20/02/2016

MENTIRAS ESCANCARADAS/ CAPÍTULO VIII: LONELY RIVERS SIGH "WAIT FOR ME, WAIT FOR ME"


O carro de Coelho é estacionado em outra garagem, num prédio próximo ao cativeiro de Antonio. Dara continua com os olhos vendados, trajando um casaco por conta do tempo frio. O vilão abre a porta do carro para a juíza.

-Desce- após a ordem, a moça lhe obedece- Tira a venda.

-O que você vai fazer comigo?

-Tira a venda, rápido!

-Pronto.

-Vamos agora fazer o meu jogo de sedução.

-Eu já vou logo lhe avisando que...

-Você não está em condições de me exigir nada.

-O que é? Por acaso você vai me possuir aqui mesmo?

-Mais ou menos. Mas eu farei com você umas preliminares, para apimentar mais a nossa relação.

-Não temos uma relação, Coelho.

-Não até os próximos dez minutos. Tira o casaco.

De má vontade, a juíza obedece, mas joga a vestimenta no chão.

-Que mais?

Coelho ativa o toca-fita do carro e trata de pôr "Meu Bem, Meu Mal", tema de abertura da novela homônima que estava passando.

-Botei pra dar um clima.

-Ah, não! Eu não vou dançar o tema de abertura de uma novela daquela emissora manipuladora, sem caráter, parcial, e que me incitou a votar no...

-Dança a música ou eu mato teu namorado.

-Meu bem, meu zen, meu mal... –Dara canta apavorada e joga os braços de um lado para o outro, em uma coreografia enigmática. Enigmática porque na cena da redação da revista ela dançou melhor.

-Agora, bota o casaco e continua dançando- Dara volta a obedecê-lo- Tira o casaco.

-Como é?

-Continua dançando e tira o casaco.

-Tá!- a juíza arremessa o casaco para o carro do antagonista.

-Bota o casaco.

-Qual o seu plano, afinal?

-Jogar sua reputação na lama com essa cena ridícula.

-Ah, obrigada, como se o autor não tivesse feito isso a novela inteira.



/////



A próxima empreitada da dupla é chegar ao lugar onde Antonio está. A juíza volta a ter os olhos vendados, enquanto Coelho se prepara para entrar no cativeiro. O vilão coloca Dara em frente à porta, ainda do lado de fora.

-Você fica aqui. Tem uma porta bem na sua frente. Você só vai abrir quando eu mandar. E nada de tirar a bandana dos olhos.

-Antonio tá aí dentro?

-Não se preocupe, logo você vai vê-lo. Já ele, né? Nada de destampar os olhos, eu estou vendo você.

Coelho entra e encontra Antonio, que finge não vê-lo.

-Quem está aí?

-Quem mais, demente?

-O que é que você quer comigo?

-Com você? Quero de você, uma pessoa que te pertence- vai para a cozinha.

-Não chega perto de Dara, senão eu... – vira-se para Coelho.

-Senão o quê, Antonio? Eu não tenho mais nada a perder, mas vou arrastar sua Dara pro mesmo buraco- Coelho desliga o registro de água e retira uma torneira da pia- Além disso... Eu não vou chegar perto de Dara. Chegar perto é muito pouco do que vou fazer com ela.

-Desgraçado!

-Pode abrir a porta, Dara.

-Antonio... – Dara corre para abraçá-lo.

-Calminha aí, minha filha- Coelho encosta a torneira nas costas de Antonio- Se der mais um passo, eu acabo com ele. E você sabe o que tem que fazer pra conseguir Antonio de volta.

-O que vai fazer? Me ameaçar com uma torneira de novo e fazer Dara acreditar que é um revólver?

-Torneira?- Dara estranha.

-Esse daí não mata nem barata. Está te chantageando à toa.

-Não, espera um minuto. Como é que você sabe que ele está com uma torneira na mão?

-E não é só disso que eu sei. Descobri também que o Dr. Coelho não sabe apertar bem cordas- Antonio levanta e se livra das amarras- E agora? Como você vai nos ameaçar?

-Muito bem, Antonio. Realmente eu não esperava tanta perspicácia da sua parte. Mas só tem um inconveniente: nós três estamos no meio do nada. Como farão pra voltar?

-Muito simples, caro Coelho: estamos numa barraca da praia de Piedade. Uma barraca que você alugou de um vendedor de coco, provavelmente por imaginar que esse seria o último lugar que a polícia me procuraria. Dara pode ir até um orelhão e dizer a locação exata de onde estamos.

-Maldição!

-Antonio, como você sabe de tudo isso?

-Porque depois daquela noite de chuva e visita íntima, eu recuperei a minha memória.

-Você não estava cego?- enquanto isso, Coelho anda pé ante pé até a porta da barraca.

-Ah, é, mas é que nas novelas a gente costuma perder a memória                                 .

-Mas por que você não me disse que tinha voltado a ver?

-Porque quando eu ia te contar, a mulher dele apareceu dizendo que você tinha recebido dinheiro pra ir pra cama com ele. Resolvi simular a continuação da minha cegueira pra averiguar se era verdade ou não o que aquela desequilibrada disse!

-Mas não é mais desequilibrada do que eu!- brada Coelho, que puxa com força o braço de Dara, fazendo-a correr com ele pela areia da praia.

-Não se eu puder impedir- o heroico engenheiro, que resolveu pôr a cachola pra funcionar no último capítulo, avisa.

Sabe-se lá como ou por que, duas lanchas estão na beira da praia. Coelho resolve roubar uma e tenta colocar Dara lá dentro.

-Me solta, desgraçado!

-Eu não vou deixar aquele engenheiro te roubar de mim.

-Eu nunca fui sua, me larga!

Esforço em vão: Dara é colocada na lancha. Mais veloz que Usain Bolt, Antonio vê a lancha zarpar e sobe na outra para comandá-la. A partir daí, o que se vê é uma perseguição violenta. E quando eu digo "violenta", é porque é um atentado contra a verossimilhança MESMO!

-Solta a minha mulher, desgraçado!

-Minha mulher! Perdeu, Antonio. Dara agora vai ser minha.

-Eu não sou de ninguém, esses machos não me registraram em cartório! Me solta, Coelho!

-Nunca!

Antonio acelera e fica junto à lancha comandada por Coelho.

-Você acha mesmo que vai conseguir me alcançar?

-Claro que sim, fui eu quem projetei essas lanchas. Larga a minha mulher agora!

-Por que você não pede "por favor"? Quem sabe, assim, eu te atenda?

-Você vai ver o "por favor" já, já!

-Socorro!- Dara grita.

Antonio encosta o veículo na lancha de Coelho e pula para o local onde estão Dara e o rival.

-Agora é com a gente!

-O que é? Pensa que eu tenho medo de você?

-Devia começar a ter!

-Pelo menos eu não sou uma presa fácil na mão de bandidos.

-Pelo menos eu não ameaço meus inimigos com uma torneira.

-Isso já foi pessoal- Coelho parte pra cima de Antonio, e os dois travam uma luta em que não conseguem disparar um único soco. Dara corre para o controle da lancha e encontra um sinalizador. Ativa o objeto, mas percebe que há um píer a poucos quilômetros, e que as lanchas estão indo na direção do local. Ela tenta parar a lancha, mas não sabe pilotar.

Coelho dá um soco em Antonio, que cai praticamente desacordado. Em seguida, agarra Dara pelos cabelos.

-Dara...

-Tá vendo isso daqui?- aponta para Dara- Nunca mais você vai ter na sua vida! Eu venci, Antonio!

-Não toca na minha juba, salafrário!- em um golpe de misericórdia, Dara atinge a cabeça de Coelho com um golpe do sinalizador, fazendo-o cair na lancha, perto do controle. A juíza coloca Antonio nos braços e pula no mar com ele. As lanchas se distanciam uma da outra, mas a que Antonio comanda segue em linha reta. Esta passa sobre a região que a jovem nada para chegar à superfície com o amado.

O antagonista recupera os sentidos e vê o píer. Desesperado, faz uma manobra e vira a lancha para a esquerda, freando logo em seguida, ainda no meio do mar, suspirando de alívio até que...

-Ô-oh... – ele vê a lancha vindo à direção daquela que roubou. Os veículos colidem e explodem.

Dara e Antonio presenciam a explosão e se abraçam na água.

-Acabou. Finalmente acabou.

Você é que pensa, Dara.



/////



A correnteza do rio vai levando aquela... Opa, quase que canto a música do Djavan! A correnteza arrasta Coelho para uma praia de Porto de Galinhas. Ao abrir os olhos, a primeira coisa que vê é uma asiática voluptuosa trajando um maiô vermelho.

-Fui deportado?

-Parece que você bebeu muito e veio boiando até aqui. Coitado.

-Onde eu estou? Tóquio?

-Porto de Galinhas. É que eu sou turista.

-Ah, muito prazer. Prazer imenso...

-É que sempre que preciso de inspiração, venho pra cá.

-Inspiração pra quê?

-Sou desenhista de mangás voltados ao público adulto. E sempre que venho pra cá presencio muitos romances, o que dá margem para ótimos enredos.

-Mangás adultos, é? Por que você não fala sobre suas próprias paixões?

-Porque eu não tive nenhuma.

-Olha, quem sabe eu posso dar uma consultoria?

-Você entende de romances calientes?

-Entendo de mulheres que mexem com o imaginário masculino. De certa forma, sei o que um homem precisa ter para fazer o nascer o interesse na mulher. Qual o seu nome, bela gueixa?

-Zigoto Shineray.

-Pois bem, eu vou te prestar uma consultoria.

-Não vai dar, eu tenho que voltar hoje pra lá. Mas você pode vir comigo, no meu jatinho, e explicar suas ideias pra editora.

-Está me convidando pra ir ao Japão?

-Por que não?

-Tem razão. Estou mesmo precisando mudar de ares. E aposto que a convivência com você vai ser muito interessante. Extremamente.



DEPOIS ISSO, NUMA CERIMÔNIA FÚNEBRE...



-ME LEVA COM ELE! ME LEVA COM ELE!- Thaynara faz um escarcéu na missa de sétimo dia de Coelho, com uma urna com as cinzas do marido. Na verdade, com as cinzas das lanchas que explodiram.



SETE ANOS DEPOIS (PULANDO MAIS QUE CANGURU NUMA CRONOLOGIA ESTAPAFÚRDIA)...



Thaynara anda tranquilamente pelas ruas do bairro do Ibura (sim!) e bate à porta de uma casa. Dara atende.

-Amiga!- cumprimenta-lhe com um abraço.

-E aí, menina? Tás ótima?

Não, você não está lendo errado. Dara e Thaynara viraram amigas. Afinal, nunca disputaram homem nenhum, não é? Para esse desfecho, a explicação é simples: foram encontradas diversas irregularidades nas contas de Coelho. O confisco, depois de sua suposta morte, fez Thay se tornar baby cítrica... Digo, baby sitter. E o seu sustento vem da educação que dá aos cinco gêmeos que a fértil Dara teve com Antonio: Luiz Carlos, Alexandre, Anderson, Netinho e Carol... Caroline! Percebeu a piada? Não vou explicar mais nada.

-Final de semana, né? Largo do emprego e os meus filhos não largam de mim.

-Como é que você faz pra manter as crianças entretidas quando eu não estou aqui?

-Boto elas todas pra ver programação infantil.

-Dara, são quatro horas da tarde do sábado. Que programa infantil está passando?

-Sei lá, mas é com uma loura que cantava "Pinel por você" na época que engravidei deles.

Luiz Carlos, Alexandre, Anderson, Netinho e Carol... Caroline... Estão vendo a entrevista que Xuxa faz com Suzana Vieira. E ficam embasbacadas.

 -Chiquíssima, maravilhosa, sorridente, suculenta, vitaminada!

-É pra programa jovem, né, filha? Roupa de programa teenager! Ha! Ha! Ha! Ha!    

-Aê, comadre!

-Se o programa fosse de manhã, como você tem, teria um outro traje.

-Xuca?

-É. Eu tinha feito, mas a minha cabeleireira Ruddy achou que eu ia competir com seu (CENSURADO!)!

Só o que posso dizer é que Suzana não usou um bom sinônimo para o aplique da apresentadora.

Voltando às vitaminadas e suculentas...

-E aí, menina? Conta as novidades.

-Arrumei um bico na casa de um empresário que está passando férias no país com o filho pequeno, Henry. Até já me chama de "mamãe".

-A criança?

-O pai também. Deve ser mensagem subliminar.

-Ele paga bem?

-Paga bem e me lança olhares sedutores. Pensando em renovar meu passaporte porque finalmente eu vou me livrar das dívidas e do fantasma do Felipe.

-Arrasa!

-Pra onde você vai?

-Ver se o tal do "Titanic" é bom.

-Leva um lencinho, amiga. Dizem que o filme é muito emocionante.

-Imagina. Eu sou uma mulher bastante racional.



DENTRO DO CINEMA...



-Por que você não colocou o Jack na porta, filha da mãe?- Dara está pendurando num varal o quarto lenço que ela inundou de tanto chorar. E claro, constatando aquilo do que todos reclamam.



JÁ DO LADO DE FORA...



A jornalista Bella Café está na porta do UCI do Shopping Recife.

-Em poucos dias de exibição, o longa-metragem "Titanic", de James Cameron, atraiu milhares de brasileiros para as salas de cinema. Vamos entrevistar algumas pessoas que viram o filme para saber a opinião sobre a produção. Moço, qual é o seu nome?

-Fred Fonseca.

-E sua profissão?

-Professor. Não é crime, não, né?

-Por favor, qual a sua opinião sobre "Titanic"?

-Jack cabia na porta. É muito sem sentido Rose deixar o cara congelando. Até Jim Carrey passando um dia sem mentir é mais convincente.

-Você já ficou um dia sem mentir?

-Sim. Minto todos os dias na escola onde atuo, dizendo que sou professor quando sou apenas um estagiário latino-americano sem dinheiro no banco... – percebe que está sendo filmando- Isso não vai pra TV, vai?

-Pra internet. Mas tudo bem, pouca gente tem. Por isso que "Explode Coração", aquela novela das conversas pelo computador, foi taxada de louca. Obrigada. Vamos entrevistar aqui outra pessoa. Qual é o seu nome?

-Robson.

-Ela é sua namorada?

-Sim, a Débora.

-O que vocês acharam do filme?

-Muito bem feito, a estória é incrível e a direção é tão espetacular que... Robson, quer parar?

-Parar com o quê?

-Você me fez perder o capítulo de "Anjo Mau" pra assistir a esse filme demais de duas horas pra ficar olhando pra outra?

-Débora, eu não tava olhando pra ninguém.

-Eu não saí de Itapissuma pra ser chifrada em rede nacional! Vamos pra casa agora.

-Mas Débora...
-Não quero ouvir nem um pio!- Débora puxa o namorado pela orelha. Constrangida, Bella tenta entrevistar Dara.
-Com licença, pode me dizer o que achou de "Titanic"?
-Prefiro "Ghost"!- estabanada, Dara derrama toda a pipoca na camisa de Antonio- Antonio? O que está fazendo aqui?
-Cumpri a sentença de sete anos por ter roubado a lancha.
-Como é que você soube que eu estava aqui?
-A babá dos meus filhos, que por sinal é a doida da Thaynara, me contou. Aliás, por que eu nunca soube que tinha cinco filhos?
-Porque eu achei que você não fosse mais me querer. Depois da gravidez eu fiquei muito flácida.
-Mas não menos gostosa.
-Bom, é resultado de um filme que vi ano passado: "Striptease". Me inspirei na Demi Moore e fique um pouco marombada.
-Como se precisasse...
-Você não sabe a saudade que eu senti de você.

-Dara, eu quero te pedir uma coisa. Vamos encerrar logo essa novela antes que o autor invente alguma coisa pra nos separar de novo.

-Sim, concordo. Minha reputação tá mais suja que o Tietê.

-Mas antes, tem uma coisa que eu não tive chance de dizer em oito capítulos.

-O quê?
-Eu te amo.
-Mas não mais do que eu amo você. E também ao seu salário de engenheiro, pois é ele que vai dar conta da cria enorme que a gente tem e da hidratação do meu cabelo.
-Vamos pra casa repetir uma cena de "Ghost", que era nosso filme predileto?
-Aquela que o Sam e a Molly se amam ao som de "Unchained Melody"?
-Não, a que a Oda Mae usa a identidade falsa de Rita Miller e dá um golpe de quatro milhões, já que estou desempregado há sete anos!
O longo beijo de Dara e Antonio poderia encerrar o capítulo se na praça de alimentação não estivesse se apresentando uma banda de rock chamada Manjericão e Os Trapaceiros, que costumeiramente se apresenta com clássicos. Tire o cavalinho da chuva que ninguém vai tocar Barão Vermelho.
-Cheia de manias, toda dengosa, menina bonita, sabe que é gostosa. Com esse seu jeito, faz o que quer de mim, domina o meu coração. Eu fico sem saber o que fazer. Quero te deixar, você não quer. Não quer! Então, me ajude a segurar essa barra que é gostar de você! Então, me ajude a segurar essa barra que é gostar de você!
-Antonio, tá todo mundo olhando nosso beijo.
-Então, me imita e finge que não tá vendo nada!- Antonio vira Dara num beijo tão romântico que a coluna dela pode acabar naquele instante, não fosse a flexibilidade de nossa musa.
-Didididididiê, didididididiê, iê, iê, didididididiê...

FIM

13/02/2016

MENTIRAS ESCANCARADAS/ CAPÍTULO VII: DESCE MAIS UM POUQUINHO (O NÍVEL!)

Num golpe de misericórdia (ou de insanidade, como quiserem interpretar), Dara abre a bolsa, olhando fixamente para Coelho e a joga pela janela. Os executivos se levantam diante da audácia. Menos Wilson porque... Não é um executivo.
-Você é mesmo perigosa. Jogou fora o dinheiro de todos esses Zé Ruela.
-Na bolsa, além da grana deles, tinha também aquele um milhão que você depositou na minha conta.
Desesperado, Coelho desce os vinte andares de escada, sendo seguido por um cover do Paulinho da Viola, que canta loucamente "dinheiro na mão é vendaval". Quando chega ao solo, percebe que dez mendigos já abriram negócio com a quantia desperdiçada.
O empresário se ajoelha no meio do asfalto e começa a chorar como um bebê. Perspicaz, Dara vem de elevador e confronta o empresário mais uma vez.
-Você não podia fazer isso comigo!
-E você? Pode me comprar? Tire seu cavalo da chuva, Coelho.
-Pare de misturar animais numa frase só!
-Eu disse que não ia aceitar seu dinheiro. E avisa pra sua mulher que da próxima vez que ela for à minha porta, ela vai participar das Videocasssetadas do Faustão!
-Isso que você acabou de fazer vai ter troco!
-Não vai, não. Os mendigos não vão dar.
-Cuidado com aquilo que você mais ama. Porque eu vou te atacar exatamente lá.
-Então vai atacar uma travessa de lasanha! Palhaço!- enrola-se na toga e sai triunfante.
-Dara, Dara, Dara... Se você soubesse que eu sou o único vilão inescrupuloso dessa novela, você não teria feito isso. Mais cedo ou mais tarde, você será tão parte da minha cama quanto a fronha do meu travesseiro! Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!- a risada é seguida de uma trovoada em plena Avenida Conde da Boa Vista.

/////

O clima soturno continua. Num porão escuro, Wilson está com uma calculadora enquanto Coelho está se balançando no chão, com a mão na cabeça.
-A bolsa caiu!- avisa o advogado.
-Disso eu sei, eu estava junto da doida quando ela jogou pela janela!
-Me refiro à Bolsa de Valores do Estado de São Paulo.
-O que eu tenho a ver com isso? Estamos na Conde da Boa Vista, boçal!
-A maior parte dos investidores da revista vem de lá. Sabe como é. É o principal centro econômico do país.
-Deve ter caído por causa do confisco da poupança.
-Não. Despencou porque a notícia de que você tentou comprar uma juíza repercutiu mal.
-Como ficaram sabendo? Aqui no Brasil internet é uma coisa rara.
-As fofocas rolaram por secretárias eletrônicas. Tiraram fotos da confusão lá embaixo e enviaram às redações dos principais jornais paulistanos.
-O que isso quer dizer?
-Dr. Coelho, o quadro parece ser altamente irreversível, com perspectivas de represálias contra a imagem da Play Pause.
-Fala em português, Wilson!
-Felipe, tu tá mias sujo que pau de galinheiro.
-E tudo por culpa daquela juba diabólica de Dara, que me enfeitiçou.
-Ledo engano. A culpa é do cinto de castidade que você se recusou a colocar.
-Pode escrever, Wilson: aquela juíza vai se arrepender, porque eu vou me vingar.
-Quer bancar Carrie, a estranha, agora? Essa história de vingança só funciona em novela das seis!
-Esqueceu que você investigou toda a vida dela pra mim? Pois é daí que eu tirarei minha carta da manga. A ordem é usar o vulnerável cegueta do namorado dela pra chegar ao meu objetivo.
-O tal de Antonio? Mas como? O que vai fazer?
-Wilson, eu vou te contar um segredo- tira do bolso um rolo de esparadrapo.
-E o que... Glup... Você quer falar?
-Sempre há uma testemunha perigosa de nossas maldades: Thaynara, você... – ri diabolicamente enquanto se aproxima do advogado com o esparadrapo- Mas os mortos não falam.
Será que Dr.Coelho é parente de alguma vilã mexicana? Só pode ser.

/////

Sozinho em casa, Antonio se consome com a dúvida sobre o caráter da crush (e eu posso usar essa palavra à vontade porque "Crush" já existia em 1990). Dr. Coelho, mais maquiavélico que o cara que escreveu "O Príncipe", aparece na porta da casa da juíza e usa a tática dos vendedores ambulantes.
-Moça!
-Moça? Será que o Wando tá na minha porta?- Antonio decide satisfazer a curiosidade e abre a porta, ainda fingindo não enxergar- Pois não?- diz com um tom frio, reconhecendo Coelho.
-Boa tarde. Eu sou o Dr. Tortoni.
-Torloni? É parente da Christiane?
-Tortoni! Sou detetive particular, e descobri coisas medonhas sobre sua mulher.
-Dara? A gente sabe que ela não penteia o cabelo todo dia e que o passatempo preferido dela é dançar Pet Shop Boys pelada pelo quarto.
-Posso bem avaliar...
-Do que se trata?
-Sua mulher foi fazer um striptease na sala de reunião de um poderoso empresário chamado Felipe Almeida Coelho.
-Não. Não é verdade, o senhor está blefando. Além disso, eu sei que o senhor não é Dr. Tortoni coisa nenhuma, é o canalha do Coelho!
-Como sabe?
-Eu andei vendo umas entrevistas suas... Claro, antes do meu acidente.
-Antonio, não pense que estou blefando. Tenho provas cabais e carnais de que Dara esteve comigo. E sua cara de dúvida já te torna uma isca fácil para a mentira dos outros.
-Pois eu quero ver essas provas agora!
-Ver como, bocó? Está mais cego do que perdido em tiroteio... O ditado é assim?
-Se você veio até aqui, é porque tem as provas que diz. Caso seja alguma fotografia, pode deixar que eu passo a mão, porque conheço aquele corpo até em braile.
-As provas estão aqui mesmo, nessa casa.
-Em que parte?
-Vem comigo- Coelho fecha a porta e sobe às escadas, segurando na mão de Antonio para que ele não caia.
A quem estou tentando enganar? Coelho, ao chegar ao topo, empurra o arqui-inimigo, que desmaia. O pior é que ele nem desconfiou. Eta, bicho besta!

/////

Horas depois, Dara está num julgamento onde um homem é acusado de agredir verbalmente sua esposa. A juíza lê a sentença.
-O Réu José Aparecido Soares de Lima está condenado a quatro anos de prisão.
-Não, a senhora não pode fazer isso!- o acusado se levanta, furioso, mas é contido por um promotor.
-Não fui eu, foram os votos do júri. A punição será cumprida em regime fechado.
-Meritíssima, isso é uma calúnia! Eu nunca fiz nada pra minha mulher! Tudo isso é um complô dela com o amante, já que os dois foram surpreendidos por mim.
-Ora, por favor! Tivemos acesso à prova cabal do seu crime. Para se vingar, compôs uma música na qual diz claramente que o passatempo preferido da ordinária é ralar na boquinha da garrafa. Que ultraje! Os policiais já podem levá-lo. E se existe alguém que se oponha a esta sentença, que fale agora ou se calce para sempre.
-Eu!- Thaynara invade o fórum.
-Muito bem. Mas como eu não sou nenhum padre, qualquer interferência na condução desse julgamento seria plenamente ignorada. O que você quer, doida?
-Dizer que se existe alguém aqui que deveria ser condenada, esse alguém é você!
-Nós não vamos começar a discutir de novo. Todos sabem que além de ter um péssimo gosto pra homem, você é demente.
-Escuta, nunca passou pela sua cabeça de sentir vergonha por seduzir um homem casado?
-A falta de seletividade do seu marido não vai ser colocada nas minhas costas. Agora saia do meu local de trabalho.
-Nem pensar. Não até mostrar o que trouxe pra você.
-Thaynara, eu já devolvi o dinheiro do seu marido, o que mais você quer?
-A sanidade mental dele de volta!- abre a bolsa e tira uma fotografia, entregando-a para Dara- Dá uma olhada no que você obrigou Felipe a fazer.
Dara vê que a fotografia é Wilson amarrado e amordaçado por esparadrapos, jogado no chão do prédio da revista, trajando apenas uma samba-canção e com cara de desespero.
-Esse não é o advogado do teu marido?
-Gatinho ele, né?
-Sim, um ângulo ótimo o dessa foto.
-Concordo, amiga! Mas estou me referindo ao verso da foto!
-"Sabe onde está seu namorado cegueta agora? Talvez você precise ter certeza de que a sua casa não foi invadida por um meliante conhecido como Dr.Tortoni. Vai ver esse é o preço por não querer conhecer minha cama. Até breve, Meritíssima".
-Foi ele quem escreveu isso?
-Claro, eu conheço a letra do Felipe. Tenho pra mim que ele levou teu namorado e só vai devolver quando você fizer misérias com ele.
-Vou averiguar isso agora mesmo. Pode ser uma armadilha. Vem comigo.
-Pra onde?
-Pra minha casa. Vamos ver se você leva seu marido e ele devolve o meu homem.

/////

As belas chegam à residência da juíza à toda velocidade (e vamos ignorar que Dara desrespeitou todas as leis de trânsito, já que tem um gato morto no para-brisa). Ambas encontram a casa aparentemente normal.
-Antonio! Antonio, cadê você?- Dara corre pela casa toda e Thaynara fica nervosa.
-Ele passou por aqui, tenho certeza.
-Como sabe?
-Felipe não blefa, queridinha. Pra mim, ele sequestrou seu namorado e quer de resgate você num prato de sobremesa.
O telefone toca.
-Atende você, que eu estou muito nervosa.
-Eu? Eu sou visita, minha filha.
-Ai, sai da minha frente!- empurra a coitada da Thaynara no sofá- Alô?
-Encontrou o engenheiro cego?- Coelho liga de um orelhão. Bons tempos.
-Pra onde você levou Antonio, Coelho? Fala, desgraçado!
-Não vou entregar o ouro ao bandido tão cedo, meu amor.
-Fala! O que é que você quer? Se vingar de mim?
-Depois do que você fez, é o mínimo. Mas eu resolvi arrumar uma forma de te deixar em paz e, ao mesmo tempo, conseguir o que eu quero. Você vai pagar o resgate desse tal de Antonio.
-Quanto você quer? Porque eu não tenho como arcar com um milhão de cruzeiros.
-Sua ingenuidade é mais atrativa do que seu corpinho escultural e sua juba indomável... Pegadinha do Mallandro! Yeah, yeah! Eu quero você embrulhada pra presente amanhã, às oito horas, no estacionamento da Play Pause. Não invente de montar uma operação policial pra acabar comigo, porque além de estar em posse do seu namorado, ainda tenho um cartão com sessenta créditos, e posso botá-lo na linha se resolver torturá-lo.
-Coelho, libera o Antonio agora!
-Quem vai liberar é você. O Antonio e você mesma- desliga.
-Era ele? O que é que o Felipe quer?
-Acabar com a minha dignidade. Aliás, o autor dessa novela acabou comigo de um jeito... O que mais falta me acontecer?
-Dara, por que tem uma garrafa entre as suas pernas?
-Porque o autor é uma porcaria de dramaturgo e agora vai me fazer dançar uma música sob o pretexto de que está homenageando os anos 90.
-"Desce mais, desce mais um pouquinho!"...
O nível! Mas fizemos a Musa do Judiciário ralar na boquinha da garrafa, o que por si só seria muito ousado para a minha trajetória de dramaturgo porcaria. Se quiser ver gente pelada, troque de canal e veja "Pantanal"!

/////

Sabe Antonio, o engenheiro cego que deixou de ser cego e se tornou monossilábico porque só queremos saber de Dara nessa novela? Pois é. Está amarrado numa cadeira, perto de uma janela. Acorda e não sabe onde está.
-Aquele desgraçado me sequestrou- não me diga!- Eu preciso sair daqui... O que é aquilo?
Antonio vê que há várias cartas sobre a mesa, da qual ele está afastado. Aos poucos, ele vai pulando com a cadeira e se aproxima dos envelopes, que trazem o nome da rua na qual ele está.

/////

Dara chega ao estacionamento, bastante apreensiva, na hora que Coelho marcou. Não há nenhum veículo, e ela chega a pensar que ninguém apareceria, até que um automóvel em alta velocidade chega e vai em direção à juíza. Nervosa, ela chega a correr, mas o carro passa em sua frente e freia bruscamente. Coelho desce do carro com uma bandana preta.
-O tão esperado reencontro finalmente aconteceu.
-Cadê o Antonio, Coelho? Fala onde você colocou ele!
-Calma, Dara. Se eu tive coragem de levar seu namorado comigo, é porque eu realmente vou cumprir com a promessa de devolvê-lo. Só que você tem uma conta a acertar comigo.
-Como é que eu vou saber que você não está mentindo?
-Não tem como saber. Esse risco você vai ter que correr se quiser ver seu Antonio escapar com vida. Avisei no início do capítulo que iria te atacar onde mais doesse em você- aproxima-se da juíza colocando a bandana em seus olhos.
-Pra quê isso?
-Vou te levar aonde seu namorado está. Mas vou logo lhe avisando: depois disso, vai conhecer um homem de verdade.
-Quem? Tarcísio Meira?
-Já pensou em fazer "A Praça é Nossa"? Entra no carro agora!
Coelho conduz Dara até o banco do passageiro e sai calmamente com o veículo fazendo uma coisa que só os anos 90 permitiam: dar uma gargalhada fatal.

07/02/2016

ANOTE ("A NOITE", DA TIÊ)

As aulas não bastam,
Não dá pra entender
Mas por que não revisa em casa?
Para prova, lembro que anotou
Use bem o "porquê"
Vai aprender como usa.
No início é colocado
Das perguntas, mas olha:
Ele vem separado
Não coloque acento. Veja
Como usá-lo você.
Se mestre chega, anote
Assunto pra concluir
Aprovação na matéria
Que eu reviso aqui
Aluno logo reclama,
Mas não acerta questão;
Logo, reprova o conselho
Que lhe dá pontuação
"Porquanto" significa
"Porque" que se ajuntava
Essa palavra não acentuava
Eu repito: conjunção causal
Eu já identifiquei
Eu revi para as provas:
Há um terceiro "porquê"
Que eu indico no fim da pergunta, oh, fera!
Separe e ponha o acento, pois deve
Saber usá-lo você
Te contei tantos conceitos,
Que de um quase esqueceu
Um nunca acentuado
No início apareceu
A concepção não dita
Sobre o vocábulo dou:
Palavra substantiva,
Que artigo acompanhou

Se mestre chega, anote

Assunto pra concluir
Aprovação na matéria
Que eu reviso aqui
Aluno logo reclama,
Mas não acerta questão;
Logo, reprova o conselho
Que lhe garante pontuação

Pontuação

06/02/2016

MENTIRAS ESCANCARADAS/ CAPÍTULO VI: TUDO O QUE É BONITO É PRA SE MOSTRAR!


-Isso é mentira! Seu marido não me deu dinheiro nenhum!
-Você sabia que ele ia fazer isso, sim. Porque ele não consegue te tirar da cabeça.
-Eu não tenho culpa se aquele cachorro do Coelho cumpriu a palavra! Eu mesma não levei a sério.
-Cachorro do Coelho? Quando foi que essa conversa partiu para o mundo animal, querida?
-O que eu vou partir é a sua cara se você não sumir da minha frente!
-Dara, você está mais do que avisada! Não chega perto do meu homem!
-Grande coisa pela qual você tá lutando! Muito cômodo pra você jogar a culpa do fracasso do seu casamento em mim. Só não percebeu que ele poderia ter feito essa proposta absurda pra qualquer mulher!
-Mas não fez! E eu não entendo o que tanto ele vê em você. Sim, porque querendo ou não, eu, Thaynara Thais, sou gostosa...
-Os espelhos da sua casa são sinceros, ao contrário daquele dejeto de homem!
-Ah, obrigada!
-Por nada. E a propósito... – Dara devolve a bofetada que recebeu- Cortesia da casa. Só quem pode tocar nesses fios artificialmente dourados é Antonio, aquele rapaz escultural de cueca na minha cama.
-Ele deve ser cego, pra não perceber a sua vulgaridade, em querer tomar o marido das outras. Além do dinheiro!
-Thaynara, melhor você sair da minha porta agora, ou eu vou maquiar esse rosto com bisturi! Fora daqui!
-Melhor devolver cada centavo que Coelho desembolsou. A sua máscara caiu!
-Mas seus chifres continuam de pé! Vaza!
Enfurecida e dolorida, Thaynara volta para o carro. Antonio, a par de parte da história, corre para o quarto, e volta a se deitar na cama. Com medo de seu amado ter escutado a discussão, Dara sobe às escadas e volta para o quarto, onde o encontra fingindo que dorme. Sim, sobre aquela cama melada de leite.
-Zzzzzz...
-Antonio perdeu o café, e eu a pá pra recolher essa bagunça- vai para cozinha- Onde foi que eu deixei a...
O engenheiro estrategista (nossa, que pleonasmo!) levanta e começa a planejar alguma coisa...
-Se o que aquela doida falou for verdade, eu vou descobrir. Mas ninguém vai saber que eu sei.

/////

Thaynara volta pra casa, furiosa como que aconteceu entre ela e Dara. Seu marido está ao telefone.
-Sim, ela desapareceu ontem à noite. Não, eu não faço ideia de onde ela possa... – Thaynara abre a porta- Deixa, ela acabou de chegar. Obrigado. Tenha um bom dia- desliga o telefone- Mas o que deu em você? Onde é que você estava?- Coelho recebe um tapa na cara- Que é isso?
-Estou devolvendo aquilo que a sua amante me deu. Vou tomar um banho.
Coelho fica sem entender nada, mas eu queria uma cena dramática pra não fazê-los rir o tempo todo.

/////

Um jantar delicioso é preparado pela juíza mais amada da literatura mundial. Enquanto isso, Antonio fica com aquela cara de nada.
-Já provei e está muito bom- traz um prato quente. Abre a boca.
-Não quero nada. Tô sem fome.
-O que é que te deu?
-Nada? Por quê?
-Sua rispidez. Aconteceu alguma coisa?
-Já disse que não tenho nada.
-Antonio, eu vou arranjar uma vaga no trabalho e vou marcar uma consulta com o oftalmologista. Essa sua cegueira temporária está demorando demais pra passar.
-Te incomoda ter que cuidar de mim, ou me ver aqui dentro de casa? Porque se for isso, eu faço as minhas malas e volto pra casa da minha família.
-Deixa de drama, homem. Até parece que você quer se separar de mim. Ainda mais depois de ontem.
-Bons tempos aqueles de ontem. Eu era feliz e não sabia...
-Pode ser mais claro? Porque eu não entendi.
-Esquece. E amanhã? O que você vai fazer?
-Vou dar uma passada no banco, não lembrei que anteontem foi dia de pagamento.
-Quer que eu vá com você?
-Não precisa, amor. É coisa rápida. E aí? Vai querer comer ou não?
-OK. Me dá a sopa.
-Antonio, como você sabe que eu fiz sopa?
-Oi?
-Eu não te disse o que tinha cozinhado.
-Pelo cheiro- dissimula- E também porque você só sabe fazer lasanha, e isso você já fez ontem.
-Tá explicado.

/////

Exuberante como sempre, Dara não parece cansada nem mesmo depois de um extenso dia de trabalho. A Musa do Judiciário vai ao banco e é recebida na porta pelo gerente.
-Como vai, madame?
-Madame? Que é isso? Pra quê toda essa cerimônia?
-Como não sabe o porquê, Meritíssima? A senhorita é nossa maior cliente VIP.
-Aham. Vejo Impropérios Proferidos... Por você. Desde quando o gerente vai me atender na porta do banco?
-Nós estranhamos a sua ausência no dia que geralmente costuma vir.
-É que estive ocupada com um hóspede na minha casa... Ai, que hóspede... Enfim!
-Veio sacar o seu maravilhoso dinheiro?
-Fazer o de sempre, não é? Não sei qual é a surpresa.
-Hoje é diferente, Madame Dara. Aconselhamos que tenha trazido uma bolsa maior, se for mesmo retirar todo o depósito da sua conta.
-A Vara de Família me paga muito bem, mas não precisa dessa parafernalha toda. Os ladrões não vão me assaltar porque eu fiz aulas de defesa corporal... Claro, depois do pole dance, que está em alta na Inglaterra!
-Estão pagando maravilhosamente bem. E olhe que a senhorita não têm julgado casos notórios para ganhar um milhão de salário.
-Você bebeu?- Dara se mostra incrédula.
-Olhe, eu nunca pensei que a Vara de Família pagasse tão bem.
-E paga mesmo, até porque o último caso que julguei não era exatamente relacionado à família... Mas que história é essa de um milhão?
-Madame, a senhorita recebeu um depósito milionário na semana passada. E o dinheiro veio da conta de um empresário famoso: Felipe Almeida Coelho. Não o conhece?
-Conheço, sim. Estarei presente na hora da morte dele, porque eu vou esganar aquela porcaria de homem!
-Quer dizer que não vai retirar a quantia?
-Toda! Sem um centavo qualquer que falte. Esse dinheiro já tem destino certo, pode acreditar. Bem que o Collor poderia confiscar minha conta, pra eu não ter que tocar na grana daquele desgraçado...

/////

Acontece uma reunião na sala de Coelho, que conta com a presença do Dr. Wilson e de todos os executivos da Play Pause.
-O faturamento que a revista apresentou no último bimestre foi bastante favorável. Mas eu estive pensando: onde podemos encontrar mulheres que povoem o imaginário feminino nesse tão aclamado ano de 1990?
-Elenco de "Pantanal"!- respondem os demais executivos, entusiasmados.
-Eu acho que não é uma boa ideia, Dr. Coelho...
-Caro Wilson, você já deveria saber que é mero coadjuvante. Tudo que você me aconselha a fazer, eu faço o contrário mesmo... Liguem para os empresários da Rede Manchete!
-Dr. Coelho- uma secretária entra no recinto- Tem uma moça querendo falar com o senhor.
-Dona Assunta, eu já disse que detesto ser incomodado durante minhas reuniões!
-Mas nem por mim?- dentro de uma indefectível toga, Dara aparece à porta da sala.
-Abrirei uma exceção.
-Ai, obrigada- a juíza entra com uma bolsa e sua toga, que deixa à mostra a meia-calça que está usando. A presença da moça hipnotiza os empresários e o advogado.
-E... – Coelho solta um pigarro- A que devemos a honra da sua visita?
-Vim por uma questão financeira gravíssima. Sabe, eu preciso financiar o meu show.
-Você é cantora?-pergunta Wilson.
-Não. Sou apenas uma sex symbol em busca de dinheiro. Quem estaria disposto a me ajudar?- uma simples pergunta, dita num tom atrevido, e todos os homens tiram notas dos bolsos.
-Mas como será o seu show?
-Boa pergunta, Dr. Coelho!
E Dara sobe na enorme mesa retangular de madeira para balançar o esqueleto e a juba indomável.
-Morena cintura de mola, seu jeitinho me faz relaxar, esquecer dessa coisa faceira. Desse jeito, não sei que será. Felizmente, morena, você na lambada me faz delirar. Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- e a vocalista do Kaoma tem sua voz surgida não sei da onde.
-Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- o coral de tarados engrossa enquanto Dara puxa a gravata de Wilson e ele põe o dinheiro no decote da juíza. Após o depósito, a jovem volta ao centro da mesa.
-Com jeitinho, neguinha, me diz bem juntinho: "escorregando dá". De tantos desejos aflitos, sua pele lisa meu corpo roçar! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- Dara deixa cair metade da toga e continua a dançar.
-Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada! Dançando lambada, ê! Dançando lambada, lá! Dançando lambada, ê! Dançando lambada!- Coelho é o mais empolgado da macharada e tenta tocar na pele da juíza, mas ela foge e se abaixa para que os demais coloquem suas notas no decote.

/////

Sozinho, Antonio está em frente ao espelho refletindo. Não, ele não está se refletindo, está refletindo... Bom, vocês me entenderam!
-Ela me disse que ia ao banco hoje. Será que ela sacou o dinheiro que o marido daquela maluca disse ter depositado? Não, minha Dara não ia fazer isso. Imagina, ela não deve nem ter chegado perto desse tal de Coelho.

/////

 -Preta, fala pra mim! Fala o que você sente por mim! Ioiô, ioioi! Preta, fala pra mim! Fala o que você sente por mim!- Beto Barbosa deve ser um dos executivos dessa sala, só pode. Mas mais estranho do que isso, só o fato de Dara dançar de lingerie, com a toga arremessada para um abajur, com a tal bolsa a tiracolo, com uma música chamada Preta (a juba loura de Dara é patrocinada pela Wellaton!).
-Será que vo... Será que você me quer? Será que você vai ser a minha mulher? Será que vo... Será que você me quer? Será que você vai ser a minha mulher?- Coelho tenta se aproximar novamente da bela, quase assinando o talão de cheques, enquanto a maluca do poder judiciário ganha as notas arrematadas nesse leilão visual-corporal!
-Preta, fala pra mim! Fala o que você sente por mim! Ioiô, ioioi! Diga o que será... Baracumbabumbebumbá!- a palavra incompreensível faz a juíza deslizar dançando lambada e descer para apanhar a toga, que põe no outro braço. Em seguida, usa seu belo dedinho indicador direito para chamar Coelho para perto da janela.
-Fala, meu bem. Diz uma coisa picante no meu ouvido.
Atendendo prontamente o pedido, Dara responde:
-Catchup vencido!
Podem acreditar: isso lhe fez sentir arrepios. Tipo o Cabeção da "Malhação", sabe?
-O que deseja de mim, Meritíssima?
-O que mais eu poderia querer de você, Felipe? Apenas isso daqui!