13/02/2016

MENTIRAS ESCANCARADAS/ CAPÍTULO VII: DESCE MAIS UM POUQUINHO (O NÍVEL!)

Num golpe de misericórdia (ou de insanidade, como quiserem interpretar), Dara abre a bolsa, olhando fixamente para Coelho e a joga pela janela. Os executivos se levantam diante da audácia. Menos Wilson porque... Não é um executivo.
-Você é mesmo perigosa. Jogou fora o dinheiro de todos esses Zé Ruela.
-Na bolsa, além da grana deles, tinha também aquele um milhão que você depositou na minha conta.
Desesperado, Coelho desce os vinte andares de escada, sendo seguido por um cover do Paulinho da Viola, que canta loucamente "dinheiro na mão é vendaval". Quando chega ao solo, percebe que dez mendigos já abriram negócio com a quantia desperdiçada.
O empresário se ajoelha no meio do asfalto e começa a chorar como um bebê. Perspicaz, Dara vem de elevador e confronta o empresário mais uma vez.
-Você não podia fazer isso comigo!
-E você? Pode me comprar? Tire seu cavalo da chuva, Coelho.
-Pare de misturar animais numa frase só!
-Eu disse que não ia aceitar seu dinheiro. E avisa pra sua mulher que da próxima vez que ela for à minha porta, ela vai participar das Videocasssetadas do Faustão!
-Isso que você acabou de fazer vai ter troco!
-Não vai, não. Os mendigos não vão dar.
-Cuidado com aquilo que você mais ama. Porque eu vou te atacar exatamente lá.
-Então vai atacar uma travessa de lasanha! Palhaço!- enrola-se na toga e sai triunfante.
-Dara, Dara, Dara... Se você soubesse que eu sou o único vilão inescrupuloso dessa novela, você não teria feito isso. Mais cedo ou mais tarde, você será tão parte da minha cama quanto a fronha do meu travesseiro! Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!- a risada é seguida de uma trovoada em plena Avenida Conde da Boa Vista.

/////

O clima soturno continua. Num porão escuro, Wilson está com uma calculadora enquanto Coelho está se balançando no chão, com a mão na cabeça.
-A bolsa caiu!- avisa o advogado.
-Disso eu sei, eu estava junto da doida quando ela jogou pela janela!
-Me refiro à Bolsa de Valores do Estado de São Paulo.
-O que eu tenho a ver com isso? Estamos na Conde da Boa Vista, boçal!
-A maior parte dos investidores da revista vem de lá. Sabe como é. É o principal centro econômico do país.
-Deve ter caído por causa do confisco da poupança.
-Não. Despencou porque a notícia de que você tentou comprar uma juíza repercutiu mal.
-Como ficaram sabendo? Aqui no Brasil internet é uma coisa rara.
-As fofocas rolaram por secretárias eletrônicas. Tiraram fotos da confusão lá embaixo e enviaram às redações dos principais jornais paulistanos.
-O que isso quer dizer?
-Dr. Coelho, o quadro parece ser altamente irreversível, com perspectivas de represálias contra a imagem da Play Pause.
-Fala em português, Wilson!
-Felipe, tu tá mias sujo que pau de galinheiro.
-E tudo por culpa daquela juba diabólica de Dara, que me enfeitiçou.
-Ledo engano. A culpa é do cinto de castidade que você se recusou a colocar.
-Pode escrever, Wilson: aquela juíza vai se arrepender, porque eu vou me vingar.
-Quer bancar Carrie, a estranha, agora? Essa história de vingança só funciona em novela das seis!
-Esqueceu que você investigou toda a vida dela pra mim? Pois é daí que eu tirarei minha carta da manga. A ordem é usar o vulnerável cegueta do namorado dela pra chegar ao meu objetivo.
-O tal de Antonio? Mas como? O que vai fazer?
-Wilson, eu vou te contar um segredo- tira do bolso um rolo de esparadrapo.
-E o que... Glup... Você quer falar?
-Sempre há uma testemunha perigosa de nossas maldades: Thaynara, você... – ri diabolicamente enquanto se aproxima do advogado com o esparadrapo- Mas os mortos não falam.
Será que Dr.Coelho é parente de alguma vilã mexicana? Só pode ser.

/////

Sozinho em casa, Antonio se consome com a dúvida sobre o caráter da crush (e eu posso usar essa palavra à vontade porque "Crush" já existia em 1990). Dr. Coelho, mais maquiavélico que o cara que escreveu "O Príncipe", aparece na porta da casa da juíza e usa a tática dos vendedores ambulantes.
-Moça!
-Moça? Será que o Wando tá na minha porta?- Antonio decide satisfazer a curiosidade e abre a porta, ainda fingindo não enxergar- Pois não?- diz com um tom frio, reconhecendo Coelho.
-Boa tarde. Eu sou o Dr. Tortoni.
-Torloni? É parente da Christiane?
-Tortoni! Sou detetive particular, e descobri coisas medonhas sobre sua mulher.
-Dara? A gente sabe que ela não penteia o cabelo todo dia e que o passatempo preferido dela é dançar Pet Shop Boys pelada pelo quarto.
-Posso bem avaliar...
-Do que se trata?
-Sua mulher foi fazer um striptease na sala de reunião de um poderoso empresário chamado Felipe Almeida Coelho.
-Não. Não é verdade, o senhor está blefando. Além disso, eu sei que o senhor não é Dr. Tortoni coisa nenhuma, é o canalha do Coelho!
-Como sabe?
-Eu andei vendo umas entrevistas suas... Claro, antes do meu acidente.
-Antonio, não pense que estou blefando. Tenho provas cabais e carnais de que Dara esteve comigo. E sua cara de dúvida já te torna uma isca fácil para a mentira dos outros.
-Pois eu quero ver essas provas agora!
-Ver como, bocó? Está mais cego do que perdido em tiroteio... O ditado é assim?
-Se você veio até aqui, é porque tem as provas que diz. Caso seja alguma fotografia, pode deixar que eu passo a mão, porque conheço aquele corpo até em braile.
-As provas estão aqui mesmo, nessa casa.
-Em que parte?
-Vem comigo- Coelho fecha a porta e sobe às escadas, segurando na mão de Antonio para que ele não caia.
A quem estou tentando enganar? Coelho, ao chegar ao topo, empurra o arqui-inimigo, que desmaia. O pior é que ele nem desconfiou. Eta, bicho besta!

/////

Horas depois, Dara está num julgamento onde um homem é acusado de agredir verbalmente sua esposa. A juíza lê a sentença.
-O Réu José Aparecido Soares de Lima está condenado a quatro anos de prisão.
-Não, a senhora não pode fazer isso!- o acusado se levanta, furioso, mas é contido por um promotor.
-Não fui eu, foram os votos do júri. A punição será cumprida em regime fechado.
-Meritíssima, isso é uma calúnia! Eu nunca fiz nada pra minha mulher! Tudo isso é um complô dela com o amante, já que os dois foram surpreendidos por mim.
-Ora, por favor! Tivemos acesso à prova cabal do seu crime. Para se vingar, compôs uma música na qual diz claramente que o passatempo preferido da ordinária é ralar na boquinha da garrafa. Que ultraje! Os policiais já podem levá-lo. E se existe alguém que se oponha a esta sentença, que fale agora ou se calce para sempre.
-Eu!- Thaynara invade o fórum.
-Muito bem. Mas como eu não sou nenhum padre, qualquer interferência na condução desse julgamento seria plenamente ignorada. O que você quer, doida?
-Dizer que se existe alguém aqui que deveria ser condenada, esse alguém é você!
-Nós não vamos começar a discutir de novo. Todos sabem que além de ter um péssimo gosto pra homem, você é demente.
-Escuta, nunca passou pela sua cabeça de sentir vergonha por seduzir um homem casado?
-A falta de seletividade do seu marido não vai ser colocada nas minhas costas. Agora saia do meu local de trabalho.
-Nem pensar. Não até mostrar o que trouxe pra você.
-Thaynara, eu já devolvi o dinheiro do seu marido, o que mais você quer?
-A sanidade mental dele de volta!- abre a bolsa e tira uma fotografia, entregando-a para Dara- Dá uma olhada no que você obrigou Felipe a fazer.
Dara vê que a fotografia é Wilson amarrado e amordaçado por esparadrapos, jogado no chão do prédio da revista, trajando apenas uma samba-canção e com cara de desespero.
-Esse não é o advogado do teu marido?
-Gatinho ele, né?
-Sim, um ângulo ótimo o dessa foto.
-Concordo, amiga! Mas estou me referindo ao verso da foto!
-"Sabe onde está seu namorado cegueta agora? Talvez você precise ter certeza de que a sua casa não foi invadida por um meliante conhecido como Dr.Tortoni. Vai ver esse é o preço por não querer conhecer minha cama. Até breve, Meritíssima".
-Foi ele quem escreveu isso?
-Claro, eu conheço a letra do Felipe. Tenho pra mim que ele levou teu namorado e só vai devolver quando você fizer misérias com ele.
-Vou averiguar isso agora mesmo. Pode ser uma armadilha. Vem comigo.
-Pra onde?
-Pra minha casa. Vamos ver se você leva seu marido e ele devolve o meu homem.

/////

As belas chegam à residência da juíza à toda velocidade (e vamos ignorar que Dara desrespeitou todas as leis de trânsito, já que tem um gato morto no para-brisa). Ambas encontram a casa aparentemente normal.
-Antonio! Antonio, cadê você?- Dara corre pela casa toda e Thaynara fica nervosa.
-Ele passou por aqui, tenho certeza.
-Como sabe?
-Felipe não blefa, queridinha. Pra mim, ele sequestrou seu namorado e quer de resgate você num prato de sobremesa.
O telefone toca.
-Atende você, que eu estou muito nervosa.
-Eu? Eu sou visita, minha filha.
-Ai, sai da minha frente!- empurra a coitada da Thaynara no sofá- Alô?
-Encontrou o engenheiro cego?- Coelho liga de um orelhão. Bons tempos.
-Pra onde você levou Antonio, Coelho? Fala, desgraçado!
-Não vou entregar o ouro ao bandido tão cedo, meu amor.
-Fala! O que é que você quer? Se vingar de mim?
-Depois do que você fez, é o mínimo. Mas eu resolvi arrumar uma forma de te deixar em paz e, ao mesmo tempo, conseguir o que eu quero. Você vai pagar o resgate desse tal de Antonio.
-Quanto você quer? Porque eu não tenho como arcar com um milhão de cruzeiros.
-Sua ingenuidade é mais atrativa do que seu corpinho escultural e sua juba indomável... Pegadinha do Mallandro! Yeah, yeah! Eu quero você embrulhada pra presente amanhã, às oito horas, no estacionamento da Play Pause. Não invente de montar uma operação policial pra acabar comigo, porque além de estar em posse do seu namorado, ainda tenho um cartão com sessenta créditos, e posso botá-lo na linha se resolver torturá-lo.
-Coelho, libera o Antonio agora!
-Quem vai liberar é você. O Antonio e você mesma- desliga.
-Era ele? O que é que o Felipe quer?
-Acabar com a minha dignidade. Aliás, o autor dessa novela acabou comigo de um jeito... O que mais falta me acontecer?
-Dara, por que tem uma garrafa entre as suas pernas?
-Porque o autor é uma porcaria de dramaturgo e agora vai me fazer dançar uma música sob o pretexto de que está homenageando os anos 90.
-"Desce mais, desce mais um pouquinho!"...
O nível! Mas fizemos a Musa do Judiciário ralar na boquinha da garrafa, o que por si só seria muito ousado para a minha trajetória de dramaturgo porcaria. Se quiser ver gente pelada, troque de canal e veja "Pantanal"!

/////

Sabe Antonio, o engenheiro cego que deixou de ser cego e se tornou monossilábico porque só queremos saber de Dara nessa novela? Pois é. Está amarrado numa cadeira, perto de uma janela. Acorda e não sabe onde está.
-Aquele desgraçado me sequestrou- não me diga!- Eu preciso sair daqui... O que é aquilo?
Antonio vê que há várias cartas sobre a mesa, da qual ele está afastado. Aos poucos, ele vai pulando com a cadeira e se aproxima dos envelopes, que trazem o nome da rua na qual ele está.

/////

Dara chega ao estacionamento, bastante apreensiva, na hora que Coelho marcou. Não há nenhum veículo, e ela chega a pensar que ninguém apareceria, até que um automóvel em alta velocidade chega e vai em direção à juíza. Nervosa, ela chega a correr, mas o carro passa em sua frente e freia bruscamente. Coelho desce do carro com uma bandana preta.
-O tão esperado reencontro finalmente aconteceu.
-Cadê o Antonio, Coelho? Fala onde você colocou ele!
-Calma, Dara. Se eu tive coragem de levar seu namorado comigo, é porque eu realmente vou cumprir com a promessa de devolvê-lo. Só que você tem uma conta a acertar comigo.
-Como é que eu vou saber que você não está mentindo?
-Não tem como saber. Esse risco você vai ter que correr se quiser ver seu Antonio escapar com vida. Avisei no início do capítulo que iria te atacar onde mais doesse em você- aproxima-se da juíza colocando a bandana em seus olhos.
-Pra quê isso?
-Vou te levar aonde seu namorado está. Mas vou logo lhe avisando: depois disso, vai conhecer um homem de verdade.
-Quem? Tarcísio Meira?
-Já pensou em fazer "A Praça é Nossa"? Entra no carro agora!
Coelho conduz Dara até o banco do passageiro e sai calmamente com o veículo fazendo uma coisa que só os anos 90 permitiam: dar uma gargalhada fatal.

07/02/2016

ANOTE ("A NOITE", DA TIÊ)

As aulas não bastam,
Não dá pra entender
Mas por que não revisa em casa?
Para prova, lembro que anotou
Use bem o "porquê"
Vai aprender como usa.
No início é colocado
Das perguntas, mas olha:
Ele vem separado
Não coloque acento. Veja
Como usá-lo você.
Se mestre chega, anote
Assunto pra concluir
Aprovação na matéria
Que eu reviso aqui
Aluno logo reclama,
Mas não acerta questão;
Logo, reprova o conselho
Que lhe dá pontuação
"Porquanto" significa
"Porque" que se ajuntava
Essa palavra não acentuava
Eu repito: conjunção causal
Eu já identifiquei
Eu revi para as provas:
Há um terceiro "porquê"
Que eu indico no fim da pergunta, oh, fera!
Separe e ponha o acento, pois deve
Saber usá-lo você
Te contei tantos conceitos,
Que de um quase esqueceu
Um nunca acentuado
No início apareceu
A concepção não dita
Sobre o vocábulo dou:
Palavra substantiva,
Que artigo acompanhou

Se mestre chega, anote

Assunto pra concluir
Aprovação na matéria
Que eu reviso aqui
Aluno logo reclama,
Mas não acerta questão;
Logo, reprova o conselho
Que lhe garante pontuação

Pontuação

06/02/2016

MENTIRAS ESCANCARADAS/ CAPÍTULO VI: TUDO O QUE É BONITO É PRA SE MOSTRAR!


-Isso é mentira! Seu marido não me deu dinheiro nenhum!
-Você sabia que ele ia fazer isso, sim. Porque ele não consegue te tirar da cabeça.
-Eu não tenho culpa se aquele cachorro do Coelho cumpriu a palavra! Eu mesma não levei a sério.
-Cachorro do Coelho? Quando foi que essa conversa partiu para o mundo animal, querida?
-O que eu vou partir é a sua cara se você não sumir da minha frente!
-Dara, você está mais do que avisada! Não chega perto do meu homem!
-Grande coisa pela qual você tá lutando! Muito cômodo pra você jogar a culpa do fracasso do seu casamento em mim. Só não percebeu que ele poderia ter feito essa proposta absurda pra qualquer mulher!
-Mas não fez! E eu não entendo o que tanto ele vê em você. Sim, porque querendo ou não, eu, Thaynara Thais, sou gostosa...
-Os espelhos da sua casa são sinceros, ao contrário daquele dejeto de homem!
-Ah, obrigada!
-Por nada. E a propósito... – Dara devolve a bofetada que recebeu- Cortesia da casa. Só quem pode tocar nesses fios artificialmente dourados é Antonio, aquele rapaz escultural de cueca na minha cama.
-Ele deve ser cego, pra não perceber a sua vulgaridade, em querer tomar o marido das outras. Além do dinheiro!
-Thaynara, melhor você sair da minha porta agora, ou eu vou maquiar esse rosto com bisturi! Fora daqui!
-Melhor devolver cada centavo que Coelho desembolsou. A sua máscara caiu!
-Mas seus chifres continuam de pé! Vaza!
Enfurecida e dolorida, Thaynara volta para o carro. Antonio, a par de parte da história, corre para o quarto, e volta a se deitar na cama. Com medo de seu amado ter escutado a discussão, Dara sobe às escadas e volta para o quarto, onde o encontra fingindo que dorme. Sim, sobre aquela cama melada de leite.
-Zzzzzz...
-Antonio perdeu o café, e eu a pá pra recolher essa bagunça- vai para cozinha- Onde foi que eu deixei a...
O engenheiro estrategista (nossa, que pleonasmo!) levanta e começa a planejar alguma coisa...
-Se o que aquela doida falou for verdade, eu vou descobrir. Mas ninguém vai saber que eu sei.

/////

Thaynara volta pra casa, furiosa como que aconteceu entre ela e Dara. Seu marido está ao telefone.
-Sim, ela desapareceu ontem à noite. Não, eu não faço ideia de onde ela possa... – Thaynara abre a porta- Deixa, ela acabou de chegar. Obrigado. Tenha um bom dia- desliga o telefone- Mas o que deu em você? Onde é que você estava?- Coelho recebe um tapa na cara- Que é isso?
-Estou devolvendo aquilo que a sua amante me deu. Vou tomar um banho.
Coelho fica sem entender nada, mas eu queria uma cena dramática pra não fazê-los rir o tempo todo.

/////

Um jantar delicioso é preparado pela juíza mais amada da literatura mundial. Enquanto isso, Antonio fica com aquela cara de nada.
-Já provei e está muito bom- traz um prato quente. Abre a boca.
-Não quero nada. Tô sem fome.
-O que é que te deu?
-Nada? Por quê?
-Sua rispidez. Aconteceu alguma coisa?
-Já disse que não tenho nada.
-Antonio, eu vou arranjar uma vaga no trabalho e vou marcar uma consulta com o oftalmologista. Essa sua cegueira temporária está demorando demais pra passar.
-Te incomoda ter que cuidar de mim, ou me ver aqui dentro de casa? Porque se for isso, eu faço as minhas malas e volto pra casa da minha família.
-Deixa de drama, homem. Até parece que você quer se separar de mim. Ainda mais depois de ontem.
-Bons tempos aqueles de ontem. Eu era feliz e não sabia...
-Pode ser mais claro? Porque eu não entendi.
-Esquece. E amanhã? O que você vai fazer?
-Vou dar uma passada no banco, não lembrei que anteontem foi dia de pagamento.
-Quer que eu vá com você?
-Não precisa, amor. É coisa rápida. E aí? Vai querer comer ou não?
-OK. Me dá a sopa.
-Antonio, como você sabe que eu fiz sopa?
-Oi?
-Eu não te disse o que tinha cozinhado.
-Pelo cheiro- dissimula- E também porque você só sabe fazer lasanha, e isso você já fez ontem.
-Tá explicado.

/////

Exuberante como sempre, Dara não parece cansada nem mesmo depois de um extenso dia de trabalho. A Musa do Judiciário vai ao banco e é recebida na porta pelo gerente.
-Como vai, madame?
-Madame? Que é isso? Pra quê toda essa cerimônia?
-Como não sabe o porquê, Meritíssima? A senhorita é nossa maior cliente VIP.
-Aham. Vejo Impropérios Proferidos... Por você. Desde quando o gerente vai me atender na porta do banco?
-Nós estranhamos a sua ausência no dia que geralmente costuma vir.
-É que estive ocupada com um hóspede na minha casa... Ai, que hóspede... Enfim!
-Veio sacar o seu maravilhoso dinheiro?
-Fazer o de sempre, não é? Não sei qual é a surpresa.
-Hoje é diferente, Madame Dara. Aconselhamos que tenha trazido uma bolsa maior, se for mesmo retirar todo o depósito da sua conta.
-A Vara de Família me paga muito bem, mas não precisa dessa parafernalha toda. Os ladrões não vão me assaltar porque eu fiz aulas de defesa corporal... Claro, depois do pole dance, que está em alta na Inglaterra!
-Estão pagando maravilhosamente bem. E olhe que a senhorita não têm julgado casos notórios para ganhar um milhão de salário.
-Você bebeu?- Dara se mostra incrédula.
-Olhe, eu nunca pensei que a Vara de Família pagasse tão bem.
-E paga mesmo, até porque o último caso que julguei não era exatamente relacionado à família... Mas que história é essa de um milhão?
-Madame, a senhorita recebeu um depósito milionário na semana passada. E o dinheiro veio da conta de um empresário famoso: Felipe Almeida Coelho. Não o conhece?
-Conheço, sim. Estarei presente na hora da morte dele, porque eu vou esganar aquela porcaria de homem!
-Quer dizer que não vai retirar a quantia?
-Toda! Sem um centavo qualquer que falte. Esse dinheiro já tem destino certo, pode acreditar. Bem que o Collor poderia confiscar minha conta, pra eu não ter que tocar na grana daquele desgraçado...

/////

Acontece uma reunião na sala de Coelho, que conta com a presença do Dr. Wilson e de todos os executivos da Play Pause.
-O faturamento que a revista apresentou no último bimestre foi bastante favorável. Mas eu estive pensando: onde podemos encontrar mulheres que povoem o imaginário feminino nesse tão aclamado ano de 1990?
-Elenco de "Pantanal"!- respondem os demais executivos, entusiasmados.
-Eu acho que não é uma boa ideia, Dr. Coelho...
-Caro Wilson, você já deveria saber que é mero coadjuvante. Tudo que você me aconselha a fazer, eu faço o contrário mesmo... Liguem para os empresários da Rede Manchete!
-Dr. Coelho- uma secretária entra no recinto- Tem uma moça querendo falar com o senhor.
-Dona Assunta, eu já disse que detesto ser incomodado durante minhas reuniões!
-Mas nem por mim?- dentro de uma indefectível toga, Dara aparece à porta da sala.
-Abrirei uma exceção.
-Ai, obrigada- a juíza entra com uma bolsa e sua toga, que deixa à mostra a meia-calça que está usando. A presença da moça hipnotiza os empresários e o advogado.
-E... – Coelho solta um pigarro- A que devemos a honra da sua visita?
-Vim por uma questão financeira gravíssima. Sabe, eu preciso financiar o meu show.
-Você é cantora?-pergunta Wilson.
-Não. Sou apenas uma sex symbol em busca de dinheiro. Quem estaria disposto a me ajudar?- uma simples pergunta, dita num tom atrevido, e todos os homens tiram notas dos bolsos.
-Mas como será o seu show?
-Boa pergunta, Dr. Coelho!
E Dara sobe na enorme mesa retangular de madeira para balançar o esqueleto e a juba indomável.
-Morena cintura de mola, seu jeitinho me faz relaxar, esquecer dessa coisa faceira. Desse jeito, não sei que será. Felizmente, morena, você na lambada me faz delirar. Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- e a vocalista do Kaoma tem sua voz surgida não sei da onde.
-Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- o coral de tarados engrossa enquanto Dara puxa a gravata de Wilson e ele põe o dinheiro no decote da juíza. Após o depósito, a jovem volta ao centro da mesa.
-Com jeitinho, neguinha, me diz bem juntinho: "escorregando dá". De tantos desejos aflitos, sua pele lisa meu corpo roçar! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- Dara deixa cair metade da toga e continua a dançar.
-Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- Coelho é o mais empolgado da macharada e tenta tocar na pele da juíza, mas ela foge e se abaixa para que os demais coloquem suas notas no decote.

/////

Sozinho, Antonio está em frente ao espelho refletindo. Não, ele não está se refletindo, está refletindo... Bom, vocês me entenderam!
-Ela me disse que ia ao banco hoje. Será que ela sacou o dinheiro que o marido daquela maluca disse ter depositado? Não, minha Dara não ia fazer isso. Imagina, ela não deve nem ter chegado perto desse tal de Coelho.

/////

 -Preta, fala pra mim! Fala o que você sente por mim! Ioiô, ioioi! Preta, fala pra mim! Fala o que você sente por mim!- Beto Barbosa deve ser um dos executivos dessa sala, só pode. Mas mais estranho do que isso, só o fato de Dara dançar de lingerie, com a toga arremessada para um abajur, com a tal bolsa a tiracolo, com uma música chamada Preta (a juba loura de Dara é patrocinada pela Wellaton!).
-Será que vo... Será que você me quer? Será que você vai ser a minha mulher? Será que vo... Será que você me quer? Será que você vai ser a minha mulher?- Coelho tenta se aproximar novamente da bela, quase assinando o talão de cheques, enquanto a maluca do poder judiciário ganha as notas arrematadas nesse leilão visual-corporal!
-Preta, fala pra mim! Fala o que você sente por mim! Ioiô, ioioi! Diga o que será... Baracumbabumbebumbá!- a palavra incompreensível faz a juíza deslizar dançando lambada e descer para apanhar a toga, que põe no outro braço. Em seguida, usa seu belo dedinho indicador direito para chamar Coelho para perto da janela.
-Fala, meu bem. Diz uma coisa picante no meu ouvido.
Atendendo prontamente o pedido, Dara responde:
-Catchup vencido!
Podem acreditar: isso lhe fez sentir arrepios. Tipo o Cabeção da "Malhação", sabe?
-O que deseja de mim, Meritíssima?
-O que mais eu poderia querer de você, Felipe? Apenas isso daqui!

30/01/2016

MENTIRAS ESCANCARADAS/ CAPÍTULO V: 'CAUSE MY LOVE, MY LOVE, THERE'S SOMETHING I WANT YOU TO KNOW

-Caso, eles dois não estão tendo. Mas o Dr. Coelho está tentando comprá-la. Um milhão de cruzeiros por uma noite selvagem. E quando eu falo selvagem, não estou me referindo a um safári na África.
-Eu avisei! Eu disse pra aquele safado que se eu descobrisse mais uma escapada dele, eu ia me vingar!
-Dona Thaynara, por favor...
-Quando foi que você depositou o dinheiro na conta dela? Responde!
-Há três horas.
-E aquela miserável não se dignou nem a devolver o dinheiro? Na certa, vai ceder ao capricho dele.
-São sete horas da noite, ninguém vai a banco uma hora dessas!
-Não interessa! Eu quero que você me dê o endereço dessa biscate de toga agora mesmo.
-Vai cair uma chuva forte, deixe pra amanhã...
-Agora!
Acuado, o advogado anota o endereço de Dara.
-Pense bem no que vai fazer, Dona Thaynara!
-Barbarizar, meu bem! Eu vou barbarizar! Pensa que eu não sei que você tem até o endereço da pilantra porque Felipe pretende dar uma passada lá?
-Ouça o que eu estou lhe dizendo! A senhora vai enfrentar um temporal a troco de nada! E depois, o que garante que a juíza vai realmente aceitar a quantia de seu marido?
-Claro que não vai aceitar! E não vai porque se ela cogitar a possibilidade, eu dou na cara dela!
-Senhora!- mesmo com os apelos de Wilson e o céu nublado, Thaynara corre para o carro- A senhora não vai fazer nenhuma besteira, vai?
-Não!
-Se a senhora não vai fazer, por que está correndo?
-Sai, desgraça!
-Não quer conversar comigo?
Fora da casinha... Digo, fora de si, Thaynara fecha a porta do veículo e enfrenta o temporal que acaba de começar.

/////

Por uma dessas coincidências novelísticas, Dara chega a sua casa naquele momento, e enfrenta uma chuva torrencial. Ao tentar abrir a porta, o molho de chaves cai de sua mão e ela o procura. Subitamente, Antonio abre a porta com uma cópia e diz:
-Entra, Dara.
-Ai, obrigada... Mas como você sabia que eu tinha chegado?
-Pelo cheiro. Senti daqui de dentro.
-Cheiro de quê, homem?
-Não sei, mas mulheres normais não têm essa essência.
-Ainda bem que eu deixei a cópia contigo. Senão, eu ia ficar mais molhada do que... Atchim! Pronto, só faltava essa!
-Relaxa, eu vou fazer um chá pra você.
-Não, nem chegue perto dessa cozinha! Deixa que eu mesma faço.
-Nesse caso, eu vou forrar sua cama.
-Antonio, você precisa repousar. Não é pra ficar fazendo tanto esforço... Atchim!
-Por você, eu faço qualquer coisa.
-Mas eu quero que você fique à vontade, não é pra me servir.
-Dara, me deixa cuidar de você como você tem feito comigo esses dias. Isso não é nada.
-Tudo bem... Se você insiste... Só cuidado com a escada. Não tem quase cenário nenhum lá em cima, acho que ela só existe pra derrubar algum personagem... Atchim!
-Que não será o meu, porque eu sou muito perspicaz.
-Aham, Antonio, senta lá!

/////

O carro de Thaynara está a toda velocidade quando um urubu desgovernado bate no para-brisa e a coitada atola numa poça gigante ao lado do lixão da Muribeca. Muita viagem, não é? Tudo é pra não interromper o andamento da próxima cena, a mais esperada pelos espectadores dessa chanchada pueril (na verdade, só por Antonio).
Por diversas vezes, a jovem senhora tenta arrancar com o carro dali, mas tudo sai inútil. Nervosa, desce do automóvel e se atreve a ficar molhada apenas para dizer:
-Ai, que raiva! Ai, que ódio!
Calma, Thay. Prometemos que até o fim desse capítulo sua personagem terá alguma razão de existir.

/////

Enrolada num cobertor e de pijama, Dara está em sua cama, quando Antonio chega com o chá.
-E não é que eu fiz e esqueci que era pra tomar? Atchim! Mas também, eu tava doida pra tirar a roupa!
-Eu imagino!- diz Antonio, com um sorriso discretamente maroto. Dara pega a xícara.
-Obrigada.
-Sabe que eu fiquei com saudade de você?
-De mim?
-É. Eu sei que você trabalha, mas esse lugar é muito estranho sem você- o engenheiro se aproxima da cama e senta ao lado da juíza.
-Bom, amanhã é final de semana, a gente podia aproveitar pra passear, não é?
-Quem sabe a gente pega um cinema? Vamos assistir ao "Total Recall"!- empolga-se.
-Antonio, não dá pra te levar ao cinema assim.
-Ah, é.
-Mas a gente pode ir pro parque dar uma volta.
-Duvido muito que essa chuva não se estenda até amanhã... Dara, eu posso confessar uma coisa?
-Claro, Antonio, fala- responde a juíza, concentrada no chá.
-Sabe, eu nunca senti isso por ninguém, mas com você, eu... Eu fico até suando frio!
-Antonio, demente! Tem uma goteira em cima da sua cabeça!- a loura levanta e tenta enxugá-lo com um lençol- Caramba, você tá todo molhado!
-Você também.
Um raio atinge os fios elétricos do poste que fica situado em frente à janela do quarto de Dara, acabando com a energia... Que as hidrelétricas enviam para a vizinhança, porque se depender de certas pessoas... Digo isso porque Dara grita com o estrondo e abraça Antonio, ofegante.
-O que foi isso?
-Eu não sei, mas acabou a luz!
-Dara...
-O que é, Antonio?
-Sua respiração...
-Que é que tem?
-Tá diferente, não sei.
-É que... Foi o susto.
-Só isso? Foi só o susto mesmo?
-Nunca tinha chegado tão perto de você como agora.
-Pode chegar mais vezes, se quiser. Aliás, é tudo que eu mais quero na vida.
-Lady, I'm your knight in shining armor and I love you.
-Quem está aí?
-Relaxa, Dara. É só Lionel Richie cantando pra dar o clima romântico da cena.
-You have made me what I am, and I am yours.
-Nunca ouvi essa música.
-Já esqueceu que estamos em 90? Ninguém nunca ouviu.
-My love, there's so many ways I want to say, I love you.
-O autor dessa novela poderia ter colocado uma música propícia pro momento.
-Só tinha "A Roda" da Sarajane no toca-fitas.
-Let me hold you in my arms forever more.
-A gente tá perdendo tempo, Antonio.
-Com você, não existe tempo perdido.
-Que diálogo clichê, menino!
-Você tem a chance de calar minha boca. Aproveita!
Enquanto Lionel Richie está se esgoelando ao fundo do quarto cantando uma música que nasceria em 1998 (na verdade, um cover que contratei e assistiu a tudo por causa do cachê), Dara e Antonio estão debaixo da goteira aos beijos. Em dada hora, a musa do judiciário asfixia o rapaz com sua juba maravilhosa e beija o pescoço do engenheiro.
-Lady, your love's the only love I need and beside me is where I want you to be. 'Cause my love, my love, there's something I want you to know! You're the love of my life, of my life; you're my lady. You're my lady...
E a única coisa que a gente enxerga naquele mar de cabelo são os olhos de Antonio se revirando.

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Lavada a alma dos espectadores, vamos para o drama do dia seguinte. Com os fios ainda armados como uma medusa, Dara volta ao quarto carregando uma bandeja de café da manhã. Coloca-a ao lado de Antonio, que ainda está dormindo.
-Ah, esqueci de pegar o jornal- calça um par de pantufas e, envolvida num belo pijama azul de seda azul, com detalhes que cobrem o tecido azul... Eu já disse "azul"? Desculpem, não raciocino com essa moça na minha frente. Enfim, ela vai apanhar o jornal. Abre a porta e encontra Thaynara suja de lama, com o carro quase desabando.
-Quero falar com Dara Lira. Cadê ela?
-Sou eu mesma. Quem é você?
-Você é a juíza? Definitivamente, não sou páreo!
-Pronto, agora até elogio de mulher... Você é a entregadora de jornal?
-Sabe o que eu vim te entregar? Isso, desgraçada!- Thaynara agride Dara com uma bofetada que, em câmera lenta, fez voar vinte e seis dos cento e quarenta mil duzentos e oitenta e nove fios da juba!

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Brigas aumentam a audiência, mas vamos para uma cena paralela. Antonio se espreguiça e derruba a bandeja no lençol. O susto foi tamanho que o jovem acordou.
-Caramba! Derrubei o leite... Leite?- esfrega os olhos e percebe a sujeira que causou- Eu tô vendo! Eu tô enxergando! Não acredito!
Antonio fica em pé (sobre a cama) e desce um globo do teto. Sem pensar duas vezes, ele tira óculos da cueca (VOCÊ ACHOU MESMO QUE NOVELAS DE CLASSIFICAÇÃO LIVRE VÃO COLOCAR GENTE PELADA SÓ PORQUE ESTAVAM FAZENDO INADEQUAÇÕES?), põe na cara e começa a dançar...
- Once I had a love and it was a gas; soon turned out, I had a heart of glass. Seemed like the real thing, only to find mucho mistrust, love's gone behind.
-Preciso contar pra Dara!
Sim, precisa contar que dançou uma música nada condizente com a época de ambientação da novela. Pelo menos a cena não foi em 2007, onde dançaria "Heart of glass" de sunga branca e brigaria bêbado em cadeia nacional!

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-Como é que você tem coragem de vir até a minha casa e bater na minha cara, sua desequilibrada?
-Coragem não me falta! Pelo visto pra você também não, já que soube se atirar pra cima do meu Felipe!
-Tem a nota fiscal? Pagou imposto por ele? E de que Felipe está falando?
-Felipe Almeida Coelho, o dono da revista Play Pause, e que por acaso é meu marido.
-Por acaso, e não por bom gosto! O que aquele calhorda falou de mim, posso saber?
-Não seja cínica! Eu já descobri que você já virou a cabeça dele, e agora ele não para de pensar em você!
-Escuta, o seu marido fez estágio com a menina do "Exorcista", vira a cabeça pra qualquer mulher! Porque é um safado!
-Mas nunca fez por outra o que fez por você!
-Vai me dizer que aquelas cantadas de botequim que ele me deu foram elaboradas por um congressista?
-Para de se fazer de sonsa!
-Meça suas palavras, parceira!
-Eu não sou nada sua!
-Do seu marido, eu sou menos ainda! E eu não sei do que estou sendo acusada, pra começar!
-Dara, não se faz de besta, que eu parto sua cara!
-Querida, quem tem medo de mulher é homem sem-vergonha! Se você me ameaçar de novo, eu não só vou desviar teu septo nasal, como também quebrar esses óculos de professora de primário!
-Deixa meus óculos e meu marido em paz!
-Querida, seu marido não me serve nem pra pano de chão, tá legal?
-Mas o dinheiro dele cala muito bem esse nojo que você diz sentir por ele, não é?
-Do que é que você está falando, sua débil mental?- enquanto grita pausadamente, Dara não vê Antonio descendo às escadas para ouvir parte da conversa.
-Da quantia de um milhão de cruzeiros que você aceitou pra dormir com o meu homem! Agora nega na minha cara, Dara! Nega que o Felipe te deu esse dinheiro, que ele está na sua conta! Nega agora!