdade de Medicina. Ao chegar, encontra Beatriz e Cissa, esta em um estado deplorável devido à ingestão alcoólica excessiva.
-Nossa... O que foi que houve contigo?
-Será que tu não imaginas, querida irmã?
-Já sei: o Ricardo certamente terminou tudo contigo mais uma vez, não é isto?
-Parece que eu sou a única idiota que não percebeu que este namoro só existia na minha cabeça.
-Olha, Cissa, eu sei que nessas horas não é muito recomendável dizer este tipo de cousa, mas...
-Eu avisei-te!
-Beatriz!- Olívia fica espantada com a franqueza da irmã.
-Avisamos inúmeras vezes, Olívia. O Ricardo deixou bem claro, desde o início do namoro, que não era boa cousa. Só que esta daí resolveu levar adiante.
-Mas eu achei que, com o tempo, conseguiria mudar a forma como ele age.
-Este é o teu mal, Cissa- opina Olívia- Tu acreditas que és capaz de mudar alguém. O problema reside justamente neste ponto, amiga: ninguém muda por amor, ele é quem transforma. Se não houve mudança, não houve amor.
-Tu sabes que eu não ligo muito pra este sentimentalismo que tu e a minha irmã entendeis como ninguém, mas hei de concordar com ela.
-Eu vou passar um café para nós três. Aliás, tu poderias dormir aqui, já que não tens condições de voltar para casa.
-Veio dirigindo até aqui, acreditas?
-Realmente é sério. Bom, eu vou ligar pro teu irmão, para que ele não fique preocupado.
-A última coisa que o Michel está neste momento é preocupado, ainda mais comigo.
-O gajo viajou de novo, acreditas?
-Mentira, Beatriz... De novo?
-Aquele ali não vai parar quieto nunca.
-Fiques com ela, enquanto eu apronto o nosso café. Já venho.
-Tudo bem, Clarissa. Levantes desse sofá agora mesmo.
-O que é, Beatriz?
-Agora chega. Chega! Eu não vou deixar que tu fiques a sofrer por um desgraçado que está cansado de pisar naquilo que tu sentes por ele.
-Só quem sabe da minha dor sou eu, Beatriz! Tu não podes impedir-me de sofrer por isto.
-Escuta-me, Cissa! O que tu viveste com aquele cara foi mera ilusão. Precisas parar de sofrer, ou não vês que isto está acabando contigo aos poucos?
-Para tu, é muito fácil falar. Não estás na minha pele!
-Comeces de uma vez por todas uma nova história. Não dizem que um amor se cura com outro amor?
-Pensas mesmo que eu estou à procura de outro homem justamente agora? Por favor, Beatriz. De decepções eu já estou mais do que saturada!
-Até que eu não sofri tanto com os términos dos meus namoros. Cissa, chega uma hora em que nós cansamos de ser tratadas como lixo, mas acredite que isso passa. E vai passar.
-Nem tu, nem ninguém é capaz de me dizer quando esta tua suposição realmente vai se concretizar.
-Pois eu sei muito bem: no dia em que tu encontrares um homem e o fizeres sofrer.
-Esta sua teoria é a coisa mais estapafúrdia que eu já ouvi.
-Quando tu conheceres alguém que realmente esteja apaixonado por ti e não por si mesmo, saberás o que é ter a vida de um homem nas mãos. Daí em diante, manipularás ao teu bel-prazer.
-Quem passar pela minha vida não vai pagar pelos erros que o Ricardo cometeu comigo.
-Então, vinga-te do Ricardo. Não foi ele o responsável pelo teu sofrimento? Trates de ser feliz aos olhos dele. Certamente, não existe resposta à altura. Mas, de todo modo, dês um jeito de não demonstrar a tua infelicidade perante este canalha. Tomes uma atitude o quanto antes, porque enquanto tu estás cá às lágrimas, ele tripudia do teu sofrimento sobre uma cama, com outra mulher.
Ao fim daquele dia que parece não ter fim, a família de Kleber chega ao destino inesperado das suas férias: Bahamas. O patriarca dos Goulart vai à recepção e solicita que um camareiro leve a bagagem de Tato e de Dora para os quartos. Ele e sua esposa aparentam estar cansados, e se surpreendem quando o filho demonstra estar animado para conhecer as belezas do hotel imediatamente.
-Não vais entrar no teu quarto, filho?
-Agora, Mãe? Este lugar é lindo. Queria muito conhecê-lo agora mesmo. Queria, não: quero.
-Mais tarde nós vamos jantar e podemos passear um pouco. Por que tu não esperas até a noite, Otávio? Depois, não vais dizer que queres descansar, não é?
-Neste paraíso? Vou agora e posso garantir que mais tarde irei com vocês dois.
-Tu és quem sabe, filho. Mas eu vou ficar no quarto com tua mãe e dormiremos um pouco.
-Prometo que não demoro. Obrigado pelo presente, Pai- Tato beija a mão de Kleber e desce pelo elevador.
Saindo novamente, encontra uma tarde ensolarada e diversas pessoas conversando no saguão do hotel. O irmão de Cissa, o mais que inconstante Michel, dirige-se à recepção, onde tenta dialogar com um rapaz no balcão.
-Good afternoon... É, é... “An” bedroom…
-A bedroom?- o rapaz o corrige.
-Isto mesmo- a expressão de alívio de Michel atrai a atenção de Tato.
-Name?
-Michel Marques Barboza.
-Parece que temos outro português por aqui... – Tato se aproxima.
-Verdade... De onde tu és?
-Lisboa.
-Sabes que eu também? Prazer, meu nome é...
-Michel Marques Barboza. Desculpe, foi inevitável de ouvir. Percebi uma certa falta de...
-Traquejo.
-Pois é, gajo.
-De fato, eu não domino o idioma inglês. Mas confesso que me esforço bastante. Se bem que é mais interessante, ao menos pra mim, conhecer os lugares, não criar raízes, ter inúmeras histórias pra contar... E por que não dizer... Ter paixões para colecionar?
-Isto nem sempre dá certo.
-Como tu sabes?
-Uma pessoa que coleciona paixões mundo afora não pode fazer outra pessoa feliz senão ela mesma.
-Talvez o intento seja justamente este.
-Sei bem, mas não é justo. Se tu consegues construir a felicidade sobre a ruína das pessoas que te deram amor, o máximo que farás é exercer uma veia psicopata.
-Não é para tanto, meu caro. Eu já me apresentei... E tu? Não vais dizer o teu nome?
-Claro que eu vou falar... Para quem realmente merece ouvir. Com licença.
-Two-four-seven.
-Como disseste?
-Your bedroom: two-four-seven.
-Ah…
Interessado em ouvir as verdades que Tato tem para falar- mais em quem fala do que o que for dito por ele- Michel procura informações a respeito do garoto com o recepcionista. Quem também está à procura de informações, longe dali, é Valente. É a quarta pousada que ele entra naquela noite, procurando um lugar para dormir.
-Não é possível.
-Desculpa, mas com o que tu tens, não dá pra ficar nem uma noite aqui- constata a idosa, que é proprietária da pousada.
-Sabes onde tem alguma pensão ou pousada com um preço mais em conta? Pelo amor de Deus, já é a quarta vez que eu entro numa dessas!
-Querido, é o preço do mercado, não adianta discutir. Mais barato do que isso, só se tu passares a noite num motel.
-Oi?
-Aliás, tem um aqui na rua, o Lisboa Noite.
-Tu acreditas realmente que eu passarei a noite num motel?
-Quer ir acompanhado?
-A questão não é essa, minha senhora. Mas ir a um lugar desses? Prefiro dormir na rua!
-Em certos momentos, a integridade moral mais atrapalha do que ajuda.
-Que queres dizer?
-Gajo, dormirias na rua munido de um saxofone, de uma mala com teus pertences pessoais e um boné que contém o acumulado de tuas apresentações ao relento? De onde tu achas que vieste? De inseminação artificial?
Valente fica pensativo.
-Lisboa Noite é o nome do... Do... Do estabelecimento lá, não é?
-Motel! Logo aqui do lado. É bem mais em conta para as suas posses no momento. Confies.
-Obrigado, então- agradece, constrangido, e vai até o local- Boa noite.
-Boa noite- responde Paula, a recepcionista.
-Eu vou... Vou...
-Querer um quarto?
-Isto, eu quero um quarto.
-Certo. Documentos de identificação, por favor.
O saxofonista entrega o seu cartão de cidadão.
-Ainda tem quarto vago?
-Sim, temos dois. Deixa-me anotar aqui: Valente Valença... Parece até nome de artista- olha para a bagagem e o saxofone carregados pelo jovem- E pelo visto, é mesmo.
-Imagines...
-O quarto é para quantas pessoas?
-Como assim? Normalmente num motel só vão duas pessoas para um quarto, não?
-É que nós temos regras rígidas aqui. Temos que saber quantos se instalarão para, então, verificar quais são os espaços disponíveis. O mínimo de ocupantes é dois e o máximo é vinte.
-Vinte????
-Sabes como é.
-Não sei, não.
-São as peculiaridades da intimidade humana. Ponho-te no quarto de dois ou no aposento de vinte?
-Moça, é que eu vim só. E para passar uma noite.
-Sozinho num motel? Depois quando eu falo em peculiaridades, as pessoas tomam-me por louca. Escuta-me, tu realmente tens dezoito anos? Porque tens cara de quem sequer desmamou.
-Sim, completei hoje.
-Bela comemoração... Olha, o quarto pequeno disponível é o duzentos e sete.
-Até que horas eu posso ficar?
-Até as sete e meia da manhã, quando serviremos o café. Custa vinte a pernoite.
Valente começa a contar o dinheiro e entrega à recepcionista, sem querer encarar-lhe diante da embaraçosa situação.
-Está aqui.
-Subas às escadas, é no terceiro piso- entrega-lhe o molho de chaves.
-Obrigado. Tenhas uma boa noite.
-Igualmente... A propósito, tira-me uma dúvida: tens o sono pesado?
-A Madre Joana diz que eu tenho sono de passarinho, com qualquer barulho eu sou capaz de acordar.
-Neste caso, você precisará de uma ótima noite de sono.
Valente não entende a indireta, mas se dirige ao quarto. Encosta o saxofone e a bagagem à porta do duzentos e sete e se deita numa cama king size forrada por um lençol vermelho e algumas pétalas de rosas, mas não sem antes sacudi-la. De tão exausto que está, não demora muito para que ele alcance o sono...
Sono esse que dura cinco minutos, pois o casal do duzentos e oito, indiscreto como só ele sabe ser, recomeça o ato de... “conhecimento físico mútuo”, digamos assim. Tendo o saxofone como principal companheiro ao longo daquele dia, Valente coloca todos os travesseiros da king size sobre as orelhas. Uma tarefa que, aos olhos do par escandaloso e impactante, parece bastante inútil.
O dia amanheceu em Lisboa, bem menos nublado do que na ocasião da maioridade do saxofonista, mas ainda era uma quente madrugada nas Bahamas, onde Dora, Kleber e Tato têm se divertido com os ritmos latinos executados no restaurante. Cansados, voltam à mesa, onde o patriarca pede a conta.
-Acho que já está na hora de voltarmos para o quarto.
-Tem razão, meu amor. Vamos, Tato.
-Claro, Mãe.
-Quanto tempo, Otávio!- de surpresa, Michel aparece no restaurante- Como é que tu estás?
-Vocês dois se conhecem?- a indagação de Kleber deixa o filho sem saber o que responder.

05/05/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 1


Ele acordou tarde no dia em que fez dezoito anos. O que o despertou foi o som do saxofone que era tocado pela Madre Joana, numa agradável surpresa. Ficou sentado no quarto, ocupado apenas pelos dois, uma vez que os adolescentes que dormiam lá estavam tomando o café da manhã, e o jovem deixou algumas lágrimas caírem enquanto Joana executava a canção.
-Preciso desejar-te um “feliz aniversário”, meu anjo?
-Somente este momento é um presente. Obrigado por começares meu dia deste jeito. Só não sei se ele será tão feliz.
-Já conversamos sobre isto. Hoje, o diretor vem ao orfanato, e eu te prometi que vou falar com ele, não disse?
-Mas eu confio na senhora. Primeiro, em Deus, lógico. Mas não sei se Ele vai concordar com minha permanência. Independe da senhora, infelizmente.
-Estás preparado para receber o presente que eu trouxe para ti?
-Como assim? Além dessa surpresa, eu vou ganhar um presente?
-Nesse momento, estás a olhar para ele.
-Quer dizer, o...
-O saxofone. É teu.
-Não, Madre. Eu não posso aceitar.
-Nada te impede de receber. Aceites, meu filho, é de coração.
-Mas o sax é teu. A senhora adora, apresenta-te com ele nas quermesses, nos eventos do orfanato, nas igrejas...
-E tu aprendeste a tocar, de tanto ver-me. Já te vi experimentando algumas vezes, e tocas até melhor do que eu.
-Nem me comparo...
-Podes poupar-me das cerimônias. Aceites, eu nunca te dei nada de valor.
-Como se teu amor de mãe não contasse. Quantas vezes a senhora não me segurava quando eu via algum menino saindo daqui, adotado, e eu ficava para trás? Sempre que eu sentia falta de um pai, nem dava tempo- passa a segurar as mãos de Joana, emocionado- Deus dava-me de presente um amor de mãe.
-Olhes, eu... – Joana pigarreia e recupera o fôlego após a declaração do interno- Eu vou conferir se ele já chegou para conversar com ele a respeito da tua situação.
-Desejo-te sorte, então.
-Desejes tu aquilo que nós sempre vamos ter: o amor do Pai.
-Obrigado pelo presente- o rapaz se levanta e, emocionado, dá um abraço na madre, que se dirige apreensiva à sala do diretor, batendo à porta.
-Está aberta- responde ao ouvir o som provocado pela madre, mas de uma maneira seca.
-Como vai, Senhor Diretor?
-Foi bom a senhora ter aparecido aqui, Madre. Queria mesmo falar com a senhora.
-Algum problema?
-Sim, é a respeito de um dos internos- vasculha os papeis que estão sobre a mesa- O nome dele é Valente Valença. Sabe quem é?
-Sei, sim, senhor. É justamente sobre ele que eu vim falar.
-Na ficha desse menino... Chamá-lo de “menino” é até meio improvável. Aqui diz que ele atinge a maioridade exatamente hoje.
-É verdade.
-O rapaz já foi avisado disto?- ironiza.
-Senhor, eu vim aqui para interceder por ele.
-Sob qual propósito, Madre?
-O menino ainda não tem emprego, nem mesmo um lugar para ficar. Vim apelar para a tua consciência e pedir-te um favor.
-Queres que eu o deixe ficar?
-Nem que seja por um tempo.
-Imaginei que fosse isto. Não fiquei sabendo de nenhuma movimentação desse garoto para deixar o orfanato. Tampouco das freiras que comandam a instituição.
-Diretor, não é uma situação que dependa exclusivamente de nós.
-Ao contrário. Creio que isto poderia ter sido resolvido há muito tempo, não fosse o fato de que, claramente, vocês fazem vista grossa para a situação deste rapaz.
-O problema é que ele tem procurado bastante, ao contrário do que o senhor pensa. Acontece que ele precisa estabelecer-se primeiro, arrumar um trabalho, ter um salário...
-Não me olhes como se eu não desejasse isso, é exatamente o que eu quero. Mas bem que o teu protegido poderia fazer isso fora daqui, não concordas?
-Não estou tirando a tua razão, de maneira alguma.
-Mas estás colaborando dando falsas esperanças para ele, de que pode ficar aqui quando, na verdade, não há mais espaço para ele. Por favor, não me venhas com firulas. Fales com esse rapaz o quanto antes e exijas que ele saia do orfanato.
-Para onde ele vai?
-Isto, Madre, não é problema meu e eu não faço a menor questão de que assim seja. Agora vás conversar com ele.
-Sim, senhor. Com licença.
-Tens toda.
Os corredores estavam vazios porque os meninos ainda estavam no café. Pode-se ouvir o choro da Madre Joana, inconformada por não saber o destino do rapaz ao qual tanto era apegada. Demorou para voltar ao quarto, e não se deu conta de que não se ouvia o som do saxofone- um sinal estranho em meio à felicidade do presente que o jovem demonstrou. Muniu-se de coragem e voltou ao quarto, sendo surpreendida ao ver uma mala aberta sobre a cama, com algumas peças de roupa que ele organizava.
-O que estás fazendo?
-Desculpa-me, Madre. Acabei ouvindo tudo que ele disse.
-Por favor, fiques. Talvez eu ainda consiga convencê-lo de que...
-Não adianta usar teus argumentos, o diretor não vai querer escutar-te novamente.
-Tu não tens para onde ir, meu filho... Como vais conseguir sobreviver na rua?
-Sabes que fiquei perguntando-me isto à noite toda? Nem consegui dormir esperando uma resposta. Só que eu não consegui.
-Na rua, tu não ficas.
-Não te indisponhas com ninguém por minha causa. Eu vou ficar bem.
-Sozinho? Com uma leva de roupas e um saxofone?
-Já se esqueceu de que eu nunca estive sozinho, Madre? Nem mesmo quando meus pais me deixaram? Porque Deus não se esqueceu de mim, nem me desamparou- dizia ele, segurando-se numa força que nem ele mesmo acreditava ter.
-O que tu pretendes?
-Posso tocar na rua. Se eu conseguir alguma coisa, eu tento passar a noite num hotel ou numa pousada, não sei. A verdade é que a senhora quis dar-me um presente e concedeu-me o ganha-pão.
-Esperes.
-O que foi?
-Não vais sair daqui. Pelo menos, não sem a minha bênção.
-Que seja, então- abre um tímido sorriso- A senhora pode dar-me?
-Eu abençoo-te em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Não deixes de dar-me notícia, meu filho.
-Podes deixar. Eu vou ficar bem.
O garoto levanta a mala e leva o saxofone, com certa dificuldade. Até que é indagado.
-Não vais despedir-te dos teus amigos?
-Melhor não. Eu sempre tentei tirar sorriso de todo mundo que gosta de mim. Não vai ser agora que eu vou arrancar lágrimas de alguém. Prometo que eu volto para dar notícias. Boas notícias.
Joana o acompanha até o portão do orfanato e despede-se do jovem, que caminha sem saber para onde numa manhã dublada. Havia chovido há pouco. As ruas estavam sujas, cobertas de lama, cheias de poças d’água. Ele dobrou dois quarteirões e foi surpreendido por um carro preto, que passa rapidamente e acaba por molhar a perna esquerda do órfão. Encosta o saxofone em um muro e passa a mão na calça que está usando, na tentativa de limpá-la. Depois, prossegue caminhando sob um céu cinza.
O motorista distraído é Kleber, dono de uma agência de viagens. Era vinte e cinco de janeiro e ele havia acabado de resolver alguns assuntos pendentes no local em que trabalhava. Havia conseguido uma folga e estava ansioso para contar a sua família. Encontrou a esposa e o filho diante de uma mesa farta, à beira da piscina.
-Já voltaste para casa, Pai?
-Não, senhor. Vocês que acordaram tarde, Otávio.
-O que houve, Kleber? Que tu saíste bem cedo eu já sei, mas voltaste tão rápido assim por quê?
-Fui à agência assinar uns contratos inadiáveis, e aproveitei para reservar nossa estadia em um hotel para essas férias.
-E para onde nós vamos?
-Dora... Vamos viajar a Bahamas.
-Ai, não acredito!- a esposa de Kleber abraça-lhe, eufórica, enquanto Tato retribui com um sorriso. Significava a oportunidade de viajar em família em muitos anos, atitude esta protelada pelo agente de viagens sempre que podia.
-E quando é que nós partiremos, Pai?
-Vim buscar os dois para fazermos as malas. Nós embarcaremos hoje à tarde.
-Kleber, estás tu a falar sério? Isto não é nenhuma brincadeira tua?
-Que é isso, Dora? Vocês sabem que eu sou muito metódico, que praticamente vivo pro trabalho... Daí eu resolvi dar-me esta folga e aproveitar junto com a minha família. O que tem demais nisso?
-Nada, meu amor, só que é inacreditável.
-Vão lá, vão fazer as malas. Daqui a pouco eu subo e apronto a minha bagagem também.
-Obrigada por esse presente. Realmente ninguém esperava por isto.
-O que é que eu não faço pelo filho e pela mulher que me enchem de orgulho, hein? Mas subam logo, para nós não perdermos um minuto sequer com a nossa viagem.
Mais apressada do que Kleber e sua família, estava Cissa no comando de um conversível pelas ruas da nublada Lisboa, acompanhada da amiga Beatriz. Esta, por mais que estivesse habituada com o modo doidivanas da moça, recomendou cautela com relação à direção.
-Para quê essa velocidade toda? Não estamos indo a nenhuma festa; muito pelo contrário, acabamos de sair da balada.
-Quem te vê assim até pensa que tu nunca me viste correndo. Tu sabes que eu amo esta adrenalina toda.
-Mas nunca alcoolizada. Melhor que tu pares o carro e chames um táxi.
-Bobagem, Beatriz. Estou feliz demais para enfiar meu carro num poste qualquer. Fiques tranquila.
-Sério, Cissa. Diminuas a velocidade desse carro, vai acabar nos matando.
-Ai, tu quando te esforças, consegues ser insuportável, hein? Tudo bem, já estou a menos de sessenta por hora. Melhorou para ti?
-O que foi que te deu, hein? Tu não és de passar do ponto, nem em bebida e muito menos em direção.
-Michel está indo a Bahamas, sem data para voltar.
-Até aí, sem novidades. Teu irmão nunca foi de dar previsão de retorno. Estranho é ele rodar o mundo e lembrar que tem uma irmã para avisar da sua próxima aventura, como fez desta vez.
-Mandou uma mísera mensagem no celular avisando. E ainda disse que vai passar vários dias com o celular desligado, não quer falar com ninguém.
-Bem a cara do Michel mesmo.
-Só não poderia ter sumido agora, queria tanto o colo dele, desabafar com o meu irmão.
-Para contar o quê, Clarissa? Que rompeste tu com o Ricardo pela centésima vez só neste ano?
-Aquele infeliz vai implorar para voltar aos meus braços, eu prometo-te.
-Vamos ser objetivas, minha amiga: o Ricardo nem é de rebaixar-se a mulher alguma, muito menos tu te prestas ao papel de lambe-botas.
-Queres que eu faça o quê?
-Que te valorizes, é o mínimo que toda mulher com um pingo de juízo na cabeça faria.
-Às vezes, parece que tu nunca nos viste juntos. É como se eu fosse parte dele, como se fosse indissociável, entendes?
-Dele ou do seu corpo?
-Dos dois.
-Amiga, deixes que eu te premie com mais um resquício da minha imensa sinceridade.
-Fales, Beatriz.
-Ricardo não é feito de mel, não é o único homem do mundo.
-Do meu mundo, ele é mais do que suficiente.
-Duvido muito que ele esteja sofrendo com a decisão do rompimento que, aliás, partiu dele, não foi?
-Beatriz, tu não estás a ajudar-me com esses comentários ácidos, se te importas saber.
-Sabe quando tu irás sentir-se bem novamente? Quando conseguires fazer qualquer pobre coitado passar pelo mesmo martírio que estás passando agora!
-Imagines, eu não chego a esse nível de egoísmo teu.
-Mas pode chegar. E é melhor que tu te empenhes na tarefa, porque não consegues fazer mais nada além de prolongar essa agonia por causa do término de um namoro em que só tu te entregas.
-Tu dizes umas coisas que me dão medo às vezes...
-Nossa amizade sobrevive única e exclusivamente por conta da minha sinceridade bem dosada. Caso contrário, eu já teria mandado que tomasses vergonha nessa tua cara e impediria que te rastejasses por causa de homem. Vais por mim, Cissa. Quanto mais cedo tu fizeres alguém apegar-se a ti, mais cedo conseguirás desapegar-se do Ricardo. Aí ele vai saber que não nasceu pra ser a única pessoa desejada da face da terra.
-Prometo que vou pensar sobre o assunto, juro-te.
O carro conduzido por Cissa passa ao largo de uma movimentada praça, na qual Valente está há dez minutos, paralisado pelo medo de que as pessoas não vão ajudá-lo financeiramente. Sem perceber, está a doze metros de uma loja de artigos voltados aos protestantes, de onde sai Fabiano, com seus óculos de hastes envelhecidas e uma sacola com seis exemplares da Bíblia Sagrada. Está a procurar a vaga que destinou ao seu carro quando ouve que Jesus nos amou com amor constante, libertador, transformador, imutável e grande a ponto de fazer todas as coisas novas.
Fabiano não conhece a canção da Comunidade Cristã de Lisboa, talvez pelo fato de esta ser voltada ao segmento católico do Cristianismo, mas comprovou o talento de um homem de dezoito anos recém-completados que forma uma pequena plateia naquela praça. O pastor encontra não só alguém que acreditava em seus ideais, mas também um rapaz de fé: Valente Valença.