17/11/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 24


-Não vou permitir que tu nos exponhas desta maneira, em um hospital!
-Que se dane o lugar onde estamos! Eu quero ver qual é o nível mais baixo que vais atingir, seu mentiroso!
-Clarissa, calma! Não estás vendo que o Valente está convalescente?
-Por que será, hein, Hélio? Porque salvou a vida do teu irmão. Mas não foi nenhum ato de altruísmo, não... Foi por ele, pelo Otávio.
-Valente, como foi que tiveste coragem de fazer isto com a tua noiva?- Fabiano passa a recriminá-lo.
-Colocaste a tua vida em risco para poupar a vida do pai de um desviado?- Nete chega à mesma conclusão que os demais.
-Eu não fiz nada por conta do Tato, eu nem mesmo sabia que o seu pai estava internado aqui. Ele não me contou nada. Aliás, eu não sei nem do paradeiro do Tato!
-Ah, por favor! Acreditas que enganarás a quem, Valente? Dirás que o fato de estarem Kleber e tu na mesma clínica não passa de coincidência?
-Meu amor, eu não tenho motivos para mentir, muito menos para ti.
-Mas é isto que estás fazendo, e descaradamente.
-Clarissa, o Valente deve estar exausto da operação. Acho melhor que tu converses com ele em outro momento...
-Que operação, Hélio? Eu levei pontos porque fui ferido no meio da rua, quando saía do orfanato! Cissa, fales com a Madre Joana, ela pode confirmar que eu estive lá hoje...
-Para quê? Aquela mulher protege a ti como se fosse tua própria mãe. Não duvido que deves tê-la deixado de sobreaviso para confirmar a trama que tu mesmo inventaste!
-Pelo amor de Deus, prestes atenção na loucura que estás dizendo-me, Clarissa! Agora afirmarás que a madre mente? A madre?
-Tanto ela como tu!
-Gente, por favor, esta discussão não vai levar-nos a nenhum lugar- Fabiano procura acalmar Cissa, sem sucesso.
-Não tires a razão de Clarissa, Fabiano. Estão muito nítidos os interesses escusos que este gajo tem ao submeter-se a um transplante. Bem que eu desconfiava que o tal Tato era um lobo debaixo da pele do cordeiro, e eu dizia: “cuidado, vai te devorar”!- Nete faz menção a uma composição musical angolana de sucesso.
-Irmã, Portugal é um país de primeiro mundo. Óleo de peroba não é tão caro assim para que tu passes em tua imensa cara de pau! A senhora jamais falou comigo a respeito do Tato, nem mesmo colocou-se contra o fato de abrigá-lo em minha própria casa!
-Agora revelaste a tua verdadeira personalidade...
-Nete, basta!- Fabiano tenta impedir a esposa de prosseguir discutindo.
-Com o que te chocas? A senhora é declaradamente intolerante há tempos e ninguém diz cousa alguma!
-Valente!- Hélio fica surpreso com o comentário.
-É isto mesmo, Hélio. Cansei de ter que ficar calado mediante as insinuações que vocês andam fazendo! Por que não perguntam abertamente quem eu sou, em vez de ficarem especulando?
-Especulações estas pelas quais tu és o único responsável. Será que tu não vês que a nossa vida começou a desandar quando puseste aquele pilantra na casa que vai ser nossa?
-Alto lá, eu não admito que tu fales do meu sobrinho desta maneira!
-Tu não tens nada a admitir, Hélio. Se fosse para tomares alguma atitude, terias tirado aquele verme da casa do Valente! Sabem de uma cousa? Eu não vou ficar aqui, protagonizando esta discussão que não vai mais a lugar nenhum, como bem disse o Pastor Fabiano. Estou farta de tuas desculpas, e agora também das tuas mentiras!
-Clarissa, se saíres daqui, eu não vou procurar-te!
-Agora vais apelar para a chantagem emocional? Queres que ninguém desconfie da tua falta de pudores, do caso que estás tendo com aquele parasita?
-Sempre estou tentando justificar-me do que faço e do que deixo de fazer, para agora ter que aturar as tuas acusações? Acredites naquilo que te convém, Clarissa. O esforço que eu poderia fazer para convencer-te de alguma cousa não será feito. Prefiro eximir-me daquilo que pensas a meu respeito.
-Quanta teatralidade! Pretendes assumir o papel de vítima, mas a única vítima desta história nojenta sou eu, Valente! Nunca vou perdoar-te pelo que fizeste comigo...
Abalada, a jovem sai correndo da clínica, sendo seguida por Nete e Fabiano, nervosos com o desespero da moça.
-Desculpa-me, Valente. Eu não sabia que causaria todo este alvoroço. Pensei que a Cissa soubesse de tudo.
-Claro que não, não houve tempo... Não soube de tudo o quê?
-Da tua iniciativa em salvar a vida do meu irmão.
-Hélio, estás a cometer um terrível engano!
-Óbvio que eu não acredito num envolvimento que tanto se ventila por aí entre tu e o meu sobrinho...
-Pela fé, queres deixar-me sozinho?
-Tudo bem, eu não quero causar mais conflitos. Mas eu quero agradecer-te pelo ato em prol do Kleber.
-Saias!
-OK, conversamos depois... –Hélio deixa a enfermaria.
-O que mais falta acontecer, Senhor amado?
E olhe que, só para aquele mesmo dia, faltam muitas coisas! Lopes, por exemplo, vem pessoalmente ao leito do saxofonista e lhe traz uma notícia surpreendente, algumas horas depois do tumulto causado por Hélio.
-Como estás agora, Valente?
-Tirando um corte de canivete na barriga, um chefe que não sabe interpretar contextos e uma noiva em fúria, eu estou maravilhosamente bem.
-E é a mais pura verdade.
-Como assim?
-Valente, estou a conceder-te alta médica. Já podes voltar para casa.
-Sabes o que é, Doutor? É que... Como é que eu direi isso, meu Deus? Acho melhor passar mais uma noite aqui, em observação. Vai que eu tenha uma recaída e precise voltar, não é mesmo?
-Estás com medo da conta astronômica que cobrarei por ter suturado a tua barriga, certo?
-Corretíssimo!
-Despreocupa-te. O teu melhor amigo pagou as despesas hospitalares.
-Perdão, acho eu que não entendi.
-Aquele homem que, segundo relatos, trouxe-te para a clínica, é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Cheguei a ter aulas com ele, e é uma pessoa iluminada.
-O senhor terá que desculpar minha sinceridade, mas é difícil de acreditar.
-Que o professor pagou a tua conta?
-Que tu tiveste aulas com ele. O senhor tem cara de quem conhece a andropausa de trás para a frente enquanto ele, se muito tiver, tem uns trinta e poucos anos!
-A jovialidade e vivacidade do professor são cousas que eu nunca entendi. Bom para ele, não?
-Meu Pai, que dia é este?
-Em quinze dias, voltes aqui para que haja a retirada dos pontos.
-Prefiro ir ao posto de saúde.
-Cortesia da casa. Um gajo tão em alta conta do professor deve ser alguém realmente especial.
-Só posso dizer... Obrigado.
-Disponhas- Lopes deixa a enfermaria, e Valente levanta para voltar ao seu prédio. Não sabe ele que, ao abrir a porta do elevador, vê a noiva batendo descontroladamente a porta do apartamento duzentos e um.
-Cissa?
-Tu estás aqui? Não deverias estar no hospital recuperando-se do transplante?
-Ah, não. De novo não! O que aconteceu agora para bateres feito uma louca desvairada?
-Vim dizer umas boas verdades frente ao teu... Bem, tu sabes o que ele é, não?
-Foi realmente bom estares aqui.
-Contigo eu não quero dialogar.
-Mas falarás. Pensas que depois daquele escândalo todo ficarei sem direito à defesa? Estás muito equivocada- Valente destranca a porta- Vejas bem o que está sobre o sofá.
Cissa lê o recado que tato deixou para o amigo músico.
-"Não fiques preocupado comigo. Tive que resolver um problema, e acho que somente eu posso resolvê-lo. Mas eu estou bem. Só peço-te que não deixes de orar por mim. Um abraço. Tato". O que isto quer dizer?
-Que Tato não me pôs a par do problema vivido por seu pai; portanto, não tinha como eu saber e doar um rim!
-Isto não prova cousa alguma! Deve ser uma evidência falsa, plantada por vocês dois em conluio!
-Quanta imaginação! Já pensou em escrever uma sequência para “O Espetacular Homem-Aranha”?
-Não trates o meu amor como uma brincadeira.
-Tampouco tu ouses tratar a mim como se eu fosse um traidor.
-Mas é exatamente o que penso a teu respeito.
-Olhes a lixeira. Vejas a quantidade de comida que eu ingeri antes de ir ao orfanato hoje. Alguém que faz cirurgia não se entupiria logo cedo. As taxas seriam mais elevadas que a Torre Eiffel!
-Eu já falei que não vim aqui para conversar contigo, e sim dizer o que penso diante daquele imbecil!
-Com esta gritaria, certamente ele sairia do quarto. Prova cabal de que o Tato não está aqui!
-Só de ouvir tu mencionares o nome daquele sujeito, eu sinto vontade de matar os dois!
-O que eu preciso fazer para que tu entendas que eu não fiz operação nenhuma para salvar o irmão do Hélio?
-Ora, por favor, não me tomes como uma tola! O próprio Hélio admitiu que tu fizeste a cirurgia para doar um dos teus rins. Queria ver se fosse eu a paciente, e não ele. Pagaria todo o dinheiro do mundo para saber se tu farias o mesmo sacrifício.
-Não digas bobagem! Tanto faria como faço. Mas eu não tenho nada a ver com a cirurgia do Kleber, ponhas na tua cabeça!
-Queres saber como eu posso convencer-me de que tu e Tato não têm nada além de uma simples amizade? Coloca-o para fora do nosso apartamento!
-E quanto a ti? Em que momento irás colocar-se em meu lugar?
-Aquele imbecil está acabando com a tua reputação e com o nosso noivado, será que não entendes? Terás que escolher entre ele ou eu!
-Pretendes o quê com isto? Pressionar-me?
-Se toda esta situação absurda não te é o bastante, quem sabe assim entendas o quão nociva é a presença do Otávio nesta casa?
-Cissa, não vais usar-me como se fosse eu uma peça de jogo!
-Nem eu serei usada para ser ridicularizada pelo homem que eu escolhi! Já não aguento mais o que estás fazendo para torturar-me!
-A decisão de dar um teto a ele coube exclusivamente a mim!
-Mas está afetando esta porcaria de relacionamento, seu idiota!- a agressividade da vendedora fez Valente parar de rebatê-la por alguns segundos, completamente devastado com o ódio demonstrado pela moça.
-Hoje mais cedo, eu arrisquei a minha vida por conta de algo que me remetia a ti. Depois, fui humilhado. Não pela sexualidade que tu alegas desconhecer, mas por declarar, em alto e bom som, que eu não sou homem para que confies em mim. Agora, resume o nosso romance de quatro anos à “porcaria”?
-Valente, tu entendeste bem o que eu quis dizer.
-Com certeza. O grande problema deste caos que virou a nossa vida íntima é que ele pode revelar mais segredos teus do que os que supostamente eu guardo, não é?
Irritada, a moça chega até a porta do apartamento e declara, para depois deixar o prédio.
-Interpretes da maneira que te for conveniente!
Lentamente, o saxofonista caminha até a porta e a cerra. Em seguida, senta-se no sofá, onde chora em silêncio pela mais recente discussão. Tudo está mais calmo na clínica, quando Kleber acorda e vê a esposa velando o seu sono enquanto o irmão, ainda enganado por si mesmo, pode vê-lo por uma janela do quarto.
-Dora.
-Fales, querido.
-Por que o Hélio não entrou?
-O médico só permitiu uma visita por vez, meu amor. Como estás a se sentir agora?
-As dores passaram. Eu fui operado?
-Já. Foi uma verdadeira tormenta, mas a espera acabou. Daqui a nove dias, nós voltaremos para casa.
-Quem foi?
-Quem foi o quê, Kleber?
-Quem doou o rim para mim? Se tiver sido alguém que ainda é vivo, eu quero agradecer. Foi o Hélio?
-Não, meu amor. Quando o Hélio chegou, o Dr. Lopes já havia te levado para o centro cirúrgico.
-Verdade. Agora eu lembro. Mas ninguém descobriu de quem se trata?
-Não. Permanece o mistério. Querido, eu vou à cantina da clínica, e o Hélio ficará contigo, está bem?- Dora beija a cabeça de Kleber, que ouve a conversa entre a esposa e o seu irmão.
-Acho que descobri.
-O quê, Hélio? Estás a falar do doador anônimo?
-Por incrível que pareça, trata-se de Valente Valença.
-O teu saxofonista?- Dora fica atônita, e Kleber fecha os olhos, fingindo voltar a dormir- Tu tens certeza, Hélio?
-Certeza eu não tenho, mas ele estava aqui na clínica, com um curativo no mesmo lugar que o meu irmão. Tudo indica que foi ele, Dora.
-Como podes ter tanta certeza?
-Primeiro porque o Valente não é utente de planos de saúde. Segundo porque é coincidência demais o Kleber e ele estarem internados no mesmo lugar. Terceiro porque ele deu entrada na clínica pela manhã, exatamente quando o Kleber foi operado. O que eu não entendo é como ele ficou sabendo da situação do Kleber antes de mim.
-Só se o Tato contou-lhe.
-Mas como? O Tato nem deu as caras por aqui. Acho até que ele nem saiba do que houve com o pai.
-Otávio sabe, sim. Ontem eu fui procurá-lo no apartamento do Valente e intercedi pelo Kleber. Meu filho negou a ajuda ao pai, mas deve ter comentado algo do tipo para o gajo que mora com ele.
-Dora, como tu pudeste? O Tato esperava que tu o procurasses para uma reconciliação com o Kleber. Agora está claro para ele que a tua prioridade é o pai, e não o filho.
-Eu precisava fazer algo para salvar a vida do Kleber, estava desesperada!
-Então, tudo se encaixa. O Tato contou ao Valente o problema de meu irmão e ele ofereceu-se para fazer o teste de compatibilidade.
-Nem tudo está tão claro assim, Hélio. Por que o Valente se sujeitaria a doar um rim ao meu marido? O Kleber o detesta por pensar que ele vê o Tato com segundas intenções.
-As cousas mudaram de figura, Dora. Mesmo que Kleber e Tato não voltem a se falar, a vida do meu irmão estava em risco. E o Kleber jamais aceitaria um rim doado pelo Tato, já que estão sem se falar.
-Nem do tal Valente.
-Por isto a história do doador anônimo. Se o Kleber soubesse que o Valente seria o doador, teria recusado-se a fazer a operação.
-Talvez o Tato não tenha contado ao Valente o problema do pai.
-Por que pensas nesta hipótese?
-Porque ontem eu fui ao Recifeeling procurar-te, e contei para a Alessandra que o Kleber estava passando por um problema grave e que estava internado aqui. No mesmo momento, havia começando o show do Valente.
-Tu achas, então, que...
-A Alessandra pode ter soltado a informação ao Valente e ele veio checar.
-Seja como for, as duas suposições levam a crer que o Valente é o doador misterioso.
-Mas ainda há pontas soltas, Hélio. Caso o Tato tenha convencido o Valente de doar o rim, por que ele ainda não apareceu aqui, para visitar o pai?
-A rusga que o Tato tem com o Kleber é forte demais, Dora. Nenhum dos dois dará o braço a torcer.
-Seja como for, o importante é que o meu marido está a salvo. E se foi mesmo o Valente quem o salvou, que Deus o recompense.
No tarde do dia seguinte, Olívia e Nicolas estão no Sófocles, o restaurante que fica situado no interior da universidade em que ambos fazem a pós-graduação. Na mesa de número 4, longe do balcão da gerência, os amigos conversam.
-Gosto bastante de escutar as canções de Carla Abigail, Centro Cristão da Cidade, HopeSound... São os meus preferidos. E tu? Ouves o quê?
-Como assim?
-No que é tocante à música gospel. O que ouves?
-Bem, eu... Gosto muito do que toca no momento, sabe? Coisas que elevam um pouco a nossa alma e, principalmente, o nosso espírito.
-Cites alguma. Quem sabe eu não goste, Nicolas?
-Como gosta da minha companhia?
-Talvez até mais.
-Olha, eu gosto muito daquela... Daquela que toca na novela evangélica, que foi reprisada um dia desses. Depois que começaram a repetir, eu me apaixonei, entende?
-Por isto que eu acho importante avaliar o produto que o nosso ecrã exibe. Não é todo produto agradável e construtivo. Mas é interessante como, neste país, a dramaturgia bíblica vem conquistando cada vez mais espaço.
-Realmente, porque... Desculpa o que eu vou falar, Olívia.
-Fiques à vontade, Nicolas.
-Mas é cada nojeira que passa na televisão daqui. Mãe batendo na filha com direito a revide, prostituição, sexo, falta de ética, vilão que só é punido no final, criminalidade... Sinceramente... O pior é que essas coisas não saem do ar porque tem gente que se alimenta dessa lavagem cerebral.
-Pois é. Tem gente que acompanha novela para lazer, mas liga o televisor e vê o quê? Uma extensão das notícias sangrentas do telejornal.
-Horrível. Esse tipo de coisa nem pagando entra na minha casa.
-Dois guaranás pra mesa 4- anuncia o gerente, a respeito das latas de refrigerante solicitadas por Olívia e Nicolas.
-Eu vou buscar no balcão...
-Não, senhorita. Eu convidei, eu faço questão de trazer.
-Tu não existes, Nicolas...
O gerente faz anotações virado de costas para Nicolas, e ele aproveita a distração para colocar um pequeno comprimido efervescente numa das latas, trazendo a bandeja de plástico à mesa em que está com Olívia.
-Vamos brindar?- Nicolas entrega a lata aberta à mestranda e um canudo, abrindo o seu refrigerante em seguida.
-A quê, Nicolas?
-Ao nosso sucesso, tanto no mestrado quanto no doutorado. Saúde.
-Saúde, então- os jovens brindam e Olívia bebe o refrigerante.
-Posso te confessar uma coisa, Olívia?
-O quê?- continua ingerindo a bebida.
-Eu tenho pra mim que a gente vai viver momentos mais felizes ainda.
-Deus queira, Nicolas.
-Nada como me cercar de pessoas exatamente como você.
-O que eu tenho de tão especial?
-A sua fé. Ela te faz diferente de todas as moças daqui.
-Não devo ser a única protestante aqui no Brasil.
-Disso eu sei, mas fé como a sua, Olívia, vai ser difícil de encontrar novamente...

10/11/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 23


Eis que o professor de Olívia passa pelo ladrão à toda velocidade, logo vendo o saxofonista ferido sobre a calçada. Corre para socorrê-lo, abraçando e colocando-lhe de pé.
-Consegues andar? Vamos para o hospital.
-Não tem nenhum pronto-socorro perto daqui.
-Há uma clínica. Venhas, Valente, eu te levo.
O músico põe a mão sobre o ferimento, mas o misterioso homem coloca a sua mão sobre a do rapaz, agora ensanguentada.
-Como é que o senhor...
-Confies em mim. Peço-te apenas isto.
O professor conhecia o trajeto correto para a clínica de um renomado médico da capital portuguesa: ninguém menos do que Jaime Lopes. Um enfermeiro é o responsável por receber a aflita dupla.
-Moço, ajuda-me, por favor.
-O que aconteceu?
-Atingiram-me com um objeto num assalto. Deve ter sido um canivete.
-Rápido, levem-no para a sala de curativo- mais dois enfermeiros conduzem o saxofonista, colocando-lhe sobre uma cadeira de rodas, mas são interrompidos pelo profissional que os atendeu à porta da clínica- Um momento: tens a carteira de utente?
-Se eu tiver uma hemorragia aqui dentro, o teu rosto é que vai ficar dormente com o safanão que te darei!- o manso Valente deu-se ao direito de ser agressivo, puxando o colarinho da camisa do enfermeiro.
-Tudo bem, tudo bem, podem levá-lo. Mas temos que avisar a algum responsável.
-Acalma-te. Eu sou o responsável.
-E o senhor, o que é do rapaz?
-O seu melhor amigo.
-Preciso preencher algumas informações sobre o gajo- o funcionário lança mão de uma prancheta- Nome completo?
-Valente Valença.
-Data de nascimento?
-Vinte e cinco de janeiro de mil novecentos e noventa e oito.
-Filiação?
-Órfão.
-Documento de identificação?
-Na calça que está ele trajando há o cartão de cidadão- o professor faz menção ao que é equivalente à carteira de identidade em Portugal.
-Tipo sanguíneo?
-A positivo.
-Tem algum problema relacionado à diabetes ou à pressão arterial?
-Não, é perfeitamente saudável.
-Endereço completo?
-Rua dos Fanqueiros, número trezentos, apartamento duzentos e um.
-Telefone para contato?
-Não possui número fixo, e o celular acabou de ser surrupiado. Daí o ferimento.
-E com relação à...
-Valente não possui nenhum plano de saúde, mas os gastos serão cobertos por mim.
-Nossa, o senhor sabe de tudo mesmo... Pedirei que o senhor aguarde aqui mesmo. E, assim que eu tiver informações a respeito do estado de saúde de teu amigo, avisarei. Está bem?
-Obrigado.
Hélio entra estabanadamente na clínica de Lopes, indo à recepção para saber notícias a respeito de seu irmão. O professor senta numa das poltronas da recepção, unindo as mãos e fechando os olhos, rezando em voz baixa.
-Bom dia. Eu preciso de informações a respeito do paciente Kleber Lacerda Goulart. É meu irmão.
-Só um momento, senhor... És o Hélio?
-Sim, sou eu.
-A tua cunhada, Isadora, havia nos avisado sobre tua vinda- esclarece o recepcionista da clínica.
-Como está o Kleber?
-Neste exato momento, na sala de cirurgia.
-Cirurgia? O que aconteceu com ele?
-Teve que ser submetido a um transplante de rim. O quadro que ele apresentou foi de insuficiência renal aguda.
-Santo Deus!- leva as mãos à cabeça- E onde posso encontrar a minha cunhada, moço?
-Provavelmente ela está na antessala do centro cirúrgico. Basta seguir em frente, entrar no terceiro corredor à direita e subir a rampa. Ela deve estar esperando informações a respeito da cirurgia.
-Faz muito tempo que ele entrou para a operação?
-Cerca de quarenta e cinco minutos. A cirurgia tem previsão de, no mínimo, quatro horas.
O tempo passa e parece ser uma verdadeira tortura para Hélio e Dora. Mas Lopes sai do centro cirúrgico com boas notícias.
-E então, Doutor?
-Como é que está o meu irmão?
-Fiquem tranquilos. O transplante do Kleber foi um sucesso.
-Ah, graças a Deus. Eu posso ver o meu marido, Doutor?
-Ainda não, Dora. Ele terá que ficar em observação por algumas horas. Mas os enfermeiros já o levaram para a sala de recuperação. Assim que ele for transferido para o quarto poderão entrar, mas apenas um de cada vez.
-Doutor, quanto tempo o meu irmão ficará internado?
-Se tudo correr como o previsto, o Kleber aqui ficará por um período de nove dias, sendo que antes iniciaremos o tratamento com os imunossupressores, para evitar a sua rejeição ao órgão. Claro que o doador ficará por menos tempo internado... – Lopes percebe que falou demais e procura dar o mínimo de informações possível.
-Doador?- Dora estranha a revelação- Pensei que o órgão do Kleber havia sido obtido no banco de doadores...
-Queres dizer que alguém fez a cirurgia para doar um rim ao Kleber?
-Bom... Sim, é verdade. Alguém ficou sabendo da situação do teu irmão e fez os exames para saber se era compatível ou não. A pessoa preencheu todos os requisitos para submeter-se à operação.
-Mas ontem tu tinhas garantido de que ainda entraria em contato com o banco de doadores.
-E entrei, mas só obtive resposta poucos minutos antes da chegada do nefrologista. Eles possuíam um órgão apto ao transplante, só que na madrugada apareceu esse doador. Por esta razão, levamos Kleber ao centro cirúrgico tão cedo.
-Quem é esta pessoa, Lopes? Eu quero agradecê-la, cumprimentá-la por ter salvo a vida do meu marido.
-Infelizmente não poderás fazer isto, Dora.
-Por que não? Minha cunhada tem todo o direito, Doutor; aliás, é sua obrigação falar com o doador e agradecer.
-A pessoa que doou um dos rins para o Kleber pediu sigilo absoluto sobre a sua identidade.
-Não entendo. Qual é a razão de tanto mistério, Lopes?
-Dora, eu já disse até mais do que eu deveria. Vamos respeitar a privacidade da pessoa que aceitou fazer o transplante, por favor. Se vocês dão-me licença, eu tenho que almoçar, já que mais tarde tenho consultas agendadas. Com licença.
-Tudo bem, Doutor. Muito obrigada por tudo- Dora espera o médico sair para confabular com o cunhado- O que pensas a respeito, Hélio?
-Muito estranho, Dora. Por que alguém doaria um rim ao Kleber e preferiria permanecer no anonimato?
-O importante é que agora tudo acabou. Graças a Deus, o meu marido está se recuperando e, em breve, voltaremos juntos para a nossa casa.
-Ainda assim, eu averiguarei esta história. O doador do meu irmão não ficará na obscuridade, ainda que assim o deseje. Eu vou dar um jeito de descobrir quem é esta pessoa.
Antes disso, Valente recebe uma transfusão de sangue pouco depois de ter levado pontos, a fim de cerrar o ferimento que ele levou. A perda acabou por deixá-lo um pouco fraco, sendo colocado numa das camas da enfermaria da clínica de Lopes após o término do procedimento. Mesmo sem permissão dada por enfermeiros ou por qualquer outro funcionário do recinto, o professor entra no local. O jovem músico abre os olhos e emula um tímido sorriso.
-Obrigado por ter me trazido até aqui. Deus colocou-te no meu caminho. Se o senhor não tivesse aparecido, acho que...
-Não penses nisso agora. Foi só um momento ruim, mas já acabou. O importante é que tu ficarás bem. Procures descansar.
-Que horas são?
-Onze da manhã.
-Cissa costuma ligar-me neste horário. Tenho que avisá-la sobre o que aconteceu.
-Não deverias ter reagido ao assalto. Foi um grande livramento que recebeste.
-Mas é que eu pensei no celular.
-Podes comprar outro.
-A questão não é esta, é que foi um presente da minha noiva... Meu Deus, eu tenho que avisar-lhe o que houve comigo. Eu posso pedir um favor?
-Dizes.
-O senhor pode ligar para a minha noiva e contar o que aconteceu comigo? O número da Cissa eu sei de cor.
-Notícias como esta não devem ser dadas por telefonemas, Valente, mesmo que estejas fora de perigo. Acalma-te, porque eu mesmo darei a notícia para a tua noiva.
-Ela trabalha numa loja do shopping chamada PORTrajes...
-Sei exatamente onde fica.
-Se bem que, neste horário, ela deve estar ensaiando com a Irmã Nete lá na Comportas...
-Não tens medo de dizer a mim estas coisas, revelando detalhes de tua vida? Conheceste-me hoje.
-Não sei responder-te o porquê, mas o senhor inspira em mim muita confiança. Aliás, até sei: porque, graças a Deus, o senhor trouxe-me até aqui. A esta hora, eu poderia... – o músico demonstra tristeza.
-Gajo, por que choras? O tormento já passou, estás a salvo.
-É que... Tudo está tão difícil...
-Já deverias saber que as tempestades, por mais fortes que sejam, não duram para sempre.
-Até sei, mas ainda sou de carne e osso...
-Em que queres transformar-se, então? Não possuis superpoderes.
-Que, aliás, seriam muito bem-vindos em minha vida.
-Sabes perfeitamente bem que não existe ser humano perfeito. Se quiseres tu resolver os problemas que, sozinho não consegues findar, apeles apenas para quem estiver com os ouvidos inclinados a você.
-Talvez seja isto o que mais eu tenha feito a minha vida inteira, mas não consigo ver as pessoas amando a mim por quem eu sou, e sim por quem eu deveria ser na sua concepção. Há vezes que eu penso que Deus colocou anjos para que fossem meus amigos e eu não me sentisse desamparado. Mas, em outras, o meu pensamento diz que somente Ele está comigo, e mais ninguém.
-Se apenas Deus estiver contigo, não te faltará ninguém. Pelo tempo que crês Nele, deverias saber. Fiques certo de que eu contatarei a tua noiva.
-O senhor estava esperando por mim todo este tempo lá fora?
-E esperaria mais, se necessário fosse.
-Por quê? Quem é o senhor?
-Se soubesse responder a mesma indagação, só que para si mesmo, saberias de quem eu me trato. Com licença- o professor deixa a enfermaria.
-Tomara que eu não me arrependa de ter confiado neste homem...
Naquele dia que parecia durar para sempre, o professor vai até a igreja que Cissa frequenta com o noivo, tendo ela ligado dezesseis vezes para o namorado depois do fim do ensaio, mesmo o aparelho alegando estar fora da área de cobertura.
-Não atende! O Valente não atende! Parece até que faz de propósito. Para que foi que lhe dei um celular? Para não me atender quando eu ligo?
-Querida, calma! Talvez o teu noivo esteja ocupado no orfanato daquela... Daquela freira lá.
-É isto o que me preocupa, Irmã Nete. Valente não tem o que fazer naquele lugar- Fabiano volta ao templo e flagra a conversa, e Cissa modifica o tom irritadiço que vem usando- Tudo bem que, às vezes, ele lê histórias para os órfãos, e conversa com a madre, mas nunca demorou tanto. Eu mesma fui trabalhar hoje cedo, saí da loja para o nosso ensaio e nada do meu noivo.
-Ainda mais num lugar com nome de santo... Misericórdia!
-Desejas alguma coisa?- Fabiano é solícito com o professor, que adentra as portas da igreja.
-Preciso falar com a Clarissa.
-Sou eu mesma. Quem é o senhor?
-Eu vim trazer notícias a respeito de Valente, o teu noivo.
-Bendita a hora que o senhor chegou, já está aflita.
-É cousa de Deus mesmo!- brada Nete.
-O que houve? Onde ele está? Não me dizes que com o desviado do Otávio?
-Valente está na Clínica Jaime Lopes. Eu o socorri há algumas horas.
-O Valente, socorrido? O que foi que aconteceu com o meu noivo?
-Uma tentativa de assalto. Ele tentou impedir que levassem o seu celular e foi ferido.
-Ah, meu Deus. Foi minha culpa! O Valente ficou ferido por minha culpa!
-Felizmente o pior já passou, Clarissa.
-Eu tenho que ver o meu noivo! Eu preciso ver o Valente agora mesmo!
-Acalma-te, querida! Tu não tens condições de sair com o carro à toda velocidade, ainda por cima dirigindo sozinha. Deixes que eu te acompanhe até o hospital... Fabiano!- Nete solta um berro ensurdecedor- Pegues já o molho da menina e abras o carro, tu vais dirigir!
-O senhor tem certeza de que o meu Valente está bem?
-Está fora de perigo. Ele pediu para avisar porque estava muito preocupado contigo.
-Então, não percamos mais um só minuto. Obrigada, muitíssimo obrigada.
Cissa, Fabiano e Nete deixam a igreja em direção à clínica, deixando o pastor conduzir o automóvel da vendedora. Demoram alguns minutos para chegar... Tempo suficiente para que um mal-entendido aconteça no local, causado pelo proprietário do Recifeeling, ainda que não seja sua intenção provocar um novo desentendimento entre o saxofonista e sua noiva.
O fato ocorre quando Dora tem a permissão de ver Kleber quando este finalmente é transferido para o quarto, ainda sonolento devido ao tempo que ficou sob efeito de anestésicos. Ficou acordado entre ela e seu cunhado que a esposa seria a primeira a ver o paciente. Hélio caminha pela recepção e vê dois médicos conversando na entrada do corredor que dá acesso à enfermaria. Para não alarmar a recepção, e aproveitando que os especialistas estão dialogando perto do balcão, passa ele despercebido. Sua intenção é clara: descobrir quem é o doador sigiloso.
Passando por vinte e dois leitos da enfermaria, chega ao vigésimo terceiro e sequer chega a ler o que a prancheta diz sobre o paciente, pois fica assustado ao se deparar com o seu funcionário mais famoso.
-Valente?
-Hélio? Tu aqui?
-Poderia perguntar-te eu a mesma cousa.
-O que estás fazendo aqui, Hélio?- o rapaz, que estava deitado, levanta-se para ficar sentado na cama, mas coloca a mão sobre o curativo, do lado direito da barriga.
-O que é que tu tens?
-Nada, eu só não deveria ter levantado. Ainda é recente, mas eu vou ficar bem. E quanto a ti?
-Bem, o meu irmão está internado aqui desde ontem e passou por uma cirurgia de emergência, acabou de... – o proprietário do Recifeeling tira uma conclusão precipitada- Não pode ser...
-O quê?
-Há quanto tempo tu estás internado nesta clínica, Valente?
-Desde hoje de manhã. Acho que eram umas oito horas quando o médico veio ver-me.
-De manhã...
-Hélio, fales-me o que está acontecendo!
-Tu, com um corte na barriga, e estando aqui desde cedo, queres que eu pense o quê, Valente? O que eu não entendo é como o Tato ficou sabendo para avisar-te.
-Por favor, Hélio, eu não estou entendendo.
-Estás, sim, e muito bem. Tu e o meu irmão no mesmo hospital, debilitados... Quem não está entendendo nada sou eu! Porque o Kleber chegou a pedir a tua demissão, agora tu fazes isto por ele?
-Isto o quê, homem de Deus? Fales!
-O meu irmão acaba de passar por um transplante de rim e o doador, segundo o Dr. Lopes, não quer ser identificado, por motivos que desconhecemos tanto quanto a sua identidade. Agora tu me apareces aqui? Tudo óbvio demais: foste tu que salvaste a vida do Kleber doando um dos teus rins!
-Como é?- Cissa entra na enfermaria, acompanhada de Nete e Fabiano- Eu não estou acreditando no que acabei de ouvir! Quer dizer que eu estava preocupada com o teu estado de saúde quando, na verdade, inventaste esta lorota de assalto para que eu não soubesse o que tu fizeste?
-Cissa, o que estás pensando?
-Eu não estou pensando, Valente! Estou constatando!- altera a voz- Tudo preparado, não é? Até contrataste um farsante para fazer-me de boba com a mentira do assalto, mas a tua máscara caiu!
-Por favor, Clarissa, acredites em mim. Eu fui vítima de um assalto hoje mais cedo...
-Mentira! Deves ter dado um fim no celular para que eu acreditasse na história do assalto. Mas está bem claro por que razão estás internado aqui. Tu doaste um rim para o pai do Otávio! O que tu fizeste foi pelo desgraçado do Otávio!

03/11/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 22


-A que estás referindo-se?
-Kleber foi ao hospital por conta de uma insuficiência renal e o Dr. Lopes disse que ele precisa de um transplante o quanto antes.
-Nossa... É tão grave assim?
-Infelizmente, sim.
-Mas por que a senhora não procurou o Tio Hélio? Ou por que não fez os exames para saber se era compatível com ele? Doação de rim não precisa ser feita por nenhum familiar...
-Já os fiz, e descobri não ser compatível com teu pai. Além disso, eu não consegui entrar em contato com o Hélio o dia inteiro. Ele nem sabe o que está acontecendo.
-Mas eu já entendi. Como ele não foi encontrado, a senhora veio até aqui. Só não entendo como soube que estava eu aqui...
-Soube desde que o teu tio entrou em contato com o Kleber para que ele fosse buscar-te, Otávio.
-E ainda assim a senhora não veio ver-me.
-Aonde tu queres chegar com esta entrelinha?
-Chegamos, Mãe. Ao ponto que não queres admitir: que amas mais ao meu pai do que a mim.
-Não digas tolices.
-Por que, em todos estes dias, a senhora não se manifestou, não me procurou, não deu um sinal de que estava preocupada comigo?
-Eu estava todo este tempo tentando convencer o Kleber a te aceitar de volta, a devolver tudo que é teu por direito!
-Queres que eu diga o porquê? Porque o bem-estar da nossa família só te é interessante quando se trata dele, não de mim. Quando eu fui embora, eu acreditei que a minha ausência te causaria sofrimento, mas não foi isto que eu vi. O Tio Hélio quis levar-me para a casa dele, o teu marido quis tirar-me deste lugar... E o que a senhora fez este tempo todo? Foste omissa! Porque era preferível indispor-se comigo do que com ele.
-Do que me acusas? De favorecer o teu pai? De preferi-lo a ti? É preciso eu lembrar quem foi que errou entre nós dois, e quem causou a discórdia em nossa família?
-Não, Mãe. Não precisas dar-se a tanto trabalho. Foi um grande erro mesmo ter escondido as minhas preferências sexuais para poupar-vos do vexame. Realmente, eu me arrependo todo santo dia. Mas eu não amo mais quem me faz sofrer aos meus pais. É isto que não consegues entender. Que, para amar um, não é necessário excluir o outro, ainda mais quando o outro é o próprio filho.
-Depois conversamos com mais calma, agora eu preciso que tu...
-Que eu o quê? Que eu teste a minha compatibilidade e doe um rim ao Kleber caso eu esteja apto?
-Ao Kleber, não! Ao teu pai!
-O meu pai é uma lembrança muito querida que eu faço questão de recordar. Mas ele não quis mais assumir este papel. Se a senhora não se incomoda em ser tratada feito nada, eu me incomodo e muito.
-Otávio, podes estar negando a oportunidade de sobrevivência do teu pai!
-E do teu marido também. Chega a ser doentia a forma como tu o vês. Mostras o quanto sofres com o autoritarismo dele, mas não tens o menor ímpeto para abrir a boca em defesa própria. Eu fui descartado da vida do meu pai. Por que eu não posso fazer exatamente a mesma cousa?
-Tato, eu insisto que tu...
-Pares. Pares de insistir. A minha decisão já está tomada. Eu não vou à clínica do Dr. Lopes, se é isto que esperas que eu faça.
-Não, Otávio. Eu realmente não sei o que esperar de ti- vai até a porta- Mas, caso o teu pai morra, eu espero que não fiques imaginando o que teria sido da vida do Kleber caso tu fosses compatível.
-Com relação ao teu amor: é compatível com o meu ou com o dele?
-Foi um erro imenso ter vindo aqui. Tomara que não se arrependas, meu filho.
-Tomara mesmo. Tomara que não se arrependas do dia em que disseste “sim” no altar para o meu pai.
A mágoa de Tato faz com que Dora vá embora, desolada. Mais desesperada pelo marido do que pela reação do filho, a bem da verdade. Aquela madrugada parecia interminável para a dona de casa, que olhava o seu marido murmurando de fortes dores, sem nada dizer. Apenas no dia seguinte, bem cedo, é que o paradeiro de Hélio é descoberto. Alessandra fica responsável pela abertura do Recifeeling naquela terça-feira, e pouco depois assumir o cargo de recepcionista, vê o patrão chegar num táxi.
-Pelo amor de Deus, o que foi que houve contigo? Onde está o teu carro?
-Perda total. O carro teve um problema no motor e eu fiquei no meio da estrada, tentando fazê-lo funcionar. Fui obrigado a chamar o reboque... Que noite interminável!
-Não ouviste os recados que deixei na tua secretária eletrônica?
-Cheguei morto de cansado à minha casa, Alessandra. A única cousa que fiz foi cair na cama. Por que não ligaste para o meu celular?
-Porque esqueceste no teu escritório. Só isto explica o fato de tua cunhada não conseguir falar contigo o dia inteiro.
-Dora? Aconteceu alguma cousa com ela?
-Não, com o teu irmão. Ele está hospitalizado.
-Mas por quê?
-Disse que era caso de vida ou morte. Estava muito nervosa.
-Onde ele está?
-Numa clínica de um médico chamado... Como é que era o nome dele... Ah, Jaime Lopes. Disse ela que tu sabias onde se localizava.
-Sim, é a do convênio da nossa família. Se precisarem de mim, digam que eu estou na clínica acompanhando o Kleber. Vou lá dentro pegar o meu celular e saio logo em seguida.
-Eu vou chamar um táxi para ti.
-Obrigado, Alessandra.
Valente, após uma noite cheia de trabalho no restaurante, deu a si próprio o direito de acordar mais tarde, já que não havia nada para fazer. Aproveitaria para passar no Lar do Menino Tobias para visitar os órfãos e, é claro, trocar confidências com Joana. Ao chegar à sala, ainda sonolento, encontra um bilhete feito por Tato sobre o sofá. Abre-o.
-“Não fiques preocupado comigo. Tive que resolver um problema, e acho que somente eu posso resolvê-lo. Mas eu estou bem. Só peço-te que não deixes de orar por mim. Um abraço. Tato”.
-O que terá o Tato a fazer? Não sei, mas assim que eu voltar do orfanato, vou ligar para o Hélio e deixá-lo de sobreaviso. Tomara que ele esteja bem mesmo.
Kleber continua a se sentir desconfortável com as dores, mas em menor quantidade. Ao despertar, fala com a esposa, que tem alguns minutos de sono após uma noite que parecia interminável.
-Dora...
-Está tudo bem, meu querido. Eu estou aqui contigo.
-Tu já sabes de toda a verdade, não é?
-Por que tu não me contaste?
-Queria ouvir outra opinião. Não aceitei este... – passa a falar com dificuldade- Diagnóstico que... O médico deu.
-Kleber, nós estamos correndo contra o tempo.
-Não acredito que eu... Que eu sobreviva...
-Jamais volte a dizer isto! Vamos conseguir salvar-te, prometo.
-Onde está o Hélio? Não chamaste meu irmão?
-Eu não consegui encontrar o Hélio. Mas eu avisei à moça que trabalha no restaurante e pedi para que ele viesse.
-O Otávio...
-Que tem ele, meu amor?
-Ele sabe que eu estou aqui?
-Não- mente, com pesar- Só procurei mesmo o Hélio. Fiz os testes e não houve compatibilidade entre nós. Por isto, procurei o teu irmão.
-Prometas uma coisa a mim, Dora.
-Tudo, tudo o que tu quiseres, Kleber.
-Não contes nada ao Otávio. Se eu tiver que morrer...
-Tu não vais morrer, pares de dizer esta bobagem!
-Dora, escuta-me... Eu não quero... Aquele rapaz... Vangloriando-se... Da minha derrota... Prometas que não... Que não vais contatar o Otávio...
-Trago-vos boas notícias- Lopes entra no quarto em que Kleber está acamado, radiante.
-O que houve, Doutor?
-Não podemos perder mais tempo, Dora. Agora mesmo o teu marido fará o transplante de rim.
-Mas como isto é possível? Ainda ontem, tinhas dito que não havia órgãos para doação.
-Não havia até esta manhã, Dora. Eu já preparei o centro cirúrgico e vamos levar o Kleber para a mesa de operação o quanto antes. Os enfermeiros já estão chegando para levá-lo sobre a maca.
-Mas o meu marido já estava inscrito na lista de receptores de órgãos ou alguém resolveu doar para ele?
Os enfermeiros chegam para levar o irmão de Hélio ao centro cirúrgico.
-Conversaremos sobre isto depois. A cirurgia pode durar entre quatro e seis horas, não sabemos ao certo.
-Por favor, Lopes, não me deixes sem notícias.
-Tudo bem, Dora, mas o nefrologista já está esperando pelo teu marido.
-Tu vais ficar bem, meu querido. Logo, logo sairemos daqui.
-Foi o Hélio. Deve ter sido ele...
Kleber é carregado por meio da maca e Lopes e Dora seguem até a porta do centro cirúrgico. Esta, por sua vez, é impedida de entrar pelo médico.
-Agora é conosco, Dora.
-Faças o que for preciso, Lopes, mas não permita a morte do meu marido.
-Farei o possível. Mas terás que esperar aqui fora- o médico acompanha a cirurgia.
Valente, sem saber dos tempos tempestuosos vividos pela família de seu chefe, visita as crianças do orfanato Lar do Menino Tobias e aproveita para conversar com Joana, que o recebe com grande afeição. Os dois conversam sobre um banco branco, posto no pátio do local, com grades verdes que permitem ver a movimentada avenida lisboeta, na qual está inserido o imóvel.
-E então, meu querido? Como andam as coisas? Turbulentas como naquela ocasião?
-Até que não tanto. Nos últimos dias, tudo tem estado um pouco mais calmo. O Tato não se reconciliou com a sua família, mas ao menos eles permitiram que uma trégua fosse dada. Às vezes, penso ter agido da maneira incorreta.
-O que te leva a esta impressão?
-Tato é mais intempestivo, não possui freios na hora de dizer o que pensa. É o meu oposto, entendes? Sempre fui mais calado, guardava as cousas que pensava para mim mesmo...
-Sinceridade não é sempre uma cousa boa, meu filho?
-É. Mas sinto pelo preço que está ele pagando agora, tendo que ficar longe da família. Penso que, ao dar abrigo para ele, estou contribuindo para esta crise familiar. E a senhora sabe o quanto eu prezo pela comunhão entre parentes.
-O que o Tato está recebendo de ti, Valente, é o mesmo que querias tu receber se estivesses passando pelo mesmo, embora saibamos que um dilema deste tipo não seria vivenciado por ti jamais.
-Pois bem, não é o que parece.
-A que te referes?
-Tenho percebido comentários, olhares, risos camuflados... As pessoas não entendem que eu me vejo na obrigação de ajudar o Tato por acreditar que é o certo, sem esperar nada em troca. Pensam que eu tenho um interesse oculto.
-Qual seria, Valente?
-Ele é sobrinho do meu patrão. Talvez eu esteja querendo a amizade dele para arrancar algum tipo de proveito. Ou...
-Continues.
-Dois homens adultos, numa mesma casa, e com diferentes opções sexuais... Dá para se ter uma ideia do que andam falando sobre mim.
-Querido, a opinião que deve importar é a das pessoas que verdadeiramente têm amor por ti.
-As que garantem amar-me tecem críticas, ou mesmo lançam olhares de reprovação pela minha atitude de ajudar alguém como o Tato.
-Falas de alguém em específico?
-Sim. A Cissa.
-E o que pensas em fazer a respeito?
-Não sei. Mas o Tato não é exatamente o cerne do problema.
-Tem como explicares melhor?
-Às vezes, Madre, eu sinto que... A Cissa não me ama como alega.
-Como não? É nítido o afeto que ela nutre por ti, meu anjo.
-Só que é como se eu não fosse o homem que ela quer que eu seja.
-Que homem ela quer?
-Só Deus sabe, mas parece que eu não me encaixo nos padrões que ela estabelece.
-Deve ser impressão tua. Se a Cissa não gostasse de ti verdadeiramente, por que conduziria o relacionamento sério contigo durante quatro anos?
-Esta é a pergunta que me faço todos os dias, porque ainda que eu faça esforço, nada me tira da cabeça de que eu não sou o que a Clarissa deseja. Queres um exemplo do que digo? Olhes só o que ela deu-me de presente ontem- retira o celular do bolso, sem receio de estar sendo observado.
-É lindo, Valente. Mas qual é o problema?
-Ontem, ela estava amorosa comigo, como no começo do nosso namoro. Mas ultimamente não tem sido assim. Percebi que ela quer apressar o nosso casamento. Talvez ela tenha criado a impressão de que, depois do nosso matrimônio, eu possa vir a ser o que ela quer.
-Valente, nada do que tens dito até agora faz o menor sentido que seja. O amor muda as pessoas para melhor. Qual é a mudança que tanto a Clarissa pode querer que tu realizes em si mesmo?
-Definitivamente, eu não sei. Mas tenho medo de que seja como no dia em que a conheci, quando ela falou-me que...
-O quê?
-Não, esqueças. Não vale a pena lembrar. Madre, eu vou-me agora.
-Tão cedo?
-É que preciso ensaiar em casa algumas músicas para tocar na Comportas hoje à noite, e preciso apurar algumas informações- ou seja, avisar ao Hélio sobre o sumiço de Tato- Dá-me a tua benção.
-Que tu sejas abençoado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo- beija a mão do músico- Fiques em paz, querido.
-A senhora também, Madre.
O saxofonista ouve passos apressados atrás de si, mas ao virar para trás, não vê mais ninguém. O maltrapilho menor de idade que o seguia desvia correndo para a direita, procurando um atalho, por imaginar que o músico, a quem observava desde a sua visita ao Lar do Menino Tobias, seguiria em linha reta. Rapidamente, surpreende o noivo de Cissa ao pôr a mão esquerda sobre o seu pescoço, puxando-o bruscamente para trás, e na mão direita, há um canivete, posto sobre o abdômen de Valente.
-O que tu tens, agora!
-O que é isto?
-Quieto, gajo! Entregues tudo, rápido- o bandido vira o saxofonista e põe a mão no bolso em que está o celular que Cissa o presenteou, causando a revolta no músico, que estimava o mimo dado pela noiva.
-Devolvas meu celular!- Valente chega a segurar uma das mãos do meliante e pensa em travar uma luta corporal para recuperar o aparelho, mas acaba sendo ferido na barriga, caindo com o celular ao chão. O bandido apanha o telefone móvel e foge às pressas.