08/12/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 27


-Franqueza? É bem o nosso forte mesmo, especialmente o teu. Mas não entendo qual assunto temos a tratar.
-Sabes, sim. E muito bem.
-E do que se trata, então?
-Queria entender o porquê de tua atitude.
-Não é difícil de entender a minha rispidez. O senhor mesmo foi quem a provocou.
-Não me refiro à conversa que estamos tendo agora, e sim ao teu ato de...
-Termines.
-De doar um rim para salvar a minha vida.
-Eu mereço...
-Ainda que tu não queiras, e que nem mesmo eu queira, eu devo reconhecer o que fizeste por mim.
-Kleber...
-Deixes que eu conclua, por favor.
-“Por favor”? O caso é grave mesmo!
-Não te chamei aqui apenas para agradecer-te, em reconhecimento ao teu gesto, mas quero saber a razão de ter arriscado a tua vida. Enfim, foi... Pelo Tato?
-O que o senhor pensa?
-Que ele não te despertou apenas pena, como as pessoas podem acreditar. Há algo a mais nesta relação.
-Claro que há, Kleber. Há respeito entre dois homens. Isto tu não consegues ver porque é mais fácil julgar que ele não existe. Mas fiques tranquilo, a culpa não é tua. Não exclusivamente.
-Quando eu me vi aqui nesta clínica, eu achei que não fosse sair daqui com vida. De repente, o médico diz à minha esposa que existe um doador anônimo disposto a salvar a minha vida. E assim que eu começo a recuperar-me do transplante, descubro que foste tu o responsável por tudo acontecer. Como tu queres que eu me sinta?
-Como eu havia dito, Kleber, a opinião que tens de mim não é culpa tua somente. Apenas não me vejo na obrigação de responder pela opinião alheia, e sim pelo que faço ou deixo de fazer. Como é o caso da tua operação, a qual não tive nada a ver.
-Não precisas prosseguir com esta farsa, Valente, já foste descoberto.
-Lembraste meu nome? Ah, mas como poderia esquecê-lo, já que tanto deves tê-lo maldito nos últimos tempos?
-Acho melhor intervirmos- Hélio opina sobre a situação, no corredor.
-Não. Deixes os dois continuarem- conclui Dora.
-Sabes o que me faria salvar a tua vida, caso ela estivesse em meu poder ao menos uma vez? Ter a certeza de que tu és um ser humano. Coisa que eu não tenho.
-Querias que eu fizesse o quê? Aceitasse sem reservas a bissexualidade do Otávio? Ou mesmo que ele trouxesse homens para a sua vida, ou para a minha casa?
-Por não ter tido família é que te julgo. Não estou falando de aceitar, e sim de não tirar o Tato de teu convívio, ao contrário do que fizeste ao jogá-lo na rua com a roupa do corpo. A sua sexualidade só interessa a ele. Mas que fiquem bem claras duas cousas: eu não só não fiz o transplante por conta do Tato como também não o fiz.
-Para quê continuar com esta mentira? Só vai levar-nos a mais desespero. Já não achas que é torturante para mim admitir que é a ti quem devo a minha vida?
-Reconheces esta letra, Kleber?- Valente entrega o bilhete encontrado antes da visita ao Lar do Menino Tobias- Reconheces ou não?
-É a letra do Otávio.
-E, pelo teor, já podemos ficar preocupados. Ele ainda não voltou ao meu apartamento. Deve ser porque o doador misterioso ainda não pode sair da cama de um hospital.
-Queres dizer que...
-O filho a quem tu desprezaste é o mesmo que te trouxe de volta à vida.
-Não pode ser... Deve ser um blefe teu.
-Estou de pé em menos de cinco dias, Kleber. Alguém que passa por uma cirurgia tão complicada não sairia andando pelos corredores de uma clínica. Chega a ser doentio o que tu pensaste em fazer: agradecer a um completo desconhecido do que ao teu próprio filho.
-Estás mentindo!
-Peças à tua esposa ou ao teu irmão para que os funcionários chequem se o Tato está na lista de pacientes. Ou digas ao teu médico que já sabes da verdade e ele acabará confessando a verdade irrefutável. Ao menos, tens o teu irmão e a tua esposa para socorrerem-te quando precisares. E quanto ao Tato? Está ele agora numa cama, recuperando-se de um transplante sem nenhum amigo por perto, e muito menos a família. Vou lhe ser ainda mais sincero, Kleber: eu não acredito em sorte, mas tu tens bastante pois é, em caráter disparado, a pessoa mais amada da tua família.
-Otávio não pode ter feito isto comigo.
-Mas pode ter feito por ti. Vejas que curioso, não é? A Palavra diz que podem muito bem o pai e a mãe esquecerem-se de um filho, mas Deus não o desampara. O que eu tinha de esclarecer, eu já o fiz. Com licença.
-Valente... Como eu posso ter a certeza de que estás falando a verdade?
-Busques informar-se com os enfermeiros. Eles poderão dizer que eu fui ferido, que entrei aqui com um homem misterioso que me acolheu na rua e pagou as minhas despesas médicas. A minha história tem respaldo, Kleber. O que não tem é o desmedido ódio que sentes pelo teu filho.
Deixando o quarto de Kleber, que se debulha em lágrimas, o saxofonista volta à recepção da clínica e pergunta, com absolutas certeza e ênfase:
-O quarto de Otávio Queiroz Goulart, por favor.
-Não podemos dar informações a respeito deste paciente.
-Contate-o e diga que é Valente Valença. Ele vai receber-me.
Avisado de que é o amigo que o acudiu quem está à sua espera, Tato permite que o saxofonista entre em seu quarto.
-E então, meu amigo?
-Por que tu fizeste isto às escondidas, Tato?
-Acho que foi por medo de arrependimentos. O Dr. Lopes contou-me que ele está bem. Tu o viste?
-Sim, acabei de falar com teu pai. E sinto muito, mas tive que contar a verdade. Ele chegou a pensar que eu fosse o doador anônimo.
-Preferia ter ficado na obscuridade, Valente.
-Nela tu já estavas há muito tempo, Tato.
-Por que meu pai pensaria que logo tu o ajudarias? Vocês se odeiam... Quer dizer, ele não te vê com bons olhos...
-Tanto ele quanto o Hélio tiveram seus motivos. É uma longa história, mas eu não quero falar de mim agora. Como tu estás?
-Ainda com muitas dores. Mas está chegando a hora de sair da clínica.
-Talvez não seja o momento mais adequado para falar sobre isto, mas eu preciso admitir algo. Muitas vezes, quando as pessoas comentavam a respeito da nossa amizade, nascida de um dia para o outro, eu tive sérias dúvidas se estava ou não fazendo a cousa certa.
-Mas tu abrigaste a mim devido ao que tu passaste, pelo abandono no orfanato.
-Há mais do que isto, Tato. Quando eu deixei o Lar do Menino Tobias, eu tive que trabalhar na rua, mas dormia em um motel, o Lisboa Noite.
-Acho que tu já tinhas me contado sobre isto uma vez.
-Pois é. E eu também era apontado por dormir lá, pois não ganhava nas ruas o suficiente para pagar uma pensão ou pousada. Era como se o pouco que me pertencia tivesse sido tirado com a minha maioridade.
-E foi então que tu aprendeste o que é ser homem.
-Foi. Não era o fato de dormir na rua que me preocupava, era o que eu tinha deixado para trás. Quando apareceste na minha vida, eu fiquei pensando em cada momento de felicidade que tiveste, porque a tua família havia sido tirada repentinamente. Aqueles garotos, as freiras do orfanato, a Madre Joana... Todos eram a família que eu nunca tive a chance de conhecer. Agora eu sei que cumpriste a promessa que fizeste ao teu pai: de ser o homem que precisavas ser, porque honraste aquilo que tu mais amavas.
-O que queres dizer com tudo isto, gajo?
-Que eu tenho orgulho de ser teu amigo; de ter dividido, ainda que por pouco tempo, as angústias e as felicidades de minha vida. E todas as minhas dúvidas dissiparam-se quando eu percebi que tu deixaste as mágoas de lado e salvaste a vida do Kleber.
-Acredito que não tenhas o direito, Valente. Eu sou quem mais precisa dizer que tenho orgulho de ti. Sei o quanto errei, que muito da minha infelicidade se deve também a mim, mas se não fossem os meus erros, eu não teria conhecido um exemplo tão correto de honestidade e fé quanto tu. Direi até que nós dois possamos cansar de ouvir: eu queria ter a fé que tu tens.
-Já eu gostaria, de todo o meu coração, de ter a tua índole.
-Chega a ser estranho: nós dois não temos nada em comum para nos respeitarmos tanto e, no entanto, é como se nos conhecêssemos de tanto tempo.
-Agora tudo vai se resolver entre tu e a tua família.
-Não, Valente. Eu fechei, literalmente, uma ferida do meu pai. Mas o ressentimento continua aberto.
-Pares de acreditar que será por muito tempo. O Kleber acabará pedindo o perdão que tanto queres conceder.
-Ainda pode notar-se que tu não o conheces quanto pensa.
-A vida é imprevisível. Esperes, porque não custa nada.
-E tu, como andas?
-Com as pernas, como de costume.
-Não, refiro-me à vida.
-Digamos que os dias têm sido difíceis. Mas pelo menos sei que não estás mais em perigo.
-Posso fazer alguma cousa para ajudar-te?
-Claro que podes. Basta orar.
-Mas eu não sei orar, só sei rezar.
-Fluirá de ti mais naturalmente do que pensas. O que é uma surpresa de Deus perante tantas que Ele costuma preparar?
Há um aperto de mãos entre os rapazes antes que o músico deixe a clínica. Mas, antes disso, há mais uma prova de que o dia será longo: Hélio encontra o seu funcionário na entrada do recinto e o impede de retirar-se.
-Valente, esperes.
-O que foi, Hélio?
-Valente, eu... Precisava agradecer-te pelo que tu fizeste ao meu irmão.
-Já te disse um milhão de vezes que não fui eu o responsável pela doação ao Kleber. Deverias ter aquele péssimo costume novelístico de escutar atrás da porta.
-E foi o que fiz, quando foste falar com o meu irmão.
-Agora quem não está entendendo nada sou eu. Qual é o motivo do agradecimento, então?
-Hoje tu tiveste coragem de falar abertamente com ele. Eu já sabia o quanto tu eras verdadeiro, mas conseguiste surpreender-me ainda mais.
-Finalmente encontro alguém que acredita em mim.
-E também eu quero pedir desculpas por toda a celeuma que eu provoquei pensando que tu eras o doador anônimo. Acabei por trazer mais dor e sofrimento ao homem que tanto amparou a minha família. Primeiro, ajudaste o Tato, dando um teto ao meu sobrinho. Depois, revelaste a verdade ao Kleber... Não tenho dúvidas de que tu és um anjo que apareceu em nossas vidas.
-Passo longe de sê-lo, Hélio. O que eu espero é que, com os esclarecimentos que eu fiz, o teu irmão e o Tato possam ter uma relação mais harmoniosa. Não precisas pedir-me desculpas.
-Como não? O equívoco que cometi foi tanto que acabei provocando um desentendimento entre tu e tua noiva! Minha obrigação é de procurar pela Cissa e desfazer de vez o mal-entendido que causei.
-Faças isto. Mas não acredito que só a Cissa acredite que eu sou o responsável pela operação do Kleber. Pior do que esta hipótese estapafúrdia, só os argumentos que as pessoas usam para fortalecer este engano.
Especificamente, Valente fala de Fabiano, que realmente acreditou em segundas intenções de seu saxofonista quando este supostamente fez um transplante para salvar a vida de Kleber. Em conversa no templo da igreja, a esposa do pastor sutilmente volta ao assunto, considerado espinhoso por ambos.
-Os vizinhos comentaram que Valente não passou nem só uma noite no hospital. Retornou ao apartamento no mesmo dia- comenta, enquanto limpa um vaso de flores do púlpito.
-Ah, é? Que bom. Pelo menos, a recuperação está bem rápida- responde, ao varrer o templo religioso.
-Nossa... Em outros tempos, soltarias fogos com uma notícia destas.
-O que queres tu que eu faça, Nete?
-Quando falei a respeito do atual estado de saúde, pensei que tu foste ficar animado a ponto de fazer uma visita ao varão valoroso, já que és tão próximo a ele.
-Queres tu que eu vá ao encontro de Valente?
-Isto és tu quem pode responder, Fabiano.
-Sinceramente? Não quero ir. Acho até que demorei muito, mas desde que Valente tomou a atitude de dar abrigo àquele rapaz, eu posso ver como ele mudou.
-Antes era bastante retraído; hoje, conseguimos ver um modo mais afoito de ser. Nega veementemente as cousas que nos estão nítidas...
-Por isto mesmo que eu tomei uma decisão.
-Do que se trata, meu querido?
-Tem a ver com o Valente. Mas eu prefiro dizer-te depois de entrar em contato com ele. O que posso adiantar é que o seu comportamento em nada está do meu agrado.
-Particularmente, eu estou preocupada com a Cissa. Como será que esta menina está, meu Pai?
-Abalada, provavelmente.
Longe daquela igreja, Beatriz está sozinha em sua casa, preocupada com a falta de notícias sobre sua irmã. Repentinamente, pensa em contatar alguém que provavelmente sabe do paradeiro da moça e tem tanta frequência comunicativa quanto ela: o professor. Vasculha em uma pequena agenda, localizada ao lado do telefone, o número do docente, fazendo a ligação diretamente de seu celular. -Alô? Eu gostaria de falar com o professor...
-Beatriz.
-Como o senhor sabia que era eu?
-Nos conhecemos no aeroporto, quando a Olívia embarcou.
Ah, claro. Professor, desculpa-me por estar ligando, mas é que eu tenho um assunto urgente para tratarmos.
-Qual é o problema?
-A minha irmã, ela entrou em contato com o senhor nos últimos dias?
-A Olívia? Não. Tem quase uns três dias que eu não falo com ela.
-Nenhuma mensagem de texto, ligação, nada?
-Não, Beatriz.
-É que eu estou ficando preocupada. A Olívia não tem retornado às minhas chamadas. Ela não costuma ficar sem dar notícias.
-Achas que aconteceu alguma cousa?
-Eu tenho certeza. Olívia não é de sumir no mundo e não dar satisfação.
-Beatriz, eu entrarei em contato com o departamento de pós-graduação da universidade e o deixarei alerta para que ele entre em contato contigo ao obter alguma informação a respeito de tua irmã.
-Será que ela não comentou sobre ir a algum congresso? Não sei, pode ser que ela tenha esquecido-se de avisar a mim.
-Olívia não te deixaria tão preocupada assim. Vou fazer o seguinte: estou embarcando para uma viagem daqui a poucas horas. Assim que chegar, eu te ligarei e direi o que fiquei sabendo a respeito.
-Tudo bem. Eu vou esperar pelo senhor.
-Fazes bem, Beatriz.
-Até mais tarde, então- Beatriz encerra a ligação, enquanto o professor faz outra chamada.
-Alô? É da Embaixada Portuguesa? Eu gostaria de fazer um alerta...
Cissa está mais do que pronta para colocar, naquele mesmo e interminável dia, um figurino capaz de fazer o noivo exercer o pecado capital da luxúria. Enquanto Valente está voltando para o apartamento, a moça chega antes, subornando o porteiro para conseguir entrar na casa do saxofonista. Liga o chuveiro, ao passo que o músico volta para casa a passos lentos, em decorrência do ferimento que sofreu naquela semana.
Valente abre a porta, depois de uns quarenta e cinco minutos, e vai à geladeira encher um copo com água. Em êxtase, a noiva escuta os passos do prometido pelo apartamento. Uma cena chama a atenção do saxofonista: a porta do seu quarto aberta. Normalmente, é Tato quem o costuma fazer com a porta do quarto que o corresponde, mas como este há dias mantém-se afastado do dormitório provisório, a suspeita que permeia pela mente do varão valoroso é a de que havia um larápio. Ou houve, e este se esqueceu de trancar a porta após a realização do roubo. Amedrontado, o jovem exclama em voz baixa.
-Deus tome conta!
Os passos lentos que lançou mão para o retorno do calmo lar voltaram a ser usados para uma circunstância nada tranquila... O verde menta que dava cor às paredes do quarto parecia perturbador diante daquele rapaz que discretamente entrava por aquela porta de madeira... Mas o tom decorativo era menos gritante do que aquela toalha vermelho sangria, propositalmente molhada para enaltecer as curvas de Cissa, deitada de bruços sobre a cama do noivo. Tanta colorimetria é só para afirmar: a moça tomou um banho e esperou o rapaz para uma tarde de lascívia. Pronto!
-Não sabes o quanto te esperei, meu Valente- fica de joelhos sobre a cama- Venhas.
-O que significa isto?
-Hoje seremos um só. Não tenhas medo.
-Cissa... É melhor tu pores a tua roupa- chega a gaguejar diante da visão que tem.
Aparentando arrependimento, a vendedora sai da cama e recolhe as vestimentas que deixou espalhadas pelo chão do quarto. Com a cabeça abaixada, dirige-se à janela aberta e, com força, joga tudo pela janela, assustando ainda mais o noivo. Em seguida, Cissa puxa violentamente a toalha e mostra o seu corpo inteiramente úmido, colocando os cabelos longos para trás.
-Tens certeza de que queres que eu ponha alguma cousa sobre mim?

01/12/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 26


-Tu queres receber o Valente no teu quarto? O que vais dizer a ele?
-Sem mais perguntas, Hélio. Apenas faças o que estou lhe pedindo, por favor.
-Não acredito que seja uma boa ideia trazê-lo até aqui.
-O que pensa que eu farei? Discutir com o teu saxofonista? Mas nem se eu quisesse. Eu só preciso conversar com ele.
-Continuo achando que não é uma boa ideia. Tu fazes uma concepção errada a respeito do Valente, acredita que Tato e ele...
-Hélio, não vamos tocar neste assunto. Eu preciso conversar sobre o que realmente interessa a mim, que é o assunto da doação que ele fez. Será que podes fazer a enorme gentileza de pedir que ele venha aqui?
-Está bem, então. Só que eu não acredito realmente que o Valente queira vir te ver. Afinal, tu o trataste muito mal.
-Eu tenho direito de entender o que aconteceu comigo, e por que aconteceu. Peças para ele vir aqui, por favor.
-OK. Eu vou até a enfermaria procurar por ele. Volto daqui a pouco.
Hélio até vai ao leito onde encontrou o músico, mas encontra a cama vazia. Pergunta a um dos enfermeiros presentes no local onde estava Valente Valença, mas ele afirmou ter o saxofonista deixado a clínica de Lopes, o que causou estranhamento ao dono do Recifeeling. Volta ao quarto em que Kleber está instalado para comunicá-lo.
-Encontraste o rapaz?
-Valente deixou o hospital.
-Como é possível?
-Não sei, Kleber. Também estranhei quando não o vi mais na enfermaria. Mas à noite, quando eu voltar do restaurante, eu continuarei procurando por ele. Deixes que eu vá agora, porque o dia promete ser cheio.
E, como anunciado, Hélio deixa a clínica para ir ao trabalho, enquanto Dora encarrega-se dos cuidados com o seu marido durante todo o dia. Para ela, ele não admite que pretende conversar com Valente sobre a operação. Enquanto isso, o dia ainda está amanhecendo no galpão que serve de cativeiro para Olívia. Aproveitando que Nicolas não está no local, a jovem tenta desatar os nós que a prendem na cadeira de ferro em que ele a colocou. Mexe os braços e as pernas com bastante força, mas acaba caindo para trás. Com dificuldade, acaba ficando de bruços e descobre, tragicamente, a origem do cheiro fétido que empesteia o lugar: dez cadáveres femininos, em estado de decomposição avançada, largados sobre o piso cheio de poças d’água devido às goteiras do teto.
-Meu Deus do céu... O que foi que aquele monstro fez? – sem saber, Nicolas está voltando para o galpão e vê a moça caída.
-O que eu pretendo fazer com você também!- surpreende a estudante, que tem os cabelos puxados e é colocada na posição que estava antes de tentar a própria soltura.
-De quem são aqueles corpos?
-De meninas como você, e que morreram pelas minhas mãos, por serem iguais a você.
-Acabes com esta tortura de uma vez, digas logo o que queres tu de mim...
-Não é óbvio, Olívia? A sua destruição. Eu não quero deixar nenhum rastro da sua existência sobre a face da terra.
-Por que isto? Qual é o motivo de tanto ódio por mim, meu Deus?
-Quer mesmo saber toda a verdade? Pois eu vou dizer. Pra começar, o meu nome de verdade não é Nicolas. Eu inventei isso pra você... Quer dizer, pra todas elas.
-O que fizemos para que tu arquitetasses todo este plano macabro? Meu Deus, eu não consigo entender...
-“Deus”, “Deus”, “Deus”... Em nenhum momento, você tira esse nome da sua boca, que droga!- Nicolas agride Olívia com uma violenta bofetada, fazendo-a chorar excessivamente- Elas, assim como você, também não paravam de falar sobre Ele, sobre alguém que não existe! Da mesma forma que não existe o Nicolas evangélico, temente a Deus, de quem tanto você se orgulhava em cultivar uma amizade. Aquele cara que eu te apresentei não passa de uma grande farsa, assim como Ele também é.
-Deixes de blasfemar, maldito!
-Blasfêmia? Como você acha que eu posso atacar alguém em que eu não acredito? Alguém que não existe?
-Não existe na tua mente perversa e doente!
-Viu só? Foi por causa desse comportamento que eu vi que você era uma vítima em potencial. Todas elas enchiam a boca pra falar o quanto adoram servir a esse mito.
-Cala-te!
-Não vou parar! Agora que as máscaras estão caindo, você vai saber o que eu penso e quem eu sou, Olívia. E não vai ser nada agradável, te garanto.
-Tu estás doente! Precisas de ajuda médica, de tratamento!
-Pode até ser que eu precise. Já você não vai ter, não é? Porque nem uma vala, pra ser enterrada como indigente, vai ter direito. Como foi fácil enganar todas vocês. Basta colocar um “aleluia” na boca que já pensam que sou crente. Vagar pela universidade e encontrar uma evangélica é a coisa mais difícil do mundo. Mas bastam cinco minutos de lábia e eu consigo tirar o doce da boca de uma criança. A ingenuidade levou todas pra morte...
-Deixes que eu saia daqui!
-Nunca! Antes de eu cogitar essa ideia, você morre!
-O que pensas? Que a polícia não vai desconfiar do desaparecimento destas mulheres? Achas mesmo que ninguém sentirá a falta destas moças que tu ceifaste a vida?
-A universidade vai abafar o burburinho em torno das investigações. Logo, logo, ninguém vai se lembrar da existência dessas desgraçadas.
-Tu não ficarás impune, Nicolas. O que tu fizeste com elas e estáS a fazer comigo não ficará impune.
-E quem vai me punir? Você, que não consegue nem desfazer nó de sapato?
-Há quem possa defender-me e lutar por mim...
-Quem seria? O deus em quem você acredita?
-Quem mais seria, além Dele?
-Sabe que eu até simpatizei com você, Olívia? Acho que vou te dar a chance de sobreviver, mas só se fizer uma coisa pra mim.
-Estás blefando...
-A sua vida está nas minhas mãos, eu não teria porque mentir agora.
-A minha vida está nas mãos Daquele que me deu a vida, e quem pode tirá-la de mim!
-Chegamos ao ponto: o suposto dono da sua vida.
-O que queres dizer com isto?
-Negue. Admita que Deus não existe, que é tudo uma invenção. Que Ele não passa de uma mentira inventada pelos homens.
-Antes de fazer isto, eu prefiro que tu acabes com a minha vida.
-Vamos lá, Olívia. Eu não estou pedindo nada demais.
-Nunca! Se pensas que eu vou negar a Deus, estás equivocado. Dos meus lábios, não ouvirás isto nunca, desgraçado!
-Parece que você não sofreu o suficiente nos últimos dias... O que eu tenho a fazer? Mutilar teu corpo? Te torturar? Riscar tua pele à faca? Ou fazer você ser minha e te usar até você pedir pra morrer, por não aguentar mais o meu corpo sobre o seu? Eu estou te dando uma chance de sair desse lugar com vida...
-Se Deus quiser matar-me... Ou melhor, se Ele quiser tirar a minha vida através das tuas mãos, que o faça. Mas eu não vou negar o amor da minha vida. E está para nascer o homem que me fará afirmar o contrário.
-Eu vou te dar mais uma oportunidade, vagabunda- afasta-se da moça- Quem sabe com mais uns dias de fome, sem água, você não mude de ideia? Pro teu bem, é melhor que mude. Mas eu vou te avisar uma coisa, Olívia: a próxima conversa entre nós vai ser a última.
O torturador arrasta alguns dos corpos das estudantes desaparecidas e os coloca junto à cadeira na qual Olívia está amarrada, deixando que as formigas subam sobre o corpo da jovem, para em seguida deixar o galpão abandonado. Já Valente ficou em casa, recuperando-se da lesão que sofreu há pouco tempo, mas não deixando de pensar nas discussões que tem travado incessantemente com a noiva. Só que algo naquela noite vem à tona: o bilhete que Tato deixou no dia do assalto. Completando o fato de que Kleber passou por um procedimento cirúrgico no mesmo dia, o saxofonista entende, enfim, onde está o seu problemático novo amigo. Portanto, vai ao seu encontro, ligando para um taxista e, saindo do prédio, é conduzido à clínica de Lopes. Na recepção, procura informações.
-Boa noite.
-Boa noite. Em que posso ser útil?
-Estou à procura de informações sobre um amigo meu.
-Qual o seu nome completo?
-Otávio Queiroz Goulart.
-Até que enfim eu te encontrei- Hélio volta do Recifeeling- Tenho ligado para a tua casa desde a hora em que saí do restaurante, mas não me atendes.
-De novo, não... Para que estavas a procurar-me, se eu ainda estou convalescente, Hélio? Não vais insistir nesta patacoada de cirurgia novamente, não é?
-Valente, tu não poderias ter saído da clínica.
-Saí com autorização do médico no mesmo dia.
-Nossa, mas... Tão rápido? Enfim...
-O que tanto queres comigo? Eu preciso fazer uma visita ao...
-Ao Kleber.
-O que tem o teu irmão?
-Ele quer falar contigo.
-O Kleber quer conversar comigo? Sobre o quê?
-Isto, ele não quis dizer-me. Mas até imagino sobre o que seja- Hélio avisa ao recepcionista- Autorizes a entrada deste rapaz: Valente Valença.
-Tu és da família de Kleber Lacerda Goulart?- pergunta o recepcionista.
-É como se fosse. Ainda mais agora.
-Hélio, que tantas entrelinhas são estas? O que tanto teu irmão quer falar comigo?
-Kleber está com a minha cunhada, Dora. Venhas comigo- e Hélio conduz o músico até o quarto- Trouxe uma pessoa para falar contigo, meu irmão.
-Dora, Hélio... Deixem-me a sós com ele.
A família de Kleber fica no corredor, mas deixa a porta do quarto entreaberta.
-O Hélio disse que o senhor queria falar comigo...
-Não, eu não queria. Eu preciso ter uma conversa franca contigo.

24/11/2018

VALENTE VALENÇA/ CAPÍTULO 25


Havia um costume quase religioso praticado por Olívia, desde que ela viajou para investir em sua pós-graduação: entrar em contato com Beatriz, nem que fosse ao menos uma vez ao dia. É verdade que as irmãs não eram tão próximas, mas a distância contribuiu para que uma sentisse a falta da outra. Dezoito horas após os últimos acontecimentos, aquela que ficou em sua terra natal abre o notebook para tentar uma videochamada. Sem sucesso em sua empreitada, ela comenta sobre o fato com o amigo, Michel, estando no apartamento do rapaz.
-Três vezes. Foram três vezes, e a Olívia não atende.
-Ligaste para o celular da tua irmã?
-E achas que não tentei? Mas está fora da área de cobertura. Essa falta de notícias está deixando-me um pouco preocupada.
-Não leves tudo ao extremo, estás parecendo até a própria Olívia. Na certa, ela deve estar ocupada elaborando a tese de mestrado, ou em uma reunião com o seu orientador.
-Deve ser...
-Mais tarde, ela ligará e vocês duas conversarão.
-Agora, digas: e a Cissa, hein? Rompeu com o tal varão valoroso?
-Claro que não- abatida, a jovem sai do quarto e vem até a sala- Deixes de dizer tolices.
-Até que enfim a libélula resolveu sair do casulo. Era eu capaz de jurar que tinhas tomado uma caixa inteira de Lexotan!- observa Michel, enquanto prepara uma playlist para tocar numa boate lisboeta à noite.
-Tua anedota eu dispenso, está bem? Passei a noite inteira sem dormir- Cissa senta em seu sofá.
-Amiga, como tu estás abatida... Não imaginei que o Valente te deixaria a este ponto.
-Mas não vai ser por muito tempo, não, Beatriz. Durante este tempo, eu pensei bem no que vou fazer.
-Já sei: dispensar o insuportável do saxofonista? Olhes, querida, se for isto, eu te dou a maior força. Podemos curar a tua fossa passando uns dias no SPA, programando uma viagem para encontrar a Olívia... Melhor: vinte dias em Ibiza, que tal?
-Achas que estou mesmo com cabeça para Ibiza, Beatriz?- Cissa levanta e põe as mãos na cintura- A minha felicidade está aqui e eu vou desfrutar dela, nem que para isto eu tenha que passar por cima dos princípios do Valente.
-Minha irmã, minha irmã... O que é que tu pretendes com esta conversa?
-Se o meu amor não é suficiente para que o meu noivo antecipe o casamento, a solução é outra: apelar para o peso na consciência.
-Do Valente?- Beatriz ri do plano da amiga- Aquele ali é evangélico, mas sonha em ser canonizado pelo Papa, Clarissa! E do jeito que ele se mantém imaculado, olhes que ele será capaz de conseguir...
-E quem disse que o Valente não tem uma mancha que seja na sua vida íntima?
-Calma... O que é que tu sabes, Cissa? Porque até onde tu contaste para mim e para a Beatriz, o Valente ainda é virgem.
-Por enquanto, sim. Mas não será assim para todo o sempre, Michel.
-Claro que não. Mesmo porque ele insiste naquela baboseira do sexo depois do casamento.
-Talvez ele faça antes.
-Não estás tentando dizer que...
-Exatamente. Eu vou levar o Valente para a cama antes do casamento!
-Cissa, trates de raciocinar. Tudo bem que sexo é bom, mas o Valente não tem o prazer como foco. Achas mesmo que ele transará contigo sem sentir culpa alguma, minha amiga?
-O que estou oferecendo é uma faca de dois gumes, e que certamente vai beneficiar-me. Se o Valente e eu transarmos, ele pode sentir-se extremamente culpado.
-Daí, ele sequer cogitará olhar para ti novamente.
-Não, Beatriz. Com o remorso de não ter resistido a mim, ele quererá reparar o mal que a mim fez. Portanto, falará com o Pastor Fabiano e pedirá que o nosso enlace aconteça o quanto antes, por medo de que descubram que nós nos entregamos.
-Tudo bem, mas... E se ele não quiser? Hum?- Michel indaga a irmã- Conheces tão pouco o Valente para sequer cogitar a possibilidade de que ele pode rejeitar-te para não chegar ao casamento sem a aclamada virgindade?
-Achas que não pensei nisto, Michel? Exatamente por conta desta hipótese é que a minha ideia é uma verdadeira faca de dois gumes. Valente tem vinte e dois anos de idade, é ultraconservador em pleno dois mil e vinte, defende com afinco os valores nos quais acredita, principalmente se estiverem relacionados à igreja.  Duvido muito que ele negue prazer à mulher que será sua em qualquer que seja a circunstância. Mas, considerando esta possibilidade e que o nosso compromisso está de pé, nada mais justo para ele do que adiantar ao máximo, para desfrutar de tudo de bom que o espera: eu mesma.
-Cissa, não achas que é esforço demais para um evangélico insuportável que pouco se lixa para os teus desejos sexuais?
-Vejas bem como falas do meu homem, Beatriz.
-Ah, desculpa-me, Cissa, mas terei que concordar com ela. O Valente pode muito bem perceber que teu interesse por ele é só sexo e desistir do casamento.
-Como vejo, vocês não conhecem o Valente tão bem como eu. Eu tenho certeza do desejo que ele sente por mim.
-O que é normal em qualquer relacionamento. Também entendo a tua vontade de ter a primeira vez com ele, mas... É esforço demais para pouco resultado. O que tu pensas que vais ganhar transando com um gajo e fazendo com ele remoa-se de culpa, Clarissa?
-A expulsão do Otávio daquele apartamento.
-Minha irmã, deixes de ser tola. O Valente e o Tato são amigos, e nada mais do que isto.
-Eu sei, mas o resto do mundo não sabe. E eu não vou deixar que falem mal do meu noivo por conta da presença infecta daquele homem na casa do Valente.
-Os comentários que devem fazer a respeito do teu noivo são incentivados por tu mesma, Cissa. Se não desses tanta importância ao Tato, se pensasses que ele está morando com o Valente provisoriamente, não haveria tantas discussões e tampouco mexericos a respeito da sexualidade do teu noivo.
-Escutes o teu irmão. Se o Valente não transou contigo até agora, por que faria isto sem casar?
-Mas eu vou atiçá-lo até ele não poder resistir mais.
-A virgindade do Valente é uma escolha que ele fez.
-Só que ele escolheu esperar por mim também, Beatriz, e eu não acho nada justo. Se tenho a certeza de que vamos nos casar e ficar juntos para toda a vida, eu não vejo motivos para não fazermos sexo. E depois, eu não consigo entender-te. Não é justamente a senhorita que acha retrógrada esta castidade, até para um homem?
-Cissa, não é o Valente que está em discussão, e sim o futuro do teu romance com ele. O que pensas em fazer? Aparecer na casa do rapaz e dizer “façamos amor” como se ele fosse concordar sem questionamentos?
-Se houver questionamentos, é sinal claro de que amor não há, pelo menos não da sua parte. Até posso esperar pelo casamento, mas só se ele adiantar a cerimônia falando com o Fabiano.
-Pareces estar ficando amalucada! Valente está contigo há quatro anos, por que é que tu não podes esperar mais um pouco, se aguentaste esta situação até agora?
-Quanto, Michel? Até a honra do meu noivo ser suja por aquele sujeito mequetrefe que está instalado na sua casa?
-Avalies bem este plano teu, amiga. Vamos supor que tu e Valente chegueis às vias de fato. Só que, por culpa ou por qualquer outro motivo, ele desista de ti para sempre. O que pretendes? Jogar aos quatro ventos que foi para a cama com ele por mera vingança? Cissa, se somente a presença do Tato naquele apartamento incomoda muita gente, fornicação incomoda muito mais.
-Uau! Falou agora a legítima irmã da Olívia. Por um momento, pensei que ela não tivesse ido viajar.
-Surpresa por quê? Os valores que ela segue são os mesmos que os teus, ou não? Tu insististe em levar esta relação adiante, mesmo quando Olívia e eu aconselhamos a não passares do convívio social. Agora, queres levá-lo para a cama pressionado?
-Pensam que meu interesse é só sexual, mas não é. Meu sonho é de casar-me com ele.
-Porque a noite de núpcias está incluída no casamento, Clarissa! O Valente conhece-te como a palma da mão. Quando ele perceber que não estás mais com ele por mera curiosidade e sim por uma obsessão desenfreada, ele te largará. Minha irmã, no dia em que ele perceber que não há mais amor de tua parte, ele acaba este compromisso!
-E quem és mesmo tu para falares de amor? O homem que finge diversas conquistas femininas para que ninguém saiba que ele é um enrustido? Ah, já sei, é o mesmo que dispensou o amante de tanto tempo e que causou um caos completo na minha vida! Foste tu que trouxeste aquela praga para as nossas vidas, e só cabe a mim limpar o rastro que vocês deixaram no caminho!
-Agora vais apelar para a agressividade contra o teu próprio irmão, Clarissa? Já não basta o quanto tu falas mal da decisão do Valente para a tal de Ednete, que pensa e espalha horrores a respeito do teu noivo?
-Para ver se assim, ele se sente pressionado de uma vez por todas e casa comigo!
-O que tu esperas com toda esta maledicência que formaste ao redor do teu noivo? Que ele se sinta tão constrangido a ponto de deixar a igreja, já que todos agora têm o nome do Valente na boca para falar mal a seu respeito?- Michel tenta trazer a jovem a si, sem êxito.
-Pouco estou eu importando-me com a igreja. Aliás, eu não me importo com mais nada. A única coisa que sei é que Valente será meu em todos os sentidos, e eu estou disposta a passar por cima de quem atravessar o meu caminho.
Após horas inconsciente, Olívia finalmente desperta, mas estão seus braços e pernas atados a uma cadeira de ferro, localizada em um galpão abandonado e cheio de verminoses. A mestranda olha ao redor para ver se há alguém por perto, até que sua visão turva mostra um homem se aproximando calmamente.
-Quem está aí?
-Calma, Olívia. Não está me reconhecendo mais?
-Nicolas?
-Acho que exagerei na dose do sonífero, não é? Pensei que nunca mais você iria acordar... Se bem que seria uma ótima ideia...
-O que foi que fizeste comigo?
-Trouxe você para um lugar agradável, aconchegante e, principalmente, sem ninguém pra incomodar.
-Foste tu que me trouxeste até aqui?
-Puxa, até que enfim você entendeu. Pensei que teria que desenhar, e eu não sou tão bom com artes visuais... Sente fome, meu amor?- retira da sacola que está carregando um prato descartável, com um almoço típico da região- Trouxe pra você.
-Nicolas, tira-me daqui.
-Mas já? Nós nem começamos a nos divertir... Que coisa chata, Olívia. Tive que esperar dezoito horas pra que você acordasse e já quer ir embora? Puxa...
-O que vais fazer comigo? Abusar de mim? Foi para isto que planejaste meu rapto?
-Se eu estivesse mesmo apaixonado por você, como te fiz pensar, até poderia te mostrar o que é um homem de verdade. Mas nem pra despertar desejo em mim você serve.
-Então, o que é que tu queres comigo?- grita, até que Nicolas joga o prato em seu rosto.
-Pensa que gritando vão te escutar, Olívia? Este lugar aqui só eu conheço. E quem conheceu além de mim não ficou vivo pra ensinar o caminho a ninguém. Estamos longe de tudo e de todos, meu amor...
-Não chegues perto de mim. Por que estás fazendo isto?
-Adoro me divertir, Olívia. E chegou a sua vez de se divertir comigo. Pensa que eu vou te estuprar? Não. Eu já me sinto realizado pela tua cara de pânico, de cogitar a ideia de que eu te trouxe num lugar deserto pra te matar. Mas é assim... Satisfeito mesmo, eu não estou... Só vou me dar por completo quando...
-Quando o quê? Fales, infeliz!
-Pensa bem, porque é uma charada difícil, Olívia. Eu não quero transar com você à força, ainda não encostei um dedo em você... O que será que eu posso ter e você ainda não me deu? Quem sabe, uma confissão?
-Tu não me sequestraste para que eu confessasse alguma cousa. Nunca te fiz nada, Nicolas. Se for verdade, o que eu posso falar para que tu me deixes sair daqui com vida?
-Dê tempo ao tempo, gatinha. Homem não gosta de mulher ansiosa, não.
-Só que tu não és um homem. És um monstro.
-Melhor assim. Com ódio mútuo, o nosso jogo fica mais excitante ainda- Nicolas sai calmamente do galpão.
-Onde vais? Não podes deixar-me aqui sozinha! Voltes aqui, Nicolas.
-Posso, sim. Por acaso está com medo dos ratos do galpão? Fica quietinha, assim eles não mordem você- deixa o galpão definitivamente.
-Nicolas, não me deixes aqui sozinha! Tira-me daqui! Socorro! Alguém me ajuda, pelo amor de Deus! Meu Deus, tira-me daqui! Eu não quero morrer, meu Deus, não quero...
E na manhã seguinte Kleber recebe a visita de seu irmão, Hélio, na clínica em que está internado.
-Quanto tempo, hein, meu querido?
-Parece que passei uma vida inteira sem ver o teu rosto.
-O importante é que agora tudo de ruim passou. Como te sentes?
-Melhor... Quer dizer, ainda agoniado. Posso dizer-te que estou assim desde a hora em que despertei após a operação.
-O que aconteceu para tu ficares deste jeito, Kleber? Nada te tira do eixo.
-Hélio, mesmo que tu tenhas feito esforço para que eu não escutasse cousa alguma, eu ouvi aquilo que confidenciaste à Dora.
-Que parte da confidência em específico, Kleber?
-Toda ela.
-Ah, meu Deus.
-Portanto, tu vais prestar-me um favor.
-O que tu queres, meu irmão?
-Discretamente, entres em contato com o doador misterioso.