09/04/2019

DO NAIPE DO NIPO/ CENA 3


THIAGO: Foi bom termos parado aqui no restaurante. Dá pra discutir as nossas ideias sem sermos interrompidos.
Wilson aparece novamente, desta vez como um garçom do Castelus.
WILSON: Desejam alguma coisa?
THIAGO: Além de sair daqui, mais nada.
ANTONIO: Café, por favor.
WILSON: Está bem. Vou providenciar a sua xícara.
ANTONIO: Não, o meu bule.
WILSON: Com licença, então.
THIAGO: Qual é a sua primeira proposta?
ANTONIO: Um quadro no qual possamos entrevistar pessoas que possuam bastante relevância no cenário científico nacional.
THIAGO: Você conhece alguém que preencha esse requisito?
ANTONIO: Só o meu professor de fenômenos de transporte, Aderito.
WILSON: O seu bule, senhor.
ANTONIO: Ah, obrigado.
WILSON: Mil perdões, eu não havia lhe visto. A senhorita gostaria de pedir alguma coisa?
ISABELA: (sem aparecer, dialoga com Wilson) Uma xícara de chá de amora, por favor. Dizem que é bom pra emagrecer.
THIAGO: Você não está gorda.
ISABELA: “Quente”.
THIAGO: E ainda mais com esse calor?
ISABELA: “Quente” perguntou?
(fundo musical: “I feel for you”- “I feel for you/ I think I love you/ I feel for you”)
ANTONIO: Thiago, quem é essa mulher?
THIAGO: Só agora que você notou? Essa é a Isabela Canto, cinegrafista da Joga Fora No Lixo Produções. É pra ela que você vai ter que olhar quando estiver gravando.
ANTONIO: (segura o bule perto da boca) Vai ser um prazer pra mim. Aliás, tô com vontade de dividir.
THIAGO: O seu café?
ANTONIO: Não, o meu prazer com ela. Meu café é inegociável.
O letreiro avisa: “ファイブ分後...”.
LOCUTOR: “Cinco minutos depois...”.
THIAGO: Eu não quero te assustar, mas é o terceiro bule que você entorna. Não acha que é hora de parar um pouco?
ANTONIO: Sinceramente, não.
O letreiro avisa novamente: “ファイブ分後...”.
LOCUTOR: “Cinco minutos depois...”.
Completamente alterado, Antonio cambaleia pelos corredores do Castelus cantando. Thiago ampara o candidato a apresentador.
ANTONIO: “Frases que o vento vem às vezes me lembrar, coisas que ficaram muito tempo por dizer, na canção do vento não se cansam de voar” (a última palavra é cantada em duração estendida)...
THIAGO: Isabela, corre até a farmácia da Praça da Várzea e compra uma injeção de insulina. Ele entrou em coma alcoólico!
ANTONIO: “Você pega o trem azul, o sol na cabeça, o sol pega o trem azul, você na cabeça (a próxima frase é gritada). O sol na cabeça”!
THIAGO: (toma um banco de praça) Senta aqui, por favor. Espera, que daqui a pouco a Isabela vai trazer seu remédio.
ANTONIO: Thiago, você tá vendo aquilo?
THIAGO: Eu não tô vendo nada.
ANTONIO: É ele!
THIAGO: Ele quem, idiota?
ANTONIO: O intelectual que vai estrear o meu quadro de entrevistas.
(fundo musical: “Amor colegial”- “não sei/ eu não sei/ não, não sei/ eu não sei”)
A vinheta do quadro “Nipodres revelados” é veiculada com o letreiro “ニポから腐った”.
ANTONIO: (cercado de canhões e armaduras) Começamos o programa de hoje com uma das figuras mais importantes do cenário científico nacional. De que maneira você começou a sua carreira, meu caro?
WILSON: Não sou seu caro. Que história é essa de me tirar do serviço pra gravar isso?
ISABELA: Trouxe a injeção.
THIAGO: Então, aplica logo que Antonio tá surtando.
ANTONIO: Certamente sua carreira tem altos e baixos, como a de todo mundo. Mas de que maneira você começou a trabalhar?
WILSON: Comecei lavando pratos. Depois, passei a circular pelo salão do restaurante atendendo aos clientes.
ANTONIO: E agora, graças à repercussão do quadro “Nipodres revelados”, você acaba de se tornar uma celebridade instantânea.
THIAGO: Moço, você não é obrigado a falar com esse doido, não. Pode sair daí.
WILSON: Adoraria, mas seu amigo me algemou no gatilho de uma das armas antigas do museu. Se eu me mexer, danou-se tudo.
THIAGO: Bom, enquanto Antonio procura a chave das algemas, vamos pensar numa ideia menos perigosa pra executar no programa.

08/04/2019

DO NAIPE DO NIPO/ CENA 2


(fundo musical: “Rio”)
O média-metragem mostra cenas da cidade do Recife, onde está o museu indicado pela voz misteriosa. Thiago para em frente ao restaurante Castelus, propriedade do instituto onde acontecerá a gravação.
THIAGO: (pensa) Tomara que esse homem misterioso não demore a aparecer.
Encostado à parede do imóvel, um homem usando um chapéu de pele de urso- parecido com o que é usado pelos guardas da coroa inglesa- está de costas para o produtor, que se aproxima.
THIAGO: Com licença. Eu estou procurando...
ANTONIO: (vira-se para o videomaker) Já não está mais.
(fundo musical: “A noite”)
Thiago olha perplexo para Antonio, que esboça um leve sorriso de quem tem o domínio da situação.
THIAGO: Olha, de todas as pessoas que eu esperava encontrar na minha volta ao Brasil, a última que eu imaginei foi você.
ANTONIO: Como também não supôs que era a minha voz falando contigo numa ligação tão cara que acabou os meus bônus da Oi.
THIAGO: Quer dizer, então, que o cliente misterioso... Era você?
ANTONIO: O próprio.
THIAGO: O que é que você quer comigo?
ANTONIO: Explorar o seu talento como produtor. E o meu como comandante.
THIAGO: De um barco no naufrágio, só se for! Eu não acredito que você me tirou do Japão pra... Aliás, pra que foi que você me chamou?
ANTONIO: Eu tava pensando, enquanto bebia uma xícara de café e outra, que eu tenho capacidade pra apresentar um programa de verdade.
THIAGO: Você não tem.
ANTONIO: Cara, confia em mim...
THIAGO: Antonio, insistir nessa patacoada é um absurdo! Todos nós já vimos seu desempenho nos vídeos da internet e sabemos que você não tem condições de apresentar um programa.
ANTONIO: Mas eu elaborei um roteiro, dessa vez eu sei que vai dar certo. Thiago, eu sei que pode parecer loucura pra você, mas eu consigo ver um futuro brilhante pra mim. E no entretenimento.
THIAGO: Ah, é? Viu como? Na borra do café, feito um vidente? Faça-me o favor! Eu vou pro hotel buscar as malas e, de lá, vou pro aeroporto!
ANTONIO: Você não acredita em mim mesmo?
THIAGO: Não preciso dizer que não.
ANTONIO: Pensa comigo: com o roteiro que eu elaborei, vai ser fácil conseguir repercussão a ponto de migrar pra TV aberta. Não é isso que os youtubers estão fazendo?
THIAGO: (põe a mão sobre o rosto) Isso não pode estar acontecendo. Não comigo.
ANTONIO: Acredite, meu amigo. Eu já consigo ver a glória, os holofotes sobre mim, repórteres de todas as emissoras cobrindo os bastidores do meu sucesso, inúmeras coletivas de imprensa que me abordam, jornalistas curiosos que... Ah (o estudante tem a língua violentamente puxada por Thiago, que olha para os seus dentes)!
THIAGO: Já eu consigo ser vidente e, ao mesmo tempo, fazer trocadilhos medonhos. No dente eu vejo o seu futuro... Que é tão podre quanto a cárie que arrancou o meu.
Numa previsão, aparece Wilson no primeiro dos vários personagens que interpretará ao longo do roteiro. O amigo em comum de Antonio e Thiago se torna um mestre de cerimônias da formatura do aluno de engenharia elétrica.
WILSON: E para abrir as entradas triunfais do baile de formatura da turma 2030.2 de Engenharia Elétrica da UPE, por ordem alfabética, o mais intelectual dos nossos alunos: Antonio Nipo.
(fundo musical: “bum bum tan tan”- “vem com o bumbum tan tan tan/ vai, mexe o bumbum tan tan/ vem, desce o bumbum tan tan tan/ vai, mexe o bumbum tan tan/ vem, desce o bumbum”)
Com uma cartola, óculos com lentes em formato de coração e um boá, Antonio passa pelo tapete vermelho dançando ao som do funk “Bum bum tan tan”.
Noutra previsão, Wilson aparece caracterizado como um rabino, celebrando o casamento do mesmo rapaz.
WILSON: Pelos poderes investidos a mim, eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva, bom rapaz.
ANTONIO: “Bom rapaz”? Eu sou mais do que isso; eu sou ótimo! Eu sou o tal! Essa mulher tem sorte, porque se eu fosse do sexo dela, eu flertaria comigo mesmo pra conseguir me levar pra cama!
(fundo musical: “Eu me amo”- “eu me amo, eu me amo/ não posso mais viver sem mim”)
Repentinamente, Antonio realiza uma coreografia de “Eu me amo” em pleno altar, constrangendo Wilson.
WILSON: (sussurra para a noiva) Conheço um advogado ótimo em casos de separação litigiosa.
ANTONIO: O que eu preciso fazer pra te convencer a produzir um programa pra mim? Eu pago!
THIAGO: Só se for os pecados, porque dinheiro que é bom... Além do mais, nada vai passar por cima dos meus princípios, e eles me dizem que você não regula.
ANTONIO: Eu te dou o que você quiser.
THIAGO: Ah, não. Sanduíche da Subway é sacanagem! Jura mesmo?
ANTONIO: Todas as ofertas do dia durante um ano. E não precisa nem ir até lá, eu mando entregar na sua casa.
THIAGO: Tudo bem, eu topo. Você já pensou num título pro programa?
ANTONIO: Sim, eu queria alguma coisa envolvendo coisas que eu gosto.
THIAGO: Vejamos... Você gosta de engenharia elétrica, café, música clássica, física e de si mesmo. O que seria, então? “Beethoven elétrico”? “Fora da lei de Ohm”? “Café com aroma de homem”?
ANTONIO: Sem piadas, por favor. Tem que ser alguma coisa que represente o nível que o programa possui.
THIAGO: Que seria...
(fundo musical: “Xixi nas estrelas”)
Surge um letreiro em japonês sobre o rosto de Antonio: “ニポレベルの
LOCUTOR: “Do naipe do Nipo”.

07/04/2019

DO NAIPE DO NIPO/ CENA 1


Baseado em fatos surreais
現実的な事実に基づいて

A fachada do prédio da Joga Fora No Lixo Produções, localizada em Tóquio, é mostrada aos espectadores. O narrador traduz a placa da empresa.
NARRADOR: Joga Fora No Lixo Produções (ゴミ箱で遊ぶ).
(fundo musical: “Kairos”)
O telefone do imóvel toca por alguns segundos. Thiago atende a ligação e dialoga em japonês com o possível cliente.
THIAGO: Joga Fora No Lixo Produções, bom dia. (Oyasumi, gomibako de asobou.)
VOZ MISTERIOSA: Esta é a produtora presidida por Thiago Barros? (Kore wa Thiago Barros ga gichō o tsutomeru seisakukaishadesu?)
THIAGO: Pior do que isso. Ele é o único funcionário dela. O que deseja? (Sore yori mo warui. Kare wa kanojo no yuiitsu no jūgyōindesu. Nani o shitaidesu ka?)
VOZ MISTERIOSA: Falar com o dito cujo. (Itta hito to hanasu.)
THIAGO: Seu anseio foi realizado. Diga mais. (Anata no akogare wa jitsugen shimashita. Shōsai o oshietekudasai.)
VOZ MISTERIOSA: Eu tenho uma proposta irrecusável. (Watashi wa hanbaku dekinai teian ga arimasu.)
THIAGO: Do que se trata? (Sore wa nani ni tsuitedesu ka?)
VOZ MISTERIOSA: Soube que a sua empresa é especializada em produção de vídeos. Um amigo brasileiro me indicou o seu contato. (Watashi wa anata no kaisha ga bideo seisaku o senmon to shite iru koto o rikai shite imasu. Burajiru no yūjin ga watashi ni kare no renrakusen o oshiete kuremashita)
THIAGO: Verdade? Quem é essa pessoa? (Hontōdesuka? Kono hito wa daredesu ka?)
VOZ MISTERIOSA: Isso não vem ao caso. O que eu quero é saber se você está disposto a vir ao Brasil para a gravação de um programa de variedades que estou desenvolvendo. (Kore wa pointo no yoko ni aru. Watashi ga hoshī no wa, watashi ga kaihatsu shite iru samazamana puroguramu no rokuon no tame ni Burajiru ni kitai to omotte iru ka dō ka o shiru kotodesu.)
THIAGO: Pra quando seria isso, então? (Sore wa itsudesu ka?)
VOZ MISTERIOSA: Antes do romper do ano de 2018. (Ni sen jū hachi- nen no kyūkei no mae.)
THIAGO: Por mim, não tem problema. O senhor escolheu o local da gravação? (Sore wa watashi ni totte wa daijōbudesu. Anata wa rokuon no basho o eranda nodesu ka?)
VOZ MISTERIOSA: Como a atração é voltada para a elite intelectual do país, pensei em rodar a película num dos melhores museus da América Latina: o Instituto Ricardo Brennand. (Kono miryoku wa kuni no chiteki erīto ni muke rarete irunode, watashi wa Chūnanbei no saikō no bijutsukan, Rikarudo burenando insutite~yūto de eiga o satsuei suru koto o kangaemashita.)
THIAGO: Ótima escolha. O senhor marca a data, deposita o meu cachê na conta que eu vou fornecer e eu renovarei meu passaporte para voltar à minha terra natal. (Subarashī sentaku. Anata wa hidzuke o kinyū shi, watashi ga teikyō shiyou to shite iru kōza ni watashi no okane o nyūkin shi, anata no furusato ni modoru tame ni watashi wa pasupōto o kōshin shimasu.)
VOZ MISTERIOSA: Você viaja muito? (Anata wa takusan ryokō shimasu ka?)
THIAGO: Bastante. Mas estou cansado de viajar na maionese.  (Jūbun. Shikashi, watashi wa mayonēzu de ryokō ni akiakishite imasu.)

09/02/2019

COMO NASCEM OS ATOR(DOADOS)/ CENA 7


APRESENTADOR: O curta foi barrado para exibição, como os outros em que você esteve?
THIAGO: Foi ao ar. E eu acho o filme maravilhoso, apesar de só ter visto uma vez.
APRESENTADOR: Mas a minha produção informou que o dia de exibição teve pra você um significado especial.
THIAGO: Sim. Depois de seis meses, eu revi Miss Rivotril.
APRESENTADOR: Quem é essa?
THIAGO: A aluna mais notável do Colégio Farofa. Nos reencontramos na universidade, onde o curta foi exibido.
APRESENTADOR: Falando nisso, o filme exibiu esse momento clássico do cinema nacional que foi a coreografia da roda?
THIAGO: Infelizmente, o filme era um suspense. Ou felizmente, dependendo da perspectiva que se tenha.
APRESENTADOR: Se não for impressão minha, você está desviando do assunto: a sua participação.
THIAGO: Ah, sim. Eu assisti à cena do olhar que tive que fazer e entendi que definitivamente eu não tenho talento para participações icônicas na filmografia brasileira.
APRESENTADOR: Tenta o exterior.
THIAGO: Tô falando sério. Quando olhei pra cara que eu fiz, me senti como a música da Banda Magníficos e fiz o possível pra não olhar pra mim mesmo.
(fundo musical: “Tentando me evitar”- “só tá tentando me evitar/ me evitar, me evitar/ só tá tentando me evitar/ só tá tentando me evitar”)
O público conhece a feição assustadora e caricata que Thiago fez ao atuar em seu último filme.
APRESENTADOR: Isso te gerou algum tipo de receio?
THIAGO: Claro. Imagina se acontece de novo em outro filme?
(fundo musical: “Só pra o vento”)
A imaginação do protagonista o leva para outra produção cinematográfica.
Joga Fora No Lixo Produções presents
NARRADOR: Distribuição: Two Brothers Pictures.
“PINA’S FELINE”
NARRADOR: “Felina do Pina”. Versão brasileira: CDU- Rio... Doce.
Carolina caminha pela praia do Pina e avista Thiago, que está distante e de costas para ela. Sugerindo um momento romântico, ela grita:
CAROLINA: Thiago!
(fundo musical: “Eu te darei o céu”- “eu te darei o céu, meu bem/ e o meu amor também/ eu te darei o céu, meu bem/ e o meu amor também”)
Ele vira para Carolina, olhando a moça de maneira apaixonada.
Novamente, a protagonista do filme fictício chama pelo rapaz.
CAROLINA: Thiago!
(fundo musical: “Cigana”- “te amo como louco”)
O mocinho olha para Carolina com a mesma feição constrangedora do filme real.
(fundo musical: “Nem pensar”- “eu, hein?/ nem pensar”)
Em silêncio, Thiago encara o apresentador do “Como nascem os ator(doados)”.
APRESENTADOR: Bom, acho que não temos mais nada a dizer depois de tantos projetos nos quais você esteve envolvido.
THIAGO: Sinto muito que o programa termine de maneira tão melancólica.
APRESENTADOR: Fique tranquilo, a culpa não é sua... Eu acho. Mas você tem novos projetos?
THIAGO: No momento, só um: largar o meu emprego.
APRESENTADOR: No que você trabalha?
THIAGO: Atualmente, atuo como dublê de Michael Phelps.
APRESENTADOR: Desculpe, eu não entendi.
THIAGO: O que é que o Michael Phelps faz?
APRESENTADOR: Nada.
THIAGO: Exatamente!
(fundo musical: Ator principal”- “toda novela tem seu final/ fiz o papel de um homem fatal/ a minha vida ficou complicada/ porque eu tenho duas namoradas/ a minha vida ficou complicada/ porque eu tenho duas namoradas/ eu tenho dois amores/ não sei como explicar/ quando elas descobrirem/ que eu as amo iguais/ sou o ator principal, principal da minha novela...”)

voices edition/ dubbing
Audacity

cenography
Paint 3D

costumes designer
Paint

edition
Animotica Video Maker

3D effects
Windows Story Remix

subtitles
Paint

music
“A roda”- Sarajane
“Achados e perdidos”- Sylvinho Blau Blau
“Assobiar ou chupar cana”- Benito Di Paula
“Ator principal”- Roberto Villar
“Bobos da corte”- Rita Lee e Roberto de Carvalho
“Brincar de viver”- Maria Bethânia
 “Cigana”- Raça Negra

“Coisas do Brasil (DJ Ippocratis (Grego) Bournellis e Julinho Mazzei remix)”- Guilherme Arantes
“Eu te darei o céu”- Roberta Miranda
“Evidências”- José Augusto e Roberta Miranda
“Fera ferida (DJ Memê club mix)”- Roberto Carlos
“Mil vezes mil”- Xuxa Meneghel
“Nem pensar”- Kleiton & Kledir
“O beijo”- Chiquititas Brasil

“O homem ideal”- Banda Magníficos
“O portão (Felipe Venâncio house mix)”- Roberto Carlos
“Plantão da Globo”- João Nabuco
“Só pra o vento”- Ritchie
“Telefone toca”- Paquitas New Generation
“Tentando me evitar”- Banda Magníficos
“Tô doidão (Les Dalton)”- Reginaldo Rossi

thanks
Choice High School
Farofa High School
Olympic High School
Paiva’s Beach
Pina’s Beach

(C) 2019. Joga Fora No Lixo Produções- all rights reserved.

08/02/2019

COMO NASCEM OS ATOR(DOADOS)/ CENA 6


APRESENTADOR: Muito bem. Agora você poderia contar tudo sobre o seu último personagem?
THIAGO: Claro que posso. Foi assim...
APRESENTADOR: Só um minutinho. Vamos para um novo intervalo comercial e já, já voltamos com mais...
THIAGO: O filme tá quase no fim. Não estraga o roteiro.
APRESENTADOR: Tudo bem. Você voltou à figuração?
THIAGO: Sim, e dessa vez foi num filme universitário.
APRESENTADOR: Como você entrou no elenco?
THIAGO: De uma maneira bem doida, pra falar a verdade.
APRESENTADOR: Por que não estou surpreso?
THIAGO: Um amigo meu, que era estudante de Arqueologia, participava de um grupo que mostrava vagas para atuações em produções cinematográficas bancadas por alunos da universidade.
APRESENTADOR: O que leva um estudante desse curso a procurar oportunidades no cinema?
THIAGO: Não querendo ser ríspido, mas isso você tem que perguntar pra ele.
APRESENTADOR: Certo... Continue.
THIAGO: Eu entrei na página e vi que tavam procurando atores entre dezessete e vinte anos pra protagonizar um filme.
APRESENTADOR: Quantos anos você tinha na época?
THIAGO: Vinte e dois.
APRESENTADOR: E foi pro teste mesmo assim?
THIAGO: Sim, porque meu professor de Teoria da Literatura disse que a gente tem que aproveitar enquanto é jovem e feliz. A minha cara na época era de jovem.
APRESENTADOR: Vamos fingir que acreditamos nisso.
THIAGO: Pois então... Eu fui ao local do teste e meti a mão na porta, sem saber que tava rolando com outra pessoa. A minha saga de micos começou aí.
APRESENTADOR: “A saga de micos deste filme”, vamos deixar bem claro.
THIAGO: E eu imaginei que seria uma experiência marcante. Tava certo. Claro que existe um nível maior de comprometimento, já que se trata de uma faculdade. E a gente tava bem equilibrado entre iniciantes e atores de verdade. Meu caso claramente não era o segundo.
APRESENTADOR: O resultado demorou pra sair?
THIAGO: Levou uns treze dias. Na tarde de dez de dezembro de 2014, o meu celular tocou de uma maneira bem discreta.
(fundo musical: “Telefone toca”- “telefone toca/ toca nem que seja pra dizer ‘alô’/ ‘alô?’”)
APRESENTADOR: E quem foi que te chamou ao telefone?
THIAGO: Olha... (dubla os primeiros versos de “Brincar de viver”) Quem me chamou foi a pessoa responsável pela direção do curta-metragem.
DIRETOR: Nós analisamos o seu teste e decidimos que o papel do protagonista quem vai fazer é outra pessoa. Mas nós estamos precisando de integrantes pra figuração. Você se interessa?
APRESENTADOR: Até consigo imaginar sua reação quando soube quem estava ligando pra te informar do resultado...
(fundo musical: “Mil vezes mil”- “vai/ vai que o futuro agora é teu/ vem”)
Num rápido momento de divagação do apresentador, Thiago corre em direção ao Troféu Imprensa, mas tropeça em uma pedra e vai ao chão.
THIAGO: Você sabe que Troféu Imprensa não premia envolvidos em filmes, né?
APRESENTADOR: Verdade, eu esqueci. Mas me conta o que te levou a topar ser parte da figuração.
THIAGO: Uma palavra mágica que ouvi quando fui fazer o teste.
APRESENTADOR: “Cachê”?
THIAGO: Pensei nisso também, mas foi “TCC”. Tinha acabado de passar por isso e sei o quanto é difícil arrumar gente que tope te ajudar. Porque TCC é tipo o Mestre dos Magos da “Caverna do Dragão”: quando você precisa de alguém, esse alguém some.
APRESENTADOR: As gravações foram boas?
THIAGO: Ótimas. Minha primeira cena foi a primeira do cenário principal, o Colégio Farofa.
APRESENTADOR: Não quer realmente me convencer de que este era o nome do colégio?
THIAGO: Quero, sim. E foi nessa cena em que eu me deparei com o desgraçado do improviso. Tinha que inventar uma coisa pra falar com o menino que tava na minha frente. Como sou viciado em ver “Sai de baixo”, falei uma frase da Magda pra ter assunto.
APRESENTADOR: Não restam duvidas de que você foi o alívio cômico dos bastidores.
THIAGO: Acreditava nisso antes do primeiro dia de gravação, quando conheci uma atriz que dançava loucamente em frente ao banheiro do Farofa.
(fundo musical: ”A roda”- “vamos abrir a roda/ enlarguecer/ vamos abrir a roda/ enlarguecer”)
Estupefato, Thiago vê a mencionada atriz fazendo uma coreografia incomum enquanto cantava a canção de Sarajane.
APRESENTADOR: Qual foi a principal dificuldade na construção do personagem?
THIAGO: Acostumado ao modus operandi do personagem anterior, que era apresentador de web show, eu olhava pra câmera sempre que tinha oportunidade. E travei quando tive que olhar pra ela de propósito.
APRESENTADOR: Propositalmente?
THIAGO: Houve uma cena em que eu tinha que lançar um olhar de estranhamento e repulsa pro protagonista. Mas nós tínhamos que fingir que estávamos vendo o ator que havia sido escalado, quando estávamos olhando pro diretor com a câmera na mão.
APRESENTADOR: No que você pensou pra fazer esse olhar?
THIAGO: Então...
Thiago passa a lembrar-se das vinhetas do “Plantão da Globo”.

07/02/2019

COMO NASCEM OS ATOR(DOADOS)/ CENA 5


APRESENTADOR: O que aconteceu com todos esses filmes que você fez na adolescência?
THIAGO: Com exceção do primeiro em que fui figurante, foram todos reprovados pela comissão organizadora da feira de artes.
APRESENTADOR: Por sorte nossa.
THIAGO: O do Caíque só teve uma cópia, que foi dada ao professor de artes que presidia a comissão. O DVD ficou com ele em 2008 e nunca mais eu vi o filme.
APRESENTADOR: Acho melhor darmos uma pausa para um breve intervalo. Daqui a pouco, voltaremos. Não saia daí.
(fundo musical: “Tá tirando onda”)
A vinheta que anuncia o intervalo comercial é veiculada:
We are presenting “How stunned are born”
(estamos apresentando “Como nascem os ator(doados)”)
Aparece na tela um vídeo de Thiago apresentando aos telespectadores o Vale Eletrônico Metropolitano, conhecido como “Vem”.
THIAGO: Tá cansado de pagar R$ 3,20 de passagem cada vez que precisa entrar num ônibus? Paga a metade, menino, e deixa de ser besta porque você é estudante.
NARRADOR: Ouça os conselhos do Garoto do Vem e faça já o seu Vem com a carteira de estudante em vigor.
(fundo musical: “Tô doidão (Les Dalton)”)
Thiago posa com o cartão eletrônico para as lentes da câmera.
THIAGO: Vem: com ele, tudo bem.
NARRADOR: Uma campanha do Grande Recife Consórcio de Transporte.
(fundo musical: “Tá tirando onda”)
A vinheta que encerra as propagandas é exibida:
We will introduce you again “How stunned are born”
(voltamos a apresentar “Como nascem os ator(doados)”)
APRESENTADOR: Estamos de volta com Thiago Barros, o nosso entrevistado de hoje, que por algum motivo domina o mercado publicitário desse país.
THIAGO: É porque a realidade é tão louca que tudo aqui parece um universo paralelo.
APRESENTADOR: Agora vamos falar de um personagem que você criou pra si mesmo, o Thiago Gabriel.
THIAGO: Sim, um tipo que me fez conhecer muita gente.
(fundo musical: “Bobos da corte”- “nem rainha, nem rei/ apenas os bobos da corte”)
O ator passa a recordar o seu trabalho num web show, em que comandava um quadro de entrevistas chamado “Encarando Thiago”. Com óculos e uma voz característica, o rapaz atua.
THIAGO: Hoje, nós estamos de frente com uma pessoa irrelevante no cenário político, artístico e circense nacional. Me diga: você resolveu... Ah, ah, ah... Se tornar amante das artes cênicas... Por quê? (puxa propositalmente o “r”) Agora nós vamos fazer... Ah, ah, ah... Um bate-bola, um jogo rápido, um boca-na-boca, um tête-à-tête... Eu vou falar uma palavra ou expressão e você vai me dizer a primeira coisa que vier à sua cabeça. Mas antes eu vou deixar para todos vocês o pensamento do dia, que se encontra em “Xuxa só para baixinhos”, na faixa onze do CD: “Guto bate com um martelo, um martelo, um martelo; Guto bate com um martelo; então, bate com dois” (fala em tom ameaçador) Boa noite.
APRESENTADOR: E esse foi o seu personagem mais duradouro?
THIAGO: Foi. Passei uns três anos interpretando quando visitava os novos alunos do Colégio Escolha. Certamente foi a maneira mais maluca que eu usei pra conhecer gente.
APRESENTADOR: E quais eram as respostas que os entrevistados te davam?
THIAGO: (após um breve silêncio) As piores possíveis.
São exibidas cenas de Thiago entrevistando dois rapazes e uma moça no quadro mencionado.
THIAGO: E quais são as suas expectativas com relação ao Enem?
HEITOR: Conseguir responder tudinho.
THIAGO: É, né?
THIAGO: Uma matéria?
CRISTINA: A da invasão do Complexo do Alemão.
THIAGO: Eu quis dizer “uma matéria do currículo escolar”.
CRISTINA: Ah, tá.
THIAGO: E como anda a sua vida amorosa? Tá namorando, casado, ficando, “tico-tico no fubá”, “de rolo”, “barbante”? Tá fazendo o quê da vida?
JÚNIOR: Nenhuma das alternativas.
THIAGO: Então, não tá vivendo!

06/02/2019

COMO NASCEM OS ATOR(DOADOS)/ CENA 4


APRESENTADOR: Dois dias depois, você foi convidado pra fazer um personagem que não tinha dedo seu no roteiro.
THIAGO: Eu fui acompanhar as gravações de uma versão tupiniquim de “High School Musical”, com paródias, coisa que eu gosto de fazer desde os quatorze anos.
APRESENTADOR: E isso não tem dedo seu?
THIAGO: Pior que não. Essa ideia foi da Ariadne. Eu só compus as paródias. Entendeu o que eu quis dizer com “projeto de maior relevância”?
APRESENTADOR: Sua voz esganiçada teve que cantar no filme?
THIAGO: Não, porque eu não fiz um aluno.
APRESENTADOR: Misericórdia, fizesse o quê?
THIAGO: Um dos personagens, o Maurinho, era um adolescente que ficava imaginando coisas em sala de aula.
APRESENTADOR: Que tipo de coisas?
THIAGO: Que personagens do filme “Shrek” invadiam o cenário.
APRESENTADOR: Fala de uma vez: que espécie de oportunidade você agarrou?
THIAGO: O meu personagem era simplesmente...
(fundo musical: “Fera ferida (DJ Memê club mix)”- “animal”)
É exibida uma cena na qual Thiago está vestido de burro.
APRESENTADOR: Tem coisa pior do que isso?
THIAGO: Tem: Maurinho errar o nome do meu personagem.
MAURINHO: “Olha o Shrek (aponta para Thiago)”!
THIAGO: E eu nem te contei o que o filme me rendeu.
APRESENTADOR: Além da vontade de imitar um tamanduá e enfiar a cara na terra de tanta vergonha?
THIAGO: Sim. Uma sequência.
APRESENTADOR: Você não está falando sério.
THIAGO: Queria não estar, mas eu terminei o ensino médio e fiz um pré-vestibular no mesmo colégio. Contei a história a Tom, um aluno da sexta série, e ele se interessou em produzir uma continuação.
APRESENTADOR: Não me diga que você reprisou o papel do burro.
THIAGO: Não tive um papel pra mim. Acontece que Zé, o menino que ia fazer o porteiro, teve um problema no pé e não pôde aparecer nas cenas que foram escritas pra ele.
APRESENTADOR: Que raio de sequência é essa que traz você num papel diferente do primeiro filme e não reprisa nenhum ator além de você?
THIAGO: Você se acostumou com “Homem-Aranha” e “O espetacular Homem-Aranha” e tá
cobrando coerência de mim por que mesmo?
APRESENTADOR: Tudo bem, vamos para questões mais amenas. O que você fazia no filme?
THIAGO: Cantava umas paródias e varria o cenário.
APRESENTADOR: Só isso?
THIAGO: Também exerci uma carga dramática gigantesca numa cena em que eu refletia sobre a qualidade precária da manutenção do ensino público, quando o porteiro reclamava por não ter detergente pra lavar a portaria, devidamente defecada por pombos após uma dedetização profunda.
APRESENTADOR: Verdade?
THIAGO: Não, mas...
(fundo musical: “Assobiar ou chupar cana”- “seria muito bom/ seria muito legal”)
Caracterizado com uma calça coronha, Thiago canta na portaria ao lado de uma vassoura.

05/02/2019

COMO NASCEM OS ATOR(DOADOS)/ CENA 3


APRESENTADOR: Ainda no Colégio Escolha, você atuou em outra obra sua. Seria uma estratégia se colocar no elenco dos próprios filmes?
THIAGO: Pagar mico não é e nunca vai ser estratégia, é acidente de percurso mesmo.
APRESENTADOR: Soube que seu personagem se chamava Caíque.
THIAGO: Tá certo. Ele se chamava. Porque o resto do elenco nunca citou o nome dele.
APRESENTADOR: O que ele fazia na história?
THIAGO: No roteiro, o Caíque aparecia numa das festas e tentava conquistar a protagonista, e depois levava um toco. Mas não tínhamos verba pra providenciar duas festas. Inclusive, a que fizemos foi regada a muito pagode dos anos 2000, sendo que a trama se passava em 1988. E ele não estava.
APRESENTADOR: Então, como é que ele entrou no curta?
THIAGO: A história era sobre uma garota tímida que mudava o visual pra tentar fisgar o maior pegador da escola.
APRESENTADOR: Já vi isso em algum lugar...
THIAGO: Em todos. Mas ela fica grávida e não recebe o apoio de ninguém. Quando questionava o que deveria fazer, as pessoas aconselhavam que ela deveria abortar.
APRESENTADOR: Você é a favor dessa questão?
THIAGO: Só se for do mau humor. Gente eu gosto de deixar viva. Mas enfim... A melhor amiga da protagonista deveria, numa cena séria, argumentar que tirar o bebê era o melhor a se fazer. Mas aí...
KARINE: “Amiga, eu fiquei sabendo do que aconteceu. Tu ‘tá’ grávida, né? Tu ‘vai’ abortar, não vai?”.
TICIANE: “Eu não sei, eu tenho que pensar bem no que é que eu vou fazer ainda”...
KARINE: (com um tom de animação) “Aborta, mulher! Tu ‘vai’ perder as festas, ‘vai’ perder os gatinhos?”.
TICIANE: “É... É mesmo, né?”.
KARINE: “É!”.
JÚLIA: Gente, o que é que foi isso?
THIAGO: Assim... Eu acho que a cena não era pra ser desse jeito, não. Eu vou explicar como é. “Marina, eu fiquei sabendo do que aconteceu. É verdade que você tá grávida?”.
TICIANE: “É”.
THIAGO: “E agora? O que é que você vai fazer?”.
TICIANE: “Não sei. Meu pai disse que vai me tirar de casa se eu não abortar. E o canalha do meu ex disse que não quer esse bebê”.
THIAGO: “Você quer que eu diga o que eu penso?”.
TICIANE: “Fala”.
THIAGO: “Sinceramente, eu acho que não vale a pena seguir com essa gravidez. Pensa comigo: como é que você vai cuidar de uma criança que você não quer, ainda mais sem a ajuda de ninguém?”.
TICIANE: “Eu não sei. Juro pra você que eu não sei”.
THIAGO: “Seu pai não quer esse bebê, o Max também não... Será que vale a pena lutar contra o mundo todo pra ter uma criança que você nunca quis? Pensa no que eu tô te falando. Tenho certeza de que você vai tomar a melhor decisão”.
APRESENTADOR: O Caíque, então, apareceu por improviso?
THIAGO: Eu disse que meus textos da adolescência eram cultos demais, todo mundo lia o roteiro e inventava alguma cena baseada nele. Mas o “pai” do Caíque foi o Téo, que filmou meu ensaio sem que eu visse.
APRESENTADOR: Téo não era o protagonista do filme anterior?
THIAGO: Sim, e eu tentei repetir o par romântico colocando pitadas de sensualidade dessa vez. Mas Ariadne tava comprometida com o vestibular da Covest e com outro projeto de maior relevância, que explicarei logo mais.
APRESENTADOR: Bom, pelo menos sabemos que você não deu um vexame cênico, uma vez que você escreveu o roteiro.
THIAGO: Como a cena do conselho se passava na casa da mocinha e nós gravamos no Colégio Escolha por falta de verba, eu não poderia aparecer de farda. Isso explica o fato de eu ter exibido meus músculos braçais em cena, sem o menor constrangimento.
(fundo musical: “O homem ideal”- “não precisa ser o Alain Delon/ não, não precisa ser tão lindo assim”)
Thiago relembra a gravação da cena, em que estava de regata, revelando parte de seu corpo raquítico.