05/11/2014

MENTES/ CAPÍTULO 18: RESPOSTAS QUE EU NEM SEI ONDE ENCONTRAR



Após descer da caminhonete, o padre fecha a porta do veículo e se aproxima de Bruno, ainda caído no chão.
-Fala comigo, moço! Você está bem?- toca no rapaz.
-Me tira daqui. Eles querem me pegar...
-Eles quem?
-Me tira daqui... Se vierem atrás de mim, eu não vou ver mais a minha mulher.
-Você está ferido... Eu vou te levar pro hospital.
-Não! Hospital, não! Eles não vão me deixar sair! Por favor, moço! Me tira daqui.
-Tudo bem. Vou levar você pra minha casa... Consegue andar?
-Acho que sim.
-Então, vem comigo. Me ilumine pra quer eu esteja fazendo a coisa certa, Senhor- Felipe faz com que Bruno se apoie nele.
O arqueólogo, mesmo mancando na perna direita, consegue chegar com Felipe até a caminhonete.
-Onde é a sua casa?
-Igreja Alagoana da caridade. Já estamos perto de lá.
-Igreja? Não poderia ir pra lugar melhor- ironiza, sem que o padre perceba.

|||||

Iago está tomando um café na casa de Valentina e Leandro.
-Quer dizer que ele foi parar no hospital de doido mesmo?- Valentina age com naturalidade.
-De fato, o boletim médico disse que o que ele teve foi um surto. Isso é tratável, mas vai depender da evolução do quadro clínico dele.
-Isso pode demorar, então?
-Pode, Leandro, mas ainda que seja rápido, Bruno estará sob custódia. Se ele se recuperar, não vai deixar de prestar contas à Justiça por tentativa de homicídio e porte ilegal de arma.
-Sorte daquele desgraçado, que não vai pagar pela morte da minha irmã. A pena ia ser maior.
-Amor, a gente tem que pensar que, de um jeito ou de outro, esse cara “tá” começando a pagar pelo que fez aos outros.
-Pensei que você acreditasse na inocência dele, Leandro- Iago se surpreende.
-A gente tem que dar o benefício da dúvida pra todos. Mas depois desse escândalo todo, dessas mortes acontecendo... Não, ele tem que se entender com a Justiça.
-Um homem daquele não pode ter “só” isso pra esconder. Pra mim, tem mais poeira debaixo do tapete...
-Você não vai mais se envolver nisso, me prometa.
-Mas, Leandro...
-Já não viu o que ele fez, batendo na sua cara? Se você ficasse mais um minuto naquele quarto... Eu não quero nem imaginar o que ele ia fazer, aquele desgraçado...
O celular de Iago começa a tocar.
-Só um minuto, gente. Alô? Fala, Novaes. O que foi?- levanta-se da poltrona vagarosamente- Não pode ser! Você tem certeza? Tudo bem, eu já estou indo pra clínica. Vá pra lá também. Obrigado.
-Que cara é essa, Iago?
-O que houve?
-Bruno ameaçou uma enfermeira com uma faca e conseguiu fugir da Clínica San Pillar.
-Aquele assassino escapou?
-Escapou, Valentina. Pelo menos, foi essa a informação que o Novaes me deu.
-Infeliz!
-Tem certeza disso, Iago?
-Absoluta! Eu vou averiguar isso na clínica agora mesmo.
-Eu vou com você.
-Não, Leandro, é melhor você ficar.
-Iago, até agora eu me mantive afastado de tudo isso, mas agora eu vou. O cara que fugiu do sanatório pode ter matado a minha cunhada!
-É pela sua mulher que eu peço que você fique. Imagina se o Bruno vem pra cá, pra tentar se vingar da Valentina por ela ter prestado queixa, peitado ele? Fique aqui pra protegê-la, eu prometo que mandarei notícias- guarda o celular no bolso e sai rumo à clínica.
-Ele não pode ficar solto, Leandro! Alguém tem que dar um jeito naquele homem!
-Calma, meu amor. Vai ficar tudo bem. Fica calma... – Leandro conforta a mulher com um abraço, mas ela continua irada com o ocorrido.

|||||

A Igreja Alagoana da Caridade recebe o procurado Bruno Reinchenbach, que é posto na cama do padre Felipe Verdelho. O senhor de cabelos grisalhos arruma o travesseiro, e olha para a testa do rapaz.
-Vou dar um jeito nesse ferimento.
-Tem certeza de que ninguém nos viu juntos na estrada?
-Não. Era pra não ter visto?- Bruno fica calado, apenas demonstrando estar com muita dor- Eu vou pegar o curativo e um pano úmido.
-Eu não posso ficar aqui. Tenho que procurar a minha mulher, e pedir desculpas.
-Moço, não tem condições de sair. Machucou a cabeça e a perna, como vai voltar pra casa? Onde mora?
-Apipucos.
-Onde é isso?
-Espera... Pra onde você me trouxe?
-Pra minha igreja, a Alagoana da Caridade.
-Alagoana? Eu não podia ter vindo pra cá... O que o senhor “tava” fazendo lá, onde me encontrou?
-Fui buscar uns donativos que a Arquidiocese de Olinda e Recife ofereceu à minha igreja. Tive até que cancelar a missa da noite. E você? O que “tava” fazendo na estrada àquela hora?- vai até a pia e prepara uma vasilha com água.
-“Tava” tentando voltar pra casa.
-A pé? Naquela escuridão?
-Tinham me internado.
-Já estava assim quando eu te encontrei?
-Padre, o senhor faz muitas perguntas.
-Bom, você está no lugar onde eu resido. Acho que é meu direito.
-Não seja por isso. Eu posso ir embora agora- tenta se levantar da cama.
-Fique aí. Você não está se sentindo bem... – toca na testa de Bruno, ao deitá-lo na cama novamente- Meu Pai... Você está ardendo em febre.
-Daqui a pouco passa. Me deixa ir pra casa, Padre. Eu preciso falar com a minha mulher.
-Você irá quando estiver completamente recuperado. Até lá, permanecerá em repouso.
-Mas, Padre... É importante.
-Liga do meu telefone, então. Mas você não está em condições de sair por aí, ainda mais voltar pra sua cidade.

|||||

Nos corredores da mansão, William encontra Noêmia, que escuta o telefone tocar.
-Noêmia, você viu meu pai?
-Não está no escritório, William?
-Já bati lá, mas nem sinal.
-Que estranho, eu o vi agora há pouco lá dentro- o telefone continua tocando- Ah, as empregadas continuam relapsas... Eu vou ver quem é. Mas veja se não está no quarto dele, meu querido.
-“Tá”, valeu.
O adolescente encontra a porta entreaberta e bate nela. Não há sinal de que Plínio esteja no quarto. Logo pensa em sair, mas lembra da madrugada em que leu trechos do diário de Letícia. Rapidamente, se aproxima da estante pessoal do pai, abrindo a terceira gaveta. William olha para os dois lados, presta atenção se os passos de alguém se aproximam. Tudo tranquilo. Abre mais uma página, agora distante da que leu naquele dia, o mesmo em que Bruno esperava pra ser liberado do depoimento sobre a morte do Abílio.
-Não demorou muito para que nós assumíssemos uma relação após a morte da esposa dele. Cheguei a advertir de que era muito cedo, que ele deveria respeitar a dor do filho, que precisava manter as aparências, pois seria um choque muito forte pra todos. Plínio se negava veementemente a aceitar o meu conselho. Pensava em mim, e mais nada. Ficou como uma criança quando, dois meses depois, anunciei que esperava um bebê. Um fruto do amor que sentíamos. William foi muito paparicado, mimado por nós dois. Tentei me aproximar de Bruno, mas ele era um adolescente irredutível. Aliás, continua sendo. Não aceita nenhum gesto de carinho da minha parte. Com o pai, acha que é culpa.
Dando conta de três pessoas na casa, entretanto, passei a perceber que me tornei justamente aquilo que era Helena, a primeira mulher de Plínio: uma dona-de-casa, prendada, e que estaria acostumada sempre aos desmandos do marido...
A leitura é interrompida por Plínio, que tira o diário das mãos do filho caçula.
-Posso saber o que está fazendo?
-Só “tava” lendo o diário da minha mãe.
-Não mais. É meu. Passou a me pertencer depois que ela faleceu.
-Por que o senhor não me deixa ler? O que tem nele que eu não posso ver?
-São particularidades de sua mãe, coisas que ela não gostaria de dividir com ninguém. Será que pode respeitar isso?
-Calma, pai, não precisa falar assim.
-Então, prometa por tudo que for mais sagrado que vai me obedecer e não abrir mais esse diário.
-Me explica, pai...
-Prometa de uma vez por todas, William.
-Tudo bem, eu prometo.
-Agora vá tomar o seu remédio. Mesmo tendo tirado o gesso, o médico disse que você precisa do anti-inflamatório.
-Licença- diz, contrariado.
Fechando a porta de seu quarto, Plínio põe a mão sobre o molho de chaves que está sobre a estante e guarda o diário de Letícia, trancando-o e guardando o molho no bolso.
-O que será que ele pode ter lido? Não quero nem imaginar...
-Doutor! Doutor!- Noêmia insiste em bater na porta.
-Já vou! O que houve agora, Noêmia?
-Ligaram da Clínica San Pillar.
-O Bruno piorou?
-Ele fugiu.
-Mas pra onde ele pode ter ido?

|||||

Já é a madrugada do dia seguinte. O estado febril de Bruno não cede, mesmo com os cuidados do Padre Felipe.
-O que vou fazer? Já tentei normalizar sua temperatura de todo jeito! Essa febre não cessa!
-Me tira daqui! Eu tenho que sair!
-Você não está em condições, meu filho. Sua saúde está muito debilitada, mas você não me deixa chamar um médico.
-Não vou pro hospital! Quero ver... A minha mulher... E procurar... A polícia.
-Polícia? Como assim, do que está falando?
-Estão pensando que eu... Matei o Abílio... Mas eu não fui... Foi a irmã da Virna... Ela armou uma emboscada pra mim... Pra me incriminar... Dizer que eu sou o culpado...
-Meu filho... Você está sendo procurado pela polícia?
-Não me deixa sozinho, Padre... Todos querem me prender, me colocar na cadeia. Prometa que não vai deixar acontecer isso comigo... Me prometa!- Bruno segura, tremendo, a mão do padre, que não sabe o que responder ao arqueólogo.

04/11/2014

MENTES/ CAPÍTULO 17: ME ENCONTREI FALANDO SOZINHO, SIGO SEMPRE SEM DESTINO PRA TE ENCONTRAR



Avançam alguns dias. Noêmia e Plínio vão à Clínica San Pillar para saber como Bruno está. São levados ao consultório do psiquiatra.
-Por favor, acomodem-se.
-Obrigada.
-Como ele está?
-Ainda se mantém agressivo. Claro, conseguimos dominar isso com a dosagem de calmantes, mas percebemos que, quando o deixamos sozinho, chora bastante. Chama pelo filho, pede perdão à esposa. Enfim, são cenas lamentáveis. Mas basta que alguém se aproxime que ele sai desse personagem frágil. Se transforma em outra pessoa com muita facilidade, de acordo com a situação que julgar conveniente.
-Doutor, não nos esconda nada: o que exatamente o meu filho teve?
-Tratou-se de um surto psicótico.
-Ele é esquizofrênico?
-Não, é muito certo para afirmar. Ele teve há algumas semanas, mas desde que chegou aqui não apresentou outras ocorrências do caso.
-Só que eu li uma vez que essas coisas eram sintomas dessa doença.
-De fato, são. Mas não é o caso do seu filho, Plínio.
-Mas então?
-Ao que me consta, seu filho teve uma realidade criada, uma vida que ele deseja ter. Na cabeça dele, as coisas deveriam funcionar da maneira que ele achasse conveniente.
-Como um padrão criado por ele?
-Isso mesmo. Eu creio que Bruno possuía total domínio das coisas e, por que não dizer? Das pessoas à sua volta também. Possuía um emprego estruturado, uma base familiar sem defeitos, começou um casamento se dedicando totalmente à mulher, comemorava a alegria de ser pai dentro em breve... Repentinamente, tudo aquilo que por ele foi orquestrado... Sumiu, como numa mágica.
-Doutor... Isso tem cura?
-O método mais eficaz, minha senhora, é ele ser restituído de tudo aquilo que perdeu- Plínio lembra das discussões que teve com o jovem- Em determinados casos, essa bomba explode por conta de fatos acontecidos na infância do paciente... Mas eu creio que os medicamentos podem impedir que episódios como esse voltem a acontecer.
-Quer dizer que ele vai ficar assim pra sempre?
-Não, Dona Noêmia. Entretanto, é necessário que Bruno colabore com o próprio tratamento.
-Eu posso vê-lo?
-Claro. Deixe-me apenas avisar à enfermeira, para que ela a leve ao quarto.
-O senhor não vem comigo?
-Não, Noêmia. Eu acho que ele vai gostar mais de ter você com ele agora.
-Por aqui, senhora.
-Obrigada.
-O senhor gostaria de uma água, de um café?
-Não, doutor. Pode levá-la até meu filho.
-Volto num instante. Venha, senhora.

|||||

Bruno está deitado em sua cama, quando a enfermeira traz Noêmia ao quarto. O rapaz fica surpreso.
-Noêmia?
-Meu querido... – corre para abraçá-lo- Como é que você está, meu amor?
-Pior, impossível. Isso não é pergunta que se faça, Noêmia... E a Giovanna?
-Ela não quer receber ninguém. Ainda está muito nervosa.
-Ela não quer receber ninguém ligado a mim, é isso que quer dizer.
-Meu querido, eu sei que você não tinha intenções de machucá-la. Mesmo porque ela esperava um filho seu.
-Aí é que “tá”, Noêmia. Vamos encarar os fatos. O que você pensa de mim, infelizmente não é o suficiente pra polícia, muito menos pra ela. Noêmia, você tem que convencê-la a vir aqui. Se ela estiver no hospital, procure a Giovanna. Eu tenho que convencer a minha mulher de que aquela arma não era minha!
-Se não era sua, meu amor... De quem era? Você disse que achou no sofá, não poderia ser do ladrão.
-Viu? É por isso que eu digo. Tem alguém tentando me incriminar!
-Mesmo assim, Bruno. Isso não vai te tirar daqui. O médico disse que você não teve apenas uma crise nervosa, um stress. Foi um surto psicótico.
-Baboseira! Surto eu vou ter no dia que eu descobrir o canalha que “tá” fazendo tudo isso. Já imaginou eu me vingando como Norman Bates? Encontro o desgraçado e... Vai ser divertido derrubar aquele box de loja de R$ 1,99... Visualiza a cena, Noêmia... – cantarola a famosa composição de Bernard Hermann utilizada na clássica cena de “Psicose”.
-Como é que você pode falar dessa forma, com esse sangue frio?
-Foi o que me restou, Noêmia. Mas não se preocupe. Eu não enlouqueci a ponto de esquecer da minha meta principal: conseguir o perdão da minha mulher. Até agora, eu consegui tudo o que eu quis, não foi?
-Bruno, me responde com sinceridade. Eu prometo que nunca mais toco no assunto, e que, independente da resposta, eu vou te apoiar sempre.
-Bastaram trinta segundos de conversa comigo e você encarnou o espírito de suspense do Hitchcock.
-Você tem alguma coisa a ver com essas mortes?
-Tenho. Eu só não sei o quê. Não apertei um gatilho no cartório, não detonei uma bomba no Pina... Mas algo em comum essas pessoas têm. A minha única culpa, a que eu vou carregar pro resto da minha vida, foi a de ter provocado aquele aborto. Mesmo que a Giovanna me perdoe, eu não vou me perdoar. Tirando isso, Noêmia, eu não mudaria uma vírgula do que fiz, nem do que sou.
-Confesso que eu sinto medo.
-De mim?
-Não. De imaginar quem mais pode morrer caso se envolva nessa sua estória.
-Ou eu mesmo ou o culpado verdadeiro. Se for a segunda opção, eu acho que teria que vestir o personagem assassino definitivamente.
-Não fale isso.
-Eu não sou de implorar por pena, nem quero que me olhem. Mas eu esperava que tivessem por mim. Eu vou lutar pelo perdão da Giovanna e por mim.
-Pra isso, você tem que se recuperar, meu querido.
-Se está tentando me dizer que eu tenho que sair daqui, fique tranquila. Nem o Sus me daria uma alta tão rapidamente quanto a que eu penso que vou receber...

|||||

Arrumando as malas, Marisa espera a filha, ainda abatida, sair do banheiro.
-Já podemos ir, querida? Eu vou chamar o taxista.
-Espera, mãe. Aquela viagem que você disse que ia fazer... Ainda “tá” de pé?
-Pra Maceió? Tive que cancelar, devido a todo esse problema. Mas por que a pergunta?
-Você teria que ficar por muito tempo, não é isso?
-Sim, mas de qualquer maneira, ela seria adiada. Pelo meu netinho. Quis acompanhar tudo de perto, e vou.
-Eu tenho uma proposta pra te fazer.
-Sim, meu amor, o quê?
-Remarca a viagem. Eu vou com você.
-Giovanna...
-Eu quero refazer a minha vida lá, mãe. Se não for lá, em qualquer lugar longe do Bruno, da família dele. Eu não quero que ninguém descubra que o meu filho ainda está vivo.
-Se é assim, será como você desejar, minha querida. Eu espero que você possa se refazer de tudo o que te angustia. Mas eu acho que você tem que saber como está o seu marido.
-Não. Vou te pedir pra não mencionar mais o nome dele quando estiver comigo.
-Está bem, querida. Vou ligar para agência e reservar a sua passagem. Ainda hoje embarcaremos para Maceió.

|||||

Bruno está agora sentado na cama, sendo alimentado por uma enfermeira. Chegou a hora do jantar. Curiosa, ela pergunta ao rapaz, quase monossilábico:
-Por que não quis jantar com os outros internos?
-Adivinha?
-Você tem que fazer um esforço, senão não vai sair daqui nunca.
-Nossa, como você é perspicaz e animadora...
-É verdade, Bruno. Tem que fazer sua parte. Eu vi que muitas vezes, você finge que toma os remédios.
-E finjo normalidade com uma proeza, não é? Será que é porque eu não tenho nada?
-Pensa que quanto mais você aceitar que não está bem, mais fácil será a sua recuperação.
-Tem razão. Então, as pessoas têm que ver que eu não estou me sentindo bem?
-Isso. Vai facilitar bastante a evolução do seu quadro.
-Enfermeira... – para de comer- A senhora “tá” vendo?
-O quê?
-A cama suja de comida, não “tá” vendo?
-Bruno, você está alucinando. A cama não está suja de comida.
Violentamente, Bruno pega a faca que está na bandeja do jantar e a derruba sobre o lençol, assustando a moça;
-Agora “tá”!
-Calma, Bruno. Não vai fazer nenhuma besteira- olha para a faca que o arqueólogo está segurando.
-Quem vai fazer alguma coisa aqui é você. Abre o portão da clínica. O primeiro grito que você soltar vai ser pra dar adeus à vida e a esse emprego mequetrefe que você arrumou. Passa na minha frente e abre o portão!

|||||

Felipe Verdelho, padre da Igreja Alagoana da Caridade, está em uma caminhonete. A estrada que liga Pernambuco a Alagoas está com problemas de iluminação. Ele está com sono, o que impede sua atenção na direção.
Bruno lamenta ter fugido da clínica.
-Mas que fim de mundo é esse que me internaram? Judas pensaria duas vezes em perder as botas aqui! Não importa... Não meço distância. Eu vou encontrar a Giovanna- acelera os passos- Vou pedir perdão, reconquistar a minha mulher, começar de novo quantas vezes eu precisar... – chora, abalado com os últimos acontecimentos- Perdi a pessoa que mais amava uma vez, perdi o meu filho, mas você não. Nasceu pra ser minha. E vou te trazer de volta pra mim. Não importa contra quem eu lute, quem eu enfrente... A vida que eu tracei pra nós dois vai se concretizar, meu amor. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza... Me dá força, mãe. Quanto tempo eu vou aguentar isso?
-Já estou perto de chegar lá?- sem querer, Felipe desvia bruscamente de um animal  e vai em direção ao acostamento, onde Bruno caminha na direção contrária.
-Cuidado!- grita o arqueólogo, ao perceber que a caminhonete vem ao seu encontro.
Felipe freia o veículo rudemente, mas acaba atingindo o rapaz, que rola por um pequeno deslizamento de terra, desmaiado e com um corte na testa devido à queda.
-Ave Maria santíssima... O que foi que eu fiz?- Felipe desce da caminhonete e fica atônito ao ver Bruno desacordado.

03/11/2014

MENTES/ CAPÍTULO 16: SONHOS LOUCOS PODEM ACORDAR

Naquela mesma noite, Valentina está com Leandro em casa, e está assistindo ao jornal enquanto o marido está na cozinha. Uma notícia chama a atenção dos dois.
-O arqueólogo Bruno Reinchenbach está envolvido em mais um escândalo. Ele foi acusado de tentativa de homicídio contra a esposa, Giovanna Reinchenbach, que está grávida de dois meses.
-Bruno de novo?- chega à sala Leandro, que escuta a notícia da cozinha.
-Ouve.
-Segundo informação dada pelo delegado Iago Pereira, Bruno sacou um revólver dentro de seu apartamento e atirou contra a esposa. Embora o disparo não a tenha atingido, o susto fez a professora de balé cair de uma escada, sendo levada por ele às pressas para o Hospital da Solenidade. Bruno foi ouvido no local.
-Caramba! Nem a esposa escapa desse doido!- enquanto Leandro comenta, Valentina sorri disfarçadamente.
-O boletim médico não foi divulgado. Essa é a terceira vez que o suspeito vê seu nome envolvido em um crime. Ele também foi relacionado ao homicídio de Virna Viana, sua secretária no Instituto Mentes, e de Abílio Cerqueira, homem de confiança de Plínio Reinchenbach. A expectativa é que pelo mais recente crime, o rapaz possa ser levado preso a qualquer momento. Daqui a pouco: preço da gasolina sofre alta em outubro; especialistas explicam a razão de... –a televisão é desligada.
-Leandro, me leva pra lá agora.
-Pra onde?
-Pro Hospital da Solenidade, você deve saber onde fica.
-Mas o que é que você vai fazer lá?
-Vou conferir se ele vai ser preso mesmo. Porque se for, eu não quero perder a justiça sendo feita.
-Tudo bem. Deixa eu pegar a carteira e a chave do carro. Me espera lá fora- Leandro vai até o quarto.

|||||

-Você... – Bruno deixa as lágrimas escorrerem rapidamente em seu rosto, enxugando-as em seguida- Você só pode ter se enganado, meu amor. Diz que o nosso filho “tá” bem... Diz, Giovanna, não faz isso comigo...
-Desde que eu me casei com você, eu não tive mais um minuto de sossego. Mas dessa vez você passou dos limites. Pôs a minha vida em risco, a do nosso bebê! Como é que você acha que eu posso te perdoar por isso, Bruno?
-Eu não tive culpa, nunca quis machucar você! Ainda mais no estado em você se encontra!- tenta se justificar.
-Que eu me encontrava! Você destruiu o seu próprio sonho de construir uma família, fez com que eu caísse daquela escada, escondeu uma arma dentro da nossa casa... Isso sem falar nos assassinatos que você se envolveu! Como é que você teve coragem de matar aquelas pessoas e voltar alegando inocência ou jurando amor horas depois?
-Pela última vez, eu não tive responsabilidade pelo que aconteceu ao Abílio e àquela mulher.
-Vai ser, sim, a última vez, Bruno. Eu tinha decidido que não viveria mais com você, pelo bem do nosso bebê. Depois do que aconteceu, não tem condições de reatar o nosso casamento.
-Giovanna, você não pode acreditar que eu causei esse aborto propositalmente.
-Propositalmente pode até não sido, o que eu não acredito. Mas você o matou. Você impediu o nosso filho de vir ao mundo, e isso não te torna menos assassino do que já é!
-Se tem alguém com quem eu me importo nesse mundo, esse alguém é você. Como você acha que eu poderia te tocar pensando em te machucar?
-Mas tocou, Bruno. E antes da queda, você já “tava” matando aquilo que eu sentia. O respeito, o amor, a admiração pelo ser humano que você demonstrou ser. Mas eu vi que tudo era mero jogo de cena. Uma pena que eu tenha descoberto tão tarde o monstro que você é.
-Não me deixa, Giovanna. Você é tudo que eu tenho.
-Eu seria, agora, tudo o que te restou. Mas eu não vou prosseguir com o seu teatro, Bruno. Mesmo que você se negue a me dar o divórcio, eu não pretendo nem vou reatar essa farsa de casamento. Nunca mais se aproxime de mim.
-Giovanna, você tem que me ouvir...
-Vai embora! Vai! Some daqui, assassino! Vai embora do meu quarto! Da minha vida, some!
Abalado com os gritos de Giovanna, Bruno acata as ordens da moça, saindo lentamente do quarto. Giovanna se sente sufocada pela mentira inventada.

|||||

Na cantina do hospital, Iago e Plínio tomam um café.
-Por que você me convidou pra tomar esse café?
-Eu estava acompanhado da minha governanta, que sempre foi como uma mãe pro meu filho. Não queria que ela ficasse preocupada.
-Preocupada por qual motivo, Dr. Plínio?
-Delegado... Eu quero saber quais são as chances de meu filho ser detido.
-Sinceramente... Elas não são remotas. Depois de ter tomado o depoimento de Bruno, e considerando que ele é reincidente em acusações de assassinato e tentativa de homicídio, é impossível acreditar na inocência que ele tanto alega.
-E o senhor não acredita?
-O senhor acredita?- Plínio empalidece diante da pergunta.
-Desculpe, mas eu acho que minha opinião não conta.
-Se me permite ser mais franco do que já sou, Dr. Plínio, o senhor é o que menos acredita. Aliás, é o que mais acredita na possibilidade de Bruno ser capaz de qualquer coisa.
-Convenhamos que meu filho não é a pessoa mais normal do mundo. Bruno é muito fechado, não é de expor seus melhores sentimentos. Mas se trata agora da mulher dele, da pessoa com quem ele escolheu dividir a vida, que dará a luz a um filho dele. Por que ele teria motivos para matá-la?
-Razões pra isso ele tem, doutor. Giovanna é uma espécie de porto seguro. Veja bem: se o senhor, sendo pai dele, foi enfático em suas denúncias, essa moça representa o apoio que Bruno não teve no senhor. Uma hora, ela deve ter cansado... Afinal, como poderia prosseguir grávida num casamento marcado por tantas suspeitas e acusações? Pra mim, Giovanna deve ter dito ao seu filho que não queria mais continuar vivendo ao seu lado, e ele tentou impedi-la.
-Acha mesmo?
-Já vi casos em que o acusado alegou um assalto cometido por terceiros pra esconder algo mais grave. Os crimes dos quais Bruno é acusado só têm uma coisa em comum: as vítimas desafiaram a estabilidade dele, seja no campo profissional ou pessoal. A maior de todas certamente é a Giovanna. Embora ela não assumisse, era visível o seu desconforto em meio a tantos escândalos.
-O que vai fazer agora?
-A opção que seu filho me deixou: darei voz de prisão a ele.
-Não!- chega Noêmia- Eu não vou permitir que vocês prendam o meu menino! Bruno é inocente! Eu sei que ele é inocente!
-Sinto muito, senhora, mas querendo ou não, Bruno tem muito a explicar à justiça. E eu o farei acertar essas contas pendentes. Com licença- levanta-se da cadeira, deixando a governanta aflita.

|||||

Num quarto de bebê, todo decorado e sem ninguém, Bruno entra e continua chorando, num misto de infelicidade e confusão, por não acreditar na morte do filho. Aos poucos, vai se abaixando, encostado à parede azul. Pela grande vidraça, Valentina vê o desespero do jovem arqueólogo. Entra sem fazer barulho, aproxima-se dele e fala em seu ouvido.
-Sentiu?
Rapidamente, Bruno se assusta com a presença.
-Sentiu o quê?
-A dor de perder alguém que a gente ama muito. Você saiu na televisão, Bruno. Vai ser preso por ter tentado matar a sua mulher. E por matar o seu filho.
-O que é que você quer?
-Eu vim dar um “até logo”. A próxima vez que a gente se vir vai ser no dia da tua condenação.
-Pensa que vai acabar comigo, sua desgraçada?
-Você não precisa de ninguém pra fazer isso. Se sujou sozinho, Bruno.
-Ainda com essa ideia idiota de que eu matei a sua irmã, aquela golpista?
-Pela morte da minha irmã, você não vai ser condenado. Infelizmente, ninguém tem prova disso. Mas pelo que você fez à sua mulher e ao seu filho... Não tem como escapar.
-Sai daqui! Me deixa sozinho!
-Sozinho é como você vai ficar de agora em diante. Você quase matou a pessoa que mais te amava, e não poupou nem a vida do seu filho.
-Para de me torturar, para!
-Isso nunca vai te deixar em paz. Enquanto você respirar, enquanto tiver vida... Essa culpa vai te seguir.
-Me deixa em paz!
-A Virna, o Abílio, o seu bebê... Todos assassinados por você!
-Cala essa boca!- Bruno pega um vaso de flores e joga contra Valentina, que se desvia.
-Agora, sim. Agora eu posso me sentir vingada. Já acabei com você.
-Mas eu ainda não acabei com você- segura o pescoço de Valentina- Vai continuar me provocando? Vai? Fala, miserável!
-Quer mais um crime pra sua lista?Você não esconde a vontade de que joguem a chave da sua cela fora, não é? Me mata, Bruno! Por que você não pega aquele revólver que você encontrou na sua casa e acaba comigo? Encerra essa estória de uma vez!
-É isso que você quer? Que eu me denuncie sem ter feito nada? Que eu assuma a culpa pela morte da vagabunda da sua irmã, aquela cadela...
Bruno leva uma bofetada, mas revida violentamente contra Valentina, que não se intimida diante do descontrole do rapaz.
-Viu? Mais uma prova de que você não presta... – percebe que há sangue em sua boca- Fica aí, pensando numa forma de fugir. A polícia “tá” lá fora, te esperando. Finalmente você vai ter o seu castigo. Demorou, mas a Virna foi vingada. Cada gota de sangue que você derramou foi justificada. Monstro!
Valentina abre a porta do quarto e o espia pelo vidro. Bruno estava de costas, e não a vê mais naquele momento. De repente, ele passa a enxergar vários buracos na parede do quarto, como o que ele fez quando atirou dentro de seu apartamento. A voz de Valentina pedindo para ser morta ecoa em sua consciência.
-Por que esse castigo? Por quê?- Bruno se encosta na mesa onde estava o vaso de flores, e lembra da noite em que estava na casa de Abílio.
-Confessa! Que se você tivesse coragem, pegava essa faca pra me matar? Hein? Fala, covarde! Claro que não vai assumir isso... Mas sua cara já diz o ser baixo que você é!
-Para de falar comigo, desgraçado! Eu não te matei!
-Você é o responsável pela morte dele! Você acabou com a vida do Abílio pra que ele não conseguisse te denunciar! Mas é exatamente isso que eu vim fazer agora- repete Plínio, nas lembranças que o perseguem.
-Você é o culpado de tudo! Desgraçado! Eu vou acabar com você!- começa a desforrar a cama, e a quebrar tudo que tem em volta do quarto.
-Fique sabendo que cada palavra, cada mentira que você inventou da minha irmã... Você vai pagar. Se não for aqui, vai ser no inferno- a voz de Valentina retorna à sua consciência.
-Aquela vagabunda merecia morrer! Tentou acabou comigo e com o meu casamento! Tinha que morrer! Mas não fui eu! Não fui eu! Eu não matei ninguém, eu não quero matar ninguém!
-E sabe de quem é a culpa disso? Somente sua! Foi você que matou o nosso filho, Bruno!
-Giovanna, não! Eu não fiz de propósito! Foi uma armadilha! Me perdoa!- se joga no chão, em meio aos vidros quebrados e a bagunça por ele provocada.
Noêmia escuta o barulho e pede ajuda aos médicos que passam perto do quarto.
-Chama a ambulância, temos que levá-lo agora!
-O que está acontecendo- Plínio corre pra saber o motivo da confusão, sendo acompanhado por Iago e Leandro.
-Ele ficou louco! Me bateu, quebrou o quarto, “tá” falando sozinho!- Valentina finge fragilidade a abraça Leandro.
-E agora, Dr. Plínio?- Noêmia se desespera ao ver o estado lamentável de Bruno.

|||||

São onze e meia da noite, quase duas horas desde o último fato. Todos os pacientes estão dormindo. Alguns funcionários da Clínica San Pillar estão caminhando pelo espaço sem imaginar quem vai chegar. Uma ambulância estaciona na porta do local. Dois enfermeiros trazem um jovem de olhos vermelhos, marejados, e que juravam inocência. Envolto numa camisa de força, Bruno pedia insistentemente para que os seus opositores parassem de agredi-lo com acusações. Seus gritos de desespero acordavam os internos.
Os nós da vestimenta somente são desatados quando Bruno é levado para um quarto branco, com uma cama forrada de azul. Tenta fugir ao sentir seus braços livres.
-Me tira daqui! Eu quero ver a minha mulher! Tenho que pedir perdão a ela! Ela quer se separar de mim, não podem deixar!
Um dos enfermeiros segura o arqueólogo enquanto o outro injeta um calmante em seu braço. Bruno demora a se aquietar, mas ao sentir o efeito do remédio, ainda chorando muito, é posto sobre a cama. Antes de adormecer completamente, os enfermeiros o acomodam. Nada mais é dito pelo jovem, que olha lentamente para os lados com muito medo. Passados quatro minutos, a porta do quarto é trancada.