03/03/2013

CAPPUCCINO/ CAPÍTULO 3: DALE A TU CUERPO ALEGRIA, ISABELA

-Calma, dona Cris. Eu vou pegar uma garapa de açúcar pra senhora.
-Me traga um Diazepam. Vou demorar pra dormir hoje. Como é que a Isabela teve coragem? Ah, mas eu vou tomar as minhas providências.
-O que a senhora vai fazer?
-Eu vou falar com o pai desse menino! Que palhaçada é essa de levar a minha filha pra praia tarde da noite?
-Praia? Mas a Bella não tem tempo pra isso.
-Não tinha, Taciana. Agora está indo ver as conchas com aquele safado. Mas ele que me aguarde. Com aquela carinha de quem só gosta de música clássica, e leva a filha dos outros pro mau caminho? Ah, ele vai me pagar.
-Sim, mas e eu? Jogo esse teste no lixo? Olha, é melhor a senhora se decidir porque não vou poder me atrasar pra aula!
-Você vai fazer melhor. Que curso você faz na federal?
-Pedagogia, mas o que...
-Sem perguntas. Você vai vigiar a Isabela hoje. Toda vez que ela chegar perto desse rapaz, você me dá um toque a cobrar. Aproveita que tô com bônus.
-E se ela passar o dia todo vendo esse homem, o que eu faço?
-Liga do mesmo jeito. Agora, joga esse teste fora, porque eu vou ter uma conversa quando ela chegar aqui. E enquanto estiver terminando de arrumar esse quarto, nada de ficar escutando Britney. Moramos no Ibura, entendeu? Aqui a ordem é música regional. É de Labaredas à Camelô, sem pestanejar.
-Sim, senhora. Mas... Assim... Nem... “Oops...”...
-Varre esse quarto!

XXXXX

Caio chega mais tarde à universidade, sendo seguido por Taciana. Inspirada em sua cantora predileta, a jovem está usando uma peruca loura. O jovem padeiro encontra Isabela fazendo uma cara de quem está posando para a foto do perfil de uma comunidade nova do Facebook: a “Cafeína da Depressão”. Fica a dica.
-O que houve, Bella?
-Nada, Caio. Por quê?
-Você tá mentindo pra mim.
-Eu?
-A gente não conversa há mais de quinze dias. Você ficou estranha comigo. Ficou com raiva porque eu te deixei na Concha? Eu já te expliquei...
-Não, não é isso. É que... Você é menino, e é meio difícil de explicar algumas coisas.
-Sou seu amigo, e isso conta.
-O problema é o meu ex-namorado.
-Vamos falar do Sport!
-Não, é sério. Lembra que a Thaís falou dele na calourada?
-Lembro, sim. O que tem ele?
-Eu tive uma recaída.
-Pela sua cara, isso não é bom.
-Isso é péssimo, Caio. Sabe quando você investe numa coisa e descobre que seu esforço não valeu de nada?
-No caso, você está falando do teu ex?
-Não, eu falo de ter passado horas arrumando a bolsa e ter esquecido as fichas pra prova de Letramento.
-Bella... Você gosta dele ainda?
-Adianta dizer que não? Fiquei com ele. Eu podia ter tomado um rumo novo, uma atitude sensata, como participar do “Rola ou Enrola”, pedir a volta do “Beija Sapo”, me envolver com alguém que valesse a pena...
-Mas isso só aconteceu uma vez. Não quer dizer que você vai querer que isso se repita. Quer dizer, você quer. Mas precisa resistir.
-A teoria é maravilhosa. Mas não funciona.
-Racionalidade, Isabela. Não combina com o coração, mas é mais do que urgente.
-Como?
-Quando você sabe que vai se machucar, começa a pensar melhor.
-Parece que você já passou pelas mesmas situações.
-Não. Mas me programo pra não passar.
-Às vezes, parece que eu sou amiga de um cara sem sentimentos.
-Eles se manifestam quando eu fico de cara com aquilo que realmente tem valor. Uma família, uma amizade verdadeira, uma xícara de café... Paçoca!
Taciana se aproxima e fica atrás de um carro de som para escutar a conversa. Os dois caras que estão no veículo se preparam para executar uma música, quando diz um deles:
-Não, bicho. Toda vez a gente bota essa música do Gonzaguinha. Vamos trocar.
-Tá, pega o pen drive e bota a primeira coisa que tiver.
Toca “Macarena”! Agora há a cena da comédia pastelão!
-Putz, mas essa música fica no pé do ouvido da pessoa?
-Amigo, acredite: o sindicato põe Edson Gomes. Sorte a sua deles terem variado o repertório.
Para fazer o anúncio, o carro sai em disparada! Taciana se desequilibra e procura disfarçar com a coreografia de Los Tombos Del Trio, indo para a aula.
-Como essa menina dança bem! Parece a minha diarista.
-Não será ela, não?
-Imagina. Ela nunca dançaria nada que não fosse relacionado à Britney Spears.
-Cada um com sua mania.
-Justo. Agora eu tenho que entrar. O professor vai falar sobre Montaigne.
-Quem é esse?
-E eu é que sei? Só sei que ele diz que o sonho da vida dele é se livrar da gente, escrever suas memórias e ler o tal de Montaigne. Vem comigo.
Os dois entram no centro acadêmico.

XXXXX

Caio chega à sua casa, entrando pela padaria. Seu Leoni está no caixa.
-Ô, Caio!
-Não vai dar, pai! Tenho que estudar.
-Espera, eu tenho falar com o senhor.
-Senhor. Eita lá!
Os dois entram e sentam no sofá.
-Meu filho, eu vou te fazer uma pergunta e quero que você seja sincero.
-Pode falar.
-Sabe que a havaiana vai comer se mentir, não sabe?
-Pai!
-Tudo bem. É sobre a Isabela.
-O que houve com ela?
-A pergunta é: o que houve com vocês dois? Caio, naquela noite que você chegou tarde, estava com a Isabela?
-Sim, mas cheguei mais tarde porque tinha uma turma dançando no meio da rua, bebendo em frente ao Bar da Kelly. Não me olha com essa cara, eu nem sei quem é Kelly.
-Vamos direto ao assunto: o que existe entre Isabela e você?
-Oi?

XXXXX

Isabela entra em seu quarto e acende a luz. Sentada, estava dona Cris para assombrá-la.
-Ai, mãe! O que é isso? Fazendo o quê aqui?
-Vim ter uma conversa séria com você.
-O que aconteceu?
-Eu encontrei um teste de gravidez.
-Não acredito.
-Pode começar a acreditar. O que significa isso, Isabela?
-Mãe, faz três semanas que eu venho me sentindo um pouco estranha.
-Como?
-Já que é pra ser sincera, o absorvente Sempre Livre não está sendo usado.
-Não pode ser verdade. Eu não acredito nisso- põe a mão na cabeça.
-Só foi um atraso, mãe. Isso não significa que...
-Você está grávida, Isabela!
-Pura suposição!
-Eu vi o teste de gravidez. Mudou de cor. Deu positivo. Eu vou ser avó!
-O quê?
-E sabe qual é o pior de tudo, fedelha? É que além do pai ser o filho do padeiro sem eira nem beira, isso acontece logo agora que estou começando a diminuir minhas rugas com Cicatricure!

CAPPUCCINO/ CAPÍTULO 2: GRÁVIDA DE UMA NOTA MUSICAL

A amizade que unia Caio e Isabela era bonita demais. Cada vez mais eles compartilhavam as semelhanças que tinham entre si, e até as diferenças, por pensarem que o que sobrava em um faltava no outro, contribuindo para o equilíbrio. Vez ou outra, marcavam-se em posts do Facebook.
Bom, antes de passarmos para a ação, descrevo mais um pouco os personagens: Caio é estudante de Música, e como tal, não ouve qualquer coisa que toca na rádio. Não é como em Letras, na qual conhecemos Musa do Calypso e escolhemos sobre loira ou morena. Sabe que “Ah, moleque” é uma gíria comum, mas acredita que “Ah, muleke lek lek lek” é alguma espécie de afasia. Será?
Com essa breve descrição, você, espectadora assídua, concorda que com todos esses predicados, seria muito fácil ele conquistar o coração do público. O problema dessa estória é a fácil aceitação do personagem. Acredito que no segundo ou terceiro capítulo, será capaz de entender o porquê.
Tentemos nos debruçar sobre um problema que impulsionará a nossa lenta narrativa: todo novato de faculdade já ouviu falar alguma vez na vida no termo “calourada”. Pois bem, minha amiga dona de casa, vai ter uma no final da primeira semana de aulas, em dezembro. Não estranhe, é que o mês escolhido foi para dar maior veracidade ao calendário troncho da universidade-cenário.
Saindo dessa aura intelectual que paira, Caio foi convidado por Bella para aproveitar e comemorar sua entrada na Federal. Ele aceita, mas não contava com um... Imprevisto imposto pela própria faculdade.
-Bom, chegou a hora de vocês se apresentarem pela primeira vez em público. Às oito da manhã deste domingo, está marcada a apresentação de cada um no conservatório. A atividade serve pra verificar como anda a potência vocal de vocês- avisa o professor de Música, ignorando o fato de a calourada acontecer doze horas antes dessa obrigação acadêmica.
Os laços de amizade se estreitam no Facebook, como eu já havia indicado. Entre um post e outro, Bella e Caio estavam on line. E como toda amizade que começa hoje em dia, os elogios sobram e a gente imita a Luana Piovani no comercial da Oi: “pra                quê?”.
-Caio, você vai pra Calourada? É de oito horas, na Concha Acústica.
-Não sei se vai dar pra mim, Bella. É tanta coisa dessa faculdade...
-Ah, mas com o tempo você se acostuma. Vamos?
-Bom, mas vai ter o quê?
-Tinha um cartaz na escada do meu prédio que seriam duas bandas de pagode.
-Não é a minha praia, sério.
-Muito menos a minha, mas eu preciso abrir meu chakras, porque a situação está séria. Se você me levar, eu te dou duas paçocas.
-Também com esse argumento, como é que eu vou faltar?- ambos riem da (estranha) situação- Tá certo, eu vou passar aí e te pegar. Beijo.

XXXXX

Já na festa em si, Caio e Isabela se divertem, sem imaginar a presença do ex-namorado da moça, que circula livremente atrás de algumas meninas. Antes da noite ser estragada, uma saia-justa é criada por Thaís, até então a melhor amiga da moça. As duas se cumprimentam e...
-Menina, onde é que eu te encontro, hein?
-O estágio é puxado demais, Bella. Mas a sorte que é tem cada professor na minha escola que... Dá vontade de fazer uma “loucurinha louca”!
-Thaís!
-Amiga, eu preciso desencalhar. Não dá pra ficar o resto da vida se imaginando ao lado do homem que protagoniza aqueles filmes de realismo fantástico.
-Eu que o diga.
-Só que eu percebi que você está melhor do que eu, hein?- Thaís faz um sinal com as mãos para sugerir que Caio e Bella estão bem próximos.
-Quem? Ah, não. A gente... – logo, o jovem fica vermelho de vergonha.
-Não, mulher. Ele é o Caio, meu novo vizinho. E o mais novo musicista do Ibura.
-Sério? Por favor, se for pra tocar alguma coisa, não toque o coração dela. A carência dela está gritante desde o fim do namoro.
-Thaís!- repreende a amiga mais uma vez.
-Relaxa, Bella. Tá tudo bem. A única coisa que a gente namora é uma boa xícara de cappuccino.
-Claro- Thaís soa um tanto irônica- Bom, vou deixar vocês se divertindo- a moça os beija e vai para o meio do pessoal.
-Desculpa a Thaís, Caio. É que ela pensou...
-Fica fria, Bella.
-Me espera aqui, que eu vou ao banheiro.
-Vai lá, eu fico esperando.
Começa aquele pagode e Caio procura inibir sua cara de extremo descontentamento. Ainda mais quando aparece aquela turba totalmente descontraída com algo que não é Chopin.
E depois de uns chopes, o ex de Isabela está por aquelas bandas do banheiro. Perto dela está Thaís, com duas canecas. Quando a escritora sai do banheiro, sua amiga até então sóbria lhe oferece bebida.
-Quer, Bella?
-Não, obrigada. Você sabe que eu sou bem fraca pra bebida.
-Sei, mas hoje você precisa extravasar, amiga. Sabe? Você teve uma semana difícil, foi demitida, sua vida sentimental está um lixo, você está na pior...
-Certo- Isabela toma a caneca- Agora, me traga outra.
-Já volto.
-Bella?- aparece o tal ex-namorado.
-Você aqui?
-Pelo visto, você já se recuperou.
-Isso é o que você quer que faça. Não é o que consegui. Cadê aquela albina siliconada? Não veio com você?
-Eu terminei com ela. Não parei de pensar em você um minuto sequer.
-A maldita instabilidade masculina...
-Tenho consciência do que fiz, Bella.
-Consciência? Você? Você e a consciência não andam lado a lado, mas nem se quisessem!- Isabela parece estar um tanto alterada. E está!
-Mas o que é que você tem?
-Bom, digamos que terminar um namoro e ser demitida logo em seguida não me tornam a mulher mais feliz do mundo.
-Posso resolver o primeiro problema. Se não for pra ser a mulher mais feliz do mundo, pelo menos posso te fazer feliz.
-E fez. Mas isso ficou no passado, e lá precisa ficar.
-Não adianta disfarçar, Bella. Sei que toda vez que eu chego perto de você, treme mais que vara verde- para isso, ele vai se aproximando.
-Olha aqui, eu não sou Gaby Amarantos pra ficar tremendo por aí. Você é uma página riscada da minha vida. Página que, aliás, você mesmo riscou.
-Será mesmo que não existe um pouco de mim ainda dentro de você?
-Desgraça... Eu não vou resistir...
O cara toma Isabela pela mão e com ela some. Por favor, eu não quero saber pra onde foram. Darei prosseguimento. Caio, coitado, está esperando por sua nova melhor amiga sem se dar conta da existência do rapaz que a levou. Mas aí acontece o que os estudantes chamam de “peripécia”, o acontecimento inesperado ou, caetaneando, o “rapte-me, camaleoa” da trama (pelo menos um deles): ele se lembra da tal prova que ocorreria em doze horas.
-Droga, e agora? E a Bella que não aparece por aqui, minha gente? Vou ter que ir pra casa? Já sei: vou mandar um torpedo: “tive que ir pra casa. Apresentação amanhã. Caio”. Não sei andar por aqui, onde é que eu pego um ônibus?
O cara sai da Concha Acústica sem imaginar o problema que Isabela traria para a sua vida nos próximos capítulos. Chega á sua casa tarde, não dorme de ansiedade, fica seis horas do dia seguinte cantando. E o resultado? Cartelas e mais cartelas de Amoxicilina, com pastilhas de própolis.
Um fato relevante: Bella não chega totalmente bem em casa. Como sai sem a chave, bate desesperada na porta. Dona Cris, que esperava na sala pela filha, pega o molho de chaves e se depara com a menina num estado de calamidade total.
-Minha filha, onde é que você estava?
-Na concha da faculdade...
-Concha? Faculdade? Isabela, o que é que você tem?
-Nada, mãe! Só fui a uma festa.
-Você não encontrou o cafajeste do seu ex, encontrou?
-Jamais!
-Então, com quem você estava? Isabela, eu estou fazendo uma pergunta: com quem você estava?
-Com o Caio. Pronto, falei! O Caio, vizinho novo. Agora me deixa tomar um banho que eu estou morta de cansaço- beija o rosto da mãe.
-Misericórdia! Toma um café e escova os dentes.

XXXXX

Três semanas depois, a diarista Taciana está na casa de Isabela trazendo um monte de roupa suja do quarto de Cristina. Quando ela vai desforrar a cama da escritora, observa ter vários CDs de Britney Spears.
-Ótimo. Odeio faxina silenciosa.
E põe no volume máximo uma tal de “Circus”. Não foi escolhida por acaso. Dona Cris arma o circo mesmo, por dois motivos diferentes.
-Mas que bagunça é essa aqui em casa?
-Ô, dona Cris. Desculpa. É que eu me empolguei. A senhora sabe que eu amo a Britney...
-Você anda assistindo demais ao canal 7. Já disse que isso está te fazendo mal.
A mãe de Isabela encontra um teste de gravidez em cima da cama.
-O que é isso? Isso é seu?
-Eu, hein, dona Cris? Tá com o juízo aonde? Isso daí devia estar em cima da cama.
-Tem certeza que não é seu?
-Lógico.
-Mas quem ia usar isso? E olha só: mudou de cor. Deu positivo. Gente, será que a Bella... Não, eu não vou nem imaginar.
-Bom, se não é da senhora...
-Claro que não é meu, doméstica. Mas a Bella disse que não andou se encontrando com o ex. Então...
-Só pode ser de outro.
-Outro? Que outro o quê... Ah, não!
-Tá passando bem?
-Se não é o ex-namorado, é o filho do padeiro. A Isabela saiu com o filho do padeiro e voltou alta pra casa. Só pode ser isso: a Isabela está grávida e é do filho do padeiro.
Imaginação: a gente se liga em você.

CAPPUCCINO/ CAPÍTULO 1: BEM-SUCEDIDA, MAS PRETERIDA

Já são cinco da manhã, e Isabela não dormiu nada, só de pensar que o editor disse que iria revisar a proposta que ela mandou para a editora.
Sai do Ibura, aquela comunidade linda, iluminada e extremamente pacífica para enfrentar aquele trânsito caótico. Nas proximidades da Avenida Recife, toma para si (e para novecentas e sessenta e duas pessoas, porque ela é caridosa) um ônibus da linha CDU/ Boa Viagem (Caxangá). O sol começava a torrar, Isabela começa a se arrepender da hora que nasceu, mas transita exuberante pelo Centro de Artes e Comunicação, pronta para assistir à aula de estágio supervisionado. Coragem.
Voltando ao local de origem de nossa mocinha, Caio está com umas olheiras terríveis. Não é para menos: seria o primeiro dia de aula dele numa universidade. E também não dormiu porque teria que ajudar nos negócios da família mais cedo. Talvez uma viagem à multinacional na qual auxiliava o pai, um escritório de advocacia, uma corretora de imóveis, agência que fez o comercial da Luiza que estava no Canadá.
Foi fazer pão francês.
Sim, Caio trabalhava na panificadora que o pai, o simpático Leônidas, havia aberto há umas três semanas. Claro que ela era frequentada mais pelos que compravam fraldas. Também, a padaria fica no Ibura, e é um bairro que tem pobre. E você sabe que pobre prolifera mais que coelho, não é?
Ao largar da aula, Isabela vai ao prédio da editora de sua universidade. É recebida pelo editor da empresa, com muito carinho. Vamos frisar porque se há uma coisa que letrando sabe ser (menos eu) é altamente irônico.
-Seja bem vinda, Bella. Sente-se, por favor.
-Obrigada.
-Bella Caffé... De onde surgiu esse pseudônimo?
-Da minha segunda paixão.
-Bella, eu acho que você deveria se dedicar à sua segunda paixão.
-Ai, o que foi?
-Querida, nós da editora chegamos à conclusão de que seu romance está enquadrado naquilo que carinhosamente chamamos de... Literatura marginal. Não dá pra ler.
-Como é que é?
-Entenda, minha querida, não é o momento para você publicar uma estória desse teor.
-Eu passei dez meses, vinte e seis dias, treze horas e oito minutos com inspiração para escrever o meu livro.
-Pode ter certeza: não vai passar para a Bienal do Livro.
-Fliporto?
-Nem na esquina.
-Só pode ser um inferno astral. Acabei de terminar o namoro no réveillon, não peguei ninguém na virada e ainda não vou ver o meu livro sendo publicado?
-Quem sabe se você escrever outra coisa?
-Não posso mudar minhas indiretas. O alvo tem que entender na hora.
-Isabela, nosso trabalho não é brincadeira.
-Não estou brincando. Mas quero realmente que meu ex, que me trocou por uma albina siliconada, se lasque.
-Mas você deve ser mais bonita.
-Ela fez plástica no Robert Rey, mudou o guarda-roupa no “Esquadrão da Moda”, reformou o casebre de isopor no “Lar doce lar” e ganhou no “Soletrando”.
-Mas você deve ter qualidades maiores. Uma bagagem cultural.
-Ela é bilíngue. Você não entendeu que o buraco é mais embaixo? Ela aprendeu Libras em três dias. Eu estou no quinto período e não tenho nem o meu próprio sinal.
-Isabela, desiste desse homem.
-E se eu escrevesse um romance no qual as mulheres são subservientes aos homens? Quem sabe uma trilogia?- o editor olha silenciosamente para a moça- Por favor, eu preciso de dinheiro pra comprar café! O que eu gasto de Xerox daria pra dar uma pisa no Eike Batista!

XXXXX

Ao descer do ônibus, Isabela vai à padaria e compra um pacote de café Pilão. Não nota, entretanto, que a embalagem está furada e a validade vencida. Passa pelo caixa e lá está Leônidas.
-Dá quanto?
-Quatro e vinte e cinco.
-Espera aí, isso é um assalto.
-Dilma abaixou a luz, mas aumentou a gasolina e o salário também. Tudo cresceu.
-Inclusive o peso da minha mão no meio da tua cara.
-Pensando bem, eu vou fazer por dois e cinquenta e quatro.
-Grata.

XXXXX

-Não demora para Isabela chegar em casa. Logo vai à cafeteira e prepara o seu cappuccino. No armário, pega um pote de açúcar, um pacote de leite Itambé e uma lata de Nescau Active 2.0 (vou para porque sou moderno e não realista). Dirige-se até o armário e pega uma colher e uma xícara com o desenho da Pucca. Fofa ela, não?
Ao dirigir a xícara à boca, dá um zoom (sim, um zoom, colega) na data de validade do Pilão: 05/02/2008. Pra quem já estava naturalmente irritada com a rejeição de seu romance que mais parecia um manual do recalque (li uma cópia), é um estímulo para perder a pose.
-2008, não é? Vai ser a quantidade de pontos que aquele velho vai levar depois que eu rasgar a cara dele. Eu vou lá agorinha? Sim ou claro? Com certeza!

XXXXX

No caixa, tio Leoni (vou personalizar) percebe que há pouco movimento naquela noite. Do nada, o celular dele vibra. De longe, ele vê o filho.
-Caio, vem pra cá um minutinho.
-O que houve?
-Toma conta do caixa pra mim?
-É aquela mulher secreta de novo?
-A própria. Me deixa atender.
Quando Caio senta, chega Isabela, como um vulcão em erupção.
-Cadê aquele velho?
-O que foi que houve?
-Comprei café vencido.
-Ih, desculpa. Vou pedir a painho que vá trocar o pacote.
-Eu quero meu dinheiro de volta.
-Desculpa, moça, mas aqui a gente não devolve grana de ninguém.
-E eu com isso? Não pari ninguém!
-Dá pra ficar calma!
-Eu estou ótima, meu amor! Nos trinques! O Procon também está!
-Menina, é só trocar o pacote. Nada demais.
-Eu podia ter morrido com cappuccino envenenado.
-Um minuto... Você disse “cappuccino”.
-Falei, por quê? Algum problema?
-Todos! Você sabe o que é se mudar para um bairro há mais de três semanas e a única expressão considerada de bom gosto por aqui é “Eu quero tchu, eu quero tchá”? Eu quero minha vida de volta à Várzea! Cappuccino é o que há!
-Menino, nem te conto? E aquela desgraça de “Bará beré”? Até o duplo sentido pediu pra morrer naquela miséria!
E assim começa uma longa e tresloucada amizade.

02/03/2013

ESTUDAR MAIS EU VOU (“FIREWORK”, DA KATY PERRY)



(composição de Thiago Barros e Robson Rodrigues)

Tudo não reviu
Não vai tirar dez
Quer passar assim?
Use o meu viés!
Tudo não reviu
Só escute a mim
O vestibular
Quer um fera, sim
Tudo não reviu
Para pôr no Enem
A Covest que
Procura fera, fica sem
Tudo não retém
Não aprovas tu
Compreendes tu?

Se prepare
Para marcar
Vestibular
Dispor de mais
Estude nas Federais

Pois estudar bem mais eu vou
Convencer melhor reitor
Virar um leitor (Oh! Oh!)
E mais tarde um doutor (Oh! Oh!)
Estudar bem mais eu vou
Acompanhar professor
Virar um leitor (Oh!
Oh!)
E quem sabe um monitor? (Oh! Oh!)

Caderno abriu?
Começou a ler?
Seja original
Passe a escrever
Esse ano, um
Artigo entregou?
Pra fera falei
Veterano sou
E se não estudar
Te ajudar não vou
Pois eu te dei diversas chances
Nada mais mudou!
Ano acabou
Sig@ não mudou
Se você passou…

No, no, no
No teu teste passas tu, tu, tu

Universitário pro, pro, pro
Restaurante, o R.U., U, U