10/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 7

Montserrat deixa a universidade caminhando lentamente, e José Fernando recohece a namorada de longe.
JOSÉ FERNANDO: Montserrat? O que estás fazendo aqui?
MONTSERRAT: Eu... Eu vim procurar-te.
JOSÉ FERNANDO: Para quê?
MONTSERRAT: José Fernando, é que... Hoje nós completamente três anos de namoro.
JOSÉ FERNANDO: Hoje? Caramba!
MONTSERRAT: Tu não lembravas, não é?
JOSÉ FERNANDO: Montserrat, é que...
MONTSERRAT: Não penses que eu quero escutar tuas desculpas.
JOSÉ FERNANDO: Conheço-te bem. Sei que nada do que eu diga vai desfazer a raiva que sentes de mim agora...
MONTSERRAT: Quem tem de pedir desculpas sou eu.
JOSÉ FERNANDO: Tu? A melhor mulher que um homem poderia ter? Eu estou em dívida contigo, Montserrat. Sempre estarei.
MONTSERRAT: Insistir em nosso namoro não adianta mais, José Fernando.
JOSÉ FERNANDO: O quê?
MONTSERRAT: Eu estou cansada. Não te quero mais como meu namorado.
JOSÉ FERNANDO: Só porque eu esqueci uma data?
MONTSERRAT: Também por isso, José Fernando!
JOSÉ FERNANDO: O que é? Tem mais alguma coisa contra mim que tu tenhas e queres falar? Fales agora!
MONTSERRAT: Além do fato de todos os sábados tu não cogitares a possibilidade de ver-me para ficares dormindo?
JOSÉ FERNANDO: É o único dia em que eu sei que posso ficar na cama até mais tarde...
MONTSERRAT: Mas nunca comigo! Por isso que eu não quero mais insistir no nosso namoro.
JOSÉ FERNANDO: Não é porque eu não te dou atenção que eu deixei de te amar.
MONTSERRAT: Só que, pra mim, este namoro não é suficiente.
JOSÉ FERNANDO: Queres terminar comigo mesmo, Montserrat? Porque apesar de te amar, não vou implorar para que voltemos.
MONTSERRAT: Isto é inútil, José Fernando. Já não me interessa mais ser tua namorada. Para mim, nossa relação só voltaria a ter sentido quando eu for tua mulher.
JOSÉ FERNANDO: Que queres dizer-me?
MONTSERRAT: José Fernando, tu aceitas casar-te comigo?
JOSÉ FERNANDO: Sim, eu quero ser teu pra sempre. Quero dizer... Teu eu já sou. Mas tem uma coisa...
MONTSERRAT: Fales, meu amor.

JOSÉ FERNANDO: Nós somos podemos casar depois que eu apresentar minha monografia.

09/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 6

Sabrina entra no auditório acompanhada de Montserrat e fica apavorada.
SABRINA: Por que as luzes estão apagadas?
MONTSERRAT: Certamente não querem que ninguém saiba o que está acontecendo aqui.
SABRINA: Quem são aquelas pessoas que estão cobrindo-se com um capuz?
MONTSERRAT: São José Fernando e Alejandra. Mas vejo outras duas pessoas também.
SABRINA: Amiga, será que este é um culto dedicado às forças ocultas?
MONTSERRAT: Não sei, mas se ele tocar naquela mulher, a única que ele verá é a força do meu braço na sua cara!
SABRINA: O melhor a fazer é nos disfarçarmos também.
MONTSERRAT: Tens razão, Sabrina. Não estou gostando nada, nem do que estou vendo, nem do que estou imaginando.
SABRINA: Umbadabada, badabá, badaué! Undegundê, degundê, degundê...
MONTSERRAT: Mas o que pensas que estás fazendo, Sabrina?
SABRINA: Falando coisas incompreensíveis. Não é isto que sempre fazem nessas ocasiões?
MONTSERRAT: Querida, tu estás completamente louca. Isto é um meme brasileiro.
SABRINA: E desde quando memes são compreensíveis?
MONTSERRAT: Tenho uma ideia melhor: nós sentamos e esperamos José Fernando cair em desgraça para eu trucidá-lo.
SABRINA: E se nos perguntarem alguma coisa a respeito do que estamos fazendo aqui?
MONTSERRAT: Concordamos com tudo. Exceto se disserem que dois mil e dezoito só tem ótimos candidatos à presidência.
SEBASTIÁN: Silêncio! Os novos integrantes são bem-vindos e podem sentar-se, mas só falarão quando a nossa seita permitir.
MONTSERRAT: Seita?
SEBASTIÁN: A seita que dói menos! Este espaço é para todos que sofrem deste grave problema e não sabem como liquidá-lo.
MONTSERRAT: De que problema ele está falando?
SEBASTIÁN: Da universidade!
MONTSERRAT: O homem escuta tudo, melhor nós não sussurrarmos.
SABRINA: Melhor mesmo.
SEBASTIÁN: Correligionários, vamos começar a compartilhar nossos problemas acadêmicos com nossos amigos. Antes de mais nada, eu quero contar uma vitória pessoal: eu estou há dois dias, cinco horas, vinte minutos e quarenta e sete segundos acessando o Sistema de Irritação Garantida, o Siga. E sem problemas no servidor.
Todos aplaudem.
SEBASTIÁN: Quem gostaria de falar?
ALEJANDRA: Eu. Eu quero dar meu depoimento, Mestre Sebastián.
SABRINA: A tarada!
MONTSERRAT: Calada, Sabrina!
ALEJANDRA: Minha confissão é muito difícil de ser feita, mas é necessária. Eu sinto muitos calores.
MONTSERRAT: Percebe-se.
ALEJANDRA: Há anos, o prédio do meu curso comprou dois condicionadores de ar. Mas o governo não concedeu a licitação para a instalação do equipamento. Derretemos dentro daquela sala, Mestre. Já vi pessoas desmaiarem duas vezes na faculdade: a primeira na fila do Restaurante Universitário e a segunda na minha sala. A vontade que eu tenho é de assistir à aula nua! Mas minha graduação está no fim, e eu tenho medo de ser jubilada por atentado ao pudor. Por causa disso, eu não pude tirar a roupa durante os protestos no impeachment.
SEBASTIÁN: Não digas. Queres dizer que apoiaste a entrada de Michel Temer na presidência da república?
ALEJANDRA O impeachment do reitor, não é, meu filho?
SEBASTIÁN: Comoventes tuas palavras. Próximo frustrado!
PABLO: Eu quero falar. Na verdade, eu fui obrigado a falar anteriormente.
SEBASTIÁN: Fiques à vontade. Não como a tua colega gostaria de ficar, mas podes.
PABLO: Desde que eu comecei o segundo período, eu passei a ser usuário de um entorpecente perigoso.
SEBASTIÁN: Qual entorpecente, correligionário?
PABLO: Café.
SEBASTIÁN: Mas café não é droga, rapaz!
PABLO: Por ingestão venosa, é! Certa vez, o ônibus em que eu estava foi parado por uma blitz, e os policiais revistaram apenas os homens.
SEBASTIÁN: Algo foi encontrado em tua mochila, Pablo?
PABLO: Um pacote de Melita! Muito suspeito!
SEBASTIÁN: Tu estás exagerando em teu desespero...
PABLO: Eu? Não é você que tem que ficar acordado vinte e quatro horas por dia. A minha vida social acabou antes mesmo de existir! A última vez em que eu fui flagrado em público, estava cantando “Gaivota”.
SEBASTIÁN: Por que isto?
SABRINA: É o tema de abertura de “Café com aroma de mulher”. Eu vi a novela!
PABLO: Também tive que vender meu apartamento. Com o dinheiro, paguei as multas que a biblioteca me cobrava.
SEBASTIÁN: Agora me veio à memória: tu disseste que estava num ônibus e ela foi parado numa blitz. Mas não dirigias um carro?
PABLO: Dei fim a ele. Vendi para pagar as fotocópias das quais ainda precisarei até o final do curso. Eu tenho um professor que pediu-me para ler cem páginas do seu livro para a prova. Coloquei fita isolante nos olhos para mantê-los abertos... Porque sou malandro!
SEBASTIÁN: Queres desabafar com o grupo aqui presente, José Fernando?
JOSÉ FERNANDO: Sim, Mestre. Possuo uma espécie de fetiche acadêmico.
SEBASTIÁN: Mas o que estás dizendo?
JOSÉ FERNANDO: Quando eu volto para casa e deito-me na cama, não consigo dormir.
SEBASTIÁN: Sim, e o que tu fazes?
JOSÉ FERNANDO: Ponho “Sábado”, de José Augusto, para tocar até que eu durma.
SABRINA: Ah! Eu estou passada, chocada!
SEBASTIÁN: Desde quando este comportamento tem a ver com a universidade?

JOSÉ FERNANDO: Todas as vezes que eu a ouço, lembro-me de que sábado é o único dia em que posso dormir até mais tarde e não preciso preocupar-me com as aulas. Não tenho mais tempo para mim, para minha namorada, para nada. Porque quando chega o domingo, e eu recordo que o dia seguinte será dentro do Barro/ Macaxeira (Várzea), que o professor fará uma chamada durante duas horas...  Outro dia ele me perguntou se eu sabia quanto era a raiz quadrada de 1. Quando eu respondi que era 1, ele falou que era para eu desenvolver a resposta! Como, Mestre? A impressão que eu tenho é de que o mundo caminhou e eu congelei dentro de uma sala de aula. Sem contar na especialização, no mestrado e no doutorado!  As pessoas assinam seus nomes na ata e correm para o bar. Já eu... Corro para o manicômio! Isto é vida que se leve, Mestre? Isto é vida?

08/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 5

Alejandra e José Fernando chegam à porta do auditório, sendo seguidos por Montserrat e Sabrina.
MONTSERRAT: Não tenho certeza de que quero prosseguir com este plano.
SABRINA: Vais desistir agora, Montserrat?
MONTSERRAT: É melhor nós irmos embora, Sabrina. Até agora não tivemos nenhuma evidência de que José Fernando tem um caso com Alejandra.
SABRINA: Viste a roupa que ela está usando?
MONTSERRAT: O que tem ela?
SABRINA: A estampa de um panda.
MONTSERRAT: Qual é o problema? É um animal conhecido por ser extremamente carinhoso.
SABRINA: Mas transam trinta e duas vezes por dia. Isto deve significar alguma coisa.
MONTSERRAT: Sabrina, não delires. José Fernando é um homem alheio aos prazeres da carne, não vai me trocar por uma atleta sexual como Alejandra. Ele não seria capaz...
ALTO-FALANTE: A senha?
Alejandra abaixa-se até a fechadura da porta e fala alguma coisa, empinando os glúteos diante de José Fernando e chocando Sabrina e Montserrat. Na sequência, ela entra no auditório.
MONTSERRAT: Darei na cara desta mamífera tarada!
SABRINA: Chega, Montserrat! Queres que eles descubram que estamos aqui?
José Fernando repete o mesmo gesto de Alejandra e segue a ex-namorada.
SABRINA: Que estranho... Por que ele não entrou imediatamente?
MONTSERRAT: É isto que nós vamos descobrir agora! Trancaram a porta por dentro!
ALTO-FALANTE: A senha?
MONTSERRAT: Senha? Para entrar neste motel acadêmico? Abras esta porta agora!
ALTO-FALANTE: Entrada não autorizada!
MONTSERRAT: José Fernando, ou tu abres esta porta agora ou eu não respondo por mim!
ALTO-FALANTE: Entrada não autorizada!
MONTSERRAT: Pensas que eu não vi tu olhares para o derrière daquela compulsiva sexual?
SABRINA: Misturou espanhol com francês agora, está completamente louca...
ALTO-FALANTE: Entrada não autorizada!
MONTSERRAT: O que foi? Tens medo de encarar tua namorada agora, safado?
ALTO-FALANTE: Entrada não autorizada!
MONTSERRAT: Eu sei muito bem o que está entrando aí!
ALTO-FALANTE: Entrada não autorizada!
MONTSERRAT: Para ser corna também não estou autorizada! Abras essa porta, José Fernando!
SABRINA: Já basta, Montserrat!
MONTSERRAT: Deixa-me matar este desgraçado, Sabrina!
SABRINA: Amiga, eu sei que é difícil este momento, mas o mal já está feito: José Fernando é um safado que te trocou pela ex. Montserrat, tentes controlar-te! Aceites, que dói menos.
ALTO-FALANTE: Senha correta!
MONTSERRAT: “Aceites, que dói menos”?
ALTO-FALANTE: Senha correta!

MONTSERRAT: Agora ele vai conhecer a verdadeira Montserrat!

07/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 4

Pablo passa apressadamente pelos corredores da universidade, quando Sebastián o aborda vestindo um casaco preto com capuz.
SEBASTIÁN: Pablo? Aonde tu pensas que vais?
PABLO: Não sabia que estavas aqui, Sebastián.
SEBASTIÁN: É comum que me encontres aqui. Estudamos no mesmo lugar. Por que tanta pressa?
PABLO: É que...
SEBASTIÁN: Espero que não tenhas esquecido-se da reunião que marcamos para daqui a pouco.
PABLO: Sebastián, eu pensei melhor sobre este assunto.
SEBASTIÁN: Por acaso, existe algo a se pensar, Pablo? O que temes? Que todos saibam de teu problema?
PABLO: Não me sinto à vontade para falar sobre isto com ninguém.
SEBASTIÁN: Deste tua palavra.
PABLO: Por favor, eu não quero ir.
SEBASTIÁN: Estavas fugindo, não é verdade?
PABLO: Eu sei muito bem o que te falei.
SEBASTIÁN: Pablo... Todos estão esperando-te. Não pode simplesmente desistir sem dar-nos nenhum tipo de explicação.
PABLO: E achas que existe explicação para o absurdo desta situação?
SEBASTIÁN: Absurdo por quê?
PABLO: A ideia de fazer com que todos revelassem os próprios segredos foi tua
SEBASTIÁN: Queremos ajudar-te. Não entendes que perdeste o controle?
PABLO: E quem falou que eu perdi? Hein? Tu? Ou será que é isto que queres fazer-me pensar? Não duvido nada de que tu estás manipulando a mente de todos para que eles façam o que tu quiseres. Mas eu não vou compactuar com isto, ouviste? Não vou compactuar!- recebe uma bofetada de Sebastián.
SEBASTIÁN: Baixes o tom para falar comigo! O que pretendes, Pablo? Servires de motivo de chacota para tua família, por causa do teu fracasso? Será que podes ouvir os risos das pessoas que contemplam o teu fracasso? Que apontam o dedo na rua e dizem “olhem o fracassado do ensino superior”, “vejam o homem que não consegue acessar a conta do Siga”, “sabem quem é aquele? O frustrado do Barro/ Macaxeira (Várzea)!”. É isto que queres? Então, pares com este ataque de pânico e entres naquele auditório! Agora!
PABLO: Está bem, Sebastián. Vou para lá. Tomara que eu não me arrependa.

SEBASTIÁN: Só mais uma coisa: não te esqueças da senha. Estamos te esperando.

06/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 3

SABRINA: Tens certeza de que este é o pátio no qual José Fernando está? Há muitos centros dentro da universidade, ele pode estar em qualquer um...
MONTSERRAT: Mas é neste que o imbecil de meu namorado estuda.
SABRINA: Não é ele bem ali?
MONTSERRAT: Sim, é ele.
SABRINA: Mas ele está sozinho.
MONTSERRAT: Verdade. Será que eu entendi errado aquela mensagem que eu li?
Alejandra chega e fica de frente para José Fernando, sorridente.
SABRINA: Muito pelo contrário.
MONTSERRAT: Dupla de canalhas...
SABRINA: Calma, Montserrat. Tu deves agir com sangue frio.
MONTSERRAT: Mas eu tenho que acabar com esses dois desgraçados!
SABRINA: Procures usar a razão. Tu não és mulher para se rebaixar e fazer um escândalo na frente de todos. Por sorte, José Fernando não é meu namorado, porque se ele fosse... Ah, se ele fosse...
ALEJANDRA: Até que enfim tu arrumaste um tempo para nós dois, queridinho.
SABRINA: Aproveites o tempo livre e marques uma consulta com um cirurgião plástico renomado, porque eu acabarei com o rosto de vocês!
JOSÉ FERNANDO: Meu amor?
SABRINA: Não esperavas que eu fosse seguir-te, José Fernando?
JOSÉ FERNANDO: Por favor, para tudo tem uma explicação...
SABRINA: Contigo eu falo depois. Agora, a minha conversa é com esta aí. Tu não tens vergonha de assediar um homem comprometido, não?
ALEJANDRA: Teria se ele conseguisse lembrar-se disso. Mas, se ele veio procurar-me, é porque tu não consegues ser mulher suficiente para ele.
SABRINA: Tu tens inveja! Inveja do fato de eu conseguir fazer José Fernando feliz, enquanto ele viveu um verdadeiro inferno quando era teu namorado.
ALEJANDRA: Tu o fazes tão feliz que ele veio procurar consolo nos meus braços. Muito competente você, não?
SABRINA: Cala tua boca!
JOSÉ FERNANDO: Amor, vamos embora daqui! Estão todos olhando!
SABRINA: Vou sair daqui, sim. Mas só depois de acabar com a raça desta...
ALEJANDRA: Muito cuidado com tuas palavras, porque eu não sou do teu nível!
SABRINA: E qual é o teu nível, cachorra? O Pré-sal?
JOSÉ FERNANDO: Alejandra, pares de provocá-la. Não vês que estás piorando a situação?
ALEJANDRA: Que culpa eu tenho se esta mosca morta não sabe segurar um homem?
SABRINA: Eu vou te mostrar quem é a mosca morta, infeliz!- Sabrina bate no rosto de Alejandra, que põe a mão sobre a face.
ALEJANDRA: Nunca mais ponhas tuas mãos sobre mim, maldita!- Alejandra devolve a bofetada e Sabrina vira o rosto em câmera lenta, ficando ainda mais irritada e partindo pra cima da rival aos gritos. José Fernando tenta apartar a briga.
MONTSERRAT: Sabrina? Sabrina, acordes!
SABRINA: Desculpa-me, foi um momento de empatia. Coloquei-me em teu lugar.
MONTSERRAT: Acho que tu tens razão. Devo agir com discrição absoluta. Depois eu mato José Fernando.
SABRINA: Será que dá para escutar alguma coisa que eles conversam?
MONTSERRAT: Não sei. Vamos tentar.
ALEJANDRA: Quando conversamos pela última vez, percebi que tu estavas hesitante...
JOSÉ FERNANDO: Pois é.
SABRINA: Tu ouviste? Ela falou “excitante”! Safada!
MONTSERRAT: Esperes, vamos ver se escutamos mais alguma coisa.
JOSÉ FERNANDO: Confesso que acho isso errado. Montserrat deveria saber o que está acontecendo.
ALEJANDRA: Para quê, José Fernando? Só eu posso ajudar-te, proporcionar-te esta experiência única. Montserrat jamais te compreenderia. Tudo deve ser mantido em segredo. Agora vamos.
JOSÉ FERNANDO: Vamos? Aonde, Alejandra?
ALEJANDRA: Ao lugar de sempre, queridinho. Onde nós conseguimos aliviar as nossas tensões. Tu deverias estar acostumado.
SABRINA: O que faremos agora, Montserrat?
MONTSERRAT: Nós vamos seguir os dois. À distância, para que eles não nos percebam. Quero ver que explicação ele me dará quando eu pegá-lo em flagrante.
SABRINA: Esta história está muito excitante!
MONTSERRAT: Tu queres dizer “hesitante”, não?

SABRINA: Não.

05/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 2

Na fila do ônibus, José Fernando pensa que está indo para a faculdade sozinho, mas Montserrat está lhe seguindo.
MONTSERRAT: Três anos. Três anos dando o melhor de mim, sendo carinhosa, fazendo dívidas no cartão de crédito para agradar a este homem... E ele me fazendo passar esta vergonha no débito... – passa a pensar em voz alta- Como eu fui burra!
SABRINA: Não faças propaganda, amiga.
MONTSERRAT: Sabrina? O que estás fazendo aqui?
SABRINA: Tomar o ônibus. Tenho que descer na Ceasa e comprar uma cabeça de peru para fazer a sopa. E tu?
MONTSERRAT: Estou seguindo José Fernando.
SABRINA: No Instagram?
MONTSERRAT: Não! Li uma mensagem na qual ele marcou um encontro com Alejandra.
SABRINA: Deve ser uma colega de faculdade...
MONTSERRAT: É a sua ex.
SABRINA: A quem estou tentando enganar, não é mesmo? Mas o que tu vais fazer?
MONTSERRAT: Não sei. Mas quero conferir com meus próprios olhos. Por isso, eu estou seguindo José Fernando. Pelo que estou vendo desta fila, não vou conseguir entrar no mesmo ônibus que ele.
SABRINA: Tudo é uma questão de estatística, Montserrat.
MONTSERRAT: Como assim?
SABRINA: Estás vendo teu namorado daqui?
MONTSERRAT: Sim, é o primeiro da fila.
SABRINA: Ótimo. É só tu esperares José Fernando entrar e depois invadir o ônibus.
MONTSERRAT: Além de tudo, eu ainda vou ficar em pé?
SABRINA: Montserrat, aprendas comigo: transporte público comprova que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, mas duzentos cabem. Corpo de pobre é maleável, por isto que usamos tantas roupas da grife SM.
MONTSERRAT: SM?
SABRINA: Segunda Mão.
MONTSERRAT: E se ele me vir?
SABRINA: Ninguém é capaz de se reconhecer no ônibus. A vida de alguém abaixo da linha de pobreza não é um videoclipe. Eu vou contigo.
MONTSERRAT: Mas... E tuas compras?

SABRINA: Podem esperar. Estarei lá para dar-te apoio moral. O financeiro eu não dou porque teu nome está sujo na praça.

04/03/2018

SOBREVIDA/ CENA 1

José Fernando arruma alguns papeis na pasta que tem que levar para a faculdade quando chega uma mensagem ao seu celular, que está num criado-mudo longe do estudante. O rapaz se levanta da cadeira para ler o texto, em silêncio, sendo surpreendido pela chegada de sua namorada, Montserrat.
MONTSERRAT: Meu amor?
JOSÉ FERNANDO: Montserrat? Que surpresa! Não imaginei que tu vinhas me ver.
MONTSERRAT: Decidi de última hora. Sabia que tu terias que ir para a faculdade e passei aqui - beija o rapaz - Aconteceu alguma coisa, José Fernando?
JOSÉ FERNANDO: Comigo? - afasta-se da moça- Por que estás me perguntando isso?
MONTSERRAT: Sinto-te distante. Como se estivesses preocupado com algo.
JOSÉ FERNANDO: Só na Tua cabeça.
MONTSERRAT: Não. Sinto que tu queres desabafar comigo e não tens coragem. Só não sei sobre o quê.
JOSÉ FERNANDO: Montserrat, acha que tenho segredos contigo?
MONTSERRAT: Me diz você.
JOSÉ FERNANDO: Eu... Tenho uma prova hoje. Estou tenso, preocupado...
MONTSERRAT: Prova de quê?
JOSÉ FERNANDO: De... De... Cálculo.
MONTSERRAT: Teu curso é de humanas, José Fernando.
JOSÉ FERNANDO: Licenciatura, meu amor. Como vamos dar notas aos alunos se não soubermos calcular? Bem, me deixes ir, que eu quero chegar antes do exame para estudar mais um pouquinho.
MONTSERRAT: O que tu planejaste para esta noite?
JOSÉ FERNANDO: Dormir feito um condenado - beija a namorada - Feches a porta quando sair.
MONTSERRAT: Não acredito. José Fernando se esqueceu do nosso aniversário de namoro. Filho da mãe! - Montserrat percebe que o namorado esqueceu o celular no criado-mudo - Meu bem, tu deixaste o teu celular no quarto... - Montserrat olha para os dois lados e verifica o aparelho - O que é isto? Mensagem de Alejandra?
ALEJANDRA: Estou te aguardando no pátio da faculdade. Vê se não se atrasa para o nosso encontro secreto. Beijos.
A câmera se aproxima de Montserrat, irritada com o texto.

10/02/2018

GATA FATAL/ CENA 7

Usando um macacão vermelho, Caroline deixa o manicômio judiciário, e se depara com Luiz Carlos esperando por ela dentro de seu carro.
(Fundo musical: “Você vai ver”- “eu vou ficar guardado no seu coração, na noite fria, solidão/ saudade vai chamar teu nome”)
CAROLINE: Esse homem, não. O que é que você tá fazendo aqui?
LUIZ CARLOS: Não imaginei que viesse uma legião de fãs pra te esperar sair do manicômio judiciário, então despistei a imprensa pra vir te buscar. Entra. Mas você tá linda, hein?
CAROLINE: O look de um dia comum.
LUIZ CARLOS: Imagina o que você deve usar quando a ocasião é de gala.
CAROLINE: Dependendo da ocasião, nada. Mas me conta uma coisa: como é que você fez pra enganar os repórteres?
LUIZ CARLOS: Disse que a situação que você viveu te abalou profundamente e que vamos marcar uma coletiva de imprensa pra contar o que aconteceu quando você se sentisse devidamente preparada.
CAROLINE: Arrasou! Agora vamos pra casa. Eu quero colocar uma roupa preta e fazer uma visita.
LUIZ CARLOS: Pra quem, Caroline?
CAROLINE: Pra minha querida Thaís. Acho que eu merecia me despedir dela com mais dignidade.
LUIZ CARLOS: Caroline, você enfrentou um processo por causa dela. Não é possível que você seja tão sádica a ponto de...
CAROLINE: Fomos amigas, Luiz Carlos. Muito difícil ter que me despedir dela, mas é necessário.
LUIZ CARLOS: Então, vai ter que fazer isso longe do cemitério.
CAROLINE: Quer dizer o quê?
LUIZ CARLOS: A Thaís não morreu.
CAROLINE: Não?
LUIZ CARLOS: Se a gente puder chamar isso de sequela, o único problema que ela teve decorrente daquela queda de escada que você provocou foi uma unha do pé quebrada.
CAROLINE: Mesmo? Ah, então, me dá o endereço de onde aquela garota tá, que eu vou terminar aquilo que eu comecei!
LUIZ CARLOS: Você não vai chegar nem perto dela.
CAROLINE: Mas ela comeu a minha lasanha, não pode ficar assim!
LUIZ CARLOS: Caroline, escuta! Eu falei com o advogado que eu contratei pra você e descobri que a justiça só te liberou de maneira condicional, já que o laudo da psiquiatra foi inconclusivo.
CAROLINE: Também, né? Aquela louca...
LUIZ CARLOS: E isso também implica em alguns planos traçados pra você antes do incidente. Como a sua viagem pra Paris.
CAROLINE: O que tem ela? Tá de pé ainda, não tá?
LUIZ CARLOS: Enquanto você for processada, nem sonhe. Mas os editores da revista não abriram mão de você e resolveram fazer o ensaio assim mesmo. Só que a gente vai ter que improvisar.
CAROLINE: Já sei: vou posar num estúdio em chroma key, e o cenário de Paris vai ser reproduzido em computação gráfica, né?
LUIZ CARLOS: Um ponto turístico novo: Lixão da Muribeca.
CAROLINE: Mas o cachê continua o mesmo?
LUIZ CARLOS: Tanto ele quanto eu. Não vou te largar.
CAROLINE: Fazer o quê, né?
LUIZ CARLOS: O mesmo te pergunto eu: fazer o quê se você gosta de ser uma incógnita? Se nem a psiquiatra conseguiu, quem sou eu?
CAROLINE: Psicopata, sociopata, doida, escalafobética... A ciência não conseguiu me definir ainda. E o pior é que eu gosto. Agora, sai do volante e deixa que eu dirijo.
LUIZ CARLOS: E eu posso saber aonde você vai me levar?
CAROLINE: À loucura! (Fundo musical: “Riscos do amor”- “a gata agora alisa, arranha o sofá, afia as unhas pra atacar”) Quer ir?
LUIZ CARLOS: A ciência não conseguiu descobrir, mas você sabe muito bem. Quem é você de verdade?
CAROLINE: Sinceramente?
LUIZ CARLOS: Claro.
CAROLINE: Eu gosto de tomar conta do coração dos outros com a sutileza de um furacão, atacar o amor com o sangue frio de um torturador, chegar perto do seu corpo acariciando um punhal, entre outras coisas. E se eu demorei a me envolver com você foi porque, mesmo com a boca seca num deserto sem fim, achei que você era só miragem pra mim.
LUIZ CARLOS: Verdade?
CAROLINE: Não. É tudo uma música da Rita Lee e do Roberto de Carvalho.
LUIZ CARLOS: Caroline, você percebeu?
CAROLINE: O quê?
LUIZ CARLOS: Desde que o filme começou, as nossas falas estavam sendo legendadas.
CAROLINE: É, eu reparei. Não sei pra quê, a gente não tava falando em outra língua mesmo, pelo menos não o tempo todo.
LUIZ CARLOS: Que estranho! O que foi que aconteceu com o cara das legendas?
CAROLINE: (mostra uma adaga ensanguentada) Não fui com a cara dele.

(Fundo musical: “Perigosa”- “reveja a beleza, o olhar e o coração/ legítimo caso de amor, uma paixão (...) Elegância e ação, secreta ambição. Perigosa, perigosa! Custe o preço que custar, nada a fará resistir! Perigosa, perigosa! Custe o preço que custar, nada a fará resistir!”)

09/02/2018

GATA FATAL/ CENA 6

MARY: E quem chamou a polícia pra você?
CAROLINE: Não sei. Deve ter sido algum vizinho desocupado que ouviu os gritos dela.
MARY: Bem, eu... Acho que cheguei a uma conclusão sobre o seu caso.
CAROLINE: É nada! O que foi que descobriu, Doutora?
MARY: Você é de uma extrema frieza e é calculista, observa seu adversário centímetro por centímetro, procurando algum deslize pra ser utilizado a seu favor. Mas é importante deixar claro que você não deixa a casa cair sozinha. Muito pelo contrário: a destrói por completo pra ninguém ter direito a nada.
CAROLINE: Realmente, cada almoço que você pagou no restaurante universitário valeu a pena. Que teoria fascinante! E a que conclusão você chegou?
MARY: Caroline, ao que me consta, você apresenta um quadro de transtorno de personalidade antissocial.
CAROLINE: Traduzindo...
MARY: Uma psicopata.
CAROLINE: A senhora tá enganada, pode ter certeza.
MARY: Não, nem gaste o seu latim comigo, Caroline. Eu não costumo me enganar, ainda mais com um caso feito o seu.
CAROLINE: Quer dizer que a senhora realmente pensa que eu...
MARY: Eu não penso. Eu sei. Qualquer psiquiatra pode comprovar o que eu estou dizendo a seu respeito.
CAROLINE: (olha para a mão esquerda de Mary, vendo a aliança que a médica usa) Inclusive seu marido?
MARY: Sei o que está tentando fazer: me manipular para que eu demonstre ter me equivocado na concepção do laudo que eu vou entregar à justiça, mas sua estratégia não vai dar certo. Meu marido, pra começar, nem trabalha nessa área.
CAROLINE: Eu não disse que trabalhava. Insinuei que a senhora tava certa quando disse que qualquer psiquiatra pode confirmar o que a senhora pensa sobre mim, mas seu marido não.
MARY: Por acaso você conhece o meu marido?
CAROLINE: A fundo.
MARY: Seu desespero é tanto que está tentando me desestabilizar.
CAROLINE: A paciente aqui sou eu, não se esqueça.
MARY: Você acha que o meu marido iria olhar pra um tipinho insignificante feito você, que não sabe o que é lavar o cabelo e se sente no direito de se considerar “rústica”? Pensa mesmo que o meu marido vai trocar uma mulher que sabe tudo de Freud e Valon por você?
CAROLINE: Sabe porque quer! As teorias de Valon são exigidas na psicologia. Se você conheceu as ideias dele na psiquiatria, foi porque é enxerida.
MARY: “Ideias dele”... SUAS IDEIAS! Suas! Esperar o quê de uma paciente que sequer sabe usar corretamente a colocação pronominal?
CAROLINE: Já ouviu falar em variação linguística, meu bem?
MARY: Já. O suficiente pra saber que meu marido não é tão tolo a ponto de trocar uma mulher como eu por outra que não sabe nem falar português direito.
CAROLINE: Mas usa o inglês que é uma maravilha. A orelha dele é testemunha da minha fluência quando estamos a sós... “teach me, tiger, how to kiss you” (começa a ronronar como na canção)...
MARY: Quer dizer que era por isso que ele vivia colecionando discos internacionais dos anos sessenta? Por influência sua?
CAROLINE: Confesso que tenho um único defeito, Doutora: apesar de falar em diversos idiomas, eu não sei dizer “não” em nenhum deles.
MARY: Então, pode começar a gritar “help”, porque eu vou te matar, desgraçada! (avança contra Caroline)
CAROLINE: Socorro! A mulher tá doida! (aparecem dois enfermeiros para levar Mary carregada pelos braços)
MARY: Me deixem acabar com a raça dessa cretina, me soltem!
CAROLINE: Próclise numa hora dessas? A senhora me decepcionou...
MARY: Eu vou me vingar de você! De você e daquele cafajeste! Vou fazer ele agonizar, eu te juro!
CAROLINE: Leva ela daqui, tá completamente descompensada!
MARY: Aguarde por notícias minhas, Caroline! Porque eu não vou ter piedade!
CAROLINE: Quem tem Piedade é Jaboatão! Tirem essa louca daqui!
MARY: Me larguem, estúpidos! Me soltem! Você vai me pagar, Caroline! Eu juro que você vai me pagar! (os enfermeiros conseguem tirar a psiquiatra do consultório)

CAROLINE: Que coisa horrorosa! (finge fragilidade) Eu só olhei a aliança, viu que ela era casada e comentei... Quem será o marido dela? Coitado desse cidadão, seja ele quem for!

08/02/2018

GATA FATAL/ CENA 5

Thaís está enrolada sob as cobertas da sua cama e acaba se assustando com a presença de Caroline, vestida com um macacão preto e com os cabelos amarrados por uma “presilha” vermelha e prata.
THAÍS: Que susto! Quanto tempo faz que você tá aí?
CAROLINE: O suficiente, meu bem.
THAÍS: Menina, mas que roupa é essa, hein? Vestida pra matar!
CAROLINE: Acertou em cheio.
THAÍS: Algum encontro em especial?
CAROLINE: Pra mim, não. É o seu com a morte.
THAÍS: Como assim? O que você quer dizer?
CAROLINE: Você não sente nenhum remorso de ter traído minha amizade dessa forma, não, Thaís?
THAÍS: Mas o que foi que eu fiz?
CAROLINE: Aproveita que eu tô de ótimo humor e para de me testar. Quem sabe assim eu não te deixe viva por mais tempo?
THAÍS: Caroline, o que é que te deu? Por que é que você acha que eu...
CAROLINE: Cala a boca!
O cenário se alterna com Luiz Carlos na varanda da agência, chorando ao pensar em Caroline.
(Fundo musical: “Deus me livre”- “te amo, mas vivo a fugir desse amor/ não dá pra ficar cara a cara”)
THAÍS: Por que você resolveu ficar agressiva comigo desse jeito?
CAROLINE: E ainda pergunta?
THAÍS: Mas o que foi que eu te fiz?
CAROLINE: Naquele dia, na praia, eu te falei que eu cobro quem tentar tirar o que me pertence. E você me ignorou mais do que áudio do WhatsApp!
THAÍS: Caroline, você bebeu?
CAROLINE: Uísque, e um pouco de sorvete pra me dar coragem de acabar com você, traíra!
THAÍS: Isso tudo por quê? Porque eu comi a lasanha que você fez?
CAROLINE: Isso! Admite, Thaís! Pelo menos vai pro além com um restinho de dignidade!
THAÍS: Você sabe que eu sou louca por lasanha!
CAROLINE: Você é louca por qualquer coisa que seja comestível! Mas daí a tocar na travessa que eu recheei é demais!
THAÍS: Realmente, você quer que eu acredite que você ia comer tudo sozinha?
CAROLINE: Ia! Mas a questão não é essa, é que eu não posso confiar mais em você! E o que você fez contra mim não vai ficar impune...
THAÍS: Ah, para de palhaçada, Caroline! (levanta da cama) Na certa, você deixou aquela lasanha pronta e não comeu imediatamente porque deve ter tido mais um encontro com Luiz Carlos. Quem sabe o que foi que...
CAROLINE: Pode parar! Pra você não interessa o que possivelmente aconteceu entre mim e ele. Isso não é justificativa pro que você fez.
THAÍS: Do jeito que você fala, parece até que eu cometi um crime.
CAROLINE: Trair a minha confiança é inafiançável!
THAÍS: Vai me punir por isso, amiga? Por causa de uma lasanha?
CAROLINE: Pode apostar que vou!
THAÍS: Então, me fala: como é que você vai se vingar de mim? Por acaso vai pegar uma faca pra me matar?
CAROLINE: Lógico que não. (Caroline desamarra os cabelos e revela a “presilha” que segurava seus fios, apontando-a para Thaís) Prefiro adagas.
THAÍS: Abaixa isso, Caroline.
CAROLINE: Me dá um bom motivo.
THAÍS: Nós somos praticamente amigas de infância, esqueceu?
CAROLINE: Eu te pedi um bom motivo.
THAÍS: Pensa na tua carreira, que tá só começando. Você não vai querer jogar tua trajetória no lixo por minha causa!
CAROLINE: Será que não vou?
THAÍS: Já te pedi; abaixa essa adaga, Caroline!
CAROLINE: Se eu não usar a adaga, você vai acabar voando pela janela desse andar, que é o último. Qual é o menos doloroso pra você?
THAÍS: Quer parar de se comportar feito uma psicopata?
CAROLINE: Não, eu não vou rasgar sua cara com frieza. É com requintes de crueldade mesmo. Me chama de sociopata, que é mais apropriado pra ocasião.
THAÍS: Tá ficando doida?
CAROLINE: Bom, aí já entramos em outra patologia, minha querida.
THAÍS: Socorro! Alguém me ajuda, tem uma doida no meu quarto tentando me matar!
CAROLINE: Gritando pra quê? Pra aumentar mais o meu ódio e eu te mandar pro inferno sem escalas? Sabe que teve uma vez que eu quase matei uma amiga minha chamada Fernanda porque ela tava gritando do meu lado? Odiar de graça é bom, mas quando alguém dá motivo é fascinante.
THAÍS: Típico comportamento de uma pessoa de aquário...
CAROLINE: Fala do meu signo de novo que você vai fazer meu mapa astral do além!
THAÍS: Ah, vá! Quem me garante que você ficou doida de vez e que vai me matar? Quem tem a raiva que você supostamente tá sentindo não fica alardeando que vai matar. Mata e ponto! Você não mata nem a barata da vizinha que tá na minha cama!
CAROLINE: Boa ideia. Chega de perder tempo! (avança contra Thaís)
THAÍS: Socorro! (Thaís joga o abajur do quarto contra Caroline antes de fugir do apartamento, mas a modelo novata desvia e corre atrás da veterana. Thaís aperta várias vezes o botão do elevador até que a nova rival chegue para atacá-la com a adaga, sendo segurada pela antiga funcionária da Bacurinha’s Vintage)
CAROLINE: Aonde é que você pensa que vai?
THAÍS: Me solta, Caroline! Eu vou chamar a polícia! (Thaís se aproxima da escada de emergência)
CAROLINE: Esse filme não tem nem figurante, quanto mais policial!
THAÍS: Comi! Comi sua lasanha, sim, e daí? Vai me jogar daqui de cima, sua louca?
CAROLINE: E não é isso que você merece?
THAÍS: Caroline, me larga! (Thaís empurra Caroline para o chão, mas ela acaba se desequilibrando e rolando a escadaria do prédio aos gritos)
(Fundo musical: “Skyline pigeon”- “fly away! Skyline pigeon, fly! Toward the dreams you’ve left so very far behind”)
Neste momento, aparece Luiz Carlos jogado ao chão da agência enquanto aparece a legenda dos versos, em paralelo com a queda de Thaís.
(legenda: “voe longe! Pombo do horizonte, voe! Em direção aos sonhos que há muito tempo deixou pra trás”)
A cena volta para o prédio no qual as modelos moram. Caroline inclina a cabeça longe de onde está Thaís para ver se a moça está desacordada.

CAROLINE: Que frustração... Caiu feito uma jaca podre sozinha, sem a minha ajuda. Fazer o quê? Cada um saboreia o que pode. Você, a minha lasanha. E eu, a minha doce vingança. (começa a rir ao lado de uma das janelas do corredor quando, repentinamente, luzes de carros policiais indicam que cercaram) Por que eles sempre aparecem quando ninguém chama, hein?