04/05/2014

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 5: EM REPOUSO


-Por que a senhora ”tá” me dizendo essas mentiras todas?
-Eu não preciso mentir, Murilo. Nem pra você, nem pra Verônica, nem pra ninguém. Eu não vim de São Paulo até aqui pra enganar vocês, tripudiar da dor de ter um filho desaparecido...
-Um filho que é meu e da minha mulher. De mais ninguém.
-Se você me afirma isso nesse tom imponente é porque é pai, e sente que existe uma razão muito forte para eu vir atrás do “Gigante”.
-Pelo contrário. Se engana ao pensar que tenho dúvidas sobre a paternidade dele.
-Disso não precisa duvidar. Mas eu sou a mãe dele. E tenho como provar que tanto eu quanto vocês foram enganados. Deve existir algum fio de cabelo dele, algum objeto pessoal que permita fazer um exame de DNA.
-O que a senhora me diz não tem cabimento algum!
-Murilo, eu também não acreditei quando o meu pai me contou. Mas eu mexi nas coisas da clínica e descobri que ele tinha um dossiê. Dossiê esse que passava a vida de vocês inteira. Todos os passos que vocês davam, o lugar onde vocês moram, a escola que o neto dele frequentava...
-O “Gigante” não é neto dele! Muito menos seu filho! Eu não sei qual é o seu propósito, mas... Aliás, eu sei, sim: roubar a minha paz, a minha comunhão. Porque eu vejo o inimigo se levantando diante de mim e não me abato. E não vou me abater porque a minha fé me mantém vivo.
-Acontece que não quero ser sua inimiga, e eu não sou. Eu só quero ter a oportunidade que me foi negada pelo meu próprio pai. Murilo, eu não tenho intenção de roubar o “Gigante”, de fugir com ele, de questionar a educação que ele recebeu. Mas ele é parte importante da minha vida, sim. Sem contar que ele tem direito à herança.
-Herança?
-No meio do dossiê, acabei encontrando uma carta que meu pai escreveu e reconheceu em cartório. Nela, ele diz que a metade da fortuna dele vai pro “Gigante”. Você tem ideia do que o seu filho pode perder se eu não contar tudo? Se eu não encontrá-lo? Ele vai perder a chance de saber sobre a sua verdadeira origem e tudo o que lhe é de direito!
-A única herança que ele faço questão que o meu filho receba é a da salvação! Não me importa essa estória estapafúrdia que você inventou!
-Murilo, por favor!
-Basta! Já chega de inventar mentiras! Eu não tenho tempo pra perder com você. “Gigante”, como outra pessoa qualquer, faz parte de uma família. E família ele já tem.
-Por mais que você seja ríspido comigo, eu consigo ver no fundo dos seus olhos que sabe o quanto meu desespero pra encontrar esse rapaz é real. Você sabe que eu posso provar tudo isso que eu estou dizendo.
-Fique com o seu desespero. Aproveite cada engano que você disse e minta pra outro. Meu filho só tem uma mãe, que está lá dentro, numa enfermaria. Volte de onde você veio, porque eu não aceito isso nem do meu próprio filho. O que dirá de você?- entra na enfermaria.
-Se é da sua confiança que eu preciso, eu vou tê-la, pastor. Mas da verdade, todos vão ter que saber- confabula consigo mesma.


Alexandre acorda quando Rebeca está trocando o curativo de seu ferimento, não sem antes passar um medicamento sobre a superfície.
-O que houve?
-Você não lembra, Alexandre? Quase morreu!
-Quem me trouxe pra cá?
-Eu e o Paulo. Até tirei a bala que te alcançou. Você passou dois dias inconsciente, perdeu muito sangue. Mas agora “tá” fora de perigo.
-Mas como é que você...
-Se esqueceu, Alexandre? Fui auxiliar de enfermagem. Saí do hospital que trabalhava por conta do roubo às peças... Que “foi” até o que me “salvou”.
-Podiam ter me deixado morrer.
-E se você não morresse? E se existisse uma chance de sobreviver? Ia jogar fora? Tenho certeza que não.
-Não sabia que você se importava comigo desse jeito.
-Pensei no grupo naquela hora.
-Só nele?
-O que você está querendo dizer com isso, Alexandre?
-Eu não digo nada, Rebeca. ”Tô” é perguntando. É só com o grupo que você se importa?
-Com o que mais eu poderia me importar?
-Comigo. Só comigo.
-Algum motivo em especial?
-Não. Eu tinha que ter?
-Acabei o seu curativo. O Paulo foi comprar o seu remédio, que “tá” acabando.  Mais tarde eu volto pra trazer o seu almoço.
-Não precisa me evitar, Rebeca. Eu não falei nada demais.
-Querido, quem tem o Paulo como namorado, como eu tenho, não precisa de homem pra falar nada demais. Agora deita, que quando der meio-dia, eu trago seu almoço- sai do quarto.
-Rebeca?
-O que é?- pergunta rispidamente.
-Obrigado.
-Não por isso.


Murilo entra na enfermaria, mas Verônica, que ainda está tomando o soro, não o percebe entrando. Ele, então, vai ao banheiro, onde joga água três vezes no rosto. Tira um pedaço de papel higiênico para se enxugar e vê sua imagem no espelho. A expressão que o acompanha ultimamente está ainda mais latente: de angústia. Suspira e volta ao local onde sua esposa está. Ela, então, decide tomar a palavra.
-Não vai chegar perto de mim? Pode vir, eu não vou brigar, não vou reclamar com você. Chega mais perto- o marido a obedece- Daqui a pouco, o soro termina e o médico vai me dar alta. Sabe o que ele disse? Que você não saiu de perto de mim um minuto, nem mesmo quando ele insistiu que você ficasse do lado de fora... É, é sempre do mesmo jeito. Quando eu me sinto desamparada, você estende a mão e me segura. Não diga que é porque somos casados, porque é mais do que isso: você sabe que os anos vão passar, que nós vamos enfrentar as tempestades, mas que eu nunca vou abandonar você, porque você e o nosso filho são as únicas pessoas que eu amo e vou amar a minha vida inteira- segura a mão do marido, este aos prantos-Não precisa derramar lágrima nenhuma, Murilo... No fundo, a gente sabe, sempre soube do caminho que o “Gigante” foi tomando, mesmo dando conselho e orientação pra ele. Mas ele é de maior, pensa que sabe o que faz. Nos virou as costas. Só não posso esquecer que existe alguém maior que todos esses problemas, que vai segurar minha mão quando eu me desesperar, quando eu me sentir destruída, atingida pelo mal. Isso é a minha fé, Murilo. Foi você que me apresentou, lembra?- o pastor chora como uma criança diante da esposa- Da mesma forma que você nunca me deixou sozinha, eu nunca vou te deixar, meu amor. Vem. Me dá um abraço... Vem, Murilo...
Nada resta para ele fazer a não ser revelar todo o seu desespero a por meio desse abraço. Verônica, no entanto, não tem ideia de que o desaparecimento do filho não é a única tormenta que o aflige.


Natália vai até a igreja cujos cultos são ministrados por Célio e por Murilo. O primeiro está cantando uma canção para o encerramento da palavra.
-E hoje eu tenho o Seu amor! Eu Te louvo, Senhor! Hoje eu tenho, hoje eu tenho, hoje eu tenho... Hoje eu tenho o Seu amor! Eu Te louvo... Senhor- canta pausadamente a última palavra.
-Aleluia!- os fiéis glorificam de pé ao término do hino.
-Que o Senhor vos acompanhe e que nos despeça em paz e em segurança. A paz do Senhor, irmãos.
-Amém!- um coro maior é escutado quando Natália entra na igreja.
Ivone, que fez Murilo descobrir o roubo cometido pelo filho, sai da Lar Celestial conversando com uma irmã e esquece sua Bíblia num dos bancos de plástico. Célio se aproxima de Natália ao vê-la entrando no local.
-Irmã... O que a senhora faz aqui? Já sei: está sentindo vontade de conhecer as obras da casa, não é?
-Não. Dessa vez eu vim para conversar sobre o que aconteceu hoje mais cedo na casa do pastor Murilo.
-Se a senhora quer falar com ele, eu acho que ele está em casa cuidando da esposa.
-Era o senhor mesmo que eu estava procurando. Tenho certeza que vai poder me esclarecer uma dúvida.
-Se eu posso ajudar, diga... Por favor, se sente.
-Obrigada- ambos se sentam- É verdade que um dinheiro sumiu daqui de dentro?
-Não mentiria numa coisa tão séria, senhora...
-Natália.
-Realmente sumiu. Era o dinheiro das ofertas da igreja.
-Lá na casa do pastor Murilo, o senhor disse, se eu não me engano, que fazia ideia de quem pudesse saber do paradeiro desse dinheiro.
-Sim, eu falei isso, mas eu não gostaria de entrar em detalhes sobre isso. Considero o assunto muito delicado.
-Tudo bem, pastor. Eu só quero que me diga qual o valor que foi roubado daqui.
-Não me diga que a senhora desconfia de quem possa ter tirado o dinheiro?
-Melhor do que isso: estou disposta a cobrir a quantia- Célio fica boquiaberto- Diga, pastor. Se o problema é dinheiro, pode deixar que eu pago. Quanto foi tirado da igreja?


Alexandre está dormindo e não repara que a janela de seu quarto se abre com o vento e bate na parede. Por um momento, põe o braço esquerdo sobre o direito, demonstrando sentir o vento frio que entra.
Pouco depois, alguém entra em seu quarto e se aproxima de maneira rápida, porém silenciosa. Alexandre para de se mexer, e a pessoa põe diante do pescoço do ferido uma faca, a qual segura com bastante força. Alexandre começa a sonhar em voz alta.
-Me ajuda, pai. Me ajuda, por favor, me salva!


Pressentindo que algo estava para acontecer com o filho, o ex-pastor volta ao tempo atual esse levanta, assustado.
-Foi só um sonho. Só um sonho...
Murilo vê que seu companheiro de cela não está na cama.
-Irandir? Irandir?- sai da cama e olha para os lados, mas não o vê.  A vista do homem está escura, turva, e ele vê um uniforme laranja no chão. O rapaz estava desmaiado- Irandir, o que é que você tem? Acorda, Irandir! Reage, reage...
-Carcereiro! Ajuda que o cara apagou aqui dentro. Vem “simbora”- um dos presos da cela vizinha presencia a cena.
-Você tem que reagir! Pela tua filha, Irandir! A Bianca precisa do pai, acorda! Reage!

03/05/2014

EM PROVA ("HEY, BROTHER", DO AVICII)

Em prova
Do ENEM tem pontos? Passe agora
Ensina
Professor. Deu dica na escola

Oh, aluno do médio grau, que tu
Aproves no ENEM, que passe no...


Em prova
Insiste você em usar cola?
Ensina
Insiste professor, não reprova


Vestibular faltou?
Aprova ao se esforçar
Vestibular mostrou
Que você tem que estudar


Em prova
Do ENEM tem pontos? Passe agora
Ensina
Insiste professor, não reprova

02/05/2014

FAÇAMOS COLAÇÃO ("DANÇANDO NO SALÃO", DA GANG DO ELETRO)

A carga complementar (, reitor,)
Se exige pra minha formação
Componentes eletivos
O Sig@ não me explica, não
Espero poder me formar pra tirar
O diploma, livre da Federal
Suplico por mais correções
No TCC pra fazer a colação
Tensão por estudo e TCC
PIBIC pra fazer
PIBID e seleção pra monitor
TCC na UFPE
Eu quero correções
Que juntos façamos colação

Explica pra mim, reitor, para eu não levar zero...

28/04/2014

PONTUARÁ, SIM ("POR TE AMAR ASSIM", DE MARLON & MAICON)

Você filou de mim quando eu tinha a ata
Presenciou a classe sempre aplicada
Colou sem professor ter te fiscalizado
Ter nome esquecido na prova? Quem manda
Resposta assinalada ficar vendo? Anda
Sem revisar você, pois quer ser reprovado?

Zerar
Recreio pra você estudar, sim
Zerar
Mesmo que apostila tenha que testar
Tudo é decorado pra conhecimento

Pontuará, sim
Para faculdade está garantido
Porque teu professor dará o gabarito
Vai obtendo pontos, faz o exercício
Pontuará, sim
Concentrado em prova, logo vai fechá-la
Concentra em teu teste, marcando exata
Pra universidade, obtenha vaga
Pontuará, sim
Pontuará, sim


Pontuará
Assim vou estudando... Uma prova cansa!
Assisto às suas aulas, do mestre que conta
Do meu professor que me influencia
A turma vai passando, tendo como norte
O teste e simulado, sem ponto de corte
Testando os alunos que farão o ITA


Pontuará, sim

27/04/2014

OS INATACÁVEIS/ CAPÍTULO 4: EM PERIGO

Paulo põe a cabeça pra fora do caminhão e vê que diversos populares estão observando os cadáveres jogados no chão, completamente abismados com a impactante cena. Eles veem que da viatura policial começa a sair uma fumaça. O veículo começa a pegar fogo. O assaltante e líder do grupo não hesita: abre a porta e sai correndo.
-Vem logo, Rebeca!- fala em tom baixo, desesperado, ao se aproximar de Alexandre- O carro “tá” aqui perto.
-Não sem ele. O Alexandre não pode ficar. Ele ainda “tá” respirando!
-Dane-se o Alexandre! Pode morrer aí, que ninguém se importa! A gente tem que sair daqui.
-E se ele sobrevive, Paulo? A polícia pode forçar ele a dizer toda a verdade!
-Não seja por isso... Se afasta!- aponta o revólver para o comparsa desmaiado.
-Guarda essa arma, tem gente nessa avenida olhando! Daqui a pouco mais policial chega! Leva o Alexandre pra casa! Não complica mais a situação.
-Vou levar, sim- abre a porta- Mas pra dar um fim nele lá mesmo, nesse imbecil!- carrega o cúmplice, para em seguida Rebeca sair do caminhão. Os três entram no carro, e a moça é quem o dirige.
Paulo não consegue esconder o desconforto por estar se arriscando cada vez mais, enquanto a moça age friamente, para não levantar suspeitas.


Na prisão, voltando ao tempo atual, Irandir arde em febre na cela enquanto chama por um único nome.
-Bianca... Bianca... – Murilo se levanta e vai até a cama do companheiro de cela.
-O que é que você tem, Irandir? Acorda!- o prisioneiro desperta.
-O que houve?
-Você “tá” queimando de tanta febre.
-Não... Vai ficar tudo bem. Depois passa.
-Passa nada. Tem que chamar alguém pra tirar você daqui. Você “tá” doente, tem que vir alguém pra te dar uma medicação.
-Já disse que isso não vai demorar. Daqui a pouco eu melhoro.
-Quem é que você “tava” chamando agora há pouco, quando dormia?
-Eu chamei alguém?
-Uma tal de Bianca. Chamou umas duas vezes. Nunca falou esse nome aqui dentro.
-O nome da minha filha. É verdade, nunca falei dela aqui com ninguém.
-Filha? Mas você não recebe visita nenhuma. Pelo menos desde que eu cheguei aqui, não vi ninguém te visitando.
-Pedi pra minha mulher não deixar a Bianca vir me ver. E mesmo se eu deixasse, não sei se ela ia conseguir.
-Por que não? Ela não tem saudade?
-Morre de saudade de mim, mas não sei se consegue. ”Tá” fazendo um tratamento.
-E enquanto ela “tá” doente, você fica preso...
-Só fui preso por conta dela! O pastor, por acaso, pensa que é o único a fazer sacrifício pelos filhos? O único que é acusado de roubo pra salvar um filho? Mas não é, não. Não é mesmo! Roubei pra conseguir comprar os remédios que ela tava precisando. Se você visse o estado que ela “tava”, não pensava duas vezes antes de assaltar uma loja.
-Nunca falou da sua vida... Irandir, eu nem imaginava que você “tivesse” aqui por causa de uma filha.
-Se ela “tiver” com saúde, eu passo a vida trancado aqui nessa cela.
-Pelo menos, você sabe que um dia vai sair daqui.
-Como você também vai.
-Não é a mesma coisa.
-Em que você é diferente de mim, pastor?
-Quando você sair, vai encontrar um mundo que te odeia e uma filha te esperando, ainda que ela esteja doente. Porque a cura é difícil pra gente encontrar, mas nunca pra quem pode dar. Sua crença vai fazer você ver que o difícil e o impossível não existem. Já quando eu sair, vou encontrar o mesmo mundo me odiando e um filho que... Olha, eu nem sei se vou encontrar. Às vezes, eu fico pensando que, agora que eu “tô” preso aqui, alguma coisa pode ter acontecido e eu não pude impedir.
-Você “tá” falando da morte do seu filho?
-É um risco que eu tenho que correr. Mais um dos riscos que o meu filho me trouxe...


Natália tenta se explicar perante Murilo e Verônica.
-Por favor, vamos por partes. O filho de vocês não está em casa, é isso?
-Não, senhora. Não está- Verônica responde com pesar.
-Bom, então... Têm ideia de qual hora eu posso vir pra conversar com ele? Ou onde eu posso encontrá-lo?
-Senhora...
-Pode me chamar de Natália.
-Se o assunto é tão urgente pra falar com ele, é melhor a gente contar de uma vez.
-Murilo, não!
-Contar o quê?
-Murilo, eu proíbo você!
-Verônica, pode ser algo grave! Ela tem que saber.
-Mas a gente nunca viu essa mulher antes, você já quer falar da nossa vida particular?
-Da nossa, não! Do “Gigante”, que faz questão de nos envergonhar.
-O que está acontecendo, eu posso saber?
-Natália... É esse seu nome?
-Isso.
-O... O “Gigante” desapareceu.
-Como desapareceu? Foi raptado?
-Não, ele... Fugiu.
-Agora chega, Murilo!- Verônica levanta a voz para o marido- Chega! O que você quer? Me torturar com isso? O que você “tá” fazendo, comigo e com o seu filho é desumano, será que você não vê?
-Ele não é inocente, Verônica! Entenda!
-Não vou mais discutir com você sobre esse assunto! E você? Quer falar o quê com o meu filho?
Célio chega correndo à casa de Verônica e Murilo.
-Aconteceu uma desgraça!
-Com meu filho?
-Não, Murilo. Lá na igreja!
Verônica observa tudo afastada do marido, sentindo que a situação foi causada por seu filho.
-O que foi que aconteceu, Célio?
-Lar Celestial foi roubada!
-A igreja? A igreja de vocês foi assaltada? Mas o que levaram?
-O dinheiro das ofertas que ia servir pra comprar os seis bancos do templo.
-Célio, você tem certeza do que está dizendo?
-Não só tenho, Murilo, como também sei quem é o responsável por isso!
Verônica acaba desmaiando perto do sofá da sala.
-Verônica?- Murilo corre para acudi-la- Verônica, o que você tem? Fala comigo, Verônica!- Natália segura o pulso da esposa de um dos pastores.
-Ela está muito fria.
-Façam alguma coisa!
-Eu vou chamar a ambulância... – Murilo pega o celular.
-Não. Eu vou chamar um táxi. Nós vamos levá-la ao hospital- Natália começa a discar o número, e Murilo fica ainda mais apreensivo, já que continua sem saber o verdadeiro motivo da visita.


Rebeca abre a porta do apartamento.
-Vem rápido. Leva ele pro quarto- Paulo carrega Alexandre e o leva até o quarto do rapaz, onde o coloca na cama- Agora, pega uma tesoura e abre a camisa dele.
-Onde é que você vai?
-Vou buscar os instrumentos- A tesoura “tá” dentro da gaveta, não demora.
-Em qual gaveta ela colocou? Cadê... Ah, tá aqui. Achei!- fecha a última gaveta, quando olha para o rosto de Alexandre, ainda desacordado, segurando a tesoura com muita força- Melhor mesmo eu não me arrepender de deixar você vivo, Alexandre.
Rebeca volta ao quarto com um saco plástico transparente de instrumentos médicos.
-Você ainda não fez o que eu disse? Não dá pra perder tempo, Paulo! O cara pode morrer!
-“Tá”, “tá”, eu já vou cortar a camisa dele- vai ao outro lado da cama e faz a abertura necessária.
-Agora eu preciso que você fique segurando a cabeça do Alexandre.
-Rebeca, é arriscado deixar esse cara vivo.
-O Alexandre já “tá” aqui, Paulo. Se ele morrer, é pior. E a gente deu sorte de não ter visto ninguém no prédio, senão a polícia viria atrás da gente- Rebeca abre o saco e tira uma seringa cheia- Estende o braço dele.
-O que é isso?- pergunta, após obedecê-la.
-Anestesia, pra ver se ele aguenta a dor.
-O Alexandre “tá” muito pálido, Rebeca, ele não vai aguentar.
-Tem que aguentar. Além do mais, gente numa situação pior que a dele eu já vi não sei quantas vezes...
Com um bisturi, abre um pouco mais a ferida que está no corpo do assaltante. Em seguida, ela extrai a bala que o vitimou.
-Conseguiu...
-Agora é só fazer os pontos. Assim, ele vai parar de perder sangue.
-Mas e se ele não sobreviver?
-Depois a gente pensa em como se livrar do corpo. Mas do jeito que eu deixei, duvido que ele morra.
-E o dinheiro?
-Guardei no mesmo lugar que peguei os instrumentos. Se eu não tivesse roubado do hospital que eu trabalhava, o que ia ser dele agora?
-Você não acha que “tá” preocupada demais com esse cara?
-Me poupe disso, Paulo. É desse cara que depende a nossa liberdade.
-Por isso que eu achei melhor ter dado um fim nele ali mesmo.
-O idiota matou três policiais.
-E fez certo. Fez porque eu disse pra ele fazer. Se não fosse isso, a gente tava preso.
-Fez certo o escambau! Você atirou contra os policiais antes de eles passarem na frente do caminhão. Se eles sobreviveram, reconheceram a nossa cara. Quer mais uma morte nas costas pra quê? Raciocina, Paulo! A gente tem que calar a boca do Alexandre dando dinheiro pra ele, como ia ser desde o começo.
-Esse moleque que não me falhe, hein?
-Não vai falhar. Isso, eu garanto- o beija.


No corredor do hospital, Natália e Murilo esperam por notícias sobre o estado de saúde de Verônica, até que o médico chega.
-Qual de vocês é parente de Verônica Nobre?
-Sou marido dela. Como ela “tá”, doutor?
-Foi uma brusca queda de pressão, mas já normalizamos. Talvez tenha sido causada por algo de fundo emocional, alguma notícia que ela recebeu recentemente. Sua esposa vai ficar em observação por mais algumas horas. Depois, eu vou liberar pra você irem pra casa.
-E que recomendação o senhor faz?
-Aconselho que não a perturbem, que evitem qualquer tipo de desgaste. Não sabemos quando isso pode acontecer de novo. Por isso, poupem a Verônica de situações desagradáveis.
-Tudo bem. Muito obrigada, doutor.
-Posso entrar pra falar com ela?
-Sim, pode. Coloquei uma medicação contra a hipotensão no soro. Já está tomando. Pergunte ao rapaz da vigilância em que enfermaria ela está. Vocês vão me dar licença, mas eu tenho que atender os outros pacientes. Com licença.
-Melhor eu entrar, então.
-Não, por favor. Fica mais um pouco. Eu quero conversar com você. Aliás, com você e com a sua mulher, mas ela não está em condições ainda.
-Você foi à minha casa, mas não disse por quê. Sabe alguma coisa do meu filho?
-Do paradeiro dele, não. Eu nunca imaginei que ele tivesse desaparecido, não conheço as razões dele. Mas eu fui lá pra conhecer o “Gigante”.
-Que relação é a sua com ele? Não, não pode ser. ... Já sei: ele te roubou, não foi? A senhora vai denunciar meu filho?
-Murilo, não é nada disso. Queria conhecer o “Gigante” e falar com vocês por outro motivo. Tão ou mais sério que o desaparecimento dele.
-Eu não entendo.
-Como é que eu posso dizer isso pra que você me entenda?
-Seja o que for, não me esconda nada. Eu estou preparado pra ouvir qualquer coisa sobre o “Gigante”.
-Na verdade, sobre mim. Sou filha do Getúlio Veronese.
-Getúlio? Esse nome... Não consigo me lembrar.
-Foi o médico que ficou responsável pela fertilização in vitro da Verônica, sua mulher, que não conseguia ter filhos.
-Sim. Sim, agora eu me lembrei dele. Se não fosse ele, eu nunca conseguiria ser pai. Eu realizei o maior sonho da minha vida, e a minha mulher também.
-Verônica não realizou sonho nenhum. Você sim.
-Como assim “não realizou”? Nós temos um filho de dezoito anos.
-Vim de São Paulo pra contar toda a verdade pra vocês. Têm que saber de uma vez por todas...
-Que verdade? Do que a senhora “tá” falando?
-O ”Gigante”... O “Gigante” é seu filho, mas a Verônica... Não é a mãe dele.
-A senhora só pode ser louca... Que absurdo é esse? O “Gigante” não é filho da Verônica... Vai ser de quem, então?

-Sua esposa foi barriga de aluguel. O “Gigante” é seu filho, e a Verônica o gerou, sim. Mas o óvulo que estava nela era o meu. Meu pai não fez uma simples fertilização in vitro... Enganou a mim e a vocês dois. Você e a sua esposa não têm filhos em comum, porque a mãe do Gigante sou eu!