15/09/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 15


-O que foi? Não gostou?
-Não, amor, é que... Tu me pegaste de surpresa, foi só isto.
-Queres que eu retire o que eu disse?
-Não!
-Estou brincando, meu amor.
-Desculpa-me, Valente, é que eu não esperava por este pedido.
-Achaste que eu nunca fosse fazê-lo?
-Preferi nunca tocar no assunto. Achei que tu querias esperar mais.
-Até a tarde de hoje, era esta a minha opinião.
-E o que te fez mudar de opinião?
-Estive conversando com o Pastor e a irmã Nete durante um almoço no Recifeeling. Pensei que o meu trabalho fosse algo provisório, que havia arriscado na sorte, mas a recepção do Hélio e do público foi muito boa para comigo. Até comentei que tens planos de abrir a tua confecção e deixar a loja na qual trabalhas.
-Resta saber quando isto se dará.
-Por isso que eu pensei melhor esta tarde. A minha situação, pelo menos, é um pouco mais confortável que a tua. Por enquanto, podemos morar aqui mesmo, e depois, eu junto as minhas economias e nós compramos a nossa própria casa.
-Ficas ainda mais lindo falando desta forma sobre nós dois, os planos que traças... – Cissa enxuga as lágrimas- Toda a minha vida será pouco para dizer o quanto eu te amo, insuficiente para que eu te ame.
-Cissa, nós... Temos uma vida pela frente, devemos pensar nos passos que queremos dar. Será realmente que tu me amas a ponto de querer unir-se a mim?
-Não te subestimes, Valente. Tu não fazes ideia do valor que tens. Eu não tenho o que pensar nem esperar. Escolher-te foi a melhor coisa que eu fiz em toda a minha vida. Amo-te.
O casal se beija apaixonadamente e Tato sai de um dos aposentos do apartamento para vir até a sala de estar, surpreendendo Cissa.
-Cissa, eu quero apresentar-te o Otávio. Tato, esta é a Clarissa, minha namorada.
-Namorada até poucos instantes, porque a minha resposta é “sim”. Aceito casar-me contigo- abraça o agora noivo- E de onde vocês se conhecem?
-Da rua.
-Como assim? És um menino de rua? Mas estás tão bem vestido!
-Valente, desculpa-me o incômodo, mas é que eu preciso ir ao banheiro. Onde é que fica?
-Segunda porta, à esquerda.
-Obrigado, e... Muito prazer, Clarissa.
-O prazer é todo meu- assim que Tato sai da sala, volta-se para o saxofonista com uma feição de seriedade- Como assim “o conheces da rua”?
-O gajo foi atropelado por uma moto mais cedo, eu o trouxe até aqui.
-Não seria o caso de levá-lo ao hospital?
-Já havia pensado nisso, mas ele não sofreu fraturas nem ferimentos.
-Uhum. E por que ainda está aqui? Por que não foi para casa?
-Que tom é esse, Cissa?
-Amor, convenhamos que colocar um desconhecido dentro de casa é um bom motivo para preocupações.
-Eu não poderia mandá-lo para casa, ele nem mesmo quer voltar... Problemas de família.
-Não creio que estejas habilitado para saná-los.
-Clarissa, a situação do Tato é muito grave.
-Tato? Ficaste tão amiguinho que já puseste o nome do rapaz no diminutivo?
-Todo mundo o chama assim...
-Todo mundo quem? Fala-me! O que tu sabes da vida desse aí é o mesmo que sei eu: absolutamente nada.
-Ele teve uma briga com o pai e foi expulso de casa somente com a roupa do corpo, até agressão física aconteceu.
-Prova cabal de que ele deve ter feito algo de muito grave para acabar com a paciência desse pai.
-Vamos parar de julgar, por favor? Este papel não é algo que nos caiba.
-Nem a você portar-se como um bom samaritano.
-Qual é o mal nisto? Não somos nós que servimos ao Bom Samaritano?
-Sermão agora não, Valente! Entendeste bem o que eu quis dizer. Se ele não quiser ir à casa do pai, OK, deve haver outro parente para recebê-lo. Basta ir para lá.
-Irá amanhã.
-Como é?
-Amanhã ele vai embora para a casa do tio, à noite. Contou-me que o tio trabalha o dia inteiro e só volta para a casa à noite, às vezes até dorme no trabalho...
-Significa que ele dormirá aqui?
-Significa- Valente já demonstra inconformismo com a atitude da noiva.
-Valente, raciocines. Há um homem que tu nunca viste e que vai dormir no teu apartamento...
-Se o teu medo é de que ele me roube, não acontecerá nada disto. O Tato não é um bandido.
-Pela fé, Valente! É muito perigoso dar guarida a um sujeito desses! E se for ele um fugitivo da polícia?
-Tua imaginação galopante já está a deixar-me um tanto preocupado. Não vai acontecer nada comigo, nem com a minha casa.
-Que garantias tu me dás?
-Quem garante é Deus. Eu apenas sigo o ensinamento de ajudar as pessoas.
-Tomara, então, que eu esteja enganada.
-Mas voltando ao assunto do nosso casamento...
-Hum, a pauta voltou a ficar interessante.
-Eu queria sacramentar o passo que vamos dar. E por isso, não quero ficar apenas no campo das palavras que só nós trocamos. Vou ao ato.
-Valente!- a mente sedenta por intimidade física pensa mais uma vez que o músico convidá-la-á para um momento íntimo.
-Por essas e outras que eu quero que amanhã, à noite, o seu irmão esteja aqui para dar-me a tua mão.
-Ah, claro, o Michel... – Cissa fala baixo, entredentes- Tudo bem. Amanhã, a que horas?
-Às sete.
-Só não podes demorar muito com ele, sabes que ele toca na noite.
-Sem problemas. Convidarei o pastor e a esposa, a Madre Joana e o meu chefe, é claro.
-Obrigada por esta alegria que estás me dando, meu amor- beija-lhe novamente- Vou para casa escolher o modelo de amanhã... Que griffe eu devo vestir?
-“Recatada e do lar”, pois bela tu já és.
-Então, nos vemos amanhã. Mal posso esperar.
-Fiques com Deus.
-Você também, meu varão valoroso.
Ao ver que Cissa fechou a porta, Tato sai do banheiro.
-Eu não costumo enganar-me com as pessoas.
-A que te referes, Tato?
-Ela não gostou muito de mim, não.
-Não te preocupes com isto, é apenas o jeito da Cissa. A propósito, eu quero convidar-te para um compromisso amanhã à noite.
-Do que se trata?
-Meu noivado. Será aqui mesmo, em casa. Pedirei a mão da minha namorada ao irmão.
-O certo não seria pedir aos pais da tua namorada?
-Cissa só tem mesmo o irmão mais velho de parente. O pai morreu quando eles eram crianças e a mãe resolveu viajar pelo mundo. Sabes aquele tipo de família que não é apegada aos parentes?
-Queria muito saber... Engraçado, esta história que tu me contaste lembra muito a do... Esqueças.
-Fales.
-Não, não vale a pena. Acho melhor eu dormir.
-Boa noite, então.
-Obrigado pelo que tens feito por mim. Nunca vou conseguir retribuir.
-Se Deus der paz ao teu coração, eu já me sentirei recompensado o suficiente.
-Tomara. Boa noite.
Assim que Tato entra num dos quartos, Valente tira o celular do bolso e faz uma ligação para Hélio, que está no Recifeeling.
-Alô?
-Valente? O que houve para me ligares? Não estarias na igreja esta noite?
-Pois é, eu já voltei de lá. Daí, vim para casa e tive uma conversa com a Cissa.
-Aconteceu algum problema?
-Muito pelo contrário. Eu pedi a Cissa em casamento.
-Que boa notícia, gajo. Fico feliz por ti e por ela também.
-Queria convidar-te para que tu venhas aqui amanhã à noite, pouco antes de começar a minha apresentação no restaurante. Oficialmente, pedirei a mão de Cissa ao seu irmão.
-Pode ser... Pode ser que eu compareça.
-Alguma coisa errada? Estou a achar-te tão distante...
-Problemas de família. Lembra-se de uma vez, logo no dia em que começaste a trabalhar aqui, que apresentei-te o meu irmão e a minha cunhada?
-Claro. Como esqueceria? Acho que desde então eles não voltaram mais juntos ao Recifeeling.  Às vezes, tua cunhada almoça lá e tu conversas com ela, porque o marido é bastante ocupado...
-Exatamente, Valente. Ele teve uma briga terrível com o filho e estamos tentando fazer com que ele faça as pazes com o garoto.
-Nossa, que pena. Se tu não puderes vir amanhã, eu vou entender.
-Prometo que farei o possível, mas faço questão de comparecer. A Cissa veio visitar-te algumas vezes no restaurante, e me pareceu ser uma boa moça. E se quiseres, posso ajudar no menu da noite também.
-Não, não é necessário. Será uma coisa mais intimista, e rápida também. O irmão da Cissa trabalha à noite, e nós dois temos que trabalhar também. Mas queria muito que tu fosses, sabes o quanto és importante para mim. Não vou esquecer-me do dia em que me estendeste a mão.
-Por favor, Valente, a tua vida já mudou, não precisas ficar remoendo esta suposta dívida de gratidão comigo. Se nós dois somos bons colegas de trabalho é porque um faz questão de contar com o outro. Ou tu achas que não me ajudaste quando estávamos em tempos difíceis? Sejamos sinceros: parte dos clientes do Recifeeling vem para te ver.
-Mas foste o primeiro a confiar em mim.
-A que horas será o pedido de casamento?
-Às dezenove horas, no meu apartamento.
-Vamos fazer o seguinte: amanhã eu não vou ao restaurante porque tentarei ver o que consigo resolver da situação do meu irmão, Kleber. Mas à noite eu vou à tua casa, para dar um abraço em tua noiva, e daí eu dou-te uma carona.
-Tudo bem. Amanhã nos veremos, então. A paz do Senhor.
-Amém, Valente. Obrigado pelo convite- Hélio desliga o celular. Alessandra sai do balcão e vai conversar com o patrão- É engraçado. Mesmo eu não sendo protestante, ele faz questão de cumprimentar-me com a paz de Jesus.
-Foi somente isso que te fez sorrir? Porque, pelo que contaste a mim, teu dia foi turbulento...
-O nosso saxofonista vai casar, Alessandra!
-Não acredito. Que bom para o Valente. Mas eu pensei que ele fosse esperar mais.
-Também fui pego de surpresa, mas ele tem maturidade nas decisões que toma.
-E quando vai ser o noivado?
-Amanhã, no apartamento em que ele mora, à noite.
-Espera, mas amanhã não vais até a polícia dar queixa do desaparecimento do teu sobrinho?
-Terei que me desdobrar, não é, Alessandra? Mas darei esta força ao Valente, ele merece.
-Fico imaginando a agonia da Dora em não saber notícias do Tato.
-Tudo aconteceu tão de repente que é até impossível de acreditar. Mas se Deus quiser, e Ele há de querer, amanhã nós descobriremos onde o Tato está... Quer dizer, eu vou descobrir, porque a depender do Kleber, o filho não passa a pão e água. Está possesso com o que descobriu sobre ele.
Envolvido no segredo que Tato tanto escondeu- o que era pertinente ao seu gosto- Michel recebe a notícia do noivado da irmã com euforia.
-Até que enfim aquele homem mexeu-se! Parabéns, Cissa!- abraça-lhe.
-Ainda estou sem acreditar, de tão feliz que me sinto.
-Já não era sem tempo. Pensei até que ele desistiria.
-Viras esta boca para lá.
-Desculpa-me, irmã, mas é que teremos de concordar que Valente e tu são como óleo e água.
-Mas as nossas diferenças estão mui próximas de serem sanadas.
-Garota, não vás com tanta sede ao pote. Tu conheces melhor o teu noivo do que eu.
-Juro, Michel: quando ele disse que ia ao ato, quase fui ao chão. O ato era te chamar para que tu concedesses a minha mão a ele.
-Acho que não vou poder comparecer a esse noivado intimista, Clarissa.
-Como assim? Por que não?
-Porque o Valente quer que eu dê a tua mão, e tu queres entregar teu corpo todo.
-Tu não prestas mesmo, hein?- a vendedora ri.
-Tudo bem, eu faço o número da família feliz.
-Não é um número, Michel. É a minha vida.
-Quando tu dirás ao Valente que este papel de mulher prendada foi construído apenas para agradá-lo?
-Isto nem de longe é um erro.
-Pode ser que não seja, Cissa, mas tu frequentas a igreja apenas para que ele se agrade de ti.
-Michel, quando eu passei a namorar o Valente, eu quis uma nova história para a minha vida.
-Disto eu sei. Mas em vez de amar ao Deus a quem tanto se refere, amas ao teu namorado. E vês neste casamento a oportunidade perfeita para refrear teu verdadeiro instinto.
-OK, tu queres a verdade? Vou te dar. Tens ideia do que é conviver com um homem atraente, inteligente e não poder tocá-lo?
-Muito fácil de explicar este "fenômeno particular": ele é crente e não é o Ricardo, que te fez gostar de sexo.
-Por isto mesmo. O que eu vivi com o Ricardo foi uma verdadeira dependência, como se fosse uma droga, entendes? Nem mesmo quando eu soube da sua infidelidade, eu conseguia parar. Sabes o que cheguei a sugerir certa vez? Que ele fizesse comigo exatamente o que fazia com a outra, que na cama tratasse-me pela amante.
-Quanta humilhação, Clarissa...
-Assim que o Valente apareceu na minha vida, eu vi que ele era o tipo que precisava para me completar, porque era exatamente o oposto de mim. É bem verdade que só de ver aquele homem respirando versículo dava-me agonia, mas entendi que se eu não me cercasse de alguém tão diferente do meu instinto, continuaria subjugada ao Ricardo.
-O que me enche de dúvidas é o seguinte: Valente conseguiu completar-te?
A pergunta gera um silêncio ensurdecedor na sala de estar dos Irmãos Marques Barboza.
-Tu vais ao meu noivado, conceder a minha mão, ou não?
-Claro que vou. Sou teu irmão, não teu inimigo.
-Estás bem, então. Esperamos-te na casa do meu noivo amanhã, às sete. Boa noite- irritada, Cissa vai ao quarto, deixando Michel sozinho depois de uma atribulada manhã. Outro protagonista do período matutino exaltado do DJ, Tato acorda no dia seguinte e resolve arrumar o apartamento de Valente, que a esta altura foi ao Lar do Menino Tobias para convidar Joana à ligeira confraternização, passando depois pela Igreja Comportas do Céu e deixando Fabiano e Nete felizes com a notícia do noivado. Enfim, foi ao Recifeeling para um ensaio, quando Hélio buscou inutilmente por notícias do sobrinho numa delegacia. Em duas ocasiões daquele dia, o filho de Dora e Kleber usa o telefone fixo do apartamento para localizar o seu tio, mas a bateria dele descarregou no dia anterior.
Voltando para casa com algumas garrafas de refrigerante, o saxofonista encontra a residência depois da faxina promovida pelo novo amigo. Tato pede desculpas pela invasão aos utensílios, mas Valente agradece pelo favor, uma forma de retribuir o abrigo dado pelo músico no dia anterior.
-E com que roupa tu vais, Tato?
-Para que lugar?
-Ao meu pedido de casamento para o irmão da minha Cissa.
-Acho melhor não comparecer, Valente.
-Qual é o problema?
-Não conheço ninguém além de ti e da própria Cissa...
-Só precisa mesmo conhecer os noivos, e esse requisito tu já preencheste com louvor. Venhas comigo- o jovem leva o expulso ao seu guarda-roupa, onde estão os ternos que usa quando toca na igreja- Acho que temos um corpo parecido, qualquer um desses caberá em ti. Escolhas.
-Valente, não precisas ficar preocupado comigo. Eu vou com esta roupa mesmo, tomei banho e ela não está nem com odor...
-Nem penses nisso. Convidei amigos para dividir comigo este momento tão especial. Não vais ficar de fora. O meu patrão vai me dar uma carona até onde eu trabalho, daí tu dizes se fica perto da casa do teu tio e vais conosco.
-Juro que não precisas incomodar-te com isto, verdade. Bom, já que insiste tu, eu vou escolher um dos ternos e tomar um banho. Mas, como faltam cinco minutos para as sete, terei que me trocar no banheiro. Não vou passar seminu na frente dos convidados.
-Muito bem, gajo.
-Pode ser este?- escolhe o terno cinza.
-E leves esta camisa aqui- Valente separa uma veste branca.
-Tu és mesmo um anjo da guarda.
-Passo bem longe disto, rapaz. Agora, vais para o banheiro.
A campainha toca, Tato corre até o banheiro com o terno e a camisa e Valente atende à porta: a primeira a comparecer ao noivado é Joana.
-Querido, como estás tu?
-Melhor agora, que a senhora chegou. Entres, por favor.
Ainda com a porta aberta, Beatriz vê a entrada da madre e aproveita para entrar no apartamento.
-Espero não estar muito atrasada, Valente.
-Imagines, Beatriz. Falta pouco para as sete, mas foste pontual.
-O que a gente não faz pela melhor amiga? Até adiantar o horário do celular para não perder a hora do noivado do século.
-Falando nisso, eu tinha entendido que tu virias com a Cissa e o Michel.
-E vim, mas ela tentou estacionar o carro lá embaixo. Daqui a pouco sobe com o teu futuro cunhado.
-Tua irmã não veio contigo?
-Queria muito ter vindo, mas a Olívia resolveu fazer uma pós-graduação no exterior.
-Nossa, que ótimo, eu fico muito feliz por ela. Sempre foi uma aluna bastante esforçada.
-Sei bem, gajo, convivo com a mulher há um quarto de século! Um dos professores da universidade selecionou uma lista de ótimas instituições e pediu que ela o encontrasse no campus para ver se ela se decide e faz logo as provas de qualificação e classificação.
-A paz do Senhor, amado- o casal Nete e Fabiano entra no apartamento do saxofonista.
-Amém. Sejam muito bem-vindos, fiquem à vontade.
-De um lado, uma freira. Do outros, dois evangélicos... Parece que eu morri e se esqueceram de enterrar-me!- pensa Beatriz, desconfortável.
-Chegamos, meu varão valoroso- brada Cissa, empolgada com a noite, e acompanhada de Michel.
-Vamos sacramentar logo isto de uma vez.
-Michel, tenhas modos!
-Estou a brincar, minha irmã. Cissa sempre levou tudo a ferro e fogo.
-Como vai, Michel?
-Lamentando que não tens passado lá em casa ultimamente para conversar com o irmão da tua futura esposa.
-Passei ontem pela manhã, Michel, mas ainda estavas na boate tocando.
-Boate? Este está no aeroporto tirando passaporte para ir direto ao inferno...
-Contenha-se, Nete, estamos em público- adverte Fabiano, sentado ao lado de Joana- Como vai, Madre?
-Muito bem, Pastor. A paz do Senhor- Joana surpreende o casal com a saudação.
-Agora ela vai utilizar a minha frase também?
-Nete, por favor!
-Querem beber alguma coisa?- pergunta Valente.
-Vodca!- Beatriz choca os presentes- Mas, na falta de algo alcoólico, aceito este refrigerante que está sobre a mesa, desde que ponhas bastante gelo- Beatriz olha ao redor e vê os convidados surpresos com a provocação- Gente, foi só uma brincadeira para a descontração do ambiente; todo mundo sabe que Valente não bebe refrigerante por medo de que o rótulo tenha alguma mensagem subliminar.
-Podem mudar o nome desta moça para “Bateria”, porque ela está “carregada”!- alfineta Nete.
-Vou servi-los, então- Valente encerra o desconforto.
-Amor, não está faltando chegar mais pessoas?
-O Hélio contou que talvez possa atrasar-se- Valente explica enquanto serve os copos, auxiliados por Joana- E o meu amigo, Otávio, está no banheiro, trocando de roupa para juntar-se a nós.
-Otávio?- o nome assusta Michel- Que amigo é este, Valente?
-Uma longa história, Michel, depois eu te conto tudo- Cissa vai servindo aos presentes.
-Filho, deixa que eu sirvo os copos, e tu dizes o que tens para falar.
-Obrigado, Madre. Bem, eu convoquei essa pequena reunião entre pessoas tão queridas para compartilhar uma decisão que eu tomei. Há quatro anos, eu conheci essa mulher tão especial e tive a oportunidade de me apaixonar diariamente por ela. Clarissa, a minha Cissa... Se eu tivesse a chance de dizer todas as palavras bonitas do mundo para dizer o que eu sinto por ela, o mundo ainda não seria suficiente. É por isso que eu chamei todos aqui nesta noite. Quem me conhece, sabe que eu de especial não tenho nada, mas com a Cissa do meu lado, eu experimento esta sensação.
-Ah, meu Pai, é agora- Cissa busca a contenção da fala.
-Michel, tu me concedes a mão de tua irmã a este simplório saxofonista, mas que tem um coração sincero para dividir com ela?
-Valente, eu nunca fui um homem que se pode chamar de convencional.
-Nota-se- Nete está mais afiada do que nunca! Felizmente, ela não foi ouvida.
-Antes mesmo que eu pensasse neste relacionamento de vocês como mera possibilidade, o coração de Clarissa já te pertencia. E a minha irmã é a pessoa que eu mais amo no mundo. Claro que eu concedo.
-Sendo assim... – Joana entrega os copos ao casal- Um brinde aos noivos.
-E que esta união seja mais do que abençoada- Fabiano toma a palavra.
-Viva aos noivos- os convidados da noite comemoram, quando Tato sai do banheiro e fica assustado com a presença de Michel.
-Venhas, Tato. Brindes conosco- Valente pede ao amigo.
-O que estás fazendo aqui, Michel?
-Eu é que te pergunto: o que fazes no noivado da minha irmã?
-Calma... De onde vocês se conhecem?- Cissa não compreende a reação do seu irmão, apavorado com a presença de Tato no apartamento.

08/09/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 14


O jovem músico corre para amparar o desconhecido.
-Está tudo bem contigo?
-Sim, não te preocupes- Tato sai do chão com a ajuda de Valente.
-Tens certeza? Não sofreste nenhum arranhão?
-Infelizmente, não- Tato chora.
-“Infelizmente”?
-Teria sido melhor se aquele maldito motociclista tivesse me matado de uma vez.
-Não estás nada bem...
-Fiques tranquilo, não sofri nenhuma escoriação.
-Melhor irmos ao pronto-socorro.
-Para quê? Ter de esperar por um médico para que ele diga o que sabemos?
-Podes ter quebrado alguma cousa.
-Quebrado eu já estava, e antes daquela moto aparecer... Desculpe, estou sendo ríspido demais contigo, que só queres ajudar-me.
-A minha casa é logo ali. Por que não entras?
-E vou fazer o quê lá?
-Telefones para alguém, peças para que venham buscar-te. Obviamente, precisas de ajuda.
-Não precisas preocupar-se comigo, gajo.
-Ouças-me. Ligues para alguém da tua família, que te conduza até a tua casa.
-Não tenho mais ninguém no mundo. Nem um lugar para morar.
Penalizado, Valente se identifica, por acreditar que Tato também seja um órfão, e sem-teto como ele já foi um dia.
-Venhas comigo. Eu vou dar-te um copo com água.
-Moço, não é necessário.
-Não é incômodo nenhum. Se não for para ajudar os outros, estamos fazendo o quê nesse mundo? Podes confiar, não tenhas medo.
Pedido aceito. Tato vai até o apartamento alugado por Valente, que cumpre a promessa de lhe trazer um copo d'água. E volta o filho expulso de sua casa a chorar.
-Tanto trabalho que eu estou dando...
-Tua preocupação não deve ser comigo, e sim consigo próprio. Estás mais calmo?
-Acho que sim.
-Para onde estavas indo? Eu posso chamar um táxi.
-Nem eu mesmo sei para onde eu ia. Estava completamente sem norte.
-Deve ter ocorrido algo bem grave...
-Meu pai, ele... Ele expulsou-me de casa.
-Sinto muito, não sei nem o que dizer.
-Sabes quando tu tens alguém como porto seguro, e esta mesma pessoa é responsável por tirar o teu chão? Foi o que ele me fez.
-A bem da verdade, eu não sei. Fui criado a maior parte da minha vida num orfanato. A sensação de ter um pai eu jamais vivi.
-Sorte a tua.
-Não digas isso. Vais ver que em breve os dois se reconciliarão.
-Talvez fosse melhor que não acontecesse. Ouvi tantos disparates, xingamentos que...
-E a tua mãe? Tu deves ter mãe...
-Minha mãe não é o tipo de mulher que tem voz ativa, sabe? Sempre estará subjugada ao marido, ainda que isto a coloque contra mim. Não quis ela livrar-se das amarras como eu fiz.
-Não tentou interceder por ti?
-Até quis, sabes? Mas foi a vontade dele que prevaleceu. E estou eu na rua.
-Penses que não será uma situação definitiva. Talvez algum outro parente queira te oferecer um teto para ficar.
-Ainda tenho um tio, irmão do meu pai- refere-se a Hélio, o patrão de Valente- Certamente ele tomou partido dele e não vai receber a mim. Melhor assim. Não terei que depender de ninguém ligado àquela casa.
-O que tu fizeste?- Hélio, que recebeu um telefonema de Dora para que deixasse o Recifeeling e viesse à residência da Família Lacerda Goulart, fica indignado com a posição adotada pelo irmão- Colocaste o Tato para fora de casa?
-Deveria mesmo era ter dado uma boa surra. A bofetada que eu desferi não foi o suficiente.
-E onde ele pode estar agora?
-Na zona!- grita- Lá é o lugar de gente tão desavergonhada quanto ele.
-Como tu pudeste fazer isto com o teu próprio filho?
-Otávio não é mais meu filho, Hélio! Não tenho mais filho nenhum!
-Não adianta, não adianta. Eu te chamei até aqui para ver se tu o convencias de procurar o Tato, mas ele é irredutível.
-E não pretendo mudar. Se eu fosse um pai complacente, Dora, o garoto teria passado a perna em nós há muito mais tempo.
-Vou trazer o Tato para a minha casa- adverte Hélio- Não vou deixar o garoto vagar cidade afora. Tinham que ter resolvido esta situação de outra maneira, Kleber!
-Outra opção eu dei a ele, Hélio: terminar o caso que tinha com o outro desgraçado. Se ele se recusou, a culpa não pode ser imputada a mim.
-Colocaste o garoto contra a parede, o que querias?
-Pares de chamá-lo de “garoto”! Teve ele que ser muito homem para dividir a cama durante quatro anos às escondidas!
-Vou ligar para ele e descobriu onde ele está.
-Não adianta, Hélio. A única coisa que ele levou foi a roupa do corpo. E foi bom ele ter deixado o celular aqui, sabes por quê? Porque eu tive acesso aos textos anteriores que ele havia trocado com o tal de Michel. Dá nojo só de ler e imaginar como eu pude ter sido tão idiota!
-Eu mesma vou procurar o meu filho, e trazê-lo de volta a esta casa, contra a sua vontade.
-Falou a mulher que pouco interveio na discussão que tive com o Otávio. Por que será, Isadora? Vais ver que é porque sabes que aquele lá estava errado o tempo todo. E é por eu ter esta certeza que eu determino que ele não volta mais.
-Tu, Kleber, não mandas em mim.
-Mas mando na minha casa! E vou dizer com todas as letras, até entenderes de uma vez por todas: enquanto vida eu tiver, o Otávio não pisa mais aqui!
-Quer dizer que teu pai te tirou de casa porque descobriu que tu gostavas de... Enfim.
-É, entendeste bem.
-E agora? O que vais fazer?
-Meu primeiro pensamento foi procurar a pessoa com a qual me envolvi, mas descobri que ela não vale um décimo do que eu imaginava- Tato olha um quadro com uma pintura de Jesus na parede do apartamento de Valente e abaixa a cabeça, supondo que o saxofonista é adepto do Cristianismo- Deves estar pensando que passo por isto porque procurei, não é?
-Antes de ver o teu defeito e apontar o meu dedo, eu preciso tirar a trave do meu olho e olhar as minhas muitas falhas. Eu só posso orar por ti, ainda que não entendas o porquê.
-Por que eu não entenderia uma oração? Porque sou “do mundo”, como vocês dizem?
-Deixar de compreender o sentido de uma oração é algo que pode atingir a qualquer um. Quando oramos por uma causa, queremos uma resposta imediata, e a bênção que esperamos atingir só chega num tempo que nós não fomos capazes de determinar.
-O que estás tentando me dizer?
-Que talvez tu estejas orando para que Deus seque suas lágrimas, e isto demore um poucochinho de tempo para ocorrer. O mais importante é saber que Ele não criou a humanidade para permanecer no eterno sofrimento.
-Sinceramente, eu não estava pedindo a Deus por isto. Aliás, eu nem estava pedindo nada. Só sei que lágrimas secas vêm bem a calhar nesta hora.
-Tens certeza de que não queres que eu procure alguém de tua família?
-Pouco adiantaria. Teria que lidar com as condenações, ou por ter escondido o que tinha com... Ou por ser bissexual.
-Se quiseres, eu falo com o dono do prédio e ele te aluga um apartamento.
-Como pagaria? Certamente a minha conta o meu pai mandou bloquear. Terei que me sustentar, só não faço a mais remota ideia de como.
-Assim sendo, fiques aqui.
-Na tua casa? Mas nos conhecemos hoje.
-Mas o Senhor te conhece há mais tempo.
-Não imaginei que este dia terminaria desta forma.
-Com um crente?
-É. Vamos colocar assim.
-Normal, não é? São duas pessoas que alegam se orgulhar daquilo que são. E eu não tenho cabeça, muito menos coração, para julgar os outros. Fiques por hoje, amanhã veremos o que fazer.
-Desculpa-me, eu nem disse como me chamo. Otávio, mas podes chamar-me de Tato.
-Prazer. Valente, mais conhecido como “varão valoroso”- arranca risos de Tato.
-Qual é o motivo do apelido?
-Não sei, só sei que falaram isto na igreja e ficou esta alcunha até hoje.
-Abençoada seja a pessoa que o criou. Não estava nem um pouco enganada sobre ti.
-Eu estive enganada com este Valente- declara Nete, já na igreja com o marido.
-Por que falas isto?
-Porque pensei que, com o tempo, ele fosse ficando mais empolgado com o relacionamento com a Cissa.
-Valente tem os dois pés no chão, não no mundo da lua.
-E aquela história de que quer esperar as coisas estabilizarem?
-Vai ver o próprio Valente pensa em algo melhor do que trabalhar naquele restaurante.
-Quem? O Valente? Faz-me rir, Fabiano. Ele já está naquele emprego há quatro anos; se pensasse em sair daquele lugar, já teria saído. Mas ama aquilo lá. Aposto que o saxofone dorme lá.
-O que o saxofone tem a ver com esta história?
-Lembras que uma vez sugerimos que ele deixasse o saxofone aqui dentro, com os demais instrumentos da igreja, e ele recusou-se?
-Ednete, até onde sabemos, o saxofone é de uso pessoal dele, e não da igreja. Além disso, é o instrumento de trabalho do gajo.
-Mas, mantendo-o aqui, matamos dois coelhos com uma única cajadada.
-Queres explicar-me como?
-Além de tornar o saxofone um dos instrumentos do templo em caráter oficial, ainda tiramos o emprego do rapaz.
-Ainda não entendi a vantagem que vês no desemprego do Valente.
-Salvação da alma! Fabiano, ele toca para uma plateia não-cristã. Isto é horrível.
-Ele não está importando-se com isto, Nete.
-Deveria!
-Meu amor, pares de procurar defeitos nos nossos amados irmãos.
-Fabiano, querido, os defeitos dos outros eu acho até sem acionar o GPS, de tão expostos que são eles.
-O que eu penso é que tudo tem o seu tempo determinado. Há casais que passam muito mais tempo namorando do que eles. Óbvio que ninguém começa uma relação pensando em separação, mas... E se não der certo? Ficaremos na história como incentivadores da falha alheia?
-Se não der certo, só será por causa dele. Porque, a depender da Clarissa, o relacionamento irá de vento em popa. Veja só como ela era acuada, e hoje é uma moça fortalecida.
-A verdade é que parte do caráter da Cissa foi moldada pela influência do Valente. Desde sempre, ele foi maduro e teve uma fé inabalável. E olhe que foi criado num lar católico.
-Vamos ver quem nos surpreenderá positivamente, se o Valente ou a Cissa.
-Positivamente, os dois se destacam, Nete. É o casal que, embora não haja perfeição humana, pode ser considerado perfeito.
-Veremos, Fabiano. Isto nós dois veremos.
Naquela noite, antes do culto começar, Cissa volta do trabalho como vendedora de uma loja de roupas e passa no apartamento do namorado. Cumprimenta-lhe com um beijo.
-Nossa, pareces tão animado. Aconteceu alguma cousa?
-Sim, eu queria falar mesmo contigo.
-O que foi, amor?
-Sabes, Cissa, eu estive maturando esta decisão há uns dias e depois de um almoço com o Pastor e a esposa, resolvi dar uma chance a mim mesmo.
-A que te referes, Valente?
-Bom, nós dois estamos juntos há quatro anos, sabemos de tudo um da vida do outro e... Creio eu que está na hora de dar um passo adiante na nossa relação. Um passo que só nós podemos dar.
-Passo adiante? Do que se trata? É daquilo que eu estou pensando?
-Claro que é. Há tempos que quero falar isto para você, e acho que esta noite é a ideal.
-A noite é ideal? Nossa... Fales, querido!
-Cissa, queres casar-se comigo?
-É isto, é?