11/02/2025

MÃOS PROIBIDAS | CENA 2

 

Cena 2 (segunda fileira do auditório, à esquerda de quem entra / arbustos próximos ao bicicletário)

Emma já está posicionada em sua marcação, a segunda fileira do auditório, desde o início da apresentação. Otto entra pela porta principal para cumprimentar a esposa e, antes de dizer qualquer palavra, contempla a dona de casa olhando uma fotografia do filho falecido do casal.

OTTO: Estou indo para a universidade...

Com um olhar triste, Emma balança a cabeça afirmativamente.

OTTO: Não vai me dizer nada?

EMMA: (mostra a foto para o marido) Ele ficaria tão feliz vendo você lá.

OTTO: Eu sei. Mas não vai acontecer nada comigo. O programa contra os surdos foi suspenso pelo governo.

EMMA: Isso é o que ele diz. Mas não duvido que, vendo alguém que não saiba usar a linguagem oral, ele persiga a pessoa.

OTTO: Fica calma. Descobri que a minha turma tem muitos alunos surdos. Com certeza eles estarão atentos pra não cometer nenhum deslize.

EMMA: O problema é esse: a nossa identidade ser considerada um deslize. E a nossa família uma praga que precisa ser eliminada. Quando vão parar de nos matar?

Otto abraça Emma, que encosta o rosto em seu ombro.

OTTO: À noite eu volto pra casa, prometo.

Otto levanta-se e deixa o auditório pela porta da frente.

10/02/2025

MÃOS PROIBIDAS | CENA 1

 

Legendas

■ posicionamento da representação no auditório

■ cenário na versão cinematográfica

 

Cena 1 (degrau do auditório / sala de aula no segundo piso da escola)

A cortina se abre. Na tela está projetado o primeiro slide, em que está escrito apenas “2024”. Rodrigo está corrigindo provas diante da mesa, enquanto William está na ponta do degrau, olhando para baixo com semblante triste. O professor escreve com sua caneta sobre duas avaliações, mas para com o trabalho ao perceber o estado do aluno. O docente, então, levanta-se para questionar o estudante.

(Rodrigo está dentro da sala e vê William em pé na varanda, indo ao encontro do jovem)

RODRIGO: Você não participou da aula hoje.

WILLIAM: Eu não consegui.

RODRIGO: Ainda está com aquela dor no abdômen?

WILLIAM: Sim, há cinco dias que a hérnia me incomoda.

RODRIGO: Desculpa, William, mas... Já era pra você ter procurado ajuda.

WILLIAM: O senhor acha que eu não procurei? Não consegui ser atendido. Ninguém entende o que eu falo. Pior que isso: acham que eu não falo.

RODRIGO: Um absurdo. Pessoas que trabalham na área da saúde não serem preparadas pra atender a comunidade surda.

WILLIAM: Às vezes, eu penso se vale a pena continuar estudando.

RODRIGO: Por quê?

WILLIAM: Porque, pros outros, a gente é invisível.

RODRIGO: Ao menos, você tem liberdade de usar a Libras. Mas nem sempre foi assim.

WILLIAM: (olha para Rodrigo com espanto) Como era, então?

RODRIGO: Em que mês nós estamos?

WILLIAM: Setembro... Já sei. O senhor vai me dizer que é o mês nacional da educação de surdos, do tradutor de Libras...

RODRIGO: Mas não é só isso... Como você perdeu a audição?

WILLIAM: Nasci assim, mas só fui diagnosticado aos quatro anos de idade.

RODRIGO: Além de você, mais alguém na sua família é surdo?

WILLIAM: Não, eu sou o único.

RODRIGO: Antigamente, William, a surdez era considerada uma doença hereditária. E os surdos viviam sob ameaça. Sobretudo na Alemanha.

WILLIAM: Ameaçados por quê?

RODRIGO: O governo nazista tinha o propósito de formar uma raça pura, e pra que eles não se misturassem aos demais, o regime identificava os surdos com uma faixa azul.

(obs. 1: William e Rodrigo sentam-se no degrau, enquanto a ação se desenrola em várias partes do auditório. O segundo slide é projetado, agora com o número “1945”)

(obs. 2: no filme, a câmera afasta-se da dupla, e os créditos iniciais apontam uma contagem regressiva, de 2024 para 1945; e em seguida aparece o título da obra, mudando a fotografia temporariamente – de colorida para cinza)

17/01/2025

NO LUGAR DO OUTRO | CENA 5


(fundo musical: “Às vezes” – introdução)

Guto está no ponto de ônibus e, um pouco afastado dele, está Tom. Novamente ele volta a olhar para a câmera, trazendo informações sobre um dos temas abordados no filme.

TOM: Em Pernambuco, a Lei 13.995 fala sobre a inclusão da discussão e do combate contra o bullying nas escolas. E um dos objetivos é fazer com que a vítima recupere sua autoestima e consiga conviver de maneira tranquila.

Tom aproxima-se de Guto, que olha para trás e sorri.

GUTO: Oi, Tom (aperta a mão do narrador).

TOM: Tudo bem, Guto? Como está Nicolas?

GUTO: Ele está bem, ligou pra mim às oito e vinte e cinco da noite.

TOM: Sempre telefona nesse horário.

GUTO: Sim, é da natureza dele.

Tom avista um coletivo prestes a parar no ponto em que ele está com o professor.

TOM: Teu ônibus está vindo.

GUTO: É mesmo. (bota rapidamente a mão sobre o ombro de Tom) Muito bom te ver de novo.

TOM: Se cuida.

(fundo musical: “A vida toda” – “ali eu soube que era amor pra vida toda, que era contigo a minha vida toda, que era um amor para a vida toda”)

Guto retira da camisa um cordão que carrega o seu cartão eletrônico de passagens. À medida que o professor se aproxima do ônibus, a exibição da cena ocorre em rotação lenta. E a câmera chega perto do cordão, revelando que nele está escrito “pai de autista”.


CRÉDITOS FINAIS (imagens da escola)

(fundo musical: “Melhor de mim” – “também eu estou à espera de luz, deixo-me aqui onde a sombra seduz. Também eu estou à espera de mim. Algo me diz que a tormenta passará. É preciso perder pra depois se ganhar e, mesmo sem ver, acreditar. É a vida, que segue e não espera pela gente. Cada passo que demos em frente, caminhando sem medo de errar... Creio que a noite sempre se tornará dia, e o brilho que o sol irradia há de sempre me iluminar. Sei que o melhor de mim está pra chegar, sei que o melhor está por chegar, sei que o melhor de mim está pra chegar”)


Idealizado, dirigido e representado por

CELIA BISPO

“Renata”

DANILO ALVES

“Murilo”

FERNANDA SANTOS

“Júlia”

JOSINALDA FÉLIX

“Laís”

PEDRO LEMOS

“Tom”

RAFAEL PATRÍCIO

“Guto”

e THIAGO BARROS

“Vinícius”


Professor

FABIO HENRIQUE MOTA


Intérprete

LUIZ HENRIQUE COSME


Músicas adicionais


“Loucos”

Composição de MATIAS DAMÁSIO

Interpretação de MATIAS DAMÁSIO e HÉBER MARQUES


“O amor é assim”

Composição de CARMINHO, FREDERICO MARTINHO e HÉBER MARQUES

Interpretação de HMB e CARMINHO


“Onde quero estar”

Composição de DANIEL ALMEIDA, IVO PINTO e PAULO SOUSA

Interpretação de PAULO SOUSA


“Vai”

Composição de ANTONIO MENDES FERREIRA, ERZDAN SAIDOV, FRADIQUE MENDES FERREIRA, NELSON ANIBAL SENADO e NELSON GILBERTO HELENO

Interpretação de CALEMA


“Às vezes”

Composição de FRANCISCO PEREIRA, MIGUEL COIMBRA e MIGUEL CRISTOVINHO

Interpretação de D. A. M. A


“A vida toda”

Composição e interpretação de CAROLINA DESLANDES


“Melhor de mim”

Composição de AC FIRMINO e TIAGO MACHADO

Interpretação de MARIZA


Fontes de pesquisa

Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – Curitiba – PR (“TDAH é considerado uma deficiência intelectual?” (Rhúbia Ribeiro))

Câmara Legislativa do Distrito Federal

Estado de Minas

Lei 13.146 (Estatuto da Pessoa Com Deficiência)

Lei 14.254, de 30 de novembro de 2021 (Lei de acompanhamento integral para educandos com dislexia ou Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou outro transtorno de aprendizagem)

Ministério da Saúde – Portaria Conjunta Sobre Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo


Agradecimento especial

GERALDA REIS


Esta é uma obra independente de ficção, realizada para a Semana Estadual da Pessoa Com Deficiência, ocorrida entre os dias 21 e 28 de agosto de 2024. Qualquer semelhança com fatos, nomes ou pessoas reais terá sido mera coincidência.


© 2024 Governo de Pernambuco/ Gerência Regional de Educação Recife – Sul/ Escola de Referência em Ensino Médio Amaury de Medeiros

16/01/2025

NO LUGAR DO OUTRO | CENA 4

Quando Guto entra na sala 01, encontra Renata e Danilo sentados de frente à mesa da sala. Renata está claramente irritada e Danilo está de cabeça baixa, sem olhar para a mãe ou para o professor.

(fundo musical: “Onde quero estar” – “se fosse fácil falar”)

Obs.: a câmera passa pelo rosto de Murilo, que está com um semblante triste.

GUTO: Boa noite. (ele percebe que Renata nada responde) Como é que eu posso ajudar vocês?

RENATA: (abre a bolsa e mostra o celular) Meu filho foi atacado na internet. Você leu os comentários?

GUTO: Infelizmente, sim. Nós já identificamos o aluno que ofendeu o Murilo.

RENATA: Quem ele é?

Júlia bate na porta e a abre.

JÚLIA: O Vinícius está aqui.

(fundo musical: “Vai” – introdução em velocidade reduzida)

Guto balança a cabeça afirmativamente e Vinícius entra com a coordenadora, deixando a porta aberta. O professor olha para o aluno problemático.

GUTO: Pode sentar, Vinícius.

Vinícius volta o seu olhar para Danilo com profundo desprezo. Em seguida, encara o professor, que fica mais enérgico – puxa uma cadeira e a coloca ao lado de Renata.

GUTO: Senta.

O aluno aceita, a contragosto.

GUTO: (pega o celular de Renata e mostra a Vinícius) Foi você que escreveu isso?

Vinícius apenas balança a cabeça de forma afirmativa, e Renata vira o rosto em direção contrária, indignada.

GUTO: (suspira) Entende o que você fez?

VINÍCIUS: Tô ligado, quem não se liga é esse retardado!

RENATA: (levanta-se da cadeira e arregaça as mangas do casaco de Murilo, revelando os pulsos arranhados do seu filho) Você acha que ele não entende?

TOM: (sentado ao fundo da sala) Em 2023, mais de 40% dos brasileiros declararam ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística já ter sofrido bullying na escola.

JÚLIA: O que te incomoda tanto nele? O fato de o Murilo ser autista?

VINÍCIUS: Não sei, ele é diferente. Viu que nem pra cara da gente ele olha?

Murilo vê algumas canetas espalhadas sobre a mesa e começa a organizá-las, colocando-as juntas e ordenando-as pelas cores – primeiro as vermelhas, depois as azuis e por fim as pretas.

JÚLIA: Murilo, quando foi que você se machucou?

O filho de Renata nada responde.

GUTO: Espera um pouco... (aproxima-se de Murilo) Essas marcas... Você fez quando leu os comentários?

Murilo começa a balançar-se lentamente sobre a cadeira, e responde à pergunta de Guto.

TOM: (na mesma posição de sua última fala) Algumas das características que uma pessoa autista tem são: a ausência de contato visual, o corpo que se mexe pra frente e pra trás, não responder quando falam o seu nome e organizar objetos. Mas o principal é a dificuldade em interagir com as pessoas.

Murilo olha pra cima e contempla o ventilador da sala girando, fixando sua atenção no eletrodoméstico.

RENATA: Qual é a providência que vocês vão tomar?

VINÍCIUS: Vocês querem o quê?

GUTO: Não sou eu que vai resolver esse problema.

RENATA: Então quem? Ela?

JÚLIA: A polícia.

VÍNICIUS: Brincadeira, né?

GUTO: Os outros alunos, que você incentivou no Instagram pra maltratar o Murilo, acham a mesma coisa. Mas não é.

JÚLIA: A pena desse crime é de um a três anos de prisão.

GUTO: E multa.

VINÍCIUS: Tempo perdido. Eu já deletei o comentário.

JÚLIA: Já mandamos pra polícia antes de você apagar o que disse.

VINÍCIUS: (após alguns segundos em silêncio) Hum, não vai dar em nada.

GUTO: Talvez não dê mesmo. Mas um pedido de desculpas você deve pra ele.

VINÍCIUS: Pra quê? Eu posso ser preso, (olha pra Murilo novamente) isso não vai curar ninguém...

RENATA: Meu filho não é doente, pra ser curado!

JÚLIA: Calma, Renata...

RENATA: E ele vai ficar melhor longe de gente igual a você!

Vinícius fica claramente irritado e sai da sala, batendo a porta.

RENATA: Vocês vão testemunhar contra ele?

JÚLIA: Claro, é o nosso papel.

Guto senta-se em frente a Murilo, olhando para o estudante.

GUTO: Posso contar um segredo? Um dia eu fui igual ao Vinícius.

RENATA: Você? O que foi que mudou?

GUTO: Apareceu alguém que me ensinou a me colocar no lugar do outro.

Murilo aperta a mão do professor, abrindo um discreto riso.

MURILO: Obrigado.

15/01/2025

NO LUGAR DO OUTRO | CENA 3

(fundo musical: “O amor é assim”- introdução)

O celular de Guto começa a tocar, trata-se de uma videochamada. O professor atende, pondo o aparelho numa banca que está próxima. A pessoa que realiza a ligação é Nicolas, filho de Guto.

Obs.: não se vê o rosto de Nicolas, apenas se ouve a voz do adolescente.

NICOLAS: A bênção, Pai.

GUTO: Deus te abençoe, filho.

NICOLAS: São oito e vinte e cinco da noite.

GUTO: Eu sei. Às onze horas eu volto pra casa.

NICOLAS: Tá bom, Pai. Um beijo.

GUTO: Outro pra você.


CENA 4 (sala 01)

Quando Guto entra na sala 01, encontra Renata e Danilo sentados de frente à mesa da sala. Renata está claramente irritada e Danilo está de cabeça baixa, sem olhar para a mãe ou para o professor.

(fundo musical: “Onde quero estar” – “se fosse fácil falar”)

Obs.: a câmera passa pelo rosto de Murilo, que está com um semblante triste.

GUTO: Boa noite. (ele percebe que Renata nada responde) Como é que eu posso ajudar vocês?

RENATA: (abre a bolsa e mostra o celular) Meu filho foi atacado na internet. Você leu os comentários?

GUTO: Infelizmente, sim. Nós já identificamos o aluno que ofendeu o Murilo.

RENATA: Quem ele é?

Júlia bate na porta e a abre.

JÚLIA: O Vinícius está aqui.

(fundo musical: “Vai” – introdução em velocidade reduzida)

Guto balança a cabeça afirmativamente e Vinícius entra com a coordenadora, deixando a porta aberta. O professor olha para o aluno problemático.

GUTO: Pode sentar, Vinícius.

Vinícius volta o seu olhar para Danilo com profundo desprezo. Em seguida, encara o professor, que fica mais enérgico – puxa uma cadeira e a coloca ao lado de Renata.

GUTO: Senta.

O aluno aceita, a contragosto.

GUTO: (pega o celular de Renata e mostra a Vinícius) Foi você que escreveu isso?

Vinícius apenas balança a cabeça de forma afirmativa, e Renata vira o rosto em direção contrária, indignada.

GUTO: (suspira) Entende o que você fez?

VINÍCIUS: Tô ligado, quem não se liga é esse retardado!

RENATA: (levanta-se da cadeira e arregaça as mangas do casaco de Murilo, revelando os pulsos arranhados do seu filho) Você acha que ele não entende?

TOM: (sentado ao fundo da sala) Em 2023, mais de 40% dos brasileiros declararam ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística já ter sofrido bullying na escola.

JÚLIA: O que te incomoda tanto nele? O fato de o Murilo ser autista?

VINÍCIUS: Não sei, ele é diferente. Viu que nem pra cara da gente ele olha?

Murilo vê algumas canetas espalhadas sobre a mesa e começa a organizá-las, colocando-as juntas e ordenando-as pelas cores – primeiro as vermelhas, depois as azuis e por fim as pretas.

JÚLIA: Murilo, quando foi que você se machucou?

O filho de Renata nada responde.

GUTO: Espera um pouco... (aproxima-se de Murilo) Essas marcas... Você fez quando leu os comentários?

Murilo começa a balançar-se lentamente sobre a cadeira, e responde à pergunta de Guto.

TOM: (na mesma posição de sua última fala) Algumas das características que uma pessoa autista tem são: a ausência de contato visual, o corpo que se mexe pra frente e pra trás, não responder quando falam o seu nome e organizar objetos. Mas o principal é a dificuldade em interagir com as pessoas.

Murilo olha pra cima e contempla o ventilador da sala girando, fixando sua atenção no eletrodoméstico.

RENATA: Qual é a providência que vocês vão tomar?

VINÍCIUS: Vocês querem o quê?

GUTO: Não sou eu que vai resolver esse problema.

RENATA: Então quem? Ela?

JÚLIA: A polícia.

VÍNICIUS: Brincadeira, né?

GUTO: Os outros alunos, que você incentivou no Instagram pra maltratar o Murilo, acham a mesma coisa. Mas não é.

JÚLIA: A pena desse crime é de um a três anos de prisão.

GUTO: E multa.

VINÍCIUS: Tempo perdido. Eu já deletei o comentário.

JÚLIA: Já mandamos pra polícia antes de você apagar o que disse.

VINÍCIUS: (após alguns segundos em silêncio) Hum, não vai dar em nada.

GUTO: Talvez não dê mesmo. Mas um pedido de desculpas você deve pra ele.

VINÍCIUS: Pra quê? Eu posso ser preso, (olha pra Murilo novamente) isso não vai curar ninguém...

RENATA: Meu filho não é doente, pra ser curado!

JÚLIA: Calma, Renata...

RENATA: E ele vai ficar melhor longe de gente igual a você!

Vinícius fica claramente irritado e sai da sala, batendo a porta.

RENATA: Vocês vão testemunhar contra ele?

JÚLIA: Claro, é o nosso papel.

Guto senta-se em frente a Murilo, olhando para o estudante.

GUTO: Posso contar um segredo? Um dia eu fui igual ao Vinícius.

RENATA: Você? O que foi que mudou?

GUTO: Apareceu alguém que me ensinou a me colocar no lugar do outro.

Murilo aperta a mão do professor, abrindo um discreto riso.

MURILO: Obrigado.


CENA 5 (ponto de ônibus)

(fundo musical: “Às vezes” – introdução)

Guto está no ponto de ônibus e, um pouco afastado dele, está Tom. Novamente ele volta a olhar para a câmera, trazendo informações sobre um dos temas abordados no filme.

TOM: Em Pernambuco, a Lei 13.995 fala sobre a inclusão da discussão e do combate contra o bullying nas escolas. E um dos objetivos é fazer com que a vítima recupere sua autoestima e consiga conviver de maneira tranquila.

Tom aproxima-se de Guto, que olha para trás e sorri.

GUTO: Oi, Tom (aperta a mão do narrador).

TOM: Tudo bem, Guto? Como está Nicolas?

GUTO: Ele está bem, ligou pra mim às oito e vinte e cinco da noite.

TOM: Sempre telefona nesse horário.

GUTO: Sim, é da natureza dele.

Tom avista um coletivo prestes a parar no ponto em que ele está com o professor.

TOM: Teu ônibus está vindo.

GUTO: É mesmo. (bota rapidamente a mão sobre o ombro de Tom) Muito bom te ver de novo.

TOM: Se cuida.

(fundo musical: “A vida toda” – “ali eu soube que era amor pra vida toda, que era contigo a minha vida toda, que era um amor para a vida toda”)

Guto retira da camisa um cordão que carrega o seu cartão eletrônico de passagens. À medida que o professor se aproxima do ônibus, a exibição da cena ocorre em rotação lenta. E a câmera chega perto do cordão, revelando que nele está escrito “pai de autista”.


CRÉDITOS FINAIS (imagens da escola)

(fundo musical: “Melhor de mim” – “também eu estou à espera de luz, deixo-me aqui onde a sombra seduz. Também eu estou à espera de mim. Algo me diz que a tormenta passará. É preciso perder pra depois se ganhar e, mesmo sem ver, acreditar. É a vida, que segue e não espera pela gente. Cada passo que demos em frente, caminhando sem medo de errar... Creio que a noite sempre se tornará dia, e o brilho que o sol irradia há de sempre me iluminar. Sei que o melhor de mim está pra chegar, sei que o melhor está por chegar, sei que o melhor de mim está pra chegar”)


Idealizado, dirigido e representado por

CELIA BISPO

“Renata”

DANILO ALVES

“Murilo”

FERNANDA SANTOS

“Júlia”

JOSINALDA FÉLIX

“Laís”

PEDRO LEMOS

“Tom”

RAFAEL PATRÍCIO

“Guto”

e THIAGO BARROS

“Vinícius”


Professor

FABIO HENRIQUE MOTA


Intérprete

LUIZ HENRIQUE COSME


Músicas adicionais


“Loucos”

Composição de MATIAS DAMÁSIO

Interpretação de MATIAS DAMÁSIO e HÉBER MARQUES


“O amor é assim”

Composição de CARMINHO, FREDERICO MARTINHO e HÉBER MARQUES

Interpretação de HMB e CARMINHO


“Onde quero estar”

Composição de DANIEL ALMEIDA, IVO PINTO e PAULO SOUSA

Interpretação de PAULO SOUSA


“Vai”

Composição de ANTONIO MENDES FERREIRA, ERZDAN SAIDOV, FRADIQUE MENDES FERREIRA, NELSON ANIBAL SENADO e NELSON GILBERTO HELENO

Interpretação de CALEMA


“Às vezes”

Composição de FRANCISCO PEREIRA, MIGUEL COIMBRA e MIGUEL CRISTOVINHO

Interpretação de D. A. M. A


“A vida toda”

Composição e interpretação de CAROLINA DESLANDES


“Melhor de mim”

Composição de AC FIRMINO e TIAGO MACHADO

Interpretação de MARIZA


Fontes de pesquisa

Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – Curitiba – PR (“TDAH é considerado uma deficiência intelectual?” (Rhúbia Ribeiro))

Câmara Legislativa do Distrito Federal

Estado de Minas

Lei 13.146 (Estatuto da Pessoa Com Deficiência)

Lei 14.254, de 30 de novembro de 2021 (Lei de acompanhamento integral para educandos com dislexia ou Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou outro transtorno de aprendizagem)

Ministério da Saúde – Portaria Conjunta Sobre Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo


Agradecimento especial

GERALDA REIS


Esta é uma obra independente de ficção, realizada para a Semana Estadual da Pessoa Com Deficiência, ocorrida entre os dias 21 e 28 de agosto de 2024. Qualquer semelhança com fatos, nomes ou pessoas reais terá sido mera coincidência.


© 2024 Governo de Pernambuco/ Gerência Regional de Educação Recife – Sul/ Escola de Referência em Ensino Médio Amaury de Medeiros


Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco

https://legis.alepe.pe.gov.br/texto.aspx?id=912&tipo=TEXTOATUALIZADO


Lei 14.254, de 30 de novembro de 2021

https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.254-de-30-de-novembro-de-2021-363377461


Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – Curitiba – PR

“TDAH é considerado uma deficiência intelectual?” (Rhúbia Ribeiro)

https://apaecuritiba.org.br/tdah-e-uma-deficiencia-intelectual/


Lei 13.146 (Estatuto da Pessoa Com Deficiência)

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm


Câmara Legislativa do Distrito Federal

https://www.cl.df.gov.br/-/nova-lei-institui-campanha-de-esclarecimento-sobre-deficiencia-visual


Estado de Minas

https://www.em.com.br/app/noticia/saude-e-bem-viver/2023/04/08/interna_bem_viver,1478999/bullying-40-dos-estudantes-adolescentes-admitem-ter-sofrido-a-pratica.shtml


Ministério da Saúde – Portaria Conjunta Sobre Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo

https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/resumidos/PCDT_Resumido_Autismo_final.pdf


14/01/2025

NO LUGAR DO OUTRO | CENA 2

Enquanto Guto vai caminhando até a secretaria, o docente encontra a coordenadora da escola, Júlia, que demonstra apreensão.

Obs.: sempre que Guto estiver falando com esta personagem, Júlia deve bater o pé esquerdo repetidas vezes no chão.

JÚLIA: Até que enfim você voltou.

GUTO: Oi, Júlia. O que houve?

JÚLIA: A mãe de um aluno está esperando pra falar contigo.

GUTO: Qual é o nome do aluno?

JÚLIA: (soletra) Murilo.

GUTO: Ah, o Murilo (apresenta um sinal para identificar o aluno). Faz dias que ele não vem pra aula.

JÚLIA: Eu quero que você veja isso (tira o celular do bolso, acende-o e entrega o aparelho para Guto).

Guto segura o celular e começa a ler, também demonstrando apreensão.

JÚLIA: Essas fotos foram do dia em que a turma da Educação de Jovens e Adultos realizou a Feira de Ciências. Olha o que comentaram na foto do Murilo.

GUTO: Eu conheço esse aluno, Vinícius é o nome dele... São da mesma turma.

JÚLIA: O que é que a gente faz?

GUTO: Chama o Vinícius pra mim. E diz pra ela que me espere na sala 01.

JÚLIA: Ela quem?

GUTO: A mãe do Murilo.

JÚLIA: Certo... Mas por que ela está te esperando?

GUTO: Ela quer falar comigo sobre o Murilo.

JÚLIA: Verdade.

Guto não chega a entrar na sala dos professores, enquanto Júlia parece fazer o mesmo trajeto de Laís. Ela passa por Tom, desta vez sentado num dos bancos da escola. O rapaz novamente dirige-se ao público.

TOM: Vocês perceberam que a Júlia costuma mexer os pés com frequência? E que ela demonstrou esquecimento? Esse comportamento é de alguém que possui transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH.


13/01/2025

NO LUGAR DO OUTRO | CENA 1

Aparecem os logos, em sequência, do Governo de Pernambuco, da Gerência Regional de Educação e da Escola de Referência em Ensino Médio Amaury de Medeiros. Um letreiro traz, em fonte menor, a palavra “apresenta”; e depois o título da obra audiovisual, projetando ao fundo um quebra-cabeças utilizado para representar as pessoas autistas.

(fundo musical: “Loucos” – introdução)

Ao fundo da imagem, vê-se o pátio da escola, com a câmera movimentando-se lentamente até que ela foca em Guto, entrando no local com uma pasta. Na direção contrária ao professor, entra uma aluna chamada Laís, que procura chegar até a sala de aula. Guto deixa a pasta cair antes que possa se aproximar da estudante. Ele recolhe os papeis sem se dar conta da presença de Laís, que para ao seu lado e pergunta:

LAÍS: Professor?

GUTO: (coloca-se de pé e utiliza a Libras tátil com a aluna) Laís? Como você sabe que eu estou aqui?

LAÍS: Conheci pelo perfume. Estou muito atrasada?

GUTO: Você chegou na hora certa. Pode entrar na sala.

LAÍS: (com uma mão apenas) Obrigada.

Os dois seguem em direções opostas. Laís passa por Tom, encostado a uma parede. Ele olha para a câmera.

TOM: A Laís é uma pessoa cega, e para se locomover ela usa uma bengala branca. Essa cor vai fazer com que as pessoas a reconheçam como alguém que perdeu totalmente a visão. Quando uma pessoa usa uma bengala verde, significa que ela possui baixa visão; para identificar alguém que é surdo e cego ao mesmo tempo, a bengala possui as cores branca e vermelha.

07/01/2025

EREM AMAURY DE MEDEIROS | MENSAGEM PARA 2025

https://www.youtube.com/watch?v=-9Y--90vzQc 


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ESTE POST SERÁ DELETADO EM ALGUNS DIAS, MAS A PUBLICAÇÃO NO BLOGGER FICARÁ ATÉ QUE AS AULAS COMECEM, NO INÍCIO DE FEVEREIRO.

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15/04/2023

PARÁBOLAS | CENA FINAL: TÉO E AS PARÁBOLAS

 

(Jesus está próximo à porta por onde entraram e saíram a maioria dos personagens. Depois de Luan, Otávio e Ícaro deixarem o templo, Ele olha para Téo, mais uma vez à direita do espectador.)

JESUS: Você se reconheceu nessa história, Téo?

TÉO: É a história do filho pródigo. Eu me reconheci naquele rapaz que veio procurar o pai pra pedir perdão... (abaixa a cabeça) No fundo, eu sei que eu preciso pedir desculpa também por me afastar do Senhor.

JESUS: Nesse tempo em que estivemos juntos, seu coração dorido não te deixou ver que, em cada uma dessas histórias, você era representado.

TÉO: Eu? Mas eu tava Contigo o tempo todo. Como eu não ia ver?

JESUS: Responde pra mim: quando você saiu de casa na madrugada, imaginava que a gente fosse se encontrar?

TÉO: Pra falar a verdade, eu nunca mais achei que Você ainda se importasse comigo.

JESUS: Mesmo Eu dizendo, culto após culto, que sempre estarei contigo? Aquelas virgens loucas também pensaram que Eu prometo pra não cumprir, que nunca teria um encontro com quem diz me amar.

TÉO: Mas eu não digo, eu Te amo de verdade; só que... Fica difícil de andar com Você sem ver aquilo que eu tanto peço acontecer.

JESUS: Téo, nenhuma palavra que Eu fale deve ser jogada ao vento; tudo tem um significado. O que Eu prometo é estar ao seu lado daqui à eternidade. Quantos pensam como você, que acha que estar nos céus Comigo só vale a pena depois de ser honrado na Terra?

TÉO: E não vale?

JESUS: Não! Toda a criação do Pai está no mundo pra render glórias, não pra viver pensando em recebê-las. Vocês estão mergulhando cada dia mais fundo num oceano de orgulho, e eu quero mostrar que o pecado não é capaz de aprisionar ninguém.

TÉO: (grita) Mas eu não consigo! Eu não consigo ver isso depois de tanta decepção, do cansaço que eu tô sentindo! Eu não tenho que Te ouvir, eu não tenho mais que esperar Você... (vira de costas para Jesus e coloca as mãos sobre o rosto, como se estivesse chorando)

JESUS: Você não me ouvir não quer dizer que Eu deixei de falar contigo. Mas a voz de quem diz o que você quer ouvir parece melhor aos seus ouvidos. E isso te dá aval pra seguir direto ao abismo. Como vai chegar perto de Mim se deixando levar por quem quer ficar longe?

TÉO: (lentamente tira as mãos do rosto, mas ainda continua de costas) O cego que ensinou o caminho errado... Por quê? Por que Você faz tanta questão de ficar do meu lado? Eu já fiz muita coisa desde que eu saí da Tua presença... Não era nem pra Você falar comigo... (volta a olhar para Jesus, aproximando-se) Ia ser mais fácil se eu fosse ignorado, como eu achava até agora. Você não entendeu ainda que eu sou um caso perdido?

JESUS: Mas aquela mulher que perdeu o marido não achava. E se ela conseguiu ser ouvida por alguém com autoridade menor que a minha, por que Eu não ouviria? (aproxima-se também do jovem, e assim que Ele dá passos em direção a Téo, os adolescentes posicionam-se perto do altar) Por que Eu não te ouviria?

TÉO: Eu não mereço que Você me dê Seu perdão, o Senhor sabe tudo que eu fiz...

JESUS: Sei. E quem não quer te ver crescer debaixo da Minha graça vai te lembrar. Como o irmão que não quis aceitar o pródigo por causa dos seus erros.

TÉO: Não são os outros que me incomodam. Eu que não posso esquecer... Nem coragem de Te olhar eu tenho...

JESUS: Coragem não é a única coisa de que você precisa mas de arrependimento. E aquele homem alcançou perdão mesmo vendo tudo desabar ao redor, por que você não?

TÉO: Me cura disso que eu sinto, desse desespero. Toma conta de mim, Senhor.

JESUS: O pecado te deixou doente. Mas tenha em mente uma coisa: não foi para os sãos que Eu vim.

(Todas as luzes são acesas. Os adolescentes, em uníssono, cantam a primeira estrofe da música “Filho meu”. Enquanto eles interpretam a canção, Jesus desabotoa a camisa manchada usada pelo jovem.)

ADOLESCENTES: Eu mudei

Quando descobri o Teu amor

Quando a Tua luz me alcançou

Pedi perdão a Deus, e Ele perdoou

Eu chorei

Porque Jesus, de perto, me curou

Porque Jesus minha sede saciou

Porque o santo Deus me abençoou

Eu amei

E foi por esse amor que eu chorei

E a gratidão eterna eu terei

Por Suas pisaduras me salvei,

Jesus

(Os adolescentes passam a cantar a segunda estrofe da faixa musical, e já está revelado que ele esteve o tempo inteiro com uma blusa branca sob a peça de roupa manchada, que Jesus joga ao chão.)

ADOLESCENTES: Eu clamei

E quando me perdi Deus me encontrou

Quando eu caí Deus me levantou

Sondou meu coração e Deus me falou

Falou...

(Os adolescentes vão ao refrão.)

ADOLESCENTES: Filho meu, confia no Senhor

Filho meu, Eu sou teu salvador

Filho meu, Eu acalmo a tempestade

Filho meu, Eu te liberto da maldade

Filho meu, sou teu abrigo e proteção

Filho meu, Eu sou a direção

Filho meu, Eu sou a solução

Filho meu, vem segurar na minha mão

Eu sou Jesus! Sou teu remidor

Sou o Deus que você aceitou e chora por amor

(Jesus une sua mão esquerda à direita de Téo e ambos ficam no meio dos adolescentes, que repetem a segunda estrofe da faixa musical.)

ADOLESCENTES: Eu clamei

E quando me perdi Deus me encontrou

Quando eu caí Deus me levantou

Sondou meu coração e Deus me falou

Falou...

(Jesus, Téo e os adolescentes dão-se as mãos antes que o refrão seja entoado pela última vez.)

ADOLESCENTES: Filho meu, confia no Senhor

Filho meu, Eu sou teu salvador

Filho meu, Eu acalmo a tempestade

Filho meu, Eu te liberto da maldade

Filho meu, sou teu abrigo e proteção

Filho meu, Eu sou a direção

Filho meu, Eu sou a solução

Filho meu, vem segurar na minha mão

Eu sou Jesus, o teu salvador.

(Ao término da interpretação, antes de deixarem o templo em definitivo, os atores agradecem a oportunidade em nome do ministério realizador da peça.)

14/04/2023

PARÁBOLAS | CENA 5: O FILHO PRÓDIGO

 

(Téo olha para Jesus, demonstrando por um breve momento constrangimento de estar sozinho com Ele.)

TÉO: Anoiteceu de novo. Melhor eu ir pra casa.

JESUS: Ficou com vontade de voltar pra faculdade?

TÉO: Fiquei. Mas tenho tanta coisa atrasada por lá, não sei se eu vou dar conta.

JESUS: Quanto a isso, não se preocupe. Tem uns lugares que estão mesmo esperando você voltar.

TÉO: Como assim?

JESUS: Téo, Eu sei que se dependesse de você, já teria ido embora, mas tem uma história que quero te contar.

TÉO: Outra parábola? E vai falar sobre quem agora?

JESUS: Sobre você.

(Otávio entra no templo seguido por Ícaro, um dos seus filhos. O pai coça a cabeça.)

ÍCARO: Vi na televisão que o inverno desse ano vai ser mais frio que os outros... Pai? Pai, o senhor tá me ouvindo?

OTÁVIO: O quê? Você estava falando de quê?

ÍCARO: Ih, a cabeça tá longe... Pensando em quem?

OTÁVIO: Deixa pra lá, filho. Você vai sair?

ÍCARO: É, eu tenho que passar no terreno de Ingazeira pra tocar a colheita. Deixa eu ir-me embora porque daqui pra lá é longe e eu chego amanhã cedo. A bênção, Pai. (beija a mão direita de Otávio)

OTÁVIO: Deus te abençoe, filho. Vê se não corre pela BR, nem esquece a habilitação em casa.

ÍCARO: Relaxa... (Ícaro sai de perto de Otávio porém, em vez de entrar no corredor, vai até a porta de entrada do templo e fica em silêncio)

(Otávio olha para a cruz que fica na parede atrás do púlpito e ajoelha-se para orar, com a cabeça curvada.)

TÉO: Calma aí, a história não é sobre mim? Onde é que eu entro nisso?

JESUS: Está preocupado com o tempo?

TÉO: Exatamente. Já virou o dia, ficou de noite... Meu tempo é precioso.

JESUS: Tudo que me pertence é precioso. Por isso mesmo você tem que se acalmar... O tempo é meu!

(Luan entra no local, olhando apenas para Otávio.)

LUAN: O triste estado em que eu me encontro agora

Sem cama, sem comida, meu corpo de fora

E ninguém me deseja

É grande o meu sofrimento

Pois o meu alimento

É o que dos porcos sobeja

(Otávio levanta o seu rosto e olha para Luan.)

LUAN: Estou colhendo aquilo que plantei

Pois quem amava muito abandonei

Tornei-me diferente

E o dinheiro que eu tinha

A herança que era minha

Gastei dissolutamente

(Otávio levanta-se do chão e começa a sorrir.)

LUAN: Mas levantar-me-ei do meu pecado

Meu Deus me dará forças pra sair

Irei e falarei abertamente

E direi sinceramente: “ó Pai,

Pequei contra os céus e perante Ti

Não sou digno de ser chamado filho Teu

Me recebe ao menos como empregado Teu

Me recebe, ó Pai”

(Luan abraça Otávio, que agradece a Jesus sem olhar para a direção em que Ele está.)

OTÁVIO: O Senhor escutou a minha oração! Obrigado, Jesus! Muito obrigado, Senhor!

ELTON: (entra no templo correndo) Seu Otávio... Me desculpa, mas é que ele passou pelos seguranças. Vou chamar a polícia...

LUAN: Não tá me reconhecendo mais, Elton?

ELTON: (aproxima-se do filho pródigo) Luan? Cara, você tá muito diferente! Sério, eu pensei que era um daqueles mendigos que ficam lá fora esperando uma esmola.

(Jesus afasta-se de Téo e aproxima-se de Luan e Otávio.)

OTÁVIO: Pois isso vai se resolver agora. Vá até o quarto dele e traz a roupa, o anel e os sapatos que eu comprei pra quando ele voltasse. A volta dele não vai passar em brancas nuvens. Prepare uma festa para hoje à noite.

ELTON: Sim, senhor. Com licença.

(Ouve-se Jesus cantando em tom baixo “Tua glória”.)

JESUS: Meu coração e esperança estão em Ti

Meu viver é Seu, pois me fez ser filho e santo

Santo, santo

(Elton caminha pelo lado esquerdo do templo, como quem vai cruzar a porta principal. Ícaro vai pelo lado oposto e ouve Jesus cantando, mas não olha para a área central do templo – onde estão também Otávio, Luan e Téo. O irmão do filho pródigo avista Elton e chama pelo funcionário.)

ÍCARO: Elton, vem aqui, por favor.

ELTON: (corre até Ícaro) Fala, Ícaro. O que foi?

ÍCARO: Que música é essa que tá tocando? O som vem lá de casa?

ELTON: Foi tudo de repente, seu pai deve ter se esquecido de te avisar.

ÍCARO: Avisar o quê? O que é que tá acontecendo?

ELTON: Luan voltou pra casa hoje. Quer motivo melhor pra teu pai fazer uma festa? Dá licença, que eu vou pra porta receber o pessoal.

(Elton sai pela porta principal e Ícaro, irritado, caminha vagarosamente olhando para seu pai e seu irmão. Há alguns segundos de silêncio, até que Otávio perceba a presença do filho mais velho. Jesus para de cantar assim que o jovem entra novamente no local.)

OTÁVIO: Filho, já viu quem está aqui? Seu irmão voltou pra casa! (Ícaro vai à porta do corredor em silêncio, até que o pai impede a sua saída). Aonde você vai, Ícaro? Não vai comemorar a volta do seu irmão?

ÍCARO: (volta a olhar para o pai e o irmão) Uma cena muito bonita, mas eu não tenho o menor interesse em participar.

LUAN: Não ficou feliz em me ver de novo?

ÍCARO: Foi bom você ter aparecido porque eu quero tirar uma dúvida: contou pra ele o que fez mundo afora?

LUAN: Você não sabe tudo o que eu passei...

ÍCARO: Quem é que não sabe? Gastou tudo que tinha com quem não prestava, e depois passou fome quando não tinha sobrado mais nada. Por isso o seu interesse de voltar. E é fácil quando você sabe que toda vez ele vai abrir a porta pra te receber!

OTÁVIO: Não acredito que você se irritou tanto porque a gente está junto de novo.

ÍCARO: Sabe qual é o problema? Parece que desobedecer gera recompensa. Tô com mais raiva do senhor do que dele.

OTÁVIO: De mim?

ÍCARO: Quantas vezes o senhor ficou triste porque eu deixei de te obedecer? Nenhuma! E quando foi que o senhor deixou que eu trouxesse meus amigos pra comemorar alguma coisa?

OTÁVIO: Meu filho, você nunca precisou me pedir nada porque tudo sempre foi seu, sempre esteve comigo. Você sabe quantas noites eu pedi ao Senhor pra proteger Luan sem saber se ele estava vivo ou morto. E por isso eu sei que vai entender a necessidade de comemorar. Assim como eu agradeço pela vida dele, agradeço pela sua. Porque todos os motivos são razões pra engrandecer o nome do Senhor.

(Luan estende a mão para Ícaro segurar. O rapaz olha para baixo, evitando ver novamente o rosto do filho pródigo. Então, Jesus une os irmãos, que se abraçam. Otávio coloca suas mãos sobre os ombros dos filhos, e os três vão embora pela porta do corredor.)

13/04/2023

PARÁBOLAS | CENA 4: O JUIZ INÍQUO

 

(Jesus e Téo descem do degrau em que estavam e Jayme se prepara para deixar o templo pela porta do corredor. Ele encontra Renata com a cabeça baixa, prosseguindo com a sua última ação na cena anterior.)

JAYME: Ainda está aqui?

RENATA: (levanta-se do chão, aparentando estar cansada) Eu disse que ia esperar o senhor.

JAYME: Pode continuar esperando. (chega a colocar as mãos na porta)

RENATA: Tem problema, não. Amanhã quando o senhor chegar eu vou estar na porta do fórum.

JAYME: (começa a falar alto) Certo! Já está me vencendo pelo cansaço! O que é que você quer?

RENATA: Dois minutos do seu tempo.

JAYME: Estou contando.

RENATA: Vim lá de Ingazeira pra falar com o senhor.

JAYME: Isso você falou mais cedo, o tempo está correndo.

RENATA: Meu marido morreu há seis meses. Ele bebia e bateu o carro quando a gente voltava de uma viagem.

JAYME: Onde eu entro nisso?

RENATA: A mãe dele. Ela quer tomar meus filhos de mim. Contratou até advogado pra tirar a guarda das minhas crianças.

JAYME: Assim, do nada? Qual é a justificativa que ela deu?

RENATA: Disse que eu fui a culpada do acidente, que eu dei bebida pra ele tomar e perder o controle do carro. Ela já levantou tanto “falso" ao meu respeito que eu tenho medo.

JAYME: E lá na tua cidade não tem ninguém pra resolver isso? Teve que sair de lá?

RENATA: Tem, mas disseram pra mim que o senhor é o melhor juiz do estado. Pelo amor de Deus, não me deixa sem os meus filhos. Me ajuda.

JAYME: Com quem você deixou as crianças?

RENATA: Eu tenho uma irmã que mora aqui em Recife. Ela toma conta dos meninos toda vez que eu venho procurar o senhor.

JAYME: O que dá pra fazer no seu caso... (tira o cartão do bolso e entrega à Renata)

RENATA: O que é isso?

JAYME: Liga pra esse número, é de uma advogada especialista em assuntos de família. Só posso julgar sua causa se você estiver assistida por alguém.

RENATA: Muito obrigada, Seu juiz.

JAYME: Não tem nada o que agradecer. Nem sei por que eu estou ajudando. Pelo menos você não vai passar essa batalha sozinha.

RENATA: Se de uma coisa eu sei é que eu nunca estive sozinha.

(Quando a introdução de “Deus fará” é executada, as mulheres que estavam em frente ao fórum voltam ao templo e se juntam à Renata. Durante a entrada dessas pessoas, Jayme deixa o cenário.)

RENATA: Quando as circunstâncias encobrirem sua visão

Suas tentativas parecerem sem valor

Quando todos dizem “não vai dar”

Atingindo, assim, seu coração

Creia, não desista porque Deus fará

MULHERES DO FÓRUM: Não se deixe abater por uma situação

Porque a última palavra, ela é do Senhor

Sua família não vai acabar

Esse mar não o afogará

Erga sua voz porque Deus fará

RENATA: Deus fará um milagre em sua casa

Seus projetos, seus sonhos não vão morrer

Derramando o óleo da unção

Ministrando a cura e o perdão

Restaurando a aliança que um dia se perdeu

MULHERES DO FÓRUM: Deus fará um milagre em sua casa

Seus projetos, seus sonhos não vão morrer

Derramando o óleo da unção

Ministrando a cura e o perdão

Restaurando a aliança que um dia se perdeu

RENATA: Creia, Deus fará!

Creia, Deus fará!

MULHERES DO FÓRUM: Não se deixe abater por uma situação

Porque a última palavra, ela é do Senhor

Sua família não vai acabar

Esse mar não o afogará

Erga sua voz porque Deus fará

RENATA: Deus fará um milagre em sua casa

Seus projetos, seus sonhos não vão morrer

Derramando o óleo da unção

Ministrando a cura e o perdão

Restaurando a aliança que um dia se perdeu

MULHERES DO FÓRUM: Deus fará um milagre em sua casa

Seus projetos, seus sonhos não vão morrer

Derramando o óleo da unção

Ministrando a cura e o perdão

Restaurando a aliança que um dia se perdeu

RENATA: Creia, Deus fará!

Creia, Deus... Deus fará, eu sei que Ele fará!

(Quando a música acaba, Renata deixa o local junto às mulheres do fórum.)