29/10/2013

SOBRE PRÓDIGOS E PRODÍGIOS/ CAPÍTULO 29

Sentindo muito nojo da esposa, Frederico chora em silêncio, se afastando de Ana Maria e chorando próximo à pia. A acionista da gravadora continua completamente perplexa com o que acabou de ouvir, continuando junto à porta do banheiro.
-Yuri, eu estava pensando. Acho que seria bom você voltar pra casa.
-Pra lá eu não volto. Meu pai tentou me matar. Eu não vou morar na mesma casa que aquele homem. Daqui a pouco, nem a casa vai ser mais nossa.
-Na rua, você não pode morar. E também podem desconfiar da nossa ligação.
-Certo... Eu vou bolar alguma coisa pra enganar os dois.
-Fred me contou que os dois estão vivendo na mesma casa.
-A Faixa de Gaza agora. Eu não sei se eu vou aguentar mentir o tempo inteiro, não.
-Tem que aguentar. Pro bem de todos, inclusive do meu.
-Vadia desgraçada, eu vou acabar com ela!- Ana Maria tenta abrir a porta, mas é impedida por Frederico.
-Fala baixo! Você quer que eles descubram que estamos aqui?
-Ela está acabando com a vida dele! Além de dar droga, ela ainda dormiu com um menino de doze anos, Frederico? Essa mulher é um monstro! A gente tem que pará-la...
-Eu sei, eu sei... Mas a gente não pode perder o Yuri de vista. Você tem que trazê-lo de volta pra casa- pega o celular.
-Pra quem você vai ligar?
-Vou mandar uma mensagem pro obstetra.
Frederico digita “Já pode vir ao quarto. Frederico” e envia ao celular do médico. Alguns segundos depois, o profissional vem com dois enfermeiros.
-Com licença, nós precisamos levá-la.
-Pra onde?- Lana se assusta.
-Temos que medir a sua pressão, ver como anda a sua recuperação, dona Lana.
-E não dá pra fazer isso aqui?- Yuri fica impaciente.
-Deixa, Yuri. Deixa eles me levarem. Já viu que eu estou me sentindo melhor, não precisa voltar.
-Sabe que eu vou dar um jeito de te ver, não é... Tia?
-Sei, sim. Vai tranquilo- o garoto sai do quarto e Lana é colocada numa maca, de onde é levada.
-Vamos?
-Que jeito, não é?- assim que saem, um dos enfermeiros fecha a porta. Frederico e Ana Maria saem do banheiro. Emocionados e frustrados com a trajetória que cada um de seus entes queridos seguiu, se abraçam como se estivessem aceitando que fracassaram, como mãe e como marido.

XXXXX

Jandir vaga pelas ruas atordoado, e tropeça. Com dificuldades de se levantar, é abordado por um policial, que dirige uma viatura.
-Está tudo bem com o senhor? Quer ajuda?
-Moço... – começa a chorar- Onde tem uma delegacia por aqui?
-Fica bem longe daqui. O que você quer na delegacia?
-Eu... Matei a minha mulher e sequestrei os meus filhos.

XXXXX

Sônia e Geraldo estão aflitos com o desaparecimento dos meninos. Ana Maria chega à sua casa.
-Ah, menina, até que enfim você apareceu. Já liguei não sei quantas vezes pro seu celular e só dá desligado.
-A bateria descarregou, Sônia. Não tive como avisar- joga a bolsa sobre o sofá.
-Dona Ana, a gente quer falar uma coisa com a senhora.
-Olha, Geraldo, se for mais alguma confusão do Otaviano, nem me conta porque eu não estou me sentindo bem.
-É sobre os meninos, Ana.
-O que foi que aconteceu com eles?
-Tia Sônia!- Igor e Betina correm para abraçar a governanta. O garoto aparece de cabelos molhados e outra roupa, encontrada na casa de Jandir.
-Meninos?- a governanta não acredita naquilo.
-Mas como é que... –Geraldo também custa a acreditar.
-E eu não vou ganhar nenhum abraço? Nem um beijinho?- sugere Ana Maria, até ser abraçada pelos meninos.
-É um milagre! Só pode ser um milagre!
-Que milagre, Sônia? Do que você está falando?
-Não, nada, nada! A gente ficou tão preocupado aqui em casa!
-Mas com o quê? Preocupados com quê?
-Esquece, Sônia. Pelo menos eles já estão com a gente, não é?- Geraldo acalma os ânimos.
-Pelo menos eu voltei pra casa e encontrei vocês pra alegrar o meu dia. Eu não sei o que seria de mim sem vocês hoje.
-E a moça que você foi visitar no hospital?- pergunta Igor.
-Você passou o dia todo no hospital, tia?
-Passei, mas eu não quero falar disso, não. Eu sei que as coisas vão acabar melhorando, uma hora ou outra. Agora eu quero que vocês me levem ao quarto e mostrem o que foi que a Sônia comprou pra vocês no shopping.
-Vamos só se for agora- garante Igor, enquanto os três sobem às escadas.
-Você entendeu alguma coisa, Sônia?
-Milagre a gente nunca entende, Geraldo. Vive e é feliz com ele.

DIAS DEPOIS...

Yuri vai até a casa dos pais. Ana Maria está tomando café normalmente.
-E o seu Otaviano?- pergunta Betina.
-Foi à empresa. Acha que sendo assíduo vai conseguir limpar a sujeira em que ele meteu a mulher e o filho dele.
-Igor, o que é “assíduo”?
-Depois a tia Ana te explica, viu, Betina? Termina o café.
-Menina, você não sabe quem está aí fora querendo falar com você- Sônia chega animada à sala de jantar.
-De quem se trata, Sônia?
-Sou eu, mãe- Yuri faz uma expressão humilde.
-Betina, vamos lá pro quarto ver aquela sacola que a Sônia trouxe ontem pra gente? O café da gente já acabou, tia Ana.
-Obrigada, Igor.
-Vem comigo, Betina.
-Tchau, tia.
-Tchau, meu amor- os garotos vão para o quarto.
-Bom, eu também vou me retirar. Se precisar de alguma coisa, me chamem.
-Meu filho...
-Não vai se levantar e me dar um abraço, mãe?
-Claro... Claro que eu vou, eu vou- corre e mantém o filho em seus braços- Eu tive tanto medo de que alguma coisa acontecesse com você.
-Me perdoa! Me desculpa pelo que eu fiz, por ter fugido de você!
-Isso é passado. Eu quero começar uma vida nova, e eu sei que você precisa de uma vida nova.
-Como assim? Do que a senhora está falando?
-Eu sei de tudo. Você não voltou pra casa porque estava arrependido de ter fugido de casa. Voltou porque a Lana te pediu.
-Lana? Quem é Lana?
-A mulher com quem você se envolveu, que te vendeu drogas. A mulher do Frederico, que te seduziu...
-Ela não deu em cima de mim! A gente se ama, mãe! Eu sei que ela me ama, me ama como nunca ninguém gostou de mim nessa casa...
-E eu?- grita- O meu amor de mãe não contou pra você nunca? Que você sentisse repulsa pelo modo como o Otaviano agia por você tudo bem, mas... Você me desconsiderou por completo, meu filho. E se você continuar fazendo tudo o que essa mulher mandar, ela vai te fornecer mais e mais cigarros, papelotes, drogas, o que for!
-Ela não está me usando! Eu sei que não!
-Só me diz uma coisa: você quer largar as drogas?
-Claro que eu quero...
-Responde com sinceridade, Yuri!
-Quero, já falei- é agressivo.
-E a Lana? Você quer se afastar dela também?
-Não, isso não! Isso eu não faço nunca, ouviu bem? Eu não vou deixar a Lana, nem que eu tenha que enfrentar meu pai, enfrentar você ou enfrentar o marido dela! Não vou!
-Aceite as consequências, então... – sai de casa.
-Onde é que você vai? Volta aqui, mãe!
Geraldo está entrando com o carro, e Ana Maria a alcança.
-Geraldo?- bate na janela.
-Senhora, o que foi?
-Você vai me levar pra um lugar agora mesmo- entra no carro- Vai, Geraldo, dá ré.
-Mãe, vem aqui agora! Você não vai pra canto nenhum. Abre a porta desse carro! Eu estou falando com você! Abre a porta do carro!
-Eu não vou deixar essa cachorra se aproximar de você nunca mais. Mais tarde, eu converso com você! Anda com isso, Geraldo!
O carro acelera e o garoto fica cada vez mais histérico, levando as mãos à cabeça e gritando.
-Ela vai atrás da Lana! Eu não posso deixar ela fazer nada com a Lana! Eu vou pegar meu skate!- corre pra dentro de casa e apanha o seu brinquedo.

XXXXX

A campainha da casa de Frederico toca insistentemente. Lana está descansando na sala, tomando um suco e o marido corre pra atender.
-Mas quem é essa pessoa louca que está tocando desse jeito?
Ana Maria entra rapidamente no apartamento e exige ao amigo.
-Me deixa sozinha com a sua mulher!
-Mas o que é que está acontecendo aqui?
-Seu marido sabe muito bem o que eu estou fazendo aqui, e porque eu vim. Sai, Fred, por favor!
Sem dizer uma palavra sequer, Frederico fecha a porta, lamentando muito o que vai acontecer.
-Fred?- levanta-se do sofá- Nossa, quanta influência você está começando a exercer sobre o meu marido, não acha? Ana Maria, eu não sei o que está acontecendo contigo, mas você não pode simplesmente entrar na minha casa e dar ordens ao meu marido como se...
-Cala essa boca, vadia!- desfere uma bofetada no rosto da rival.
-O quê que é isso? Você enlouqueceu de vez? Eu vou chamar a polícia!
-Chamar a polícia pra quem? Pra mim ou pra você? Hein? Responde que eu estou falando, vadia- esbofeteia-lhe novamente.
-Saia da minha casa agora, senão eu não vou responder por mim. Eu sei que você tem enfrentado problemas familiares, mas isso não te dá o direito de...
-Sabe muito bem, não é? Claro que sabe. Fica se refestelando com um garoto de doze anos na cama e vem me dizer que sabe o que está acontecendo comigo? Não, Lana. Você não sabe nada. Nem o Otaviano, nem o Yuri, nem o Fred nem ninguém tem a dimensão do ódio que eu estou sentindo de você! Mas você vai sentir. Cada bofetada que eu dei e que eu der vai ser um pouco do asco, do nojo que eu sinto por você.
-Isso que você falou... Que garoto de doze anos? De onde você tirou essa estória? Que absurdo é esse?
-Frederico e eu ouvimos toda a sua conversa com o Yuri no hospital. O coitado do meu filho não sabe nem disfarçar o que sente. Mas você é perfeita em cada detalhe do seu cinismo. Só que agora acabou, Lana. Eu sei quem você é e o seu marido também sabe a cobra venenosa com quem ele casou!
-Ah, sabe? E o que vocês pretendem fazer? Me mandar pra cadeia? Vocês tiveram, pelo menos, a inteligência de conseguir prova pra me incriminar?
-Logo a polícia vai saber a mulher que você é. Suja, vil, baixa! É isso que você é, e muitas coisas piores.
-Sem ter como provar é mais difícil de me mandar pra cadeia, viu, querida? Eu, se fosse você, já dava um jeito de tirar uma cópia de todo o Código Penal Brasileiro... É, porque se eu vou ser presa, eu tenho que saber, pelo menos, por que eu vou ser encarcerada. Se vai ser pelo tráfico ou pelo abuso sexual do teu querido Yuri.
-Não pronuncia o nome do meu filho...
-Pensando bem...Eu acho que só vou cumprir pena, e se cumprir, por tráfico mesmo. Vão ter que chamar seu filhinho pra depor, e aí vão constatar que ele não foi obrigado a nada. Yuri dormiu comigo porque quis...
-Cala essa boca...
-Olha, e aquele garoto... Vou te contar... A última coisa que ele sabia fazer comigo era dormir...
-Vai continuar falando?- bate em Lana até ela cair no chão- Vai continuar falando o nome dele?- sobe em cima da mulher e continua a bater nela.
-Não seja imbecil! Isso não vai tirar seu filho desse mundo pantanoso que ele fez questão de se enfiar. Ele vai morrer e não vai conseguir se livrar de droga nenhuma. Ai, eu só fico me lembrando da gente sozinho, numa casa, ele feliz, fumando do meu lado. Você acha mesmo que vai conseguir livrá-lo, sua anta?
-Eu não me importo com isso. O que eu quero agora... É acabar com você, maldita!- bate no rosto de Lana, que se levanta para revidar, mas acaba levando outro tapa- O que é? Pensou que pode me vencer?- bate novamente- Hein?- estapeia a vilã diversas vezes até fazê-la sangrar- Hein? Você não é a brava? A que vai se defender? A que vai me matar se ele falar alguma coisa? A que me ameaçou? Mata, piranha! Mata! Acaba comigo! Eu quero ver se você me mata mesmo!
-Socorro! Fred, me ajuda!
-Não toca no nome dele!- chuta o rosto e o ventre de Lana diversas vezes.
-Você vai me pagar caro! Eu vou tirar seu sangue pouco a pouco!
-Vai fazer nada!- chuta o rosto novamente- Nada!- Ah, já ia me esquecendo: se você souber rezar, pede pra todos os santos pro meu filho se salvar, porque senão eu termino o que eu comecei aqui. E aí, meu bem, você vai ter motivos de sobra pra não esquecer meu nome. Uma letra sequer!- cospe e dá novamente um chute violento- Quando você for à delegacia, manda tirar minhas impressões digitais da sua cara! Não é prova que você quer? Vou presa como uma mãe defendendo um filho, vaca! Vou com gosto! Bendita a hora em que o seu morreu. Sabia o ventre diabólico em que morava.
Ela trata de se retirar do apartamento e, com dificuldade, Lana se levanta para ir até o seu quarto e se vê ao espelho. Com ódio, corre para o cofre que está atrás de um grande retrato seu e de seu marido instalado na mesma parede. Ela põe a combinação certa e dele tira um revólver.

XXXXX

Já na rua do prédio onde o casal mora, conversam Ana Maria e Frederico, do outro lado da calçada, em frente a uma loja de noivas. Yuri, trêmulo e suando frio, chega ao prédio, mas vê os dois se falando e fica perto de um poste, avistando-lhes de longe.
-O que você fez?- diz, de forma fria.
-Espanquei aquela vagabunda. Eu nunca pensei que seria capaz disso. E você, Fred? O que você vai fazer a partir de agora?
-Como é que eu posso continuar com esse monstro, Ana Maria? Eu não tenho nem coragem de entrar em casa e dizer o que eu penso dela agora.
-Não se preocupe. Eu acho que já falei por nós.
-Vou ligar pro meu advogado e exigir o divórcio. Ela não vai querer continuar comigo depois que eu descobri que ela... Ana, onde foi que eu falhei no meu casamento? Onde?
-Não, eu não quero ver você chorando. Você... É um homem maravilhoso. Maravilhoso... Eu daria tudo pra voltar no tempo doze anos atrás e ter procurado você pra ser o homem da minha vida.
-Por que você está dizendo essas coisas pra mim?
-Porque a nossa dor é diferente, mas... Eu consigo ver um coração bater de raiva, de rancor, de ódio porque nada vai voltar a ser como era antes. Mas você me ensinou, e a esses meninos da sua ONG que é possível recomeçar. E quando tudo isso passar, eu quero fazer isso. Do seu lado- o beija, quando Lana sai do apartamento e os encontra.
-Vagabunda! Quer roubar o meu marido e diz que eu quero acabar com o teu filho, não é?- aponta a arma para Ana Maria- Só que eu não vou perder meu tempo com aquele moleque.
-Abaixa essa arma, Lana!- Frederico se desespera.
-Sua vida acabou, Ana Maria. Acabou!- atira.

28/10/2013

SOBRE PRÓDIGOS E PRODÍGIOS/ CAPÍTULO 28

-Eu quero ver o meu filho, Fred. Pede pro médico trazer, chama uma enfermeira. Por favor, não me diz que... Ele não pode ter morrido... Por quê? Eu queria tanto esse filho! Você também... Por que isso aconteceu com a gente, por quê?
-Seu parto foi muito difícil, Lana. O doutor disse que você teve um princípio de eclampsia. Foi um parto muito difícil, fizeram de tudo pra salvar os dois. A equipe médica ainda está se perguntando como você conseguiu sair viva da cirurgia...
-Eu preferia ter morrido. Eu não quero viver sem ter o filho que eu queria ter com você, meu amor! Você queria tanto esse bebê...
-Não fala isso, Lana- corre para abraçá-la, o que leva Yuri às lágrimas- Você sabe que eu sempre vou te amar. E a gente pode ter outros filhos, é só uma questão de esperar o tempo passar, meu amor...
-Eu queria esse. Esse era importante pra mim... Por que eu o perdi, Fred? Eu não consigo entender. Por quê? Agora você vai me deixar porquer eu não te dei o nosso bebê...
-Calma, calma. Eu vou te proteger sempre. Você sempre vai ficar do meu lado. Como pode pensar que eu vou te abandonar numa hora dessas? Eu sei que o seu amor por mim é sincero, e isso me une a você cada vez mais. Nunca mais pense que eu vou te deixar. Nunca- abraça-lhe novamente, aos prantos. Yuri sai do hospital completamente desolado, por não dar o apoio do qual ele acredita que Lana tanto precisa nessa hora. Triste ela realmente está, mas não por ter perdido o sonho da maternidade, e sim por não ter como sustentar um casamento prestes a desmoronar.

XXXXX

No dia seguinte, Sônia está com os meninos num shopping, onde eles escolhem as roupas que passarão a usar. Os novos filhos de Ana Maria estão contentes com essa nova fase de suas vidas, e acreditam que a paz está próxima. Nenhum dos três, contudo, percebe que Jandir segura uma sacola preta e os segue.
Abarrotada de compras, Sônia pega o celular.
-Geraldo? Estamos saindo do shopping agora. A gente vai te esperar no estacionamento.
-Certo, eu já estou indo pra aí.
-Tudo bem. Eu vou desligar agora, tchau.
Jandir aparece na frente dos três, que já chegaram ao estacionamento.
-Eu não disse que ia recuperar meus filhos?
-Jandir? O que está fazendo aqui?- a governanta fica assustada.
-Vim levar meus filhos. Eles têm que ir pra onde o pai for.
-Não chega perto da gente- Igor avisa.
-Eu vou chamar a polícia se você não se afastar da gente! Sai daqui agora!- ameaça Sônia.
-Tudo bem. Podem ficar tranquilos. Eu não vou mais chegar perto de vocês, se o medo de vocês é esse.
O mecânico passa por todos até chegar perto de uma parede, onde segurando pelo gargalo da garrafa de bebida alcoólica, quebra-a. Ao jogar a sacola longe, trata de puxar Sônia, que está atrás dos meninos e a ameaça com o gargalo.
-Solta ela, pai- pede Betina.
-Só solto se vocês vierem comigo!
-Para com isso, você ficou louco?- Igor fica desesperado.
-Ninguém vai me tirar vocês. Justiça nenhuma vai me impedir de cuidar dos meus filhos.
-Você vai matar a Sônia!
-Não me importo com mais nada, nem mesmo de ser preso! Agora já é tarde. Eu vou acabar com ela, só vou soltar se vocês virem comigo.
-Não, meninos! Não vão!
-Tudo bem. A gente vai com você.
-Não faz isso, Betina!
-Só não machuca a tia Sônia.
-Por favor, não leva os meninos.
-Deixa, Sônia. A gente vai pra ele não fazer nada com você- Igor tenta acalmá-la.
-Eu não posso deixar vocês irem com esse louco! Ele é capaz de matar vocês!
-Não vai fazer nada. Eu conheço o meu pai. Eu sei que ele não vai fazer nada. Vem, Betina.
-Igor!
-Eu sei o que eu estou fazendo, Sônia. Solta ela, pai!
Jandir a joga no chão e pega os meninos pelo braço.
-Vêm logo!
-Tia Sônia! Eu quero ficar com a tia Sônia!- Betina implora ao pai.
-Vamos embora! Deixe de sua má criação!- corre com os garotos.
Sônia pega o celular.
-Geraldo! Chama a polícia! Os meninos foram raptados! O Jandir levou os meninos!

XXXXX

No hospital, Ana Maria foi visitar Lana, mas encontra Frederico no corredor.
-Frederico! Eu sinto muito pelo que aconteceu- abraça-lhe- Sabe que pode contar comigo pro que precisar.
-Obrigado, Lana.
-Como foi que aconteceu isso?
-É um mistério. Não era pra ser.
-Eu lamento muito.
-O doutor está com ela. Ele vem aí. Como é que ela está, doutor?
-Demos um sedativo, porque ela estava muito agitada. Mas ela está se recuperando muito bem. Rápido até demais, para quem acabou de perder um filho.
-Ela precisa se reerguer. Talvez com você do lado fique tudo mais fácil.
-Temos que cercá-la de todos aqueles que desejam o bem para a Lana nesse momento, como o senhor e o sobrinho de vocês.
-Sobrinho? Que sobrinho, doutor? Eu não tenho sobrinhos, nem a Lana.
-Como não tem? E aquele garoto que veio ontem à tarde para ver a sua esposa?
-Doutor, me desculpe, mas eu insisto. Não temos sobrinhos.
-Eu até permiti a entrada dele. Estava muito nervoso, preocupado. Disse que soube que sua esposa estava prestes a dar a luz ao bebê e pediu pra entrar. Eu contei a ele sobre o que tinha acontecido, e ele ficou muito triste. Tão triste quanto o senhor.
-Como era esse menino, doutor?- pergunta Ana Maria.
-Muito bem vestido, mas com uma roupa suja. Ele me pareceu um pouco distante, como se tivesse usado alguma coisa.
-Será o Yuri?
-Yuri? Mas o que ele ia querer com a sua mulher?
-O Yuri viu a gente saindo da clínica, quando ela fez o exame de gravidez. Aí, ele falou umas coisas desconexas, como que era o pai do nosso filho.
-Deve ter sido algum delírio dele por conta das drogas. O Otaviano tem razão. Meu filho está se afundando cada vez mais.
-Pode ser que não tenha sido ele, esse menino de quem vocês estão falando- intervém o obstetra.
-Só tem um jeito de descobrir. No seu celular tem alguma foto do Yuri?
-Tem, espera só um minuto- vai à galeria de imagens e entrega o celular a Frederico.
-É esse o rapaz que o senhor viu?- mostra ao médico.
-O próprio. Lembro bem dele, ele não estava se sentindo bem. Muito abalado pela morte do seu filho.
-Por que ele viria aqui ver a sua esposa?
-Desculpa, Ana Maria. Mas o Yuri está representando um grande perigo à nossa segurança. Seja o que for que ele queira, eu não vou deixar que ele faça mal à minha mulher.

XXXXX

Jandir tranca Betina num quarto escuro.
-Entra!
-Não, pai! Eu não quero entrar!
-Já falei pra você entrar!
-Não!
-Quer ver se você não entra?- pega um chinelo jogado no chão e bate nas costas da garota.
-Para de bater nela!
-Agora diz que não vai entrar no quarto, diz!
-Desculpa, pai!- chora.
-Não quero saber de desculpa, entra no quarto logo, Betina!
A garota obedece ao pai, que tranca a porta do quarto.
-O que o senhor vai fazer?
-Você nem imagina... Encosta na parede e fica de costas- o garoto se recusa a obedecê-lo- Vai!- reage com violência à atitude do garoto, empurrando-o para a parede e virando o seu rosto- O jogo acabou, Igor. Pra você e pra Betina. Vocês acreditaram que eu ia deixar a Ana Maria criar vocês como filhos? Isso mesmo, não- joga uma garrafa de álcool sobre o corpo do adolescente.
-Está fazendo o quê? O que é isso... – vira-se.
-Cala essa boca- coloca-lhe de costas novamente e abre a gaveta da sala, de onde retira um isqueiro. Acende-o na frente do enteado.
-Pra quê isso?
-Não está conseguindo sentir o cheiro, Igor? A casa toda está molhada de álcool. Eu joguei em tudo, em todas as partes. Se isso cair no chão, a gente vai morrer, sabia?
-A polícia vai te achar. A Sônia já deve ter ligado pra Ana Maria, tem gente que já deve estar atrás de você...
-Por que você pensa que eu me importo com prisão? Com cadeia? Eu não vou preso, Igor. Sabe por quê? Porque dessa casa eu só vou sair sem vida, igual a você e à sua meia-irmã.
-Meia-irmã?
-Deixei de ter medo da morte. Rosane me matou em vida quando decidiu contar a verdade sobre o seu pai. Ouvir da boca dela que eu sempre fui um nada, o homem que ela nunca amou já foi como se ela tivesse me matado. Foi aí que eu passei a querer destruir a vida de vocês. Mesmo da Betina, que é minha filha, mas é a cara da Rosane. Eu não consigo olhar pra minha própria filha sem sentir nojo... Mas não é pior do que ter que ver você e me lembrar das vezes que ela deve ter dormido com aquele desgraçado, e das vezes em que ela transou comigo pensando nele. Por isso, Igor. Por isso eu quero e vou acabar com tudo agora.
-E se você viver?
-Não vou.
-A minha mãe me ensinou que a alma da gente não morre. Você acaba com a vida da gente, e não vai ter paz.
-Cala a boca, moleque.
-Paz você já não tem, porque se tivesse não ia ter tanta culpa pelo que fez.
-Do que você está falando?- repara que o garoto chora.
-Eu não sentia ódio de ninguém, mas aí eu vi quando você chegou em casa naquele dia... Você matou a minha mãe!
-Não!
-Matou! Deu um jeito de se livrar dela. Eu vi no seu olho o mesmo ódio que eu tenho agora e que eu nunca falei pra ninguém, nem pra Ana Maria. Você reparou que eu já sabia. Eu saquei na hora que você acabou com a vida dela...
-Não, Igor. Você não pode ter ódio de mim. Você é meu filho. O menino mais velho, o que eu fiquei tão feliz de ter... Eu te dei amor, seu imbecil! Será que você não entende?
-A minha mãe não te matou quando contou. Você acabou coma família da gente com sua bebedeira, com seu desprezo, com seu vexame! Eu fiquei sem pai antes da minha mãe morrer. E agora você quer acabar com a gente por causa do teu ciúme que matou a minha mãe! Você quer se vingar, Jandir? Quer?- puxa a mão do pai para seu peito- Me mata logo! Acaba com isso de uma vez! Deixa a minha irmã em paz e acaba comigo! Se você me odeia do mesmo jeito que eu odeio você, tira a minha vida agora!
-Meu filho...
-Não me chama de filho, assassino!
-Para, Igor!
-Assassino! Assassino! Se você se livrar de mais um, qual é o problema? Não é isso que você quer? Me mata logo, assassino! Assassino!
-Para, eu não quero ouvir mais nada! Nada, Igor, nada!- leva as mãos aos ouvidos!
-Matou a minha mãe, desgraçado! Bota fogo nessa casa! Bota fogo! Queima todo mundo de uma vez, assassino!
-Não me fala essas coisas, meu filho...
-Nunca mais me chama de filho, assassino! Toca fogo nessa casa! Joga fogo em mim! Vai, covarde! Foi homem pra matar a minha mãe, acaba comigo logo! Vai, Jandir! Me mata! Me mata... – o garoto cai no chão em soluços, sem conseguir dizer mais nada. Desorientado, Jandir deixa a chave da casa cair e abre a porta da sala, de onde sai correndo. Igor apanha a chave, ainda sem conseguir articular as palavras e procura a da porta do quarto de sua irmã. Ao abri-la, a garota se abraça com o adolescente.
-Eu te amo, Igor. Você é meu irmão e vai ser meu irmão pra sempre, só de mãe mesmo.
As palavras de Betina demonstram que ela escutou toda a discussão, e que ela não o considera pivô de toda a tragédia acontecida em suas vidas. Os abraços sinceros de sempre dão lugar a um conforto que aquele adolescente sempre vai encontrar.

XXXXX

Lana acorda e estranha que ao lado de sua cama, esteja Yuri.
-Como é que você entrou?
-Disse que era teu sobrinho. O médico caiu na estória. Já é a segunda vez que falo isso.
-É arriscado demais. O Frederico pode te ver...
-E se ele me vir? Você acha que eu estou com medo dele?
-Devia ter medo de mim. Eu não posso arriscar o meu casamento.
-Fred não vai te largar. Não agora que o filho da gente morreu.
-Não repete isso aqui nem de brincadeira.
-Por acaso, é mentira minha?
-Não, não é. Mas foi melhor que as coisas tomassem mesmo esse rumo.
-Lana, você está maluca?
-Claro que foi. Você sabe muito bem que eu não queria esse filho.
-Mas ficou chorando muito quando ele te contou que o bebê tinha morrido.
-Aquilo tudo era fingimento. Eu não estava triste porque tinha perdido um filho. Estava triste porque perdi uma boa chance de segurar o meu casamento. Você, mesmo com pouco tempo em que estamos juntos, conseguiu me decifrar. Sabe de tudo da minha vida. Sabe que eu só trabalho na ONG pra ninguém descobrir que eu vendo drogas e fico aliciando crianças pra assaltarem e conseguirem dinheiro pra comprar minhas drogas. Eu agi com você de uma forma tão sincera que... O Fred, por mais que eu o ame, nunca aceitaria se casar com uma traficante, uma mulher que já foi presa numa fundação de menores por roubo. Uma traficante que se veste de homem pra não ser reconhecida como “Porcelana”.
-Amar... – ri debochadamente- Amor é o que eu tenho por você, e você por mim, Lana. Você só está com ele pra não ser presa.
-Mas eu cheguei a gostar dele no começo. Você sabe que eu conheci o Fred depois de um assalto? Eu tentei roubar uma moça que estava grávida, mas a polícia estava atrás dos meus meninos também. Aí, eu corri feito uma louca e não vi que vinha um carro. Aquele carro mudou a minha vida, literalmente. Fred era filho de advogado, dezoito anos, riquíssimo. Ficou bem preocupado e tratou de me levar pro hospital. Cuidou de mim, mais pela culpa, sabe? Percebi que ele gostava de mim e tratei de dar em cima dele. Claro, com o meu verdadeiro nome, Lana. Mas ele foi mais esperto e levantou a minha ficha na polícia. Descobri que eu era uma bela de uma bisca- ambos riem- Ele ficou “p” da vida comigo, mas aí, meu querido... Aí, eu já tinha dito que estava completamente apaixonada e que ia largar minha vida bandida. Foi preocupado com o meu bem-estar que ele criou a ONG, pra ajudar os meninos drogados. Ele pensou que se eu largasse as drogas, eu não ia voltar a roubar o pessoal na rua, mas... Gente, o que me conquista realmente, o que me excita é essa vida dupla que eu levo. Daí eu menti pro meu marido, e eu faço isso até hoje. A única coisa na qual eu não menti foi quando eu disse que não queria ser mãe. Mas eu não vou desistir. A gente pode ainda fazer outros. Juntos. Eu e você.
-Lana, eu queria tanto ficar do teu lado, mas eu fiquei com medo do que o Fred ia fazer se descobrisse a verdade.
-Eu vi você pela janela quando o Frederico me contou a verdade. Lamentei tanto, porque pra você eu não minto.
-Coisa estranha, não é? Você me vendeu droga, ameaçou a vida da minha mãe, me fez roubar minha família por causa dos baseados que você vende pra mim e... Cara, eu não consigo te odiar. Por quê?
-Porque eu te fiz um homem. Não parece, mas você cresceu em quase um ano. Yuri. Eu sei que você não vai me esquecer. Nem eu consigo esquecer você.
-Te amo...
-Não me ame. Me deseje, como sabe fazer de melhor- beija a boca do garoto.

A porta do banheiro apresenta uma janela de ventilação. De lá, Frederico e Ana Maria acompanham, em silêncio e em estado de choque, a revelação do caráter da traficante e da relação doentia que mantém com Yuri. Eles se olham sem conseguir acreditar no que viram.

27/10/2013

SOBRE PRÓDIGOS E PRODÍGIOS/ CAPÍTULO 27

-Agora você pensa na sua mãe! Sempre pensou nela! Sempre gostou mais dela, mas nunca poupou a mim dos seus comentários, do seu deboche, do seu desprezo. Mas isso vai acabar agora, e eu não me importo de ir pra cadeia, porque eu não vou deixar você manchar o meu nome! Está ouvindo?
-Acaba com ele, Otaviano!- o rapaz de preto aparece novamente, perto da janela- Acaba com esse moleque. Vão ser três mortes nas suas costas: a do Dalton, a da Rosane e a dele. Mata esse garoto sem piedade nem remorso, não perca essa chance!
-Cala essa boca!- Otaviano grita, e o adolescente não entende porque ele falou isso.
-Solta o Yuri!- Sônia agarra o patrão e Igor entra no quarto, segurando o garoto.
-Me larga! Me solta, empregada maldita! Eu não vou deixar ele vivo! Esse drogado tem que morrer!
-É seu filho!
-Porque foi um erro do destino! Eu dei meu amor pra ele torrar tudo com drogas! Dessa casa, você não leva nada! E eu vou dar um jeito de mexer no seu dinheiro pra salvar a gravadora!
-Na minha grana, você não toca!
-Ah, não! Duvida se eu não vou! Cansei de você me desafiando, da sua mãe defendendo tudo o que você faz ou deixa de fazer. Mas agora acabou. Você não vai tirar nem mais um só centavo dessa mansão.
-Claro, não é?- se solta do meio-irmão- Já deve estar contando moedinha aqui em casa. Já que é pra mandar a real, eu vou falar: ia gostar muito se você tivesse morrido mesmo... – é interrompido por diversas bofetadas que o pai dá em seu rosto.
-Quem queria te ver morto agora era eu. Anos e anos dando do bom e do melhor, pra você se tornar um marginal da pior espécie, que rouba a própria família, que vende o seu melhor presente em troca de cigarros e pedras de crack, e sabe lá quantos entorpecentes.
-Você não vai me impedir. A vida é minha, e eu faço com ela o que eu bem quiser.
-Seu Otaviano tem razão, Yuri. Você não pode continuar desse jeito. Tem que procurar ajuda, e a gente quer te ajudar também.
-O que é, Igor? Não ficou feliz de puxar o saco da minha mãe e quer puxar o dele também? Eu sei o que eu faço da minha vida.
-Não dê esse desgosto pros seus pais, Yuri...
-Desgosto foi ter apanhado dele, Sônia. Nunca ele encostou a mão em mim. Vai ver porque ele não tinha tempo. Nem pra ser pai- apanha a corrente que havia deixado cair- Pode ficar tranquilo: eu não volto mais pra sua casa- vai até a porta do quarto- Ah, tem mais uma coisa. Toca sua vida. Você não precisa de mim. Nunca precisou.
-Fora daqui.
O garoto sai de casa. Sônia ficou inconformada.
-Mas como é que o senhor pode deixar ele sair desse jeito? Ele não está bem, vai acabar fazendo alguma besteira...
-Antes ele do que eu!- interrompe, com fúria- Agora saia daqui. Saia e leve esse ladrão com você.
-Eu não sou ladrão...
-Não discuta comigo! Quer que eu te dê a lição que ele acabou de levar, quer?
-O senhor não é meu pai pra fazer isso!
-Mas sou o dono dessa casa! Você e sua querida Ana Maria vão ter de me aturar!
-Vem, Igor. Vamos embora.
-Eu não vou me dar por vencido. Nem que eu tenha eu perder a minha família, eu não vou esmorecer. Vou me reerguer e acabar com a felicidade de todos eles.

XXXXX

Horas mais tarde, Ana Maria volta pra casa e entra no quarto de Yuri. Estranha o fato de ter encontrar muitas coisas reviradas, e algumas até mesmo quebradas. Vê que alguém está na varanda, sendo coberto pela cortina.
-Meu filho?
-Pensou que no estado em que ele está, ele seria capaz de bagunçar tudo? Não, Sana Maria. Esse quarto não é obra do seu filho, até porque ele fez coisa muito pior.
-Otaviano? O que você está fazendo aqui?
-Era de se esperar que você ficasse surpresa com a minha volta. Ah, meu amor, eu não poderia privar você da minha presença.
-O que você fez com o meu filho?
-Você sabia que ele tem dormido na rua nos últimos dias? E que tem usado drogas também? Sua segunda mãe, a Sônia, não te contou que ele passou como um furacão e roubou a corrente pra vender por entorpecentes?
-Não, o Yuri... O Yuri não pode ter feito isso... Você está mentindo pra me desestabilizar.
-A última coisa com a qual estou preocupado é com você, Ana Maria. Aceita que dói menos. Seu filho é um dependente químico, e além disso, faz expediente como marginal.
-Eu não admito que você se refira a eles nesse termos, está ouvindo?
-Tem razão. Me desculpe. Esqueci que marginal sempre acaba parando na cadeia. O que não é o caso dele, já que eu o tirei daqui. Eu o expulsei. O pus na rua, onde ele tem que ficar!
-Se você sabe do real estado dele, por que não o segurou, Otaviano? Sabe a quê você expôs o Igor?
-Muito bem. Expus à vida que ele quer levar pra sujar meu nome. Eu tentei matá-lo. Sim, eu quase o sufoquei hoje à tarde.
-Você precisa de ajuda. Tanto quanto ele...
-Sabe que ainda não me bateu o arrependimento disso? Eu dei amor, mas não acho que seja um recurso inesgotável. Agora quero ver se ele vai retribuir esse amor que eu dei se livrando da dependência, e parando de trazer a vergonha ao meu nome. Pra isso, seu filho tem que parar de fingir que é um adulto e crescer. Ele vai ter que aprender, e não vou ser eu a pessoa a orientá-lo.
-Pelo visto, você voltou pra infernizar nossa vida. Até mesmo de um filho que você não sabe o paradeiro. Eu movo céus e terra pra polícia descobrir o paradeiro do Yuri e você o deixa escapar?
-Que cabimento teria pra você dar teto a um garoto que iria torrar tudo o que você tem?
-Ele é nosso filho!
-Não meu. Se ele continuar com esse comportamento, não vai ser. Eu vou pro meu quarto... Por favor, você peça à Sônia pra preparar a banheira pra mim, e o quarto de hóspedes pra você. Não creio que queira dormir comigo depois de tudo que aconteceu, embora eu não pretenda dar o divórcio.
-Melhor. Eu não quero ter forças pra terminar o que eu comecei há dias atrás. Eu só vou te dizer uma coisa, Otaviano: reze muito pra que o Yuri se recupere. Porque se ele morrer, a culpa vai ser sua. Com licença...
-Eu sinto falta do meu filho. Não desse delinquente.

SETE MESES DEPOIS...

No hospital, Frederico está muito nervoso, dando diversos passos pelo corredor. O obstetra aparece rapidamente.
-Como é que ela está, doutor?
-Não sabemos ainda como foi que isso aconteceu. A bolsa de sua esposa estourou dois meses antes do previsto. É um caso muito raro, o bebê pode até não nascer agora, mas precisamos controlar a pressão dela, que está muito alta.
-Doutor, ela estava sentindo fortes dores em casa, foi por isso que eu a trouxe aqui. Será que o bebê não vai nascer?
-Se nascer, nós precisaremos fazer uma cesariana. É muito arriscado pra vida dos dois fazer um parto normal.
-Tente salvá-los, doutor. É o que te peço. Que salve os dois.
-Sua mulher não veio fazer todos os exames, Frederico. Parecia que ela se descuidava da própria gravidez. Se o bebê tiver algum problema e nós não sabermos, pode ser tarde demais.

XXXXX

Uma audiência conta com a presença de Betina, Jandir, Ana Maria e Igor. A decisão se refere ao processo de guarda das crianças. O juiz lê a sentença.
-Tendo como base o depoimento tomado dos menores Igor Pinheiro Antunes e Betina Pinheiro Antunes, e o acompanhamento do comportamento de Ana Maria e Jandir, reclamantes da causa, declaro que a guarda dos menores devem ficar com a senhora Ana Maria Bittencourt Passos- a reação de surpresa do pai é imediata- por considerar que a mesma apresenta condições para obter a tutela do adolescente e da criança referidos.
-Não podem fazer isso! Eu sou o pai deles! A senhora não pode me separar da minha família! Isso é uma injustiça.
-Modere seu comportamento, Sr. Jandir. O senhor está num tribunal, participando de uma audiência, e não pode faltar com o respeito a nenhum dos que estão aqui. A sentença está definida. Peço que os senhores advogados e seus clientes se retirem. Caso encerrado- bate o martelo.
-Finalmente nós vamos ficar juntos, meninos- Ana Maria abraça Igor- Até que enfim.
-Eu sei que você orou pra isso- Igor diz à tutora.
-Orei, sim. Obrigada pela força que você tem me dado nesses meses sem o meu filho. Mas eu sei que ele vai voltar e a gente vai morar na mesma casa, todo mundo junto. E você, mocinha, eu quero te encher de beijos, e beijos e beijos- abraça Betina, quando Jandir os surpreende segurando o braço de Igor.
-Nem pense que os dois vão escapar de mim. Eu posso ter perdido hoje, mas ninguém sabe o dia de amanhã. Fica esperto, Igor. Vai ver você e sua irmã podem não se dar tão bem assim. Vocês testemunharam contra mim, mas eu não desisti de levar vocês. E vou fazer isso de um jeito ou de outro, ouviu?
-Pra fazer o quê? Pra matar a gente, como fez com a minha mãe?
-Você não sabe do que está falando- lacrimeja diante das palavras do menino.
-Sei, sim. Você acorda com culpa todo dia, dorme com ela, e quer colocar a gente no inferno em que você vive. Mas a gente tem a chance de ser feliz. Entende isso, Jandir. Deixa a gente em paz.
-Isso eu não vou fazer nem que me matem- afasta-se dos três.
-Ele disse o quê, Igor?- Betina se aproxima do irmão.
-Botou medo. Mas eu não tenho medo dele. Vamos pra casa.
-Sim. Agora é a nossa casa- Ana Maria não sé contém de tanta felicidade.

XXXXX

Yuri entra no hospital e encontra uma moça na recepção.
-Eu estou procurando uma pessoa.
-Quem é? Trabalha aqui?
-Não, é uma mulher chamada Lana. Disseram que ela foi ter um bebê aqui.
-Você é parente da Lana Esteves de Souza?- o obstetra ouve o diálogo.
-Sou... Sou sobrinho dela. O que foi que houve? O bebê nasceu?
O médico olha para o adolescente com bastante pesar.
-Sim, ele nasceu.
-Por que o senhor está assim? Eu posso ver os dois? O bebê e a Lana?
-Não. A Lana está sedada. Teve que fazer uma cesariana. Acredito que ela já esteja acordada, conversando com o marido.
-Se ele entrou, eu posso entrar também. Pelo menos pra ver o bebê.
-Infelizmente, não vai ser possível.
-Fala, doutor. O que foi que houve?

XXXXX

Lana está desacordada, e aos poucos, vai despertando. Olha para a janela do quarto, onde está Yuri chorando, do lado de fora. Segurando a mão da delinquente, está Frederico, que não nota a presença do menino.
-Fred? O que houve?
-Nosso bebê nasceu hoje, meu amor.
-Nasceu?- sorri, simulando felicidade- Que boa notícia, amor! Ele nasceu prematuro... Deve ser por isso que ele não está comigo. Deve estar na incubadora. Menino ou menina?
-Um menino. Pesou um quilo e meio. Nasceu bem fraco- a voz fica embargada.
-Um menino, do jeitinho que você queria. Por que você está chorando? É emoção de ser pai? Calma, meu amor- enxuga o rosto do marido com a mão direita- Daqui a pouco ele vai se recuperar, não vai? E a gente vai pra casa, começar uma nova vida...
-Lana...
-O que é, Fred? Cadê o nosso bebê?
-Nosso bebê, ele... Eu não consigo mais falar- levanta-se- Não posso.
-Foi pra incubadora? O estado dele é grave, é isso que você está me escondendo? Por favor, Frederico, não me mata de angústia! Cadê o nosso filho?
-Recolheram o nosso bebê... Pro...
-Pra onde?
-Pro Instituto Médico Legal. Nosso bebê não resistiu, Lana.
-Como assim “não resistiu”?- recusa-se a acreditar.

-Nosso filho morreu, Lana. Nasceu morto- Frederico vai ao chão de tanta tristeza, enquanto Lana continua em estado de choque e Yuri sente por não ter podido chamar o bebê de seu.