13/11/2019

CONFISSÕES PROLIXAS DE UM EXÍGUO MESOCLÍTICO/ BLOCO DE CENAS 3


ERASMO: Você não sabe do que está falando.
IGOR: Se você prefere se iludir, o problema é seu. Mas eu tenho provas do que eu falo, e posso entregar à Milena se você não deixar a justiça indiciar o Alan.
ERASMO: Eu não vou trair meus ideais de honestidade por sua causa.
IGOR: Já os meus são bem simples: configuram apenas como eu vou me dar bem, sem me importar com ninguém. Eu, no seu lugar, ponderava. Melhor pensar duas vezes antes de querer me passar a perna, ou colocar um dos seus homens pra saber onde estou.
(fundo musical: “São Paulo sempre alerta”)
Igor abandona o ponto turístico e deixa Erasmo enfurecido com a sua atitude.
Alan volta para casa, falando com Flávio através de seu aparelho móvel.
ALAN: Que história é essa, Flávio? Cancelaram duas apresentações minhas?
FLÁVIO: Pois é, Alan. A repercussão do desaparecimento do Igor é enorme. Agora até parte do público começou a desconfiar que você tem algum envolvimento nisso. O Classic Hall e o Centro de Convenções desmarcaram os shows da semana que vem.
ALAN: Essa história vai acabar com a minha carreira. Se pelo menos a gente tivesse uma pista do paradeiro dele... O pior é que já tem mais de trinta dias que (Alan se cala diante de algo que somente ele vê)...
FLÁVIO: Trinta dias que o quê, Alan? O que foi? Tá sem ir ao banheiro? É só tomar um Activia, cara! Alan? Alan, você tá me ouvindo? Alan!
ALAN: Acabei de descobrir onde o Igor se escondeu...
FLÁVIO: Sério? Então, segura ele onde estiver, senão ele vai fugir.
ALAN: O Igor não vai fugir.
FLÁVIO: Como não vai? Por que tem tanta certeza?
ALAN: (com voz embargada) Ele preparar-se-á para andar pelo além dentro de um ônibus circular.
(fundo musical: “Vai”)
Igor é visto com seus olhos fechados, boiando na piscina da casa de Alan.
(fundo musical: “Loiras geladas (DJ Julinho Mazzei, DJ Ippocratis (Grego)Bournellis e DJ Iraí Campos Remix)”)
O elenco do filme aparece segurando placas policiais de identificação, cujos nomes são escritos com a fonte Bahnschrift e a cor amarela.
THIAGO BARROS como ALAN
GUILHERME ALVES como ERASMO
ANTONIO NIPO como FLÁVIO
VITOR ALBUQUERQUE como IGOR
POLLYANNA SANTA CRUZ como ROBERTA
THAÍS CARNEIRO como LAÍS
Ao fim da vinheta, vê-se duas mãos segurando uma sétima placa com o título da obra, “CONFISSÕES PROLIXAS DE UM EXÍGUO MESOCLÍTICO”.
No hospital, Alan está sentado em uma cadeira, abalado com o que presenciou em sua casa. Flávio aparece e oferece um copo d’água ao amigo e cliente.
FLÁVIO: Bebe, vai te fazer bem.
ALAN: Obrigado (bebe o conteúdo do copo). O que foi que você botou nessa água?
FLÁVIO: Um sossega-leão. Depois do que você viu, tá precisando.
ALAN: Como é que aquele cara foi parar na piscina da minha casa, Flávio?
ERASMO: Isso é o que eu gostaria de saber também.
FLÁVIO: O senhor falou com o médico?
ALAN: Como está o Igor?
ERASMO: Continua inconsciente, mas o quadro ainda é crítico. O médico disse que ele foi vítima de um afogamento acidental.
ALAN: Afogamento? Mas se ele não sabe nadar, o que estava fazendo na minha piscina?
ERASMO: Ainda não dá pra saber, Alan.
ALAN: Meu nome é Alan...
ERASMO: Tanto faz. Mas é muito estranho ele ter aparecido justamente lá. Você não o viu entrar?
ALAN: Claro que não. Ele já estava desacordado na piscina quando eu entrei. Achei até que tivesse empacotado. Não sabia se chamava o IML ou os Correios pra botar um selo.
ERASMO: Alguém tem as chaves da casa além de você?
FLÁVIO: Eu, Delegado. Mas eu não entrei na casa do Alan. O que eu ia fazer lá?
ERASMO: Pra ter a chave, alguma coisa havia a ser feita.
ALAN: Flávio, como o senhor sabe, é meu empresário. Normal que ele tenha que ir até lá para buscar papeladas, revisar contrato, alertar-me de golpes e pirâmides financeiras, ajudar-me a bloquear comentários ofensivos no Instagram...
ERASMO: Bom, um dos dois facilitou a entrada do Igor na casa; isso é certo. Resta saber quem.
FLÁVIO: Por que eu ia deixar o Igor ir à casa do Alan? O senhor sabe que eles não se dão bem.
ERASMO: Mas, uma vez que você também possui livre-acesso à residência do Alan...
ALAN: Alan!
ERASMO: Que seja... Talvez não tenha sido o Sr. Godoy a quem Igor tenha procurado.
FLÁVIO: Que tipo de relação o senhor acha que eu possuo com o Igor?
ERASMO: O rapaz não era necessariamente estranho pra você.
FLÁVIO: O que não significa que eu seja amigo dele.
ERASMO: Não significando também que não houvesse interesses em comum.
FLÁVIO: Aonde o senhor quer chegar?
ERASMO: À faculdade. Os dois não estudam no mesmo lugar?
ALAN: Olha, a gente não tem cabeça pra isso, entendeu? Será que não dá pra fazer suas perguntas em outra hora?
ERASMO: Infelizmente, eu não precisarei indagar mais sobre isso. O advogado entrou com um recurso que te obriga a falar em juízo. Só que eu soube de fonte segura que não vai demorar pra marcar a data do julgamento. Antes você era suspeito de sumir com o Igor. Agora você é suspeito da tentativa de assassinato dele. O que qualquer pessoa pensaria se te investigasse, como eu estou fazendo?
ALAN: (aproxima-se do delegado) Pouco me importa o que o senhor está pensando a meu respeito, Delegado.
FLÁVIO: Vamos embora daqui, Alan; não vai bater boca com ele e ser preso por desacato.
ALAN: Ainda não! Eu não faço ideia de como provar a minha inocência, mas convencer-te-ei, assim como a todos do júri, de que não existe dedo meu nessa história. Seja o Igor, seja quem for que tenha tentado eliminar-lhe, eu sairei inocentado do tribunal. Somente quando isso acontecer, Delegado... Aí, sim, o senhor vai ficar como eu estou agora: acuado, desesperado, se vendo num beco sem saída diante das acusações que me faz. Nesse dia, será o senhor que não vai querer estar no meu lugar.
(fundo musical: “Triste”)
Flávio e Alan abandonam o corredor do hospital, deixando Erasmo irritado.
ERASMO: (pensa) A perícia vai indicar o que aconteceu com o Igor naquela casa. E eu vou descobrir a verdade, mesmo que ela envolva vocês ou não.

12/11/2019

CONFISSÕES PROLIXAS DE UM EXÍGUO MESOCLÍTICO/ BLOCO DE CENAS 2


Na delegacia, Flávio e Alan conversam sobre o desaparecimento de Igor com Erasmo.
ERASMO: Onde esteve na noite de 20 de dezembro?
ALAN: Jantando um espetinho no “Sal e Brasa”.
ERASMO: Desculpe, eu me confundi com as datas. O que estava fazendo na noite do dia 21?
ALAN: Além de comemorar os seis anos do fim do mundo, fui à calourada na Concha Acústica. Se lhe interessa saber, foi a última vez que vi o Igor.
ERASMO: Também foi nesse dia em que ambos tiveram um desentendimento em sala de aula?
ALAN: Claro, aquele lá não parava a boca! Só queria saber de mostrar o quão era inteligente. Uma falácia.
ERASMO: É, realmente uma tragédia pra quem se dedica aos estudos, como você. Ao voltar pra casa, acessou o Sig@ em seu computador pessoal pra ver a nota?
ALAN: Sim, e vi que tirei um nove, embora não fosse essa a pontuação que gostaria de tirar.
ERASMO: Mentira! (bate na mesa com um taco de beisebol, este com um prego gigante) Você não abriu o Sig@ naquela noite!
FLÁVIO: Pensando bem, quem conseguiria?
ERASMO: O especialista em crimes cibernéticos vasculhou o seu computador e me disse que encontrou um vídeo pornográfico no histórico. Teve até que baixar o volume de tão alto que eram os gemidos.
ALAN: Era só uma cena da novela das nove que estava eu revendo.
Alan lembra que o vídeo pertencia à novela “A força do querer”, e que os gemidos eram decorrentes da personagem Carine sendo estrangulada por Bibi.
ERASMO: E sobre o vídeo do “rabo maravilhoso”; é novela também, seu pervertido?
ALAN: Sobre isso eu abster-me-ei de comentar.
Em outra lembrança, Alan se vê assistindo a um diálogo da trilogia televisiva “Mutantes”.
ERASMO: Também viu todos os seus arquivos de áudio, e descobriu uma tal de “Cavalgada” em MP3. Que espécie de arquivo subversivo é esse ao qual você teve acesso, vagabundo?
ALAN: É do disco de Roberto Carlos lançado em 1977.
ERASMO: Bem sei. “Vou cavalgar por toda noite, por uma estrada colorida”. Colorida por qual razão? O governador mandou pintar o asfalto ou você anda vendo coisas por ter dado um “tapa na pantera”?
ALAN: Que pantera? Cor de rosa?
ERASMO: Cor de rosa será o uniforme que você vai usar na cadeia, mamador de tetas do governo!
ALAN: Ele não é laranja?
ERASMO: Não me interrompa, eu sou daltônico.
ALAN: OK. Já que é para usar expressões populares, mandar-te-ei a real. Eu não tenho nada a ver com o sumiço do Igor.
ERASMO: “Usar meus beijos como açoite e a minha mão mais atrevida”. Além de torturador é assediador também, pilantra?
FLÁVIO: Delegado, meu cliente não tem responsabilidade nenhuma com esse caso.
ERASMO: Você é advogado do Alan?
ALAN: Alan.
FLÁVIO: Empresário, amigo e colega de turma. Posso afirmar com propriedade que Igor não prestava.
ERASMO: No pretérito? “Prestava”? Sua situação está se complicando cada vez mais, Sr. Godoy.
ALAN: Veja...
ERASMO: Prefiro “Istoé”.
ALAN: Eu, de fato, não nutria grande simpatia pelo elemento. Mas o problema restringiu-se à faculdade. Nós fazíamos parte do mesmo grupo, dividimos as partes do trabalho que fizemos, mas Igor fez questão de parecer o único que havia se esforçado pra fazer. Isso que me deu raiva.
ERASMO: E só por isso que o elemento desapareceu?
ALAN: Meu senhor, eu não tenho...
ERASMO: Seu, não! Minha esposa, Milena, pode contestar esse título.
ALAN: Se o Igor desapareceu, a culpa não é minha. Por que o senhor não verifica na faculdade?
ERASMO: Enquanto você e seu amigo estavam gastando os combustíveis dos aviões da Gol, eu fazia o meu trabalho. Quer mesmo me dizer como eu devo proceder?
ALAN: Sim, e de que forma eu relacionar-me-ia com o crime, se é que houve crime? Igor pode ter desaparecido por conta própria, não?
ERASMO: Depois de duas discussões, é uma situação ocasional demais. Sr. Godoy, sabe por que minha mãe me batizou como Erasmo? Porque ela, tal qual a música “Mulher”, acha que tudo é uma...
(fundo musical: “Mulher”- “mentira absurda”)
ALAN: Mas eu não lhe matei! Jamais matar-lhe-ia!
ERASMO: Por acaso alguém aqui falou em matar?
(fundo musical: “Aqueous”)
Flávio e Alan se olham, apavorados com a interpretação da frase de Alan que Erasmo acaba de fazer.
ALAN: Eu exijo dar declarações de agora em diante na presença de um advogado.
ERASMO: Como queira. Mas tudo leva a crer que, inocente ou não, você não vai se calar por muito tempo.
ALAN: Pense o que bem entender. Vamos, Flávio. Eu vou chamar um táxi.
ERASMO: Onde é que o senhor mora mesmo, Sr. Barros?
FLÁVIO: Vila Tamandaré, Delegado.
ERASMO: Caso não se incomode, eu posso dar uma carona. Aceita?
FLÁVIO: O senhor vai largar o expediente só pra me levar pra casa?
ERASMO: Eu moro perto de lá. E depois, já tá na minha hora de voltar pra casa.
FLÁVIO: Mas ainda não são nem dez da manhã.
ERASMO: Faço minha a máxima difundida na internet: “meu trabalho, minhas regras”.
(fundo musical: “Na calada”)
Erasmo dirige a viatura, acompanhado de Flávio, e pensa:
ERASMO: Vou ter que apelar. Se o Alan não abrir a boca, é desse cara que eu vou arrancar alguma coisa. E não vou me importar em fazer tortura psicológica, desde que esse cara fale o que sabe.
O sinal fica vermelho. O carro estaciona antes da faixa de pedestres.
FLÁVIO: Não tem como o senhor botar uma música pra alegrar o ambiente, não, Delegado?
ERASMO: Tá pensando que minha viatura é Uber?
FLÁVIO: Desculpa aí.
ERASMO: Tudo bem, vou quebrar o teu galho (liga o rádio, que começa a tocar “Eu sou Stephany”, reproduzindo mais uma cena do filme “As branquelas”).
Erasmo olha para Flávio, sorridente ao pensar que consegue constrangê-lo.
FLÁVIO: Por que é que você sintonizou nessa rádio? Você sabe que eu não posso ver uma vergonha que eu já quero passar (começa a cantar)! “Em frente do meu portão te esperei, te esperei; não veio. Agora vou te mostrar que não sou mulher, não sou mulher de esperar! Eu sou linda, absoluta, eu sou Stephany. No meu Cross Fox eu vou sair, vou dançar, me divertir. Não vou ficar mais te esperando porque agora eu sou demais”.
Erasmo mostra-se decepcionado por não conseguir extrair nenhuma informação do empresário de Alan.
LETREIRO: Dias depois...
Erasmo caminha pelo Marco Zero e seu celular vibra.
ERASMO: Oi, Milena.
MILENA: Alguma notícia do meu irmão?
ERASMO: Nada ainda. Interroguei mais algumas pessoas que estudam com ele e não tive novidades sobre o caso.
MILENA: Não aguento mais essa angústia. Alguém tem que saber aonde o Igor foi parar. Será que isso tem o dedo do tal de Alan?
ERASMO: Eu não duvido nada, mas por enquanto o que podemos fazer é (Erasmo avista Igor olhando o mar)...
MILENA: O que foi, Erasmo? Erasmo, você ainda tá na linha?
ERASMO: Milena, eu te ligo depois. Tenho um problema pra resolver. Beijo.
Erasmo se aproxima do cunhado, até então desaparecido.
ERASMO: Finalmente.
IGOR: Como é que você me achou aqui?
ERASMO: Não foi muito inteligente da sua parte sumir e correr o risco de ser visto logo aqui. A pergunta é: por quê?
IGOR: Eu sei que eu deixei a minha irmã preocupada com o meu sumiço, mas...
ERASMO: Sabe? Se sabe, por que não apareceu? O que você ganha com essa tramoia toda?
IGOR: Não é óbvio, Erasmo? A prisão do Alan.
ERASMO: Que não vai mais acontecer, pode ter certeza. Ele tá respondendo o processo em liberdade, mas não por muito tempo. Agora mesmo eu vou comunicar que o seu paradeiro foi descoberto.
IGOR: Que paradeiro? O Marco Zero é ponto turístico, meu filho. Assim como eu, qualquer pessoa pode circular aqui. Se eu me misturar com um grupo de turistas fotógrafos, você só vai ter notícias minhas em 2040!
ERASMO: Eu não vou deixar um inocente pagar pelas suas armadilhas. O motivo pelo qual você se desentendeu com ele não me interessa! Sabia que sua irmã chegou a pensar que você tinha morrido?
IGOR: Thalía vai aparecer dançando no Marco Zero pra justificar esse drama todo que você tá fazendo? Eu sumi porque eu quis, e só vou voltar quando eu decidir.
ERASMO: Não se eu colocar meus homens atrás de você. Não se eu te obrigar a comparecer à delegacia, e te intimar por forjar a própria morte.
IGOR: Sinceramente, Erasmo, eu não tomaria essa atitude tão precipitada...
ERASMO: Por que não, vagabundo capivara?
IGOR: Porque se você fizer o mundo descobrir que eu tô bem, a tua mulher vai ter uma surpresa desagradável nos próximos dias.
ERASMO: É isso mesmo, Igor? Você tá ameaçando me matar?
IGOR: Mesmo tendo coragem pra isso, coisa que você acha que eu não tenho, posso te neutralizar com uma solução menos radical. Mas sou capaz de apostar que você vai preferir o assassinato.
ERASMO: Escuta aqui, projeto de gente: se você acha que existe uma mancha na minha trajetória, com a qual você possa me chantagear...
IGOR: O seu compromisso antes de voltar pra casa.
ERASMO: Como é a história?
IGOR: A Milena me contou que desconfia de você, que você volta muito tarde pra casa, até depois do expediente. Minha irmã liga pro seu trabalho e você já tem batido o ponto. Foi, então, que eu te segui. E descobri o que você faz questão de esconder da Milena.
ERASMO: Você enlouqueceu...
IGOR: Ao contrário da minha irmã, que de tão lúcida, vai checar a minha denúncia, exatamente como você faz. A escolha é sua, cunhadinho: ou você deixa o Alan responder o processo pelo meu sumiço ou eu acabo com o seu casamento. Agora eu te pergunto: eu tô louco?
(fundo musical: “Hitman”)

11/11/2019

CONFISSÕES PROLIXAS DE UM EXÍGUO MESOCLÍTICO/ BLOCO DE CENAS 1


LETREIRO: Baseado em coisa alguma.
O datashow exibe os slides preparados para a apresentação de Alan e Igor. Flávio acompanha a exposição de ideias atentamente.
IGOR: Os estudos feitos recentemente em Harvard demonstram que existe uma ampliação nas vendas de Ômega 3 comercializado pela Top Therm, a partir das inúmeras inserções de Aracy Wolf em programas da RedeTV! e do SBT.
ALAN: Uma das maiores preocupações dos espectadores que acompanham as propagandas...
IGOR: É se a voz dos compradores vai se equiparar à da garota-propaganda.
ALAN: Bem, como eu dir-vos-ia, a venda do pacote de cápsulas é feita sob a alegação de que o produto é...
IGOR: Bom para o cérebro, bom para o coração. E ainda por cima extraído dos peixes de águas frias e profundas da Noruega.
ALAN: Para contatar a empresa, a fim de adquirir o produto, tudo que o cliente precisa fazer...
IGOR: É ligar para 0800 770 7900. E tem promoção para aposentados e maiores de sessenta anos: cinquenta por cento de desconto.
ALAN: Escuta, a que horas você pretende parar de me interromper?
IGOR: Até onde eu sei, o trabalho é em dupla.
ALAN: Não parece que você tenha se lembrado disso o tempo todo, já que não me permite falar.
IGOR: Se você tivesse competência, coisa que eu duvido muito que exista, não se deixaria interromper.
ALAN: Mas, ao que me consta, eu não preciso demonstrar minha insegurança, não preciso dizer que sou competente.
IGOR: Porque não é, exatamente o contrário do que eu sou.
ALAN: Ouça-me bem, seu boçal...
PROFESSORA: Muito bem, creio que já é suficiente para que eu possa atribuir uma nota ao grupo. Daqui a quarenta e oito horas vocês terão as notas disponibilizadas no sistema.
(fundo musical: “As quatro estações (Boss In Drama remix)”- “o outono é sempre igual/ as folhas caem no quintal/ só não cai o meu amor pois não tem jeito, é imortal”)
A fachada da Concha Acústica, reduto de festas da universidade, é mostrada ao público. À noite, Flávio e Alan frequentam o espaço, que mostra um cartaz anunciando um show do cantor Leonardo Manjericão.
FLÁVIO: Finalmente um momento pra desestressar.
ALAN: Do jeito que ando, acho difícil de conseguir.
FLÁVIO: Não se esqueça de que você tem uma turnê pra começar amanhã.
ALAN: Nem fale. Olha, essa vida de conciliar faculdade com carreira enlouquecer-me-á.
FLÁVIO: Oi?
ALAN: Esquece. Qual é a primeira cidade?
FLÁVIO: Paris. Mas antes vamos passar no Museu do Louvre. Não vou sair com o celular a tiracolo sem tirar uma foto lá.
No dia seguinte, já na casa de Alan, Flávio toca a campainha. O cantor abre a porta.
ALAN: Eu te dei a cópia da chave daqui, por que você não abriu?
FLÁVIO: Quando dei por mim, vi que tinha esquecido em casa. Tá pronto pra embarcar?
ALAN: É... Quase. Preciso apenas trocar de roupa, as quatro malas já estão prontas.
FLÁVIO: Quatro? O que você tá levando além da roupa?
ALAN: Meus gibis do Cebolinha e umas cartelas de Dorflex (ouve-se, pela primeira vez, uma caixa registradora).
FLÁVIO: Cara, o que foi? Você parece meio tenso...
ALAN: Impressão sua. Fica à vontade, eu vou ao quarto pegar a bagagem.
FLÁVIO: Isso na sua camisa é sangue?
(fundo musical: “Purgação”)
ALAN: Não diz besteira, Flávio. Eu já volto.
O empresário do cantor mostra desconfiança em relação ao artista.
(fundo musical: “The look of love”)
Após a realização da turnê, Flávio e Alan dão um passeio e visitam o Museu do Louvre, como o segundo havia sugerido.
ALAN: Nada como uma locação internacional depois de cenas em estúdio.
FLÁVIO: Só não entendi por que colocaram Diana Krall pra embalar a cena.
ALAN: Estamos no Louvre, as pessoas devem achar que estamos no topo da pirâmide social.
FLÁVIO: Grandes coisas. Os vocalistas dos grupos de pagode que você gosta também estão.
ALAN: Que bela obra de arte, não? É o quadro de que mais gosto.
FLÁVIO: Engraçado... Eu já vim ao Louvre várias vezes e não me lembro desse.
ALAN: Como não, Flávio? A maioria das pessoas vem aqui pra apreciá-lo. E eu me identifico demais com ele. Parece ter sido feito em minha homenagem.
FLÁVIO: Qual é o nome do quadro mesmo?
ALAN: “Mano liso”. Muito realista.
(fundo musical: “É preciso dar um jeito, meu amigo”- “eu cheguei de muito longe/ e a viagem foi tão longa”)
O público pode ver um avião aterrissando no Aeroporto Internacional do Recife, trazendo Alan e Flávio numa manhã chuvosa. Os rapazes caminham com suas respectivas malas pelo saguão do local.
ALAN: Finalmente de volta à minha terra.
FLÁVIO: Qual é, Alan? Isso daqui é um filme, não um quadro do “Domingo Legal”.
ALAN: O melhor de tudo é poder voltar pra casa sem ter de me preocupar com a faculdade.
FLÁVIO: Já deu uma olhada no seu Sig@ hoje?
ALAN: Olharia, caso fosse eu masoquista. Mas não pretendo que nada estrague a minha felicidade.
ERASMO: (aproxima-se de Flávio e de Alan, pronunciando o nome do protagonista como “Álan”) Alan Godoy?
ALAN: (corrige Erasmo) Alan. Mal cheguei e já me abordam para autógrafos?
FLÁVIO: Achei que isso acontecesse só na Europa, já que por aqui você é amplamente desconhecido.
ERASMO: O senhor poderia me acompanhar até a vigésima sétima DP?
ALAN: Flávio!
FLÁVIO: O que foi?
ALAN: É um dos homens de preto.
FLÁVIO: Nossa, nunca imaginei que Tommy Lee Jones estivesse tão jovem.
ERASMO: Mais uma piada sem graça como essa e eu prendo os dois por desacato.
FLÁVIO: Com quem o senhor pensa que tá falando?
ERASMO: (mostra o distintivo policial) Erasmo Nogueira, delegado. Homem o bastante pra achar que deveria ser eu a fazer essa pergunta. Aliás, eu não preciso da formalidade pra perguntar se você pode me acompanhar. É uma intimação.
ALAN: Poder-me-ia explicar a causa?
ERASMO: Sim, Pasquale paraguaio. O senhor deve prestar esclarecimentos sobre o desaparecimento de Igor Zimmermann, seu colega de faculdade e, por que não dizer, desafeto declarado?
ALAN: Espera um pouco. O senhor está dizendo que... Que eu sou um dos suspeitos do sumiço do Igor?
ERASMO: Não. Você é o único. Como chegou o meu momento de começar a brilhar nesse filme, exijo uma música de suspense enquanto a câmera dá um fade in em mim e no Alan.
ALAN: É “Alan”.
(fundo musical: “Como vês”- “ele quer me destruir”)

01/11/2019

VAI RESPONDER E-MAIL? ("NOTHING COMPARES 2 U", DA SINÉAD O'CONNOR)

Projeto final vai me enlouquecer
Não findei meu TCC
Professor demora pra meu texto ler
Não findei meu TCC
Não me vejo terminando graduação
Eu cansei do RU
Acredita que ainda possa estar na colação?
Sem docente estar presente sei que eu não consigo

(Não) vai responder?
Vai responder e-mail?

Professor não mais encontro e
A defesa devo marcar
Note que escapa quando eu preciso dele
Meu TCC não tem conclusão
Arguidor nem foi chamado pra assistir
Não responde meu e-mail
Os outros lançam a nota no sistema, menos ele
Todos, menos ele
Eu sei que vou encontrar um orientador que me ajude
Em tudo
Não desisto

Ó, reitor, o professor não mais eu vou achar?
Nunca mais me formarei?
Encerro a conta no meu Sig@ depois de entregar
Mas ele tem que me orientar!


31/10/2019

ADJUNTO ("JUNTOS", DA PAULA FERNANDES E DO LUAN SANTANA)


Identificou
Termo oracional que ensinei eu,
Que sinalizou
Circunstância que oração deu?
Eu já li
Para poder ensinar a você
Sintaticamente
Analisará no teste seu
“Modo” eu sei que foi
Compreendido na aula que eu dei ontem
Mas teu professor
“Companhia”, “causa” e “tempo” explicou antes
Eu já li
Que “afirmação” e “negação” fazem por onde
Entendi
Que “dúvida” e “concessão” mostrou

Não pode esquecer “intensidade” para a prova final
Cobre de uma vez o tema “adjunto adverbial”

Aprovado, anotou?
Aprovado, você anotou?
Aprovado, anotou
“Adjunto adverbial”?

30/10/2019

ADJETIVA ("SEÑORITA", DO SHAWN MENDES E DA CAMILA CABELLO)

É a subordinada adjetiva,
Que é “explicativa” ou “restritiva”,
Assunto que eu devo estudar!
Eu devo estudar!
Não há nota infame;
Olha meu exame, aluno!
Leia, estudante,
Que a revisão hoje tem
Discente, clame
Na lição “restritiva” vem (lá, lá, lá)
Só nota azul (lá, lá, lá)!
É no
Livro que lerá
Que “explicativa” pode ver
E vou separar
Com vírgulas para entender (lá, lá, lá)
Só nota azul (lá, lá, lá)! É...

É a subordinada adjetiva,
Que é “explicativa” ou “restritiva”,
Assunto que eu devo estudar!
Eu devo estudar!
Não há nota infame;
Olha a oração subordinada adjetiva
Que tem forma nominal: “reduzida”
Assunto que eu devo estudar!
Eu devo estudar!
Não há nota infame;
Olha meu exame, aluno!

O professor teu
Te ensinou a reduzir
Quando a lição deu?
Formas nominais podem vir (lá, lá, lá)
O “gerúndio” é uma delas
Ainda falta terminar lição:
O “infinitivo” também;
Use, então,
O “particípio”
Na oração

Verifique exame, aluno!
Para não dar vexame, aluno,
Você pode parar de filar!
Não vai filar!
Filar!
Filar (eu estudo para o exame)!
Filar!
Não há nota infame;
Olha meu exame, aluno!