04/11/2013

FURO DECISÃO 2- A FORMATURA/ SEQUÊNCIA DE CENAS 4

CENA 10

A limusine reservada para Manjericão e Mabi chega ao mausoléu que o co-protagonista chama de apartamento. Sabe aquelas latinhas que ficam penduradas na parte de trás do carro e que a CTTU não multa? Pronto, fazem o maior barulho às quatro horas da madrugada- e eu sei disso porque ele olha para o relógio gigante comprando na loja “Clocks”.
Um silêncio profundo. Nenhuma música romântica ou chorosa sendo executada. O ex-professor abre o portão do prédio (porque a essas alturas ele já deve ter comprado o prédio e o porteiro está dormindo sobre a banca, com um radio de pilha chiando... Droga, quebrei o silêncio!). Manjericão, com a cara mais lavada do mundo, como quem tomou um porre de Diazepam, aperta um dos botões do elevador. Ele demora pra abrir. Aperta outra vez. Não há visor aceso. Impaciente, dá um soco no conjunto de pequenos botões.
A resposta é a mais absurda e oitentista que você já viu na vida. Em vez de tocar Susana vieira e sua versão instrumental de “Na rua, na chuva, na fazenda”, ele toca Rosana para provar de uma vez por todas que uma única música não faz parte de sua discografia. A porta não deixa o rapaz entrar e dá seu recado em alto e bom som.
-Nem um toque eu querendo!
Já imaginou esse tipo de coisa acontecer em sua madrugada? É pra ficar sem dormir por oito meses de susto! O pobre sobe as escadas em velocidade absurda, deprimido demais e entra no seu apartamento. E você está pensando que a sessão “Love Songs” da Rádio Recife FM terminou? Continua!
-Você chega com os amigos, faz o tipo que me agrada, faz de tudo pra chamar minha atenção- e a tensão aumenta quando há uma espécie de projeção do casal se agarrando e tirando a roupa- Passa a mão pelo cabelo e me olha pelo espelho, faz de tudo pra chamar minha atenção. Olho pro casal da mesa ao lado: beijos e abraços apertados e eu querendo te dizer “muito prazer”, e na fantasia do momento, quem de nós vai resistir mais tempo? Meu olhar procura o teu mais uma vez... Não posso me conter- Mabi aparece na porta do apartamento, e pensa em bater, mas tem um acesso de choro e desiste de tentar falar com o ex-noivo. Vai ao elevador, que para ela abre normalmente, e desaparece daquele lugar- Nem um toque eu querendo dizer “muito prazer”, nem um toque eu sonhando, sonhando com você! Nem um toque eu querendo dizer “muito prazer”, nem um toque eu... Sonhando com você!
O roqueiro universitário, coitado, está praticamente fazendo uma cambalhota atrás da outra se retorcendo da dor aguda de ser abandonado. É mais ou menos quando você vê a galera saindo num sábado à noite e não te convida, só que pior. Eu que não gosto de sair sequer sei a dor de meu próprio personagem, é mole?

CENA 11

Kativo, a ex-professora russa de Latim do Thiago, está ministrando uma cadeira chamada Leitura e Produção de Texto Acadêmico, voltada para os alunos estreantes no curso. Logo no primeiro dia de aula, ela já dá as cartas na boca de fu... Digo, no pedaço.
-Todos vocês estão com a ementa da disciplina?- Gabriella responde afirmativamente com a cabeça, assim como os estranhos no ninho que não querem abrir a boca (nem depois de sete períodos, aliás)- Eu vou falar sobre uma coisa que vocês estão doidos pra perguntar e que eu vou deixar o meu futuro monitor responder nas próximas aulas: o modelo de avaliação. Bom, o que eu vou pedir a vocês é que elaborem um roteiro para um programa de televisão nos próximos três meses, e que procurem se envolver com ele, porque eu estarei viajando para Ibura City em breve e vou deixar o monitor vigiando vocês todo o tempo. Eu sei que vocês têm mais cinco cadeiras obrigatórias, mas isso sinceramente não me interessa. O que um roteiro de TV tem a ver com a disciplina? Nada! Mas tem gente que faz licenciatura e não sabe por que paga no Centro de Educação, então dá pra suportar todas as dúvidas. Alguma pergunta? Por favor, não façam.
Gabriella levanta a mão. Só acho que esta menina deveria ter feito vestibular pra Unicap, pra não passar por esse vexame!
-Professora, a gente vai se orientar como?
-Minha querida, me diga: qual é o seu nome?
-Gabriella?
-Muito bem, Gabriella. O meu nome é Kativo do Agradokovsky, mas pode me chamar de mestre dos magos, porque quando vocês precisarem de mim, eu estarei rindo da cara de vocês no caribe e tirando fotos no Instagram com o meu espumante Millennium. Se o problema é TV, não tem problema. A nossa universidade dispõe de um pequeno prédio localizado na Avenida Sul, que é a “TVAca”. Lá, vocês podem conversar com os profissionais do ramo e anotar cada besteira que eles disserem como referência bibliográfica. Só sei que eu quero o relatório na minha mesa no próximo dia 30, que é o dia da última sequência de cenas desse filme.
-Dia 30 não cai num sábado?
-Te vira!
Vocês estão sentindo? Eu estou. O clima sutil!

CENA 12

Alguém bate a porta de Manjericão. Enrolado completamente num roupão cinza, a barba está um pouco maior do que normal- e olha que só se passaram seis horas depois de ter chegado ao apartamento. Clara espera ansiosamente para falar pessoalmente com o cantor. Assim que a porta é aberta, toca “You’re my”, da Sandy com o Julio... Digo, com o Enrique Iglesias. Não estou dizendo que esse negócio de chamar o conquistador de Julio Iglesias de Jardim São Paulo não estava me fazendo bem? Tem razão, não disse. O fato é: à medida em que o volume da música vai diminuindo, rola um clima... Na cabeça dela!
-Você é o...
-Sim. Até segunda ordem. Quem é você?
-Não assiste à programação da “TVAca”?
-Só vejo TV por assinatura, tem mais qualidade.
-Ih, tá por fora. Muito prazer, eu sou Clara Anveres, apresentadora do programa de fofocas “Sassurre você me contar”.
-Ah, prazer. Olha, você pode ficar à vontade pra perguntar sobre qualquer coisa... Menos da minha vida profissional e nem da pessoal.
-Manjericão, eu sei que esse é um momento muito difícil pra você, mas eu queria... Quero dizer... A produção do meu programa queria marcar uma entrevista com você. Queremos saber se você está bem para conversar com a nossa equipe.
-Pode ser agora. Estou bem. Tão animado como quem jogou Guitar Hero ou visitou ou site do X Games- esboça um sorriso extremamente artificial.
-Sério?
-Não!- abraça a garota, chorando compulsivamente- Eu tomei óleo de cártamo porque a Aracy da Top Therm disse que ia fazer bem pro meu coração!
-Ô, bichinho... Vamos fazer o seguinte? Por que a gente não marca um jantar? Pode ser onde você quiser!
-Tudo bem, mas onde?
-Eu conheço um restaurante bacana que a gente pode ir. Serve comida japonesa, é o “Karma de Ouro”.
-Ah, sei, aquele que fica perto do posto de gasolina da Várzea?
-É esse mesmo. Se você quiser, a gente pode ir hoje à noite.
-Não, ainda tô na fossa. Amanhã a gente se encontra e você pode perguntar o que quiser. Nem se você fosse do TMZ pra publicar detalhes da minha vida tão rápido assim.
-Sei que vai ser um bate-papo maneiro.
-Só não inventa nada a meu respeito, porque eu faço parte da instituição do “Procure Saber,”, hein?
-Pode deixar. Então... Tchau.
-Tchau.
-Até amanhã... – procura puxar assunto.
-Até amanhã.
-A gente se vê.
-Pois é.
-Então... A que horas...
-Às oito- vai empurrando a moça para que ela saia de sua casa- Às oito, viu, minha filha? Chega mais cedo, por causa do horário de verão e do trânsito da Avenida Caxangá, tá? Fofa... - fecha a porta- Caramba, não se pode nem ter depressão em paz... Vou terminar de tomar meu formicida!- decide ir ao quarto.

CENA 13

A segunda-feira chegou. É dia de fazer aula da Educação Física, e de escapar dela. Matheus está no pátio da Escola Municipal Correta Decisão gravando o web show que dá título a essa estorinha sem pé nem cabeça. Ana Júlia está segurando o celular para filmar essa... Trepeça!
-O “Furo Decisão” está de volta pra contar todas as novidades que acontecem dentro desse colégio. Bom, e... – percebe que não há nada a ser contado, até olhar para as meninas que estão se exercitando com uma roupa colada. Ainda segurando o celular, Ana Júlia aparece na frente da câmera.
-Bom, enquanto Matheus fica sem saber o que fazer da vida, vamos fazer uma propaganda. Pra você se matricular aqui? Não... Pra você comprar a rifa do Thiago Barros. Meu amor, por cinco reais você concorre a um MacBook Pro e a um iPad. Cinco reais é o quê, minha gente? Uma sacola de francês na padaria “Rainha da Várzea”? Deixa de ser pão-duro e compra a sua. Eu já comprei a minha. Compre a sua. Uma campanha da Agência W9.
-Nada como subornar uma pessoa e fazer ela mentir. Foi isso que Thiago fez, né?
-Só pagando mesmo pra eu pagar um king Kong desses!
-Vem cá, e onde ele foi?
-Disse que não vai aparecer no programa hoje porque viu que a audiência do programa estava caindo e a do blog dele também, desde que ele começou a fazer a propaganda da rifa. Olha, até que eu me saí bem como apresentadora principal, não foi?
-Principal uma ova! Se não fosse por mim, esse programa nem existia.
-Os tempos são outros, meu amor. Ah, e não percam a próxima edição da Expo Americana. No próximo dia 22, a gente vai dançar muito e divertir todos vocês na maior feira de ciências que de ciências não tem nada.
-Já acabou?
-Não, ele deixou mais um recadinho: amanhã de noite, ele vai estar lá no restaurante “Karma de Ouro” vendendo a rifa da W9. Apareçam por lá. Apareçam, não. Comprem mesmo.
-Eu vou aproveitar o espaço dessa bagaça de programa que é o meu pra fazer um apelo aos espectadores, assinantes da GVT e os que veem a gente quando o sinal da TIM funciona. Vamos fazer um programa especial pra ajudar o Manjericão a superar essa fossa desgraçada.
-Você coloca a vida do menino pra todo mundo saber desse jeito?
-O que é que tem?
-Que programa é esse? “TV Fama”?
-Nossa meta é chegar bem perto dele. Até o próximo “Furo Decisão”, galera! Tchau!
-E no próximo programa, eu vou lançar um novo quadro: “Eu preciso de um companheiro”!
-Isso já existe!
-Meu companheiro? Tomara! Beijo, meu povo!

03/11/2013

FURO DECISÃO 2- A FORMATURA/ SEQUÊNCIA DE CENAS 3

CENA 7

Ana Júlia está bebendo guaraná Dolly. A garota se volta para o público.
-O que vocês queriam que eu estivesse bebendo? Eu sou uma adolescente, por favor!
-Com licença, onde é o banheiro?- pergunta Capim Santo.
-Cê é casado?- dá uma leve requebrada para o cantor?
-Oi?
-Nada.  O que você queria mesmo?
-Saber onde fica o banheiro.
-Ah, meu filho, não faço a menor ideia.
-Tá bom, vou perguntar a outra pessoa.
-Vem cá, essa festa tá meio morgada sem os noivos. Você não quer ir pra um lugar, assim, mais aconchegante?
-É impressão minha ou você tá dando em cima de mim?
-Estou dando, sim. Meu querido, a minha primeira opção era atiçar o tal de Manjericão porque ele tem mais sex appeal que você. Mas na falta dele, vai tu mesmo.
-Olha, já como ninguém sabe onde fica o banheiro, eu vou fazer na garrafa pet mesmo. Dá licença.
-Volta aqui...
-Ana Júlia, quer se acalmar, por favor?
-Não dá, Gabriella! Não dá! Eu preciso de um homem rico que me compre uma cobertura em Vila Cardeal e Silva, que me sustente... E que seja bonito, mas nessa festa tem cada ator da “Hora do terror” do Mirabilândia...
-Sossega, garota. Você só tem treze anos.
-Não é o que diz a minha identidade falsa. Lá diz que eu tenho dezenove e sou a Miley Cyrus mais branca.
-Certo... Mas vamos tentar extravasar um pouco. Ainda tô chocada com o que aconteceu na igreja.
-Bom, agora que o tal de Manjericão ficou pra titia, vou me inscrever no Cadastro Nacional de Adoção e ter um sobrinho postiço.
-Você sabe que ele tem idade pra ser seu pai, não é? Manjericão tem vinte e seis anos! Precoce, mas tem.
-E daí, minha filha? Com um homem daqueles, eu preciso mais do quê na minha vida? Rico, dono de empresa de banda larga, cantor e o mais seguido do Twitter depois do Rafinha Bastos! Sem contar que parece ser tão confiável quanto a Friboi!
-Te valoriza, garota. E valoriza um homem tão confiável quanto Friboi pra não ser taxada de “free vaca”. Porque a pior coisa que existe é uma mulher ser vaca de graça- Gabriella circula pela festa.
-Aff, detesto gente de escrúpulos.

CENA 8

Thiago está vendendo uma rifa para o padre. Por que ele ainda insiste nisso, minha gente?
-Então, padre, custa só cinco reais. O senhor pode ganhar um iPad e um MacBook Pro. Já imaginou o senhor acompanhar as notas sobre o Vaticano em tempo real?
-Bom, eu... Está bem. Tudo para salvar a juventude desse país, embora eu ache que você não devesse vender aquela outra que eu nem comentarei.
-Pense que é por uma boa causa.
-Thiago, vem comigo- surge Matheus.
-Agora não, trepeça! Estou salvando minha conta na W9!
-Vem aqui de uma vez- puxa o universitário pelo braço, fazendo-o cair. Não contente, ainda o puxa pelo Star Tech (modelo de sapato parecido com o All Star), arrastando-lhe pelo salão. Ao se levantar, o rapaz retruca:
-Tá usando tóxico por acaso? O que deu em você?
-Eu sei de uma maneira de você conseguir compradores da sua rifa de cinco reais.
-Subornando os compradores com seis?
-Quase! Faça um cartaz enquanto ocorre uma apresentação artística na festa de casamento do Manjericão e da Mabi.
-Certo, mas onde é que eu vou conseguir um cartaz que... -uma mão entrega a Thiago o cartaz devidamente pronto- Os contrarregras desse filme estão trabalhando melhor do que os do filme passado. Deixa eu ver o que tá escrito aqui... “Chantagem Universitária: ou você compra a rifa da W9 por cinco reais e concorre a um MacBook Pro e a um iPad ou vai dormir de couro quente! Armaria, pode nem se formar mais...”. Quem redigiu isso? Bode Gaiato?
-Agora é só segurar enquanto eu faço a apresentação artística. Todo mundo gosta de dar dinheiro pra alguém que sabe dançar.
-Mas esse não é o meu caso.
-Claro que não. Esse é o meu caso porque sou lindo e pé de valsa.
-Ou de atleta. Mas vai...
-Liga a câmera, Gabriella- grita para a amiga, sem saber onde a mesma está- Quem aqui é fã de Claudia Leitte levanta a mão!
E se escuta aquela algazarra de fãs. Por que na festa de Manjericão tinha tantos fãs de Claudia Leitte? Mas quem é que vai saber? Vai ver eram pessoas que estavam nas audições às cegas do “The Voice”.
-Você não sabe dançar Claudia Leiite!- cochicha o universitário.
-Aprendi na abertura dos Jogos Internos da escola, em junho.
-Torcendo por um novo Xanddy do “Harmonia do Samba” em 3, 2, 1...
-Eu já falei pra você deixar de maresia, eu quero ver você na coreografia. Eu já falei pra você deixar de maresia, eu quero ver você na coreografia. Mas se você quiser, pode dançar largadinho...
-Largadinho, largadinho!- o público passa a acompanhar a letra.
-Vai no balanço do vento, dançando gostosinho...
-Largadinho, largadinho!
-Mas se você quiser, pode dançar largadinho...
-Largadinho, largadinho!
-Vai no balanço do vento, dançando gostosinho...
-Largadinho, largadi... – todos são interrompidos quando Matheus se confunde e “continua” a música.
-Mamãe vai fazer, papai vai fazer, mamãe vai fazer, só falta você! Mamãe vai fazer, papai vai fazer, mamãe vai fazer, só falta você dançando! Dançando, dançando, Dan-dan-dan-dan-dan-dançando! Dançando, dançando, Dan-dan-dan-dan-dan-dançando! Dançando, dançando, Dan-dan-dan-dan-dan-dançando! Dançando, dançando, Dan-dan-dan-dan-dan-dançando!
E assim, as pessoas vão esvaziando o salão, e o sonho do universitário murcha graças à mistura do secundarista bocó, como esse texto.

CENA 9

Clara se aproxima de Gabriella e pergunta sobre o noivo.
-Com licença. Eu tô procurando o Leonardo Manjericão. Ele já embarcou pra lua de mel com a esposa via Gol Linhas Aéreas?
-Ih, menina, nem te conto. A noiva abandonou Manjericão em pleno altar.
-Me conta tudo! Tô passada!
-Passado estava ele, que dormiu dentro da roupa alugada da “Bacurinha’s Vintage” e dormiu em pé pra não amassar a roupa esquentada pelo ferro Black & Decker! Contar o quê? Eu nem te conheço.
-Ah, então deixa eu me apresentar. Meu nome é Clara Anveres, eu sou estagiária da TVAca- pronuncia-se “Tê- Vaca”- e apresento um programa de fofocas sobre universitários notáveis.
-Eu vejo! O “Sassurre você me contar”!- para quem não faz parte da elite intelectual desse país, leia “Sô- si” e entenda “Só se”.
-Exatamente!
-Continuarei sem abrir a boca.
-Espera um pouco! Você não é a Gabriella, diretora do primeiro clipe do Manjericão, “Diversão”?
-A própria.
-Gente, você não tá entendendo! Eu sou fã doente desse homem! Eu lancei no YouTube um vídeo com a música dele e levei dois likes! Em todos esses anos nessa indústria viral, essa é a primeira vez que isso me acontece. Por favor, eu saí da Policlínica Pan da Estância e vim direto cobrir o ensaio da lua-de-mel dos dois.
-Menina, mas o bairro tá globalizado mesmo. Tudo bem, eu vou te dar o endereço dele. É só pegar o metrô, descer no Barro e pegar o Circular (Barro/Tancredo Neves). Aí, ele vai fazer que nem o Rio Doce/ CDU: rodar o planeta, mas vai te deixar no bairro da novela onde ele mora.
-Que bairro é esse?
-“Roda de Fogo”. O apartamento mais acabado é o dele. O elevador não funciona mais, e olha que foi consertado no mês passado.
-Tudo bem. Eu quero entrevistá-lo, mas não quero abusar da paciência dele. Mas por que a moça o abandonou?
-Isso é um mistério. Se duvidar, nem ele sabe.
-Espero que ele fique melhor.
-E que não tenha uma overdose de iogurte da Top Therm... Corta pro apartamento!

02/11/2013

FURO DECISÃO 2- A FORMATURA/ SEQUÊNCIA DE CENAS 2

CENA 4

-I feel so close to you right now…
E é ao som de Calvin Harris que Matheus agita a festa de casamento de Manjericão. Thiago sobe até onde o amigo está.
-O que você tá fazendo?
-Me divertindo, ora. Que pergunta!
-O Manjericão... – percebe que está falando muito baixo- O Manjericão foi abandonado no altar e você tocando música eletrônica?
-Quem disse que eu sei tocar isso, Thiago? Isso daqui é presente da assessoria de imprensa dele. A pessoa é convidada pra uma festa e finge ser DJ pra atrair fotógrafos. Manjericão mesmo me contou isso.
-Só pode estar de brincadeira comigo. Que raio de dia foi esse?
-Sossega, Thiago! O povo todo tá dançando, faz a mesma coisa que eles.
-O quê? Aproveitar que o noivo não vai jogar fora a comida da “Socorro Festas” e encher a barriga?
-Fica tranquilo, rapaz. Descontrai, descontrai...
-Cuidado, homem-mangaba. Esse negócio de fingir tocar música da trilha de “Sangue Bom” não tá te fazendo bem...

CENA 5

Guilherme Capim Santo entra no salão de festa e encontra Gabriella.
-Quem deixou você entrar aqui?
-Não era um casamento aberto ao público?
-Aberto? Arreganhado até demais. Não sabia que você se dava bem com o Manjericão.
-Eu nem conheço esse cara. Só conheço das rodas de conversa dos universitários.
-Ah, já saquei. Você sabia que ia ter fotógrafo aqui e resolveu sair nas fotos? Fica à vontade, subcelebridade do sertanejo universitário...
-Rock.
-Que seja. Aff, não aguento mais essas músicas novas tocando... Ô, DJ, põe “O bêbado e a equilibrista” aí.
-Da Elis Regina?
-Você conhece?
-O suficiente pra saber que... É música de velho.
-Não é de velho. É um clássico!
-Por isso. Tudo que é clássico, é velho. Não é à toa que “Superfantástico” tem trinta anos!
-Garoto intragável, vou te contar. Como se aquele lixo de rock universitário valesse alguma coisa.
-Se não valesse, não era a música mais baixada do iTunes.
-Qual? A tua?
-Claro. Manjericão está em queda, minha filha. Daqui a pouco, não sobra nem uma folhinha do tempero.
-É, logo se vê que você morre de inveja dele. Eu sei porque eu rezei aquele homem antes do casamento, e o mato do meu quintal murchou!
-Imagina se eu vou ficar de recalque por causa de homem. Poxa, minha filha, eu só vim parar aqui porque eu queria sentir o calor do meu público!
-Agora, no embalo dos movimentos pélvicos!- Matheus lidera uma fila de convidados e faz à capela da música da Ellen Rocche.
-Talvez seja aquele momento em que eu me embriague com Guara Eta... Com licença... –circula pelo salão.

CENA 6

Danila está solitária, com um celular na mão, admirando o bolo de casamento de Mabi e Manjericão. Retira o celular do bolso e tira uma fotografia para pôr no Instagram. Ao enviar, grita por perceber que a Madre Superiora está atrás dela, com um olhar de condenação.
-Hum... Estimulando a gula via internet?
-O que a senhora tá fazendo aqui?
-Eu vim me certificar de que você resistirá às tentações. Onde está o homem que está tentando te conduzir para a BR-232 do mal, ainda que inconscientemente?
-Aquele ali, dançando a música da novela das sete.
-Que depravação!  Em vez de pular com Jota Quest e “Além do Horizonte”, se submete a esse tipo de situação degradante...
-Mas o que eu faço, Madre?
-Venha comigo ao Convento Estância Sacra, minha querida. Livre-se dessa perversão que te cerca, dessa humanidade seminua, desses rapazes que não cantam “devias vir para ver os meus olhos tristonhos”, mas “mete o fio dental e passa o óleo no bumbum”, dessas periguetes que acham boa moda uma peça íntima enfiada no pâncreas, dessas cobras humanas que só sabem ofender no Ask.Fm...
-Não posso, irmã! O meu corpo todo está tomado pela lascívia!
-Lascívia?
-É, não sei o que significa, mas estava no roteiro.
-Falando nisso- Thiago aborda- Vocês estão a fim de mudar um roteiro, o da relação de vocês com a tecnologia?
-Oi?- Danila, que não está entendendo, entende menos ainda.
-Gente, vocês não têm noção disso daqui: uma rifa que custa cinco reais!
-Um roubo, diga-se de passagem...
-Que nada, freira, é barato que só.
-Madre!
-Certo. Olha só, vocês vão concorrer a um MacBook Pro e a um iPad. O sorteio vai feito pela agência W9 e vai me ajudar a me formar. Por favor, gente, me ajuda! A propaganda é verdadeira, não é ficção.
-Tá bom, Thiago, eu vou comprar a rifa. Pena que o dinheiro não seja cenográfico...
-Mas de jeito nenhum. Não vou deixar que você gaste um tostão nisso! Sinto cheiro de pecado.
-Também, andando com Danila do lado... Eu ia dizer que é gripe, mas...
-Você não é aquele menino que usa boné e faz parte de uma turma que está vendendo uma rifa cujo prêmio é uma entrada pra um motel? Uma rifa conhecida como “Morra de Prazer”?
-Eu fui obrigado. Infelizmente, o meu pacote é integral, tenho que me submeter à vendagem desse tipo de coisa...
-Não me engane. Vocês, jovens, são terríveis!
-A senhora vai comprar a rifa da W9?
-Em absoluto. Somente um ser insano seria capaz.
-Ah, produtos da Apple!- Matheus faz uma festa- Eu quero! Deixa eu tirar o dinheiro do smoking.
-Geração perdida... Vamos embora daqui, minha filha!
-Pra onde? Matinê?
-Matheus!- Thiago se assusta com a audácia.
-Eu vou salvá-la do Julio Iglesias de Jardim São Paulo. Anotem bem o que digo.
-Pode falar- Thiago pega uma caneta e anota algo na rifa.
-Eu desviarei essa jovem da rota de perdição. Perdição agora, só nos pratos do programa “Sabor da Gente”. E com licença- afasta Danila da má influência de Matheus.
-Anotado. Agora me dá o telefone, Matheus.
-Deixa que eu anoto. As gatinhas não podem saber, senão dá pane na TIM- pega o talão.
-Meu amigo, a TIM é uma pane, não precisa congestionar sua linha.
-Pronto. Comprei a rifa- Thiago deixa uma lágrima escorrer
-Rapaz, esconde a emoção aí...
-Tô chorando de mau olhado mesmo, mas tô feliz. Gente, toca a música de “Carruagens de fogo” enquanto eu pego o talão- o universitário se aproxima em câmera lenta, ao som de Calvin Harris (ainda!)- Eu não falei “Carruagens de fogo”, sonoplasta?

01/11/2013

FURO DECISÃO 2- A FORMATURA/ SEQUÊNCIA DE CENAS 1

ESSA ESTÓRIA É BASEADA EM PESSOAS E EM FATOS REAIS. O AVISO SERVE PARA QUE VOCÊ SE CONVENÇA, DE UMA VEZ POR TODAS, DE QUE AS PROPAGANDAS SÃO MESMO VERDADEIRAS E QUE EFETUE A COMPRA DESEJADA PARA QUE ELAS- TANTO AS INSERÇÕES COMERCIAIS QUANTO AS RIFAS- ACABEM O QUANTO ANTES.
A OBRA É ABERTA; OU SEJA, PERMITE MUDANÇAS NO ROTEIRO A PARTIR DA ACEITAÇÃO DO PÚBLICO. MUDE O FINAL DESSA TRAMA. MUDE O DESTINO DO PERSONAGEM PRINCIPAL.

CENA 1

Clara está num cenário todo em azul-claro, num pufe verde medonho.
-E aí, galera? Hoje, o nosso programa é ao vivo e vamos receber um dos maiores astros da nova geração. Com vocês: Guilherme Capim Santo.
O sonoplasta maluco decide colocar sons de aplausos, aplausos, aplausos enquanto o vilão entra.
-Olá, Clara. Oi, pessoal- diz, sorridente.
-Fica à vontade. Faça de conta que foi convidado.
Ba dum tss!
-Mas eu fui convidado.
-Brincaderinha. Ah, imagina se alguém aqui paga jabá pra aparecer.
O pessoal do estúdio procura disfarçar o constrangimento.
-Pode perguntar, então.
-Capim Santo, como é ser o campeão de downloads no iTunes neste mês?
-Vê só, é uma surpresa muito grande. Se eu disser que não esperava esse sucesso todinho, eu estaria mentindo, mas não pensei que ia ser tão rápido.
-E a quê você atribui esse sucesso todo?
-Ao meu talento, ao meu carisma e à admiração que a galera sente por mim. Você acredita que o pessoal deixou de comparecer à SuperCon Hero pra me prestigiar no teatro da Universidade?
-Posso bem avaliar. Afinal, você é um fenômeno de popularidade. Neymar, por exemplo, está pedindo uma consultoria ao seu hair stylist para ficar com esse cabelo de Zé Carioca, que tem feito um estrago nos salões de todo o Brasil.
-Salões e açougues. Meu cabelo é uma galinha depenada com estilo.
-E ditar moda é só mais uma prova dessa fama que você está experimentando. Conta pra gente o sucesso que você tem feito com o sertanejo universitário.
-Rock universitário! Não me rebaixe!
-Tanto faz, é tudo música mesmo!
-Não me comprometa. Bom, é um estilo que eu procuro criar raiz na UFPE, um lugar que até estudante de Letras é erudito. E tem sido bacana a aceitação. Claro que vai demorar cinco ou seis meses para eu levar o kikito pra casa, mas dá pra aguentar.
-Você quis dizer "Grammy", não?
-Esse aí. Sem contar que depois que o meu disco chegar às...
-Só um minutinho, Guilherme. Chegou uma informação aqui no meu ponto- coloca a mão na orelha e outra na cintura porque o movimento é sexy- Não acredito! Mentira! Tudo bem- sai do pufe- Vamos embora!
-Mas pra onde?
-Alô! 2014 não vai chegar enquanto não acontecer o evento mais badalado deste ano: o casamento do Manjericão!
-Espera aí! Você tá me dizendo que eu tô sendo trocado na minha primeira aparição em rede nacional por causa do Leonardo Manjericão?
-Tô. Mas eu não vou discutir isso com você. Em meia hora, o carro da emissora vai me levar até a capela. Se quiser uma carona para descer no Terminal do Xambá... - sai do estúdio.
-Sempre esse verme descabelado!- bufa!

CENA 2

Danila aparece na igreja com uma roupa que... Misericórdia... Mas calma: em vez de tentar agarrar alguém, ela vai se confessar.
-A sua bênção, seu padre.
-Sem pecado, concedida.
Ela estranha a voz do sacerdote, mas continua.
-Eu tenho muitos pecados na bagagem, mas tem um que me acompanha desde que eu virei a figurinista do primeiro clipe do Leonardo Manjericão: a luxúria. A coisa tá tão séria que eu ia trocar meu nome no Facebook. Ia botar “Gladys do Cabuçu”. Eu me apaixonei perdidamente pelo apresentador do programa que cobria os bastidores do clipe. Depois de tanto fugir de mim, ele ainda tentou se aproximar, mas eu resisti. Só que agora renovaram meu contrato para fazer esse novo filme e eu não sei como escapar da tentação.
-O banheiro está liberado, irmã!
-O quê?- grita Danila, ao perceber que o padre estava chegando.
-Já conseguiu desentupir o banheiro? Posso usar?- questiona a freira que estava no confessionário.
-Pode vir, Madre- avisa o padre.
-Minha filha, eu estava numa prisão de ventre tão grande que estava me retorcendo no confessionário. Acabei escutando tudo.
-Já que ele não estava aqui, melhor. É mais fácil conversar de mulher pra mulher...
-Não! De mulher... Para irmã...
-Tá certo. O que a senhora acha que eu devo fazer?
-É necessário frear todas as tentações carnais, Gladys do Cabuçu fake. E eu tenho a solução para isso.
-Matar o Matheus?
-Não, convertê-lo à extrema e puríssima santidade. Se você quiser ficar com esse “aborrescente”, trate de segurá-lo pelo lado espiritual.
-Acontece, minha irmã, que meu lado espiritual tá mais ou menos o seguinte... É, como é que eu posso explicar pra senhora... A senhora já viu uma garrafa de Veja?
-Já.
-E de Pinho Sol?
-Também.
-É por aí, irmã. Se usar os dois ao mesmo tempo, o meu lado espiritual vai continuar sujo.
-Querida, você precisa ser uma pessoa OLX, desapegada do material.
-E que material, aquele homem... Eu preciso esquecer que sou completamente apaixonada por ele. Como é que eu faço?
-Cala a boca e me escuta! O que você pensa de passar as férias num spa espiritual?
-Isso existe?
-Claro. Não existe melhor lugar para esquecermos as provações a que o planeta nos impõe. Deixe-me mostrar uma fotografia local. Apesar de não estar lá, você deve se sentir lá: bem-vinda à sua nova colônia de férias!
-Tá de onde com a minha cara, não tá, não... Quer dizer, tá de onda com a minha cara, não tá, não?
-Em absoluto. Faça um teste. Divirta-se o quanto puder na festa do casamento que o padre vai celebrar hoje. Verá o quanto as pessoas são vazias, capazes de liberar a própria honra por um gole de Coca-cola, coreografias de baixo calão, músicas que veneram o pâncreas da mulher...
-Vou pensar no seu caso. Eu nunca me vi no convento. Aliás... - vira-se para o público- Alguém já me viu fazendo algo santo?
-Pense bem, fidelíssima garota sensual. E eu tenho que pensar em não conversar tanto, com licença... – corre para o banheiro.

CENA 3

No altar, estão Matheus e Manjericão, este com o cabelo que chamamos carinhosamente de “capivara desenxabida” envolto num gel. O jovem pega um pente gigante é dá uma primeira passada para deitá-lo. O cabelo levanta, com um ruído estranho. Dá uma segunda passada, e novamente os fios ficam em pé.
-Como é que eu faço aqui, Thiago?- o amigo pede ajuda.
-O cabelo de Manjericão? Só na base da marreta. Nem que seja “You Planeta”.
-Gente, eu tô tão nervoso...
-Calma, rapaz. Eu sei que é normal isso. Afinal, você tá casando pela primeira vez.
-Primeira e única, né, Matheus? Mas não é por isso, não. Aluguei esse smoking e tem coisas em mim coçando.
-Onde você pegou a roupa?
-Numa loja chique da cidade. Procurei no Google e dei crédito: a “Bacurinha’s Vintage”.
-Com um nome desses, a gente entende por que coça...
-Mas eu também estou nervoso. É o primeiro casamento que eu vou pegando um Barro/ Macaxeira (Várzea) pra chegar à igreja.
-Falando em Barro, como é que tá a faculdade, Barros?
-Jogando os meus nervos no lixo, Manjericão. E ainda tem a formatura no próximo ano, mas a gente fala disso depois.
-Vem cá, e as madrinhas? E o padre?
-Tem certeza de que não esqueceu a cueca? Porque tá faltando muita coisa aqui- Matheus entende o sofrimento do noivo, mas tenta ser piadista. Tenta.
Gabriella vem da rua e Danila chega com o padre. A sensual adolescente fica do lado de Thiago, e Matheus estranha que ela não tenha tentado apalpá-lo, como faz todos os dias. Gabriella fica ao lado do adolescente.
-Desculpem o atraso. Mas é que pelas novas cotas eclesiásticas, o padre tem que abrir seu confessionário para aproveitar o tempo em que a noiva atrasa de propósito.
-Tudo bem, seu padre. Eu também vou tentar aproveitar o tempo enquanto a Mabi não chega. Vamos jogar “adedonha”, gente?
-O quê?- Matheus desconhece a palavra.
-“Nome, lugar, objeto”.
-Ah, sim. Adedooooonha!- Matheus abre as mãos e Manjericão põe três dedos.
-Letra M.
-Não, senhor! N de “nada, nada, nada, nada, eu não estou fazendo nada”- fala rapidamente.
-M, porque a regra de 2008 aceita o K no alfabeto português.
-Quem disse que eu sou português? Eu sou de Jardim São Paulo!
-Mas não é São Paulo!- retruca o roqueiro.
-Seu padre, é o seguinte: atropelei o meu gato. Pronto, confessei meu pecado. Agora será que dá pro senhor me passar uma penitência que não seja aguentar esses dois tabacudos?- Gabriella fica desesperada.
Clara chega à igreja e filma tudo.
-Novembro de 2013. Finalmente encontramos um casamento que é digno de estar nas páginas humorísticas sobre famosos, como o “Morri de Sunga Branca” e o “Morreu ou tá na Record?”. Morram de inveja, porque Manjericão é um noivo pra ninguém botar defeito. Até as defuntas do IML estão querendo casar com...
Um carro chega e quando a porta traseira é aberta, arremessa Clara para... Não sei. O câmera sai à procura da apresentadora enquanto Mabi vem com seu vestido que parece uma cortina da “Narciso Enxovais”. Breno, o advogado e quase tutor do noivo, a acompanha.
Dentro da igreja...
-Música com M.
-“Meu mel”, do Leonardo!
-Conheço essa música, não...
-Como não, Matheus? Tá na trilha sonora!
-Ah, tudo bem.
-Sua vez.
-Marcha Nupcial!- grita Thiago.
-Por que você deu dica pra ele e não pra mim?
-Não é dica, é pra tocar porque a Mabi chegou.
Todos se levantam para acompanhar os passos da noiva. Matheus liga a câmera. O sonoplasta liga a Marcha Nupcial.
-Olá, tudo bem? Hoje, numa igreja espetacularrrr, teremos o casamento de Manjericão e Mabi. O que você tem a dizer sobre isso... Thiago... Gabrieeeel?
-Que o meu nome não é Thiago Gabriel e eu não vou mentir dentro de uma igreja. Desliga a câmera. A gente grava o “Furo Decisão” na festa.
-Ah, tá... Por que o pai da noiva não veio com ela até o altar?
-Porque ele acha o Manjericão um cretino desocupado que faz rock. E que não vai sustentar a filha dele.
-Mas o Manjericão é rico.
-Só por isso ele está aqui, na última fila. Mas acha tudo isso uma palhaçada do mesmo jeito.
-Queridos fieis, estamos aqui reunidos para celebrar a união desses dois jovens: a Maria Beatriz Gutierrez e o Leonardo Mantoanelli Jensen Ribeiro Castro Oliveira. Logicamente, santificarei esta união por meio de apelidos. Não quero ficar afônico.
-Beleza- Manjericão não se contém de tanta felicidade.
-É de livre e espontânea vontade que os noivos estão aqui presentes?
-Sim.
-Talvez... – justifica Mabi.
-Se existe alguém que tenha algum motivo que possa impedir a união desses dois jovens... Que fale agora ou se cale para sempre.
-Eu!
Todos olham para a última fileira, de onde geralmente sai a pessoa que tenta vetar os casórios tradicionalmente impedidos. Mas nada.
-Quem falou isso?- pergunta Gabriella.
-Eu, Thiago- vai para o centro da igreja- Eles não poderão se casar antes que eu faça a propaganda da rifa que estou vendendo. Por cinco reais, vocês concorrem a um MacBook e um iPad, tudo da Apple, uma empresa que eu não sei dizer se ela se chama “épol” ou “ápol”. Não é mentira! Todo mundo deve estar pensando que só porque esse casamento é de ficção que a rifa também é. Não é, bando de besta! Tô divulgando no Google Plus, que eu chamo de “Mais”, no Facebook, no Twitter, no Blogger e no Orkut. Ajude um formando. Uma propaganda da Agência W9. Continuando...
-Leonardo Manjericão, você aceita Mabi como sua legítima esposa e promete amá-la e respeitá-la na saúde e da doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, no “Chevrolet Hall” ou no Teatro da UFPE até que a morte os separe?
-É pra já!
-Mabi, aceita Leonardo Manjericão como seu legítimo esposo, desconsiderando todos os outros que você possa vir a ter ao longo de sua juventude?
-Pega um adesivo e vai, Mabi!- Matheus começa a palhaçada de novo, constrangendo os padrinhos.
-Vai, Mabi! Vai, Mabi! Vai, Mabi!- os convidados e o próprio Manjericão engrossam o coro. Mabi se vira para o rapaz.
-Você, melhor do que ninguém, sabe o quanto eu te amo e quantos sacrifícios eu faria pra ficar do seu lado. Mas eu vou ter que mandar você de volta pra esteira.
-Não faz isso comigo... Hoje é meu aniversário, dia de todos os santos...
-Eu não posso... Eu não posso... – e sai correndo em câmera lenta da igreja. A Marcha Nupcial dá lugar a “Fim de Tarde”, do Fat Family.
-Hoje eu sinto tanto não ter você, e nem o tempo fez eu te esquecer. Pra quê chorar, se você não vem? Não vem?- Ela sai vestida de noiva pela cidade, e percebe que os outdoors têm o rosto dos padrinhos, dublando a música com uma cara de condenação desgraçada.
-Perdi você! Não tente entender. Ainda te amo! Perdi você! Não tente entender. Ainda te amo! Perdi você sem razão, sem querer!- joga o buquê para o alto, que cai acidentalmente na mão de uma senhora mendiga que luta até hoje para sustentar seus vinte e nove filhos.
-Todo fim de tarde é sempre assim e uma saudade vai nascendo em mim. Eu já nem sei mais porque te amei... Eu te amei!- As propagandas de ônibus também trazem os rostos de Thiago, Matheus, Gabriella e Danila, os quais atemorizam mais a fujona.
-Perdi você! Não tente entender. Ainda te amo! Perdi você! Não tente entender. Ainda te amo! Perdi você sem razão, sem querer!- Mabi, coitada... Coitada nada! Mabi cai no chão e rasga o vestido de noiva, e agora parece que usa um espartilho que lembra vagamente uma periguete dos anos 1830.

A música pula para o final. A quase nubente entra em um momento de reflexão: pensa o que vai fazer dentro do Terminal de Xambá.