Tu não tens nada pra fazer,
Mas não treinas Caligrafia
Nota ruim
Tende a cair
Sem estudar Morfologia
Nota ruim
Tende a cair
Nota ruim tende a cair...
Gramática te traz pronome
E artigo no semestre
Adjetivo estudará
Substantivo no seu teste
Nota não rejeita
Verbo já tem revisado
E lido em sua aula
Pra nota não vir abaixo
Há numeral no estudo
Até porque relembro:
Estas podem variar
Segundo ensinamento
Porém, repara:
Conjunção para
Numa oração que será coordenada
Há, contudo,
Texto que logo
Auxilia aprovada
Tem preposição, que liga
Oração. Perceba truque!
Interjeição não varia
Advérbio não discute
PENSAMENTOS SEM O MENOR SENTIDO- SEJAM ELES WEB NOVELAS, PARÓDIAS, ROTEIROS, ENCARTES FAN MADE OU QUALQUER COISA QUE EU INVENTE DE FAZER.
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30/10/2016
ONZE MIL/ CAPÍTULO 14
-Isso é mentira! Mentira sua! Você não tem
pretexto algum pra se aproximar dos meus filhos e agora inventa essa patacoada?
-Você acha que isso tudo é uma farsa? Pois eu
tenho como provar o que estou dizendo. Desde que eu soube que os discos da
minha filha tinham sido roubados, eu contratei um detetive particular. E
descobri que os assaltantes não são ninguém menos do que os funcionários da RYC
Transportadora! Familiar esse nome pra você, não é? A sua transportadora!
-Eu não acredito que você fez isso comigo.
-E não é pra acreditar mesmo! Sua mãe, ou
melhor, esta mulher está fazendo de tudo pra acabar com a imagem que eu
construí.
-Se engana, eu não me atreveria a tanto. Que você
fez pelos nossos filhos o que pôde enquanto eu preferi me afastar deles, disso
eu não tenho a menor dúvida. Mas tentar acabar com o sonho da Yanna? Pra quê
isso, Bernardo?
-Sílvia, você... Você não tem como provar uma
vírgula dessa história que está nos contando.
-Aqui tem um dossiê comigo!- entrega-o à
Yanna- Um dossiê com informações que comprovam que quatro dos seus funcionários
foram pagos por você pra roubarem os caminhões. Eles trocaram as placas dos
dois veículos assim que saíram da vista dos motoristas. E colocaram fogo pra
que ninguém pudesse identificar onde eles tinham parado. Mas antes, Bernardo,
você deu a cartada final: fez com que os ladrões entrassem em outra via erma e
descarregaram as onze mil cópias em caminhões próprios da transportadora, pra
que quando encontrassem os veículos da gravadora, pensassem que os CDs também
tinham se perdido no incêndio criminoso. Assim, eles seriam armazenados na sede
da transportadora e ninguém desconfiaria de nada.
-Graças a Deus!- a frase de Miguel deixa
Bernardo ainda mais alterado- Deus é tão maravilhoso que não deixou nada
acontecer com os discos da Yanna. Porque Ele sabe o coração que a serva dele
tem.
-Deixa de dizer baboseira, Miguel!
-Baboseira nenhuma!- Yanna se volta contra o
pai- Eu vou agora mesmo ligar pro Cadu e avisar que os discos estão na
transportadora. Você vai ter coragem de negar isso? É a sua cara, Pai! Desde
que eu falei da gravação do disco, você não suportou a ideia de me ver
realizando meu sonho... Porque sempre exigiu que eu realizasse os seus! Mas
agora chega! Esse CD vai chegar às lojas, e nem você nem ninguém vai me
impedir!
-Comprou a história dessa desgraçada?
-Não é o que ela disse de você que me
convenceu! É o seu comportamento. Você é capaz de tudo pra que ninguém descubra
que seus planos deram errado. A começar pela ida da Carol pro exterior! Ser ela
não tivesse fugido dela, se tivesse encarado a gravidez do lado da gente, minha
irmã teria sobrevivido. Mas agora ela tá dentro de um túmulo. E a culpa é sua!
-Cala essa boca... – Bernardo levanta a mão
para Yanna.
-Não encoste um dedo nela!- ordena Sílvia.
-Tem razão, Sílvia. Não vale a pena perder
tempo com ela, não vai acreditar em mim mesmo. Só na mãezinha abnegada que tem.
-Pode nos poupar das suas ironias. Eu não me
sinto atingida por nada do que você diga ou pense de mim.
-A descoberta do meu suposto mau-caratismo te
deu um gás e tanto na disputa pelo respeito dos meus filhos, não?
-Respeito? O que eu quero é o coração deles,
que você minou desde que eu fui embora, coordenando os dois pra realizarem os
seus anseios. Você só se sente realizado como pai se os dois te obedecerem.
Fora dessa possibilidade, você é o homem mais frustrado do mundo.
-O que você quer? Que eu confirme todas as
informações desse dossiê? Quer? Yanna, minha querida, se você espera alguma
nota de ressentimento ou um pedido de desculpas, gaste seu tempo em atividade
melhor. Distribua suas milhares de cópias Brasil afora, mas não sem antes jogar
esse dossiê nas mãos da polícia. Mas é bom que eu avise: até lá, o seu destino
quem determina sou eu.
-Por que tanto ódio, Bernardo? Tem horas que
eu penso que nunca mais vou conseguir reconhecer o meu irmão, aquele que batalhava
pra chegar onde queria, sem atropelar a felicidade dos próprios filhos. A
própria Carolina é a maior vítima desses sacrifícios que você faz da felicidade
da sua família.
-Por que tanto amor transbordando de você,
Miguel?
-Porque eu não passo a minha vida esperando o
mesmo dos outros, nem que os outros façam a minha vontade, como se eu fosse o
senhor de tudo!
-Ótimo. Só falta o Raffael aqui pra completar
a crucificação. Eu não vou mais permanecer nesse espetáculo patético contra
mim. Se ele existir... Vão para o inferno!- abre a porta de casa e se retira.
Na sala, ficam Miguel, Sílvia e Yanna, sem
saber o que dizer uns para os outros.
...
Fora do setor infantil da Oncomed, Lucas e
Osmar esperam por notícias de Kim. Alice volta do quarto.
-Como é que tá meu filho, Amanda?
-Lucas, as notícias não são boas.
-Por quê, Doutora? O que meu neto tem?
-Detectei que o Kim apresentou a síndrome da
lise tumoral.
-O que é isso, Amanda?
-É uma série de complicações que surge devido
ao tratamento da quimioterapia. Os sintomas são vários, mas o que Kim teve
foram dois: a paralisia e a contração dos músculos da boca.
-Kim vai ficar assim até o fim do tratamento,
Doutora?
-Acabei de dar um medicamento via oral pra
ele, Seu Osmar. Agora ele está sob controle, mas isso não impede que novas
crises ocorram com ele.
-Então por que você não para com a
quimioterapia, Amanda? Será que você não tá vendo que Kim tá pior desde que
veio se tratar aqui?
-A quimioterapia é o
melhor tratamento pro linfoma, Lucas. Sem ela, os efeitos da doença seriam
piores.
-Só que eu não vejo
nada!
-Doutora, a senhora
vai me desculpar, mas... O meu neto está definhando numa cama.
-Kim não pode
perceber o desespero de vocês, por isso eu peço que tentem manter a calma, pelo
menos na frente dele.
-Como é fácil falar,
não é?
-Lucas, eu não
preciso das suas ironias, eu estou fazendo o meu trabalho da melhor maneira
possível. Mas acontece que cada organismo responde de uma maneira diferente ao
tratamento, e o do Kim tem demonstrado diversas reações adversas. Acontece que
não existe outra opção que traga os mesmos resultados. E se vocês não acreditam
nos avanços que o Kim pode fazer, ninguém vai convencê-lo de que a cura vai
chegar.
-Filho, procura comer
alguma coisa, ir pra casa, tomar um banho. Eu fico com Kim.
-Eu não saio de perto
do meu filho. Nunca saí, quanto mais agora!
-Seu Osmar não tá te
expulsando daqui, Lucas. Ele só tá preocupado com você, assim como seu filho
ficaria se te visse assim.
-Ouve a doutora,
Lucas. Vai descansar um pouco, mais tarde você volta.
-Tá bom, Pai. Vocês
que sabem- sai, decepcionado.
-Doutora, me desculpe
por ele. Mas não está sendo fácil.
-Eu entendo, Seu
Osmar, só queria que ele entendesse que da minha parte nada falta pro Kim se
livrar dessa doença.
-Cá pra nós, Doutora:
acha que ele tem chance?
-O tempo vai se
encarregar de trazer a resposta que vocês tanto esperam. Mas eu tenho medo de
uma possível regressão no quadro do Kim. Se ele fraquejar mais, não vai ser nas
mãos da medicina que o problema vai ser colocado.
-Disso eu sei. Mas eu
tenho fé que a senhora faz o possível. O impossível está nas mãos de Deus.
-Tomara, Seu Osmar.
...
Transtornado depois
da aparição de Sílvia, Bernardo faz um trajeto diferente do habitual sem
perceber. Quando nota, já está perdido.
-Droga. Agora vou
pegar um engarrafamento desgraçado...
Passando pela praia,
encontra a beira da calçada Raffael, sentado no chão e descalço. Rapidamente,
estaciona o seu automóvel e vai até a areia, mas o filho não o percebe. Sobre
os pés do engenheiro, joga um pouco de areia com o seu sapato.
-Que é isso?
-Poderia fazer a
mesma pergunta, Raffael. Desde quando você dorme fora de casa?
-A você eu não devo
explicações- levanta-se, consternado.
-Me deve até as calças
que está usando, moleque! O que é, hein? Já deu o seu show, já deixou seu tio e
sua irmã preocupados com o seu paradeiro, até foram parar na delegacia. Deixa
dessa frescura e entra no carro.
-Com você, eu não vou
a lugar nenhum.
-Que tom de voz é
esse pra falar comigo?
-A lugar nenhum!
Ouviu?
-Olha aqui, para com
esse ataque. Jamais te poupei da verdade do que acho ou deixo de achar de você.
Então, não venha agora se comportar como uma criança!
-Tudo o que você faz
comigo ou pensa de mim eu não sei. Ontem mesmo eu descobri um segredo seu.
-Você abandonou o carro
na Oncomed. Até tenho uma vaga ideia do que pode ter acontecido... Aquele negro
safado falou mal de mim, não foi?
-Lava a boca pra
falar do Lucas! Ele tem mais dignidade do que você. Pelo menos ele não trama
contra o próprio filho. O Kim sabe que pode confiar no pai, ao contrário de
mim.
-Fala o que foi que
aquele calhorda inventou sobre mim, fala!
-Mentiras do Lucas eu
não tenho pra contar. Mas as verdades de Alice Dubeux, a prostituta de luxo que
você contratou... Essas, sim, são um prato cheio.
-Quem é essa tal de
Alice?
-Que foi? Sua memória
é tão seletiva que você não se lembra nem de quem transou contigo?
-Raffael, eu não
admito que você...
-Você não tem que
admitir nada! A única coisa que eu quero de você é distância.
-Sério mesmo que você
perdeu o resto de juízo que tinha por conta de uma rameira?
-Que você colocou na
minha vida.
-Olha à sua volta,
seu imbecil. Há milhares de mulheres no mundo. Você tinha justamente que se
apaixonar por ela, pela Alice? Juro que eu achei que você fosse mais inteligente!
-Você não tinha o
direito de fazer isso comigo! Como é que você conseguiu ser tão canalha?
-Eu disse que
controlava a sua vida, e que era responsável por tudo que você fazia. Até isso,
Raffael. Até uma mulher na sua cama eu fui responsável por colocar.
-Só que na minha vida
você não tinha o direito de se meter.
-Eu sou teu pai,
idiota! Acha mesmo que esse jeito excessivamente estudioso, sem olhar pra um
rabo de saia que seja, não me preocupava? Com menos idade que você, eu já tinha
tido vários namoros, dormido com quem bem entendia. Será que não era mesmo pra
eu ficar preocupado? Foi daí que eu pensei: já que ele não vai pra cama com a
primeira que aparece, que não vá com o primeiro.
-Teu método funciona tão bem que
enterrou uma filha.
-Não fala da Carolina, insolente.
-Por quê? Virou santa? Fugiu de você,
do seu receio, da sua opressão e acabou morta! E quando você teve a
oportunidade de fazer alguma coisa de bom depois da morte dela, recusou o neto
por ele ser filho de um negro. Mas é muito mais fácil botar a culpa no Lucas,
não é? Por que você não diz que cavou a sepultura da tua própria filha, hein?
Por quê? Eu não vou ter o mesmo destino da Carolina.
-Não? Vai fazer o quê, então? Se casar
com aquela vagabunda pra me provocar?
-Fugir do teu domínio, da tua
ditadura, do teu império. A partir de hoje, eu não vivo mais com você. Mas não
precisa se preocupar: eu não vou deixar nada meu lá dentro.
-Pior que vai. Se você insistir nessa
ideia estapafúrdia de abandonar a nossa casa, nem entre.
-Se é assim que você quer...
-Quem deu a carta do jogo foi você.
Agora, você tem total liberdade pra se refestelar na cama da prostituta. Isso
é, quando tiver vaga, porque ela deve atender muito ainda, não é?
-Nossa, que alívio! Antes, eu sentia
nojo dela e de mim. Passou. O meu nojo é por você, só por você. E se você for
homem, como diz que é, nunca mais olha na minha cara- Raffael recolhe os
sapatos e atravessa a rua.
Bernardo chora diante da reação do
filho, mas não se intimida e repete os passos dados pelo engenheiro.
-Olha aqui!- grita enquanto atravessa
a rua, mas Raffael não se vira- Se você acha que vai viver com aquela mulher,
você tá muito engana...
Raffael ouve o impacto de um carro,
que atropela Bernardo.
-Pai!- corre para vê-lo, agonizando em
uma poça de sangue.
...
Ainda na sala de estar da casa de
Bernardo, Yanna analisa o dossiê entregado por Sílvia.
-Quanto mais eu leio, mais eu me
surpreendo com meu pai.
-Yanna, eu sei que tudo é muito
difícil de digerir, mas eu tinha que contar a verdade.
-Eu vou ligar pro Cadu, o meu amigo
que ajudou a produzir o CD, e contar o que aconteceu- Yanna se levanta do sofá.
-Espera, filha. Eu quero falar com
você ainda.
-O que foi, Sílvia?
-Sei quer tudo ainda é muito recente,
que talvez não seja a melhor hora pra falarmos a respeito disso, mas... Mais
uma vez, eu quero te pedir perdão. Quero que você me perdoe pelos anos que me
ausentei, pela responsabilidade que não quis ter com nenhum dos meus três
filhos, mas... A vida cobrou muito caro de mim e do seu pai.
-Sílvia, não é de uma hora pra outra
que o meu perdão vem. Já faz cinco anos que você vem tentando, eu tenho que
reconhecer. Mas por mais que eu ore, eu não consigo te dizer que eu te
desculpo... Embora eu, dentro de mim, já tenha te perdoado milhões de vezes.
-Nunca vou conseguir apagar o meu
passado. Mas eu preciso construir o meu futuro, e não conheço ninguém melhor do
que vocês. Claro, eu não posso ser hipócrita de negar que o Bernardo soube colocar
nossos filhos do caminho do bem.
-Só que, pelo visto, nossas vidas são
assim por uma questão de livre-arbítrio. Todos os dias, eu tento reconhecer
aquele homem que nos abraçava na infância pra gente não chorar. Hoje, o que eu
vejo é um adulto duro, intransigente... Não existe mais possibilidade de diálogo
com ele.
-O que está pensando em fazer, minha
filha?
-Por enquanto, eu só quero resolver o
problema da distribuição dos CDs. Depois disso, eu não fico mais aqui, por mais
que ele exija ou peça.
-Desculpem interromper a conversa de vocês.
-Fala, Tio. Tem novidades do Raffael?
-Sim, ele está no hospital.
-Meu filho? O que foi que houve com
Raffael?
-Com ele não aconteceu nada, Sílvia.
Ele está acompanhando o Bernardo.
-Mas o que meu pai tem?
-Yanna, você vai ter que ser forte.
...
Osmar dorme no quarto em que está Kim,
também adormecido. Lucas volta para o hospital cabisbaixo, e sem fazer barulho.
Primeiramente, olha para o pai. No entanto, ouve um ruído contínuo: o monitor
cardíaco mostra que não há mais batimentos em seu filho.
-Kim? Não pode ser... Não, não pode
ser!
...
Bernardo segue caminhando pela calçada
e vê que nasce rapidamente um gramado no asfalto da rua em que está. Logo, os
carros que estão estacionados dão lugar às mais belas flores que existem, e as
vidraças dos prédios refletem o azul do céu, cada vez mais forte.
Uma criança anda calmamente na mesma
calçada, atrás do dono da transportadora. Repentinamente, segura a mão de
Bernardo.
-Quem é você?
-Kim. E você?
29/10/2016
ONZE MIL/ CAPÍTULO 13
-Garota de programa?
Que história é essa agora? Por que você tá mentindo pra mim desse jeito?
-Eu era conhecida com
Alice Dubeux. Me prostituía desde os meus quatorze anos. Mas quando eu fui me
apresentar pra você, resolvi usar meu nome verdadeiro, pra que você não fosse
me procurar, pra que não se decepcionasse com a Alice. No prédio onde eu morava,
todo mundo sabia do meu nome. Mas se perguntasse quem era Amanda, ninguém ia te
responder. Quando a gente se conheceu, eu tinha dois celulares. Um só pra
atender as ligações dos meus clientes.
-Por que você não me
disse nada? Por que você não contou naquela época que... Não pode ser...
-Sabe o que eu era
considerada na época que a gente se conheceu, Raffael? Acompanhante de luxo. Se
você soubesse da vergonha que eu tenho do meu passado...
-Eu nunca pensei que
eu fosse sentir isso na pele... Me envolver com aquilo que eu tenho
repugnância...
-Agora você entende
por que eu tive que me afastar? O que eu podia oferecer a você sendo a mulher
que eu era?
-Peraí... Peraí,
peraí! Essa história tá muito mal explicada! Você disse, quando a gente
terminou, que só chegou perto de mim por causa do meu dinheiro. Se você era
prostituta mesmo, o que você ia ganhar me conquistando?
-Raffael... Você vai
ter que ser forte...
-Mais do que eu já tô
sendo, Amanda? Amanda, Alice, eu nem sei mais o que você é. Estudante de cursinho,
médica, prostituta... Será que eu posso ficar mais chocado? O pior não é o que
você me contou até agora, mas sim o fato de que mesmo assim, nada mudou. O que
eu sentia por você há cinco anos continua do mesmo jeito. Mesmo que eu não
tivesse te encontrado de novo, o que eu sinto ainda tá vivo, entende isso...
Raffael acaba sendo
interrompido pela recordação da discussão que teve com o pai no dia anterior, e
que falava justamente sobre o seu envolvimento com a médica quando eles
estudavam juntos.
-Aprende a ser homem, Raffael! Já
passou da hora de você deixar de se sensibilizar com qualquer coisa que te
digam!
-Homem como quem? Posso saber?
-Olha aqui, você não me provoca!
-O errado aqui é o senhor! Bota isso
na sua cabeça!
-Já acabou?
-Não, ainda não! Se o senhor já se
esqueceu, eu vou te dizer o que é ser homem. É se importar com o próximo, é ser
sincero, é ter hombridade...
-Ah, pode me poupar desse discursinho
barato. Você não resolve seus problemas e quer que arque com os delírios que
culminaram na morte da sua irmã?
-Que problemas eu tenho pra resolver?
-Você se enfurna debaixo dos livros e
não quer saber de namorar, de ter uma mulher, de levar uma mulher pra cama...
Se tem uma verdade é aquela que você admitiu pra sua mãe: sem mim, você não
seria nada. Só falta admitir essa verdade pra si mesmo.
-A minha vida particular não interessa
a mais ninguém além de mim.
-A mim também interessa. Porque a
criação que você recebeu não inclui um comportamento de maricas, que se comove,
que chora. Filho meu tem que ser macho, entendeu?
-Sobretudo humano!
-Para de palhaçada!
-Pois eu vou dizer uma coisa, Pai: se
você tá esperando que eu arrume uma mulher que agrade, antes de mais nada, a
você, desista.
-Você se apaixonou uma única vez, pela
moça que fazia cursinho com você, e depois que ela sumiu da sua vida, por quem
mais você se interessou? Hein?
-Realmente, eu não imaginava que a
minha vida sexual foi um prato cheio pra suas insinuações e preocupações. Quer
usar isso pra me atacar, Pai? Pois eu vou dizer em alto e bom som:
independentemente do que você pensa a meu respeito, eu sei o que é ter uma
mulher e sei o que preciso pra colocar uma na minha cama.
-O que foi? Por que você ficou calado
de repente?
-Bernardo Mutarelli- ao falar isso,
nota o quanto Alice fica nervosa- Ele te pagou, não foi? Ele te pagou pra que
eu perdesse minha virgindade, não foi? Fala!
-Primeiro, ele... Pagou as
mensalidades do cursinho pra que eu me aproximasse de você. Ele desconfiava de
que você não gostasse de mulher e falou comigo. Prometeu que eu seria bem
recompensada se... Se eu seduzisse você.
-Não... – Raffael diz em voz baixa,
aos prantos.
-Só que quando eu saquei que você
realmente queria ficar comigo, eu resolvi encerrar essa farsa. Porque eu me
apaixonei por você, Raffael. Mas eu não tinha o direito de estragar sua vida.
-Mais? Mais do que você e ele já
fizeram e eu não sabia?
-Por que você tinha que me procurar?
Tanto que eu fiz pra enterrar esse passado e agora ele vem à tona!
-Só que, por mais que te doa, eu faço
parte desse passado! É... A verdade pode doer, mas você tinha que me contar...
– por meio minuto, fica de costas para Alice, que chora bastante, até que vira
bruscamente para saber- Antes de eu sair, me diz só mais uma coisa: você ia pra
cama com ele quando a gente namorava, não é?
-Não.
-Fala a verdade!
-Eu não ia pra cama com Bernardo quando
estava com você! Mas quando ele me contratou, já me conhecia.
-Claro. Tenho que dar os parabéns.
Pelo excelente serviço.
-Você não acredita no meu
arrependimento, não é?
-Se naquela época eu tinha que me afastar
de você, agora mais ainda. O que eu sentia por você até poucos minutos atrás
não era nada que eu tivesse experimentado com ninguém. E eu não tô falando de
sexo, mas da vontade de ficar junto, como se você fosse uma parte minha. Hoje,
eu te agradeço, porque você me ensinou um novo sentimento. Ódio, por você e por
ele- destranca a porta e se retira.
Alice fica devastada com a conversa. Pensa
em ir atrás do rapaz, mas nem sequer abre a porta. Chora como uma criança a
decepção que Raffael teve, borrando completamente a maquiagem.
...
Portando uma maquina de cortar cabelo,
Lucas puxa uma cadeira, liga o objeto na tomada e aciona o celular.
-O senhor tá brincando... –diz Kim,
incrédulo com o trato.
-Não tô, não. Vem pra cá cortar o meu
cabelo, rapaz.
Kim ainda pega a máquina, mas é
interrompido pelo pai.
-Que foi? Quer amarelar, é?
-Vamos botar uma música pra não ficar
nada triste aqui.
-Bota aquela em inglês, Pai.
-Que música em inglês?
-Sei lá, é uma que não é do jeito que
a gente fala. Aquela que tu tava procurando no computador.
-Ah, em espanhol!- Lucas ri da fala do
filho. Aquela do Alex- faz referência a um cantor colombiano chamado Alex
Campos- Deixa eu procurar aqui, que eu já baixei- ativa o player- Pronto.
Começa.
-E se você ficar de mal?
-Vou, nada, Kim. A gente vai cortar o
cabelo juntos. Imagina ficar com o cocuruto liso? Os dois? Vai ser um sucesso
com o pessoal!
Entusiasmado, Kim ouve a canção e
passa a máquina no meio da cabeça do pai, ao que prontamente dá uma risada e
até esquece que está debilitado. As outras crianças também acham graça. Lucas
se olha num espelho perto da tomada e faz a mesma brincadeira com o filho, que
ri bastante. Em seguida, o universitário pergunta se alguma criança tem um celular
que possa emprestar enquanto os dois ouvem a canção e tira uma foto do penteado
inusitado. Em questão de minutos, tanto Kim quanto Lucas estão sem os pelos da
cabeça. No entanto, não se importam tanto com isso, por agirem juntos.
A canção entoada durante o corte de
cabelo diz:
-Sentado, esperando o pôr do sol, gritando no lago de um céu
azul agradável, essa realidade começa a falar sobre Você. Os primeiros pássaros
cantam Sua música, o gramado da estrada é um poema de Sua voz indelével que se
formou ao meu redor. Posso Te sentir perto no riso e na dor, quando o coração
me salta ao meditar. Estás no profundo de cada respirar. Com as estrelas, me
Falas e cada dia sinto que me mostras Tua bondade. Olhando para o horizonte de
onde estou, minha imaginação se perde entre as nuvens e uma suave voz começa a
me falar de Você. As folhas vão caindo ao meu redor, elas ficam no passado que
me magoou e hoje eu posso entender que Cuidas de mim com amor.
...
À
noite, Bernardo volta pra casa e encontra Miguel, junto à Yanna.
-Ai, que
ótimo. Tio e sobrinha unidos pelo bem-estar da música gospel. O que é? Vão tentar
me convencer daquela papagaiada do disco de novo?
-Não é
nada disso, Bernardo. É sobre o Raffael.
-Outro problema
pra mim. O que foi que houve com ele?
-Ele
sumiu, Pai.
-Como
foi que sumiu?
-Ele
saiu de carro, não me disse pra onde ia, só que ia tirar uma dúvida e que não
ia demorar.
-A que
horas foi isso?
-Às
oito horas da manhã...
-E só
agora vocês me avisam isso? A gente tem que colocar a polícia pra ver se
localiza o Raffael, ele pode estar em perigo.
-Calma,
Bernardo. Você vai ver que Deus não vai deixar o inimigo tocar nele.
-Do
jeito que Raffael anda transtornado, o inimigo só pode ser ele mesmo.
-A que
se refere?
-Lucas.
O negro golpista ataca novamente, e desarmoniza tudo que eu construo. Sabe qual
é a novidade? Raffael descobriu que o filho do preto safado tem um linfoma e
ficou sensibilizado com a situação da criança.
-E você
não fica?
-Sensibilizado
o cacete! Ele não sofre agora nem um décimo do que eu sofri quando perdi a
Carolina. Já Raffael ficou mexido com a doença do querido sobrinho... Ah, vá!
-O Kim
ficou doente e você não disse nada pra mim?
-Contar,
Yanna? Tudo que eu quero é esquecer que esse Lucas existe, e vocês ainda querem
vínculos?
-Só que
o Joaquim é filho da Carolina. É seu neto, inclusive.
-Você
está grávida, por acaso? Só assim pra eu ter um neto, porque se depender da
disponibilidade do seu irmão...
-Já
chega, Bernardo! O Raffael desaparecido e você despejando o seu veneno contra
nós dois?
Alguém bate
à porta.
-Pode
entrar- avisa Yanna.
-Boa
noite- chega o segurança da mansão.
-Alguma
notícia do Raffael?
-A
gente conseguiu localizar o carro do Raffael. Tava no estacionamento da
Oncomed.
-O
hospital que trata pacientes com câncer? Só pode ter ido visitar o filho do
negro. Viu só? Não tem por que se preocupar. Certamente ele quis render o pai e
ficou lá cuidando da criança. Perda de tempo e de dignidade, ficar servindo a
um afrodescendente.
-Lucas
não ia sair de perto do filho. Imagina. Ele não saiu de perto nem da Carolina
quando ela tava morrendo.
-Mas o
empenho não funcionou, já que ela agora está a sete palmos do chão. Bom,
sabendo do paradeiro do Raffael, eu vou me deitar. Estou morto de cansado. Boa
noite.
-O
senhor não vai esperar por notícias dele?
-Não,
Yanna. Só me chamem se for pra algo importante- vai para o quarto.
-Definitivamente,
meu irmão está cada dia mais insuportável!
-Agora
fica a gente à espera do Raffael, que nem atende o telefone.
-Sabe
de uma coisa? Eu vou pra delegacia prestar queixa do desaparecimento do meu
sobrinho.
-Eu vou
com você, Tio.
-Não
querem que eu avise ao Dr. Bernardo?
-Não é
necessário. Só precisa chamar o Bernardo se for algo importante, não ouviu? A
prepotência dele, no momento, é bem mais importante do que o paradeiro do
filho.
...
Osmar e
Lucas dormem nas cadeiras da Oncomed e o pai de Kim se levanta, já de manhã,
pra ver como a criança está. Cumprimenta-lhe com um beijo na testa.
-Bom
dia, meu amor.
-A
benção, Pai.
-Deus
te abençoe. O que foi?
-Que
foi o quê?
-Você
levanta sempre a sua mão quando me pede a benção. O que foi?
-É meu
braço.
-O que
tem ele? Tá doendo?
-Não.
Não consigo levantar meu braço.
-Não
consegue? Olha pra mim- Lucas parece que, por diversas vezes, a boca do garoto
contrai sem que ele diga uma só palavra- Tem alguma coisa doendo em você?
-Não tá
doendo nada.
-Será
que você consegue se levantar? Tenta sair da cama, Kim.
-Eu não
posso. Tô preso.
Cada
vez mais aflito, Lucas se afasta do menino e garante.
-Daqui
a pouco eu volto. Vou procurar a Doutora Amanda.
-Cadê
Vovô?
-Tá
aqui fora. Vou dizer a ele pra ficar com você. Não fica nervoso, não, tá? Já
volto.
...
Bernardo sai do quarto, pronto pra tomar o
café da manhã, até que reencontra Yanna e Miguel na sala, insones.
-Vocês passaram a noite aqui?
-Não. Assim que você subiu pro quarto, Yanna
e eu fomos à delegacia prestar queixa pelo desaparecimento do Raffael.
-Ele ainda não voltou? Mas o segurança disse
que o carro estava na Oncomed.
-O carro continua lá, Pai, mas já reviraram
aquele hospital e nada do Fael aparecer!
A campainha é tocada.
-Tomara que seja ele- Miguel corre para
atender, mas é surpreendido pela presença de sua ex-cunhada- Você de novo?
-Não é possível... O que é que você está
fazendo aqui, Sílvia? Eu já não deixei bem claro que você não poria os pés aqui
dentro da minha casa?
-Melhor entrar sozinha do que acompanhada da
polícia!
-Do que a senhora tá falando?
-Senhora? Isso é uma cobra, Yanna, que deu o
bote na própria ninhada. Não seja tão educada assim.
-Sua criação é mesmo comovente, Bernardo. Só
espero que os nossos filhos não sigam o seu exemplo!
-Olha aqui, são seis horas da manhã, eu ainda
nem tomei café e você já chega disparando absurdos?
-Eles não são piores do que o que você fez,
seu calhorda!
-Eu vou chamar o segurança... – Bernardo pega
o telefone.
-Chama! Chama o Exército, se preferir. Mas se
você tocar nesse telefone, pode chamar a polícia também!
-Mas do que é que você me acusa, sua infeliz?
-De ter orquestrado o assalto!
-Assalto? Que assalto, Pai?
-O assalto aos caminhões que traziam as
cópias do seu CD, Yanna! Foi Bernardo o responsável pelo roubo das onze mil
cópias. Foi ele quem impediu o seu disco de chegar às lojas.
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