19/01/2019

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 33 (ÚLTIMOS CAPÍTULOS)


-Podes ir. Eu ficarei mais um pouco.
-Foi um prazer fechar contrato contigo, meu jovem.
-Obrigado, Molina- Tato despede-se do corretor de imóveis, que entra no elevador e fecha a porta- Que assunto temos para falar, se é que eu posso saber?
-O que fazes neste lugar?
-Posso frequentá-lo ou me impedirás?
-Não é necessário que sejas tão hostil.
-A hostilidade permite que eu viva. Do contrário, eu passaria a escutar diversos dissabores sem nada poder fazer.
-E precisas disto?
-Sim, ao menos contigo.
-É tão difícil responder a uma simples pergunta?
-Passarei a morar aqui. Acabo de alugar um apartamento neste prédio.
-Isto significa que eu passarei a ver-te mais vezes. Sou amigo de duas irmãs que também moram aqui.
-Que pena.
-Tato, não vamos fazer desta cena um calvário.
-Tu não entendes nada de calvário. Não passou pelo que eu passei para saber o que é ser rejeitado. Aliás, de rejeição entendes perfeitamente bem, já que foste o primeiro a virar-me as costas.
-Quanto drama... Poderias ter negado ao teu pai aquilo que ele leu sobre nós, mas não. Bancaste o corajoso. E para arcar com as consequências, desejavas que eu tomasse partido da situação e sofresse junto a ti.
-Desejava, sim. Porque pensei que estávamos vivendo o mesmo sentimento.
-Muito pelo contrário. Da maneira como te comportaste, foi como se tivesses ido parar na minha cama por ter sido pressionado, quando foi de livre e espontânea vontade.
-E não imaginas o quanto eu me arrependo do dia em que te escolhi.
-Os contos de fada não existem, Tato. E, se existem, não fazem questão de que nós sejamos sequer personagens coadjuvantes.
-Concordo. Por isto mesmo é melhor que eu finja sobre a tua existência.
-Hoje tu podes sentir raiva de mim, mas me agradecerás quando sofreres com xingamentos, punições e olhares atravessados, e entenderes que o melhor foi ter mantido a tua opção em segredo.
-Até poderia, mas o meu caráter eu não posso esconder, Michel. E uma vez que eu ponho na minha mente que preciso ficar oculto por medo do que vão pensar, percebo que o erro pode não estar somente neles, mas também em mim.
-Poupa-me de teu discurso, Tato. Na prática, as pessoas morrem por ser quem são.
-Pois prefiro a morte a conviver novamente com quem não faz questão da minha presença. E se não estiverdes disposto a correr riscos por seres quem és, é porque não o sabes.
Olívia, que está na sala de estar, ouve parte da conversa e abre a porta, por reconhecer a voz de Michel.
-Michel? Por que não tocaste a campainha?
-Não deu tempo, Olívia... Vim saber como tu estavas.
-Melhor agora. Mas ainda é difícil pôr o rosto no travesseiro, pois sempre que pego no sono lembro-me daquele horror todo que vivi. Não vais entrar?
-Melhor não.
-Não faças cerimônia, Michel. A Beatriz está lá dentro e prepara-te um café.
-Já fiz o que tinha que fazer aqui. Apenas queria saber como tu estavas. Eu volto outra hora- cumprimenta a mestranda com um beijo e toma o elevador.
-O que deu no Michel?
-Deve ser alguma espécie de peso na consciência... Desculpa-me, não deveria ter sido tão áspero.
-Acho que sei quem és.
-Impossível. Estou a mudar-me para este prédio, nunca nos vimos antes.
-Não te vi pessoalmente, mas pelo pouco que ouvi da conversa entre vocês, suspeito até sobre quem tu sejas.
-Como poderias saber? Sou-te um total desconhecido.
-Tato. Foste tu quem esteve envolvido com o Michel e que causou um rebuliço no dia do noivado de Cissa e Valente.
-Pelo visto, estás bem informada. Bem que ele havia me dito que era amigo de duas irmãs. Suponho que sejas tu uma delas. E pelos relatos que Michel deve ter feito, não valho muito na opinião de vocês.
-Não sou ninguém para julgar.
-É que eu já estou acostumando-me a ver dedos apontados na minha cara.
-E se tiver eu um pecado maior que o teu? Achas certo que eu venha a denegrir tua imagem ou condenar-te por algo?
-Nossa! Nunca pensei que uma amiga dele fosse dizer-me uma cousa deste tipo...
-Podes ter acostumado a enfrentar as pessoas, a manter-se em uma posição de autodefesa, mas não serei eu a fazer isto. Se tu e ele pecaram, que chegueis à conclusão dos atos que cometeram sozinhos. Deus ama o pecador e abomina o pecado. Só por este argumento, eu não teria porque julgar a um ou a outro.
-Falando deste jeito, assemelhas-te ao meu amigo, Valente.
-Conheço-lhe através da Cissa, que é uma das minhas melhores amigas. Posso garantir-te que ele, seja lá o que tenha dito, sabe o que diz. A alcunha que ganhou diz muito sobre ele... Como é que era mesmo?
-“Varão valoroso”.
-Esta mesma!
-Uma pena que nos conhecemos numa situação tão desagradável como esta.
-Gajo, vivi situações extremamente desagradáveis nos últimos dias. O que tu disseres perto do vale de ossos secos que vivi será uma viagem à Disneylândia! Só posso dizer que... Sejas bem-vindo.
-Obrigado. Tu não és evangélica, ou és?
-Como reparaste?
-Dizem que é fácil de reconhecer um protestante de longe.
-Glória a Deus por isto. Significa que estou indo pelo caminho certo.
Voltando ao apartamento de Valente, Tato tem receio do que falará ao saxofonista. Só que antes de dizer a primeira palavra, observa o músico que está na janela do prédio, com um olhar distante.
-Valente? Valente, estás a ouvir-me?
-Falaste comigo?
-Sim. Parecia que não estavas neste planeta.
-Não estava mesmo, meu amigo.
-Até imagino por que seja: estás pensando no casamento, não é?
-Pode-se dizer que sim- mente, enxugando o rosto, ainda choroso pela misteriosa revelação feita por Joana- Querias dizer-me algo?
-Chegou a hora da minha despedida, meu amigo.
-Despedida, Tato?
-Estou a sair da tua casa, Valente. Acabei de alugar um apartamento. Voltei para deixar o endereço contigo e... – entrega um cartão- Agradecer por tudo que fizeste por mim.
-Sabes que não precisa ser desta forma. Tu tens uma casa, Tato, a casa do teu pai, o Kleber. Se precisares, o próprio Hélio pode levar-te. O aluguel deste apartamento é mais um abismo que colocaste entre tu e a tua família.
-Preciso de autonomia, descobrir quem eu sou, o que eu tenho e se o mereço ter.
-Como passarás a sustentar-te?
-Não sei fazer nada, confesso. Só que, com a venda do carro, ainda sobrou uma quantia considerável. Posso viver disto até conseguir firmar-me numa profissão.
-Não concordo com o que estás fazendo consigo mesmo, mas... Não tenho como não te entender, Tato. Só espero que este caminho te conduza à felicidade.
-E acaso acreditas em felicidade plena, Valente?
-Não aqui nesta terra. Mas na glória, com Deus, eu afirmo que há. O caminho para a felicidade é Jesus, Tato. Segues, e depois entenderás o que tento dizer-te.
-Como posso agradecer-te diante do que fizeste por mim? A ajuda que tu deste a mim não é a de um amigo, Valente. Mais do que isto. Comportaste-se como se fôssemos irmãos.
-E não é o que devemos ser, uns para com os outros?
-Que Deus possa te recompensar.
-Tem mais uma coisa que preciso fazer antes que tu vás embora deste lugar. Só que precisarei de tua ajuda.
-Peças o que bem entenderes.
Valente une suas mãos às do amigo e ajoelha-se. Em sinal afirmativo feito com a cabeça, o músico convence o amigo a repetir o gesto e, de olhos fechados, começa a falar com Aquele que considera seu melhor amigo.
-Vens agindo, Senhor, em favor da vida de Otávio. Que Tu possas ir onde pés humanos não podem pisar e faças nascer um amor sincero e profundo por Ti. Que abençoe este novo lar e a família de Otávio. Toques, Jesus, nos corações que vêm oprimindo e sendo oprimidos. Faças com que eu importe-me tanto com o meu próximo como eu me importo comigo mesmo. Derrames Tua santa unção sobre a vida deste rapaz e que ele encontre a luz que possa guiá-lo até Deus, que é o Senhor. Assim, eu peço-Te e agradeço-Te, porque tenho mais a agradecer do que a pedir, no poder de Teu santo nome...
-Amém- os dois completam a prece, abraçando-se em seguida. Assim que Tato deixa o apartamento, Valente retorna ao pranto sofrido em que estava ao saber a verdade sobre a sua origem, ora em um pranto desesperado, ora em um choro que tentava ser silenciado pelo músico. O filho de Kleber e Dora, enfim, realiza os desejos de parte dos vizinhos e amigos do saxofonista e refaz a sua vida longe dos domínios do apartamento do amigo.
Chegou o esperado dia do casamento. Aquele longínquo ano de dois mil e vinte não poderia ser encerrado se não houvesse o enlace matrimonial entre Cissa e o tão famoso “varão valoroso”, e é por essa razão que ele é o primeiro a acordar. Na verdade, o último a dormir, pois passou a noite anterior em claro. Faltando catorze minutos para as seis da manhã daquele nove de maio que prometia ser ensolarado, Valente é responsável por despertar o próprio chefe através de uma ligação, realizada por seu telefone fixo, já que ainda não teve tempo de comprar um novo aparelho celular depois do assalto por ele sofrido. Ainda na cama, Hélio atende a chamada.
-Alô?
-Sou eu, Hélio.
-Valente? Por que me ligas a esta hora?
-Desculpa-me. Não tenho noção das horas, passei a noite em claro. Por isto, pensei que estivesses acordado.
-Entendo-te. É a ansiedade para o casamento.
-Hélio, eu preciso pedir-te um favor.
-Antes de mais nada, eu preciso pedir-te desculpas.
-Por que razão?
-Valente, não poderei ir ao casamento. Eu tenho que resolver as questões pendentes ao bufê, à banda que tocará durante a recepção no Recifeeling, os arranjos florais... A Alessandra tem dividido as tarefas comigo, mas acontece que escolhi dar-te este presente muito em cima da data. Ainda não consegui nem fechar acordo com a banda, crês nisto?
-Esqueças a banda.
-Do que estás a falar?
-Disse-te que seria uma cerimônia discreta, e a recepção também deveria ser do tipo.
-Valente, uses o espaço do restaurante para surpreender tua futura mulher. Para que fazer uma cousa simples, se tudo ficará por minha conta?
-Por isto que eu te liguei. Eu pensei bem e acho que deverias usar esta recepção para outra finalidade.
-Perdoa-me, mas não estás a dizer cousa com cousa.
-Tu não disseste que a recepção era um presente que estavas dando a mim?
-A ti e à Cissa. O que ela pensa a respeito?
-Deixes que com ela eu entendo-me no casamento.
-E acaso tratarás de problema relacionado a bufê na própria cerimônia de casamento, gajo? O que tu pretendes fazer? Fechei o restaurante especialmente para os teus convidados.
-Meus convidados comparecerão ao Recifeeling, mas não virão direto da igreja.
-Já bem dizem os meus amigos brasileiros: “estou mais perdido que deficiente visual em troca de tiros”!
-Quero usar o meu presente de maneira que eu possa beneficiar quem realmente precisa.
-Está bem, então. E com quem pretendes usar os serviços do restaurante?
-Falarei com a Madre Joana, aquela do orfanato. Pensei em fazer com que ela levasse as crianças do Lar do Menino Tobias ao Recifeeling. Há alguma objeção tua quanto a isto?
-Não, gajo, nenhuma. Mas aquela madre é tão próxima a ti, acreditei que ela estivesse na cerimônia.
-A Madre preferiu não ir, mas sei que se eu ligar e pedir para ela levar os garotos, ela não irá incomodar-se.
-OK, Valente. Eu faço questão de receber a madre e os órfãos. Serão bem-vindos.
-Obrigado pela força, Hélio. Não sabes o quanto é isto importante para mim.
-Sei, sim. Muitas vezes, chegavas ao restaurante contando da maravilha que era contar histórias aos meninos do orfanato, o quanto brincavas. Uma vez, disseste até que era como se nunca tivesses saído de lá.
-Às vezes, a impressão que tenho é esta mesma.
-Podes contar comigo, meu amigo. E saibas que eu desejo-te um dia especial, tanto para ti como para a tua prometida.
-Fiques certo de como dois e dois são quatro, eu não sairei o mesmo homem quando aquela cerimônia terminar.
-Claro que não, meu rapaz. Felicidades.
-Obrigado, eu vou fazer o possível. Vemos-nos mais tarde, Hélio. Que Deus te abençoe. Grande abraço.
-“Mais tarde”? Mas se eu não vou ao casamento, como é que ele... O gajo está totalmente descompensado!- Hélio levanta-se da cama e descansa um pouco para tomar um banho e seguir ao local de trabalho.
O dia da noiva não tem seus preparativos realizados na casa dos Irmãos Marques Barboza, pois Cissa opta por ser maquiada e vestida por Beatriz, constantemente conectada ao universo da beleza. Exterior, diga-se de passagem. Olívia acompanha a produção da futura nubente, ansiosa e nervosa com a aproximação. A mestranda, entretanto, ainda está com o olhar abatido, um pouco distante. Beatriz organiza o penteado da noiva de Valente.
-Tens certeza de que não queres ir?
-Desculpa-me, amiga, mas acho que não estou em condições ainda. Só consegui voltar à Lisboa para não deixar a minha irmã preocupada.
-Mas convenhamos que não faria muito sentido recuperar-se no local que deixou-te traumas tão fortes, Olívia- Beatriz observa sobre os atos criminosos de Alonso.
-Não pretendes voltar para lá um dia, não é?
-De todas as maneiras, terei que voltar. Prestarei depoimento acusando aquele homem de cárcere privado e tentativa de assassinato. Segundo o advogado, são praticamente nulas as chances de vê-lo fora da cadeia.
-Uma pena um desgraçado daquela estirpe não ter sido devorado pela terra. Era para estar debaixo de sete palmos agora, pagando pelo que fez à minha irmã.
-Ah, não vamos estragar este dia falando de um ser abjeto como aquele. Tudo hoje será especial- anima-se Cissa.
-Imagino até a curiosidade que Valente deve ter de imaginar-te vestida de noiva.
-Ora, pois se eu não sei... Mas foi por isto que pedi ao Michel que me esperasse lá embaixo com o carro. Vai que o Valente resolve aparecer de surpresa pouco tempo antes da cerimônia e vê o meu vestido...
-Qual é o problema, minha amiga? Ele vai achar-te linda, exatamente da forma que te apresentas agora.
-Melhor não arriscar. Dizem que traz maus agouros ao casamento.
-Por favor, Cissa, não passa isto de uma crendice. Casamentos só fracassam quando ao menos uma das partes não possui amor para dar.
-Pronto. A crente cretina voltou!- Beatriz volta a provocar Olívia.
-Cretina talvez, mas crente sou, e com muito orgulho disso.
-Cuidado, irmã. Orgulho é pecado.
-Maledicência também, Beatriz, e nem por isto tu te calas.
-Meninas, por favor. Vamos acalmar os ânimos? Nada dará errado, Olívia. Ainda mais que a minha principal ameaça está longe de mim.
-Do que falas?
-Como assim “do que falas”? Do Tato, que deixou a casa do Valente e foi para o raio que o parta.
-Bom, sinto informar, mas há duas coisas que precisas saber. Primeiro: o Tato nunca foi ameaça porque o Valente nunca cogitou trocar-te, ainda mais por um homem. Teu noivo acredita fielmente nos preceitos da Palavra para fazer uma cousa tão impensada como esta!
-Porém houve os comentários embasados puramente na maldade. Achavas mesmo que eu aceitaria que falassem mal do meu homem? Jamais! Por isso confrontei aquele rapaz, até que ele saísse da casa e da vida do Valente. Que vá para bem longe!
-Não tão longe. Está morando no apartamento duzentos e cinco.
-Sério?- Beatriz fica surpresa com a declaração de Olívia.
-Exatamente. Eu o encontrei tendo um pequeno atrito com o Michel, logo quando voltei.
-Coitado do meu irmão. Tantas pessoas no planeta para ele colocar em nossas vidas e escolheu logo quem?
-Será que ele vai ao casamento, Cissa?
-Por que ele iria, Beatriz?
-O Valente pode ter convidado. Não sei, é uma possibilidade em aberto.
-Tomara que tenha vergonha e não vá, mesmo que meu noivo tenha chamado. A não ser que ele vá com o intuito de causar discórdia, que é bem do seu feitio.
-Se eu fosse você, iria à porta do gajo e deixava bem claro que a presença do Tato não será bem quista no casamento.
-Beatriz! Que ideia mais estapafúrdia!- Olívia fica abismada com a ideia da irmã.
-Tudo bem, Olívia, eu não vou fazer isto, de maneira alguma. Só se deve perder tempo com o que vale a pena, e certamente aquele lá não vale um segundo que eu possa dispensar.
-Estás pronta, amiga. Vejas-te no espelho.
-Meu Pai do céu!- Cissa contempla-se ao espelho do quarto de Beatriz- Tua produção ficou perfeita!
-Modéstia à parte, ficou mesmo. Se eu investir num negócio com este, lucrarei mais que vendedor de água!
-Tens vocação, Beatriz. Sempre falei-te isto, tu nunca quis dar-me ouvidos- relembra Olívia.
-De fato, eu não costumo dar atenção às cousas que tu dizes, mas faz sentido- Beatriz volta a provocar a irmã.
-Já imaginaram como o meu Valente ficará diante desta visão maravilhosa?- Cissa continua a admirar-se- Ficará estático!
-Bom, dizem que a noiva deve atrasar um pouco para causar expectativa entre os convidados e o noivo. Vamos tirar as fotos dos bastidores da preparação para o casamento!- Beatriz toma a iniciativa e ativa a câmera do seu celular.
-Mas nada de publicar nas redes, hein? Vai que, numa dessas, o Wi-Fi da igreja está funcionando e os convidados estão online?
-Então, deixes que eu registro os momentos- Olívia segura o aparelho de Beatriz e fotografa a irmã e a noiva, devidamente preparada para o enlace. Depois de saírem da casa das Irmãs Gusmão Alencar, Beatriz e Cissa descem para seguirem até o carro em que Michel está à espera das moças, sendo que ele recebeu uma mensagem de Olívia, avisando da chegada das mulheres ao veículo. O trânsito estava livre, mas parecia que a direção do automóvel que o irmão da noiva tomava era conduzida a passos lentos, tamanha a ansiedade. Beatriz faz mais um comentário acerca da religião da amiga.
-Só mesmo a Cissa para fazer com que eu, Beatriz Gusmão Alencar, entrasse numa igreja evangélica. E olhe que nem mesmo a Olívia conseguiu realizar tamanha façanha!
-Para que tu tenhas uma prévia de como este nove de maio de dois mil e vinte será inesquecível. Até o impensável, que era ver-te na Comportas, acontecerá!
-Cissa, não é melhor tu ligares para alguém, para saber se o Valente já está na igreja?- sugere Michel- Se ele ainda não tiver chegado, vamos ter que dar voltas pelos quarteirões.
-Será que ele não vem?
-Ah, amiga! Não fales disparates! Se ele não estiver na igreja é porque ainda não deu tempo de chegar, só isto. Não abras a boca para falar tolices.
-Então, tu me farás um favor, Beatriz- Cissa tira do decote o seu próprio telefone celular e o entrega à Beatriz- Tu vais ligar para alguém da igreja e perguntar se o Valente está lá. Pelo menos assim eu fico mais tranquila.
-Acho que não é para tanto, mas tudo bem. Para quem eu ligo?
-Vejas na lista de contatos o nome “Ednete”. É a esposa do pastor.
-Que nome é este? Como vocês mesmos gostam de proclamar: “misericórdia”!- Beatriz realiza a chamada.
-Cissa, irmã amada, onde estás tu?
-Aqui é Beatriz, a melhor amiga da Cissa.
-Como assim? Pensei que fosse eu a única a desempenhar este papel.
-Que seja. Ela pediu-me para ligar e saber se o Valente já está na igreja.
-“Se ele está aqui”? Hum, ele foi o primeiro a chegar. Está com os nervos em pandarecos!  Quando o meu marido chegou para abrir a Comportas, ele já estava. Já está no altar.
-Perguntes do juiz, se ele já chegou.
-A Cissa está perguntando se...
-Daqui eu posso ouvi-la. Digas que ela pode ficar tranquila. Nós só estamos esperando pela chegada da noiva. Ela está a caminho, sabes dizer?
-Já estamos chegando. O Michel está dirigindo.
-A porta traseira da igreja está aberta para receber os convidados. Saias tu primeiro do carro e entres por esta porta. A porta principal só será aberta quando Cissa entrar com o irmão.
-Tudo bem, senhora. Eu direi à Cissa. Obrigada- desliga o celular- Tudo sob controle. Já podes respirar aliviada, amiga.
-Dará tudo certo, Beatriz. Ou melhor: deu tudo certo.
O trio chega à Comportas. Beatriz segue a instrução de Nete e entra pela porta traseira da igreja. Calmamente, Michel sai do carro e abre a porta para a irmã, segurando a cauda do vestido de noiva com cautela.
-Estás linda, minha irmã. Este é o primeiro dia do resto da tua vida.
-Tenho certeza de que sairei desta igreja hoje como a mulher mais feliz deste mundo, Michel- troca um abraço com o DJ. Michel envia para Beatriz uma mensagem, a fim de que ela avise a alguém para abrir a porta principal, permitindo a entrada dos irmãos. Lido o texto, a jovem de língua ferina contata o noivo, falando-lhe ao pé do ouvido.
-A noiva chegou.
Valente, receoso e mais sério do que costumeiramente aparenta ser, diz a Fabiano, em voz baixa.
-A noiva chegou.
O pastor, então, dirige-se à Nete.
-A noiva chegou- avisa, também em voz baixa.
-E esperas o quê para abrires a porta?
-Eu não posso abrir, tenho que ficar no altar.
-Pelo menos, tens como inserir o pen drive na caixa sonora e colocar a faixa de Mendelssohn para ser executada?
-Quem é este?
-Fabiano, é o compositor da tal de “Weeding march”, que encontrei vasculhando a internet.
-Sei... E por que esta música?
-Porque se trata da marcha nupcial, ora pois!
-Ah, bom.
Fabiano usa as potentes caixas sonoras da igreja para tocar o fonograma enquanto Nete corre para abrir a porta e permitir a entrada da noiva e do seu irmão. Com uma blusa azul-marinho bordada e uma longa saia jeans, a esposa do pastor revela a estonteante beleza da vendedora vestida de branco, ao passo que Beatriz só repara numa única coisa, em detrimento à felicidade da amiga.
-Saia jeans em pleno enlace matrimonial? Esta mulher passou diversas horas na fila da cafonice e não quis sair de lá nem sob decreto presidencial. Só faltou usar aquelas sandálias de estilo gladiador, para completar o look “audacioso”- pensa, agora em voz alta.
Pois bem: a saia era realmente longa, e para evitar algum incidente constrangedor, Nete levanta e mostra calçar um par de alpercatas, com vinte tiras cada uma. Beatriz só não desmaiou porque Valente a segurou.
Como se estivessem em câmera lenta, Cissa e Michel caminham até o altar, onde atraem os olhares das pessoas presentes. Com um sorriso expansivo, a noiva não notou que as mulheres, com exceção de Nete, estão mesmo é de olho na beleza europeia de seu irmão DJ... Se bem que todos são europeus neste núcleo, e eu não vejo motivo para tanto! Só que uma moça, próxima à esposa de Fabiano, que está ao lado de Valente e do juiz, comenta.
-Irmã, que gajo é este?
-Um desavergonhado, coitado. Qualquer dia desses, eu te conto os detalhes. Mas não chega a um por cento da irmã ajuizada. Ou seja, é noventa e nove por cento promíscuo! Não te enganes. O caipiroto também se apresenta como uma beldade.
Michel beija a mão de Cissa e a entrega para Valente, que também é cumprimentado pelo DJ. Os noivos dão as mãos um ao outro e olham para Fabiano, que celebrará a cerimônia religiosa, mas Beatriz não deixa de reparar agora nas feições de seriedade impressas pelo saxofonista, ainda mais fortes desde a entrada de sua amiga.
-Espero que tenhamos um cardiologista para casos de emergência.
-Por que dizes isto?- Nete pergunta.
-Acho que a qualquer momento ele desmaiará na frente de todos.
-Tolice. Assim que a cerimônia acabar, ele poderá respirar aliviado. Não é nada além de ansiedade.
-Eu quero saudar a amada igreja com a paz do Senhor.
-Amém- todos respondem. Beatriz, a contragosto.
-Hoje é um dia em que vamos celebrar a felicidade de contemplar a união desses dois jovens: Clarissa e Valente. Depois de quatro anos, testemunhamos o crescimento espiritual deste casal, que aprendeu a se amar e amar ao Senhor como a si mesmos, sendo este aprendizado possibilitado pela presença constante diante do altar. Mas antes do momento que todos estão esperando, eu quero vos contar uma linda passagem que remete à união...
Tentando minar o resto de credibilidade que este enredo se destina a passar, Beatriz comenta com Michel, agora ao seu lado:
-O que é que tu achas?
-Sobre o quê?
-Sobre o casal. Crês tu que dará certo?
-Beatriz, não achas que é a hora errada para fazer esta pergunta?
-Não. Temos que manter o suspense do enredo, pois ainda não será neste capítulo onde haverá o clímax da comédia dramática.
-Como assim? Pensei que fosse este o último capítulo.
-Quem dera. Fiquei sabendo, por fontes seguras, que a história será arrastada até o trigésimo quinto capítulo.
-Agora tu me pegaste! Acreditei que o momento mais esperado por quem está acompanhando o texto fosse o casamento da Cissa e do Valente.
-E é, mas não é o clímax idealizado pelo roteirista.
-Se é assim, o que vamos fazer nos dois capítulos que restam?
-Nada. Esqueceste que somos coadjuvantes? Somos aquilo que os novelistas chamam de “orelha”.
-E isto seria exatamente o quê?
-Aquela espécie de personagem que está na história apenas para ouvir os lamentos de outros papeis de maior relevância.
-Beatriz, não sei se tu estás lembrada, mas eu tive uma participação considerável quando houve a mudança de fases.
-Depois disto, minguaste. Mas não vamos falar sobre isto porque os leitores perceberão a barriga.
-Que barriga? Tenho malhado todo dia com um personal trainer. Inclusive, tenho postado os vídeos dos treinos no Instagram...
-Ah, Michel, tu não sabes nada de jargões mesmo, não é? “Barriga” é aquele momento na trama em que nada acontece. Significa que o autor está prometendo uma emoção forte ou que ele não sabe como conduzir o restante da história.
-No que é tocante ao meu personagem, é mais fácil ter sido a primeira opção... Mas estou impressionado como sabes tanto de tramas novelísticas.
-Querido, eu não sei nem mesmo fazer uma maquiagem boa, mas apareci produzindo a Cissa em pleno dia de casamento. Achas mesmo que estaria falando sobre “orelhas” e “barrigas” se não estivesse sendo conduzida ao sabor da cabeça oca do roteirista?
-Melhor voltarmos à concentração no casamento, Beatriz.
-Concordo. E já como falaste em vídeos, vou transmitir tudo ao vivo para o Facebook- Beatriz aciona a câmera do celular mais uma vez.
-Será que a nossa participação nos últimos capítulos será ampliada por divulgarmos marcas internacionais em nosso diálogo?
-Seria, se estivéssemos em uma novela de uma emissora televisiva comercial. Sem contar que estamos em dois mil e vinte, nem sabemos se estas redes sociais ainda existem.
Alheio ao diálogo, como qualquer personagem da trama, Fabiano ainda está com a palavra durante a celebração do casamento do saxofonista e da vendedora.
-Peço agora que olhem um para o outro, ajoelhados, e confessem diante de todos os votos que farão e cumprirão ao longo desta relação, que só será encerrada quando a morte vos separar.
-Que estranho a tal freira não estar no casamento- repara Nete, sem saber que Joana levou os órfãos do Lar do Menino Tobias para desfrutar da recepção que Hélio preparou originalmente para o casamento.
-Clarissa Marques Barboza...
-É agora, Portugal!- Nete pensa em voz alta, mesmo que os noivos não tenham escutado.
-Portugal?- estranha Michel.
-“É agora, Brasil” eu não poderia falar. Não teria sentido. Só se estivesse naquele antro de perdição que é o restaurante do chefe do Valente.
-Dai-me paciência!- brada Beatriz.
-Aceitas Valente Valença como teu legítimo esposo, e prometes ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe?
-Sim. Claro que eu aceito.
-E tu, Valente? Aceitas Clarissa Marques Barboza como tua legítima esposa, e prometes ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe?
-Eu, Valente Valença, prometo ser fiel em qualquer circunstância, e prometo também colocar-me no lugar daqueles que são meus semelhantes, porque o amor espera que eu assim o faça. Ter empatia pelos filhos de Deus é também uma forma de amá-Lo. Cissa... Eu prometo ser fiel aos meus princípios e à verdade na minha vida profissional, na esfera amorosa, no campo espiritual...
-Maldito cisco no olhar... – Fabiano usa um lenço para enxugar as lágrimas.
-O que poderia esperar de alguém com o teu coração, meu amor?
-Nada além da minha resposta definitiva: “não”.

12/01/2019

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 32 (ÚLTIMAS SEMANAS)


Depois do gesto idealizado por sua noiva, o músico indaga:
-Por que esta atitude assim, de repente?
-Fiquei sabendo do que fizeste por nós dois. Contaram-me que resolveste adiantar o nosso casamento.
-Deixes que eu corrija a informação: “Nete contou-te que eu adiantei o nosso casamento”.
-O ideal seria que eu ouvisse da tua boca.
-Tu acabarias sabendo, já que és a noiva, não é?
-Nossa, quanta frieza. Pareces até que falas do enlace de outras pessoas, não de nós dois.
-Eu acho que tenho os meus motivos.
-Valente, eu preciso que tu me desculpes pelo que fiz no outro dia.
-Não preciso perdoar-te de cousa alguma, Cissa.
-Claro que precisas. É mais do que óbvio que me tratas como se fosse eu uma estranha.
-Quando tu fizeste aquilo comigo... Ou melhor, quando quiseste fazer, eu entendi que talvez não saiba quem tu és.
-Acaso me dirás que jamais cogitaste? Que nunca nos imaginou na intimidade?
-Mas nunca tentei levar-te para a cama. Não o fiz porque ainda respeito-te demais.
-Por que não quis? Não existe desejo da tua parte por mim?
-Cissa, enquanto tu insistires neste assunto, eu estou deixando meu ofício de lado. Daqui a pouco, os clientes do Hélio chegam e eu ainda não ensaiei.
-Então, elucida-me uma questão: por que tu adiantaste o casamento?
-Porque não há motivos para esperar.
-Ora, disseste que era melhor a nossa situação financeira melhorar um pouco para...
-Cissa, eu não quero mais esperar. Acabemos com isto de uma vez e façamos a cerimônia. Fabiano já está cuidando da ornamentação da Comportas e eu vou alugar o meu terno.
-O Tato vai ao nosso casamento?
-Por que a pergunta? Se ele for, tu não irás?
-Respondas.
-Não falei com ele sobre isto. Faço questão da presença do Tato, mas sei que ele não vai. Mesmo porque ele quer evitar ao máximo os comentários acerca de nós dois.
-Curioso ele pensar desta forma, mesmo depois do tempo que ele ficou hospedado na tua casa. O que o fez resguardar-se tanto?
-Tato vai embora do meu apartamento.
-Verdade? E quando?
-Assim que ele conseguir vender o seu carro. Mas, mesmo que ele não consiga, antes disso ele quer sair de lá.
-Por que ele não volta para a casa do pai?
-Livre-arbítrio. Não me cabe julgar a decisão do meu amigo.
-Bom, mas voltando ao nosso casamento, eu estive pensando: que tal se eu convidasse as irmãs lourenses para cantar na nossa cerimônia?
-Aquelas mulheres que cantaram na igreja no dia em que nos conhecemos?
-Tu ainda lembras, Valente?
-Como se tivesse sido ontem.
-São elas mesmas. O que achas da ideia? Poderíamos pedir para tocar uma música romântica depois da troca de alianças... Romântica gospel, é claro.
-Acho a ideia excelente. Para mim, quanto mais pessoas estiverem presentes, melhor.
-Calma, meu amor, porque a igreja pode não concentrar tanta gente assim. Pensei que talvez possamos alugar um espaço mais amplo para realizar a cerimônia.
-Prefiro que seja lá mesmo. O lugar é ideal.
-E com relação à festa, à recepção dos convidados?
-Não haverá recepção.
-Como assim? Só haverá a cerimônia? E os nossos amigos?
-Nossos amigos, seja lá quem eles sejam, aceitarão que eu quero uma cerimônia simples.
-Mas tu acabaste de dizer que “quanto mais pessoas estiverem presentes, melhor”...
-É uma cerimônia íntima, Cissa. Não haverá nada além do programado.
-E quanto à lua de mel? Onde vamos passar?
-Ainda não pensei nisto. Quis deixar ao teu critério. Fiz mal?
-Não, foi maravilhoso! Até pensei num lugar para o qual poderíamos viajar. Sabe qual?
-Digas.
-Rio de Janeiro.
-Brasil? Nossa, é muito bonito mesmo. Quer dizer, eu imagino que seja, pelo que vejo no ecrã e pela internet.
-Sabia o quanto amarias a ideia. Vou agora mesmo comprar as nossas passagens. Amo-te tanto, Valente. Mais do que a mim mesma.
-Ames primeiro a Deus e depois a si mesma. Quando tiveres tempo, ames a mim, se possível.
-Como sempre, dizendo a cousa certa- beija-lhe novamente- Nós vamos nos ver amanhã, na Comportas?
-Claro. Esperes por mim lá.
Valente despede-se de sua noiva e volta a segurar o saxofone, com certo pesar no olhar. Hélio espera a saída da vendedora e volta a conversar com seu funcionário.
-Queiras desculpar-me, mas não pude deixar de escutar a tua conversa com a Cissa.
-Já está virando uma espécie de hábito teu. Fizeste o mesmo quando eu estive a visitar teu irmão.
-Preciso transformar-me em um personagem de peso desta história, ainda que estejamos na reta final do enredo- admite Hélio.
-Tudo bem. Escutaste a minha conversa com a Cissa. O que é que tem?
-Estava pensando em te dar de presente uma recepção.
-Verdade?
-Depois do casamento, eu poderia usar o espaço do Recifeeling para receber os teus convidados. Eu sei que teu orçamento não é tão folgado para fazeres festa, e por isto eu quero que aceites como um presente meu para ti e para a Cissa.
-Hélio, eu aceito o teu presente, mas eu queria pedir uma cousa. Não contes nada à Cissa sobre o teu presente.
-Já sei: tu queres fazer uma surpresa para a tua noiva, não é?
-Mais ou menos.
-Valente, estás se comportando de uma maneira muito estranha. Até parece que não irás se casar!
-Digamos que eu estou disfarçando o meu nervosismo. Com certeza, vai ser o dia mais importante da minha vida.
-“O mais feliz”, tu queres dizer.
-Vamos trabalhar, Hélio?
-Estás bem, então. Vamos trabalhar.
Aproxima-se o dia do casamento de Valente e Cissa, mas outros eventos parecem ser tão importantes quanto. Um deles é a volta de Olívia à sua terra natal, a cidade de Lisboa. Para Beatriz, encarregada de receber a irmã no aeroporto, o desembarque é uma espera interminável. Aquela manhã, para a moça, parece ficar mais iluminada quando vê a mestranda acompanhada do seu querido professor, quase sem os ferimentos causados por Alonso. As duas encaram-se por alguns segundos, com determinada proximidade e em silêncio.
-Pensei que teria tanto a dizer-te quando o dia do nosso reencontro chegasse, Olívia.
-Já eu tenho apenas uma frase a falar, Beatriz: “eu consegui chegar com vida a este lugar”. Dá-me um abraço, minha irmã.
As garotas demoram em meio a um abraço regado ao mais emocionado pranto em pleno aeroporto. Sem a menor cerimônia, o professor que foi testemunha do incidente envolvendo a viagem de Olívia se junta à aluna e à sua irmã no cumprimento, também vertendo lágrimas e concedendo, portanto, a certeza de que o sofrimento causado por Alonso terminava exatamente naquele momento. Longe daquele saguão, o rapaz despertava do coma e continuava em estado vegetativo. A polícia ainda não havia encerrado o inquérito a respeito do sequestro e da tentativa de homicídio contra Olívia, e por isso ela teria que voltar para prestar depoimento, bem como as famílias que denunciaram o desparecimento das outras estudantes.
Mas escapar da morte não deve ter um sabor tão doce para Alonso, que assassinou mulheres por conta da crença que as vítimas tinham em Deus, e da qual ele não só não compartilhava como queria impor a ideia de que tudo não passava de uma invenção humana. E não era nada agradável ao ver na porta do quarto um policial, indicando que foi descoberto e que agora estava sob a tutela da justiça. Um dos enfermeiros entra no quarto.
-Parece que o suspeito acordou, finalmente.
-Mas não adianta- explica o enfermeiro- Pode até ser que ele entenda o que está se passando, mas não vai reagir nunca. Uma pena. Um rapaz tão jovem e cheio de vida, prostrado numa cama...
-Por pouco tempo. A julgar pelos depoimentos e pelas denúncias, ele vai pro distrito penitenciário dentro em breve. Quero ver se, numa cadeira de rodas, ele vai fazer metade do que fez.
-Pelo menos despertou, e mais rápido do que se pensava. A gente não pode perder a fé.
-Um bandido desse tinha mais era que ter morrido mesmo- desabafa o policial- Até a cama ele está tirando de alguém que precisa mais do que ele. Bandido, meu filho, tem mais é que estar a sete palmos do chão.
Crente na regeneração de Alonso, o enfermeiro lê um trecho do Novo Testamento, que carrega consigo.
-Sempre lia para ele quando estava desacordado, e Deus fez o milagre. Por que não vou acreditar agora que existe o impossível?
Impedido de esboçar nenhum tipo de reação, Alonso sente-se cada vez mais enfurecido com o texto lido, mas nada pode fazer para impedir o enfermeiro de prosseguir com a leitura, que já dura desde a sua internação. Embora inconsciente, ele tudo escutava. E Joana está brincando com as crianças no Lar do Menino Tobias quando olha para um garotinho sentado sozinho num dos bancos do jardim.
-O que tu tens, gajo?
-Está chegando a noite, Madre.
-O que há de diferente nisto? Acontece todos os dias, meu amor.
-Mais um dia em que ninguém veio me adotar. Por que ninguém quer levar-me para casa, Madre?
-Não tenho uma resposta para dar-te, meu querido. Mas a culpa não é tua, eu te juro.
-Estou com medo.
-De quê?
-De ficar sozinho.
-O que foi que eu ensinei-te? Tu nunca estarás sozinho, pois o Papai do céu está em todos os lugares. Agora, brinques com os outros meninos, que daqui a pouco terão todos que tomar banho e eu servirei o jantar. Está bem?
-Tudo bem- o menor cumprimenta Joana com um beijo e corre para o convívio dos outros meninos.
-Bem como o Valente. Cansei de vê-lo dizer o mesmo durante a vida. Talvez seja a hora de procurá-lo e contar a verdade sobre a sua origem.
Mas como o assunto é delicado, Joana não vai ao encontro de Valente imediatamente. Só depois de analisar que o casamento do saxofonista está próximo, e não é justo, ao menos em sua visão, que ele comece uma história de vida ao lado de uma mulher sem elucidar o seu passado. Valente não é somente um dos vários órfãos deixados no Lar do Menino Tobias ao longo dos seus vinte e dois anos de existência, pois tinha uma trajetória que o diferenciava das outras crianças.
Exatamente a sete dias da cerimônia religiosa de enlace de Cissa e seu protegido, Joana vai ao apartamento do rapaz e o surpreende, pelo fato de fazer poucas visitas à casa do músico.
-Madre?
-Estás com tempo livre, Valente?
-Sim, estou. Por favor, entres. Não deverias estar no orfanato a esta hora?
-Deveria, mas eu tinha que vir aqui.
-Aconteceu alguma cousa com a senhora, Madre?
-Não. Aconteceu contigo, e foi há vinte e dois anos.
-Desculpa-me, mas eu não entendi.
-Valente, teu casamento está próximo de ocorrer e eu já estou há dias maturando esta conversa. Deveria ter contado quando tu eras uma criança, mas preferi ficar calada. Tu tens o direito de saber.
-Por Deus, Madre. Saber do quê?
-De tudo o que te aconteceu antes de chegares ao orfanato.
-O que a senhora poderia saber a respeito disto, Madre? Apenas o mesmo que todos sabem, que eu fui colocado em uma cesta em frente ao Lar do Menino Tobias, provavelmente pelos meus pais.
-Valente, esta é a verdade que eu pensei em fazer com que todos acreditassem. Saberás de todos os detalhes. Finalmente entenderás quem é o verdadeiro Valente Valença.
O rapaz senta lentamente no sofá, incrédulo com a mentira contada por Joana desde a sua chegada ao orfanato lisboeta. A falta de crença em uma situação improvável afeta também Tato naquele momento, uma vez que conseguiu vender o carro e pensa num apartamento para alugar. O corretor acaba por levá-lo para conhecer o prédio onde moram Olívia e Beatriz, onde o número 205, localizado no mesmo andar que a casa das moças, está desocupado. Quem chega lá, ávido por informações a respeito da lisboeta que retornou à capital portuguesa é Michel, que não chega nem a entrar quando vê Tato cumprimentando o corretor, chamando-o para tomar o elevador, já que apresentaria para outros clientes alguns apartamentos nas redondezas e o rapaz faria um cheque para efetuar o primeiro aluguel.
O elevador fica em frente ao apartamento das irmãs. Tato passa por Michel e não o cumprimenta, mas por não vê-lo.
-Não vais falar comigo, Otávio?
O filho de Kleber e Dora reage com certa repulsa, e a porta do elevador abre.
-Tu, aqui?
-Podemos descer, Tato?- pergunta o corretor.

05/01/2019

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 31


-Não estás falando seriamente comigo.
-Acaso sou eu homem de brincadeiras?
-É que não pensei que, dado o teu histórico, veria este dia chegar. O dia em que tu admitirias que estava errado a teu próprio respeito.
-Não te enganes. Eu continuo não concordando com o que fizestes, e muito menos com o que deves pensar em continuar praticando.
-Então, para que propósito chamaste a mim?
-Tu merecias ouvir de meus próprios lábios o meu pedido de perdão, a minha palavra de agradecimento. Não posso fingir que nada aconteceu. Se estou vivo hoje, é a ti quem devo esta proeza. Jurei que não te importarias comigo no dia em que soubesse o quão mal estive.
-A tua vida tu não deves a mim. Deus quis que tu ficaste vivo. A mim não precisas agradecer.
-Não trates teu gesto como algo corriqueiro.
-Creias, não me deves gratidão alguma.
-Desarma-te, gajo. Não te farei nenhum tipo de mal.
-Todas as malignidades possíveis tu já exerceste sobre mim.
-Otávio, o que eu quero propor-te é uma trégua.
-Acreditas mesmo que irás conseguir?
-Tenho que fazê-lo, depois de tudo que ocorreu.
-Não quero que te sintas na obrigação, a mim não deves nenhum tipo de compensação.
-Ouças-me, Otávio...
-Não vamos mais discutir acerca deste assunto. Pedi para que meu nome fosse mantido em segredo, mas agora que fui descoberto, fico feliz de te ver e constatar que estás melhor.
-Ainda falta algo para que eu me sinta plenamente recuperado.
-Do que falas?
-De tu recuperares tudo aquilo que é teu por direito. Eu quero que voltes para a nossa casa.
-Tens certeza do que estás dizendo?
-Sim, tenho, e foste tu quem a concedeu.
-Pai, eu já expliquei que não há motivo para nenhum tipo de compensação de tua parte...
-Tua vida poderia ter escorrido pelas tuas mãos, mas eu a tirei, Otávio. Devolver o que te pertence é o mínimo que posso fazer.
-E como acha que podemos conviver debaixo do mesmo teto? Ainda mais remoendo o passado?
-Estou disposto a pagar tudo o que vivemos nestes últimos tempos. A tua saída de casa, a minha desavença com o Valente, o período que passei no hospital...
-Tu pagas, mas não apagas. Não da minha lembrança.
-Por favor, não ajas como se o que tu escondeste de mim não fosse motivo para desencadear a minha reação.
-Isto não está mais em discussão. Mas o fato de eu ter descoberto que ninguém é insubstituível.
-Aonde queres chegar?
-Que hoje eu voltei a ser aquele menino de quem tanto tu sentias orgulho profundo. Mas eu esperava que este sentimento fosse vivido pelo senhor em qualquer ocasião, não somente depois de teres visto tão de perto a morte.
-Por esta razão que mereces ter de volta a tua vida.
-Não a quero, Pai.
-Deixes de tornar as cousas mais difíceis para nós dois, Otávio.
-Eu tive muita raiva do senhor, mas hoje eu vejo que se nada disto acontecesse, até hoje eu estaria infeliz, escondendo-me da minha própria família. Tu mesmo causaste a libertação do cativeiro em que eu vivia.
-O que dizes? Que pretendes continuar a morar com o Valente?
-Não, Pai. Só que eu não voltarei para casa.
-Eu entendo que estejas revoltado, que queiras arrumar uma forma de punir-me, mas ocorre que eu...
-Por favor, não penses que estou a executar uma vingança pessoal. Se eu quisesse mesmo a tua destruição, como pensas a meu respeito, sequer estaria aqui. Daquela casa, eu só quero os meus documentos e o meu carro.
-Otávio, tu tens uma casa.
-Aquele lar não é mais meu. Para morar lá, eu não volto.
-E a nossa relação, como fica?
-Da maneira mais saudável possível. Visito a minha velha casa, e tu terás livre acesso ao lugar onde vou morar. Mas cada qual em seu devido canto.
-Quem sabe eu posso arrumar-te um emprego na agência de viagens?
-Para depois dizeres que eu só consegui um trabalho por indicação tua?
-Sei que tens todos os motivos do mundo para não acreditares no meu arrependimento, mas ele é sincero, meu filho.
-Eu sei, mas o que tu poderias me dar será concretizado em instantes: estar de pé novamente. O resto eu conseguirei caminhando com as minhas próprias pernas.
-A resposta para o meu pedido de perdão eu ainda espero, Otávio...
-Sim, Pai. O meu perdão tu já tens, e há tempos. Agora, quero que tu me faças um favor- diz Otávio, olhando o celular do pai numa mesa de cabeceira.
-Peças, o que bem entenderes.
-Ligues para a minha mãe e avises que estou indo lá para buscar os meus documentos pessoais e a chave do carro.
-E para que tanta formalidade? Otávio, não és um completo estranho para ter eu que avisar à tua mãe da tua ida.
-Prefiro desta forma. Será que podes contatá-la?
-Claro. Claro que sim- o irmão de Hélio realiza a chamada- Dora?
-Meu amor? O que houve para tu me ligares?
-Liguei apenas para avisar que Otávio irá até aí.
-Queres dizer que finalmente o convenceste? Ah, graças a Deus. Vou preparar o quarto do nosso filho...
-Não, Dora. Otávio precisará buscar uns utensílios pessoais. Por favor, fiques para receber o nosso filho.
-Está bem, então. Mais tarde eu te buscarei na clínica.
-Até mais tarde, então.
-Beijos, querido- Dora encerra a chamada.
-Ela me receberá?
-Sim. Podes tu passar lá.
-Obrigado por ter ligado.
-E agora? O que pretendes fazer?
-Bem, eu vou vender o carro para...
-Vendê-lo? Não podes fazer isto, foi um presente que eu te dei, meu filho!
-Caríssimo, por sinal. Mas financiarei uma casa quando conseguir fazer negócio. Daí a minha necessidade de ter meus documentos de volta.
-Tato, sabes que a nossa casa está à tua disposição. Não há necessidade de fazer isto para provar que é um homem independente.
-A casa não é nossa, e sim tua. Foi com o teu dinheiro que ela foi comprada. Quanto ao carro, ele está no meu nome; então, posso usufruir dele da maneira que me for conveniente. O senhor terá que dar-me licença, mas eu preciso ir agora mesmo- Tato chega até a porta.
-Otávio.
-Digas.
-Agradeças ao Valente pelo que ele fez a mim.
-O que ele te fez?
-Abriu os meus olhos para o ser humano maravilhoso que é o meu filho.
-Está bem, então. Nos vemos- ainda um pouco frio, Tato deixa a clínica e volta para a mansão da Família Goulart, onde é recebido com apreensão por Dora, já à porta da residência desde o telefonema de seu marido, Kleber.
-Bom dia, meu filho.
-Bom dia, Mãe. Eu posso entrar?
-Que pergunta é esta, Tato? Claro que podes.
-Prometo não demorar muito- rapidamente, o rapaz sobe ao seu antigo quarto e começa a recolher os documentos.
-Tu queres ajuda para procurar alguma cousa, Tato?
-Não é necessário, eu lembro muito bem onde deixei tudo.
-Kleber disse pelo celular que não vieste para ficar definitivamente... É verdade?
-Sim, é- afirma, ao achar a sua carteira e a certidão de nascimento.
-Por que torturas a nós todos com teu comportamento? Teu pai aceitou conceder uma trégua entre vocês, agora farás o papel de ofendido?
-Deste papel eu não preciso, Mãe. E não quero que sintam pena de mim. Apenas quero seguir a minha vida.
-Como? Causando dor à tua família? Será que não entendes o esforço sobrehumano que Kleber tem feito para restaurar a nossa família?
-Mais uma vez, o que percebo é que não estás preocupada comigo, e sim com ele. Pouco te importas se estou bem ou não, o importante é que ele esteja.
-Não jogues palavras em minha boca, Tato.
-Para quê discutir o óbvio, não é?
-Voltes para casa, meu filho. Entendas que é este o teu lar.
-Da decisão de ser dono da minha vida eu não abro mão. Não correrei o risco de ver tudo sendo tirado de mim novamente.
-Isto não vai mais acontecer, meu filho.
-Não mesmo, porque eu não deixarei- encontra a chave do carro.
-O que pretendes fazer?
-Seguir a minha vida- Tato vai até a garagem.
-Ignorando a nossa existência?
-Não condicionando a minha à existência de vocês.
-Por que te sentes tão ofendido, se foste tu quem escondeu a verdade, quem mentiu para os teus pais?
-Omiti, o que é muito diferente.
-Mentira não deixa de ser um erro, esconder a verdade também não.
-Já paraste para pensar que se a minha vida de antes não tivesse sido revelada, estaríamos em harmonia até hoje? Se eu escondi foi para evitar esta situação.
-Não deixa de ser um erro o que tu fizeste, e por isto mesmo não pode ser justificado. Além do mais, isto causou um afastamento entre tu e teus pais, mas manter-se afastado é uma opção exclusivamente tua.
-Será bom para nós todos.
-Fales por ti mesmo. O que farás agora? Continuarás morando de favor na casa de um completo desconhecido?
-Minha situação na casa do Valente não durará para todo o sempre. Mas para esta casa, como hóspede ou como filho, eu não quero voltar. Não viverei à mercê do dia em que eu possa cometer um erro e seja retirado daqui novamente.
-Como queres que pensemos? Mantiveste um caso com outro homem há quatro anos às escondidas.
-Este foi o maior erro da minha vida: ter dado ouvidos aos galanteios do Michel, que provou não valer o chão que pisa.
-Prometo-te que não sofrerás retaliações. Passaremos uma borracha no teu passado, esqueceremos tudo o que aconteceu.
-Como estás ávida por uma solução para os meus problemas agora... Agiste como se eu não existisse, lembraste-te de mim quando meu pai esteve às vias da morte.
-Continuarás acusando-me de ser uma péssima mãe, uma progenitora completamente omissa?
-O que eu quero é que tu e ele possais amar-me pelo que sou, e não pelo que posso oferecer.
-Nosso amor é incondicional, meu filho.
-O amor até existe, mas não nos termos que tu o defines. Posso tirar o meu carro da garagem agora ou ainda tens algo a me falar?
-Tenho- Dora beija a mão do filho- Que Deus possa te proteger, filho. Desculpa-me.
-Ele não pode, Mãe. Ele vai, ainda que eu não mereça.
Tato deixa, agora em caráter definitivo, a mansão da Família Goulart, fazendo com que Dora lamente a despedida do filho, disposto a dar um novo rumo à sua vida. E naquela manhã, o Lar do Menino Tobias recebe a visita do saxofonista do Recifeeling. Sentado num dos bancos do jardim, Joana aproxima-se do protegido e senta-se ao seu lado, olhando para o seu abatido rosto. Ele sequer nota a madre junto a si.
-Não estás feliz.
-Do que falas, Madre?
-Do teu semblante. Ele não costuma enganar-me, Valente.
-Seja o que for, passará.
-Hoje não interagisse com as crianças, não leste histórias para os órfãos, como sempre fazes. Queres desabafar com esta velha amiga tua?
-Não. Terás que desculpar-me, mas não acredito que esteja preparado para falar desta minha aflição com ninguém.
-Não me diga que são os comentários acerca da estadia do Tato em teu apartamento novamente?
-Meu problema é outro, Madre. E independe dos comentários alheios. Trata-se de algo que somente eu posso resolver.
-Na dúvida de contar ou não para alguém, conte ao teu melhor amigo. O melhor que podemos ter, meu querido.
-Obrigado pelo conselho.
-Quando precisar, eu estarei aqui, Valente. Mas Ele estará em todo o tempo- Joana beija a testa do músico e volta ao interior do orfanato, tentando aquietar o seu coração. O mesmo propósito é utilizado pelo professor de Olívia, que usa o seu celular para que a sua aluna comunique-se com Beatriz, aflita pela falta de comunicação com a irmã.
-Professor?- Beatriz atende o telefonema, dias depois de ter arquivado em sua agenda o número do docente.
-Sou eu, Beatriz. Olívia.
-Finalmente! O que esteve a acontecer contigo, para que não me ligasses, não desses satisfação? Eu já estava preocupada, Olívia!
-Tinhas razões de sobra para estar.
-Não me assustes. Que voz é esta?
-Por favor, eu não quero que tu te preocupes comigo, eu já estou bem...
-O que quer dizer que não estava antes. Dizes, Olívia.
-Eu estou num hospital, mas estou voltando para a república onde estou hospedada.
-Sem rodeios, Olívia. O que te levou a ser internada?
-Beatriz, é muita longa a história para ser explicada pelo celular.
-Se não me falares nada, eu pego o primeiro avião e vou até onde tu estás.
-Tudo bem. Mas eu vou pedir-te apenas que permaneças calma.
-Andes, Olívia. Não me faças rodeios.
-Eu fiquei alguns dias em cárcere privado.
-O quê? Que disparate é este?
-Não é absurdo nenhum, é a mais pura verdade. Lembras o Nicolas, de quem eu havia falado há alguns dias contigo?
-O que ele fez contigo, Olívia?
-Agora eu estou melhor, daqui a pouco eu saio do hospital. Mas ele raptou-me e tentou acabar com a minha vida.
-Parece até que estás a contar-me uma mentira. Queres dizer que ele fingiu ser uma boa pessoa?
-E se não fosse a mão de Deus, estaria morta neste momento e ninguém descobriria nada.
-Eu quero ir até aí, ter certeza de que tu estás bem.
-Não é necessário, Beatriz. O professor está retornando à Lisboa e eu estou voltando com ele.
-Bem que eu senti que alguma coisa de grave estava acontecendo... Deveriam ter me ligado quando tu foste resgatada.
-Preferi esperar eu ficar um pouco melhor para pedir ao professor o celular emprestado, já que ainda não havia voltado para casa.
-A tua casa é aqui. Tens que voltar o quanto antes. E o sacripanta? Foi preso?
-Está em estado grave. O médico contou que ele pode ficar em estado vegetativo, caso acorde.
-Tomara que morra. Aliás, tenho uma sugestão melhor: que vá para a cadeia e pague por tudo o que fez, mas definhando. É pouco para um canalha desta estirpe.
-Que pensamento, Beatriz...
-Depois do que ele te fez, não há como sentir pena. Se houvesse, faria questão de não senti-la. Mas tens certeza de que estás bem mesmo?
-O professor já comprou as nossas passagens para amanhã de manhã. Acho que no começo da tarde desembarcaremos em Lisboa.
-Vou até lá para conferir se estás bem mesmo.
-Beatriz?
-O que é?
-Eu te amo.
-Eu também te amo muito, minha irmã. Não demores para voltar- Beatriz chora em silêncio.
-Prometo-te que não. Até amanhã- desliga o celular.
Anoitece na linda Lisboa, mas antes disso, Valente já está no Recifeeling para retomar o seu posto de saxofonista do local, após dias afastado em decorrência do ferimento que sofreu. Hélio recebe o músico e, durante o ensaio, conversa com o rapaz sobre as novidades que envolvem o seu sobrinho.
-Até que enfim chegou o dia em que o Kleber deixou-se vencer por alguém. Jamais imaginei o meu irmão pedindo desculpas para quem quer que seja.
-Pelo pouco que conheço de teu irmão, eu também não seria capaz de imaginar.
-Mas é certa mesmo esta ideia do Tato vender o carro para alugar um apartamento? Por que ele não muda, então, para a minha casa?
-Porque ele não quer mais depender de ninguém da família, Hélio. O que houve entre o pai foi muito desgastante, ele sente medo de que as pessoas o julguem mal.
-Sei disto, Valente, mas trata-se do meu sobrinho. Como poderia pensar algo errado a seu respeito?
-Da mesma forma que pensaste que eu era o doador anônimo. Hélio, ele quer deixar para trás toda mágoa que existe entre ele e a própria família.
-O que tu achas da decisão do Tato?
-Para mim, o ideal seria ele vivendo novamente em família. Mas é como diz aquele ditado: “cada cabeça é um mundo”. Até andou tirando fotos do carro e pondo à venda na internet.
-Com licença- após o dia em que tentou oferecer sexo ao noivo, Cissa fala com Valente, procurando-lhe em seu local de trabalho- Podemos falar, meu querido?
-Vou deixá-los a sós- avisa Hélio.
-O que te trouxe até aqui, Cissa?
-Isto- a vendedora beija o saxofonista com desespero.