14/07/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 6


-Filho, onde é que tu estavas?
-O que aconteceu para estarem despertos a esta hora?
-Fiz-te eu a indagação primeiramente, Otávio. De onde é que tu vens, se é que podemos saber?
-De uma festa. Uma boate perto daqui.
-Tato, chegaste um pouco tarde, não?
-Estiquei um pouco e fui dar uma volta.
-Com quem?
-Sozinho, Pai, com quem mais seria?
-Se a resposta fosse tão óbvia, não me daria ao trabalho de questionar-te.
-Por que não disseste que sairias, meu filho?
-Resolvi de última hora, Mãe.
-Sem nos consultar?
-Qual o problema? Esqueceu-se de que sou um homem? Um adulto?
-Esqueci, sim. Sabes qual o problema, Otávio? É que a única informação que consegui armazenar é o nome do proprietário da casa onde tu moras, que por sinal sou eu.
-Não precisas falar desta forma com o Tato, Kleber.
-Não precisaria se não tivesse saído sem nos avisar, se não tivesse entrado em casa como um verdadeiro marginal. Passou por tua cabeça o que ocorreria se tivesse sofrido um acidente enquanto estávamos crentes de que tu estavas lá em cima, a dormir?
-Desculpa-me. Não vou mais sair desta maneira, eu te prometo.
-Melhor mesmo. Porque este comportamento não é de teu feitio, Otávio. Dora, além do chá, prepare também um café. O hálito do “adulto” está intragável. Com licença- Kleber dirige-se ao quarto do casal.
-O que foi que te deu?
-Uma noite de diversão. Não tenho esse direito?
-Não o de preocupar sua família. Poderia ter acontecido algo, meu filho...
-Estou inteiro, não estás vendo? Chega dessa celeuma, dessa tempestade em copo d'água. Se importa que estou vivo, ótimo. Podem constatar.
-Largues de ironia. Teu pai tem toda razão de estar irritado.
-Viu como ele falou com desprezo sobre o fato de ser esta a casa dele?
-Deixou de ser verdade?
-Claro... A senhora está sempre pronta para defendê-lo.
-E desde quando tu te propuseste a atacar teu pai gratuitamente? O que foi que te deu? Tu não és assim, Otávio.
-Melhor eu ir ao meu quarto.
-Ótimo. Faça isso. E depois que tomar o café, tome também um bom banho. E juízo, para não repetires essa cena patética.
-Todos os que não são abstêmios já passaram por isso, qual é o problema de vocês comigo?
-Nenhum... Exceto o fato de sua cabeça parecer estar virada do avesso, e por razões que até prefiro desconhecer. Suba ao quarto.
-Não fiques entristecida comigo, Mamãe...
-Ao quarto, Otávio! Já te falei!
Tato apanha os sapatos e vai para os seus aposentos, deixando Dora chocada com o seu modo cambaleante. E enquanto uns vão dormir naquele horário, outros chegam cedo ao trabalho. É o caso de Hélio, que vai ao restaurante do qual é proprietário, o Recifeeling, com referências culinárias e arquitetônicas que remetem ao nordeste brasileiro, para onde ele sempre vai durante suas férias. Apesar do ambiente agradável, a aflição é a sua companhia nos últimos dias.
-Bom dia, Hélio- cumprimenta Alessandra, a gerente do restaurante- Como chegaste cedo hoje! O que houve?
-Falta de sono... Não, o problema é a minha preocupação mesmo.
-Qual é o problema?
-Falta de clientes, como tu bem sabes, Alessandra.
-É só uma fase, Hélio.
-Que está durando até demais.
-Vai ver é a época do ano, não é a primeira vez que o restaurante passa por este tipo de situação.
-Mesmo assim, eu fico preocupado. Preciso incrementar o Recifeeling com alguma atração.
-Por que não entras tu em contato com aqueles cantores independentes que tu conheces lá do nordeste do Brasil?
-Já pensaste em passagem? No quanto que eu gastaria se os trouxesse até aqui? A época é de contenção de despesas.
-Vamos acreditar que logo vai aparecer algo que entretenha o público.
-Tomara...
-Vais ficar a manhã toda na tua sala?
-Não. Vou à procura de alguns fornecedores no centro, e acho que às onze da manhã estarei de volta.
-Bom trabalho, então.
-Obrigado.
Horas depois, Hélio sai de casa em seu carro e vai até o centro de Lisboa, como anunciado à Alessandra. O veículo trafega perto do ônibus no qual está Nete, que havia acabado de fazer uma visita a um hospital especializado em oncologia. Fabiano telefona para a esposa, esta dentro do coletivo que está em frente ao Lisboa Noite.
-Alô, amado.
-Onde estás?
-Saí do hospital e já voltando pra igreja. A irmã que ficou responsável pelas flores já chegou?
-Sim, inclusive ela ficou em dúvida se era pra trazer dente-de-leão ou margarida. Para garantir, trouxe as duas.
-O que eu pedi a ela foi...
Valente está saindo apressadamente do Lisboa Noite, pois havia dormido mais do que o previsto. Corre com o saxofone em direção à praça onde costuma ficar.
-Nete? Nete, tu estás na linha?
-Algum problema?- a florista, que está ao lado de Fabiano, estranha o silêncio da esposa do pastor.
-Nete, estás a ouvir-me?
-Claro que estou, Fabiano. Deve ter sido uma interferência.
-E então? Quais foram as flores que tu pediste?
-Margaridas. Ficam mais bonitas no templo. Quando eu chegar, cuidarei da ornamentação.
-Demorarás pra voltar?
-Dependerá do trânsito- o olhar de Nete acompanha o apressado saxofonista- Vou ter de desligar, meu querido. Até mais- encerra a ligação quase que abruptamente, o que causa estranhamento no marido.
-Ednete vai querer margaridas.
-Ótimo. Vou até o carro trazer as caixas- a florista se prontifica.
-Quem diria? Aquele rosto de anjo saindo do antro de fornicação? Ainda bem que eu não costumo enganar-me com as pessoas.
O músico se mostra animado, pois a praça está mais cheia de visitantes do que o costume. E começa a tocar as canções católicas que conhece, para depois tocar as músicas que tanto tocavam nas ruas de Lisboa desde que passou a viver a maior parte do tempo perambulando por elas. Quando um bom número de transeuntes está ao seu redor, uma moça pede.
-Toques uma do Calema.
-Qual música?
-Qualquer uma. Pode ser aquela que diz: “eu vou te dar amor até dizeres”...
-Ah, “vou acreditar até pedires”...
-Esta mesma.
-Tu és quem manda.
Assim que Valente interpreta “Vai”, chega Hélio com três sacolas de ingredientes para o prato especial daquela quinta-feira. Mas ele para de caminhar apressadamente ao ver o saxofonista em ação. Como há certa repercussão do fonograma na cidade, não demora para que a moça que solicitou a canção comece a entoar a música, junto com outros populares que têm consciência do quão incessante é a presença desta nas rádios portuguesas. O dono do Recifeeling, por sua vez, tem timing necessário para identificar o potencial do músico jovem.
-É ele.

07/07/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 5


Nete sai da porta da Comportas e se dirige ao púlpito, de onde dirigirá o Congresso de Mulheres das Comportas do Céu.
-Quero saudar a amada igreja, e a você que nos visita, com a paz do Senhor Jesus.
-Amém- eis a resposta de boa parte dos presentes.
-Gostaria de dizer-vos que é um imenso prazer receber a todos nessa noite, porque sei que viemos aqui para adorar Àquele que morreu na cruz para salvar-nos.
-Numa igreja protestante? Eu? Devo de estar no “Inferno de Dante”, ou qualquer um.
-Sejas bem-vinda- Valente tenta iniciar um diálogo.
-Tu também- Cissa responde, de maneira ríspida.
-Tudo bem, obrigado- Fabiano desliga o celular- Não consigo acreditar.
-O que houve, Pastor?- a aflição de Fabiano atinge Valente.
-Nosso tecladista teve um imprevisto e disse que não poderá vir hoje.
-Deve ser por conta do temporal forte.
-Antes fosse: o teclado teve que ir para uma assistência técnica.
-Pensei que as mulheres fossem cantar a capella hoje.
-A quem?
-A capella: sem acompanhamento.
-Como vim eu parar aqui?- Cissa fala baixo, entredentes.
-Ah, sim. Apenas a maioria das apresentações. A primeira canção, que será um dueto entre mim e minha esposa, queria que fosse com algum som ao fundo. O minisystem não pega há dois meses, minha esperança estava no tecladista.
-Talvez eu possa ajudá-los.
-Não vejo como.
-Tocando o sax. Só precisaria saber qual música querem interpretar.
-Ah, isto é fácil. Sabes aquele hino, o “Hallelujah”?
-Maravilhoso. Cantávamos muito no orfanato.
-Podes tocar para a igreja?
-Se não me chamassem, eu mesmo me convidaria. Vou para atrás do púlpito, então- Valente carrega o saxofone.
-Sejas muito bem-vinda, irmã. Minha esposa visitou a igreja de vocês, em Loures, e fez questão de vê-las interpretando os louvores da Harpa.
-Harpa? Meu senhor, está havendo um engano grave. Eu não sou irmã de ninguém deste lugar, nem mesmo evangélica.
-E como se explica este figurino?
-Qual o problema? Estou até mais composta do que em dias normais. A louca lá da frente que me arrastou até aqui.
-Perdão, é que minha esposa realmente acreditou que você fizesse parte do coral de mulheres lourenses.
-Trate de me lembrar de não viajar até Loures tão cedo...
-Mesmo assim, eu peço que fiques à vontade. Não foi em vão que tu pisaste aqui. Vai que recebeste algum livramento...
-Pois é. Quem é que saberá?
-Será que o meu varão valoroso pode vir até o púlpito, por gentileza?- Nete fica enciumada com a conversa entre Fabiano e Cissa. Inocentemente, o marido obedece à esposa e segue até o púlpito.
-Essa coisa de “varão valoroso” contagia tanto quanto coqueluche- Valente observa, em voz baixa.
-Eu é que não ficarei mais um segundo que seja neste lugar- Cissa se levanta do banco e tenta sair, mas é impedida pela chuva, disposta a não dar trégua.
Valente, Nete e Fabiano interpretam “Hallelujah”, e muitos ficam admirados com a presença e o talento do saxofonista, que ali pisava pela primeira vez. Sem ter como sair, Cissa volta ao lugar no qual estava e acompanha o culto. Terminada a primeira canção entoada pelos pastores, o jovem retorna para o lado de Cissa, mal disfarçando seu contentamento em estar perto de alguém tão lindo e, à primeira vista, simpático. O que, entretanto, atraiu-lhe, foi o fato de conhecerem-se na igreja. Em sua concepção, a inquieta moça frequentava o templo, e somente por isso merecia sua atenção. Era como se estivesse dotada de todas as virtudes concedidas a um único ser humano.
Após ver as protestantes lourenses louvarem dois cânticos da Harpa Cristã e o próprio coral feminino da Igreja Comportas do Céu, os presentes acompanham a pregação daquela noite, realizada através de Nete. Até então, Cissa continuava impaciente e irritada, procurando sequer se lembrar do compromisso que perdeu, a fim de não ficar ainda mais nervosa. Enquanto Valente se vê completamente envolvido com o tema, a companhia da garota ao lado era o relógio. O tempo passava vagarosamente... Só para ela...
Chegou a hora na qual Fabiano toma a palavra no congresso organizado e dirigido por sua esposa, com a finalidade de deixar uma bênção na despedida dos que ali estavam. Um pedido, inusitado para os visitantes e comum para os que vão diariamente ao templo, é feito pelo pastor:
-Respirem fundo, olhem para os irmãos que estão do seu lado e digam com fé.
Empolgado com certa restrição, o saxofonista vira para Cissa, que prefere olhar pra cima.
-Irmã?- indaga o rapaz, fazendo a jovem olhar para ele, praticamente revirando os olhos.
-Repitam comigo- a partir daí, Fabiano fala pausadamente para que todos possam repetir- “Eu creio que tu receberás o milagre da parte de Deus, e quero ver-te aqui para contares a tua bênção”. Amém?
-Amém.
-Agora, abrace esse irmão que está do seu lado e diga em seu ouvido que quer vê-lo de volta à casa do Senhor. A paz do Senhor Jesus.
Valente troca um abraço com Cissa e diz aquilo que Fabiano ordenou à igreja.
-Quero ver-te de volta à casa do Senhor, minha amada.
Algo é dito para Valente, e Cissa aproveita que muitos estão saindo para deixar o templo. A misteriosa frase deixa o saxofonista intrigado, mas ele não a segue, preferindo cumprimentar Nete e Fabiano. Na volta pra casa, que ela particularmente achou que nunca fosse se concretizar, Michel está à sua espera.
-Não acredito... Não acredito que você voltou!- corre para abraçá-lo.
-Nossa! Quanta vontade de ver o teu irmão! Ai- Michel recebe um safanão da irmã.
-Nem penses em se atrever a me abandonar novamente, ouviste? Tu não sabes o quanto eu sofri com sua ausência.
-Pensei que estivesses acostumada com meu modus operandi.
-Estou a falar sério, Michel. Foi difícil sem ter-te por perto.
-Por quê? O que aconteceu?
-Ricardo. Só este nome já é capaz de explicar tudo, não é?
-Ainda insistindo nesse gajo? Mas tu pareces ser desprovida de inteligência, é inacreditável.
-Quanto a isto, não se preocupe. Acabou. Estou lutando para esquecê-lo.
-Pelo que vejo, a tarefa não tem sido executada com sucesso. Nem mesmo com afinco.
-Mas... Conta-me da viagem, como é que foi lá nas Bahamas?
-Um verdadeiro paraíso, Cissa. Se eu pudesse, jamais sairia de lá.
-Nossa, é tão bom assim para não quereres voltar à tua casa?
-Digamos que eu lamento mais por não poder desfrutar das companhias de lá do que propriamente pelo aspecto paradisíaco do lugar.
-Hum... Apaixonou-se?
-Clarissa, o único homem pelo qual eu me apaixono todos os dias sou eu mesmo.
-E como sei...
-Nossa mãe, estás toda molhada! O que houve?
-Prestes a pegar uma pneumonia. Vou me trocar- Cissa tira a blusa e vai ao seu quarto, sendo seguida por Michel.
-Não me venhas dizer que foi por conta da chuva, pois ela até diminuiu.
-Agora, não é? Porque quando cheguei àquela igreja, estava terrível.
-Igreja? Não, espera um pouco. Agora o Ricardo te fez apelar para a religiosidade?
-Nada disso. Por mais louca que seja, essa é uma história que merece ser contada. Aconteceu o seguinte: a Beatriz me convidou para ir à festa de aniversário do Fernando, só que o meu carro...
Ambos prosseguiram e se divertiram com a conversa enquanto Cissa pega uma nova muda de roupas. Michel já havia desembarcado em Lisboa há algumas horas, quando a irmã havia saído inutilmente para a festa, enquanto a Família Goulart- composta por Dora, Kleber e Tato- voltavam à cidade depois da temporada nas Bahamas. Como Tato e Michel haviam se encontrado algumas vezes durante a viagem, o fato de serem da mesma capital funcionaria como pretexto para as próximas conversas...
Uma balada é o ponto de encontro entre os dois amigos. E isso não foi mera obra do acaso, já que Michel deu o endereço da festa para Tato ainda no decorrer de sua estadia no hotel. O filho de Kleber e Dora sai de casa tardiamente, sem avisar aos pais, mas o taxista demora a chegar e ele só desembarca quando o irmão de Cissa encerra sua performance, pois faz as vezes de DJ. O atraso não é o suficiente para interferir no diálogo novo que travam ambos, iniciado através de um abraço.
-Que bom ver-te novamente.
-E tu, como estás?
-Do modo que sempre almejo: vivendo intensamente. Pelo visto, tua família aproveitou as Bahamas um pouco mais.
-Merecíamos mesmo estender as nossas férias. Há tempos que propúnhamos fazer uma viagem, mas o Papai se recusava.
-E o que o levou a mudar de ideia?
-Acho que pesou um pouco na consciência nunca termos tido muito tempo para fazermos algo juntos. O Doutor Kleber Lacerda Goulart ama o que faz, sente prazer em mergulhar no trabalho.
-Disseste-me uma vez qual a ocupação dele, mas eu acabei esquecendo.
-Prometes que não vai rir de mim?
-Por quê?
-Porque ele é dono de uma agência de viagens.
-Ah, é verdade- os dois riem- Chega a ser pitoresco um homem sem tempo para viajar com a família ter justamente esse emprego.
-Verdade. Michel, gostaria de pedir-te perdão.
-Pelo quê?
-Por não ter conseguido chegar a tempo para ver a ti como DJ. Tanto que tu insististe e eu acabei não comparecendo.
-Ora, Tato, não precisa culpar-se por conta desse imprevisto. Acontece.
-Espero não ter estragado a noite da gente.
-Claro que não. Ainda mais porque, pela primeira vez não te referiste a nós como “eu” ou “você”, e sim como “a gente”. Tenho pra mim que a noite só está a começar.
-E o que vamos fazer?
-Não sei. Dize-me tu. Acaso não existe algo que possamos fazer, ambos em conjunto?
-Permite-me que eu seja... Um pouco mais sincero?
-Mais sincero do que já és, impossível.
-Olha, Michel, é que... Jamais aconteceu comigo esse tipo de cousa, de me sentir dividido entre o agora e a minha natureza.
-Tato, eu sou alguém que te deseja o melhor. Não estou a imputar-te nenhum tipo de escolha. Façamos um trato.
-Qual?
-No dia em que um de nós se machucar, cessamos com ações, lembranças, qualquer coisa que remeta ao nosso sofrimento. Do contrário, temos o dever de procurarmos a felicidade. OK?
Michel toca em um ponto interessantíssimo: a felicidade. Para alguns, ela é materializada nas coisas mais simples; outros creem que se trata simplesmente de falar mal do próximo. Alguém duvida de que grupo de pessoas Cissa, visivelmente contrariada por ter entrado na Comportas, faz parte nesse momento?
-Sério: o que eu vi lá dentro daquele lugar é de fazer qualquer um corar.
-O problema, Cissa, é que você não está acostumada a frequentar esses lugares- adverte Olívia- Mas se tu se dispuseres a conhecer melhor, sei que amarás.
-Não ligues para isso, Cissa- Beatriz debocha da sua irmã- Antes de saíres, amiga, verifiques se sua bolsa não está repleta de folhetos de literatura bíblica. Se estiver a ponto de nem fechar, foi ela quem colocou.
-Olívia, eu entendo que esta também seja a sua religião, mas eu não me senti à vontade.
-Acontece, Clarissa, que respeito é algo que transcende noções cristãs ou meramente religiosas. Se tu não sabes exercê-lo, não serves para ser cristã, nem religiosa, nem um ser humano que se dê ao respeito.
-Claro... Respeito é assassinar milhões de pessoas em nome de um conceito que não se pode comprovar. Olívia, tu quando queres tratar deste assunto, torna-te verdadeiramente insuportável.
-Não precisas falar deste modo com a sua irmã, Beatriz...
-Não ouses defendê-la, Cissa. O que vocês pregam e acreditam é algo absurdo! Pior é a lavagem cerebral que querem submeter o resto da humanidade.
-Que humanidade, Beatriz? Aquela que tu não tens, justamente por não teres respeito a ninguém?
-Gente... Agora a boa moça revelou-se uma revoltosa.
-Talvez porque tu penses que, calando-me, sou capaz de abrir mão dos meus preceitos. Ocorre que caráter independe de quem concorda conosco.
-Vocês não acham que esse tema se estendeu demais? Chega de discussão, por favor.
-Tens razão, Clarissa. Melhor eu ir ao meu quarto, estudando eu ganho bem mais. Boa noite.
-Vai, insuportável! Vai!
-Nem pra tua irmã tu alivias, hein?
-Cissa, eu já fui a uns cultos que a Olívia me arrastou e, definitivamente, não há nada interessante para continuar indo a uma igreja.
-Pior que eu encontrei um motivo para voltar até aquele lugar.
-Espero que seja um homem que te faças sublimar o Ricardo da mente.
-Mais ou menos...
-O que era, então? Um verbo: ação, estado ou fenômeno da natureza?
-Tinha ele um rosto de menino, daquele que parece nunca ter saído na rua.
-Detento?
-Falo sério, Beatriz! Alguém puro, entende?
-Virgem?
-É. Por que não dizer?
-Santos do pau oco podem ser visto em milhões de lugares, meu anjo. A não ser que... Sua mente planeje depravar o pseudo-seminarista.
-Beatriz... Aquele gajo não parava de me olhar, estava inebriado.
-Use-o como válvula de escape. Se ele é capaz de tirar-te desse estado quase catatônico...
-E repetir toda a dor que o Ricardo me fez passar?
-Não se trata do Ricardo, e sim de si mesma, Clarissa. A vida funciona para descartarmos e sermos descartados. Cada um tem seu dia de glória, nos negócios e no campo sentimental.
-Pra mim, isso tem nome: egoísmo.
-E quando amamos tanto alguém que desejamos que ele não olhe para ninguém, e sim para nós, por termos a certeza de que somente nós o amamos verdadeiramente e com loucura? Nem o mais idiota dos românticos chama isso de egoísmo, e sim de amor. Procures entender o que este rapaz que te fez suportar um congresso de protestantes tem para fixar-se em sua cabeça. E descubra com prazer. Para ambos.
Como Michel passou a noite fora, Cissa dormiu mais uma vez na casa das irmãs Gusmão Alencar. O aventureiro passeou pela Lisboa acompanhado até acabar o combustível de seu carro, quando o dia estava prestes a amanhecer. Depois de uma madrugada de diversão, pediu um táxi para que Tato voltasse a sua residência. Sentiam-se ambos revigorados. O sorriso de filho único de Kleber dissipar-se-ia quando visse o pai na sala, às cinco da manhã. O motivo é que este estava há quatro horas acometido de uma insônia.
-Kleber?- Dora viu que a cama estava vazia e vem até o sofá, no qual está Kleber sentado- Por que a luz está acesa?
-Desde a uma da madrugada estou em claro, Dora.
-Sentes alguma coisa?
-Nada.
-Esperes, que vou te preparar um chá.
-Não adianta, daqui a pouco sairei para a agência.
-Querido, tu não tens condições de conduzir um carro após uma noite sem descansar.
-Tens razão, Dora... Faça-me um favor: prepare o chá e leve lá para cima. Vou recolher-me novamente.
-Está bem, eu não me demoro- Dora cumprimenta o esposo com um delicado beijo e apaga a luz da sala, enquanto Kleber levanta do sofá e vai para a cama. Acreditando que todos estão dormindo ainda, e não atentando para a luz que há pouco estava acesa, Tato entra com os sapatos na mão para não fazer qualquer ruído.
-Otávio?
O susto o faz derrubar os calçados. Olha para Dora, apavorado.
-O que vocês estão fazendo aqui a essa hora?
-De onde estás vindo, Otávio?

26/05/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 4


-O que a senhora tenta insinuar a meu respeito?
-O que quero é que esclareças o que está acontecendo entre tu e aquele tal de Michel.
-Somos amigos, não há o que se estranhar nisto.
-Voltaram a se encontrar após aquela noite?
-Mas que tom inquisidor é este agora? Nunca te vi tão preocupada com as minhas amizades como desta forma.
-Às vezes, Otávio, é necessário que pais assumam esta postura. Não é minha intenção recriminar-te por qualquer coisa que seja. No entanto, eu não me sinto confortável de imaginar que tu estás a esconder-me alguma cousa.
-Está bem. Voltamos a nos ver algumas vezes no hotel, conversamos bastante e descobrimos que temos muito em comum, como todos os bons amigos. O que há demais nisso?
-Somente o fato de que parecem ter se conhecido há pouco, uma vez que tu nunca nos mencionaste a existência desse rapaz.
-E por algum acaso eu conheço todas as tuas amigas, ou as pessoas que se relacionam com o Papai? O fato de Michel estar hospedado no mesmo hotel que nós foi mera casualidade, não há motivos para celeumas.
-Otávio, quero que me escutes atentamente.
-Digas.
-Seja o que for, podes sentir-te à vontade comigo para falar sobre qualquer cousa. Eu não quero passar de novo pela sensação de que não posso te ajudar sem que tu reveles o que te aflige. Em suma: detesto imaginar que temos liberdade para tratar de qualquer tema e optas por retrair-se.
-Afinal de contas, por que razão pensas isto de mim?
-Perguntes a si mesmo, meu querido. Ninguém melhor para sanar as tuas dúvidas do que tu mesmo. O que vou pedir-te é muito simples, meu filho: não mintas para nós, e muito menos para ti.
A felicidade de Tato foi se dissipando aos poucos durante aquele café da manhã consideravelmente indigesto. Mesa farta era algo de que Cissa não poderia reclamar, mas o fato é que nada estava arrumado, uma vez que ela ainda dormia, após uma longa madrugada na qual curtia uma rave com Beatriz, a mesma que a desperta neste momento, por intermédio de uma ligação ao celular.
-Alô?
-Amiga, tu nem imaginas o que consegui para esta noite: dois convites para irmos ao aniversário de Fernando.
-Ligaste-me só pra dizer isto? E a esta hora?
-Não entendeste o espírito da cousa? Se tu quiseres mesmo fazer a fila andar, a melhor forma é colocar novas pessoas em seu círculo de amizades, que não precisa ser nada restrito. E mesmo sabendo que estás mais ébria do que sóbria, liguei para combinarmos de passar no shopping e comprarmos os looks da noite.
-Não sei, Beatriz... Deixa-me pensar.
-Tudo bem. Penses, para depois dizeres que sim. A comemoração começa às dez e quarenta e cinco. Espero-te lá. Beijos, amiga.
Assim que Beatriz desliga o telefone, Olívia chega à sala de estar, parando em frente ao espelho para arrumar o cabelo. Está prestes a ir à faculdade, mas observa:
-Outra festa? Vocês não cansam dessa rotina de casa/ festa, não?
-Creio eu que deve ser menos desgastante do que essa peregrinação de casa/ faculdade/ igreja a qual te submetes, querida.
-Quando você quer ser desagradável, consegue ser com louvor, hein? Deixa-me ir, que já estou atrasadíssima. Quer que eu passe um café?
-Daqui a pouco eu me reergo, Olívia. Minha preocupação no momento é a Cissa.
-Não será como num passe de mágica que ela vai seguir a vida dela sem o Ricardo.
-Mas terá que aprender. Mesmo com a minha ajuda, volta e meia ela toca no nome do cafajeste. A verdade é que precisa acontecer algo radical na vida da Clarissa para ela prosseguir.
-Nisso, eu estou plenamente de acordo contigo. Vou orar para que ela ponha a cabeça no lugar o quanto antes.
-Como se isto funcionasse, minha querida carola...
-Beatriz, podes me fazer um favor?
-O que é?
-Limpes o canto da tua boca, porque deixar o veneno escorrer também não pode ajudar muito. Bem, deixa-me ir, pois tenho aula daqui a quinze minutos. Até mais tarde... Se eu te vir por aqui, não é?
A virada esperada para a vida de Cissa aconteceria mais cedo do que supunham Olívia e Beatriz. Valente poderia não ser o responsável, mas é parte importante nessa guinada que seria à moça oferecida. Enquanto as vidas dos jovens não se cruzavam, o saxofonista apresentava uma nova canção aos transeuntes da praça onde tocava: “Quero mudar”. As pessoas já estavam começando a se acostumar com a presença do rapaz diariamente naquele lugar. Inclusive Fabiano, que dessa vez não passa no centro da cidade para comprar artigos para a igreja que comandava, e sim para um convite especial.
-O senhor?- Valente o reconheceu da ocasião em que Fabiano estava acompanhado de sua esposa.
-A paz do Senhor, amado.
-Amém.
-Eu não quero atrapalhar seu show...
-Imagines.
-Vim aqui unicamente para falar contigo.
-Se eu puder ajudar...
-A ajuda não é para mim, e sim para ti.
-Do que se trata?
-Acho que não fomos apresentados um ao outro. Meu nome é Fabiano, e eu sou pastor da Igreja Comportas do Céu. Queria te convidar para ir a um dos nossos cultos.
-Tem todos os dias?
-Menos nos sábados, pois é ensaio dos corais. Se tu quiseres dar uma passada, serás muito bem vindo.
-Desculpa-me, nem te disse o meu nome: Valente.
-Bem apropriado, varão valoroso.
-Por que o senhor chama-me assim?
-Depois daquele dia, não há como se referir a ti sem ser por esse termo. Mais do que eu ou a minha esposa, o Senhor se agradou de ti, e recompensará aquilo que tu fizestes pelos desabrigados.
-Não sei que noite eu posso ir. Ultimamente tenho dormido num lugar bem longe.
-Se quiseres, eu posso te pegar de carro, e depois te deixo na tua casa.
-Melhor ires por mim: não se atreveria a pisar onde eu fico. Mas não precisas ficar preocupado. Algumas pessoas que vivem aqui na praça falaram muito bem do senhor e do trabalho de sua igreja. Até perguntei onde é que ela fica, pois estava mesmo com vontade de fazer uma visita quando a minha vida se estabilizasse mais.
-Não pareces um menino de rua. Teu jeito de falar é tão cordato.
-Passei a trabalhar aqui há poucos dias. Mas isso é uma longa história, Pastor. Qualquer dia desses, eu conto. E mesmo que minha vida demore a entrar nos eixos, eu farei uma visita.
-Sendo assim... – cumprimenta o jovem com um aperto de mão- Fique na paz, amado.
-Que o menino Jesus te acompanhe.
-Amém- Fabiano volta para o carro e segue em direção a sua casa.
-“Varão valoroso”: se esta alcunha pega...
E espalhar-se-á. Principalmente quando as pessoas perceberem como Valente se comporta diante do seu melhor amigo e que, em sua concepção, deveria assumir o mesmo papel na vida de todos. A oportunidade para que todos se encantem com o saxofonista acontece ao anoitecer, uma vez que o convite feito por Fabiano é aceito e o músico, a despeito do quão tarde chegará ao Lisboa Noite para dormir, decide fazer uma visita à Igreja Comportas do Céu. Como não havia maneira de passar no estabelecimento para deixar o saxofone, uma vez que era muito longe dali, e o jovem sequer tomava um coletivo para não faltar o dinheiro de sua estadia e café da manhã, a solução foi sair da praça em que se apresentava e dirigir-se imediatamente ao templo religioso.
Não foi informado ao rapaz que, naquela noite, ocorreria a apresentação de um coral oriundo da cidade de Loures, intitulado como “Confiança Portuguesa”. Por motivos desconhecidos para Fabiano e Nete, as mulheres do coral demoravam para chegar à igreja. Não sabiam que uma chuva torrencial havia atingido a cidade logo quando partiram, sendo que saíram cedo do templo depois de um último ensaio para não chegarem atrasadas. Lisboa, de clima ameno, estava sequíssima. Mas não menos que a expressão de Nete, que demonstra acreditar que a principal apresentação do templo daquela noite está arruinada.
-Por onde andam aquelas benditas gajas? Acaso foram tragadas pelo Mar Vermelho?
-Acalma-te, Nete. Deve haver algum contratempo para que não tenham chegado ainda.
-Falando nisto, onde foste tu mais cedo sem mim?
-Sabes daquele gajo que nos ajudou no dia em que distribuímos a sopa para os desabrigados?
-Hum?
-Fui à praça onde ele toca para chamá-lo ao nosso culto especial... Quer dizer, ao nosso culto, pois todos são especiais.
-E ele aceitou?
-Disse-me que faria uma visita, mas não me confirmou se o dia será hoje.
-Provavelmente só te falou isto com o intuito de ser educado. Creio eu que deva ser algum incrédulo que, se descobrir o endereço daqui, moverá céus e terra para sequer pisar neste logradouro.
-Ednete!
-Mas não é verdade, meu amor?
-Graças a Deus, não é- afirma Fabiano ao ver Valente chegando e acompanhado do quase inseparável saxofone- A paz do Senhor, meu amado.
-A paz do Senhor, Pastor.
-Ih... Não respondeu com “amém”, já vi que não é boa pessoa... – pensa Nete, com o rosto mais expressivo do mundo.
-Sejas bem-vindo, querido. Podes entrar.
-Obrigado. Nossa, este lugar é lindo. Muito lindo mesmo.
-A igreja está bastante ornamentada hoje para o Congresso de Mulheres das Comportas do Céu- Nete explica ao visitante.
-Que maravilha. E quantas igrejas vocês têm?
-Pra falar a verdade, apenas essa. Mas temos fé que um dia nosso ministério expandirá.
-Não me digas que tu tocarás esta noite em nossa casa de adoração?
-Ah, não, senhora, é que... Não fui pra casa deixar meu sax lá, é muito longe para ainda vir até aqui.
-Lembra-te do que te falei; caso queiras uma carona, eu posso te levar após o término do congresso.
-Por favor, eu não quero atrapalhar. Já sei o caminho, dá para ir andando até lá. Obrigado mais uma vez.
-Fiques à vontade. Senta-te em qualquer um de nossos bancos.
-Obrigado, Pastora- Valente toma à beira de um dos últimos assentos do templo, encostando o instrumento musical ao objeto.
-Menos este!
-Nete!
-Desculpes, querido, é que havia reservado cinco para a igreja de Loures. Tentes ficar um pouco mais atrás. Se sobrar vaga, irei te remanejar para um assento melhor.
-Sem problemas, senhora- Valente se põe de pé novamente e senta mais uma vez, carregando o saxofone.
Fabiano e sua esposa notam que a tempestade agora está sobre Lisboa, e ficam à porta do templo para receber visitantes e fiéis. Valente fecha os olhos e começa a orar para que Joana fique bem, por entender o quanto ela deveria sofrer naquela ocasião sem saber notícias suas. Em meio à oração do músico jovem, o ônibus que traz as mulheres lourenses estaciona do outro lado da fachada da Comportas. Com dificuldade, a esposa do pastor reconhece-as ao vê-las com uma saia longa jeans e uma blusa rosa, sem qualquer tipo de inscrição.
-A rua está praticamente alagada, Fabiano. Como elas descerão do coletivo?
-Já sei, Nete: corras até o depósito e pegues aquele guarda-chuva grande para ir buscá-las no ônibus.
-Certo.
Desanimada, Cissa recorreu ao visual básico para ir à festa do tal Fernando, mencionado pela animada Beatriz. Só que o carro quebra misteriosamente atrás do ônibus.
-Não, isso não está a acontecer. Mas justamente agora?- a moça liga para a companheira de festas- Beatriz?
-Cissa? O que foi? Não estás vindo para cá?
-O meu carro quebrou-se. E eu estou sem dinheiro para tomar um táxi.
-Cissa? Não consigo escutar-te! Onde tu estás?
-Beatriz, ouça-me… Alô?
-Alô, Cissa!- a ligação é interrompida- Deve ser o sinal- Beatriz retorna o telefonema de sua amiga, mas não obtém sucesso- Agora diz que está na caixa postal.
-Esqueci-me de trazer um guarda-chuva, não vim com dinheiro, a conexão está horrível... Pelo visto, tratarei eu mesma de consertar o carro.
Assim que Cissa desce, fecha a porta do automóvel, enquanto é aberta a porta do ônibus das protestantes lourenses. Dotada de extrema agilidade e cuidado, Nete corre com o guarda-chuva e busca de três em três mulheres para que entrem na igreja sem serem molhadas. Ao fazer isso oito vezes, o motorista do coletivo fecha a porta, até que Cissa é surpreendida por uma pergunta.
-Como pude esquecer-me de ti, irmã?
Rapidamente, Cissa é bruscamente puxada para o interior do guarda-chuva aberto e posta dentro da Comportas. O motivo é o comportado visual adotado, praticamente idêntico ao das mulheres que cantariam naquela ocasião.
-Mas o que é isto, minha senhora?
-Já não há mais lugares para as lourenses. Vais ter de ficar aqui mesmo. Senta-te aqui- Nete põe a jovem junto ao saxofonista, que abre os olhos e fica extasiado com a beleza de Cissa. Por sua vez, ela não desvia o seu olhar da direção de Valente.